Zerstören
4 Capítulo 4 - Chuva
Notas iniciais
Capítulo 4 – Chuva
[Terça-feira, 30 de setembro de 1980, 18h32]
A partir do momento em que James recebera aquela notícia de Sirius, seus pensamentos foram tomados por uma sequência infinita de perguntas. Ele ficou incapaz de pensar racionalmente por muito tempo. Saíra o mais rápido possível do Hospital St. Mungus e passara os dois dias seguintes aparatando de local em local, perguntando a inúmeros conhecidos se alguém a havia visto ou se sabiam de alguma coisa.
Evidentemente, o primeiro lugar no qual James foi procurá-la foi o pequeno apartamento que Lily dividia com a amiga, Dorcas Meadowes. Dorcas o recebeu com uma expressão de esmorecimento, como se já estivesse esperando por aquela visita.
— Ela provavelmente foi embora durante a madrugada, James. Eu não vi nada. – lamentou ela, conduzindo-o até o antigo quarto de Lily. – Na verdade, eu só me dei conta de que ela tinha ido porque Remus me disse, ontem, que ela não ia te visitar fazia três dias. Até então eu achava que ela estava com você, no hospital. A última vez em que eu a vi também foi no dia vinte e seis de setembro.
O cômodo estava praticamente intocado. Lily não levara quase nenhum pertence, exceto por algumas roupas, seu malão e sua coruja, Petal.
— Tem certeza disso, Dorcas? – James ainda não aceitara a ideia. Afinal, por que Lily faria aquilo? – Então por que ela não levou quase nada? Tem certeza de que foi ela quem entrou aqui e pegou essas coisas?
Dorcas demorou a responder, uma vez que provavelmente estivera selecionando as melhores palavras para fazê-lo.
— James, não teria como outra pessoa ter entrado aqui e pego as coisas dela. Somente nós duas sabíamos os contrafeitiços para os encantamentos de proteção que cercam nosso apartamento. Você sabe disso. Se qualquer pessoa diferente de nós tentasse quebrá-los, teria sido arremessada duzentos metros de distância e faíscas vermelhas teriam saído de todas as lamparinas. E eu tenho uma do lado da minha cama, então...
Mas ela não finalizou a frase. James tinha um olhar vidrado em algum ponto perdido no assoalho.
— Ela está assustada. – ele concluiu, após uma breve pausa. – Daqui uns dias, ela vai voltar.
Dorcas permitiu que James vasculhasse o resto do apartamento à vontade. Não interferiu ou reclamou nem uma única vez. Sentou-se numa poltrona, na sala, e deixou que ele circulasse pelos cômodos sem se sentir vigiado. James se fechou no quarto de Lily por um bom tempo. Dorcas preparou-lhe um chá, mas ele recusou.
Ele resolvera ir embora às pressas, pois ainda queria verificar outros lugares. E aquela foi a última vez em que James vira Dorcas viva.
—--
[Quinta-feira, 02 de outubro de 1980, 22h56]
Após dois dias batendo de porta em porta, James resolveu apelar indo ao local mais improvável ao qual Lily pudesse recorrer: a antiga casa de seus pais, que passara a ser habitada por sua irmã, Petunia, e seu marido, Vernon Dursley.
A probabilidade de encontrá-la hospedada naquela casa era remota, uma vez que o casal Dursley abominava qualquer referência à magia ou à sociedade bruxa. Petunia havia cortado relações com Lily após o falecimento da Sra. Evans, no ano anterior, e sequer convidara a própria irmã para seu casamento. Provavelmente nunca a aceitariam como hóspede.
Mas aquela era a última esperança de James.
Ele aparatou numa praça mal iluminada, próxima à Rua dos Alfeneiros. Assim que se materializara ali, pôde sentir gotas grossas de chuva começarem a metralhar seus ombros e cabeça. No instante seguinte, James se encontrava completamente encharcado.
Sob a chuva, ele caminhou lentamente pela rua e não avistou ninguém. Atravessou o jardim muitíssimo bem cuidado da casa de número quatro e bateu na porta. Colocou a mão de volta no bolso e aguardou.
Petunia Dursley abriu a porta e uma expressão horrorizada moldou seu rosto ossudo e comprido.
— Mas o quê...?
— Lily está aí? – James perguntou antes que ela começasse a lhe despejar grosserias.
— Como ousa aparecer na minha casa à essa hora? – ela indagou, semicerrando os olhos em sua direção. – Alguém te viu andando por aqui?
Petunia desceu os olhos para fuzilar suas vestes à moda bruxa.
— Não, ninguém me viu. – ele respondeu, num tom cansado. – Você tem notícias da Lily?
— Quem é que chegou, querida? – perguntou uma voz grave e rouca, proveniente dos fundos da casa. Petunia deu um salto e diminuiu a abertura da porta, temendo que o marido pudesse ver James.
— N-ninguém, Vernon! São só os filhos dos Reynolds! – Petunia gritou de volta, com a cabeça virada para trás. Voltou-se para frente mais uma vez e acrescentou, num sussurro: – Lógico que minha irmã não está aqui. Por que estaria? Não queremos contato algum com a sua gente. Passar bem.
Ela fez menção de fechar a porta, mas James rapidamente colocou seu ombro entre a porta e seu batente, impedindo que Petunia pudesse cerrá-la. Ela arregalou os olhos de pavor.
— Como ousa?
— Prometo ser breve.
James empurrou a porta com mais força e Petunia cedeu, o que permitiu que ele pudesse adentrar. Ela soltara um grito agudo enquanto se apoiava contra a parede, levando a mão ao peito. Vernon surgiu correndo no fim do corredor, mas estacou ao se deparar com James marchando para o interior de sua casa. Mais do que ódio, os Dursley sentiam um verdadeiro pavor dos bruxos.
Sem se importar com seus pés enlameados e suas vestes encharcadas, James andou pela casa inteira e vasculhou todos os cômodos. Não havia sinal de Lily ou de qualquer um de seus pertences ali.
Quando James voltou ao primeiro andar da casa, Vernon estava parado na mesma posição, com o rosto vermelho de raiva. Petunia tampouco havia se mexido.
— Desculpem o incômodo. – ele disse antes de sair.
A porta bateu atrás dele, mas o estrondo foi abafado pela chuva forte que ainda desabava ininterruptamente do céu. Havia lágrimas escorrendo de seus olhos, mas a água da chuva rapidamente se misturou com elas.
Não havia mais nada que James pudesse fazer. Não havia mais nenhum lugar onde ele ainda não tivesse procurado. Tudo o que lhe restava era aguardar que Lily retornasse logo e lhe explicasse tudo. Tudo o que James podia desejar era que ela ficasse segura, onde quer que estivesse. Ele simplesmente não conseguia conceber a possibilidade de que Lily pudesse tê-lo abandonado. Ele puramente ateve-se à ideia de que Lily voltaria em breve.
—--
[Domingo, 05 de outubro de 1980, 10h06]
Sirius aparecera em seu apartamento poucos dias depois, pela manhã. James imediatamente soube que o amigo tinha algo importante e, ao mesmo tempo, desagradável para lhe dizer. Sirius não conseguia disfarçar quando algo o incomodava. E mesmo que conseguisse, James o conhecia bem demais para que pudesse ser enganado.
— Ontem à noite, eu e Frank tivemos que ir à Hogsmeade. Um velho nascido-trouxa tinha sumido e a família entrou em contato com Ministério, pedindo ajuda. – Sirius começou, sentando-se no sofá. Ele parecia medir as expectativas de James para escolher as palavras certas para continuar. – Mas pouco tempo depois de termos chegado, recebemos um patrono de Moody com o aviso de que tinham encontrado o velho no Cabeça de Javali, bebendo escondido da esposa. Fomos lá verificar e... Aberforth nos viu e nos chamou para conversar. Mas você sabe o que Moody acha dele, não é? Obviamente ele só foi aceito na Ordem porque Dumbledore insistiu, disso todo mundo já sabe e–
— O que Aberforth queria, Padfoot? – James foi direto ao ponto. Uma nova esperança de encontrar Lily começou a crescer em seus pensamentos.
Sirius acendeu um cigarro. James o mandou apagar. Ele havia decidido parar de fumar pouco depois de sua formatura em Hogwarts, mas ainda se sentia ocasionalmente tentado a roubar um cigarro de Sirius quando Lily não estava por perto. James havia decidido parar por ela. Lily lhe dissera que aquele fora o melhor presente que ele podia ter lhe dado.
— Aberforth nos disse que Lily esteve lá na noite do dia vinte e seis.
— No dia em que ela sumiu? – James perguntou.
— No dia em que ela foi embora, James. – Sirius enfatizou, muito sério. – Aberforth disse que o Cabeça de Javali estava cheio naquela noite e ele só a viu quando ela passou por ele para sair do bar. Ele não soube dizer por quanto tempo Lily esteve lá.
— Ela estava bem? – James se levantou do sofá. Queria aparatar naquele instante e conversar pessoalmente com Aberforth Dumbledore. – Ele falou com ela?
— Não, ele não falou com ela. Mas Lily não estava sozinha. – Sirius continuou contando, sem ser contagiado pela súbita agitação do amigo. – Lily estava com o Snivellus na noite do dia vinte e seis de setembro, James.
Após o relato, o apartamento fora tomado pelo mais absoluto silêncio. Sirius voltou a acender um cigarro. Daquela vez, James não o mandou apagar. Permanecera em silêncio, absorvendo aquela nova informação. Lily e Snape juntos, enquanto ele jazia desacordado num leito de hospital. O que poderia ter acontecido enquanto James estava inconsciente? Se ele não tivesse dormido por tanto tempo, teria podido evitar que Lily fosse embora? Será que Snape a tinha obrigado a ir? Ou será que ela fugira com ele?
Mas à medida que aquela notícia era assimilada, um dolorido sentimento de traição começou a crescer dentro de James. Sentiu-se traído de todas as formas. Desde os tempos de Hogwarts, Severus Snape deixara claro quais eram seus sentimentos por Lily. Desde os tempos de Hogwarts, Severus Snape deixara claro seu posicionamento em relação à guerra. Embora James nunca o tivesse encontrado em um duelo, era de conhecimento geral que Snape havia se aliado a Voldemort. Ele não era visto em público desde sua formatura em Hogwarts. Até ser visto naquela fatídica noite do dia vinte e seis de setembro, no Cabeça de Javali.
Horas depois, naquele mesmo dia, a velha coruja de Alastor Moody irrompeu pela janela, trazendo consigo a confirmação que James precisava para finalmente aceitar o abandono. Puxou o pergaminho amarrado junto ao pé da coruja e o abriu. Sirius, que havia permanecido no apartamento do amigo para oferecer-lhe seu apoio silencioso, inclinou-se para ler também.
Potter,
Esta carta chegou para mim esta manhã. A coruja foi embora assim que desenrolei o pergaminho e eu não pude respondê-la. Vou deixá-la a seus cuidados, pois acredito que seja de seu interesse.
Atenciosamente,
Alastor Moody.
E a carta anexa trazia a seguinte mensagem:
Caro Moody,
Gostaria de comunicar-lhe meu desligamento do Ministério e afastamento definitivo do mundo bruxo.
Lily Evans.
Mais tarde, James não conseguiria se lembrar exatamente do que acontecera nos minutos que se seguiram após a leitura daquela carta. A única coisa da qual se lembraria seria o comentário de Sirius, uma vez que aquelas palavras ecoaram dentro de sua cabeça por dias.
— Lily usou a assinatura da Ordem, então não há dúvidas de que foi ela quem escreveu essa carta. Ela foi embora e traiu a todos nós com aquele filho da puta.
Sirius acendeu um cigarro. James acendeu um também.
—--
[Segunda-feira, 01 de novembro de 1982, 08h00]
A partir do momento em que Lily Evans fora embora da festa do Ministério, os pensamentos de James foram tomados por uma sequência infinita de perguntas e lembranças. Ele passara o fim de semana inteiro em casa, sozinho, fumando e repassando mentalmente cada palavra que ela dissera. Permitiu-se até mesmo fazer algumas anotações. Mas queimou-as logo em seguida.
No instante em que um raio cortou o céu, James aparatou numa viela estreita do Beco Diagonal. A chuva imediatamente começara a golpeá-lo em diversas direções, fazendo com que ele fosse tomado por uma conhecida sensação de déja-vù.
Mas daquela vez, os interesses de sua investigação eram completamente opostos. James não podia confiar em Lily Evans. Ela havia traído o Quartel e a Ordem da Fênix no passado. Quando ela fugira, após ter sido vista com Severus Snape, os membros da Ordem viveram dias de profundo terror, esperando que Voldemort invadisse a sede secreta da organização a qualquer momento. E, por mais que a guerra tivesse findado havia um ano, James sabia que o retorno de Lily Evans trazia aos membros do Quartel o mesmo sentimento apreensivo que seu abandono outrora também trouxera.
James parou de andar ao alcançar uma loja pequena, cujas letras de ouro sobre a porta traziam a inscrição Olivaras: Artesãos de Varinhas de Qualidade desde 382 a.C. Sem poder esperar muito mais tempo, James entrou.
O interior da loja estava exatamente como ele se lembrava. O Sr. Olivaras surgiu de trás do balcão e, ao reconhecê-lo, arregalou seus olhos enormes e prateados.
— Oh, senhor James Potter. – ele contornou o balcão, lentamente. – Precisa de uma nova varinha?
— Na verdade, não. – James respondeu, afastando os cabelos molhados da testa.
— Deixe-me lembrar, deixe-me lembrar... – o Sr. Olivaras pareceu pensativo. – Ah, sim! A varinha que lhe vendi onze anos atrás era de mogno, flexível e tinha vinte e oito centímetros de comprimento. Acertei?
— Sim.
O Sr. Olivaras dera um salto, como se tivesse sido tomado por uma ideia.
— Posso lhe perguntar outra coisa, senhor? – indagou ele. James confirmou com um aceno, pacientemente. – O senhor usou esta varinha na última batalha contra Você-Sabe-Quem, ano passado?
— Sim.
— Muito bom, muito bom. – o Sr. Olivaras sorriu muito orgulhoso, como se, de alguma forma, também tivesse tido uma importante participação na mencionada batalha. – E o que traz o senhor aqui nesta manhã, Sr. Potter?
James afastou um pouco a capa para que seu distintivo de auror chamasse a atenção do dono da loja. Os olhos prateados do Sr. Olivaras recaíram automaticamente sobre a insígnia dourada, compreendendo.
— Eu gostaria de saber se uma mulher chamada Lily Evans esteve aqui recentemente.
O Sr. Olivaras suspirou.
— Ah, sim, senhor. Na semana retrasada. Ela comprou uma varinha de faia e corda de coração de dragão, trinta centímetros. Boa e flexível.
— O senhor consegue se lembrar do dia e da hora em que ela veio? – James pressionou. Afinal, se o homem era capaz de se lembrar de cada varinha que havia vendido, certamente poderia lhe fornecer aquela informação.
O Sr. Olivaras precisou de nove segundos para responder.
— Foi na manhã do dia dezenove de outubro, Sr. Potter. Uma terça-feira.
James ponderou por alguns momentos antes de continuar com suas perguntas. Moody havia convocado os aurores para a reunião na qual anunciara o retorno de Lily Evans no fim da tarde do dia vinte e dois de outubro. Portanto, Lily Evans já estava de volta havia, pelo menos, quatro dias quando James recebera a notícia.
— Ela lhe contou o que aconteceu com a primeira varinha? – James questionou, sem tirar os olhos do homem franzino à sua frente.
Um pouco curvado, o Sr. Olivaras voltou a se posicionar atrás do balcão empoeirado. Ergueu a cabeça para olhar James com seus enormes olhos curiosos.
— Infelizmente não, Sr. Potter. Ela não quis dar detalhes sobre o que aconteceu com a varinha de salgueiro, farfalhante, de vinte e três centímetros que vendi para ela onze anos atrás. Só disse que a havia perdido. É uma pena, aquela varinha era muito boa para encantamentos. – ele parecia realmente chateado.
James colocou as mãos nos bolsos das vestes, baixando o olhar. Respirou fundo antes de proferir sua última pergunta:
— E ela estava sozinha?
— Sim, senhor. – o Sr. Olivaras o olhou de modo enigmático. – Aliás, quase não consegui reconhecer a Srta. Evans. Ela não quis tirar o capuz da capa quando entrou.
James imediatamente recordou-se de tê-la visto colocando uma capa certa vez, quando estava com Marlene no café próximo à entrada do Ministério. Tentou imaginar por que Lily Evans adquirira o hábito de andar sempre sob uma capa. E tal questionamento trouxe-lhe ainda mais perguntas.
— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa, senhor James Potter? – o Sr. Olivaras o acordou de seus devaneios.
— Não, Sr. Olivaras. – James sacudiu a cabeça. – Muito obrigado pelas informações. Tenha um bom dia.
James fez uma mesura rápida e se dirigiu para a saída da loja. Um vento forte e gelado entrou pela porta quando ele a abriu. Mas a voz do Sr. Olivaras surgiu atrás dele, dizendo:
— Ah, senhor James Potter! – ele limpou a garganta, enquanto James se virava para olhá-lo por cima do ombro. – Talvez haja outra coisa que seja do seu interesse em relação à compra da Srta. Lily Evans. – o homem fez uma pequena pausa, encarando James sem piscar. – O senhor não foi o primeiro a vir aqui e fazer estas mesmas perguntas para mim.
Naquele instante, James sentiu suas entranhas se revirarem. Mas antes de permitir que seus pensamentos lhe sugerissem nomes, ele indagou:
— E quem mais veio?
— O senhor Lucius Malfoy esteve aqui na segunda-feira passada. E me fez exatamente as mesmas perguntas que o senhor, Sr. Potter.
—--
[Quinta-feira, 04 de novembro de 1982, 07h35]
James não foi capaz de viver normalmente nos dias que se seguiram após a ida à loja do Sr. Olivaras. Simplesmente entregou-se à agonia proveniente das inevitáveis suposições que as novas notícias lhe trouxeram. E o resultado de tudo isso foi o reaparecimento da dor incessante que comprimia seu peito havia dois anos. Os músculos da região de seu tórax voltaram a se contrair e relaxar o tempo todo, evocando aquele conhecido pesar, como há meses não acontecia.
Naquela manhã de quinta-feira, após mais uma noite mal dormida, James acordou com bicadas doloridas no alto de sua cabeça. Sem nem precisar abrir os olhos, ele já sabia quem era: Kim, a coruja de sua mãe. Era a terceira vez que Dorea lhe escrevia naquela semana e James já imaginava o que ela desejava.
Querido James,
Até quando você vai continuar ignorando meus convites? Eu preciso muito conversar com você. É realmente importante.
Venha jantar comigo hoje.
Com amor,
Dorea.
James se sentou na cama enquanto esfregava o cocuruto, irritado. Em seguida, mandou a coruja embora sem responder à carta, mais uma vez.
Mesmo que descartar o convite da mãe daquela maneira lhe causasse um imenso mal-estar, James não queria ser obrigado a passar pela sessão de persuasão à qual as visitas à Dorea se resumiam. Não queria ouvi-la reclamar de que ele fumava demais. Não queria ouvi-la falar sobre voltar a jogar quadribol. Não queria ter de lhe contar sobre o que acontecera entre ele e Emmeline. Não tinha forças. Com os acontecimentos dos últimos dias, James simplesmente não tinha qualquer disposição para circunstâncias que envolvessem o mínimo de interação.
Meia hora depois, James chegou ao Ministério. O Átrio ainda estava pouco movimentado e, milagrosamente, o elevador estava vazio.
Ao atingir o segundo nível, James saiu do elevador e seguiu em direção ao Departamento de Aurores. Mas interrompeu sua caminhada ao virar um corredor vazio e se deparar com Emmeline.
Eles não haviam mais se falado depois da festa. Embora trabalhassem no mesmo nível do Ministério, aquela era a primeira vez em que a via desde então. E ao vê-la caminhar tão calmamente ao seu encontro, James descobriu que sentira sua falta. Por que Emmeline ainda não havia lhe procurado? Ele parou e esperou que ela o alcançasse.
E ela o alcançou. Mas seguiu em frente e continuou caminhando, sem manifestar qualquer alteração por tê-lo visto.
James só conseguiu voltar a se mexer depois que o som dos passos de Emmeline desapareceu. Pensou em dar meia volta e ir atrás dela. Mas ponderou por alguns instantes, incerto, e, por fim, preferiu deixar-se levar pelo comodismo de permanecer em silêncio. Não tinha forças.
Entrou em sua sala e se jogou em sua cadeira. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e respirou fundo. Dois aviõezinhos que rodopiavam próximos ao teto desceram em sua direção, mas James não lhes deu atenção. Em seguida, alguém bateu na porta, obrigando-o a voltar à realidade.
— Entre.
Era Benjamin Fenwick. James estendeu o braço e indicou o assento defronte ao seu.
— Bom dia. – Fenwick o cumprimentou, acomodando-se na cadeira do outro lado da mesa.
— Bom dia. – James respondeu, impaciente. – Aconteceu alguma coisa?
O outro pareceu indeciso.
— Bem... – começou ele, um pouco sem jeito. James decididamente detestava quando não iam direto ao ponto. Não gostava de perder tempo com rodeios desnecessários. – Hoje vai fazer uma semana que estou trabalhando na Sala de Preparos e... Será que eu já poderia voltar a fazer ronda?
James se perguntou se realmente precisaria responder àquela pergunta estúpida.
— Não. – acabou dizendo, por fim.
— Mas Evans não tem nenhum problema. – Fenwick insistiu.
— Evans é o problema.
Fenwick respirou sonoramente e James não gostou daquilo. Julgou desrespeitoso. Sabia muito bem que Fenwick jamais aceitara de bom grado o fato de James ter sido nomeado Auror Capitão, em vez dele. Ele sabia que Fenwick sentia-se passado para trás, uma vez que tinha alguns anos a mais de experiência no Quartel. Mas como não era um auror brilhante – nem durante a guerra ele tivera qualquer destaque individual –, James não conseguia compreender por que é que ele esperava ter algum reconhecimento. Já havia passado da hora de aceitar os fatos.
— O que eu quis dizer – recomeçou Fenwick, calmamente. – É que estou há uma semana assistindo à Evans preparar poções. Como sempre venho escrevendo nos relatórios diários, ela faz tudo certo. Sabe tudo de cor, trabalha muito bem com a varinha e nunca precisa da minha ajuda. Eu fico o dia inteiro sentado de frente para ela, sem nada para fazer. Talvez eu seja mais útil junto com Black e Lupin, ou...
— Fenwick. – James o interrompeu. – Quero você com a Evans até Diggle voltar das férias.
Assumindo um ar pensativo, Fenwick coçou a barba castanha e baixou o olhar, numa aparente atitude de desistência. Mas não assentiu ou disse qualquer coisa, permitindo que um silêncio tomasse conta da sala.
— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa? – James mais uma vez não resistiu à sua impaciência.
Fenwick balançou a cabeça negativamente, enquanto se reerguia. Andou até a porta da sala, mas, ao tocar a maçaneta, virou-se mais uma vez para o Auror Capitão. James lhe dirigiu um olhar cansado, como se não estivesse minimamente ansioso para saber o que ele tinha para dizer.
— Eu reparei numa coisa curiosa anteontem. – Fenwick contou, levantando os olhos azuis para encarar James. – Evans está sempre lendo o Profeta Diário. Ela chega lendo e sempre volta a ler enquanto espera algum ingrediente cozinhar. Mas anteontem reparei que a notícia da capa era sobre o assassinato dos gêmeos Prewett. E o de ontem também.
— Mas eles foram assassinados em julho do ano passado.
— Exatamente. Foi então que eu reparei que ela não lê os jornais atuais, ela lê os jornais do ano passado. E ela nunca deixa a capa à mostra, eu só consegui ver de relance, quando ela estava virando uma página.
James procurou não demonstrar qualquer deslize em sua postura com aquela nova observação. Mas por dentro seus pensamentos fervilharam com novas hipóteses, no mesmo ritmo de seus batimentos cardíacos. Vertiginosamente.
— Ela sabe que você percebeu isso? – James conseguiu perguntar, após ter processado a nova informação.
— Acho que não. Eu não comentei.
— Melhor não dizer nada. – James avaliou, movendo os olhos para o centro de sua mesa, reflexivo. – Se observar mais alguma coisa, Fenwick, fale comigo.
— Farei isso. – Fenwick finalmente abriu a porta. – Até.
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[Quinta-feira, 04 de novembro de 1982, 18h49]
Após a conversa com Benjamin Fenwick, um verdadeiro caos se instalou na mente de James. E em meio a tantas suposições e teorias sobre o que realmente havia acontecido com Lily Evans, havia também um conflito interno em sua consciência. De um lado, James sentia-se obrigado a descobrir toda a verdade sobre Lily Evans, pois todo aquele enigma que a circundava, incitado por tantas pistas, estava enlouquecendo-o. Mas por outro lado, James sentia uma imensa raiva por estar dedicando tantos pensamentos a alguém que o abandonara e, agora que estava de volta sem sequer ter sido convidada, recusara a lhe dar uma explicação.
De um lado, a segurança do Quartel. Do outro, seu orgulho.
James não conseguiu trabalhar direito naquele dia. E Sirius, percebendo a gravidade do estado letárgico no qual o amigo se acomodara, assumiu o controle. Moody não estava no Ministério naquele dia, portanto não houve qualquer questionamento a respeito de sua liderança. E tudo ocorreu bem, no fim das contas.
Quando todos aurores haviam lhe entregado seus respectivos relatórios diários e já haviam ido embora do Quartel, Sirius resolvera convidar James para tomar uma cerveja amanteigada no Três Vassouras. Teve de repetir o convite duas vezes para que o amigo conseguisse despertar do transe e pudesse compreendê-lo.
— Pode ser. – foi sua resposta.
— Vou levar os pergaminhos para Hestia e depois vou aparatar direto em Hogsmeade. Te encontro lá em meia hora?
James apenas acenou com a cabeça.
Com o passar dos últimos dois anos, Sirius aprendera a respeitar aquele jeito melancólico e desesperançado que dominara o caráter do melhor amigo. Sirius se habituara a lidar com aquelas crises de imersão nas quais James se afundava periodicamente. James não precisava lhe dizer nada, mas Sirius sabia: o sumiço de Lily Evans nunca deixara de atormentar os pensamentos do amigo.
E a reação de James quanto ao seu retorno tampouco fora diferente.
—--
James esperou por um momento antes de seguir os passos de Sirius e sair de sua sala. Não queria encontrar ninguém nos corredores. Depois da festa na última sexta-feira, todos queriam cumprimentá-lo pela Ordem de Merlin e ele era obrigado a fingir que se importava com o título. Portanto, passara a ir embora um pouco mais tarde, para evitar encontrar pessoas conhecidas.
Mas foi inútil.
Quando James já estava dentro do elevador, junto com mais duas bruxas que vinham do primeiro nível, uma mão impediu que a grade dourada se fechasse. E, assim que esta voltou a se contrair, Lily Evans entrou nele.
Seus olhos se encontraram e ela imediatamente se posicionou do lado oposto do espaço. O elevador continuou a descer e foi se enchendo de pessoas a cada nível que parava. Três níveis abaixo, Lily Evans já havia desaparecido de seu campo de visão.
Quando o elevador alcançou o sétimo nível, um nível antes de finalmente chegar ao Átrio, James reconheceu a cabeleira loiríssima de Lucius Malfoy adentrar o ascensor. Sentiu seu estômago se revirar repetidas vezes ao vê-lo, por entre algumas cabeças, se dirigir para o mesmo lado em que Lily Evans havia escolhido.
Um homem alto que estava na frente de James se abaixou para pegar um memorando do chão, permitindo que ele tivesse uma breve visão da expressão que Malfoy assumira ao se deparar com Lily Evans. Ele sorria.
— Oh, mas que surpresa. Então é verdade que você está de volta. – James pôde ouvir a voz de Malfoy, por entre os burburinhos das conversas paralelas. – Seja bem vinda.
E a voz feminina do elevador anunciou que haviam chegado ao Átrio.
Malfoy foi o primeiro a sair quando a grade se abriu. James se infiltrou na multidão e caminhou em direção à saída, desviando-se vez ou outra de algum funcionário que andava em direção às muitas lareiras.
— James.
James congelou ao sentir aquele toque suave em seu braço, juntamente com a pronúncia baixa de seu nome. Ele se virou para encarar Lily Evans. Ela estava ofegante e parecia completamente desnorteada.
— Sim?
— Por que Malfoy não foi preso junto com os outros? – ela perguntou, num tom baixo e inconformado. – Nós o enfrentamos tantas vezes junto com os Comensais, todos sabiam que ele também era um-
— Os Malfoy alegaram estar sob a Maldição Imperius. – James respondeu, simplesmente, e preparou-se para continuar caminhando para a saída, mas Lily Evans tocou em seu braço novamente.
— Mas como foi que acreditaram nisso? – ela insistiu, tentando parecer calma. Mas James a conhecia muito bem e conseguira captar seu desespero.
Ele quis perguntar-lhe por que ela estava tão preocupada com Malfoy. Quis perguntar-lhe o que havia acontecido para que Malfoy estivesse tão interessado na varinha dela. Todas as vezes em que James olhava dentro daqueles olhos verdes, sentia vontade de fazer incontáveis perguntas.
Mas fazê-las era demonstrar que se importava.
— Os Malfoy têm muito dinheiro e influência. – ele falou, desviando o olhar. Pensou em tranquilizá-la dizendo-lhe que Sturgis Podmore tinha a função de vigiar a família Malfoy e tudo estava bem havia um ano. Mas não o fez. Afinal, era melhor que ela não soubesse sobre as missões dos demais aurores. Ela não era alguém de confiança.
Ao se dar conta de que Lily Evans não tinha mais nada a dizer, James virou-lhe as costas e voltou a seguir em frente. Exatamente como ela havia feito após terem discutido, no fim da festa. Sentiu raiva por ter sido minimamente gentil com ela depois de como ela o havia tratado naquela noite. E em meio àquela raiva, sua vontade de descobrir qualquer coisa sobre o que acontecera naqueles dois anos se esvaiu completamente.
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[Quinta-feira, 04 de novembro de 1982, 19h28]
Mais uma vez, James foi recepcionado por uma forte tempestade quando aparatou. Daquela vez, em Hogsmeade, mais precisamente no início da Rua Principal. Levantou a cabeça para olhar para cima e assistiu a um lampejo prateado cruzar o céu escuro. E, sem se preocupar em fazer um feitiço de impermeabilidade, James começou a caminhar lentamente em direção ao Três Vassouras.
Entrou no pub e descobriu que fora o primeiro a chegar. Sentou-se em uma mesa vazia e pediu um firewhisky. Passou a mão pelos cabelos molhados e os bagunçou para se livrar da água.
Cinco minutos depois, Sirius chegou acompanhado de Remus e Peter. James não levantou os olhos do copo solitário da mesa quando os amigos se acomodaram ao seu lado.
Foi Sirius quem tomou a iniciativa de começar um diálogo.
— Dorea me escreveu, Prongs. – ele avisou. – Ela disse que quer muito que você vá visitá-la.
James apenas confirmou com um aceno, num gesto automático.
— Vai ter uma partida do Puddlemere United daqui duas semanas, quem topa? – Peter perguntou.
— A Lua Cheia já vai ter passado até lá, então, lógico que topo. – Remus foi o primeiro a responder.
— Eu também. – Sirius concordou. Olhou para James e reparou que o amigo nem ao menos havia ouvido o convite. – Prongs também vai, nem que seja obrigado.
Sirius, Remus e Peter riram brevemente do estado absorto no qual o amigo se encontrava. Mas James não manifestou nenhuma reação, era como se nem estivesse ali. Não tinha forças nem mesmo para tentar afastar seus pensamentos de sua mente.
Madame Rosmerta se aproximou da mesa mais uma vez para cumprimentar os recém-chegados e tomar nota de seus pedidos. Ao contrário de James, os outros três preferiram cerveja amanteigada. E enquanto papeavam com Madame Rosmerta, James permaneceu calado e com seu típico olhar distante.
— James, o que houve com você? – Sirius perguntou, quando a garçonete retornou ao bar para buscar as cervejas. – Ok, eu sei que você não é de conversar, mas desde a festa, na semana passada, você está ainda mais...
— Mal humorado? – Remus sugeriu.
— Rabugento? – Peter intensificou.
— Eu ia dizer veado, mas esses adjetivos também servem.
James rolou os olhos e tateou os bolsos em busca de seu maço de cigarros. Encontrou-o encharcado.
— Merda. – xingou, aborrecido. Virou-se para pedir um cigarro a Sirius, mas encontrou os olhos do amigo carregados de preocupação. James nunca tinha visto um olhar tão responsavelmente aflito naqueles olhos azul-acinzentados. Respirou fundo antes de continuar: – Eu estou bem, Pads. Sério.
— As cervejas, meninos! – Madame Rosmerta anunciou sua chegada. Depositou três grandes copos cheios de cerveja amanteigada e se afastou para atender outra mesa.
— Marlene me contou que Emmeline estava esperando que você a procurasse. – Sirius falou, antes de levar sua caneca à boca e beber uns bons goles.
— Não vou fazer isso.
— Vai se arrepender. – Peter alertou, balançando a cabeça.
James o fulminou com os olhos. Peter se encolheu e bebeu sua cerveja. E antes que o silêncio incômodo voltasse a se instalar entre os quatro, Sirius resolveu insistir:
— James, o que foi que aconteceu com você? Por que você ficou o dia inteiro olhando para a parede da sua sala? Quando vai parar de usar os memorandos para liderar a equipe? Os outros aurores já estão comentando que desde que ela voltou, você...
Mas ele não continuou a frase ao ver que James finalmente pareceu acordar de seu transe. Remus e Peter também pareceram notar a diferença. Os três se entreolharam, ansiosos, enquanto James parecia decidir a melhor maneira de começar.
— Eu conversei com ela na festa. – ele admitiu, com a voz um pouco falha. Até mesmo seu próprio corpo parecia querer que ele continuasse sem falar.
Em seguida, James começou a narrar aos amigos tudo o que havia acontecido. Sua conversa com ela, sua visita à loja do Sr. Olivaras e a observação curiosa que Benjamin Fenwick relatara mais cedo naquele dia. James contou-lhes tudo. Todos os detalhes, todas as suas suspeitas. E quebrar o silêncio nunca havia sido tão reconfortante.
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Naquele momento, em sua sala na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Albus Dumbledore se preparava para fazer uma viagem.
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