Notas iniciais
Postando bem encima do prazo hehehe E SIIIM, mudei o título. Capivaras são o máximo, maaas ia ser difícil a trama se enquadrar com capivaras. Lamento.

André Guerra

29/12/2014

Acordo no pronto-socorro do hospital, conseguindo distinguir Clara e Miguel, cujas silhuetas vão tomando forma conforme pisco os olhos repetidamente. Ainda eram três da tarde, de acordo com o relógio do local. A invasão ao viveiro dos aracnídeos havia acontecido somente quarenta minutos antes. Tento me virar e sinto uma pontada de dor, causada pela agulha em meu braço, coberta pelo curativo de gaze, e assim que olho para cima, vejo uma bolsa de soro hospitalar.

– Cara, tá acordado? Tu perdeu muito sangue, o Ricardo deixou eu te trazer pra cá no meu carro, mais rápido que esperar uma ambulância lá no zoológico. Tá tud... — Ricardo olha em minha direção de um modo alarmado, e suas próximas palavras não são registradas por mim com eficiência, mas depois de muito esforço próprio, consigo balbuciar algumas palavras:''Pegaram eles?''.
–Não, André. -Miguel continua, e dessa vez, tento prestar atenção.- Eu vi eles saindo do viveiro, mas eu ainda estava longe de lá, e quando passaram por mim eu nem desconfiei. Quando cheguei lá vi um monte de caco de vidro no chão e você caído, quando avisei sobre eles pelo rádio, tinham acabado de sair do zoológico. Desculpa cara, mas eu tinha que ajudar você.
–Valeu, valeu.- respondo, ainda balbuciando, e reflito sobre o que havia acontecido, chegaram do nada e só foram agir quando ouviram a mensagem sobre o sistema de segurança, e então olho para Clara, e agradeço por estar ali. Ela é como uma segunda mãe, já que a ''primeira'' está em São Paulo.- Oi Clara.- resolvo, dizer.
–Oi querido. A sua colega, a Paola foi me avisar sobre você lá na Biblioteca, antes de ter que voltar para o serviço, e resolvi vir te ver durante uns minutos. O Miguel aqui me disse o que aconteceu, que horror! Ele te achou caído e sangrando, que gente sem coração! -ela pretende continuar, até que Miguel põe a mão sobre seu ombro, e ela se aquieta.
Depois de dizer várias vezes que eu já estava melhor, Clara voltou para a Biblioteca, e um pouco depois, o médico plantonista me deu alta, e saí junto com Miguel. Ele me deixa em casa, já que fui liberado do trabalho, e me ajuda a subir os lances de escada. Pergunto se ele quer ficar, comer alguma coisa, mas ele tem que voltar ao trabalho. Resolvo rever a terceira temporada de Game of Thrones, e quando dou por mim, já são sete da noite. Minha campainha toca, e Miguel aparece com Paola, ambos bem vestidos: Miguel com uma camisa polo escura, destacando seu físico, e bermuda branca. Havia um óculos-escuro pendurado na gola de sua camisa, mesmo estando a noite. Já Paola com uma blusa dourada larga e saia preta, que quase chega ao nível dos joelhos, cheia de anéis de bijuteria em seus dedos. Me pergunto o porquê de estarem vestidos assim, mas depois de alguns longos e vergonhosos instantes, me dou conta que eles vão para alguma boate.
–A gente vai sair hoje, última segunda-feira do ano! — Diz Paola, com a voz animada, dando um sorriso no final da frase, seus dentes brancos contrastando com os lábios vermelhos.
–Quer vir com a gente?-Miguel diz, sorrindo esperançoso.
–Hoje eu quase morri, passei quase uma hora tomando soro, e vocês querem que eu vá pra uma boate? — pergunto, com a voz mais irônica que eu consigo no momento, receoso de que não seria o bastante. E como sempre, a insistência deles triunfa.
–Você não morreu, e não tá mais tomando soro. Não vejo motivos para não fazer companhia pra mim. -Paola diz, fazendo uma voz de choro nas últimas palavras, e depois rindo novamente. Percebo que Miguel olha para mim, e para ela algumas vezes, e acho que ele pode ter ciúmes dela. Resolvo ir, e vou me trocar, enquanto eles entram e se acomodam na minha pequena, porém confortável e acolhedora cozinha. Eles estão vestidos com roupas mais elegantes, então o lugar deve ser bom, penso. Logo, pego uma das duas únicas camisas polo do meu armário, juntamente com uma calça jeans.
Enrolamos em meu apartamento até o relógio marcar onze da noite, tempo suficiente para dois episódios a mais de Game of Thrones, e um filme. Descemos os lances de escada, enquanto ouço Paola reclamar sobre eu não ter escolhido um apartamento com elevador, e entramos no Honda Civic do pai de Miguel, gentilmente emprestado, ou furtivamente roubado, nunca se sabe. Vamos para a parte luxuosa da cidade, e eu agradeço por não ter vindo com qualquer roupa. Quando percebo, paramos em frente a uma das boates mais caras da cidade, a Vindicta. Miguel frequentava essa boate ocasionalmente, seu pai é amigo da dona, pelo que parece, mas eu nunca cheguei a entrar nela. Miguel acena para o segurança, que o deixa furar a fila de umas sessenta pessoas por humildes duzentos reais, e nós entramos.
O interior da boate é cheio de espelhos, espaçoso, e movimentado. Damos de cara com a pista central, repleta de pessoas por volta de vinte anos, ao som de uma versão remixada de ''Right Here, Right Now'' de Kylie Minogue. Observo as pessoas e noto a escada para o camarote da boate, do qual, possivelmente, é possível ver desde a entrada até o bar. Que é pra onde eu me dirijo, por sinal, enquanto Miguel e Paola vão para a pista. Dou sorte de encontrar um banco vazio no bar, e me sento, pedindo uma água, que me é servida rapidamente.
–Só vai beber água? -olho para minha direita, e vejo uma jovem ruiva num vestido preto provocante, me encarando com um sorriso no rosto.- Pede alguma coisa boa e vamos dançar, se anima!
–Acho que vou ficar só na água mesmo. -respondo, rindo. — A propósito, meu nome é André.
–Amanda, prazer. -ela me responde, se aproximando e dando um beijinho na bochecha.- E essa aqui,- ela aponta para a amiga dela, uma morena, sentada ao seu lado.- a chorosa é a Fernanda.
Fernanda me cumprimenta rapidamente com a cabeça, e volta a observar sua margarita, intocada. Pergunto o que houve com ela para Amanda, mas ela só da de ombros, pega a mão de Fernanda, e vão para a pista de dança. Acompanho as duas com meu olhar, e quando somem na multidão, volto meus olhos para o bar. Vejo de relance um barman, não é o que havia me servido, despejando alguma coisa na taça de Fernanda, um líquido. Chamo sua atenção, mas ele só me ignora, permanecendo num ângulo que não me deixa ver seu rosto. Assim que me levanto e tento agarrar seu pulso, ele entra na cozinha da boate, e Fernanda aparece. Olho para ela, e ela retribui o olhar, esboçando um pequeno e quase imperceptível sorriso.
–Esqueci minha bolsa aqui. Só vim pegar, acho que já vou embora. -diz ela. Olho para o banco em que ela estava, e vejo uma pequena bolsa preta fosca. Ela leva o olhar para a taça, e a pega. Não posso deixá-la beber aquilo. Me levanto rapidamente, e a empurro. Sendo mais ágil que eu, ela me agarra pela cintura. Nos encaramos por alguns segundos, até que ela me beija, e eu sinto um forte gosto de álcool em seus lábios, me perguntando o quanto ela havia bebido antes de eu chegar. Abro meus olhos, vendo que ela está chorando, e interrompo o beijo. Vejo-a botar a taça no balcão, do lado de outra margarita, igualmente intocada.
–Me perdoa...- ela diz, secando as lágrimas.- Não sei o que deu em mim, eu só tô desesperada hoje, já aconteceu tanta coisa.
Tento absorver tudo o que havia acontecido, quando vejo a mulher do casal sentado ao nosso lado levando a taça de margarita de Fernanda aos lábios, e a vejo caindo para trás quase que instantaneamente. Fernanda olha para trás, e berra pedindo ajuda para a mulher, que agora convulsionava. Ouço alguém gritando para chamarem uma ambulância, e outras pessoas se amontoam em volta. Olho para a mulher novamente, e vejo seu acompanhante ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão. Me ajoelho também, ajudando a posicioná-la de lado, me lembrando do curso de primeiros socorros do zoológico, e de algumas aulas da faculdade, as quais sempre achei que seriam inúteis. Alguns minutos se arrastam, parecendo uma eternidade, até que a ambulância chega. Ajudo a levantá-la e a deitá-la na maca, acompanhando os médicos até a ambulância, estacionada a algumas vagas de distância da entrada da boate, na frente de um Altima preto.
Quando me viro, vejo Fernanda atrás de mim, sua maquiagem borrada na região dos olhos, esses inchados. Ela me abraça, balbuciando algumas palavras que dão a entender o que realmente teria acontecido. Era ela quem ia beber a margarita.
–Horário do óbito: meia noite e vinte e seis minutos. — ouço um dos médicos dizer, enquanto sinto um calafrio percorrer minha espinha.

Notas finais
ESSA LOURA SEM CORAÇÃÃÃÃO. Próximo capítulo quarta, vou postar mais cedo. Juro. Ou não. E o Nyah não tá deixando eu arrumar os parágrafos, então a formatação vai ficar horrível.