Notas iniciais
Pra todos que queriam uma capivara na história, ou, no caso, para uma amiga minha

28/12/2014

André Guerra

Levanto da cama, e me espreguiço. Olho para a televisão, ainda ligada no Netflix, e depois olho pela janela do meu pequeno apartamento, vendo um dia ensolarado, e o ninho de alguma pomba que se alojara por aqui. Meu apartamento fica no centro da cidade. Um quarto, um banheiro, uma cozinha e uma área de serviço, que no momento está sendo utilizada como o ''lugar que o varal fica''. Ando até o banheiro, e escovo meus dentes.

Penúltimo dia de trabalho do ano, ótimo. Não que eu não goste do meu trabalho, mas estagiar no Parque Zoológico Municipal é especialmente cansativo. É necessário para meu curso de medicina veterinária, o qual eu venho a concluir ano que vem, e também, cuidar de animais é uma coisa que eu tenho facilidade e admiração, desde pequeno, então vale a pena. Levanto meu olhar ao espelho, e vejo minha barba por fazer, e meus cabelos pretos assustadoramente levantados, da mesma forma com que eles ficam todo dia de manhã. Tomo um banho rápido e desço os fatídicos nove lances de escada do prédio, ansiando pela brisa da manhã de segunda feira, afinal, era a última segunda feira do ano, e isso é uma coisa a se comemorar. Atravesso a rua e chego até o café localizado estrategicamente em frente ao meu apartamento, como rapidamente um misto quente e uma xícara de café expresso, e ando até o ponto de ônibus da esquina, no qual eu espero alguns segundos, até que eu vejo meu inimigo de todas as manhãs, o ônibus mais lotado da cidade. Como todo dia. Felizmente, já tenho meus conhecidos que facilitam as coisas pra mim, especialmente Clara, uma senhora de setenta e poucos anos amiga da minha mãe, que sempre guarda meu lugar.

–Bom dia, Clara. — eu digo, animado, passando pela catraca.

–Bom dia, querido. Como foi de Natal? — ela me pergunta, sorridente em sua roupa extremamente florida.

–Foi tudo muito bom, toda a família se reuniu em São Paulo. -respondo para ela, me sentando ao seu lado, como todas as manhãs.

–Que bom, querido. Eu passei meu Natal com a família também, mas esse ano sem meu marido. -ela olha para o chão empoeirado do ônibus. O marido dela havia falecido já fazem dois meses, pegou pneumonia, e naquela idade avançada, as chances de melhorar eram mínimas. Nunca o conheci, mas pelas histórias de Clara, ele era uma ótima pessoa. Seu nome era Alfredo.

–Poxa... Lamento muitíssimo. — respondo, compartilhando um pouco de sua dor.

Clara finaliza nossa conversa com um ''Deus sabe o que faz, querido.'', e desce do ônibus, indo para seu trabalho na biblioteca pública. Desço quatro pontos depois, logo em frente ao Zoológico.

Meu dia de trabalho é estranhamente fácil, pelo menos a parte da manhã. Sou designado a tratar das capivaras, e, na minha opinião, são os bichos mais amáveis e dóceis do zoológico, seguidas pelos hipopótamos. Capivaras ganham porquê não podem te matar, e isso deve ser levado em consideração de uma maneira muito especial neste trabalho. Aqui no Zoológico nós temos cinco, e todas já foram apelidadas pela equipe: Tem o macho, que se chama Jorge, a fêmea, que carinhosamente em homenagem a fundadora do parque, foi chamada de Madalena, e seus três filhotes, Caju, Cajá e Cazé. Faço meu serviço lentamente para ficar mais tempo junto dos filhotes... Tenho a impressão de que aqueles pequenos corpos gordinhos emanam alegria. Quando termino o serviço, vou almoçar com meus colegas de trabalho, Miguel e Paola. Estão mais para amigos do que colegas, mas não temos nos falado muito nos últimos tempos devido as festas de final de ano, e as últimas provas da faculdade, que ocorreram antes disso. Passamos toda a nossa uma hora de almoço conversando sobre as viagens que estávamos pensando em fazer nas férias de duas semanas, e quando acabamos, chegamos a conclusão de que, como nós gastamos todo nosso dinheiro em presentes de Natal e nas despesas, todos vamos ficar aqui pela cidade mesmo, e passar o Ano-Novo juntos.

Ouço meu nome ser chamado através do rádio, meu chefe, que me designa para o viveiro de aracnídeos, o lugar mais tedioso de todo o zoológico, afinal, as aranhas e escorpiões não fazem nada dentro dos terreiros, só permanecem ali, eles, e suas refeições. Assim que chego no viveiro, no outro extremo do zoológico, fico extremamente agradecido por seja lá quem estivesse aqui antes de mim já ter alimentado os pequenos seres de oito patas. Tenho pena dos pequenos insetos que servem de ração. Passam-se duas horas desde que estou aqui, e ainda ninguém entrou. Penso em quanto aquilo não me surpreende, pego meu celular e começo a ter o máximo de entretenimento possível naquele lugar: Facebook. E assim permaneço por quarenta minutos. Sentado numa cadeira com os pés na mesa. Um casal se aproxima, e eu me sento de uma forma mais adequada. Um homem negro alto, e claramente forte acompanha uma morena de corpo ligeiramente atraente, essa bem mais baixa. Meu rádio apita, e ouço Miguel falando através dele.

–André? Tá por aí? — ele diz, e ouço um bocejo logo depois.

–Tô sim, pode falar. -respondo, mantendo os olhos na garota, que se dirige para a parte dos escorpiões.

–O sistema de monitoramento do aquário e daí parou de funcionar, já já vou aí tentar resolver isso.- olho para as duas camêras da sala, a luz vermelha que indica se está em funcionamento está apagada. Ouço a mulher dar uma leve risada, e quando olho para ela, ela quebra o vidro de um dos escorpiões. Levanto de minha cadeira, alarmado, e sinto uma pontada de dor lancinante em minhas costas, sentindo um pouco de sangue escorrer, quente, até minha cintura. Olho para trás com dificuldade, e vejo pelo canto do olho o homem alto levar a mão para a cintura, fechando os punhos. Ele está preparando um soco. Fecho os olhos, me preparando para a dor.

***

–Conseguimos o espécime, senhorita. -Uma voz masculina diz pelo telefone.

–Extraíram o veneno?- seus olhos-esmeralda piscam, gratos por tudo ter dado certo.

– Com todo o respeito, a senhorita está duvidando de nossa capacidade?

–Jamais faria isso, vocês nunca me deram motivos, não é? -sua voz provocante finaliza a discussão.- Sabia que não. Esperem na frente daquele restaurante-bar Huitre, hoje é meu encontro com o Rafael. Quando eu sair de lá, às nove da noite, me entreguem o veneno, rapida e discretamente.

–Como quiser.- a voz masculina diz, secamente, e desliga.

Aquele veneno seria muito útil. Não iria ser utilizado no encontro com Rafael, não... Iria ser utilizado em um lugar onde a incriminação por overdose seria muito mais fácil. Em uma boate, ou melhor, em sua boate, que receberia duas visitas especiais naquela mesma madrugada.E ela estaria pronta.

Notas finais
Personagem novo, mesmas circunstâncias XD Daqui alguns capítulos a Fernanda volta, relaxem. HUSAHUASHUAS Até domingo.