Zelus, Vindicta
7 New Year's Eve - Parte 1
Notas iniciais
PARTE 1
Fernanda Abigail
31/12/2014
Os últimos dias foram especialmente marcantes e cansativos. Num resumo bem básico, eu posso citar que fui traída, beijei um garçom desconhecido, fui pra uma boate onde um homicídio viria a acontecer, e vomitei até não poder mais depois de tanta bebida.
Estou no quarto de Amanda, dividindo a cama de casal com ela. Me levanto e vou até sua escrivaninha, onde está minha bolsa. Tiro uma sacolinha de super-mercado amassada dela, e de dentro pego meu kit contra mau-hálito: uma escova de dentes, daquelas de viagem, e uma pasta de dentes infantil, com gosto de morango. Me dirijo ao banheiro no quarto de Amanda, e depois de algum esforço, faço o gosto de álcool e vômito desaparecer. Graças a Deus. Assim que saio do banheiro, vejo Roberta, a mãe de Amanda passar pela porta do quarto, aberta. Ela me vê.
–Bom dia, querida. -ela diz, com um sorriso no rosto, e seu rosto sem nenhuma falha.- Dormiu bem?
–Bom dia- respondo com um sorriso.- Obrigada por tudo, sério. E desculpa por ter dado trabalho pra vocês.
–Que isso, Fer. Te conheço já fazem anos, relaxa. — Gosto muito desse jeito extrovertido dela. Sempre sorrindo, sempre animada, aproveitando a vida ao máximo.
–Já são quase onze da manhã — ela continua.- você pode ir lá no quintal comigo ajudar a organizar a festa de hoje a noite?
–Claro! -respondo com um sorriso aberto.
Descemos a escada principal e andamos até a cozinha, que dá acesso ao quintal, assim como muitos outros cômodos. A cozinha, claro, é extremamente arejada, e organizada. Toda decorada em branco, com armários embutidos nas paredes próximas a porta pela qual eu havia entrado, e um grande balcão de granito no centro, em frente da pia de mesmo porte e material.
– Bom dia, Neide! -exclamo para a dona de casa da família Pavan, uma senhora de uns cinquenta anos extremamente simpática, que faz o melhor macarrão que eu já comi em toda a minha vida.
–Querida! Quanto tempo!- ela responde, sorrindo, parando de picar frutas para o que eu acho que viria a ser um ponche para mais tarde, para vir me abraçar.- A dona Roberta me disse mais cedo que você estava aqui, então fiz um suco pra você, meu amor. Espero que ainda goste de acerola, faz muito tempo que não vejo você por aqui.
–Obrigada, Neide. Gosto sim, amo acerola.- me digo, sentando num dos banquinhos almofadados encostados no balcão central da cozinha, enquanto gentilmente Neide me traz um copo do tão famoso e aclamado suco.
Vou para o quintal, onde vejo Roberta com o marido, Doutor Antônio -um aclamado professor de Direito, no caso, meu professor.- ordenando funcionários na organização de mesas e na decoração geral. Pelo visto, tudo ficaria fenomenal: toda a parte externa da mansão estava decorada com fitas douradas e prateadas, e não havia um detalhe que não esbanjasse luxo.
–Bom dia, professor! — digo, acenando para ele, que estava a uns vinte metros de mim. Ele me responde com um ''oi'' amigável e um aceno, para depois continuar na organização da festa que ocorreria a noite.
Volto para dentro da mansão, e subo silenciosamente até o quarto de Amanda. Vejo a cama bagunçada, mas não vejo ela lá. Entro no quarto com os braços cruzados, olhando para os lados, os pensamentos divagando entre ''Onde ela tá?'' e ''Ele vem?''. Sinto algo tocar meu pescoço, e me viro, num movimento súbito, enchendo os pulmões de ar.
–Oi. -ela me diz, rindo. Reviro os olhos para ela, e cruzo os braços novemente, encarando-a com meu olhar de ''você vai morrer, querida'', por fatídicos três segundos. Até que eu rio, e então, começo meu dia, que viria a se resumir em um pote de sorvete, quatro litros de Coca Cola, e uma temporada de Arrow na companhia de Amanda, que dizia ''Nossa, que cara gostoso.'' a cada ator que aparecia na série.
Quando me dou conta, já são sete horas da noite, e eu ainda tinha que ir em casa pegar meu vestido, o qual fora adquirido depois de um processo extremamente produtivo para mim. Fora o fato de não poder ter comprado besteiras por um mês. Afinal, muita gente com grande poder aquisitivo estaria presente, uma obrigação presente, embora invisível, era a de causar boa impressão.
–Amiga, vou indo pra casa, mais tarde eu volto. — digo, andando até sua escrivaninha novamente para pegar minha bolsa.
–Ok, Fer. Eu vou até seu carro contigo.
***
Ao abrir a porta de casa, me sinto reconfortada pelo cheiro de lavanda da faxina que eu havia feito, alguns dias atrás, e me espanto pelo aroma ainda estar presente. Vou até o banheiro, tiro minha roupa surrada,- admitindo que eu transmiti uma imagem relaxada de mim mesma para todos ao meu redor- e ligo o chuveiro.
Me enrolo em minha toalha e vou até meu quarto, deixando-a cair e abrindo o guarda-roupa. Retiro dele um vestido longo, dourado na altura dos ombros, que viria a escurecer até um tom marrom-escuro, conforme fosse se aproximando do chão. O coloco com uma imensa facilidade, e me olho no espelho, assim como havia feito antes do jantar com Rafael.
Novamente, encaro profundamente meu reflexo, e digo:
–Fernanda Abigail Almeida, você é linda. — sinto aquela garota sexy e segura de si voltando a vida.
Depois de secar meu cabelo e me maquiar, resolvo olhar no relógio, e vejo que já são oito e meia. A festa começaria as dez, mas Amanda queria que eu chegasse adiantada. Ponho meu par favorito de salto-alto, um esplendoroso Jimmy Choo, dado pelos pais de Amanda em comemoração a minha graduação, e vou em direção ao meu Fiat 500, me preparando para uma magnífica e luxuosa festa. Ligo o carro e o rádio começa a tocar uma música que eu diria ser muito oportuna. ''A Night to Remember'', de uma banda chamada Foreigner.
''Yeah, we're gonna make tonight
A night to remember
Yeah we're gonna take tonight
Right to the end.''
Chego em frente a mansão da Família Pavan, hipnotizada pela decoração final. Holofotes estrategicamente posicionados emitiam um brilho dourado que iluminava a frente da construção, e, mais a frente, uma fonte que eu nunca havia percebido que existia, emanava um brilho prateado através de uma estátua de cupido. Em meio a um jogo de luz e sombra causado pelos holofotes, é possível observar uma simetria, que dava a vaga idéia de perfeição. Desligo os motores do Fiat 500 no estacionamento ainda vazio, e desço do carro. Desço para uma noite quente, de céu aberto, com muitas expectativas. Antes de voltar para a Vindicta, ontem a noite, eu e o André havíamos ido para um bar ligeiramente familiar no centro da cidade, daqueles com cardápios de couro, tábua de petiscos e balas de café abandonadas a tanto tempo em potes de vidro que provavelmente já estavam todas vencidas, e eu convidei ele para a festa. Gostei dele, ele me parece ser uma boa pessoa, um bom amigo. Mas não espero que ele venha, de acordo com ele, ele já tinha compromisso. Apesar disso, ainda havia uma esperança.
Ando até a porta da mansão, e toco a campainha. Alguns segundos depois, Amanda abre a porta, e eu olho espantada para seu vestido branco perfeito, num estilo que remete à Grécia, e com seus cabelos ruivos num coque, presos por um adorno prateado salpicado por pequenas pedras verdes, que eu não tinha a menor dúvida de serem esmeraldas. A abraço, e deixo ela me puxar pelo braço até seu quarto, que, sinceramente, já estava cansada de visitar no dia de hoje. Ela arranca violentamente seu celular do carregador, e me mostra seu feed de mensagens do Whatsapp. Vejo um número, e uma foto à esquerda que me remete uma face familar, e bem recente, acompanhada da seguinte mensagem:
André da Fer — quarenta minutos atrás
Oi, é o André. Sobre a Fernanda ter me convidado para a comemoração... Não vou ser um incômodo? E se não, qual o endereço? Valeu ;)
Sorrio, lendo o endereço logo abaixo. Ele viria.
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