Zelus, Vindicta

8 New Year's Eve - Parte 2


Notas iniciais
Continuação, e tudo o que vocês queriam.

Fernanda Abigail

31/12/2014

Os convidados começaram a chegar, e os carros que estacionavam no grande estacionamento da mansão eram espetaculares, como um Aston Martin laranja, e um Porsche 911 Turbo prateado. Claro que, perto deles, meu Fiat500 era insignificante, mas se eu for avaliá-los no quesito sentimentalidade, o meu pequeno carro ganha com honra. Apesar disto, neste momento eu estou espiando pelas cortinas de seda da sala-de-estar da mansão, com um frio na barriga notável e ponderoso.

Olho para trás e vejo Amanda em seu formidável vestido branco, esparramada no sofá, mexendo suas pernas para cima e para baixo, trocando mensagens com alguém- alguém que eu tenho uma leve impressão que viria esta noite.

–Manda, quer ir lá fora? Já tem bastante gente, e já estão servindo aquelas perfeições chamadas petiscos. — ela dirige seu olhar para mim, e nesse momento cruzo os braços, mordendo os lábios impacientemente- E eu tô com fome.

–Beleza! -ela diz, se levantando do sofá, uma mecha de seus cabelos ruivos caindo do coque delicadamente, e me puxando pelas mãos de uma forma ligeiramente bruta, arrastando-me para o quintal.

Várias mesas redondas estavam dispostas na parte de trás da mansão, por onde um longo gramado se estendia, até os limites da propriedade, cada uma decorada com velas ou com um belíssimo vaso de rosas brancas. Algumas delas já ocupadas por membros ilustres da alta sociedade, como a família do prefeito da cidade, e também Rachid, dono de uma das maiores empresas do país: a tão renomada indústria química TargBlond Corporações. Aceno para ele discretamente, e ele sorri para mim, levantando uma taça de champagne.

Sento na mesma mesa de Amanda, que continua vidrada em seu celular, mas depois de alguns minutos de tédio, os quais foram tão duramente suportados observando a vela de nossa mesa queimar lentamente, mas decido ir buscar comida, afinal, este foi um dos motivos que me fizeram vir para os fundos da mansão. Ando até o fenomenal buffet e pego um dos pratos estilizados especialmente para a ocasião, dourado e prateado. Me sirvo de um pouco de tudo, abusando um pouco nas frutas, especialmente nas uvas, e também nas torradinhas. Amanda me contara mais cedo que iriam fazer crepes, e eu neste momento estou apaixonada pela ideia.

Sinto meu celular vibrando dentro de minha bolsa, e me deparo com a foto de Rafael.

***

–Pai, se estiver por aí, por favor me ouça. — a loura dizia, olhando para o Oceano, seu lugar favorito, com as ondas geladas do mar batendo em seus joelhos, respingando em sua saia.- Eu sei que já fiz muita merda nessa vida, e tudo piorou depois que perdi você, e eu sei também que você nunca gostou dessa ideia louca de vingança, e que eu causei sua maior decepção, mas isso vai acabar, pai, eu sei que vai.

Dandara sentia a água gelada em suas pernas e a areia se movimentando sob seus pés. Ela amava esta sensação, mesmo depois de tudo o que passara na água salgada. Lembrava de seu passado, e de como ele era nojento, vergonhoso para toda sua família, como passava várias noites nas ruas, procurando o amor de sua vida em meio a canalhas desesperados por trair suas respectivas companheiras. Também revivia todas as dores da manhã seguinte, por vezes abandonada, até que alguém apareceu, uma exceção à regra, que não a abandonou. Um alguém que havia lhe dado abrigo em momentos que sua casa não era um ambiente seguro, o homem que a havia proporcionado a entrada para o mundo do luxo e do dinheiro, mundo que ela nunca saíra, mesmo que tivesse de tomar medidas dramáticas.

Sua mente é um labirinto complexo, impenetrável, tanto como seus olhos esmeralda, e ela só não poderia mais suportar a dor, que a queimava internamente. E não suportava o ódio e a tristeza que a assombravam todas as noites, e mesmo que já tivesse tirado quase todos os obstáculos de seu caminho, alguns ainda permaneciam. Mas seriam brevemente eliminados, de maneira estratégica. O principal restaria, saberia que seria o próximo, o Rei. E quando a peça do Rei é derrubada, xeque- mate.

Ela estaria livre.

***

Continuo olhando para a foto de Rafael em meu celular, foto que costumava ser minha favorita, com nós dois e o cachorro dele, um pug preto chamado Ximenes, cada um de nós dando um beijo em cada bochecha do pug, enquanto ele botava aquela linguinha fofa para fora da boca. Águas passadas. Ignoro a ligação, e ponho o celular encima da mesa, voltando a comer minhas uvas e a conversar com Amanda, que está profundamente interessada em fazer uma torrada queimar na chama da vela. Sendo mais específica, ela queimava uma torrada e eu uma azeitona. O que o tédio não faz. Não cheguei a comentar com ela sobre a ligação de Rafael, já que um ódio por ele -que eu compreendo perfeitamente.- havia florescido, e eu não queria estragar sua noite. Meu telefone volta a vibrar acima da mesa, e eu o pego violentamente até descobrir que não era Rafael retornando. Vejo uma foto minha com André, no bar em que fomos após o envenenamento na boate. Vejo meu rosto de embriagada, com pálpebras caídas e um sorriso exagerado, daquele tipo de sorriso com intuito de seduzir terceiros, e ele rindo da minha cara, segurando uma garrafa d'agua que eu deveria estar bebendo.

Sorrio para a foto, e atendo o telefone.

–Fer?

–Oi! Tudo bom contigo?- digo ansiosamente.

–Você fica muito linda com este vestido. — ele finaliza a ligação, desligando-a, e eu me viro, vendo ele em pé, a alguns metros de mim, em seu rosto um sorriso aberto, sob sua barba por recém-aparada, vestindo uma camisa polo branca e uma calça jeans simples, juntamente com um sapato social. Aos olhos de um especialista, não era uma combinação adequada à situação, mas ele estava lindo. Ando até ele, abraçando-o fortemente, falhando em conter a felicidade.

–Eu disse que vinha, não disse? -ele diz, encerrando o abraço e encarando-me, seu rosto a alguns centímetros do meu.

–Disse. -apoio minha cabeça em seu peitoral.- E fico feliz por isso.

Olho por seus ombros e vejo seus dois amigos de trabalho, Paula e um outro que não lembro o nome no momento, não cheguei a conversar com ele. Paula trajava um vestido prateado que combinava com sua sandália, igualmente prateada. Ando até ela, cumprimentando-a com um beijinho na bochecha, e o mesmo com o outro amigo, que vestia uma camisa de linho branca, e uma bermuda branca também, um conjunto simples e informal, porém super funcional.

Os guio até a mesa em que eu e Amanda estávamos sentadas, e a conversa flui com uma facilidade impressionante, enquanto os fundos da mansão se enchiam de convidados. De vez em quando captava Paula me olhando, mas ela desviava o olhar assim que eu percebia. Dentre os assuntos citados, falamos de religião, trabalho, esportes e expectativas para o ano que começaria, assim como elogiamos profundamente e sinceramente a comida que fora servida.

Olho para o horário no meu celular, e vejo que só faltam vinte minutos para a virada de ano. E eu preciso ir ao banheiro, urgentemente. Peço licença a Amanda e a André, assim como aos seus amigos, e me dirijo para dentro da mansão. O banheiro mais próximo da saída para os fundos da mansão é localizado ao lado da sala-de-estar, pela qual poderíamos entrar através de outra passagem, já que a cozinha estava ocupada pelos trabalhadores contratados. Roberta está na sala, conversando com algumas amigas suas, e quando me vê acena para mim. Tento abrir a porta do banheiro, mas ele está sendo utilizado. Me encosto na parede e aguardo pacientemente sejá lá quem for desocupá-lo. Pego meu celular, que trouxe instintivamente em minhas mãos, e o desbloqueio. A foto de André aparece novamente, e eu a encaro por algum tempo, até que Neide sai do banheiro, maquiada e num vestido cinza bem adequado para uma senhora de sua idade. Cumprimento-a, e ela se dirige à Roberta, se metendo na conversa.

Corro para dentro do banheiro, aproveitando meus últimos momentos do ano. Só restavam cinco minutos de 2014, e eu não tinha a intenção de passá-los num banheiro, por mais luxuoso e espaçoso que fosse. Saio do banheiro e não vejo mais Roberta, nem suas companheiras, que muito provavelmente já devem ter ido para os fundos da mansão, mas vejo André.

–Mandaram eu te procurar. -ele disse, abrindo um sorriso brincalhão.- Tá tudo bem?

–Tá sim. Brigada por se preocupar. — eu digo, com uma expressão agradecida em meu rosto.

André anda em minha direção, proferindo as palavras: ''Eu sempre vou me preocupar com você'', e para a alguns centímetros de mim, ambos estáticos, e ambos com um desejo ardente em seu interior. André pega em minha cintura rapidamente, e eu me penduro em seu pescoço, assim como havíamos feito na boate, mas dessa vez, sem o efeito do álcool.

O beijo é quente e envolvente, e nossos corpos se colam, aumentanto a estática entre nós. André anda comigo, ainda me beijando, e me põe contra a parede. Entrelaço minhas pernas ao redor de sua cintura, ficando de sua altura, e ele leva suas mãos ligeiramente mais para baixo, a procura de mais apoio.

E em meio aos beijos, entramos no banheiro, trancando a porta atrás de nós, e nos despindo cuidadosamente, mas, ao mesmo tempo, aceleradamente. Pela primeira vez, vejo o corpo definido de André, quando ele tira sua camisa polo, e a joga sobre a pia. Ele anda para trás de mim e abre o zíper de meu vestido, que cai suavemente em meus pés. Arranco meus saltos com os próprios pés, os chutando, e sinto sua pele encostar em minhas costas, provocando um prazer intenso. Termino de despilo, e ele a mim, e por fim, nos amamos, num movimento rítmico e constante, ao som dos gritos de contagem regressiva dos convidados ao quintal, e logo após, aos sons de fogos-de-artifício. Olho de relance para a porta, e vejo a sombra de dois pés, que são ignorados devido ao prazer do momento.

***

A jovem de vestido prateado havia perdido todas as esperanças. O amor de sua vida estava transando com outra nesse momento, a pessoa que ela havia passado tantos anos amando! Era demais. Lágrimas brotavam em seus olhos, e pingavam no chão em grandes quantidades, em meio a soluços abafados. Ela só queria um lugar para se esconder, se isolar de tudo, e de todos.

Ela sobe correndo a escadaria principal, perdida, e se depara com um corredor, repleto de portas fechadas. Tenta abrir uma por uma, todas trancadas, mas sua persistência é maior. Testa a penúltima porta, também trancada, mas quando tenta abrir a última porta do corredor, ela abre, facilmente. Ela se depara com um quarto de hóspedes, contendo uma cama de casal vestida por um lençol branco perfeitamente liso, e um armário, provavelmente vazio. O que a chamou a atenção foi uma cadeira posicionada no meio do quarto, logo abaixo do lustre de cristais, um lugar perfeito para um enforcamento, dignode vários livros de mistério. Mas ela não iria fazer isto, ela só queria passar a noite lá, na cama.

E era isso que ela pretendia, até que ela viu uma corda jogada em um dos travesseiros. Aquilo seria tão fácil, e a vida... a vida é uma coisa tão difícil. No quarto escuro, que dava vista para o fundo da mansão, onde várias pessoas se embriagavam, ela tirou a própria vida.

E em algum lugar, no interior da mansão, a loura abria um pequeno sorriso. Um obstáculo a menos para o prêmio final.

E no momento, tudo o que ela queria era o xeque-mate.

Mas é noite de Ano-Novo, e ela iria poupar todos os outros obstáculos, mesmo que não tivesse outra chance igual a esta durante todo o ano seguinte. Todos estavam lá. Se divertindo, menos uma jovem estagiária no Zoológico Municipal. Menos uma jovem rica, cujo pai financiava secretamente um dos prostíbulos mais conhecidos da cidade, uma jovem esnobe, cujo pai havia transformado uma menina inocente em um pedaço de carne, que seria jogado no meio de vários homens famintos.

Mas ela teve sua vingança, e iria se vingar completamente. Ela sabia disso.

Notas finais
Hehehehe. Interpretem como quiserem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.