Zelus, Vindicta

3 Million Dollar Friend


Fernanda Abigail

29/12/2014

É quase meia-noite. Achei que havia chorado durante muito mais tempo, mas não alcancei duas horas. Paro de abraçar minhas pernas, e olho para a minha bolsa, caída no chão, a uns dois metros de mim. Engatinho até finalmente alcançá-la, sentindo a palma de minhas mãos em contato com o piso frio. Abro-a, e procuro meu celular, o qual não acho num primeiro momento. Nervosa, e ainda levemente embriagada pelo martíni, viro a bolsa no ar e chacoalho ela, até não ficar nada dentro.

Um batom, um desodorante, duas canetas, algumas balas de hortelã, moedas, e algumas notas fiscais amassadas. Merda! -penso- Não quero ter que voltar naquele maldito restaurante, depois daquele barraco. Não sozinha. Levanto do chão, passando a mão instintivamente em minha roupa para desamassá-la. Vou até o telefone fixo e disco o número da minha melhor amiga, também sócia, Amanda, rezando para que ela ainda estivesse acordada e me atendesse.

– Fer? -ouço sua voz pelo telefone, sonolenta.

–Oi Manda. — ''Manda'' é a maneira que eu a chamo desde o primeiro ano de faculdade, quando nos conhecemos.- Desculpa ligar agora, precisava falar com alguém, e preciso buscar meu celular.

–Tudo bem, amiga. Que que houve? Tá com uma voz tristinha. Quer vir aqui? — Sempre me impressiono com a hospitalidade dela, assim como toda vez que vou em sua esplendorosa mansão.

–Pode ser, obrigada. -eu respondo, com a voz aliviada.- Chego aí em uns vinte minutos.

Digo isso e desligo, sentindo a tensão de antes se dissipar. Cansada depois de todo esse dia, mas sem nenhuma vontade de me deitar, e ainda levemente alcoolizada, pego minhas coisas e coloco em minha bolsa. Ando até meu quarto, e pego um par de chinelos, não estou afim de andar de salto, ainda mais dirigir com eles. Vou até a garagem e entro no meu Fiat500. Dou a partida, e saio para a noite. Com o trânsito livre, não acho que vou demorar muito até a fenomenal mansão da família Pavan, mas de qualquer forma, assim que paro o carro em um semáforo, ligo o rádio em uma estação de música sertaneja. E passo o resto do percurso me identificando com cada música de decepção amorosa que toca.

Embico o carro em frente ao portão de ferro da mansão, e ligo para Amanda abri-lo. No primeiro toque o portão já se move, e eu entro com meu carro, estacionando ao lado do carro dos pais dela, uma Mercedes-AMG GT, prateada, e linda. O pai de Amanda é um ótimo amigo, e de vez em quando, deixa eu dirigir essa perfeição motorizada. Mesmo assim, nunca abandonaria meu Fiat500, foi a primeira coisa que comprei depois de formada. Amanda sai pelas grandes portas de entrada da mansão, com seus cabelos ruivos presos em um coque, uma camisa azul-marinho estampada com um coelho, e um moletom rosa. Sorrio, surpresa pelo traje não-habitual.

–Oi, amiga.- diz ela me abraçando.

–Oi Manda.

–Entra logo que tá frio.- ela diz sorrindo, e dando uma mini-corrida do meu carro até o interior da casa. Vou logo atrás, mais devagar, e grata por ter trago meu casaco. A propriedade dos pais de Amanda era um pouco isolada, só havendo outras duas mansões na avenida, uma a uns nove quilômetros acima, e outra bem próxima, acho que uns dois ou três. Como os grandes prédios da cidade estão um pouco afastados, aqui venta bastante. Entro na mansão, e Amanda fecha a porta atrás de mim, e então, me guia até seu quarto, subindo a escadaria principal. Subo os degraus e entro em seu quarto, todo em tons pastéis, uma cama queen-size no centro, tendo a sua direita uma estante magnífica de livros, e a esquerda, a gigante tela de seu iMac. Amo aquele computador, mas me contento com o meu pequeno PC, que nem sei a marca direito. Amanda senta em sua cama, e eu sento na cadeira do computador.

–Me conta direito, mulher.- ela começa- que que aconteceu?

–Ontem foi o aniversário de dois anos do meu namoro com o...Rafael,-completo, engulindo a vontade de chorar.- e quando eu cheguei no restaurante que ele tinha marcado comigo, eu vi ele com uma outra mulher, aí -acelero a fala- ele levou um tapa da mulher, uma joelhada na virilha e eu beijei o garçom. -termino o meu mini-discurso cabisbaixa, não me atrevendo a encarar a Amanda, nunca tinha feito tamanho... barraco, sendo sincera, e estou com muita vergonha no momento.

–Eita. -ela diz, descruzando as pernas e andando para trás de mim, apoiando suas mãos em meus ombros.- Não creio que o Rafael foi tão vagabundo assim. Meu Deus. A propósito, achei a joelhada sensacional.- ela diz, e eu rio um pouco.

–Eu só quero esquecer ele, sabe? Caramba, chorei duas horas direto, e você sabe que eu não sou assim. Na verdade, se ele quiser voltar com o namoro, ele vai levar um puta não como resposta, mas enquanto eu não dou uma resposta definitiva pra ele, quero deixar ele sofrendo um pouquinho. -ouço ela rir-, ou sei lá, só dar o troco.

–Fernanda Abigail, -Amanda começa, se ajoelhando à minha frente- você me daria a honra de ir pra balada comigo?- Encaro ela, e ela me encara, levantando a sobrancelha em sinal de desafio, e estendendo a mão. Tenho um ataque de risos, dando a mão pra ela, e me deixando ser levada para o seu closet, onde vejo muitos vestidos, sapatos, sandálias, e tudo que o dinheiro pode comprar. A esquerda as roupas de trabalho de advogada, sendo divisível pelas cores preto, branco, marrom, e bege. A direita, os vestidos de baile, noite, e os que, de acordo com a Manda, se chamam ''vestidos da night''. Compostos por neons, estampados e organizados por cor, eles vão do preto ao branco, passando por laranja, vermelho, rosa, verde, e tudo o mais. Amanda escolhe um vestido preto brilhante, que com certeza marcaria todo o seu corpo de academia, e escolhe um par de saltos qualquer. Me olho no espelho, e percebo que minha maquiagem está exageradamente borrada, e vou ao banheiro limpar, assim, me preparando para a noite que ainda estava começando.

***

Na frente de uma das boates mais luxuosas da cidade, a Vindicta, um Altima preto estacionava, e descia dele uma mulher loura, com seus olhos-esmeralda destacados por seus lábios vermelhos. O vestido preto e cinza estava no porta-malas do carro, com muita areia para o gosto dela, mas como ela só estava com aquele par de sandálias, o jeito foi continuar com ele, alguns grãos de areia não iriam incomodá-la tanto.

– Senhorita Dandara, não esperava te ver por aqui esta noite.- disse um dos seguranças da boate, acenando com a cabeça para sua chefe.

–A vida é cheia de surpresas, não é mesmo? — ela retruca, mordendo o lábio inferior quando encara o segurança, entrando na boate. Ela sobe ao camarote, esperando ansiosamente duas visitantes em sua boate, os olhos atentos como os de uma águia, aguardando sua presa.

Notas finais
Eu sei que não tivemos aquele drama bem loco que rolou nos dois capítulos anteriores. Maas, como nem tudo são flores, haverão outros assim. Próximo capítulo vai rolar polêmica sim HUASUHASUHAS