Yuki Onna

2 O inverno...


O inverno na província de Hokkaido é belo. Suas nevascas cobrem paisagens inteiras de neve, um cobertor branco e brilhante que esconde tudo e cria paisagens únicas. O inverno é impiedoso, pois traz consigo o frio. Não um friozinho gostoso que pode ser facilmente contornado ao ficar dentro de casa perto do braseiro, mas aquele frio que congela, que se infiltra nas veias, enrijece as articulações, corre pelo sangue até chegar ao coração, puxando toda a sua energia e calor. O inverno é atemorizante, pois o Oyashio uiva implacável, espantando toda a vida por onde passa.

A manhã gelada é consequência da nevasca da noite anterior e que prometia se repetir pelos próximos dias. Com o frio, ninguém se atrevia a sair de casa e os estoques de madeira desvaneciam depressa.

Natsu colocou mais uma tora no braseiro, já estavam na metade do pequeno estoque. A família dormia enquanto a mãe aquecia a água para a primeira refeição do dia. Amaya levantou cedo e prontamente começou a ajudar a mãe. Yukiko acordou logo em seguida, oferecendo-se para ajudar também. Amaya faz uma pequena careta. Uma ideia perversa lhe percorreu a mente, ela era apenas uma criança, e como tal, a maldade lhe era natural.

– Vá buscar gravetos no bosque. Sempre deixam alguns restos por lá, assim não gastamos nosso estoque.

Yukiko dá de ombros e abre a porta. Ela veste apenas seu nagajuban, Amaya dá um risinho e Natsu nada diz sobre a menina sair apenas com roupas de baixo. Natsu não era má com a menina, apenas indiferente, muitas vezes agindo como se não a visse, como se a ignorando fizesse com que a menina não existisse.

Yukiko não se importava, achava que seu pai era o suficiente. E quando não estava com o pai, aproveitava qualquer momento para ficar longe de casa. Ela pegou o zori do lado de fora, coberto de neve e sujo, olha para ele consternada, suas tiras de tecido estavam manchadas.

– Eu não vou usar esse chinelo sujo!

E parte usando apenas a tabi, sentindo a neve molhar suas meias. Entre as árvores ela canta suas cantigas infantis que seu pai lhe ensinou, ou as que escuta seus irmãos cantando. Ela recolhe um galho ou outro que encontra. Enquanto canta e gira, dançando ao som de sua própria música, uma névoa começa a surgir e o vento sopra.

Yukiko para atenta, parecia que alguém estava gritando no meio da névoa. Impelida, ela caminha em direção à parte mais densa da névoa, como que hipnotizada por uma voz chamando seu nome. De repente, uma mão no seu ombro a faz pular assustada. Um homem está na sua frente olhando com olhos curiosos.

– Está perdida? O que faz aqui fora com essas roupas? Vai congelar!

Yukiko olha para o homem e depois para suas mãos. Elas parecem azuladas.

– Mas eu não estou com frio.

O homem olha incrédulo, mas pensa: “Crianças são teimosas mesmo.” Quase não viu a garota, pois além da névoa repentina que apareceu, o nagajuban branco a camuflava na neve, somente o cabelo negro era visível. E ao puxar a pequena pelo braço, ele sentiu um frio correr por seus ossos. Não o frio do dia, nem o frio da neve ou do Oyashio. Algo mais mortal e cruel, sugando sua energia vital, como se sua própria vida o tivesse deixando. A cor de sua pele corada de frio tornou-se transparente e os seus cabelos castanhos ficaram tão brancos quanto a neve que o cercava. Antes de se dar conta do que estava acontecendo, ele já estava no chão morto congelado.

Yukiko não gritou, nem suas mãos tremiam. Ela sentiu a onda de calor correr por seu corpo, olhou para cima e, embora a névoa tenha se dissipado, o céu continuava fechado e o sol não tinha aparecido. Ela correu tentando se afastar o máximo que pudesse do cadáver branco. Aconteceu de novo e ela não entendia o que era.

Ao correr sem olhar para onde ia, ela se choca com alguém. Seu pai. Noboru a segura antes que ela caia no chão e por um momento um pensamento chocante passa na sua mente de seu pai congelando instantaneamente. Ela tenta se soltar, mas o pai a segura firme falando tranquilizadoramente.

– Yukiko-chan, está tudo bem. Papai está aqui agora.

Só então Yukiko se permite chorar e abraça forte seu pai. Em nenhum momento ela conta o que aconteceu. De mãos dadas, eles voltam para casa. A trilha deixada por eles na neve mostrava apenas um único par de pegadas.

Notas finais
Nagajuban é um kimono de algodão, geralmente branco, que vai por baixo do kimono propriamente dito. Tabi são as meias de algodão com a divisão para o dedão do pé. Zori são sandálias de palha de solado plano.