Yuki Onna

3 Osoushiki...


Yukiko lavou seu rosto com a água fria, a água que escorreu pelo seu pescoço lhe arrepiou a pele. Sem ânimo, começa a trocar de roupa, primeiro vestindo seu nagajuban e o amarrando com um cinto datemaki. Ela se concentra na tarefa, tentando esquecer os pensamentos que a atormentaram a noite inteira, não a deixando dormir. Ajustou o seu kosode branco, a peça principal, vestindo-o por cima do nagajuban colocando o lado esquerdo por cima do direito. Um pensamento funesto de inverter esta ordem lhe passa a mente. O lado direito só é posto por cima do esquerdo na ocasião da morte. De certa forma, ela não morreu hoje também?

Yukiko respira fundo e pega seu obi. Dobra-o com cuidado, e põe sobre o ombro, medindo a altura exata. Enrola o tecido em volta da cintura duas vezes e o puxa para firmar. Dobra o obi sobre si mesmo, desmancha e tenta de novo. Suas mãos tremem, o que dificulta ainda mais o trabalho, mas ela não reclama, apenas tenta de novo. Pega o Obijime, cordão decorativo de seda, e o amarra para dar acabamento e firmeza ao seu obi. Um leve sorriso aparece no seu rosto, finalmente conseguira prática o suficiente para amarrar seu obi sozinha.

À sua frente está uma caixinha de madeira, dentro um kanzashi. Ela passa a mão no pente em madeira laqueada, presente do seu pai para a sua Seijin Shiki, a Cerimônia de Maturidade, no mês que vem. Ele nunca a veria usando.

Logo amanhecerá e o osoushiki acabará. Ela pisca antes que as lágrimas que insistem em aparecer voltem a cair. Não foi permitido que ela que tocasse o rosto do seu pai ou que se sentasse ao lado dele enquanto dormia pela última vez no seu futon. Porém, ninguém a impediria de acompanhar a procissão até o templo.

Quando o corpo do pai está saindo da casa, ela está do lado de fora esperando junto com os outros moradores da vila. Todos a olharam admirados e sussurraram uns para os outros. Com quase 20 anos, Yukiko se tornou uma jovem alta e bela, sua pele parecendo ainda mais alva que seu kimono e seus lábios mais vermelhos que o obi. Os cabelos negros e brilhantes estão soltos e chegam até a cintura, o pente é o único adorno que ela usa. Poucos percebem que a moça está descalça na neve.

O outono se fora mais uma vez, levando consigo Noboru, que morreu velho enquanto dormia. O inverno veio rápido. Enquanto caminham, a névoa desce sobre a vila, dificultando o andar. Yukiko caminhava ausente, semiconsciente do que estava acontecendo ao seu redor. Quanto mais se aproximavam do templo, mais espessa a névoa se tornava. Quando Yukiko entrou no pátio do templo, já começava a nevar.

O monge começa a recitar os sutras e Natsu lidera as últimas homenagens. Pega uma vareta de incenso, acende-a numa vela e a coloca em pé na tigela com areia e cinzas, fazendo uma rápida oração e cumprimentando o corpo. Depois ocupa seu lugar na primeira fila do altar. Yukiko é a última dos irmãos, sendo depois até mesmo de Yasuzo, o caçula. Ela não se importa. Porém, quando Natsu a impede de pegar o incenso, declarando a todos que ela não faz parte da família e que não tinha direito de vir antes dos seus netos, Yukiko se inflama. O ódio no seu olhar traz o horror ao rosto de Natsu. A névoa e a neve do lado de fora entram no templo e cobrem todo o lugar. As pessoas estremecem com o frio repentino e feroz.

Ninguém se mexe ou vê um palmo diante de si. O branco predomina e o silêncio se torna insustentável. Com o tempo, a névoa se dissipa. Natsu está morta no chão, congelada. Yukiko desapareceu. E na tigela há uma sétima vareta de incenso.

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Símbolo de mau presságio, a névoa carregava consigo os rumores sobre um espírito maligno, de aspecto belo, com longos cabelos negros, vestindo um kimono branco e tendo lábios vermelhos. Com sua pele pálida, quase transparente, ela se mistura com a paisagem branca, flutuando na neve, sem deixar pegadas. Apesar de sua beleza, seus olhos trazem o horror aos que o encaram e o espírito usa seu hálito e toque gelados para deixar os viajantes como cadáveres revestidos de gelo, ou simplesmente os leva a se perder para que morram na neve. Desaparecendo em seguida numa nuvem de névoa e neve.

Ela é chamada pelos moradores de Yuki Onna.

Notas finais
Yukiko significa Filha da Neve. No Japão os nomes estão relacionados a eventos envolvendo a pessoa que o recebe, então seria apropriado fazer o mesmo nesta história. Obrigada a todos que leram. Espero que tenham apreciado tanto quanto eu apreciei escrevê-la.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!