Yuki Onna
1 No início...
Notas iniciais
No lago Akan há um barquinho solitário. Um pescador busca o seu sustento, os salmões vermelhos, enquanto tenta combater o frio de final de outono que parece se instalar nos seus ossos. O sol já começa a morrer no horizonte e o pescador olha seu cesto desanimado, não conseguiu nem a metade do que pretendia.
Com a ajuda de seu filho, ele puxa a rede vazia e recolhe suas varas. À sua frente está o monte Oakan. Embora não seja alto como o monte Asahi, Oakan não deixa de ser uma vista imponente e bela, as nuvens cobrem seu pico branco e a névoa desce até a vila ao sopé. Para lá o barco navega.
Na vila, a névoa é vista como uma visita dos espíritos da montanha, trazendo a neve e o frio. Particularmente, Noboru gostava da neve e do frio, de ficar com a família reunida no kotatsu, aquecendo os pés perto do pequeno braseiro embaixo da mesa coberta por um enorme cobertor que não deixava o ar quente escapar, enquanto comiam tangerinas. Com estes pensamentos ele chega em casa.
Uma casa simples e uma família grande. O mais velho, Taro, forte e robusto, está juntando lenha para a noite. O pai pensa na falta que ele fará quando se casar no próximo ano. A filha Tomoko, uma mocinha inteligente e calma que dará uma bela esposa um dia, ajuda sua mãe com a refeição. Amaya dobra as últimas roupas, seus dedos hábeis a tornam capaz de realizar a tarefa mesmo no escuro. Enquanto Yasuzo, o caçula de quatro anos, está brincando com o velho cão.
– Onde está a Yukiko?
– Aquela esquisita sumiu de novo!
– Tomoko, não fale assim da sua irmã!
– Pai, ela não é nossa irmã! É só uma aberração que você encontrou nas montanhas. Aposto que ela foi pra lá. — Shinji, o segundo filho parado ao seu lado, retruca.
Noboru suspira, não importa quantos anos passem, os filhos se recusam a aceitar a pequena Yukiko na sua família com a mesma intensidade que o fizeram quando trouxe aquele bebê para casa. Sua esposa Natsu também parece rejeitá-la, reclamando ser mais uma boca para alimentar.
Pegando sua lanterna, ele sai de casa para procurar Yukiko, pegando o caminho para longe da aldeia em direção a Oakan. Quanto mais se aproxima das árvores ao redor, mais frio parece ficar. Noboru começa a chamar pelo nome da pequena, sendo sua voz abafada pelo vento Oyashio impiedoso que sopra. Logo, uma garoa fina, parecendo neve começa a cair e torna a caminhada ainda mais difícil. Noboru começa a se preocupar, e se alguma coisa aconteceu com a pequena Yukiko?
Uma voz harmoniosa e suave se faz ouvir, cantando uma cantiga infantil.
“Kogitsune konkon
yama no naka yama no naka
kusa nomitsubushite
okeshou shitari”
E avista a dona da voz sentada num tronco oco. Com os olhos fechados, ela se embala sem sair do lugar. Seu corpo se é pequeno para seus oito anos e seus cabelos voam ao vento rebeldes. Noboru sorri e toda sua preocupação vai embora. Ao ouvir a última linha da canção, ele canta a última frase enquanto se aproxima do tronco.
– Momiji no kan zashi tsuge no kushi.
Yukiko abre os olhos espantada, mas logo seu espanto se torna alívio e ela dá um tímido sorriso. Noboru nota os olhos aguados e senta ao lado dela. No colo da menina há um filhote de raposa enrolado e sem se mexer.
– Yukiko-chan, o que aconteceu?
– Ele morreu.
– Ah, querida. Deve ter sido o frio.
O pai consolou a criança da melhor forma que pode, cavou um buraco com a ajuda de um pedaço de madeira e ali enterrou o filhote. Com a pequena Yukiko no colo, o pai voltou para casa. Durante todo o trajeto, a menina olhou para o local onde a raposa estava enterrada. Ela nunca contou ao pai que o filhote estava alegre e saltitante quando o pegou no colo.
Fale com o autor