You've got the Sunrise
5 Capítulo 5 - Emma.
Notas iniciais
Tive que, praticamente, correr pela minha vida quando o intervalo terminou. A coordenadora ranzinza gritava para que entrássemos logo na sala, mesmo que alguns casais ainda estivessem levantando as calças e que algumas meninas tivessem borrado o rímel como Keith.
– Ela me deve uma maquiagem completa! Olhe como eu tô ridícula! — ela falou, mostrando os olhos, cujos cílios tinham tanto rímel que estavam embolotados e davam a impressão de que o fato dela estar de olhos abertos a fazia uma campeã de supino. — Borrou um pouquinho e agora ela me deve uma maquiagem completa!
Bufei internamente. Keith podia até ser uma boa companhia às vezes, mas, na maior parte do tempo é insuportável tê-la por perto. Agora é um dos momentos insuportáveis. Simplesmente a deixei no banheiro consertando a merda da maquiagem e saí para a aula de Artes. Ou pelo menos tentei, já que, logo que saí, trombei com alguém e acabei derrubando meus livros no chão.
– Desculpe... Emma, certo? — ele perguntou.
– Sim. — respondi olhando para ele. — Cole.
– Você sabe meu nome? — ele perguntou, um tom tão baixo que eu não escutaria se não estivesse acostumada a conversar com Mia.
– Você falou na aula de química.
– As pessoas não costumam lembrar meu nome.
– Sou boa com nomes. — dei de ombros. — Agora, com licença. Eu preciso ir para a aula de artes. A bichona vai arrancar minha cabeça fora se eu me atrasar.
– Quem? — olhei para Cole, confuso, e foi aí que percebi que tinha chamado o professor de bichona. Ele era mesmo, mas eu não podia sair espalhando pelo colégio que ele já quis pegar o tio Scott. E, bem, ele era pai da minha "melhor amiga", ou seja, eu não podia falar nada.
– O senhor Hughes.
– Ah. Também tenho que ir para a aula dele.
Quando entrei na sala, levemente atrasada e com os gritos da coordenadora ao meu encalço, meus olhos começaram a rastrear um lugar para sentar.
– Senhorita Geller. Sente-se aqui, por favor. — o professor pediu, apontando o segundo lugar da fileira bem ao lado da mesa dele.
Merda.
Mesmo relutando, acabei sentando do lado da mesa dele. Para minha sorte, não fui a única obrigada a sentar perto do professor. Mia também havia chegado um pouco atrasada e teve que sentar ao meu lado. Cole sentou na frente de Mia. Chegava a ser estranho ver Mia na escola sem Ethan do lado, afinal eles faziam todas as aulas juntos. Bem, menos essa. O tio John continuava sendo diretor da escola e meio que proibiu Ethan de assistir as aulas de artes. Ele tinha bons motivos para isso, já que, logo que Ethan punha os pés na sala, o senhor Hughes o mandava sair de sala e começava a rir escandalosamente. Quando alguém perguntava o que era, ele simplesmente respondia que a vingança é um prato que se come frio. Isso aconteceu por uma semana seguida e, bem, o tio John acabou proibindo Ethan de assistir as aulas, já que ele ia acabar sendo reprovado desse jeito. Mas isso não importa.
– Olá meus amores! — a bichona, ops, o professor, falou balançando seu mega hair loiro de um lado para o outro. — Hoje vamos pintar uma cesta de batatas fritas!
– Mas não já pintamos isso na última aula de pintura? — Max (acho que esse é o nome dele) perguntou.
– Não! Aula passada vocês pintaram uma tigela de Ruffles.
– E tem diferença?
– Como assim se tem diferença? — o professor parecia prestes a infartar com a "estupidez" do garoto.
Preferi ignorar o professor a partir do segundo em que ele se indignou porque o garoto não sabia diferenciar Ruffles de batata frita. Também ignorei a explicação do professor sobre a diferença entre Ruffles e batata frita. Virei para Mia, mas ela parecia estar dormindo. Como assim Mia estava dormindo na aula? MEU. DEUS. DO. CÉU. Vai ter um apocalipse zumbi daqui a pouco. Em poucos dias vamos seremos todos do elenco de The Walking Dead. Olhei para os lados e só encontrei Cole.
– Oi. — sussurrei para ele.
– Oi. — ele respondeu baixinho, olhando para mim por um milissegundo e voltando a olhar para a frente.
– Porque ele sempre faz isso?
– Isso o que? — ele perguntou, dessa vez se virando de verdade para mim.
– Discursos sobre comida. Diferenças que não importam para ninguém. Como o fato do amarelo canário ser menos vibrante do que o amarelo fluorescente.
– Ah. Isso. É uma necessidade dele de mostrar ao mundo que ele está certo em alguma coisa.
– Isso se chama falta de xota*.
Quando eu disse isso, ele ficou olhando para mim com cara de abestalhado antes de piscar duas vezes e voltar a olhar para frente.
Eu fiquei discretamente observando Cole para ver o que ele faria enquanto o professor continuava a falar da diferença entre Ruffles e batatas fritas. O coitado fingia estar levemente interessado, mas dava pra ver, pelo seu olhar, que ele estava tão interessado quanto qualquer um de nós. Às vezes, eu notava seus pés mexendo impacientes ou batendo no chão num ritmo que só ele sabia qual era. Não podia ver o que suas mãos faziam, mas não deviam estar mais tranquilas de que os pés. Então ele era um nerd agitado? Um cara tímido, nerd e hiperativo ao mesmo tempo? Ou só uma alma incompreendida?
Fui tirada de meus devaneios pela voz chata do professor, que distribuía as telas e as tintas pela sala.
– Agora calem a boca e pintem as malditas batatas fritas, porque eu já estou por aqui com vocês.
O que importa é que eu tenho que dar um jeito de pintar uma cesta de batatas fritas e eu não herdei o dom da vovó com pintura. Ou artes. Afinal de contas, porque eu faço essa aula mesmo? Ah, é. Porque eu sou uma boa irmã e porque a mamãe quer que eu, ao menos, tente algo puxado para esse lado.
Tentei me concentrar no esboço a lápis que eu ia ter que fazer para poder pintar depois. Eu já sabia que ia ficar uma merda, então fiz de qualquer jeito. De vez em quando, olhava de soslaio para Mia. Ela tinha herdado o dom da vovó, totalmente ao contrário de mim. O quadro dela estava ficando simplesmente perfeito, enquanto o meu estava um cocô e mais parecia uma grande tentativa de fazer amarelo na tela ao invés de na paleta. Às vezes, também olhava para Cole. Seu desenho não estava perfeito como o de Mia, mas estava muito melhor do que o meu. E só pelo esforço que dava a entender que ele estava fazendo (mesmo de costas), eu percebi que não era à toa que estava bom. Voltei a me concentrar na minha pintura ridícula e passei o resto da aula assim. Tentando consertar a pintura e tentando não ser uma negação total com artes.
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Saí da aula de artes emputecida com o professor, com minha coordenação motora, com meus genes e carregando a pintura horrível. Mais uma para a pilha de ganhar ponto no fim do ano. Encontrei com Keith no corredor, sua maquiagem, aparentemente, consertada.
– A coordenadora te deu uma maquiagem nova? — perguntei.
– Claro que não. Mas ela disse que se fosse pra filha do professor de história ela daria. Isso é preconceito com artes! — ela reclamou, séria, como se estivesse falando da coisa mais importante do mundo. Enquanto isso, eu me controlava para não rir da revolta dela. — Ah! Meu pai reclamou que eu faltei a aula dele?
– Não falou nada comigo. — nunca fala aliás.
– Ainda bem. Eu não queria ter que pintar uma deserto.
– Isso é uma cesta de batatas fritas, mas chame como quiser.
– Ai, desculpa, miga! Eu sempre esqueço que você adora arte abstrata. — inspirei e expirei fundo.
Eu acho que já comentei que em certos momentos eu tenho vontade de arrancar a cabeça dela fora. Eu quero fazer isso agora. Borrar essa maquiagem estúpida e esse rímel embolotado com ácido. Faria minha vida tão mais fácil. Mas eu não posso fazer isso, afinal, ela ainda é uma pessoa.
– Ei, desculpa estar indo tão cedo, mas eu não quero me atrasar para a aula de história. — dei a desculpa mais esfarrapada que pude, mas eu queria sair dali logo, antes que eu arrancasse a cabeça dela fora. E assim saí. Sem nem me despedir. Que fique claro: Emma Geller é uma pessoa rancorosa ao extremo.
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