You're Driving Me Crazy!
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Darcy acordou Elisabeta com diversos beijos no rosto e no cantinho dos seus lábios. Ela pensou em fingir continuar dormindo para que ele continuasse se empenhando em acordá-la daquela maneira, mas em poucos segundos o sorriso no canto de sua boca não deixaram-na manter sua farsa.
— Hmmm… — Elisabeta suspirou à medida em que abria seus olhos para encará-lo. Ele aparentava estar acordado há diversos minutos, pois seu rosto não estava sonolento. — Se eu fosse você, não faria isso. Você está correndo o risco de eu não te deixar partir.
Ele coçou o próprio queixo, ponderando.
— Ah, mas eu gosto de viver perigosamente.
Elisabeta riu e o puxou para um selinho.
— Bom dia! — Ela disse.
— Bom dia. Aliás, ótimo dia.
Elisabeta pegou a mão dele para entrelaçar seus dedos. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos se entreolhando. Por fim, Elisabeta ganhou coragem para perguntar:
— Quando o navio parte?
Darcy procurou por seu relógio de bolso.
— Em menos de quatro horas. Preciso ir em casa buscar minhas malas.
Elisabeta analisou a expressão dele. Seus olhos estavam mais intensos que normalmente e pareciam… relutantes?
Ele estava relutante em partir?
Elisabeta respirou fundo, pois não era como se ele tivesse escolha. Ele não poderia lutar contra seu bom senso, seus deveres e a saudade que sentia de sua família. Por isso, ela decidiu tentar confortá-lo em relação à sua partida.
Assim, ela não poderia demonstrar que doía em seu coração saber que ele não estaria mais ali com ela por tanto tempo. Se ele precisava ser forte para se levantar e ir embora sem olhar para trás, ela ao menos o ajudaria a sê-lo. Elisabeta abriu um largo sorriso e, para que Darcy não notasse que seu entusiasmo era muito maior do que o que ela de fato sentia, se levantou da cama e disse:
— Charlotte ficará muito feliz em te ver. Ela vai estar de férias na Universidade?
Darcy respondeu e os dois começaram a conversar sobre amenidades. Eles tomaram o café da manhã e Elisabeta perguntou se poderia acompanhá-lo até sua casa e depois ao porto, e Darcy confessou que adoraria.
Ao chegarem à mansão, Darcy a levou para seu quarto para conferir se os pertences que planejava levar na viagem haviam sido devidamente guardados nas bagagens. Elisabeta se divertiu ao ver como ele era organizado. Ele segurava um papel onde havia feito uma lista em inglês de tudo o que precisava levar à Inglaterra e, à medida que se certificava se já havia guardado todos os itens, ele dizia “check” para si mesmo em uma voz tão baixa que Elisabeta precisava aguçar sua audição para escutá-lo.
Elisabeta tentou se lembrar se ele já havia dito algo em outro idioma para ela, mas nada veio à sua memória.
Uma pena, pois Darcy falando em inglês estava entre as coisas mais maravilhosas do mundo.
E ela sempre amou obras de arte.
Havia algo irresistível em Darcy naquele momento.
A educação de Elisabeta sugeria que ela se oferecesse para ajudá-lo na tarefa, mas, em vez disso, ela se sentou num sofá que havia no canto do quarto para admirá-lo sem que ele percebesse. Não foi muito difícil, pois Darcy estava tão concentrado que se encontrava alheio ao que Elisabeta fazia.
— Passport: check.
Darcy fez uma pausa e dobrou o punho de sua camisa por sentir calor, um gesto tão comum que Elisabeta já vira centenas de vezes desde que o conhecera, mas observá-lo fazendo isso dentro do quarto fez com que ela ficasse sem ar.
E com calores percorrendo seu corpo.
Ela engoliu em seco.
Darcy notou e fitou-a.
Elaisabeta fingiu observar suas unhas e ele voltou sua atenção à sua lista, mas desta vez ele não disse nada, nem mesmo o “check”; apenas assentiu para si mesmo.
Ela ficou desapontada.
— Vouchers: check. — Ele disse no item seguinte.
Ela sorriu.
Agora sim.
— Railway reports: check.
Irresistível, ela pensou novamente.
— Receipts folder: check.
Ah!
— Darcy!
Ele se virou para ela e piscou, surpreso pelo tom de voz dela, que saiu um pouco desesperado.
— Sim?
— Você pode perder cinco minutos?
Com um semblante preocupado, ele foi até sua cama e se sentou, ficando a alguns metros de distância de Elisabeta.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela assentiu e se levantou.
— Eu preciso conferir uma coisa.
Elisabeta caminhou em sua direção e praticamente se jogou em Darcy, beijando-o apaixonadamente.
Ele retribuiu ardentemente.
— Como se diz beijo em inglês? — Ela perguntou ao afastar seus lábios dele por um segundo.
— Kiss.
Elisabeta sorriu e murmurou:
— Kiss: check.
E depois Darcy a beijou novamente como uma forma de dizer que, juntos, os dois jamais perderiam cinco minutos.
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Após aquela despedida mais deliciosa que a anterior, os dois foram para o porto com o motorista de Darcy, que levaria Elisabeta de volta para seu apartamento quando ele partisse. Durante o trajeto, Elisabeta perguntou sobre Pemberley e tentou fazê-lo pensar em suas memórias mais felizes em relação ao lugar. Ela sorria genuinamente com as descriçōes dele e, desse modo, os dois conseguiram não deixar seus pensamentos serem guiados por sentimentos tristes.
Quando já era hora de Darcy embarcar, Elisabeta tirou a pulseira que Camilo e Jane haviam dado a ela na ocasião do pedido para ser madrinha de seu filho.
— Elisabeta… — Seu nome foi dito por Darcy como uma pergunta.
— Eu quero que você leve isto com você. — Ela colocou a jóia nas mãos dele. — É nosso laço como padrinhos, não é? Um laço que não vai mais se perder.
— Não vai.
Ele levantou o queixo dela e recostou sua testa na dela.
Será que ele sabia que, quando a olhava desta maneira, sua obstinação perdia força?
— Mas eu tenho segundas intenções em relação a este… presentinho. — Ela afirmou.
— Ah, é? — Darcy perguntou.
— Você precisa trazer ela de volta pra mim, está bem? Não importa o que acontecer, você precisa ao menos… ao menos voltar para visitar o Vale.
Ele sorriu.
— Serei feliz em cumprir esta promessa.
Os dois se abraçaram fortemente, sussurrando suas palavras de despedida.
E então se distanciaram seus corpos.
Depois soltaram suas mãos.
Por fim, fizeram o mesmo com seus olhares.
Mas não com seus corações.
Eles ainda não sabiam, mas isso seria impossível.
~~~~~
Darcy já estava acomodado na sua cabine no navio quando pegou o presente que Elisabeta lhe deu no seu aniversário. Ele havia passado dias observando o embrulho vermelho que deixou sobre a escrivaninha do seu quarto, se perguntando o que havia dentro. Ele se sentia curioso para descobrir o que Elisabeta escolhera para presenteá-lo.
Antes de fazer qualquer coisa, ele pensou nela.
Céus, como Elisabeta havia se tornado tão importante para ele em tão pouco tempo. Ele adorava cada segundo que passava a seu lado. Apesar de todas as suas dúvidas acerca da intensidade de seus sentimentos por ela, pois durante toda sua vida ele sequer havia cogitado a possibilidade de se apaixonar por alguém, ele tinha certeza que não queria suprimir aquela necessidade que tinha de estar ao seu lado.
Talvez ele não fosse tão bom em assuntos do coração, mas ele conhecia uma pessoa que era: sua mãe, quem logo veria e poderia ajudá-lo com conselhos. Com este pensamento reconfortante, ele olhou para o pacote e decidiu abri-lo.
Neste momento, um envelope deslizou entre suas mãos e Darcy optou por conferir o que havia dentro. Era um manuscrito de um texto intitulado Transformações. Nele, Elisabeta relatava sobre como foi o processo de deixar para trás alguns de seus preconceitos e primeiras impressões acerca de uma pessoa. Seu texto era genérico, mas cada linha tornava possível perceber que era sobre os dois.
Elisabeta escreveu que conhecer o lado amável de Darcy, que até pouco tempo ela julgava ser raro e seletivo, possibilitou que ela também se conhecesse melhor. Ela confessou que novos sentimentos de companheirismo, que desenvolveu com ele de uma maneira inesperada, deixaram-na mais leve. Seus dias se suavizavam com ele a seu lado.
Darcy terminou o texto de Elisabeta com um sorriso no rosto. Cada uma de suas palavras faziam-no se sentir perto dela ao pensar em tudo que já haviam vivido juntos, apesar da distância que se alargava à medida que o navio se afastava de São Paulo.
Ele pegou o presente novamente para ver o que mais tinha dentro. Por cima de dois livros, estava uma carta:
Darcy,
Palavras sempre foram minha maior paixão. Poucas coisas me encantam mais do eternizar na escrita meus sentimentos, minhas interpretações do mundo, minhas divagações e meus anseios.
Por isso, seu “presente” de aniversário é algo que espero ser capaz de imortalizar a amizade tão especial que desenvolvemos. Uma vez você disse que, por meio dos meus textos, você consegue perceber o mundo através dos meus olhos. Aconteceu o mesmo para mim quando você me presenteou o álbum de fotografias tiradas por você.
Eu nunca ganhei nada tão especial.
Mas eu gostaria de dar um passo adiante nesta espécie troca que iniciamos. Decidi compartilhar um pouco mais de mim mesma com você, tanto aquilo que eu dividirei abertamente com o mundo algum dia quanto algumas das palavras que até então eram apenas minhas, e agora serão também suas.
Por isso, estou lhe dando três coisas:
1) Como você sabe, eu estou escrevendo um livro. É um pouco da contribuição (em forma de incentivo a concretizar planos e sonhos) que tento dar à nossa geração. Ainda não está finalizado, mas eu gostaria que você fosse o primeiro a ler, então fiz uma cópia para você.
2) O envelope contém um manuscrito de uma coluna diferente de todas as demais que já escrevi, que irei publicar no jornal sob um pseudônimo.
Mas você precisa saber: é sobre mim; é sobre você; é sobre nós.
3) O último item é um dicionário. Tão simples, porém ele é muito especial para mim. Eu o ganhei do meu pai quando ainda era criança e, desde então, ele vem me acompanhando ao longo da vida, não apenas para me auxiliar com meu vocabulário, mas também para que eu nunca perca de vista quem sou.
Eu costumo sublinhar alguns termos que são marcantes para mim e descrevem meus sentimentos e impressões acerca do que vivo. E eu vou ser corajosa a ponto de assumir pra você que determinadas palavras eu destaquei pensando em você. Algumas são da época que sequer cogitávamos passar cinco minutos na companhia um do outro, porém as mais importantes para mim são as que sublinhei recentemente. A propósito, eu acabei de marcar uma nova palavra: será que você consegue descobrir qual é?
Até pouco tempo atrás, eu me sentiria vulnerável em me abrir tanto com você.
Não mais.
Feliz aniversário, Darcy. Nem mesmo as mais bonitas palavras seriam capazes de descrever o quanto eu admiro você.
Que Deus abençoe sua viagem, suas conquistas, sua vida.
Com todo meu carinho,
Elisabeta Benedito
Darcy leu a carta de Elisabeta novamente, mas era cada vez mais difícil se concentrar, pois uma vastidão de sentimentos preenchiam seu coração e seus pensamentos naquele momento.
E então ele se levantou, cruzou o quarto até alcançar a escrivaninha e pegou uma caneta-tinteiro. Ao voltar, abriu o dicionário de Elisabeta, mas não buscou pelas palavras que ela já tinha marcado. Em vez disso, ele procurou pela palavra que ele mesmo queria sublinhar.
Não foi difícil encontrá-la: era a primeira letra do alfabeto.
Amor.
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