Notas iniciais
Gente, estou sensível por causa deste capítulo.

Darcy e Elisabeta não queriam que aquela noite acabasse, por isso evitaram dormir. Eles sentiam que, caso o fizessem, o amanhã chegaria mais rápido, o que poderia colocar um fim à felicidade que sentiam.

Quando a noite começou a esfriar, os dois voltaram para dentro da casa de Darcy. Ele indicou para ela o caminho da sala e depois foi buscar um pouco de água e alguns morangos que tinham sido colhidos naquela tarde.

Elisabeta estava no sofá quando Darcy voltou e se sentou a seu lado. Ele segurou o prato com as frutas na frente dos dois. Eles comeram e conversaram um pouco.

— Hmmm… — Darcy murmurou de repente enquanto segurava a metade não comida de um morango. — Este aqui está delicioso. Bem docinho.

— Ah, é? — Elisabeta perguntou.

— Sim, quer experimentar?

Elisabeta assentiu e ele levou o morango em direção à boca dela, mas quando ela se inclinou para morder, Darcy foi mais rápido e roubou um selinho dela.

— Realmente, muito doce. — Ele disse.

Ela fingiu uma expressão indignada, mas depois riu e deu um leve empurrão no ombro de Darcy.

— Bobo.

Elisabeta se levantou e limpou sua mão num pano que Darcy trouxe da cozinha, e jogou-o para que ele fizesse o mesmo. Quando se sentou perto dele novamente, notou que Darcy parecia um pouco fora de lugar.

— O que foi? — Ela perguntou.

— Você está com frio?

Elisabeta negou.

— Aqui dentro a temperatura está agradável.

— Você acha? — Darcy respondeu, sem esconder a decepção de sua voz.

Ela o encarou, confusa.

— Você está sentindo frio?

— Sim.

Elisabeta ficou em silêncio por um tempo, estranhando a resposta dele. Dentro da casa estava, na realidade, um pouco quente. Por fim, ela sugeriu:

— Quer que eu feche as janelas?

— Não precisa, acho que não adiantaria muito.

— Podemos pegar um cobertor, então.

Darcy suspirou e olhou-a pelo canto do olho, analisando-a antes de responder:

— Também acho que não será o suficiente para me aquecer.

Elisabeta franziu os lábios tentando não sorrir. Ela se aproximou um pouquinho mais no sofá e acariciou os cabelos dele.

— Mas não podemos te deixar passar frio.

Ele passou seus braços ao seu redor, fazendo-a estremecer, e se apressou em concordar:

— Eu poderia pegar um resfriado.

— Então… — Elisabeta apoiou o queixo no ombro de Darcy, e como ele estava virado para ela, seus narizes estavam quase se tocando. — … será que se eu te abraçasse bem forte, você se sentiria aquecido? Calor humano é muito eficiente.

Darcy sorriu abertamente.

— Elisabeta Benedito, eu sempre soube que você é a mulher mais inteligente do mundo. — Ele disse e a puxou para que deitassem juntos no sofá, que era largo e os cabia perfeitamente. Ela se aninhou no peito dele.

— Sempre soube? — Ela perguntou.

— Desde que brigamos por causa daquela calça.

Elisabeta riu.

— Até sinto saudades daquele dia.

— Eu também. — Darcy respondeu. — Daquela vez e, por incrível que pareça, também de todas as outras que eu estava perto de você sem saber o que dizer ou o que fazer.

— Comigo era igual, e então eu sempre agia mal com você. — Elisabeta suspirou e se levantou para fitá-lo, apoiando sua cabeça sobre seu cotovelo. — Mas eu tenho uma sugestão.

— Qual?

— Nosso passado já está bem distante de nós. E o futuro… bom, você já sabe. Que tal se nos concentrarmos no presente?

— Eu acho uma ótima ideia. — Darcy concordou. — Até porque no presente eu sei exatamente o que fazer.

— Ah, é? — Elisabeta perguntou, provocante. — Então me mostre.

E Darcy fez exatamente o que ela pediu.

Com cada um de seus beijos e suas carícias, ele a mostrou.

~~~~~

Quando o sono venceu, os dois acabaram adormecendo onde estavam e Elisabeta foi a primeira a acordar. Ela preferiu ficar quieta, observando-o dormir.

Ela tentou calcular qual era a probabilidade de Darcy Williamson, a única pessoa que tinha a capacidade de tirá-la do sério, ser também a pessoa que mais parecia compreender cada nuance de seu coração e sua mente; a pessoa que melhor se encaixava no seu abraço; a única pessoa que fazia-a se desligar do mundo quando ele a tocava.

Era uma estatística impossível de ser calculada, mas ela sorriu ao supor que as chances eram uma em um milhão. E mesmo sabendo que tudo aquilo acabaria, ela se sentia feliz de estar junto com ele. Se poucos momentos era tudo que teriam juntos, então ela aproveitaria cada segundo.

Elisabeta decidiu se levantar, se preocupando em se mover cuidadosamente para que ele não despertasse. Foi uma tarefa muito difícil, pois à medida que ela se afastava dele, o braço de Darcy a envolvia com mais firmeza.

Não que ela estivesse reclamando. Pra ser sincera, ela adorou que mesmo inconscientemente ele não a queria deixar ir.

No entanto, ela precisaria trabalhar ainda hoje, mas, antes disso, gostaria de tomar o café da manhã com ele. Após alguns minutos, ela conseguiu sair e ele continuou dormindo.

Elisabeta foi para a cozinha depois de passar pelo toalete e, ao analisar todos os ingredientes que tinha ali, começou a se perguntar o que seria um café da manhã inglês. Ela não tinha certeza, mas suspeitava que já tinha lido em algum lugar sobre ovos e bacon. Por isso, foi o que ela preparou. Para beber, ela fez chá e estava terminando de espremer laranjas para o suco quando sentiu alguém abraçá-la por trás.

Alguém que, apesar de alto e forte, tocava-a delicadamente.

E estava ensinando a ela, mesmo sem saber, o que era desejo.

— Bom dia. — Ele disse, beijando o espaço entre seu pescoço e sua nuca.

Em troca, Elisabeta procurou por seus lábios para dar-lhe um selinho.

— Bom dia. Dormiu bem?

— Muito. E você? — Darcy perguntou.

Elisabeta estendeu seu braço para pegar um pano e limpou suas mãos, e em seguida se virou de frente para Darcy e apoiou seus braços sobre os ombros dele.

Seus olhares se encontraram e, no primeiro instante, tudo que ela pôde sentir foi paz. Ele ainda tinha uma expressão sonolenta e estava ainda mais lindo. Ele estava tão relaxado e descontraído que os pensamentos de Elisabeta se voltaram para o fato de que ela não teria mais a oportunidade de vê-lo assim.

Para afastar o nó que estava começando a se formar em sua garganta, ela assentiu e perguntou:

— Vocês comem bacon e ovos no café da manhã? Eu queria preparar algo tipicamente inglês.

— Hmmm… a senhorita quer algo tipicamente inglês? Eu tenho uma sugestão.

Elisabeta riu, mas concordou, pois era uma proposta irrecusável. Apesar de não ter cedido inteiramente a seus desejos — um pouco de seu bom senso ainda prevaleceu —, ela descobriu que uma cozinha podia ser um lugar muito, mas muito mais interessante do que ela supunha.

~~~~~

A despedida foi dolorosa.

Darcy levou Elisabeta até seu apartamento, pois ela trabalharia dentro de algumas horas, mas Darcy já precisava ir, uma vez que encontraria o governador para irem juntos para o Vale do Café para a inauguração da ferrovia no dia seguinte — que Elisabeta não poderia comparecer devido a uma importante reunião que teria em seu trabalho. Ele voltaria a São Paulo apenas na sexta a noite, horas antes de partir para a Inglaterra.

Por isso, eles não se veriam mais.

Ela o convidou para entrar e ele aceitou, pois queria conversar com ela, embora não soubesse exatamente o que dizer.

Ele tinha se apegado à sugestão dela de se ater ao presente, pois queria evitar pensar que não a encontraria por muito tempo. Alguns meses pareciam uma eternidade sem Elisabeta. Darcy suspeitava que seria difícil tirar de seu pensamento seus sorrisos, seus beijos, suas palavras e seu cheiro… enfim, tudo relacionado a ela, que em tão pouco tempo havia se tornado suas coisas favoritas no mundo. Ele não conseguiria se adaptar à ideia de que não poderia mais abrir o jornal pela manhã e ler suas colunas.

De alguma forma, parecia que Elisabeta havia-no enfeitiçado, e Darcy se sentia numa encruzilhada. Ele precisava deixar o Brasil, afinal seu pai estava doente e sua família necessitava-o por diversos motivos, mas parte dele queria ficar.

E o principal motivo estava vindo em sua direção após acalmar Austen, que ficara extremamente feliz e animado quando os dois chegaram. Quando estava de frente para ele, Elisabeta segurou uma de suas mãos.

— Acho que precisamos nos despedir agora, não?

Ele traçou seus dedos pelo rosto de Elisabeta.

— Elisa… — Darcy começou a dizer, mas não terminou de imediato. Ele nunca se considerou bom com palavras. — Ah, Elisa, como eu vou sentir sua falta. — Ele disse e respirou fundo, tentando tranquilizar os batimentos do seu coração.

— Muito obrigada por estes dias, Darcy. Obrigada por me deixar conhecer quem você realmente é. Eu vou sentir saudades de você. — Ela engoliu em seco. — Mas logo nos encontraremos novamente, não é?

Darcy assentiu e ela continuou:

— Até lá, se preocupe com a saúde de seu pai. Se preocupe com as questões financeiras da sua família e em apoiar sua sua mãe e sua irmã, mas também se deixe ser apoiado por elas. — A voz de Elisabeta começou a falhar e ela acariciou o rosto dele. — Se preocupe com você mesmo, Darcy. Em ser feliz.

Darcy virou seu rosto para beijar a mão de Elisabeta, e ela completou:

— E não se preocupe comigo. — Quando lágrimas começaram a cair em seu rosto, ela o abraçou para escondê-las. — Não se preocupe comigo, tá? Eu estou… eu vou ficar bem.

Darcy apertou-a contra seu corpo e respirou fundo, pois ele mesmo estava começando a desabar.

— Elisa, eu preciso que você saiba o quanto você é importante pra mim. E que eu vou… — Darcy começou a falar, mas foi interrompido por Elisabeta, que voltou a fitá-lo e colocou um dedo sobre seus lábios.

— Darcy, por favor, não faça promessas. O amanhã é muito incerto.

Ele fitou nos seus olhos e percebeu que havia ali toda a insegurança que não costumava ser tão comum em Elisabeta.

Ele a compreendia, pois se sentia igual: com medo do que o futuro lhes reservava. Afinal, não era certeza que seus caminhos voltariam a se cruzar. Eles não tinham passado mais que poucas semanas como amigos, e muito menos que um dia juntos.

Tudo aconteceu rápido demais e ainda era muito recente.

Além disso, Elisabeta queria conquistar o mundo e ele sabia que conseguir era apenas questão de tempo. E quanto a Darcy… ele nunca tinha ficado num lugar por tanto tempo desde que saiu de Pemberley, pois sempre tinha algum compromisso nas empresas de sua família ao redor do mundo. Agora que suas obrigações no Vale do Café acabaram, provavelmente teria tempo livre para ir onde quisesse depois que resolvesse tudo na Inglaterra.

Porém, ele ainda tinha esperanças quanto aos dois. Recentemente vinha crescendo dentro dele a suspeita de que onde ele queria ir era qualquer lugar, desde que fosse com com alguém específico. Será que, com Elisabeta, ele poderia deixar para trás todo aquele medo que tinha de amar, de se entregar completamente sem ter certeza que aquilo duraria?

Ele gostaria de descobrir as respostas para suas perguntas, mas, por mais que quisesse ter planos e promessas com ela, ele compreendia que ela preferia não fazê-lo.

Céus, ele estava confuso também.

Por isso, apenas beijou sua testa.

— Posso te ligar da Inglaterra?

Ela sorriu.

— Eu adoraria.

Ela o abraçou novamente e, assim, os dois se despediram.

Darcy saiu do apartamento de Elisabeta com a sensação que deixava para trás parte de seu coração.

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Quando Darcy começara a falar de seus sentimentos, Elisabeta sentiu necessidade de impedi-lo, pois ela não conseguiria lidar com um sonho tão bonito que a despertaria numa realidade completamente diferente.

Seria doloroso demais e, por isso, ela preferia tentar manter seus pés no chão.

Mesmo com esta decisão, durante o restante daquele dia e no seguinte, que antecedia a viagem de Darcy, Elisabeta sentia-se estranha. Ela não sabia se seus sentimentos poderiam ser descritos como tristeza ou saudade, mas eram tão intensos que a surpreendiam. Ela percebeu que tinha se arriscado muito quando beijou Darcy.

Mas não se arrependia.

Ela tinha adorado cada minuto ao lado dele e só queria poder voltar no tempo para poder reviver os momentos que tiveram juntos e substituir cada briga por beijo.

Naqueles dois dias, ela trabalhou, passeou com Austen e não deixou de fazer as atividades que geralmente realizava no seu dia-a-dia, porém o sorriso de Darcy voltava às suas lembranças com frequência e ela precisava parar por um momento para respirar fundo.

Ela não conseguia tirá-lo de sua mente.

E é por isso que, quando a campainha de seu apartamento tocou durante a madrugada e ela abriu a porta, pensou estar imaginando Darcy ali.

Mas era ele mesmo.

— Eu vou viajar daqui a algumas horas. — Ele afirmou com uma expressão angustiada.

Ela assentiu, e ele continuou:

— Eu não consegui dormir.

Os lábios de Elisabeta se curvaram num leve sorriso.

— Eu também não. — Ela sussurrou.

Desta vez foi Darcy quem assentiu, e então eles ficaram em silêncio.

Elisabeta deu um passo adiante, pegou a mão dele e o puxou para dentro de seu apartamento. Em seguida, fechou a porta e o guiou para seu quarto. Os dois se deitaram na cama e Elisabeta se virou para Darcy para se beijarem pela última vez, e depois se aconchegaram para dormir juntos.

No dia seguinte, ela precisaria reaprender a viver sem o abraço dele.

Mas não ainda.