You disturb my calm
2 Saudades
O resto do dia se passou enquanto ela arrumava a casa, tentando deixar aquele local com a cara mais próxima de lar possível. Afinal, era disso que ela precisava de um lar. Já que o seu nunca se pareceu muito com um.
Quando ela finalmente parou um pouco percebeu que já tinha passado em muito de meio-dia e sua barriga começava a reclamar. Com a mudança ainda recente ela não tinha feito as compras para abastecer sua cozinha. Resolveu tentar a sorte pra ver se seu irmão já estava em casa.
Chegando lá ouviu vozes, esperou para confirmar que não tinha nenhuma voz afeminada lá. Depois de realmente confirmar que não havia nenhuma garota lá dentro, bateu uma vez e abriu a porta com a barriga roncando não tinha tempo para esperar muito.
– Beto vou precisar assaltar a sua geladeira mesmo, ainda não tenho nada por lá – disse enquanto abria a porta e se assustou ao ver que tinha alguns garotos no apartamento, calando-se imediatamente.
– Tudo bem, desde que você não esvazie o armário como semana passada – Beto respondeu.
– Ela é a sua irmã cara? – o seu mais novo vizinho que assustadoramente pra ela estava sentado no sofá com Beto perguntou.
– Aham, vocês já se conhecem? – de repente curioso com a história
– Sim.
– Não – dissemos ao mesmo tempo e ele me encarou.
– Sim – o vizinho disse.
– Ele é meu vizinho e me ajudou a tirar as malas do corredor – disse já fugindo para a cozinha.
– Ok – Beto disse desconfiado, sem entender muito bem o que estava rolando.
Eloise tentou assaltar a geladeira do seu irmão o mais rápido possível, acabou levando ainda depois de comer um super hambúrguer, um pote de Nutella e pão do armário. E voltou, passando pela sala de novo.
– Vou indo – correu passando direto para a porta.
– Tchau Izie – Beto respondeu – e eu estou vendo a minha Nutella ai. Vai ter volta.
Ela saiu gargalhando, voltando para o seu apartamento. Decidida que amanhã iria sem falta abastecer seu armário... depois da escola. Ela quase tinha esquecido. E passou então o resto da tarde no seu novo lar.
À noite enquanto estava fazendo yoga na sala a campainha toca. Nem imaginaria quem já poderia vir visita-la então só podia ser seu irmão. Mas como algumas coisas nessa vida nunca acontecem como você quer...
– Você? – Eloise se surpreendeu ao ver seu vizinho na porta com um sorriso estampado na cara.
– Nunca vi ninguém tão feliz em me ver, você sabe que as garotas costumam soltar gritinhos histéricos quando apareço, não sabe?
– Claro que soltam. Bom, acho que seu feitiço não cai sobre mim – enquanto ela sorria grata por ter dado uma boa resposta viu novamente aqueles olhos que fazia a dorzinha no seu estômago voltar.
– Acho que não, você só não teve tempo para perceber ainda Izie – ele disse e ela congelou.
– Do que você me chamou?
– Izie, não foi assim que seu irmão lhe chamou hoje a tarde? – ele perguntou desconcertado pela primeira vez – Não é esse seu nome?
– Foi assim... mas esse é meu apelido – ainda em choque ela disse.
– Ah – ele ficou constrangido.
– Meu nome é Eloise – e do nada ela sentiu uma necessidade de lhe falar seu nome, não que isso fosse grande coisa, apenas porque não queria ele lhe chamando assim.
– Prazer Eloise, creio que já tenha me apresentado, – ele sorriu – mas mantendo o foco. Eu vim aqui te convidar para comer lá em casa...
– O que? – ela o interrompeu com imenso susto.
– Calma, não estou planejando o seu assassinato, apenas que alguns amigos estão ai e encomendamos umas pizzas e como ouvi que você tá sem comida resolvi vir convidar – ele sorriu inocentemente ao terminar.
– Bem... estou – ele sorriu – mas roubei Nutella do meu irmão e estou fazendo yoga – nesse momento ele se deu conta da roupa que ela tava vestida – acho que vou passar.
Ela começou a se xingar por ter essa mania de fazer yoga com minis: mini short, mini blusa...
– Tudo bem, mas ainda acho que você devia vir – e olhou nos olhos dela.
– Estou bem aqui.
– Bom, então eu vou – ele deu um meio sorriso, olhou-a de novo e se virou.
– Obrigada – ela disse quando ele estava abrindo a porta do seu apartamento, ele virou e fez um sinal com a cabeça.
Depois de entrar no seu apartamento ela ficou se perguntando a forma como ela não conseguia evitar ele, parecia que ele aparecia sempre em locais que a deixassem sem saída. Precisava urgentemente prestar mais atenção, é obvio que ela estava em um estado da sua vida que tornava claro suficiente para ela saber que quando baixava-se a guarda – e principalmente para um cara como ele que o ego ultrapassava seu ser – nunca acabava em boa coisa, não é que fosse pessimista, conviveu bastante com a realidade para entender isso.
De repente ela sentiu falta de uma vida que não tinha tido. E das chances que também não teve. Sentia falta do balé, que teve de parar e que também não via mais porque continuar.
Foi até uma das caixas que ainda não tinha tido coragem de abrir, lá viu fotos que nem seu pai, nem seu irmão tinham feito questão de pegar. Encontrou também seu diário de quando tinha 7 anos. E por fim, as sapatilhas de ballet, que ela não resistiu e calçou. Ela colocou uma música de Adolph Adam no celular afastou algumas caixas próximas e dançou.
Dançou pra liberar sua alma, dançou como se nunca tivesse parado, dançou por as frustrações que sofreu na vida, dançou de uma forma que ela não dançava já havia muito tempo. Dançou, dançou e dançou. Quando parou respirou fundo, guardou as sapatilhas de volta na caixa com um aperto enorme no peito. Levou a caixa para um canto despercebido ao lado da estante e deixou lá. Ela veio para cá atrás de mudar, não queria persistir naquilo que tinha dado errado com seus pais. Ela queria mudar. Com isso ela foi pra cozinha comer torradas com Nutella.
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