You came back
22 Vigésima Segunda Parte
Notas iniciais
No dia da visita ao terapeuta, cheguei bufando ao consultório, nós não queríamos esperar muito para fazer isso, então fomos direto ao ponto. – Como podemos fazer isto sem bagunçar a cabecinha dela, doutor? – pergunto atônita ainda recobrando ar no qual não foi possível recuperar, nos poucos minutos que fiquei na sala de espera.
— A sua filha é uma menina esperta, ela vai chegar a conclusões antes mesmo de tudo, ela pode não ter certeza, mas no fundo, seus pensamentos já chegaram às conclusões necessárias.
— Parece que sim, as coisas com ela funcionam assim. – Fiz um sinal com os dedos e sorri desconfortável.
— Mais rápida que o Flash. – Castle completou e mesmo com toda tensão, eu segurei o riso. — E como nós podemos chegar no assunto? – Castle questiona.
— De forma direta. Mas, tenham em mente que a criança pode não reagir como o esperado. De modo geral, vocês devem falar sobre isso, sempre. Independente da idade que ela tenha.
— Veja bem doutor, nós apenas não queremos que ela se sinta magoada com isso. — Mencionou Castle.
— Se é que isso é possível. – O complementei em um sussurro e ele torceu os lábios, mas me olhou de forma confiante.
— O que vocês precisam saber é que não há uma fórmula mágica para isso. Tudo fica mais fácil se ela tiver uma boa relação com a senhora, — ele apontou para mim — e ao que parece tudo é muito calmo entre vocês, já que ela fala da senhora sempre que está aqui. Entendam que há um processo, e na medida em que a criança vai crescendo ela passa a entender o que tudo significa. Nessa hora, eles vão entrando em questionamentos mais profundos e talvez tudo faça mais, ou, menos sentido, por isso a importância de sempre estar lá para ela. O fato, é que não há como prever como ela vai reagir.
— E teria algo mais que possamos fazer quanto a isso? — Perguntei ainda não sabendo como fazer o que devíamos ou como agir perante aquilo que nós mesmos causamos. Belos pais.
— Vocês precisam agora, acima de tudo, serem emocionalmente seguros, precisam passar esta segurança pra ela. Não se constrangerem ao falar do assunto ou não ficarem com segredos em torno disso. Johanna foi dada para adoção, teve a guarda revista pelo pai e agora, vocês dois estão aqui. — Ouvíamos atentamente o que o terapeuta dizia e por fim, a mão de Castle encontra a minha. Em um susto, retiro minha mão dali, foi um pouco desconfortável. — Vocês não têm que fazer uma grande cena, não é como em uma novela, que há uma grande revelação, o ideal é que vocês falem sobre isto com ela naturalmente e gradativamente.
— Tudo bem, eu acho que podemos lidar com isso. – Arfei o ar necessário e sorri para Castle, novamente, desta vez, tentando transmitir a serenidade que me dominava agora.
— Eu acredito que sim, a pior parte já foi. — disse retribuindo o sorriso, de forma muito mais encantadora, eu podia apostar.
— Não se esqueçam, adaptem a história, de acordo com a faixa etária dela, não fantasiem, adaptem. As perguntas vêm aos poucos e vocês devem apenas acompanhar a curiosidade natural da sua filha.
— Eu acho que sim. – Eu estava um pouco mais aliviada e isso deixava Castle mais tranquilo também, afinal, eu sei, ele não conseguiria levar isto adiante por muito tempo, não ficaria bravo comigo, ele já havia tentado algumas vezes. Foi assim quando brigamos e logo em seguida Montgomery precisou dele para me tirar do hangar, foi assim quando discutimos por Smith e dias depois estávamos apoiados um ao outro, ele sempre voltava. Sempre voltávamos. Algo sempre foi mais forte e resistente entre eu e Castle, algo sempre nos fazia precisar um do outro, seja um documento, uma instabilidade emocional ou uma desculpa qualquer. Um laço invisível que nos puxava um para o outro sem que houvesse muito esforço. Hoje, esse laço invisível, tinha nome, sobrenome e um sorriso lindo.
— Lembrem, a criança precisa da repetição para assimilar as informações. Falem sobre isto com ela, várias vezes, de maneiras naturais e vocês terão bons resultados. Estou confiante.
Marcamos mais algumas sessões de terapia, algumas somente eu e Castle, e outras com Johanna junto. E como nos foi pedido, aos poucos fomos montando diálogos com ela, é claro, para isso precisamos voltar a conviver, e isto era claramente, mais uma vez o destino nos puxando para perto. Depois de construir em diversos momentos algumas falas sobre o assunto com ela, certamente minha filha já havia juntado as peças e montado o quebra-cabeça.
Eu sentia como se meu estômago estivesse amarrado, em pequenos nós, que não me permitiam me mover muito, na tentativa de não sofrer por algum tipo de sintoma externo. A minha mente cambaleava ao pensar em possíveis cenários, que só de imaginar já me causavam tamanha dor. Nós já havíamos nos encontrado antes, muitas vezes na verdade, mas nenhuma assim, com eu sabendo que tudo poderia mudar a partir do que seria falado ali, que a transparência nos tomaria por inteiro.
— Estamos a caminho. — Castle me situou sobre a situação de deslocamento pelo aplicativo de mensagem instantânea.
— Tudo bem! Escolhi uma mesa próxima aos livros, você acha que ela irá gostar?— Enviei a resposta.
— Fique calma, lembre-se das palavras do terapeuta.— Ele tentava me manter consciente e aliviar o pânico que eu devia demonstrar apenas com aqueles mínimos caracteres.
— Eu estou, fique tranquilo. — eu não estava.
— Chegaremos em 20 minutos, preciso parar de usar o celular. Até logo. — Recebi.
Esperei por Castle e Johanna, em um restaurante próximo à delegacia. Era algo mais simples, com uma decoração mais aconchegante, transmitia paz e tranquilidade, tudo o que precisávamos naquele dia e o lugar ainda continha um espaço de leitura, Johanna ia gostar, eu tinha certeza disto. Pedi uma água e folheei algumas páginas do Cosmopolitan¹, eu realmente folheei, apenas, porque era quase impossível não permanecer fitando o relógio em meu pulso. 15 minutos, só faltava isso para o nosso encontro, não era a minha folga, nem nada do tipo, aquele era apenas o meu horário de almoço, um tempo apertado para o que pretendíamos, mas seria assim, nada de grandes eventos. Seria como deveria. Quando ela chegou com seu sabre de luz e os coques iguais aos da princesa Leia, meus ombros relaxaram e eu abri um sorriso largo. Ela tinha sobre o corpo um vestido amarelo com ursos marrons e um all-star branco, que ficava adorável em seu pé, que era minúsculo. Castle carregava um pequeno casaco e uma mochila de Frozen, que penso ser onde guardava alguns pertences dela. Johanna gostava de super-heróis na mesma medida em que gostava de bonecas e princesas, era admirável sua versatilidade. Qualidade esta que sempre a colocava a pensar sobre o que escolher quando precisava fazê-lo.
— Tia Kate! – ela correu para meus braços.
— Ei garotinha! – A abracei forte depositando um beijo em sua bochecha.
— Perdão pelo atraso, a culpa é toda dos coques. – Castle apontou para Johanna me lançando aquele sorriso que fazia meu peito queimar, quase que de imediato.
— É um dia especial papai, colabore. – disse audaciosa.
— Controle a sua insubordinação.
— Insubor, o quê, papai?
— Eu acho que você não deve dar ouvidos para seu pai. Ele está claramente invejando os seus cabelos – riu.
— Você gostou do meu cabelo, tia Kate?
— Eu amei! Você sabe que quando eu tinha a sua idade eu obtive alguns penteados deste tipo?
— Eu adoraria ver a Kate Organa. Certamente era uma figura adorável.
— Certamente. Mas você tem uma cópia dela por aqui, não é difícil você se colocar a imaginar.
– E isso é assustador.
— Aqui têm livros! – Interrompeu a nossa conversa, apontando para o interior do restaurante, radiante.
— É, tem sim, eu pensei que você gostaria de estar entre eles. – Ergui a mão pedindo o casaco dela. – Mas aqui está bem frio também – Vesti a peça com todo o cuidado do mundo, abotoando os grandes botões enquanto falava mais sobre o local. – Eu costumava vir aqui, toda terça-feira com a minha mãe, era o dia do Karaokê.
— Tia Kate, onde está a sua mamãe? – Perguntou me ajudando com o casaco.
— É uma longa história, mas qualquer dia eu posso te contar se você quiser ir lá em casa.
— Eu posso papai? – Sorria para Castle que nos encarava de cima.
— Mas é claro abelhinha, a hora que você quiser. – Aquilo me fez pensar se ela iria pensar igual ao posicionar as peças do tabuleiro na linha de chegada.
— EBA! – ela saltitou e finalmente peguei sua mão a puxando para dentro. E os dois me seguiram conforme a chamada.
Depois de pedirmos uma pequena porção de batatas fritas – o prato preferido de Johanna — eu e Castle decidimos solicitar apenas dois copos fumegantes de café. Enquanto ela se deliciava, retomamos o assunto das últimas semanas, dessa vez com mais nitidez, ajudando ela a montar tudo em sua cabeça.
— Mas então, a Kate é a sua amiga? — Ela mergulhou a batata frita no ketchup, depois fez um gesto muito engraçado em que parecia se livrar da confusão, balançando a cabeça para os lados com velocidade. — Quero dizer, minha mãe? — seus olhos brilhavam tanto que nos refletiam.
– Ao que parece sim, o que você acha disso? – Perguntei temerosa. — Quer dizer, você se parece um pouco comigo. Tem essa coisa que faz com os olhos e esses cabelos com cachinhos nas pontas.
— E tem esse jeito de morder os lábios. – Castle sorriu, fazendo seus olhos ficarem pequenos, mas sem deixar de me encarar. – Quando estão nervosas vocês fazem isso com mais frequência e ferocidade.
– Ah! – soltei um grunhido engraçado — Castle! – dei um leve soco em seu ombro – A gente não faz isso. – balancei a cabeça negativamente.
– Não mesmo. – Johanna concordou, nos interrompendo e dando continuidade no assunto anterior a distração. — Então agora você vai às minhas apresentações? Assim, sempre? – dirigiu-se a mim, me encarando com um brilho intenso no olhar. – E eu vou poder assistir Chicago²?
– Sempre. Sobre Chicago, quem sabe quando você ficar mais velha e o musical voltar. — Tentava agir naturalmente, mas sentia como se estivesse transpirando tensão e a liberando em forma de palavras desconexas e a voz tremula.
— Que tal Matilda? – Castle acrescentou.
– Esse eu já vi, papai. — Revirou os olhos e prosseguiu com suas palavras escolhidas meticulosamente. — E você e o papai vão morar juntos? — Abriu um enorme sorriso. Mas, nessa parte, nós não corresponderíamos as demais famílias.
– Não abelhinha, eu e a Kate vamos estar sempre aqui por você, mas cada um tem a sua casa e você agora, têm duas.
– AAAH, eu já entendi papai. Não precisa explicar mais, eu não sou um bebê.
– Está bem mocinha, e o que você entendeu? — Intervi.
– Que você é minha mãe, e mamãe da sementinha, — ela me olhou em dúvida e me pedindo coragem para continuar, apenas acenei positivamente e ela prosseguiu — e que quando nasci vocês não estavam preparados, o papai estava dodói e você também, só que você tinha um dodói na cabeça, não é mamãe? — Ela apontou pra cabeça. — Aqui, certo? — Pediu nossa confirmação.
Espera, eu perdi algo ou a minha filha estava chamando de mamãe? Mamãe! ELA DISSE MAMÃE! Que crianças tinham o hábito de mudar e se adaptar a qualquer situação, eu já sabia, mas, assim? Eu não estava preparada para esse soco no estômago. Definitivamente não. Foi como se o cada situação desesperada que vivi nos últimos anos, tivesse valido a pena. Ver aquele sorriso e aquela palavra sendo pronunciada só me fazia questionar o quanto eu aguentaria sem tê-la ligada a mim em tempo integral. Precisava vivenciar essa sensação todo o tempo.
– É isso mesmo. — Disse sentindo um frio imenso na barriga, mas sendo encorajada por Castle que liberou o peso de sua mão sobre a minha perna, me fazendo reagir como se tivesse levado um choque.
– O meu amigo da escola também tem duas casas. — Ela disse despreocupada já pegando outra batata.
Eu e Castle nos olhávamos, jamais esperávamos que fosse tão fácil. — E o que você acha disso?
– Bom! — ela continuou comendo e sorrindo. — Eu posso ter tudo de dois. — Continuou.
– Duplo filha, tudo duplo — Castle a corrigiu.
– Tia Kate, como eu nasci? — Perguntou em um rompante.
– Tudo bem? – Foi o momento de Castle intervir e eu me perguntei onde estava o mamãe de alguns segundos atrás.
– Sim, está. — Dei continuidade — Depois que seu pai colocou a sementinha aqui, — apontei para barriga e encarei Castle, um pouco constrangida com ele nos encarando. — eu não sabia que você já estava comigo e eu demorei um longo, longo, longo tempo para saber, porque você era minúscula. – relembrava.
— Como uma batata, tia Kate? – Questionou segurando uma das fritas que estavam entre seus dedos.
— Mais ou menos, – Sorri e Castle parecia encantado – estava mais para um grãozinho de feijão. Então, quando finalmente você apareceu lá na maquininha do médico, eu tinha certeza de que seria a coisa mais gordinha e linda que eu teria neste mundo, aí você já não era mais um grãozinho, já estava maior.
— Assim? – se referiu a si mesma agora.
— Não, definitivamente você não nasceu assim. – Não pude conter o riso.
— Abelhinha, se você nascesse assim, a mamãe não ia conseguir te carregar por tanto tempo. – Ele também ria.
— Ei! Vocês estão rindo de mim! – Estava com um bico enorme.
— Rindo de você? Nós? – Castle foi irônico.
— Papai, eu sou pequena, mas não sou boba. – Cruzou os braços. Castle a puxou para seu colo e como sempre aquilo tudo foi curado com um ataque de cócegas. E eu babava em como eles eram cúmplices. Talvez um dia eu viesse a ter o mínimo de confiança por parte da minha filha, mas nada nunca se compararia com o que eles têm. E eu não estava invejando, não, Castle e Johanna eram parte da minha vida agora. Só o que eu poderia querer era que eles se dessem bem dessa forma, sempre. – Mas tia Kate, eu não sou gorda, olha! — Apertou a barriga por sobre a roupa, mostrando, eu não resisti e apertei suas bochechas.
— Mas era. E eu fiquei DESSE tamanho e meus pés estufaram. — Fiz um gesto que dava tamanho àquilo. Castle só nos observava como se ouvisse uma parte da própria vida e na verdade, era. Por que demoramos tanto para falar sobre isso? Era tão bom.
– Você comia muito, tia Kate. Você ficou parecendo uma melancia também? A mãe da Nick está ficando assim. — Aquela mulher desnecessária, que certamente já havia tido algo com Castle. Ela estava grávida. Quem duvida que não era dele? Ignorei.
– Eu comia mesmo, mas era só porquê você mocinha, — apertei a ponta nariz dela que estava no colo do pai, se esticando sobre a mesa para alcançar as batatas e arranquei-lhe lindas gargalhadas — você comia demais. Então eu tinha que te alimentar e me alimentar. Mas quer saber? Nada disso realmente importava. Eu queria mesmo ver seu rostinho e seu corpinho saudáveis.
– E depois? — Perguntou curiosa.
– Depois você nasceu. Uma bolotinha linda, com olhos claros e covinhas que eu não sei até hoje de onde vieram. Deixava à mostra, a todo o momento, a gengiva mais linda do mundo sem dente algum. Chorava por tudo e só queria saber de colo. Vomitava nos meus ombros e queria mamar o tempo todo.
– Eu era chata — ela coloca a língua em sinal de reprovação e Castle sorri demonstrando certo desanimo. Era uma grande parte perdida.
– Não era não, era o bebezinho mais doce que eu já vi. Vivia balbuciando coisas como "gugu dadá", era uma linguagem própria que só eu entendia. Mas você melhorou muito, confesso. Já não tem mais fraldas sujas, mas ainda é o meu bebê.
— Nossa, – corrigiu Castle – nossa bebê – completou.
— Não! – ela disse cheia de si – eu já sou grande agora, tia Kate. – Balançou a cabeça, mostrando que aquilo era evidente.
— Ah é, claro. Logo você vai querer sair por aí pela noite de Nova Iorque, mas eu já aviso, mocinha, eu irei com você. – ela riu por diversos minutos, só parando para recuperar o fôlego.
— Eu vou ser igual a Lex, – se referia a Alexis – vou estudar bastante.
— O seu pai agradece. – Olhei para Castle sorrindo e tentando animá-lo também. A sua cara estava me cortando o coração.
— Isso mesmo, siga os passos da sua irmã e eu não irei me preocupar.
— Eu vou ser policial, igual a você tia Kate.
— Isso é ótimo, mas antes você precisa crescer só mais um pouquinho.
— Mas uma super-heroína não precisa de tamanho e além do mais, você pode me ajudar.
— Ah, eu posso?
— Pode. – Estava certa de si.
— E como?
— A gente podia ser como em Os Incríveis, uma família de super-heróis – ela jogou os braços para cima e sorriu para nós dois.
— A gente pode. – eu ri da criatividade dela. – Quem sabe eu largue o meu posto na delegacia e invista nisso.
— Mas não teríamos superpoderes – Castle revidou.
— Não importa. – Ela voltou a pegar batata e mergulhar nos molhos. – A gente seria bem melhor que eles, mesmo sem poderes. – Castle olhava orgulhoso e eu só pensava que realmente estávamos criando um lindo monstrinho. Abaixei a cabeça para rir sem desmotivar ela, afinal, seria o quisesse. – Quem precisa de superpoderes?
— Quem precisa de superpoderes? – Reafirmei.
— Eu poderia, citar uma série de super-heróis que não existiriam sem eles.
— E eu poderia citar vários super-heróis que só precisam de um pouquinho de criatividade, Castle. – revirei os olhos.
— O Batman. – Não precisei me esforçar, afinal, eu e ela formávamos um bom time. Ergui minha mão e fizemos um cumprimento especial.
— A Batgirl. – Continuei e ela parecia conhecer também.
— O Arqueiro Verde. – Ela disse.
— Frank Castle.
— Olha papai, esse tem o seu nome. – ela sorriu orgulhosa do pai.
— O Homem de Ferro. – Disse orgulhosa.
— O seu favorito, claro.
— Já se convenceu, Castle? Ou será que nós precisamos citar mais alguns?
— E quem pode contra vocês? E mocinha, você precisa passar menos tempo em contato com a televisão.
— Eu tenho duas casas agora, papai. – Ela sorriu confiante de que comigo seria diferente e abriu os braços para mim, me pedindo colo, o que me assustou e ao mesmo tempo me deixou contente. Sequer passou pela minha cabeça que tudo seria assim tão perfeito. Por sorte, naquele dia, Johanna não perguntou mais nada além disso, ela aceitou a situação toda e queria saber quando iria conhecer sua nova casa. Na próxima semana isso aconteceria. Mas para isso eu precisaria me livrar das muitas caixas que afogavam meu apartamento
***
Era sexta-feira, véspera do grande dia. Seria um dia cheio. Antes da terapia, eu teria que concluir as pequenas reformas no quarto dela, mas já havia chego a hora e nada de meias conclusões, então eu faltaria à terapia, era uma escolha no mínimo sensata. Então a campainha tocou. Cabelos desgrenhados amarrados em um coque desfiado, uma camiseta enorme da NYPD e um short velho por baixo. Bochechas vermelhas e o suor evidente destacando minha testa. Atendi a porta.
– Ao que parece não teremos tempo para terapia hoje. – Ele me olhou com um dos braços escorados no batente da porta.
– É, é o que parece. — disse sorrindo, um pouco embaraçada.
– Eu posso te ajudar, digo, a dar um jeito nisto. — Ele aponta para a bagunça do apartamento e movimenta o dedo, dando grandiosidade ao que ainda precisava ser concluído.
– Eu acho que posso me virar.
– Não seja orgulhosa detetive, eu tenho dois braços — ele os ergueu — a sua inteira disposição, vamos lá, me dê uma chance de te ajudar por aqui.
– Tudo bem, Castle, mas só porque você insistiu.
– E porquê isto aqui está pior que os episódios da série que não deve ser nomeada. Está péssimo.
– Péssima comparação, escritor, — dei um sorriso idiota para ele — começamos isso errado.
– Tudo bem, eu acho que consigo lidar com mais esse erro. – Suspirei.
— Mesmo que a comparação tenha sido ruim, eu preciso concordar com a parte em que você diz que está péssimo.
— Comigo aqui, as coisas vão mudar.
— Você sempre se achou assim? Não me recordo de tamanha imodéstia.
— Se você pensar bem pode notar que não se trata de imodéstia, pelo contrário, eu sou muito modesto até. É que certa garota vive me elogiando, então eu acho que posso me considerar bom nas coisas que faço. – Conversávamos enquanto eu procurava algumas peças de roupa para que ele vestisse e pudesse me ajudar.
— Quem? As suas amiguinhas? – um riso irônico preencheu o ambiente. – Eu acho que elas têm um motivo para tamanhos elogios, mas esteja certo Castle, você não é tão bom assim.
— Não é o que a Johanna diz. – respondeu despreocupado e eu gargalhei.
— É sério, Castle? A opinião de uma menina de sete anos sobre o seu pai?
— HEI! Dizem que crianças não mentem! – Deu de ombros.
— Ah, que isso, Castle, você é o heroi dela, é claro que ela sempre vai te achar bom o bastante.
— Seria bom se você não tentasse me colocar abaixo dos seus pés.
— Vou tentar! – Joguei peças de roupas antigas de meu pai sobre Castle.
— O quê? Eu tenho músculos Kate, você acha mesmo que isso vai servir?
— Não reclama, Castle. Você se lembra onde fica o banheiro?
— Mesmo se passasse mil anos. – Senti um leve rubor preencher meu rosto.
— Vai logo!
— Ou o que?
Ou vou impugnar o seu pedido de me ajudar – Dei a língua.
E eu vou impugnar sua insolência, detetive. – Ri e ele se encaminhou para o banheiro. Foi rápido e em poucos segundos me arrancava risos que eu insistia em sufocar — Eu acho que seu pai encolheu. – Apontou para a roupa que o deixou quase sufocando.
— Ou talvez você tenha crescido Castle, para os lados. – Levei a mão até a boca segurando o riso e ele cerrou os olhos me fitando.
— Shh! Isso nunca acontece. – Disse ironicamente.
— Você não é o Super-Castle que a nossa filha acha, então é completamente possível que isto aconteça – aquela palavra “nossa filha” me deixou completamente instável.
— É culpa da Johanna.
— Por um acaso você a carregou por nove meses também? – Disse fazendo cara de espanto – Grande avanço da medicina!
— HÁ-HÁ-HÁ detetive, bela piada. – ele riu.
— Você riu. – Me gabei — Pensando bem, eu acho que você fez isso – encontrei o ombro dele em um tropeço proposital e ri – você não está nada mal, Castle.
— Eu sei, sou irresistível mesmo.
— Não exagera, só Johanna é capaz de achar isto.
— Você só me agride – fingiu ofensa — Vou lançar um novo desafio para ver se você consegue controlar essa alegria constante quando está perto de mim.
— Desafio como os de scrabble? Se for, você está perdido. Você sabe que eu não entro em um desses para perder.
— Competitiva. – afirmou – Por onde começamos?
— Do começo?
Foi uma tarde agradável. Castle me ajudou com as caixas, deslocou alguns móveis e isso foi até engraçado. A cena de nós dois contando até três e empurrando a mobília para seu lugar foi épica. Por incrível que pareça, ele sabia algumas coisas sobre mudanças e obras.
— O quê? – me questionou enquanto eu o admirava.
— É só que, você manuseando isto, – apontei para a furadeira – é um tanto quanto surpreendente.
– E por qual motivo eu não deveria saber usar uma furadeira?
— Talvez porque você não precise fazer esforços.
— Bela tentativa. Mas como bom pai que sou, eu preciso de soluções rápidas para as crises de Alexis. Quando ela resolve colocar tudo para o alto, sou eu quem fica com a parte do trabalho pesado. Além do mais, eu não nasci esse lindo escritor de best-seller. – Fez uma cara de sofrimento – Tudo bem, — continuou – lindo eu já nasci.
— Eu disse que não imaginava você manuseando uma dessas, não que isso é um trabalho pesado ou que você é lindo. – gargalhei – Contenha o seu ego ou não vai sobrar espaço para nós dois nesta peça.
— E a vingativa contra-ataca. A cama é linda, ela vai amar. – ele disse enquanto eu me equilibrava nos degraus da escada para colar alguns planetas no teto.
— E isto, o que você acha? – Apontei para os planetas.
Nada mal. Você já a conhece bem, não há graça em tentar te ajudar.
Não tanto quanto você – sorri inusitadamente.
Desempacotamos algumas coisas e o sorriso de Castle ao notar as peças novas que eu havia comprado, era encantador. O chão estava forrado por jornais e finalmente nós havíamos acabado de posicionar os móveis. Colocamos alguns tecidos sobre a mobília e por fim, começamos aquela que seria a parte final da reforma: a pintura.
– Verde? — Castle perguntou quando abriu a lata de tinta.
– Com isso! – sorri com a língua entre os dentes, ao mostrar os adesivos de parede — Você acha que ela não vai gostar? – perguntei um pouco incerta.
– Isso é uma brincadeira? Ela vai amar!
– Você continua o mesmo idiota, imaturo e infantil de sempre. — Socava seus ombros como sinal de reprovação.
– Ai, ai, Kate, foi só uma brincadeira. — Ele sorriu e me segurou pelos punhos causando ao meu estômago, um mal imenso.
– Você é ridículo. — O encarei com um sorriso que posso considerar provocante e logo em seguida, desviei os olhos.
– Pare com isso.
– É difícil. Você não me deixa parar. – A tensão voltava a nos encontrar.
– Tudo bem — ele ficou em silêncio pelos próximos minutos e aquilo não me fez o bem que eu esperava, me cabeça pulsou e até o pincel em seu habitual encontro com a parede estava mais notável do que nossa interação.
– Castle. — o chamei enquanto nós dois pintávamos e ele não respondeu – Desculpa vai, eu só estou um pouco nervosa com isso tudo. E você sabe, tudo pode acontecer e não quero ser um fracasso como mãe.
– Você nunca vai ser um fracasso, em nada do que você se propor a fazer — disse ao me encarar com o semblante fechado e logo, voltando ao silêncio.
Respirei fundo e controlei meus ânimos agitados — É sério isso? Você vai ficar de birra? — mergulhei o pincel na lata de tinta branca e sacudi na sua direção. Ele ficou estático por alguns segundos. Reagindo logo em seguida.
– É guerra que você quer, detetive?
– Não, não, não, não. — disse rindo e andando passo por passo em modo de recuo, quando o notei próximo, sai correndo pela casa e Castle me seguiu com o pincel. Quando finalmente me encontrou passou tinta em meus cabelos e pelos meus braços. Caímos os dois no chão, eu, enquanto tentava me esquivar das tintas e ele, no momento em que insistia em me atacar. Rimos até nos faltar o ar. — Você me paga! — sorri para ele, completamente unida ao assoalho e passei um pouco de tinta na ponta de seu nariz. O engraçado foi o seu estômago acompanhando nossas risadas. — Com fome? — Disse caída ao seu lado.
– Morrendo e você?
– Precisando de muito para me manter em pé. — prossegui — Eu compraria um caminhão de comida, agora. Japonesa ou Chinesa?
– Confio no seu bom gosto.
– Você sabe que ele pode ir contra você, não sabe?
– Estou disposto a arriscar.
– Tudo bem.
Em poucos minutos estávamos sentados sobre os jornais do quarto que estava completamente pintado de verde e branco. Nós também estávamos pintados. Comíamos Yakisoba e nos divertíamos como nunca. Estávamos famintos, principalmente, um pelo outro. As trocas de olhares eram profundas e carregadas de sentimentos. Nos encarávamos como se fossemos as únicas pessoas existentes na face da terra. Em resistência, mordi o lábio. Tentava encontrar o resquício de sanidade que ainda me restava, mas a imersão em um silêncio sexual nos agitava. Era o homem da minha vida, ali, na minha frente. Totalmente envolvido em nossa nova rotina. – Kate... — Em determinado momento, que não sei quando foi, Castle aproximou seu rosto do meu, na tentativa de alcançar meus lábios, a vontade era de corresponder, mas eu não podia, a prioridade agora era Johanna e só ela. Nós poderíamos tentar novamente, mas e se não desse certo? A cabeça da nossa filha ficaria ainda mais confusa e eu não poderia expô-la a mais este transtorno.
— É Castle, agora que nós terminamos por aqui, se você me der licença, eu gostaria de me trocar e descansar, amanhã o dia vai ser longo. – sorri tentando me convencer do que estava fazendo, em troca ele me encarava com um olhar que entregava a decepção, mas eu não podia. Nós não podíamos fazer isto com nós mesmos.
— Eu posso te esperar para retirarmos esses jornais e tudo mais. – tentou me convencer.
— Tudo bem, eu acho que você já me ajudou o suficiente por hoje, vá descansar. – ele não insistiu, pelo contrário, se dirigiu ao banheiro e vestiu sua roupa anterior. Isto, vindo de Castle, era um sinal claro de decepção e eu não podia com isso.
— Kate... – ele sussurrou ao passar por mim em direção a porta.
— Até amanhã, Castle. – abri a porta e dei passagem para ele.
Aquela noite foi uma das mais difíceis dos últimos dias, as lembranças da tarde com Castle me invadiam e me viravam do avesso, dando um nó em meus pensamentos e sentimentos. Afinal, o que eu ainda sentia por ele? Essa pergunta aparecia quase que como a minha própria sombra, bastava uma luz aparecer, um momento feliz se manifestar e lá estava a pergunta novamente, me perseguindo e me torturando. Eu sabia o principal, que eu estava gostando disso, de tê-los perto, mas isso tudo era por Johanna, certo? Estava confusa, como não ficava há anos quando o assunto era Castle. As lembranças dos últimos dias, de como nos comportávamos como uma família, só fazia toda essa sensação eclodir com ainda mais volúpia. Não poderia ser assim. Isso tinha que parar. Eu precisava sair para conhecer pessoas novas, precisava esquecer Castle e principalmente, precisava me preocupar com a sanidade da minha filha. Tomei um banho, repassando tudo por diversas vezes, e ao mesmo tempo, tentando preencher os pensamentos com outros tipos de ideias. Depois, segui para o quarto de Johanna, colocando alguns funkos³ sobre a prateleira onde havia alguns poucos livros. Deitei em seguida, colocando minhas mãos sobre a cabeça na tentativa frustrada de afastar tudo aquilo para o mais longe possível. Alcancei um comprimido e um copo de água para cessar a compressão em minha cabeça e encaminhei uma mensagem para Lanie. Quem sabe ela teria algo a me dizer. Ela sempre tinha.
— Garota, você sabe o que penso, dê uma chance para o garoto escritor.
— Lanie!
— Está bem, está bem! Não está mais aqui quem falou. Se você quer um encontro, é isso que você terá.
Eu e Lanie organizamos um jantar em minha casa, umas bebidas e uns petiscos, era um tal de Brad, um bombeiro. Mais próximo eu precisaria falar com Castle e explicar que pegaria a Johanna um pouco mais tarde no dia seguinte. Eu faria isto assim que Lanie confirmasse com seu amigo. Não estava preparada afinal, mas precisava daquilo. Eu e Castle estávamos muito próximos e com toda a certeza, não terminaria nada bem. Esse era o melhor jeito de acabar com tudo, ter alguém.
***
O grande dia chegou, eu estava completamente nervosa, não dormi pela noite toda, levantei, fui ao banheiro, assisti alguns filmes na televisão e rolei várias e várias vezes na cama na tentativa de afastar qualquer pensamento negativo que ousasse me invadir. Pela manhã, eu passaria para pegar Johanna na casa de Castle. Acordei às 8h, e nessa hora certamente ela não estaria acordada ainda. Era o que eu achava.
Minha filha ainda não entendia bem o que estava acontecendo, mas ela era esperta e as coisas se ajeitariam em sua mente, logo. De qualquer modo, ela estava amando o fato de agora passar a ter duas casas. E principalmente, de ter uma mãe. Disse-me que queria que todos me vissem na escola. Em breve chegaria o dia da profissão e ela me levaria. Não sei se estava pronta para encarar os olhares tortos dos pais por ter ficado tanto tempo longe, mas por ela, tudo valeria a pena.
— A pecinha aqui, não para de perguntar que hora você chega. — me estiquei e peguei o celular devido o alerta de mensagem.
– Jura? Estava pensando sobre isto agora. Pensei ser muito cedo. — enviei.
— Ela quase não dormiu de ansiedade. E você, tudo bem?— respondeu.
— Então fomos duas. Algumas dores no corpo só, mas no mais, está tudo pronto. — ri sozinha.
— Eu me sinto um velho. Precisei levantar na madrugada para tomar aspirinas.
— Você está velho.
— 42 anos, estou na flor da idade.
— Sei.
— Venha tomar café conosco.
— Vou tomar uma ducha. Devo chegar em poucos minutos.
— Te esperamos.
— Até.
Como prometido, tomei uma ducha rápida, vesti um sobretudo azul, um vestido que cobria metade da coxa e uma meia calça grossa — não necessariamente nesta ordem. Para calçar, um all-star, combinaria com ela, e também estaria confortável para cumprir a nossa programação da tarde. Iríamos ao Central Park4, em uma sorveteria, conforme ela havia me pedido, e a uma loja de livros, escolher mais algumas peças para seu novo quarto.
Dirigi até o apartamento de Castle, com o coração apertado de tal maneira que cabia em uma caixinha. Estava comprimido e me reprimindo por inteira. Minhas mãos suavam e meu estômago parecia mais que queria sair pela boca de mãos dadas com o coração. Cheguei lá em 15 minutos contados. – Eu soube que alguém estava ansiosa por aqui. – falei assim que Castle abriu a porta. Ele ainda preparava o café e Johanna estava no sofá da sala, de pijama, afundada em cobertores, assistindo a Bela e a Fera. Quando me notou, correu ao meu encontro me envolvendo com seus bracinhos. Me contando sobre como estava ansiosa para conhecer sua casa nova, me puxou para seu quarto e eu, não podia negar este pedido. Subi as escadas com ela e lá estavam suas roupas organizadas de maneira que eu nunca poderia fazer, e muitos brinquedos espalhados pelo quarto. Castle não conteve a excitação e subiu logo atrás, parando com a lateral de seu corpo escorada ao batente da porta.
— Oh meu Deus, amor, estamos indo para um final de semana. – ela me encarava com os olhinhos brilhando certa do que estava fazendo.
— Mas eu pensei que se agora eu vou ter duas casas, eu posso deixar isso tudo aqui. – apontou para os objetos – na minha segunda casa – Encarei Castle que nos observava atentamente.
— Abelhinha, a Kate comprou algumas coisas para você e o papai viu, eu acho que você vai gostar até mais do que das suas coisas daqui. – fez uma cara de dor e Johanna me olhou pedindo ajuda.
— Tudo bem, Castle, eu acho que podemos levar algumas coisas! – sorri para ele que entendeu e me ajudou a organizar e convencer Johanna sobre o que era necessário e o que podia ser deixado por lá.
Quando concluímos, descemos com sua mochila e alguns brinquedos nos quais ela saiu agarrada sem nos dar a chance de retira-los dela. Tomamos o café, conversando sobre amenidades, rindo e brincando. Johanna correspondia a minha interação, o que me deixava muito satisfeita. Castle me encarava como se eu fosse a última pessoa existente na terra e isso, confesso, me constrangeu. De qualquer forma foi um tempo muito agradável.
***
Algumas horas depois, chegávamos ao meu apartamento, e foi uma sensação engraçada, como se eu tivesse o poder de voltar no tempo. Naquela hora, éramos apenas nós duas, como se a vida me concedesse uma segunda chance. Uma linda segunda chance. A porta foi aberta e ela, mesmo cansada do dia e suja pelas nossas brincadeiras, travou próxima a porta de entrada.
— Ei! – abaixei ficando na sua altura e solicitando atenção – O que você acha de entrar? — agarrada em seu coelho de pelúcia, ela permaneceu com os olhos esbugalhados parada na entrada, sem dar uma palavra sequer – Johanna? – a chamei e ela apenas me encarou assustada – Você quer que eu te leve? – balançou a cabeça positivamente, estendeu seus braços e eu a peguei no colo, ela depositou a cabeça no vão do meu pescoço, fixou seus braços por lá também e suas pernas ficaram entrelaçadas em minha cintura, não a preenchendo por inteira – Chegamos! – disse baixinho em seu ouvido fazendo com que levantasse seus olhinhos para encarar o lugar – O que você acha de um banho? – sorri tentando olhar em seus olhos e como resposta, recebi um aceno.
Eu não sei o que aconteceu neste meio tempo, mas aquela criança doce e sensível apareceu com ainda mais expressividade naquela noite e eu, não sabia muito bem como agir com a minha própria filha. Talvez eu fosse realmente uma péssima mãe como algumas pessoas desconhecidas julgavam. Sentei no sofá, ainda com ela no colo e depositei as muitas sacolas do shopping, sua mochila e os brinquedos ao nosso lado. Ela voltou a enterrar a cabeça em meu pescoço, desta vez, fechando os olhinhos. Estava exausta, correu como se fosse uma maratona e comeu como se nunca houvesse feito. Ao final, satisfeitas e consumidas, voltamos para casa.
— Hei! Esta também é sua casa, – disse acariciando suas costas com a palma da mão – tudo por aqui é seu. – desta vez, me olhou, mas ainda retraída e com os braços rígidos presos a mim. Segurei na barra de seu vestido e comecei a erguê-lo com cuidado – Vamos para o banho, eu divido minha banheira com você. – disse tentando fazer com que perdesse o receio e ela apenas ergueu os braços para que em seguida a peça fosse arremessada contra o sofá. Com zelo, tirei os seus sapatos e em seguida a meia calça – Que tal um sorriso, hã? – ela enfiou o rosto em meu peito e riu encabulada, mas sorriu e como resposta, eu ri junto. Quando terminei de despi-la, não a coloquei no chão, pois estava gelado, mas ela cochichou em meu ouvido algumas palavras.
— Tem um chinelo na minha mochila. – o sussurro foi tão baixo que somente alguém com muito boa audição conseguiria compreender, nisto, eu era ótima. Ryan e Esposito que digam. Abri a mochila, ainda com ela recostada sobre meu peito e calcei os chinelos, um em cada pé, que estavam em volta de mim, apoiados no sofá.
— Vamos? – ela sacudiu a cabeça, desta vez com mais velocidade e com um brilho diferente no olhar. Levantei a colocando no chão e ela saltitou segurado a minha mão, então fizemos o caminho até o banheiro. Certamente, a atitude dela, era um bom sinal. A ajudei a entrar na banheira e em troca ganhei um banho de água, com suas mãozinhas formou uma concha e arremessou uma grande parte do liquido em mim – Johana! – gritei e em seguida gargalhei.
— Vem tia Kate! – ela pediu.
— Na, na, primeiro você, depois eu. – ela ria e me jogava mais gotas d’água – Mocinha, que tal tomar banho?
— Tá bom. – ela cruzou os braços e fez um bico lindo.
— Outra hora a gente tem essa aventura submarina, mas agora eu estou cansada, pequena.
— Tá. – ela revirou os olhos e eu em troca a ataquei com as cócegas mágicas que como sempre, surtiram melhor efeito possível – Tia Kate, eu posso dormir com você?
— Pode meu amor, mas você tem o seu quarto.
— Eu sei, mas eu nunca dormi com a minha mãe. – suspirou e fixou os olhos na água.
— Pois bem, agora você vai fazer tanto isso que vai enjoar. – respondi despreocupada.
Johanna pegou um pouco de água com as mãos e assoprou, fazendo com que bolas de sabão flutuassem pelo banheiro. Ela estava encantada com os brinquedos novos. Ficou ali por alguns minutos enquanto eu aproveitava a sensação de um ato tão simples quanto banhar uma criança. Fiz com que ela levantasse e passei a esponja pelo corpinho dela e em seguida, enxaguei, com sua ajuda. Por fim a fiz sentar novamente para retirar o shampoo dos seus cabelos – A-ha! – disse com tranquilidade – Agora feche os olhos meu amor. – ela obedeceu, o que facilitou a retirada do produto.
— Ai, ai, ai, tá ardendo – reclamou.
— Tudo bem, tudo bem, aqui está a toalha. – alcancei em suas mãos – Seque seus olhos. – ela o fez – Você pode me ver?
— Não. Eu não consigo. – levantou da banheira e fingiu estar impossibilitada de enxergar – Eu não posso ver nada. – fingia precisar se apoiar nos móveis.
— E agora? O que eu vou dizer para o seu pai? – Entrei na brincadeira dela.
— Diz que vou precisar de um cão guia.
— Você já tem um cão, é só treinar ele. – dei de ombros.
— Vai demorar muito, né tia Kate – revirou os olhos.
— Mas espera, você consegue revirar os olhos, que surpreendente.
— Claro, eu só não enxergo, isso não significa que não posso movê-los.
— Está certo. Agora você pode vir aqui, menina dos olhos. – a enrolei na toalha e ergui seu corpo da banheira me movendo até seu quarto – Você não consegue ver seu quarto também?
— Nadinha – ela riu, mas eu pude notar que seus olhos cintilaram com tanta novidade em volta.
— Que pena, eu acho que vou doar seus brinquedos para alguma criança que possa fazer bom uso.
— Não seja boba, tia Kate, eu ainda posso tocá-los. – ela fez um gesto levando a mão até a testa.
— Claro, pode sim. É obvio. – continuei enxugando seu corpo — Eu vou até a sala pegar o pijama, você acha que consegue ficar sozinha por aqui? – questionei devido ao fato de ter travado na porta, mais cedo.
— Aham! – disse erguendo os braços, ainda enrolada na toalha. Estava feliz. Era perceptível.
Quando voltei, parei em frente a porta e fiquei examinando a cena, ela estava brincando com os funkos, a televisão já estava ligada e tudo já estava completamente fora de seu lugar de origem. — Você está ótima para alguém que não enxerga. – disse adentrando o quarto fazendo com que ela corresse para a cama. – É. Não fique gargalhando assim. – tentei parecer série, mas acabei rindo junto com ela.
— Você acreditou tia Kate! – ria sem parar, uma risada doce e infantil, típica dela.
— Você é ótima atriz – brinquei.
— Eu sei, a vovó me disse. – se gabou.
— Tudo bem, sua avó sabe tudo. Agora erga o braço! – ela o fez sem pestanejar – Certo, agora erga esta perna o mais alto que puder! – alto demais – Não tanto! – ri e continuei vestindo-a – Agora está pronta para o sono dos justos.
— Sono do que? – me examinou confusa.
— Nada não. Sente. – dessa vez vesti sua meia – Certo! Você já está tão habituada ao seu quarto, que acho que não vai mais querer a minha companhia. – dessa vez ela só soltou um pequeno resmungo, correu sobre a cama e saltou para o meu colo, me prendendo com toda a força possível – Tudo bem, tudo bem, eu estou aqui e não vou a lugar algum sem você – me olhou e senti seu corpo todo relaxar em meus braços – Vamos desligar a TV aqui e dar tchau para o seu quarto? – acenou que sim, escorregou por minhas pernas e correu para pegar um funko da Bela que estava sobre a prateleira.
— Agora sim! – sorriu alcançando minha mão e evidenciando seus olhos.
Entramos em meu quarto e ela correu para a cama sem cerimônia alguma, pegando o controle remoto e ligando em seu canal favorito, alcancei seu coelhinho e ela se aconchegou da melhor forma possível. Eu, só sabia me perguntar sobre onde estaria a Johanna constrangida de algumas horas atrás, mas agradecia mentalmente por isso ter passado. Alcancei o secador de cabelo e o liguei em uma tomada próxima a cama. Penteei os cabelos da minha filha e foi impossível não lembrar a Johanna mãe, durante este ato. Ela sorria, com o chocolate que o pai colocou na sua bolsa em mãos, mastigava e ria para o desenho, sem se incomodar com os puxões de cabelo ocasionados pela escova em conjunto com o secador. Terminei e sua boca estava totalmente suja de chocolate – Posso tomar meu banho? – ela balançou a cabeça e deitou novamente, esperando que eu a cobrisse e assim o fiz – Volto logo.
Quando voltei, ela dormia da maneira mais angelical possível e ocupava mais da metade da cama. Cena engraçada, mas linda. Deitei-me ao seu lado, sem sequer secar os cabelos para não acordá-la, desliguei a televisão e mantive o abajur aceso para poder velar seu sono e também para que ela não acordasse assustada em alguma altura da madrugada. Pensei em despertá-la para que ela escovasse os dentes, mas não, sem problemas que me achassem uma péssima mãe por propiciar, possivelmente, caries a sua filha ou por fazê-la perder os dentes de leite antes, e até por talvez permitir que ela adoecesse por isso, tudo bem eu a cuidaria se algum mal a sucedesse. O importante agora era que estivéssemos juntas, que eu pudesse tê-la em meus braços e fazê-la dormir, sem medo de perdê-la no dia seguinte, sem a insegurança de alguns anos atrás, sem fobias, sem pânicos, só eu e ela.
***
É claro que Castle me acordou com uma mensagem preocupada. Na verdade, ele parecia desesperado.
— Tudo bem, foi só o primeiro dia, Castle. – respondi e voltei a encarar o meu anjinho que dormia tranquilamente com as pernas sobre mim e os cabelos espalhados pelo travesseiro invadindo qualquer espaço que eu considerasse meu, as mãos? Essas eu mal podia mencionar porque estavam quase me sufocando, mais um pouco e eu não viveria para vê-la entrar na universidade ou até no Ensino Fundamental. Seus braços e mãos estavam solidificados ao meu pescoço, como se eu fosse fugir para algum lugar.
— Me diga que ela dormiu bem. – suplicava.
— Mas é claro que sim, homem, fique calmo ou vai ter um infarto antes mesmo de vê-la novamente.
— Isso não vai dar certo, Kate— desespero era pouco, aquelas palavras eram assustadoras, até porque, não havia algo para não dar certo. Ele não me impediria.
— O que você está querendo dizer com isso?— perguntei receosa.
— Só que eu estou com saudade. Eu acho que posso sentir isso, não é? Nunca dormimos uma noite separados.
— É completamente compreensível, eu mesma já estou. E você pode começar a se acostumar. – disse desconfiada.
— Ela está bem?
— Dormindo como um anjo –respondi colocando as mãos sobre meu rosto devido às luzes que invadiam a janela e batiam com força diretamente em meus olhos.
— E o monstrinho lindo, onde ficou?
— Acho que esqueci no parque ontem.
— Vocês foram a um?
— Uhm, Central Park.
— Me chame da próxima vez – disse fingindo ofensa.
— Era um passeio de mãe e filha. E tchau, Castle.
— Tchau, mande um beijo para ela assim que acordar.
— Está certo! –finalizei as mensagens voltando a me concentrar em Johanna que dormia ao meu lado e me causava falta de ar. Parecia de porcelana, parecia que ia quebrar. Meu pedacinho de gente, uma parte de mim, a mais linda e mais importante. A encarei por todo resto da manhã até que ela acordasse quase me estapeando ao se espreguiçar. Até isso me fazia rir, eu me sentia a mãe mais boba desse mundo. Ficou em silêncio quando acordou e bocejou algumas vezes, até que eu iniciei uma conversa.
— Bom dia mocinha, você lembra onde dormiu? – fez que sim com a cabeça, mais uma vez bocejando – A mamãe não quer te forçar a nada, então se você quiser voltar para casa com seu pai, eu levo você lá, tudo bem? – dessa vez um sinal negativo, o sinal mais lindo que eu poderia receber em um domingo pela manhã – Então, que tal se a mamãe fizer um cafézão pra você? O seu pai me disse que você gosta de panquecas e modéstia parte, as minhas são maravilhosas – sacudiu a cabeça novamente dessa vez o movimento veio acompanhado de um sorriso aberto — Você está com sono?
— Não mais. – foram suas primeiras palavras da manhã. Eu poderia dizer que as mais lindas da minha vida. De todas as pessoas – o que não foram muitas – que acordaram ao meu lado na cama eu tinha a melhor de todas em meus braços. É claro que Castle nem entrava neste páreo, afinal, ele é um dos responsáveis por eu ter essa coisa pequena para mim. Liguei a televisão, coloquei em um canal de desenhos animados e a arrumei na cama a cobrindo um pouco melhor do que estava. Levantei e alcancei o funko da Bela e seu coelhinho que estavam no chão.
— Qualquer coisa, eu estou ali na cozinha, tudo bem?
— Uhum – resmungou concentrada no desenho.
Fiz algumas panquecas felizes, claro que nada se igualaria as de Castle, fatiei mamão, dica que ele me passou, e servi um copo de leite com achocolatado. Quando estava terminando o café, alguém passa pela porta do meu quarto arrastando um dos cobertores que estava na cama e coçando os olhos.
— Tia Kate, a Bela está com medo de ficar sozinha no quarto.
— Ah claro, a Bela! – ri e fui ao seu encontro a pegando no colo – Uhum, você está pesada, será que é a Bela também?
— Claro que é ela come um montão – disse culpando a pobre ser inanimada.
— É bom saber, porque tem muitas panquecas aqui. Você quer? – caminhei até a cozinha com ela em meus braços.
— Panquecas felizes! – exclamou erguendo os bracinhos em sinal de alegria.
Não saberia dizer o que fizemos naquele dia, se tomamos café ou nos sujamos, porque ficamos irreconhecíveis e a cozinha também. Nada disso importava, ela estava feliz e queria ficar comigo. Passamos a tarde de domingo imersas em cobertas. Fizemos pipoca, e bolo de chocolate, tudo isso em conjunto, éramos uma boa dupla. O problema foi a cozinha que ficou submersa em farinha, depois da terceira guerra mundial, da cozinha. Eu era uma péssima mãe, mas quem liga? A mimaria o quanto fosse possível e a protegeria do mundo também. De todas as maldades e olhares tortos que ela pudesse vir a receber por suas escolhas. A apoiaria para que ela nunca se sentisse como eu me senti anos atrás: rodeada de gente, mas ao mesmo tempo tão sozinha. Eu estaria com ela. Sempre.
— E então, o que vamos ver? — me aconcheguei ao sofá, juntamente com ela, mastigando algumas pipocas e alcançando o pote em suas mãos.
— Hm, que tal, esse? — disse mexendo em minhas caixas de DVD. Algumas coisas eram novas, as que foram compradas especialmente para ela. E ela escolheu justamente nébula-9.
— Eu não sei, este é de quando você ainda nem pensava em nascer, bebê — sorri e apertei a ponta de seu nariz — Que tal esse aqui? — ergui um dos novos, Cinderela era o escolhido.
— Esse então, tia Kate. — pediu. O escolhido da vez era Temptation Lane e não podia ter escolha melhor. Éramos mais parecidas do que eu podia esperar. Castle deveria ficar louco com essas similaridades. O dia-a-dia é muito mais penoso quando se tem alguém para lembrar-se de algo que você quer esquecer. Aliás, ele já havia feito isso a muito tempo, talvez não importasse tanto.
— Vai adiantar se eu disser que este também é mais velho que você?
— Não, — balançou a cabeça negativamente, fazendo uma careta linda, tudo que era oriundo dela, tinha um significado especial e me proporcionava um aglomerado de sentimentos — parece legal.
— E é muito legal. — levantei e coloquei o DVD para rodar — Você sabe, — pausei e retornei para o sofá a cobrindo de forma que ela parecesse mais um pacotinho e continuei — que quando eu tinha, em torno de nove anos e precisei operar as amidalas, a minha mãe assistia Temptation Lane comigo. — Se aproximou, deitando a cabeça sobre meu peito e me abraçando.
— Ela devia ser legal.
— E era, tinha seu nome. Ela morreu quando eu tinha 19 anos.
— Tia Kate?
— Uhum – alisava seus cabelos.
— Eu sou igual a minha vó?
— É linda e corajosa como ela. — sorri e apertei play.
— Eu queria ter conhecido a vovó — suspirou.
— E ela adoraria ter te conhecido, bebê. — depositei um beijo em sua testa. Ela sorriu e se aconchegou mais a mim, pronta para a exibição.
***
Eu estava ansiosa para o que viria a seguir, sobre as preocupações de mãe, aquelas básicas como mensalidade da escola, peso da mochila e reuniões de pais e mães, essas coisas que eu perdi por todo esse tempo que estivemos afastadas. Finalmente poderíamos ser felizes. Juntas. Mas infelizmente Castle não estava incluído nisso. Minha relação com ele a partir daquele dia estava restrita. Trataríamos apenas de coisas relacionadas à Johanna.
A semana iniciou e eu estava louca para que o sábado chegasse de novo, para estar novamente com Johanna. Nós nos falamos pelo Skype e neste dia eu não resisti e apareci na porta da escola, somente para dar um beijo nela.
— Tia Kate – ela cochichou ao telefone. Ligava para a delegacia.
— O que foi meu amor? – reconheci a voz e tomei um susto com a ligação e com o sussurro.
— O papai vai sair com uma garota, você não pode deixar, – mantinha o tom de voz baixo, ao telefone.
— Amor, o que você acha de eu passar aí daqui a pouco? – A carga horária na delegacia estava cumprida, então eu conversei com Gates, prometendo explicar o que estava acontecendo e saí para o loft.
***
— Entenda bem Johanna, eu e o papai somos amigos, então ele pode sair com uma garota – disse sem mesmo acreditar no que falava. Eu estava remoendo as palavras dela ao telefone. Eu não aguentaria vê-lo com outra mulher que não fosse eu, assim como não poderia aturar uma qualquer agindo como mãe da minha filha ao lado dele.
— E a mamãe pode sair com quem ela quiser também — Castle disse me encarando profundamente, me trazendo a tona um arrependimento mortal – Isso é coisa de adulto filha e você tem que entender que o papai e a mamãe não são namorados, só amigos.
— Mas vocês já foram – rebateu.
— Abelhinha, você lembra que o papai explicou que amigos também colocam a sementinha? Então, o papai e a mamãe são amigos e é só isso – ela revirou os olhos e eu podia entender como ela se sentia, porque eu fiz o mesmo gesto, mas sem deixar que Castle percebesse. Amigos era tudo o que não éramos.
As suas férias de inverno se aproximavam, e ela estava ansiosa para que uma amiguinha para conhecesse o nosso cantinho. Johanna era viciada nas amiguinhas. Elas eram como irmãs e isso me fazia pensar sobre ter um relacionamento estável novamente. Formar uma família, dar um irmãozinho para ela, alguém em quem ela poderia se apoiar, poderia contar, mas precisava fazer isso sem mexer em feridas do passado, sem arriscar coisas que não dariam em nada e magoar minha filha. Quando uma coisa te machuca, você deve deixa-la de lado e foi isto que eu e Castle fizemos um com o outro.
***
— Então é isso Beckett, você tem uma filha – acenei.
— Na verdade, eu e Castle – esperei por uma reação depois de contar toda a história.
— UAL! – Ryan estava surpreso.
— Fala sério, como você pôde esconder isso da gente?
— Vocês são meus melhores amigos, meninos, não me façam esse tipo de pergunta. Não dava pra contar, não sem reviver toda aquela dor.
— A gente podia te ajudar, a gente é uma família! – Espo interviu como se estivéssemos em uma briga.
— E fazer com que vocês brigassem com Castle? Não mesmo. Como você disse, nós somos uma família.
— Isso não significa que nós não vamos ter uma conversa com ele. – Ryan prosseguiu com a manifestação de mágoa.
— É Beckett, nós estamos muito ofendidos. – Espo disse cruzando os braços.
— Não façam essa cara rapazes, nem eu sabia que ela estava tão próxima de mim e isso era algo que eu mesma queria fazer, como forma de me encontrar novamente, só eu podia – falei tentando passar confiança. — E além do mais, vocês deviam ficar felizes por nós – disse com um sorriso amigável.
— E nós estamos. É só aquela coisa de exclusão falando mais alto. – Ryan foi mais compreensivo.
— Quer dizer que tudo isso é fruto de DC? – Espo foi mais indiscreto, mas já parecia aceitar melhor.
— Eu acho que já chega, não? – ri com a falta de discrição dele.
— E quando nós vamos ser apresentados pra ela, quero dizer, agora com ela já sabendo de tudo, sabendo que nós somos da família. – Espo conseguia ser mais babão que Ryan e Castle juntos.
— Não se preocupem, ela vai ser apresentada para vocês. E meninos – os chamei fazendo com que me olhassem atentamente – Tentem não babar tanto. – ri e me dirigi para o necrotério.
***
Dessa vez preferi ligar para evitar possíveis problemas. Era imprescindível que ele soubesse que de jeito algum eu abriria mão do meu final de semana com Johanna, mas que poderia atrasar no dia seguinte. Finalmente chegou o meu encontro com o tal bombeiro — Lanie só conhece homens como este. Era a segunda vez que eu conhecia um amigo dela e já estava preocupada com o que viria. Castle foi perspicaz, tentou me convencer a ir para o loft e jantar com eles – e não nego isso era tudo o que mais queria, mas o meu orgulho e esse muro que se autoconstruiu novamente aqui dentro, jamais permitiriam que eu me juntasse a ele, de novo – mas ele não desconfiou de nada. Eu? Eu precisava dar um passo à frente em minha vida, logo, assim seria.
— Essa é uma exceção, Castle. Então eu preciso que você fique com ela por algumas horas a mais pela manhã e logo eu apareço pra buscá-la, tudo bem?
— Eu tinha um compromisso com o livro, mas tudo bem. – silêncio – Será que eu poderia saber por que, detetive?
— Castle... – o chamei para realidade.
— Tudo bem, tudo bem, é só curiosidade de escritor. – disse despreocupado.
— É claro que é.
Fui para o quarto e escolhi uma roupa qualquer, não me preocupando muito com o frio que fazia lá fora. O que importa é que em minha casa não estava. Lanie chegou logo em seguida. Nós bebemos algumas doses perseverando na tentativa de ficarmos alterados. O rapaz, Brad era o nome, me carregou pela mão para cozinha e Lanie havia lhe dado anuência para o que viria a seguir. Na sala, ela e o segundo amigo. Na cozinha, apenas nós dois. Bebemos mais umas taças de vinho e eu já precisava me apoiar no balcão da cozinha, apesar de tudo, confesso, o cara tinha um bom papo, o que me convenceu a continuar por lá, em uma conversa inebriante, que me envolvia cada vez mais na medida em que ingeria uma nova gota daquele liquido mágico.
Depois de determinada hora – era 10h da noite, consegui notar mesmo um pouco atônita – o meu telefone começou a tocar. Ignorei. A esta altura Brad já me segurava pela cintura e jogava todo o seu charme para sobre mim. Eu só conseguia pensar que poderia ser Castle. Ele parecia condescendente com a minha história de bêbada. Eu prescindia de mais um dos argumentos ridículos que ele utilizava para me convencer a beijá-lo, estava extremamente alterada e precisando de alguém para me carregar para qualquer lado que fosse, então, cedi. Foi um beijo rápido e carregado de emoções, o que não me desligou do mundo exterior, eu ouvia tudo, desde a buzina dos carros que cruzavam a esquina, os apressadinhos que gritavam sem cessar e até mesmo os cochichos dos motoristas que achavam poder passar por sobre as regras de trânsito.
Talvez eu estivesse sendo algoz comigo e com Castle, mas ele não precisava saber que os nossos sentimentos eram recíprocos. Eram? Ele perdeu os direitos sobre “nós”, quando me escondeu por anos a minha filha. Estava agitada com o beijo, mas nem um pouco concentrada no assunto que Brad iniciou minutos após.
— Kate – ele segurou meu queixo – eu posso te chamar assim, certo?
— O que? – retomei o foco.
— Eu perguntei se posso te chamar de Kate – disse aproximando seus lábios dos meus e recebendo a minha recusa.
— Pode claro! – disse forçando algo que nem sei se podia chamar de sorriso.
Os sons que ecoavam em minha mente eram tantos que notei quando a Lanie abriu a porta e alguém rumou à cozinha. Óbvio que as coisas não poderiam dar certo. Castle apareceu na minha casa, dez horas da noite. E obviamente ele não se retificaria pela atitude, e nem sei se deveria, ele só procurava um motivo para me encontrar no meio da noite, e achou. De qualquer maneira, foi tudo tão efêmero que eu nem pude me justificar. A última imagem que tive foi de Lanie me pedindo desculpa pela gafe.
— Castle, espera! – sai pelo corredor segurando seu braço e largando o tal bombeiro ali, sem reação alguma.
— E porque eu deveria Beckett?
— Porque, porque, o que você veio fazer aqui? – perguntei atordoada.
— Eu só estou aqui. – disse pressionando o botão do elevador como se quisesse sair correndo.
— Espera! – puxei seu braço de novo – O que você veio fazer aqui dez horas da noite? — perguntei autoritária.
— Eu pensei em trazer isto e adiantar as coisas para você – ergueu a mochila de Johanna. — Eu achei que você estivesse trabalhando, eu só queria ajudar, mas – suspirou e voltou os olhos para o elevador enquanto eu me sentia a pessoa mais cruel do universo.
— Tudo bem, então eu acho que você pode me entregar. – disse esticando a mão.
— E por qual motivo eu deveria te entregar as coisas da minha filha, detetive? – parecia um estranho.
— Talvez porque amanhã ela virá ficar com a mãe dela? – o encarava preocupada.
“Bela mãe”— sussurrou baixinho sem me olhar.
— Quem sabe se você pensasse um pouquinho mais no bem dela e não apenas no seu umbigo, Castle, as coisas seriam melhores para nós. – disse apontando o dedo em sua direção, o movimentando – Nada disso precisava ser assim, se você e esse seu bendito egocentrismo não se fizessem parte disto.
— Você acha que é muito melhor, não é? Pensa que está fazendo bem, estando aos beijos com um cara qualquer na sua casa, no teto que você divide com a sua filha, detetive. Você acredita que está sendo ótima, não é? – pausou e retomou a linha de raciocínio – Você acha que fazendo isto vai conseguir fugir do que somos agora. – disse enquanto as portas do elevador se abriam – Não vai, Kate. A Johanna está lá perguntando sobre você e a possibilidade de vir dormir aqui hoje e não amanhã, como planejado, ela está com saudade da mãe, e sabe o que eu disse? Que a mamãe estava trabalhando. – seus olhos carregavam uma tonelada de sentimentos — Você já sabe como isso vai acabar Kate – as portas do elevador se fecharam e eu não conseguia me mover. As minhas pernas travaram e meus olhos se encheram de lágrimas que eu consegui controlar. Afinal o álcool amortecia essas dores da alma.
***
A minha relação com Castle, não era das melhores, ou ele deixava Johanna comigo, ou eu a buscava na casa dele ou na escola. Nossas conversas se tratavam apenas de reuniões escolares, alimentação, médicos e remédios de Johanna, nada mais do que isso. Não passando de 10 minutos de diálogo. As coisas pioravam cada vez mais. Sem contar que ele era amigo de Esposito que com toda certeza ficou sabendo de nosso jantar e comentou algo mais com ele. Não interessava, eu precisava esquecer Castle e afastar dele esta ideia de que seriamos uma família. Nós não seriamos.
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