You came back

21 Vigésima Primeira Parte


Notas iniciais
Gente, capítulo grande e cheio de narrativa, muito mais a visão da Kate do que diálogos, eu senti necessidade porque precisava explicar o que aconteceu no meio tempo. Boa leitura e não sei o que aconteceu, mas achei que ainda estava em dia com as postagens semanais (vou ter que começar a usar despertador). Aproveitem o capítulo que escrevi enquanto aguardava atendimento no hospital (sim, demorou MUITO, haja paciência e me mande boas vibrações, titia está precisando) HAHAHA. Beijos!

Um alerta, uma mensagem de texto, me descompondo um pouco, com a manga do casaco, eliminei as lágrimas que não me permitiam ver um passo adiante. Era ele. Mas eu não tinha coragem de ver, não agora. Em um estado de nervos que não sabia se podia controlar eu alcancei alguns papéis que não o permitiriam negar aquilo tudo, as chaves do carro e a roupinha dela. Minha pequena bailarina.

Dirigi de forma atordoada pelo caminho e o trânsito agora, não parecia mais colaborar, o caos agora, era externo, também. Era próprio é impróprio. Estava ao meu redor, assumido um corpo, com esse aglomerado de veículos e buzinas desesperadas por chegar em seu destino final.

Escorei um de meu braço no apoio onde o vidro do carro estava completamente para baixo e permiti algumas lágrimas escorrerem, nada pior do que no primeiro contato com aquilo tudo, claro, a dor concedia espaço para um misto gigante de sentimentos, posicionados em um ranking, onde a mágoa com o ato de Castle estava lá, bem no topo e eu nem precisava me esforçar muito para ver ou tocar, o sentimento já era palpável, de tanto que era real. Agora, as peças estavam tomando seus devidos lugares e se ajustando em minha mente como um quebra cabeças. Os olhos de Johanna, eram indefinidos quando nos vimos pela última vez, era uma variação, que ao sol era de uma cor e a sombra de outra, eu imaginei que ficariam azuis como os do pai, mas vê-los assim, com clareza, era outra coisa. Me desloquei mais um pouco com o carro, quando o trânsito permitiu uns espaçamentos. Olhei o relógio e me assustei com a hora, não a queria decepcionar, o mais importante agora, era a felicidade da minha filha. Eu lutaria por isso.

Pensei em alguma rota alternativa, mas nada me vinha a mente. Me perdi por mais uns minutos, na felicidade que sentimos em nosso primeiro contato, era claro, aquilo não poderia ser comum, eu nunca fui muito de crianças, mas aquela em especial me encantou com o primeiro sorriso, ela era minha. E eu sentia isto desde o começo. Minha bebê, e agora, estávamos tão próximas e unidas, era uma relação única, sem igual. Lembrei de minha mãe dizendo algo sobre ter filhos. "Katie, ter um filho, é um sentimento sem igual, você os reconhece em meio a multidões" e assim foi.

O trânsito deslocou-se mais um pouco e eu consegui encontrar uma rota alternativa, a apresentação iniciaria em pouco mais de 15 minutos e mesmo nesta rota alternativa, com pouco trânsito e em alta velocidade, eu levaria no mínimo 35 minutos. Contando com um atraso na apresentação, talvez eu chegasse a tempo de entregar-lhe a roupa. Droga, droga, droga, mesmo agora que eu sei que ela é minha filha, mesmo agora que tenho uma chance de fazer algo por ela, algo certo, agora. Mesmo assim, eu não posso. E eu só conseguia pensar em quanto isso a decepcionaria.

Como esperado, 40 minutos depois, lá estava eu, entrando correndo pela porta do teatro da escola. Por sorte, nada de ruídos impediu a apresentação ou até mesmo que alguém me visse. Castle havia dado um jeito, que eu nem imagino qual, mas ela estava lá, brilhando no palco. Movimentando bracinhos e perninhas, na mais perfeita sincronia. Era impressionante, Johanna era a nossa mistura perfeita, ela tinha um pouco de nós dois, sem esquecer de nem um traço sequer. Forte, destemida, delicada, capaz de ir aos extremos, como gostar de ballet, assim como gosta de judô. Estática em meio ao corredor, com as mãos em forma de concha entre minha boca e nariz, eu fiz um papel que nunca achei que fosse fazer, a mãe babona. Algumas lágrimas, neste momento, de orgulho e emoção, escorriam pelo meu rosto e eu fui puxada por uma mãe, que me convidou para sentar e me questionou se eu era mãe de alguma bailarina.

— Johanna — respondi em meio a algumas lágrimas — ela tem o nome da avó — disse ainda um pouco atordoada com as lágrimas, mas já as trocando por um sorriso.

— O senhor Castle nunca me falou sobre a mãe dela, vejo que vocês chegaram a algum acordo sobre isto.

Era claro que não, encarei a mulher, agora com outros olhos, não só de mãe para mãe, alta, com os peitos querendo pular para fora da roupa e um comprimento desnecessário de vestido — Estarei por aqui para eles, a partir de agora — disse despreocupada mesmo sabendo o que aquilo significava, na verdade Castle estava há um palmo do solo desde aquele dia, não daria mais. Nunca mais.

— É uma pena que ele seja como é, por um lado eu entendo os seus problemas. Eu mesma, já o dispensei várias vezes.

Eu sabia que devia ser justamente o contrário, mas eu queria terminar de ver a apresentação da minha filha então eu apenas concordei — Imagino.

— Bem, não me leve a mal, mas o seu — pausou — namorado? Ele não é o que podemos chamar de "alguém que queira se comprometer". A maneira que criou a filha, sozinho, já diz algo sobre isto.

— Uhum — ignorei, afinal, a pequena brilhava no palco, se destacando em meio às outras. Uns passos que eu jamais conseguiria fazer, e lá estava ela. Quando em meio aos holofotes, os olhinhos delas me alcançaram, um sorriso imenso surgiu naqueles pequenos lábios. Ela me viu! Em meio a uma multidão, me viu! E eu retribui mandando um beijo no ar, mais lágrimas se diluíram no meu rosto e lá estava eu, emocionada, feliz, triste. Na primeira, de muitas, apresentações do meu bebê.

— A roupa que a sua filha veste, é da minha pequena Nick, o Castle — agora ela mantinha um tom provocativo — disse que uma mãe prevenida vale por duas. Algo me diz que eles precisam de alguém assim. Você não acha?

Fingi não ouvir o tanto de baboseira que aquela mulher dizia. Estava claro que ela queria Castle, ou que até já havia tido, e ela poderia ficar com ele, desde que não contaminasse a cabeça da minha filha, ele poderia andar com estas aproveitadoras. Ele nunca mudaria.

Poucos segundos após o sorriso de Jo, Castle instintivamente olhou para trás, também me encontrando, sorrindo e me chamando para seu lado, o que claro, não seria capaz de fazer. Então, para evitar conflitos durante a apresentação da minha filha, eu preferi encaminhar uma sms. E assim, eu notei a dele.

— Mães prevenidas valem muito. A amiguinha de Johanna veste o mesmo tamanho e sua mãe trouxe uma roupa reserva, por sorte ela já está no palco e aguardando o início da apresentação. Não demore muito, estamos esperando você

É claro, Castle, por quê isso me surpreende? Aquele pensamento me invadiu de forma que tudo que eu estava sentindo por ele, aumentou gradativamente. Ele conseguia ainda, usar das mesmas táticas de quando tinha Alexis. Só que agora era com a minha filha. Isso iria mudar, muito em breve mudaria. Mantive a frieza e respondi.

— Posso imaginar. Encontro você nas cotias, para não atrapalhar a apresentação. :) — disfarcei.

Ok. Já estava preocupado. Está tudo certo?

— Está, não se preocupe, Castle.

Alguns minutos depois, a professora entrou no palco e a mulher que estava ao meu lado, já havia sumido dali. Respirei fundo e pensei sobre não fazer escândalos em frente à minha filha, sobre controlar as emoções para não atrapalhar o momento dela. Seria muito difícil fazê-lo, mas pela Jo, valia a pena, só em ver aquele sorriso no rosto dela, eu já seria compensada.

A professora e as alunas, agradeceram e se retiraram do palco, Castle também já havia saído da plateia e nesta hora, mais um alerta de sms.

— Final do corredor, pela lateral da plateia esquerda, estamos esperando as crianças. Te esperamos aqui.

— Ok.

Corri para encontrá-los e quando o fiz, não tive uma visão muito agradável. Johanna estava no colo da mulher de poucos minutos atrás e eu só me perguntava sobre como manter o controle desse jeito? Castle estava envolto por mais algumas mães, como sempre, ele era o único pai em meio a elas, e em seguida retirou minha filha do colo da mulher que me provocava, tarde demais. Não deveria nem ter posto. Algumas outras mulheres conversavam com ele e por um instante achei que o fossem comê-lo com os olhos. Fala sério, o quão ridícula era aquela cena para uma criança de 6 anos acompanhar? Quando uma mulher, tão alta quanto à anterior, com cabelos na altura da cintura, coberta com um sobretudo, assim como eu e trajando um singelo, mas bonito, vestido vermelho se aproximou de Castle e a menina que estava em seu colo desceu para brincar com Johanna, eu gelei. Mas permaneci apenas observando à distância. Eles pareciam apenas comentar a apresentação, mas o fato de ela estar mais presente na vida da minha filha do que eu, me fez estremecer. Me aproximei, perguntando sobre Johanna, e Castle, instintivamente, me abriu um sorriso largo.

— Ah, oi Castle e oi...? — tentava descobrir o nome da mulher.

— Rebecca, mas me chamam de Becky ou Bex. Assim já está bom — ela sorriu, sincera.

— Ah, claro. É sua filha? — apontei para a garotinha brincando com Johanna.

— Sim! Sarah, minha mais nova.

— Então você deve estar habituada a este universo — eu sorri ainda tentando manter uma linha de conversa, mas o que eu queria mesmo era abraçar a minha filha.

— Claro, são alguns anos de experiência — ela riu e eu retribuo forçando um sorriso, não era nada fácil naquele momento, sorrir. Justamente pelo caos.

Quando Johanna me avistou ali, correu para os meus braços. Me abaixando, eu fiquei de sua altura e a encontrei em um abraço apertado. Um abraço tão puro, forte e envolto de sentimentos que eu não pude segurar as lágrimas. Eu chorei e Johanna notou e ela era muito sensível para se calar mediante aquele gesto.

— Não chora não, tia Kate, eu tô aqui — passou as mãozinhas pelo meu rosto, tentando secar minhas lágrimas e me abraçou com ainda mais força.

— Eu também estou, aqui, garotinha. Sempre.

— Eu sei. — suspirou. Agora ela estava chorando e eu me assustei, assim como Castle que veio correndo ao nosso encontro.

— Hei amor, está tudo bem? O que aconteceu?

— Nada — ela disse com um tom de mágoa na voz.

— A minha mãe.

— Abelhinha, nós já conversamos sobre isso com o doutor, lembra? — a cena me partia o coração, como Castle podia mentir daquela forma descarada quando a mãe dela estava ali, ao seu lado. Johanna chorava cada vez mais e a região dos seus olhos já ficava avermelhada. Os olhos azuis naufragando em lágrimas e eu naufragando em desespero.

— Ela não está, mas tem eu, eu não basto, não? — tentei manter o controle e soar o mais tranquila possível.

— Basta. Mas não é como se eu pudesse te ver todo dia, tia Kate e, e, — gaguejava e agora era eu quem limpava suas lágrimas — nas apresentações da escola, nem no dia das mães, você não é minha mamãe, tia Kate — voltei a chorar. O que Castle havia feito com nós duas? Porquê? Eu era tão ruim que merecia tudo isso? E ela? Ela era tão pequena pra passar por tudo isso. Eu a beijei com todo o amor que podia, a abracei como se fosse a última vez e precisei sair, não aguentaria nem um minuto a mais naquela farsa.

Um drink era tudo que precisava para encerrar aquele dia. Dirigi atordoada até o Old Hunt e bebi algumas — muitas — doses de bebidas alcoólicas que me manteriam alcoolizadas pelas próximas 24 horas. Antes de tudo, mandei uma mensagem de texto para Espo, pedindo que me deixasse livre neste final de semana e que por isto, o devia um favor, complacente como sempre, ele me ajudou com a tarefa. Caí na cama e as imagens do dia de hoje reviravam minha mente, me colocando do avesso, lembranças, descobertas, junto com a bebida, tomei algumas pílulas, o que me deixou ainda mais sem noção alguma do mundo ao meu redor, apaguei poucos minutos depois e só acordei na manhã seguinte com as mensagens de Castle, algumas de antes e outras de depois de ter visto o estrago feito no loft.

— Você está bem? Johanna já está mais calma, venha para cá, encomendei algumas comidas especiais para as duas. Se precisar de algo, me avise. — dizia a primeira mensagem.

— Nós precisamos conversar — foi a última mensagem.

— Precisamos — a esta altura ele já devia ter visto as caixas reviradas em seu quarto e os documentos que faltavam, então sabia muito bem o teor da nossa conversa.

— Me encontre no loft.

— E Johanna?

— Ela saiu com minha mãe, compras e sorvete, precisava de uma distração depois do desastre de ontem à noite.


— Não me culpe você sabe muito bem sobre o que estamos falando e tudo que isso envolve.


— Conversamos quando você chegar.

Não respondi mais nada, não tinha condições, meu corpo sentia os efeitos da loucura da noite anterior. Tomei uns analgésicos, um banho quente, vesti a primeira calça jeans do armário, meus saltos e um novo sobretudo. Meus cabelos desgrenhados e soltos me acompanhariam. Na cozinha, ingeri uma xícara de café e alcancei as chaves do carro. Quando saí na rua o frio e o fraco brilho do sol me atingiram e minha cabeça parecia querer rachar em duas partes, ou mais.

Ao chegar ao hall de entrada do prédio, respirei o quão fundo podia e subi para o andar de Castle. Subi por escadas, na tentativa de acalmar aquele monstro que se revirava dentro de mim. Lembro de ter sentido isto poucas vezes na vida, uma delas quando descobri sobre Castle esconder sobre conversar com Smith. Quando cheguei, ainda respirei fundo por alguns segundos, recobrando o ar perdido na escadaria, por fim, apertei a campainha. Ele, somente dirigiu-se até a porta e me fez um sinal liberando a entrada para o loft. Permanecemos em silêncio olhando um para o outro e então ele deu, literalmente, o primeiro passo, vindo em minha direção.

— Quando tudo aconteceu, eu não pude aceitar sua atitude.

— Isso não significava que você podia ter feito o que fez, Castle — andei um passo atrás, me afastando dele e arrancando meu braço de seu alcance, já com os olhos úmidos.

Seus olhos pequenos e também comportando algumas lágrimas entregavam seu desespero — Feito o que, Kate? Ter tirado a minha filha daquele lugar? Não a ter deixado ir parar nas mãos de outras pessoas? Foi isso que eu fiz, Kate! Eu cuidei dela, enquanto você — ele pausou — você sumiu.

— Não Castle, não foi isso que você fez. E se você estivesse sequer preocupado com as pessoas ao seu redor, teria notado que há anos que venho procurado por notícias da minha filha, aquela que você fez questão de esconder, que pagou para que eu nunca a encontrasse, se você se considera melhor do que eu por isso, por ter me afastado dela, por ter nos mantido todos esses anos à cega, eu sinto muito, Castle, mas isso te faz ainda pior.

— E o que você queria que eu fizesse?

— Ela também é minha filha, Castle, minha! E não o seu brinquedinho pessoal. Eu não posso admitir que o pai dela tenha feito isso comigo e com ela.

— E o que você fez, Kate? Não é como se eu a tivesse roubado de você. Mas você tem toda razão, a Johanna não é um brinquedo que pode ser descartado a hora que você bem entender.

— Você quer saber como estamos, Castle? Nós estamos terminados.

— É isso o que você faz sempre, detetive, se esconde atrás de muros e afasta todos que tentam se aproximar de você. E com Johanna não vai ser diferente, mas se você quer saber, ela não precisa de algo mais para machucá-la, você já fez o suficiente para ela. Ela não precisa de você, Kate. Não mais.

— Eu não posso, eu não posso — virei às costas e sai em direção à porta — você quer saber do que mais, Castle? Você é um mártire, acha que faz isso pensando no bem dela, mas está errado você só pensa em você mesmo. Mas eu tenho uma notícia para você, mártires terminam sozinhos, Castle, e é isso que você quer. Essa história não vai ficar desse jeito.

Era inacreditável, há cada palavra que ele falava, era como se conseguisse destruir um pedacinho a mais de mim. Ele estava conseguindo me fazer soterrar em culpa. Mas nada seria suficiente para me afastar dela. Não agora. Não mais. Há anos atrás, eu não estava preparada para o que viria, não tomei as melhores decisões, na verdade foi a que mais me arrependi em toda minha existência, mas agora, eu estava lá, pronta para o que viria a seguir e, no entanto, ele conseguiu, me desmotivar, me colocar para baixo e jogar toda a culpa para cima de mim. Foi como se esconder todos os papéis e trancafiar a menina para que eu não tomasse conhecimento sobre ela, como se isso, tivesse sido a coisa certa a se fazer. Johanna era a minha filha, ela havia me mudado desde quando descobri que a esperava, as coisas que fiz, foram pensando que seria o certo, mas esconder ela de mim? Ele não podia estar tão certo sobre isto.

***

Castle bem tentou prosseguir com os planos para o aniversário de Johanna, mas ao invés disso, eles viajaram para os Hamptons. Soube por Lanie que ela havia pedido para que eu fosse junto com eles, Castle nem ousou conversar comigo no final daquele dia. Mandei algumas mensagens para ele no dia do aniversário dela, e dessa vez o seu egocentrismo não o cegou, não naquele dia, e ele gravou um vídeo de Johanna dançando algumas músicas infantis quando acordou. Estava tão linda a minha menina, com pijama e cabelos desarrumados, dançando na sala, como se não carregasse o peso do mundo naqueles pequenos ombros. Depois, recebi algumas imagens dela comendo batata frita e se sujando toda com o catchup. Definitivamente ela era uma Beckett — Depois disto, ela caiu na cama. Não dorme desde ontem, esperando "crescer".

— Diga que eu mandei um beijo e que eu a amo muito — foi apenas o que pude dizer naquele momento.

— Está certo.

— Obrigada.

Depois de um silêncio, mais uma mensagem — Ela perguntou por você.

— E sobre o que ela perguntou?

— Sobre você estar aqui conosco, ela te queria por aqui.

— Você sabe que isso não daria certo.

— Eu sei. Nós precisamos encontrar nosso caminho de volta para casa.

— Precisamos.

— Nós vamos.

O tempo diria como as coisas andariam dali em diante. Novos ares e um tempo um para o outro. Ele, para pensar nas coisas que haviam acontecido. Eu, para pensar na minha carga nesta história toda. Duas semanas se passaram, e então, entramos em um pequeno acordo judicial. Eu jamais tiraria Johanna do convívio do pai, e ele abriu mão de finais de semana com ela. Ficamos assim, finais de semana e alguns feriados aleatórios, Johanna ficaria comigo e nos demais dias, com Castle. Caso eu quisesse vê-la, eu poderia passar na casa dele, sempre. Por aquele momento, aquilo seria o suficiente.

As regras começariam a entrar em vigor, pelas próximas semanas, mas antes disso eu gostaria de arrumar um cantinho para ela e me preparar para essa mudança. Tanto para mim, quanto para Johanna, seria um baque, um choque profundo. Nós teríamos que lidar com tudo isso, juntos. Nos habituar a conviver, como uma família mesmo. Fui até uma loja que costumava ir com minha mãe. Era simplesmente o meu mundinho por volta dos meus oito ou nove anos. Comprei alguns jogos e objetos decorativos, nada muito além do meu orçamento. Tintas e papéis de parede, com muitas estrelas, como sabia que ela gostava. Livros, itens para crianças e materiais de limpeza, para me certificar que não houvesse nenhum dejeto desnecessário por lá.

As demais coisas eu fiz questão de deixar para comprar com ela. Não sabíamos ainda como seria contar como as coisas aconteceram para ela durante os anos todos que estivemos fora disto, ela podia simplesmente me aceitar e isto passaria a fazer parte do passado, ou simplesmente ela poderia me recusar como se eu fosse a pessoa mais repugnante na face da terra. Tudo se tratava de um completo mistério. Como pais, estabelecemos uma trégua sobre nossos erros. Todos haviam cometido, afinal. E determinamos uma linha de raciocínio, em que seriamos obrigados a tratar. Tudo, depois de algumas semanas evitando um contato mais próximo.

Mexia no copo fumegante café, evitando encarar o olhar fulminante que Castle me lançava. Depois de uma longa pausa ele pediu um café.

— Nós precisamos visitar o terapeuta, juntos – ele ficou inquieto com a minha falta de resposta, mas bem na verdade, não sabia como responder – foi algo exigido pelo terapeuta dela.

— Tudo bem, é... – pausei – tudo bem. Eu só preciso saber — estava confusa – a data, o horário e bem, o local – completei mordendo o lábio inferior e finalmente o encarando.

— Eu posso te encaminhar por sms.

— E como ela está – desviei o assunto.

— Confusa, não entendendo muita coisa, mas esperando algo que cesse esse estranhamento todo.

— Ela é inteligente, não vai demorar a ligar os pontos.

— Eu espero que possamos fazer isso juntos – ele fez um vai e vem entre eu e ele – isso de ajuda-la a ligar os pontos.

— É claro, mas você sabe, ela corre sempre a nossa frente – soltei um sorriso espontâneo, coisa que nem sabia que poderia naquele momento.

— Acho que ela herdou isso de nós dois.

— Tem sentido.

— Quando ela era menor, ainda menos do que está, queria muito uma lupa. E bem, quando você chegou, teve aquela história toda do distintivo.

— É o sangue, Castle.

— Dizem que fala mais alto. Mas não diga isso perto de Dona Martha.

— De jeito nenhum — ri — mas veja bem, não é comum uma garotinha tão pequena sair por aí com essas histórias de proteger o mundo.

— Convenhamos que alguém a instigou.

— Você, claro.

— Você não vem ajudando muito.

— Hei! – dei um sorriso constrangido – eu não tenho muito tempo nisso, então me absolva desta culpa.

— Tudo bem – ele me sorriu me fazendo esquecer por alguns minutos que estávamos em um processo de aceitações, em que mágoas, feridas e tudo estavam extremamente expostas. Ele só me fez lembrar o quanto deveríamos estar juntos nisso. Nossa filha merecia. Nossa. Aquela misturinha perfeita de nós dois, ela só precisava de uns momentos de paz e tranquilidade.

— Eu já vou indo, Castle.

— Mais um caso complicado?

— Demais.

— Boa sorte.

— Obrigada.

— Sempre.

Notas finais
O de sempre: comentem, curtam e compartilhem com os amigos, os instiguem a ler. Obrigada por tudo, sempre.