You came back
3 Terceira Parte
Notas iniciais
Recostei-me em uma marquise do local, e pensei em partir para a próxima ligação, aquela que seria a mais reconfortante, mas ao mesmo tempo, a mais difícil.
– Querida, eu mais do que ninguém entendo o que você está passando, mas continuar aqui parada? Sinceramente Kate, você já está se igualando a um aparato – chegou Martha de rompante.
Soltei um ar, que por um segundo pareceu ser um sorriso, abaixei a cabeça e acenei em um sinal positivo. Poderia ir até em casa, tomar um banho e tentar – mesmo que não conseguisse, e sabia que não o faria – relaxar, comer algo e voltar, mais inteira e pronta para o dia que viria.
– Você está certa. Eu irei após o termino da cirurgia. Aliás, nós iremos. Precisamos nos organizar, Martha, precisamos estar mais fortes e unidas do que nunca. – Fixei meus olhos nela, levando-os de encontro aos olhos dela, parando-os lá e sentindo o peso que aquele olhar carregava – Precisamos estar prontas para ele.
– VOCÊ está certa – reafirmou minha frase, ressaltando a parte que me fazia menção.
Martha me concedeu um abraço que me fez ter certeza de que tudo ficaria bem. Rick tinha sorte de tê-la por perto, e agora, eu também tinha. Sentamo-nos em poltronas perto do bloco cirúrgico, onde Castle encontrava-se, e com as mãos enlaçadas uma à outra, nos aconchegamos. Martha me permitiu eliminar algumas lágrimas, e assim o fez unindo-se a mim.
– Ele não gostaria que estivéssemos assim.
– Não – respondi quase que em um sussurro, deixando escapar um pequeno sorriso.
Adormeci o que pareceram ser alguns segundos, mas na verdade foram horas. Quando acordei, era manhã, e não me perdoei por não ter acompanhado a cirurgia. Martha estava na poltrona ao lado, e sobre mim havia um casaco, que devia ser dela – constatei. Eu estava encolhida na poltrona e ao erguer meus olhos, encontrei um par de olhos me observando. Martha zelava por meu sono, e me aguardava com um recipiente plástico que continha leite, com uma pitada de café.
– Você dormia tão bem, eu fiquei com dó de acordá-la. Beba! – Ela me alcançou o copo.
– Rick? – Disse ao erguer-me e levar minha mão de encontro ao recipiente.
– A cirurgia foi concluída.
– E então?
– Ao que parece, ocorreu tudo bem, o nosso Castle é teimoso – ela tinha pequenas poças presentes em seus olhos. Não era apenas visível, era possível sentir as emoções de Martha. – Poderemos falar com médico em alguns minutos, antes da troca de plantão.
Finalmente havia ouvido boas notícias, a cirurgia havia sido um sucesso, porém ele ainda precisava dos 10 doadores. Alexis, Martha e eu reunimos todos os nossos amigos e de Rick, e os pedimos encarecidamente para que todos viessem até nós. Como eram pessoas próximas, nenhuma recusou nossa súplica.
Eu tentava respirar aliviada em meio a tantas tensões. Era apenas o segundo dia desde que recebi a notícia que está virando meu mundo de cabeça para baixo, mas eu confesso que é o melhor segundo dia, afinal, ainda havia esperanças. Agradecia mentalmente por ter conseguido falar com um médico que acompanharia Castle durante todo seu tratamento. Rick estava em coma induzido e, segundo os médicos, conforme ele reagisse e o quadro clínico melhorasse, iriam retirando-o do estado em que se apresentava.
Senti um vento frio me invadir, e por incrível que pareça, nesse dia não era apenas uma sensação, era o furacão Lanie. Como que em um rompante, fui envolvida em seus braços. Sem precisar falar mais de quatro ou cinco palavras, ela me abraçou de forma firme, a fim de me passar segurança. Finalmente eu tinha alguém que sabia dos meus maiores medos e tristezas, alguém que podia me tirar do poço em que eu estava me afundando.
– Como ele está? – Lanie disse comigo, ainda recostada sobre seu ombro, e com uma Martha cansada, encarando-a.
– Bem. Eu acho. Eu não sei. – Mostrei a minha total falta de entendimento médico através de minhas palavras.
– Vai ficar tudo bem – Lanie falava de forma cantada, deslizando a mão sobre meus cabelos que estavam espalhados por seu ombro – Vai ficar tudo bem – repetiu quando, com o dedo indicador, retirei uma pequena gota que caiu fortuitamente.
– Vai – suspirei confiante. Era incrível, mas as palavras de Lanie me deixavam segura.
– Você já esteve com ele? – finalmente me questionou.
– Ainda não. Talvez hoje. – respondi encarando Martha, que olhava para a cena: eu tentando me apoiar – não só fisicamente, como emocionalmente – em Lanie e lançava um olhar que parecia ser de compaixão.
– Kate, querida, me fale de você, eu estou preocupada. Você já comeu? – Dessa vez minha amiga soou forte e incisiva ao me questionar.
– Já sim. A Martha me deu um café.
– Você sabe que café não é exatamente comer, não sabe? – olhou para Martha que lhe lançou um olhar cumplice. Eu estava perdida com essas duas me empurrando comida, quando tudo que eu mais queria era me esquecer de mim mesma para viver por ele – Kate, ele vai precisar de você.
– Eu estou aqui Lanie. Sempre. – suspirei.
– Eu sei, mas ele precisa você inteira, Kate, e não pela metade.
– Eu sei, só que... eu estou bem.
– Tudo bem, mas precisa colocar alguma coisa no estomago, querida – Martha interviu em favor de Lanie. Como imaginei, duas contra uma.
– Tudo bem vocês duas. Voto vencido. – Me rendi, afinal de contas elas tinham razão – Onde está Alexis?
Surpreendi as duas com minha pergunta. Mas afinal, o que havia de estranha em perguntar por Alexis? Eu realmente estava preocupada com ela. Alexis é uma das partes mais bonitas de Castle, uma das poucas que eu tenho comigo, o que por si só já é estranho. Mas os olhos de Alexis eram os mesmos de Castle quando ela está brava, ou até mesmo quando ela se rebelou contra mim. Eu via Castle nela.
Quando o conheci, lembro-me de tê-lo achado imaturo, egoísta e egocêntrico, e ainda acho – céus, como é bom me lembrar dele. Mas, quando o via em uma relação adulta com Alexis, minhas percepções desfaziam-se, ele era outro, um bom pai-mãe, um bom amigo, confidente, companheiro, amoroso e responsável. Alexis foi uma das melhores coisas que Castle já havia feito, e eu concordava com ele. Preocupava-me com ela. Depois da surpresa, Martha resolveu responder.
– Ah, Kate. O Pi chegou há algumas horas, e eles foram fazer a reserva em um hotel próximo ao hospital.
– Mas Martha... – Me desvencilhei de Lanie, e soei inclusive um pouco agressiva – Vocês podem ficar comigo.
– Oh baby, não me leve a mal, mas não queríamos dar trabalho. Eu, Alexis e Pi, seria pedir demais.
– O FBI me concedeu um novo apartamento – expliquei mantendo a calma – eu havia solicitado os três quartos, pensando em vocês.
– Querida, não se preocupe com isso, estaremos bem acomodadas neste hotel, acredite.
***
– Porque me evitar desse jeito? Caramba! Eu realmente estou chateada, Lanie. Eu já entendi, é uma maneira de dizer, Você não é da família. Claro, é tudo culpa minha, o Castle estar desse jeito é culpa minha – gesticulei de forma incessante, com imensa volúpia e extremo desconforto com as palavras e a atitude de minha sogra e enteada.
– Kate, não se culpe – suspirou.
– Eu escolhi vir para DC, eu escolhi o emprego ao invés de Castle. Lanie, eu não sou nem casada com ele, o que eu sou? Uma namorada qualquer sem o menor laço com ele?
– Ah, que isso, garota, vocês estão noivos. Você fez a sua escolha e ele te aceitou assim. Pare com isso, ele está com você e o que vocês construíram e estão construindo não é algo que você possa dizer que não tem significado. Elas só estão tentando não dar trabalho. É só isso.
– Não, Lanie, elas estão magoadas comigo e elas têm razão. O Castle estar nesse hospital é culpa minha, ele veio até aqui porque EU desmarquei a minha ida para lá, mais uma vez.
– Eu não estou te reconhecendo, onde está a Kate que não se culpa e sim procura os verdadeiros culpados? Preocupe-se em fazer justiça pelo seu menino escritor e não culpar-se pelo inevitável.
Por fim, Lanie tinha razão. A minha amiga tinha completa razão, eu estava muito dramática nos últimos dias, me culpando e sentindo pena de mim. Mas eu não podia ser assim, a única maneira de tirar esse peso das minhas costas era o Castle se recuperando e eu achando o culpado por esse atentado.
– Você tem razão – cedi.
– Tudo bem, será que agora podemos tomar café? Digo, um café de verdade.
– Vai adiantar se eu disser que não?
– Não mesmo, vou te fazer tomar café mesmo que a força.
Sorri e revirei os olhos, acenando positivamente. O dia estava só começando.
Lanie e eu fomos comer. Colocamos alguns assuntos em dia, contei como estava sendo a experiência como agente – fazia semanas que não nos víamos. Lanie tentava me distrair me fazendo falar dos meus dias e também me contando dos seus, sobre como estava a vida em Nova York, como Ryan e Esposito se viravam sem mim, e de Castle que, volta e meia, aparecia por lá e era dispensado por Gates. Era quase impossível falar dos nossos dias sem tocar no nome do Rick. Percebeu meu olhar triste quando tocou no nome de Rick e voltou aos questionamentos, dessa vez sobre meu pai, e minha nova parceira.
Ao final, ela havia conseguido. Comi o suficiente para sustentar duas pessoas. Poderia passar um mês por ali e nem sentiria fome. Lanie havia vencido. Ela conhecia Kate Beckett como ela mesmo, sabia como vencer-me em um debate, seja ele descomplicado ou mais acalorado.
Lanie parecia estar agradecida pelo feito histórico realizado. Fazer Kate Beckett acatar uma ordem, eu devia ser uma pessoa realmente difícil. Levantamo-nos e voltamos para o hall. Quero dizer... eu queria voltar para lá, mas Lanie me impediu, disse que eu deveria respirar ar puro. Ela me carregou para fora do tão conhecido ambiente, me puxando com determinada força pela mão. Senti raios de sol dançando ao refletirem nos olhos de Lanie. Peguei-me olhando para o alto, recuperando energias, procurando por novas forças, novos motivos para encarar tudo. Foi quando despertei.
– E então? – me encarava de forma serena.
– Eu estou bem. Já disse. – Levei minhas mãos de encontro às dela e como forma de agradecimento lancei-lhe um olhar reconfortante – Obrigada.
– Sempre. – Ela acariciou minha mão em troca.
– Você já pensou no que vai fazer?
Suspirei. – Ainda não. Estou organizando esse quebra cabeças que se tornaram minhas ideias.
– Só não demore demais – percebi que ela referia-se às visitas a Castle, que mesmo que muito restritas, com horários limitados, já eram possíveis.
– Eu não vou. – Sorri transmitindo confiança a ela.
– Ele precisa te ouvir.
Permaneci com a cabeça entre as pernas, encarando o chão, posição nova que eu havia tomado como minha há alguns minutos.
– E eu preciso dele – sorri meio que de imediato ao sentir as palavras fluírem daquela forma.
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