You came back
4 Quarta Parte
Notas iniciais
Havia passado os dois primeiros dias com Martha e Alexis no hospital, e de alguma forma estranha, as coisas tomavam um novo rumo, se organizavam. Era como se uma nova vida estivesse sendo construída por nós. Uma vida regada a adaptações, sentimento de insuficiência, necessidade, carência... Precisávamos aprender a lidar com isso. De alguma forma. E iriamos fazê-lo.
Conversei com Martha e Alexis, e fiz um breve relato sobre o local que o FBI me cedeu, enquanto minha casa estava fechada para perícia. Minha casa, aquela na qual eu não me sentia exatamente em casa. Martha concordou em se hospedar comigo, enquanto tudo estivesse assim, estranho. Mas Alexis pareceu apenas aceitar para evitar mais confusão. Tudo bem, com ela sob o mesmo teto seria mais fácil. Conseguiríamos conversar. Precisávamos. A necessidade se encarregaria de fazê-la.
Soube algumas horas depois, que elas cancelaram a reserva do Hotel em que se hospedariam e agradeci mentalmente. Não ficaria sozinha segurando toda essa carga emocional. Lanie voltaria no final de semana e não se importou em dividir o quarto comigo, devido à superlotação de ruivas. Meu pai chegaria nos próximos dias para finalmente realizar a doação de sangue.
Ryan e Esposito, junto com Ben – o novo namorado de Martha – alguns amigos de Rick, os do Pôquer, Pi e, até mesmo Gina, Paula e Meredith, viriam. A última atendendo a um chamado da filha. E, se me perguntarem, eu fingirei paciência, mas não, eu não gostei desse aglomerado de ex-mulheres que se juntariam aqui. Egoísta e um pouco, um pouquinho, ciumenta de minha parte.
Mas... ele era meu. Não suportaria ter que dividir os poucos momentos que teria com ele, de agora em diante, com elas. Céus! Pode soar como uma besteira minha, mas não é justo. Divido Castle com Gina e Paula quase que em tempo integral, já que os compromissos com os livros tomam metade de seu tempo. E Meredith... Bem, era Meredith, não precisaria de uma grande justificativa para não querê-la perto dele.
Tudo bem, eu nunca fui ciumenta, não seria agora que o faria. Era tudo em prol de Rick. “Nunca fui ciumenta”. Lembrei-me de Mandy dizendo que eu queria fazer Babies Castle com Rick. Ela tinha razão. Por fim, concordei com os milhões de visitas que aquele hospital receberia.
Após a ida de Lanie, Martha e eu nos movemos pelos corredores e Alexis ainda estava sendo consolada por Pi. Algumas horas depois, recebemos mais algumas atualizações do quadro de Castle, que a cada momento parecia melhorar. Decidimos então irmos para casa, ao menos arrumar as coisas, situarmo-nos da localização e nos acomodarmos.
Deixamos todos os nossos contatos na recepção e nos dirigimos para o apartamento. Estava completamente imóvel e afogada em lembranças, não fosse pelo cachecol que rodeava de forma descompassada em minhas mãos. O silêncio solene preencheu o interior daquele táxi.
Martha, Alexis e Pi, sentaram-se no banco traseiro e eu estava a frente. Alguns minutos depois, estávamos pisando na soleira da porta do apartamento 603, sexto andar, do edifício Guilbert.
– Entrem – chamei-as, tentando ajudar com as malas. Eram pequenas, possível de carregar em um ombro.
Alexis fez uma interjeição plausível dizendo que ficaria com o quarto de esquina, no qual era possível encontrar duas janelas. Concordei, pois sabia que Alexis era alérgica. Castle cuidava de cada centímetro do loft para evitar as crises alérgicas dela.
Após largar as malas e conferir o ambiente em busca dos materiais necessários, como cobertores e travesseiros, reunimo-nos na sala. Definimos alguns horários – que muitos considerariam desnecessários, mas eramos nós, não conseguiríamos arredar o pé do hospital e deixa-lo lá, era assim que nos sentíamos — Martha ficaria no hospital apenas na parte da manhã, visto que era extremamente desgastante ficar por lá. Eu e Alexis dividiríamos o turno da tarde. Martha pediu que não a deixasse sozinha. As noites seriam igualmente divididas, uma noite para cada.
Após reconhecermos o lugar, concordei, depois de muita insistência de Martha, em passar aquela noite por ali, colocando os pensamentos e sentimentos em ordem.
Martha voltou para o hospital acompanhada por Pi, que também convenceu Alexis a deixa-lo ajudar. Ficamos apenas eu e Alexis no apartamento. Trocamos pouquíssimas palavras. Na verdade apenas o necessário para a adaptação na residência. Alcancei meu nécessaire em busca de uma aspirina. Deitei a cabeça no travesseiro e senti o peso de dois dias fora da rotina, cansativos e estressantes. Deixei cair algumas lágrimas que molharam o travesseiro, mas o cansaço falou mais alto. Cedi. Em poucos minutos, estava dormindo como uma pedra.
***
Três horas da manhã e acordei assustada com um pesadelo. Trilhei alguns passos até a cozinha e tomei um copo de água. Era a única coisa que tinha naquele momento. Ouvi alguns ruídos, mas preferi ignorar, o que seria a uma hora dessas. Ao retornar ao quarto, passei pela frente da porta do quarto de Alexis e percebi que era dali que vinham os ruídos. Não pensei duas vezes. Ignorei toda e qualquer mágoa e adentrei o quarto, já desesperada.
Andei até ela, que estava sentada com as costas apoiadas em uma pilha de travesseiros, encolhida de forma que parecia mais uma criança abandonada, comedida e remota. Sentei-me na ponta da cama, lado-a-lado com ela e envolvi seus ombros, puxando-a para mim. Recostei a cabeça dela sobre meu ombro, dando a ela liberdade para desabafar. Seu rosto, que normalmente tinha uma cor um pouco pálida, agora estava com um semblante fechado, a face avermelhada e inchada entregava o que havia feito naquela noite.
Ela não falou nada, o silêncio era ensurdecedor, então preferi não falar também, preferi respeitar o momento dela. Era como se um som me invadisse e parecia não vir dali. Por alguns minutos, transportei-me para a noite em que minha vida tinha se tornado mais completa, o dia em que os lábios dele me transferiram felicidade em abundância, me fizeram sua e que nos tornamos enfim um só. Quando caí em mim, um sorriso estava imerso em meio às lágrimas que se formaram, se rebelando contra mim e me puxando como se fossem o mar e sua mais forte correnteza, me puxando para uma realidade que eu faria de tudo para mudar.
***
Naquela noite, Alexis me pediu para ficar com ela, e eu me lembrei de Castle me contando que, quando pequena, a ruivinha pedia para que ele checasse debaixo de sua cama, com medo dos monstros. Aposto que Castle que havia lhe assustado, contando sobre esses tais monstros, era bem a cara dele. Como que em um impulso, resolvi quebrar o silêncio.
– Ele diria que não existem monstros embaixo da cama – sorri de forma acolhedora cobrindo-a e deitando ao seu lado. Quando Alexis adormeceu em meus braços, parecendo mais uma criança indefesa – talvez ela realmente fosse – eu percebi o que tudo isso – talvez – queria nos dizer. Caramba Kate! Vocês são uma família! Em alguns momentos, me senti insegura quanto a isso, com medo de me intrometer na relação de Castle com Alexis, mas eles são minha família! Onde eu devo me refugiar quando me sentir acuada, e vice-versa.
Com esse pensamento, adormeci.
POV Alexis:
Acordei com os raios de sol invadindo as frestas da janela do antigo apartamento cedido pelo FBI. Algumas dores me invadiram, eram reflexo dos dias sem dormir e dessa cama minúscula que dividi com Kate. Eu estava trancafiada aos braços dela, que me segurava de forma protetora e acolhedora. Suspirei agradecendo a noite que tive.
Afinal, era isso que esse acidente me traria? Alguém a quem posso confiar minhas dores e angústias... alguém, além do meu pai? Kate dormia de forma tão angelical, como se nada disso tivesse acontecido, parecia estar sonhando, e isso me arrancou um riso frouxo que insistiu em sair.
Não demorou muito e lembrei-me da vovó e do Pi que, coitados, passaram a noite toda no hospital. Alcancei imediatamente meu celular na mesinha de cabeceira e disquei o número do meu namorado que imediatamente atendeu.
– Hey querida.
– Oi Pi – prossegui após bocejar de forma pesada – tudo bem por aí?
– Na mesma. Mas tenho uma notícia boa.
– É tudo que eu preciso – disse ao me deslocar até a cozinha para beber um gole do liquido escuro e quente que meu corpo precisava em todo nascer de sol. Me peguei mexendo nas pétalas das flores que se encontravam sobre o balcão da cozinha como forma de amenizar toda a angustia das palavras que viriam à seguir.
– Você pode visitar seu pai às duas horas.
– Hm – respondi sem demonstrar grande entusiasmo, pois ele realmente não existia – Tudo bem. Eu vou acordar a Beckett e nós vamos aí ficar com ele – Na verdade, estava passando do meu turno e de Kate, mas havíamos tido uma noite difícil – Tchau – finalizei.
– Até logo.
***
– Gostou? – percebi alguém vindo em minha direção.
– O que, das flores? – respondi de maneira tímida.
– São do seu pai.
– Como?
– Foi à única coisa que peguei quando o vi desacordado – Kate desviou os olhos tentando disfarçar o medo de minha reação.
– Tudo bem – a reconfortei e a instiguei a continuar ao balançar a cabeça positivamente.
– Foi instantâneo, quando me tiraram dali – completou gesticulando com as mãos – da cena do crime – divagou fixando seus olhos no teto – eu não tinha muito que fazer e então vi aquelas flores sobre a bancada da cozinha... – pausou.
– Eram pra você... – confirmei.
– Eram. Tinha esse cartão aqui – Ela se aproximou das flores e retirou o cartão que se firmava nos ramos, me entregando.
Se você ler esse cartão, eu provavelmente já deva estar dormindo. E não ria Kate, não deixe sua crueldade te dominar! Não cansei de te esperar. Esperei quatro anos, o que seria uma noite e um dia? Mas a exaustão me venceu e resolvi relaxar, sentir seu cheiro e me perder por entre esses cobertores que você descansa seu corpo todas as noites. Essas flores são para você, assim como tudo por aqui. Eu estou morrendo de saudades. Me acorde para resolvermos esse grande problema. Com carinho, do seu velho e semimorto, Cas. PS.: Alexis e mamãe estão com saudades. PS2.: Me acorda mesmo, ok? PS3.: Você pensou sobre o que eu pedi? PS4.: Eu te amo. Sempre.
– Ele dormiu?
– Não – ela suspirou pesado – ao que parece ele estava na cozinha quando entraram.
Não esbocei reação nenhuma e nem precisava. Kate interrompeu minha falta de reação questionando sobre meu pai e obtendo uma resposta minha logo em seguida.
– As visitas de hoje começam às duas horas. Vovó vai vir, então entraremos eu e você – afirmei respondendo ao questionamento de Kate.
– Quanto a isso – ela pareceu desconfortável.
– Você quer entrar sozinha? – tentei compreender.
– Na verdade – entendi menos ainda – eu não sei se – ela pausava e me deixava ainda mais preocupada – não sei se estou preparada – concluiu.
– Tudo bem – concordei mesmo que sem entender, mesmo achando errado. Meu pai precisava dela. – Mamãe chega amanhã – disse deixando claro que minha mãe poderia vê-lo e que ela não ir hoje daria ainda mais margem para isso.
– É eu sei – Pareceu chateada e essa era a minha intenção, minha vontade era sacudi-la ali e coloca-la naquela realidade em que ela e meu pai precisavam um do outro, assim como nós precisamos de ar. Ela precisava disso, eu sentia, e tê-la com ele certamente o faria ter mais forças para lutar, eu tinha certeza. Vamos lá Kate, reage – eu pedia internamente, mas de nada adiantava. Se eu já não tinha forças para prosseguir, eu poderia dizer que Katherine Beckett nunca conseguiria fazer isso sem meu pai.
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