You came back
5 Quinta Parte
Notas iniciais
POV Alexis:
Vovó finalmente pôde ir para casa descansar e nós, digo... eu, seria a primeira visita do meu pai em uma semana que estava no CTI. A primeira do dia. Já que vovó pôde ter seus minutos a sós com papai. Me despedi de Pi, que aceitou ir embora com minha vó. Em poucos minutos, liberariam a visita ao CTI. Meu pai ainda não estava acordado, mas durante o estágio com Lanie eu li sobre pacientes em coma, induzido ou não. Eles talvez pudessem nos ouvir, e mesmo que não ouvissem, não fazia mal falar com eles. Estava me preparando emocional e psicologicamente para aquele momento há dias, seria difícil ver papai deitado naquela cama. Bem, foi ainda pior do que tudo que eu imaginava.
***
Um tubo de oxigênio – eu já havia visto aquele tubo em alguns momentos, os quais preferia ter apagado da memória – era o que permitia que ele continuasse ali conosco. Fios aderidos ao seu tórax conectavam-se a máquinas, equipamentos e aparelhagens que sustentavam o meu pai. Tudo aquilo era como uma âncora que, cada vez que ele tentava nos deixar, ela viria e o traria de volta para nós. Como a correnteza do mar quando está em desordem, uma hora ele estaria na orla. A correnteza se encarregaria de trazê-lo de volta – eu realmente pedia por aquilo, suplicava. Permaneci próxima à porta, observando-o dormir de forma tranquila, como se nada estivesse acontecendo, como se sua vida não estivesse se esvaindo aos poucos por entre os dedos.
Em outros momentos, eu já estaria unida ao meu pai em um abraço, mas a única coisa que passava pela minha mente era como eu queria que ele se recuperasse. Ali, percebi que nem toda a espiritualidade do mundo me ajudaria. Os zilhões de livros que li e por um tempo até me fizeram acreditar naquela coisa de força do pensamento, lei da atração e em tantas outras coisas, tudo sumiu ao ver meu pai naquela situação. Tudo se tornou tão tolo, tão banal.
Andei alguns passos tímidos estreitando o espaço entre nós, mas ainda com medo do que encontraria ao me aproximar. Era ele, Richard Castle, meu pai, o homem que fez de mim o que sou, ali, em cima de uma cama. O som estridente dos equipamentos fazia meu coração disparar um pouco mais do que imaginava. Ao mesmo tempo em que aquela situação era horrível, eu agradecia mentalmente, afinal, ele ainda estava ali, vivo. A pergunta que deveria ser feita era: Por quanto tempo mais ele estaria ali?
Levei minhas mãos de encontro à dele quando finalmente cheguei o mais próximo possível. Acariciei o dorso de sua mão com a ponta de meus dedos – Shh – sinalizei ao começar o que viria a seguir – A vovó não pode vir te ver hoje, mas prometeu estar aqui pela manhã. Aqui as visitas são limitadas, e só poderemos te ver poucas vezes ao dia – eu sorri, enquanto algumas lágrimas se desenhavam em meu rosto, parando nas profundas marcas que eu tinha nas bochechas. A Kate... – Pausei como se ele realmente estivesse me ouvindo e preocupado com Kate — você sabe que ela em breve estará aqui, não sabe? Ela... ela – engoli em seco, lágrimas escorriam de meus olhos – ela só precisa de mais tempo, não está sendo fácil processar tudo isso, pai, mas é a Kate, vezes tão forte, vezes tão frágil – olhei para o meu pai esperando que ele esboçasse alguma reação – besteira – fiz um alerta mental – Dê tempo ao tempo, pai, tudo vai ficar bem – foram as últimas palavras que proferi antes de me desvencilhar dos fios e encontrar meu pai em um abraço. Meu Deus! É meu pai! O que eu vou fazer agora? – Eu não consigo sem você. – eu já não controlava o choro incessante que insistia em invadir cada cantinho de minha imensidão azul.
Eu não consegui mais, eu não podia mais. Finalmente entendi Beckett com mais clareza, depois de enfrentar tudo aquilo sozinha. Tudo que planejei havia sido em vão, eu nem sabia realmente se meu pai estaria me ouvindo, de qualquer forma eu queria falar, queria mesmo, eu precisava. Mas as lágrimas não permitiam. Eu chorei, chorei como uma criança em seu colo e meu pai continuava imóvel, sem sugerir nenhum traço de recuperação. Seu coração batia tão fraco; compassado, mas quase que imperceptível. Meus soluços chegaram a ser mais altos que suas batidas. Isso me preocupava ainda mais. E a única coisa que conseguia fazer era chorar, era desfazer-me em lamentos.
Sabe quando a gente chora tanto, que precisa de alguém para ouvir nossas dores? Eu precisava e seguramente não seria meu pai. Foi aí que fraquejei e saí depressa pela porta a fora, não me importando com as pessoas no corredor ou com o barulho que a sola dos meus sapatos fazia quando encontrava o chão frio e escorregadio daquele estabelecimento de saúde.
***
POV Kate:
Eu estava com medo de ver Rick, com medo de como eu o encontraria. A cena dele caído naquele chão ainda assombrava minha mente, passando claramente em frente aos meus olhos, como se fosse um filme, um dos mais cruéis. Faltava-me coragem para entrar naquele quarto. Encontrava-me em uma luta interna em que meus pensamentos diziam o oposto que meu coração. Meu coração sempre pedia por ele, independente da circunstância. Mas eu não suportaria vê-lo morrer estando tão perto de mim, e não poder fazer nada, porque realmente não havia nada que eu pudesse fazer.
Meus pensamentos pareciam mais um dia nublado. Eu sabia que a única coisa que me faria de alguma forma começar a aceitar o que aconteceu com Rick seria investigando, mas nem para isso eu conseguia ter forças. As coisas estão tão bagunçadas em meu íntimo.
Condenei-me por ter deixado Alexis entrar sozinha naquela sala, deveria ter lutado para ao menos acompanha-la, mas vacilei. Como eu podia tê-lo feito? Eu era tudo o que ela e a avó tinham agora.
Divagando em pensamentos, pensei que eu talvez fosse aquela que pudesse levar um pouco mais de conforto aos corações de Martha e Alexis, trazer justiça para esse caso, e além de tudo, confortá-las. Em todos os anos que trabalhei como detetive da NYPD, consolei diversas famílias que perderam seus entes e agora, quem mais precisava de mim eram os meus. Mas a Kate dos dias de hoje não conseguia, apenas não conseguia. Como separar as coisas? Agir com frieza, dizer que vai ficar tudo bem, se nem eu mesma tenho essa certeza? Eu queria mesmo, eu realmente queria caçar a pessoa que nos colocou nesse mar de emoções, nesse poço de escuridão, mas eu não conseguia sair de lá. Eu também estava imersa nesse mesmo poço escuro, e estava bem ao fundo.
Por mais que não tivesse tido coragem de entrar naquela UTI, eu sentia como se precisasse ficar no hospital e se eu me afastasse dali, poderia acontecer alguma coisa e revirar toda aquela história ainda mais. Por um medo bobo, eu estava abandonando Alexis, jogando-a para enfrentar tudo aquilo sozinha. Eu estava abandonando os dois. Mas eu não podia – relutava comigo mesma.
Depois de andar incansavelmente de um lado para o outro, marcando cada canto daquele pequeno cubículo que era a sala de espera, repousei minhas costas em uma parede do ambiente. Não demorou muito e aquela porta se abriu, em uma velocidade anormal. Uma avalanche de emoções passou em frente aos meus olhos, me trazendo de volta do transe. Era Alexis. O barulho de seus saltos correndo por entre os corredores do hospital chamava a atenção de qualquer um que ousasse sequer tentar se concentrar em seus próprios pensamentos.
O médico que estava nos arredores da UTI tentou impedi-la – Ei mocinha, você não pode correr, estamos em um hospital – mas foi em vão. Fiquei estática ao vê-la sair daquela forma, era como se eu quisesse me mover, mas não conseguisse sair do lugar.
Quando Guilbert aproximou-se da sala, acho que eu devia aparentar certa palidez, pois ele se aproximou alertando-me de que realmente precisávamos ficar lá enquanto Castle estivesse na UTI. Ouvi dizer algumas palavras – poucas – pois estava em um universo paralelo, perdida entre pensamentos e realidade. Finalmente atentei para um conjunto de palavras, uma frase completa – Detetive Beckett, você precisa ao menos se alimentar – finalizou.
– Tudo bem – Disse fingindo estar ouvindo tudo que ele havia dito naqueles minutos.
– Aconteceu alguma coisa com Castle? – questionei tentando entender um pouco melhor a aflição de Alexis.
– Na verdade, sim – Voltei-me totalmente para Guilbert, meus olhos que ora lhe encaravam, ora estavam perdidos nos corredores a caça de Alexis, agora acompanhavam o movimento dos lábios do médico – O que, o que aconteceu? – repeti forçando-o a me responder.
– Veja bem – o ouvia atentamente, já com o coração não cabendo dentro do peito – o senhor Castle reagiu muito bem à cirurgia, está sendo ótimo. Seu marido – o interrompi mentalmente, alertando-o de que Castle não era meu marido. – O pós-operatório está ocorrendo melhor do que esperávamos e se tudo ocorrer como imaginamos, em alguns dias estaremos encaminhando o senhor Castle para o quarto e aos poucos retirando os medicamentos que estão o induzindo ao coma.
Fiquei tão surpresa e esperançosa com aquela notícia que estava ainda mais confusa com a reação da ruiva mais nova. Mas então era isso, tudo ficaria bem – Eu, eu, preciso contar para minha enteada – finalmente reagi àquelas palavras – O senhor sabe o que aconteceu para ela ter saído daquele jeito?
– Entenda detetive, ver alguém a quem amamos na situação em que o senhor Castle se encontra não é nada agradável. A mocinha certamente ficou nervosa, emocionalmente abalada. Mas vá, vá ficar com ela, tudo que ela mais precisa é da família.
– Tudo bem, a mãe dela chega daqui a poucos dias, creio que ela possa aplacar ao menos um pouco desse turbilhão de emoções que Alexis está sentindo.
– Se me permite... – pediu e eu acenei positivamente – nesse momento – pausou também acenando de maneira positiva – ela precisa de quem estiver perto, e se esse alguém tiver uma ligação, seja ela qual for... – meus olhos compreenderam o que ele tentava dizer, e eu demonstrei isso – fique com ela – concluiu.
– Obrigada – disse com um sorriso insistente, que eu não sei exatamente em que momento surgiu.
***
Desloquei-me pelos corredores do hospital procurando incessantemente por Alexis e, quando a encontrei, me surpreendi com a cena que vi. Seus cabelos estavam imersos no colo de Meredith. Como se já não houvesse problemas demais para me preocupar, eu ainda teria que aguentar vê-la entrando e saindo do hospital. Mas eu realmente não podia esperar pelo que viria em seguida.
– Kate, querida – a ruiva parecia atordoada e eu não julgava Meredith e Castle não deram certo por sei lá, uma ironia do destino que insistiu em nos juntar, mas isso não denotava falta de bem-querer ou afinidade entre os dois. Muito pelo contrário, isso eles tinham até demais. Em certo ponto, até tive ciúmes quando Meredith insistiu em cuidar de Alexis, por exemplo. ARGH! Vê-la desfilando de calcinha pela casa do meu namorado? Foram atos de afronta que eu felizmente superei e hoje convivíamos, como poderíamos dizer... bem.
Nunca fui de sentir ciúmes, nem com o Castle, – Não minta para si mesma Kate – a voz de Lanie me veio à mente – mas, ela estava incrivelmente linda, era como se os meses em turnê houvessem sido meses em um SPA. A pele aveludada e o quadril magro exalavam uma beleza atípica, mas nada disso me surpreendia, nada disso me abalava ou me deixava insegura. O que me causava tais sentimentos era a certeza dela de que ela queria o mais breve possível estar com Castle naquele quarto. Finalmente ela interrompeu o meu momento ao entrelaçar os braços em torno de meus ombros apoiando o queixo sobre o próprio braço, firmando-me em um abraço – Eu sinto muito – ela completou, fazendo com que eu me esquecesse de tudo e relaxasse envolta em seu abraço acolhedor.
Não demorou muito para que eu me desprendesse de nosso afetuoso gesto e, de forma quase que instintiva, acenei para que Alexis viesse ao nosso encontro, e assim, com poucos passos ela o fez e desacorrentou-se de tudo aquilo que a prendia e chorou. Eu não sei quando foi que essas coisas começaram a acontecer, mas o laço que nos unia era muito mais forte do que qualquer outra coisa que eu já tivesse tido com alguém. Alexis era como uma filha pra mim e isso me soou um pouco assustador.
O instante que a tive em meus braços foi inesquecível, algo que só Castle poderia nos proporcionar. Quando dei por mim, estávamos apenas eu e Alexis atadas uma à outra, enquanto sua mãe nos observava derramarmo-nos em lágrimas. Só havia uma palavra para definir aquilo tudo: Único. Um momento único. No fim, nós só conseguíamos sorrir, soltamos algumas gargalhadas totalmente inapropriadas. Caramba! O que foi aquilo? A super Meredith? Eu realmente entendia como Castle havia se relacionado com Meredith, ela era leve e extremamente atraente. Não bastasse isso, tinha também seus gestos e suas atitudes, que em todos os momentos me pegam extremamente desprevenida.
– Vai ficar tudo bem – afirmei. Então voltamos a nos abraçar, passei a acariciar os fios de cabelo da Alexis e também encarar o olhar de segurança que Meredith me lançava, afirmando também que tudo iria para o seu devido lugar. Aliás, nos últimos tempos todos agiam assim, talvez fosse o que estivesse me faltando, um pouco de fé.
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