You came back
6 Sexta Parte
Notas iniciais
De uma maneira estranha e até reconfortante, nossa rotina havia se restabelecido, de uma forma que eu nunca vou entender. Duas semanas haviam se passado, e eu não ousava pôr os pés na UTI, mas um dia as coisas deveriam mudar. Elas irão mudar. Nos últimos dias, Meredith, Lanie, Alexis e Martha visitaram Castle. Eu ainda não conseguia.
Castle finalmente foi transferido para o quarto ao final de quase duas semanas na UTI. E com essa mudança, as visitas de Martha e Alexis se intensificaram. Agora ele estava mais perto de mim e mesmo assim eu não conseguia mover-me da sala de espera.
Esse ritual que desenvolvi de acordar todos os dias — de noites não dormidas — e ir para o hospital – apenas para a sala de espera – me fazia acreditar que Castle resistiria; no momento, essa era a minha única crença. Adormeci em uma poltrona da sala de espera, tentando comedir meus pensamentos. Dormi de maneira tão profunda, como não fazia há dias – estava aproveitando as noites para fazer o que de melhor sabia: Investigar. A profundidade de meu naufrágio foi tanta que me vi em outro universo que eu nunca ousei pensar existir. Aliás, existia?
Ele vestia um elegante terno e vinha de encontro a mim, o sorriso em seus lábios era estonteante e o brilho no seu olhar incomparável, indescritível. Inicialmente, eu não conseguia identificar quem era, mas as coisas foram ficando claras. Era Castle. Despojado. Leve. Parecia mais a criança que sempre fora. Deu pequenos passos até mim, e foi quando eu consegui entender o sonho. Estávamos no gramado da casa de Hamptons, Alexis corria de um lado para o outro trajando um terninho, enquanto um vestido branco marcava o meu corpo, me fazendo – eu não costumava me achar, mas estava – extremamente sexy. O vestido era tão delicado e combinava com um colar azul que estava em meu pescoço – mamãe ficaria orgulhosa. Lembro-me de ter pensado, assim como pensei ter ouvido em algum momento, Castle sussurrar o quão bonita eu estava.
Cadeiras encobriam todo o jardim e à sua frente um altar improvisado no fim de um longo carpete vermelho. Definitivamente era o cenário de nosso casamento. Não parávamos de sorrir um para o outro e foi aí que senti suas mãos tocando as minhas. Estávamos felizes. Não demorou muito para as imagens serem substituídas por um incidente que me fez despertar.
Respingos de café se encarregaram de deixar marcas na minha calça – Droga, droga, droga! – Apenas recolhi o recipiente do chão colocando-o na lixeira mais próxima e, não me importando com a sujeira, corri para alcançar o quarto de Castle que ficava ao final do corredor. Não pensando em horários, eu entrei da maneira mais irresponsável possível procurando avidamente por Castle e encontrando-o logo em seguida. Vagarosamente percorri com os olhos seu quarto finalmente indo de encontro a ele. Não tive tempo para pensar em muita coisa. A saudade estava me consumindo. Saudade de olhar para aqueles traços tão familiares.
Não sei dizer quando, mas senti minha visão embaçar e elas estavam lá. Parecendo pesar uma tonelada, as lágrimas escorriam suavemente pelo meu rosto. Meus dedos foram de encontro às pequenas marcas de expressão que se formavam na testa de Castle. Ainda havia alguns vestígios de que ele tinha passado por um grande trauma – muitos. Não eram apenas os ferimentos mais profundos. Castle tinha marcas por todo o corpo que me fizeram sentir o peito apertar. Ele estava gelado, quase que ao ponto de sofrer uma crise hipotérmica. Sabia o que devia ser feito, e o faria. Apertaria o botão logo em minha frente, mas antes eu precisava dizer tudo aquilo que estava a me angustiar e fazendo-me perder todos os poucos sentidos ainda existentes.
Seu cabelo estava grande e desgrenhado, a barba por fazer – como ele sabia que eu não gostava — e estava mais magro e extremamente lindo. Lindo. Nem mesmo aquele sofrimento todo havia tirado o ar sereno e tranquilo que tinha.
– Você deve estar arrasando corações por aí, não? – soltei um riso abafado pelas lágrimas — Estava com tanta saudade, eu precisava tanto dele, do contato de seu corpo ao meu, de sentir o seu calor esquentar as minhas vias de tensão. Saudade de sentir meu corpo tencionar com o peso do dele sobre mim. Não sei como consegui prorrogar tanto nosso reencontro. — As coisas não vão nada bem por aqui sem você. – Fiquei em silêncio. Um silêncio reconfortante. Apenas admirando-o dormir, observando o movimento que seu peito fazia ao inspirar e expirar – ainda com ajuda de aparelhos.
Finalmente estávamos juntos, como sempre estivemos. E assim seria. Sempre. — Eu sinto sua falta – disse antes de jogar meu corpo sobre o dele, abraçando-o, sem me preocupar com nada, com ninguém, sem pressa e nem medo. Castle me transmitia uma segurança incrível, e mesmo assim, mesmo nessas condições, estar com ele me fez acreditar em um futuro, consegui vislumbrar tudo isso. Abracei-o tão forte que, por um instante, pensei que meu corpo se fundiria ao dele, tornando-se um só, como fora tantas vezes em melhores circunstâncias. O que mais importava agora era sentir o calor dele. — Eu amo você. Vai ficar tudo bem! Eu prometo Cas – frisei e voltei a lançar minha cabeça sobre seu corpo, deixando-a confortavelmente enterrada em seu peito, perdida em meio aos fios. Cabelos espalhados por ali. Emaranhada no conforto de seus braços. Aquele momento só teve fim por causa de Beth, a Enfermeira.
– Senhora, o horário de visitas já passou – ela me alertou, mas eu ignorei até que ela reforçou de forma um pouco grosseira e ressaltando que o próximo horário seria pela manhã. Compreendi e assenti.
– Eu já estava de saída – respondi depois de um sermão. Despedi-me de Castle, levando meus lábios de encontro à sua testa – Nós vamos pegar quem fez isso com você, eu prometo. – sussurrei baixinho e me dirigi para a saída. Poderia dizer que flutuei até a saída.
Era isso o que estava me faltando. O incentivo que eu tanto procurava estava ali, ao meu alcance, e eu não notei. Mas agora, além de prometer para mim mesma, eu prometi para ele. Eu iria caçar a pessoa que fez isso com Castle. Fazer o que eu sabia fazer melhor, pôr o individuo atrás das grades. Nem que para isso eu precisasse abdicar de mim. O faria com todo o prazer. Era a única maneira de acalentar meu coração. Precisava fazer isso, por nós.
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