You came back
2 Segunda Parte
Notas iniciais
1ª Semana
Em pouco tempo, eu vi o Capitão sumir entre os corredores do hospital. Havia sido tão horrível tudo isso, a noite anterior, esse dia. Os médicos informaram pouquíssimas coisas, uma delas era que fariam uma cirurgia para tentar estancar o sangramento interno de Castle, e eu sabia o quão perigoso eram, uma vez que não os cessassem, eu não sabia bem se havia chance de sobrevivência. Mas, além disso, ainda havia os tiros que atingiram algumas regiões vitais, o que mais me preocupava, e a pancada na cabeça que parecia ter deixado os médicos atônitos. Eles bem tentavam não transparecer, mas eu sou detetive, já dei notícias parecidas muitas vezes e de mim eles não esconderiam nada, por melhores que fossem.
Martha e Alexis haviam chegado por aqui pela manhã, quando consegui avisá-las com mais calma – se é que isso foi possível. Passaram o dia transitando entre o hall, a praça de alimentação, o jardim e a porta da CTI. Mal parecia que estávamos no mesmo local, porque conversar era o que menos queríamos agora, cada uma precisava de seu espaço.
Depois de algumas horas, Martha e Alexis foram ao restaurante do hospital. Não haviam se alimentado direito após tudo aquilo. Eram 10 horas da noite e finalmente alguém que parecia ser da equipe médica apareceu. Eu corri até o homem o alertando.
– Oi, tudo bem? – eu estava ofegante e ele parou para me escutar — Eu queria saber do meu noivo, quero dizer, a cirurgia, está tudo bem?
– Qual o seu nome?
– Katherine Beckett, e ele se chama Richard Castle – logo que falei aquele nome o semblante do homem pareceu se escurecer e o cansaço de alguns segundos atrás deu lugar à preocupação.
– Bem, não temos nada concreto ainda. Ele foi ferido por balas que penetraram em regiões delicadas: duas feriram o intestino grosso em lugares diferentes, e a ultima, por sorte, se alojou no esterno e por pouco não atingiu o coração. Um dos procedimentos foi realizado que foi a drenagem e estancamento do AVE hemorrágico que ele teve com a pancada forte que sofreu. Ainda não sabemos se ele vai ter sequelas, mas apesar da cirurgia ser muito delicada, está ocorrendo tudo bem. Ao mesmo tempo, fizeram a cirurgia para tentar retirar as balas do intestino e reparar os danos causados por elas para impedir que ele perdesse ainda mais sangue, mas ainda será necessário realizar uma transfusão. Eu preciso que vocês consigam pelo menos 10 doadores de sangue. Pode ser que seja necessário fazer uma colostomia provisória, e talvez eles a façam agora enquanto ele ainda esta no bloco cirúrgico. Mas no mais, o seu noivo é muito forte e está lutando bravamente. Nesse momento, tudo o que eu posso lhe dizer é que você precisa descansar.
As palavras do Médico fizeram com que eu sentisse um leve arrepio, meu coração acelerando um pouco mais que o normal. Não sabia exatamente o quão graves eram todos aqueles procedimentos e quais poderiam ser as consequências. Mas apesar de tudo, o médico disse que ele é muito forte e estava lutando. Sorri um pouco, como não fazia desde que esse pesadelo começou, ao me lembrar do quanto Castle é persistente, teimoso. Ele nunca desiste, é o Castle, o meu Castle, o mesmo que me atordoava os pensamentos anos atrás, que insistiu em nós até quando ele mesmo duvidava que daria certo.
– Muito obrigada, doutor. Por favor, me avise quando ele sair da cirurgia e me mantenha informada sobre o estado dele – Beckett quase implorava ao médico diante dela.
– Pode deixar agente. Faremos o possível pra que ele fique bem. Sugiro que a senhora vá descansar um pouco porque a cirurgia ainda deve demorar.
A minha mente me atordoava, eram milhões de pensamentos reunidos em uma só pessoa. Sentia que há qualquer momento eu poderia explodir. Eu precisava contar o que havia acabado de ouvir para Martha e Alexis. Bem, era aí que o pânico todo começava. Alexis. Mas eu me sentia no dever de dar as notícias para elas, fazer com que as informações chegassem até os familiares das vítimas havia feito parte de minha rotina durante anos, mas, agora era diferente, eu estava nessa família e sentindo tanto quanto elas. Não que durante os casos eu não sentisse, mas levar justiça para aquelas famílias me confortava, me fazia crer que o meu trabalho cobriria ao menos um espacinho no coração daquelas pessoas.
Hoje, o que eu sentia não poderia ser explicado, era como se trazer justiça para o caso de Castle não fosse suficiente, nunca iria ser. O que eu estava fazendo? Desejando que ele volte para mim, mesmo que em péssimas condições, me dispondo a dedicar minha vida inteira para cuidar dele. O quão egoísta eu estava sendo ao pensar nisso? Eu não sei, mas em meus pensamentos ecoava apenas uma frase: “sobreviva meu amor, sobreviva”.
O que eu estou fazendo? Teci um alerta mental: Você precisa ser forte por ele, Kate. Pela sua família, afinal, era o que as ruivas eram, sua família, que só ficaria completa quando esse pesadelo acabasse. Voltou-se para as orientações médicas e andou pelos corredores explorando o ambiente à procura da sogra e da enteada. Encontrou-as finalmente, ao chegar à cantina, solicitando anuência às ruivas que cederam e permitiram que ela se assentasse.
– Bem, eu vou ao banheiro – Alexis me evitava de uma maneira que eu me sentia cada vez mais distante de ter uma relação de amizade com ela. Em pensar que há alguns meses estávamos em completa sintonia.
– Alexis, espera – levei minha mão de encontrou ao pulso da menina, fazendo-a parar de se levantar. Ela olhou para minha mão percorrendo o olhar até chegar ao meu rosto. Eu só conseguia ver dor e repugno perdidos naqueles olhos que eram tão... tão... Castle.
– Beckett, o que você quer? – Aquela frase surtiu um impacto ainda maior do que ela poderia imaginar, do que qualquer pessoa que não fosse eu e Castle poderia imaginar. Eram os mesmos olhos de dois anos atrás, amedrontados, querendo ter algo comigo – nesse caso, uma relação que não ficasse por um fio a cada acontecimento -, e ao mesmo tempo, querendo fugir, me xingar e entender meus motivos para tudo.
– Kate querida, o que aconteceu? – Finalmente alguém naquela mesa entendeu que eu estava querendo falar algo que transmutaria nossas vidas. Arfei o ar vital para as palavras que viriam a seguir.
– Martha, Alexis – estabeleci uma pausa, quando me perdi em devaneios. Eu sabia que devia ter certo zelo ao falar aquilo, mas como falaria? Em momento algum pensei em como fazer isso, não pensei nas palavras certas que deveria usar. Respirei fundo e prossegui contando tudo o que havia ouvido minutos antes da boca de um médico que gentilmente me trouxe respostas. Designei aquele momento apenas para nós, para chorarmos, conversarmos e decidirmos o que finalmente faríamos, com as nossas vidas e com a vida dele, com a vida do pai, do filho, do noivo. Meu noivo. Meu homem. Meu Castle. Coloquei pontos mentalmente em cada sentimento de posse, cada substantivo. Em meio às lágrimas que rolavam naquela mesa, às mãos tocadas, acariciadas, às trocas de carinho, olhares cumplices, amigos, reconfortantes, eu soltei um pequeno sorriso, um sorriso por estar pensando em gramática. Em um momento desses, o que importa a gramática, Castle iria certamente se orgulhar disso. Voltei meu olhar para as ruivas, que estavam tentando achar uma motivação, um ponto de apoio, para que se mantivessem firmes, assim como eu também precisava.
Alexis recuava a cada possível investida minha. Preferi não insistir mais, ao menos por enquanto. Prossegui com as palavras, falando sobre os doadores sanguíneos. Eles requisitaram 10, afinal, nisso que havíamos de nos focar agora. Depois de um tempo de silêncio desconfortável, nos afastamos umas das outras, cada uma deslocando-se para um canto do hospital, discando alguns números de amigos e conhecidos, nossos e de Rick, que poderiam se deslocar até DC para realizar a doação. Não pensei duas vezes antes de chamar por Lanie que, além de minha amiga, era médica e certamente atenderia a minha súplica.
– Lanie? – ela atendeu depois de alguns toques, que por sinal, me deixaram ainda mais impaciente.
– Kate? Há essa hora? – eu ouvi alguns barulhos estridentes que me fizeram perceber que ela devia estar dormindo.
– Ah. Te acordei? – Fixei meus olhos ao chão desenhando algumas figuras com a ponta dos pés, na tentativa de controlar o turbilhão de sensações que me invadiam a cada segundo.
– Não. Tudo bem. Mas eu é que te pergunto, o que você faz acordada há essa hora? Não era para você estar descansando para o treinamento amanhã?
– Não vai ter treinamento.
– Não?
– Não. — Um silêncio, eu diria que estarrecedor, se fez presente naquela ligação, até que Lanie notou que algo havia acontecido.
– Kate, você está aí?
– Estou – respondi quando fui acordada do transe em que me encontrava.
– Garota, porque será que eu estou sentindo que as coisas não estão bem? Você brigou com o menino escritor? Se for isso, me avisa logo, que eu bato lá na porta dele agora mesmo para xingá-lo.
– Ele não está em Nova York – eu queria falar, mas como era difícil dizer que o meu homem estava ali, naquelas condições, lutando para viver.
– Oh Deus, você não quer que eu vá até aí resolver uma briga, não é?
– Não. – parei os movimentos com os pés.
– Kate, você está me deixando preocupada. O jogo de adivinhação está ótimo, mas você me ligou para falar sobre algo. O que foi?
Lanie ouviu-me mandar todo controle que eu havia mantido durante aqueles dias para o espaço. Debulhei-me em lágrimas, me perdi em mágoas, tristezas e desanimo. Eu estava desistindo, e estávamos indo para o segundo dia de tormenta. Eu realmente não sei por quantos mais eu aguentaria.
– Eu não sei, eu ainda não pude vê-lo, está sendo submetido a uma cirurgia, agora. – pausei engolindo lágrimas – Você precisava ver Lanie, a minha casa estava impregnada com o cheiro dele. Vinho, frutos do mar, queijos. Lanie, porque ele é tão teimoso? Porque ele tinha que vir?
– Oh Kate. Ele estava com saudades, querida.
– Eu também – suspirei pesadamente.
– Kate, é importante que você fique bem, fique firme, por você, por ele. Vocês precisam passar por isso juntos. E o seu emprego?
– Eu estou de folga, eles relutaram, mas eu já tive que optar uma vez, e olha onde estamos? Tentei nos adaptar a tudo isso, encontrar uma brecha para que funcionasse bem. Dessa vez eu farei certo.
– Kate! Você não pode se culpar. Ele aceitou isso, você concordaram, deu certo, e é nisso que você deve se firmar.
– Eu não sei. Eu não consigo – deixei transparecer toda minha vulnerabilidade, não me importava mais.
– Garota, eu quero que você faça uma coisa: Vá para casa, leve as ruivas, descanse e volte para o hospital amanhã. Eu estarei com você no primeiro horário da manhã.
– Eu não posso deixa-lo sozinho.
– Katherine Beckett, quando ele acordar você vai estar aí, com olheiras? Cabelos desgrenhados? É assim que você pretende matar a saudade do menino escritor? É para o seu bem, Kate. Reveze com Martha, organizem-se.
– Tudo bem – Apenas concordei porque... era Lanie e certamente minha amiga ficaria por horas tentando me convencer.
– Você tomou algum medicamento?
– Uhum – respondi quase que em um suspiro – um analgésico, minha cabeça estava estourando – completei.
– Tome um calmante, um chá. Sem mais cafeína, Beckett. Sem mais nenhuma gota de café.
– Certo – assenti – E Lanie... obrigada.
– Sempre.
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