You came back
14 Décima Quarta Parte
Notas iniciais
Depois de nos ofendermos friamente, nós dois não poderíamos continuar ali, olhando um para o outro.
— Você é um cretino, Castle. Incapaz de compreender uma mulher. Eu fui diagnosticada com depressão e sinceramente? Eu nunca pedi por nada disso.
— Eu também não, Kate, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu nunca deixaria a minha filha sofrendo.
— Eu espero que você faça bom proveito de toda essa certeza, de toda essa sanidade que você afirma ter, porque Castle, eu não desejo nada do que eu passei para ninguém. Você sabe qual é o seu problema? Você é um idiota, infantil e imaturo, você nunca deixou de ser. E quanto a minha filha, eu vou lutar por ela, Castle. Vou me tratar e vou ficar bem, por ela. Porque de você eu não quero mais nada. NADA. Você me deixou Castle, me deixou sozinha uma vez e se fizer isso novamente, eu não vou me surpreender. – Foram as ultimas palavras que eu disse, sabendo que o tinha ferido. Céus! Ele não me deixou. Aquilo tudo foi uma tragédia. Eu o havia atingido de maneira que não poderia mais voltar atrás.
— Sabe o que mais me dói? É que em momento algum você confiou em mim. Você me deixou descobrir da pior forma, não me deu tempo e nem me ajudou a digerir. Eu queria te ajudar, Kate. Mas eu não posso fazer isso assim. Eu não consigo mais.
Castle pegou as chaves do carro e encaminhou-se em direção a porta. Eu o amava. Estava com raiva. Mas o amava e não podia deixar ele fazer aquilo.
— O que? Onde você pensa que vai?
— Eu vou te abandonar mais uma vez, Kate. Mas isso não acaba aqui.
— Espera – disse em um sussurro – você não pode sair por aí desse jeito.
— Foi você quem pediu Kate. Espero que quando eu voltar, você já tenha tirado as suas coisas daqui. Eu fiquei em prantos até a hora que tive forças, disquei o número do meu pai, que logo em seguida apareceu e me tirou do loft.
***
Passei duas semanas ao som de grilhos e o do vento que batia nas plantas, as balançando e gerando um som agudo e um tanto quanto forte e assustador. Eu precisei contar tudo ao meu pai, que, por sorte não me julgou, apenas me abraçou, disse que tudo ia ficar bem e me encorajou, dizendo que queria conhecer a sua neta e que ficaria por Nova York para me ajudar com os tramites. Era final de domingo e na segunda eu precisava trabalhar, meus atestados médicos me renderam duas boas semanas. Além do mais, eu estava morrendo por dentro. Duas semanas longe da minha pequena, era torturante. Nem o sinal de telefone alcançava a modesta cabana do meu pai.
Estava sentada no sofá, enrolada em um pequeno cobertor, era da Jo, um que eu havia trazido para casa. Ele era enorme e era todo da mulher maravilha. Mulheres fortes. Era dessas que minha filha gostava. Ingeria um chocolate quente preparado pelo senhor Jim e estava com o pensamento longe.
— Katie... – ele me despertou.
— Eu estou bem.
— Você precisa dormir querida. Logo você terá a guarda provisória de sua filha, eu prometo.
— Tudo bem. Eu só queria ficar um pouco aqui.
— E será que tem lugar para o seu velho pai, aí?
— Sempre – disse lembrando o que não tinha saído da minha mente em dias. Rick. Eu estraguei tudo. Nunca mais teríamos volta. Eu sentia. E já não bastasse a minha dor, ainda tinha Johanna.
— Você sabe que quando você era pequena e vinhamos pra cá, você sempre acabava pegando no sono aqui nesse sofá? – apenas acenei negativamente, levando o polegar até a boca e sorrindo após morder a lateral do dedo – É. Você costumava dizer que aqui era o lugar onde as estrelas te alcançavam. E parece que você tinha razão.
— Hei! Isso era pra ser um segredo.
— Você não é muito boa com eles. Eu e sua mãe sempre soubemos – ele riu despreocupado fazendo referência ao pedaço de telha pelo qual eu havia arrancado quando era pequena. Eu nem lembro bem, mas havia feito um buraco no forro e quebrado uma telha. Eu adorava ver as estrelas, mas adorava mais ainda fazer estripulias daquele tipo.
— Vai ficar tudo bem, não vai?
— Eu prometo que sim.
— Obrigada – disse deitando sobre o ombro de meu pai.
***
Na segunda-feira, quando voltei à cidade, a primeira coisa que fiz foi correr para os braços da minha filha. O que para a minha infelicidade não ocorreu da forma que esperava. Johanna não estava mais no abrigo e ninguém sabia me informar sobre onde estava minha filha. Eu passei mal e não consegui me manter sobre minhas próprias pernas. Só lembro-me de ter acordado no hospital. Meu pai tentou resolver aquilo tudo da melhor forma, mas, alguém tinha lacrado os arquivos. Aquilo era tão confidencial que provavelmente eu levaria anos para descobrir para onde foi minha filha. Era um cenário verdadeiramente assustador.
Eu tentei várias vezes ligar para Castle, mas assim como quando terminou comigo, ele não atendia. Fui até sua casa em uma tentativa desesperada, mas, nada. Ele realmente tinha sumido do mapa. Ou estava me evitando como fez naquelas duas semanas. Não importa, eu acharia minha filha, eu daria um jeito.
ALGUNS ANOS DEPOIS
Eu havia passado os últimos anos na incerteza do que havia acontecido. Procurei por Johanna da maneira mais desesperadora possível. Eu precisava encontrá-la. Recorri às autoridades e todos que poderiam me ajudar, na NYPD e fora dela, mas, ninguém entendia o motivo pelo qual aquele arquivo lacrado permanecesse nesse sigilo todo. Por fim, eu recorreria a única pessoa que poderia tentar me ajudar. Certamente ele estaria com uma rotina muito parecida com a minha. Mas afinal, depois de quatro anos de busca, quatro anos sem falar com Castle, como seria o nosso reencontro? Eu não sabia, mas precisava entender o que aconteceria dali em diante e foi assim que finalmente toquei aquela campainha.
O andar familiar, a casa em que vivi tantos anos, tudo me soava tão conhecido que eu por um instante revivi momentos de pânico que passei por ali, alguns que não consegui abandonar.
— Kate? – ele me pareceu assustado, realmente não esperava por aquilo. Mas ele não estava bem como imaginei. Castle estava lindo. E para minha surpresa, tinha alguém com ele.
— Oi – disse timidamente, tentando disfarçar o nervosismo. Mas ele estava mais nervoso. Isso deveria ser por causa daquele pequeno serzinho que se escondia por entre suas pernas e saltou como em um susto para nossa frente, reclamando de algo.
— Papai, o bubble não quer comer – ela estava com um vestido amarelo e os cabelos cor de mel, com uns cachos nas pontas e um sorriso encantador – eu acho que ele está consti, cons, constip, construpado.
— Abelhinha, não é construpado, é constipado, doente. E não, o seu cachorro não está doente.
— Você entendeu, não entendeu papai? – ela disse toda autoritária, colocando as mãozinhas na cintura e pressionando Rick. Aquela cena me fez rir imensamente. Apesar da minha surpresa. Ele agora era pai. Novamente. De uma menina tão encantadora quanto Alexis. Quanto Johanna. Por sorte, não encontraria sua mulher por ali, ao menos, eu contava com isso.
— Entendi sim amor. Agora dê oi para a Kate – ele me soava cada vez mais nervoso.
— Oi Kate, você é amiga do meu pai? – ela me estendeu a mão de forma graciosa e me puxou para dentro do loft, que não havia mudado muito.
— Querida...
— Tudo bem, Castle.
— Vem Kate, eu vou te mostrar o bubble.
Castle pareceu sem graça com a situação e eu não consegui evitar o sorriso em meus lábios. A menina era adorável e devia ter provavelmente a mesma idade que Johanna teria, por alguns instantes me veio à mente como seria nossa vida se nada daquilo tivesse acontecido.
— Rick... – o chamei sem nem sentir o nome que profanava.
A menina me estendeu os bracinhos e eu não sabia se estava vendo bem. Então confirmei, ela estava solicitando o meu colo. E então eu a questionei.
— Mas então, como é o nome dessa linda garota?
— Os meus amigos e o meu pai, me chamam de abelhinha, é porque eu tenho esses cabelos quase loiros e as abelhas são amarelinhas, não é Kate?
— Ahhh, são sim! E elas são lindas, assim como você.
— E produzem um zumbido que quase tão irritante quanto você, nos dias em que desatina a falar descontroladamente.
— Papai! – ela franziu a testa e olhou seriamente para Castle, que riu adoravelmente.
— Você também tem um apelido, Kate? – Castle a repreendeu, ele estava completamente sem saber como agir com a garota.
— Bem, um amigo meu – olhei para Castle – costumava me chamar de Kit Kat.
— Kit Kat, igual ao chocolate? – aqueles olhos mais pareciam duas bolas de gude, enormes, azuis e me encarando alegremente.
— Isso mesmo, igual ao chocolate. Você é muito inteligente!
— É eu sei – ela disse parecendo saber tudo sobre o mundo — o meu pai diz que eu sou persp, pers, perspi...
— Perspicaz filha.
— É! Perspicaz igual a minha irmã.
— Você é realmente muito inteligente.
— Kate, você conhece a namorada do papai? – Por um instante o meu mundo desabou, mas bem, eram quase cinco anos, ele tinha esse direito.
A única coisa que consegui prestar atenção foi em Castle a repreendendo sobre a moça não ser sua namorada, como se precisasse me dar alguma satisfação – Ela não é minha namorada, abelhinha. É Kate... me desculpa.
— Não há nada para desculpar, Castle. Eu estou bem – respondi tentando me convencer sobre aquilo.
Mesmo que a menina me incentivasse a ficar eu não conseguiria, ver ela falando sobre a namorada do pai, me atingiu em cheio. Eu voltaria em outro momento. Mas aquela menina, ela definitivamente tinha algo que eu não sabia explicar. Besteira. Eu vivia assim mesmo, durante anos eu tentava encontrar Johanna e em cada criança que se aproximava de mim eu me enxia de esperanças. Era um castigo. Por fim, saí da casa de Castle como um flash, mas a menina ficou realmente muito cabisbaixa e frustrada com a minha atitude completamente desnecessária. Castle e eu? Nós mal conversamos sorte que conseguimos manter uma fisionomia amigável perto da criança.
Quando eu finalmente estava em casa, o meu telefone tocou e pra minha surpresa, era Castle. Nós não havíamos nos falado desde quando ele descobriu sobre Johanna e alguns minutos após eu me retirar de sua casa, ele me liga? Era de fato assustador.
Por fim, atendi.
— Kate?
— Castle?
— Isso!
— Está tudo bem?
— Não, eu estive pensando. O que te trouxe até aqui?
— Ao que parece, nada que te afete.
— Kate... — resmungou.
— Tudo bem... — respirei fundo — eu só queria saber se você tinha notícias da nossa filha?
— Da nos... no, no, nossa filha? — gaguejou. Talvez aquilo ainda fosse doloroso pra ele.
— É Castle, da Johanna. Eu procuro por ela desde que voltei a NY, duas semanas depois da nossa — silenciei — separação. Mas parece que os arquivos foram lacrados, é bobagem minha, esquece! — Ia desligar quando ele me chamou.
— Kate, espera...
— Fala Castle
— Você não quer vir aqui em casa? A pequena aqui não parou de perguntar de você, ela está encantada com o seu distintivo.
— Como ela viu? — questionei já entre risos.
— Não me pergunte Kate, essa daqui tem um tato investigativo incrível — nós dois rimos, como se não houvessem magoas ou tristezas. Como se pudéssemos ser amigos e esquecer todo o mal que causamos um ao outro.
— Deve ter puxado a curiosidade do pai. Não nega que é uma Castle.
— Ou da mãe.
— É Castle, eu preciso desligar, assim que der eu passo aí — desliguei sem me prolongar ou dar tempo para ele me importunar falando da mãe dela. Mesmo com todos os meus erros, eu não merecia sofrer ainda mais. Foram anos de busca e anos de tratamento e eu não jogaria tudo por água abaixo. Afinal, quem ele acha que é para tentar entrar no assunto “a mãe”, isso não era nem um pouco justo. Mesmo estando curiosa, sobre como tudo se desenrolou em minha ausência, como ele superou e partiu para outro relacionamento e outro bebê, eu realmente não estava preparada para tantas informações. Aquilo me faria muito mal ouvir detalhes da vida que deveria ser minha e de Jo. Que me foi tirada no dia em que aquele desgraçado entrou em minha casa e atirou em Castle.
Em minha mente, apenas um pensamento me atingia agora: Como Castle havera conseguido o meu número de telefone?
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