Notas iniciais
Advinha quem esta pensando sem voltar?

Alura estava de bom humor.

Era uma afirmação deveras controvérsia diante das últimas descobertas sobre a vida de um extraterrestre que, de alguma forma qual ela ainda não sabia, ela estava ligada. Mas os sentimentos negativos e repulsivos não vieram, para a sua surpresa a apatia rotineira também não. Alura adorou saber da história de vida do herói, não pensou que poderia gostar tanto de ouvir sobre alguém. Não era uma adolescente e odiava estar se sentindo como uma mas, embora fosse difícil admitir, a felicidade ansiosa e inocente ainda estava lá.

Ela parou para analisar o porque.

Gostara de saber sobre o Superman e suas aventuras surreais, gostara de saber sobre Clark Kent e da sua vida conturbada pela dupla identidade, gostara de saber sobre a falecida Krypton e de suas maravilhas exóticas. De alguma forma insana tudo fazia sentido em sua cabeça, de alguma forma ela conseguia montar um cenário com detalhes mais ricos do que Clark lhe dizia, mesmo que ainda fosse uma enorme surpresa ter sido a receptora de tamanha história. Ela definitivamente nunca contaria a ninguém os detalhes melancólicos ou muitissimos belos que ouvira, fora agraciada com a oportunidade rara de ser a primeira ouvinte real do único Kryptoniano existente e do seu riquíssimo mundo e ela difinitivamente não abriria mão disso por nada.

Alura não estava acostumada com o sentimento leve e ameno do bom-humor.

Geralmente ela não era uma pessoa completamente mau humorada, apenas tinha um jeito ranzinza e apático pra lidar com as situações da vida, aquela era ela em seus bons dias, era ela todos os dias da sua vida antes do acidente acontecer e abalar a sua rotina. Mas o bom humor não era frequente, sentir a leveza do sentimento fazia as pessoas à sua volta parecerem mais aturaveis, fazia o barulho da badalada Metrópolis não ser tão insuportável, fazia com que um pequeno sorriso aparecesse em seu rosto. Olhando ao seu redor com olhos cheios do glamour do bom humor ela tinha que admitir: apesar de tudo ela adorava Metrópolis, mesmo em seus piores dias ela jamais negaria isso a si mesma; adorava os seus prédios cheios de personalidade, adorava as suas artes, adorava o seu cheiro, adorava as suas cores, adorava o seu sol sempre presente, adorava a rotina corrida de uma cidade tão grande. E nesse momento ela a adorava ainda mais, talvez porque Metrópolis parecia estupidamente bela aos seus olhos esta noite, tal qual a primeira vez em que pisou na cidade a quase três anos.

E assim, recheada de pensamentos bons e de sentimentos leves, ela andava silenciosamente lado-a-lado do repórter pelas ruas cheias do centro da cidade, uma leve mola sob seus calcanhares.

Clark Kent, por outro lado, não compartilhava do mesmo humor. Por um momento ambos trocaram de papéis, o seu humor ruim quase se igualara ao da sua prometida ranzinza, mas era um pouco diferente. Era tristeza, era melancolia, era dor, era raiva, um misto de ansiedade que queimava seu estômago antes sadio. Adorou cada segundo dessa tarde qual tiveram juntos, cada sorriso, cada toque, cada brincadeira, cada expressão. Não podia deixar de remoer o quanto soube muito mais da sua prometida apenas a observando do que ela lhe disse que era; e Alura tinha um enorme coração, sua beleza não ficava apenas em sua aparência. Aquilo o laçou de forma simples, sutil, mas permanente. Sempre soube que ela era mais do que mostrava, fato é que talvez nem ela mesma saiba disso, mas presenciar aquela Alura de perto fez seu coração bater errático como o de um beija-flor. Ele definitivamente não se precipitou ao declarar o seu amor pela morena a si mesmo porque se não tivesse o feito antes ele teria que fazer agora: ele amava Alura Murray, e cada momento compartilhado ao seu lado era uma dádiva divina qual ele seria eternamente grato ao seu Deus em suas orações.

E agora, presenciando os seus olhos tranquilos, seus cabelos cheios fazerem festa as suas costas pela briza fria que passava pelo seu corpo (ainda agasalhado com a sua jaqueta), seu pequeno e escondido sorriso e sua expressão suave sob as luzes da cidade ele quase desabou, suas mãos se apertaram em punhos. Alura iria deixá-lo, soube disso no momento em que concordou com suas condições. Depois das revelações que ainda viriam ele sabia que toda a tarde maravilhosa qual tiveram valeria menos do que nada para ela e pensar sobre isso fazia um homem grande e invencível como ele sentir a queimação já conhecida vir nas bordas dos olhos, deixava-o frágil. Ele não soube como conseguiu ficar longe da sua prometida por tanto tempo mas depois de hoje sentia que poderia definhar se não visse o seu sorriso em sua direção, se não fosse alvo das suas brincadeiras mórbidas, se não estiver no seu campo de visão quando os olhos dela sorrirem. Seu coração batia apertado. Como ele cumpriria sua promessa se apenas o fato de pensar ve-la indo embora do seu apartamento enquanto o odiava o fazia quase se ajoelhar de dor?

— Clark, o que há? — ele a ouviu em sua direita e ele teve que suprimir a vontade agoniante de abraça-la com força e nunca mais deixá-la ir. Alura o chamou pelo nome como se fossem amigos, Alura estava preocupado com ele, ouvia em seu tom de voz. Alura o considerou próximo naquele momento, a tal ponto que se preocupou com o mesmo.

Imaginar essa aceitação descendo pelo ralo fazia raiva e tristeza brigarem entre si furiosamente dentro do seu peito.

— Não é nada importante, Lua. Não se preocupe — experimentou a textura do seu apelido dançando em sua língua novamente, talvez seria a última vez qual poderia se dirigir assim a sua pequena novamente.

— Olhe pra mim quando fala, punk — ela tentou brincar usando um tom descontraído.

Clark exitou. Sabia que como sua prometida ela seria capaz de ver os seus sentimentos negativos, porém não poderia negar um pedido vindo dela. Virando o seu rosto com lentidão e olhando no fundo dos seus olhos ambares ele sentiu a sua dor passar para Alura, de forma mágica e sem explicação. Ela parou de andar, seu sorriso de antes sumindo lentamente do seu rosto, sua testa franzida em preocupação.

— Ei — ela segurou o seu braço. E num momento ambos estavam frente a frente no meio da lotada calçada do núcleo de Metrópolis, nenhum dos dois se importando com os insultos que os pedestres os lançavam pela parada repentina — O que houve? E não minta dizendo que não é nada, sabe que posso sentir que é mentira.

Alura não percebeu as palavras saírem dos seus lábios, como se enfim aceitasse a marca qual ostentava. Ela estava preocupada. Clark sorriu afetuoso, triste.

Balançando a cabeça em negação ele lhe respondeu.

— Você não gostará de saber como essa história termina — declarou seriamente.

— Vamos lá, não pode ser tão ruim — ela sorriu tentando o tranquilizar, seu sorriso sumindo de acordo que o vinco preocupado entre a testa do homem a sua frente se aprofundava — Não é?

— Não vejo como algo negativo — respondeu evitando o seu olhar — Mas você não irá gostar, temo… que possa me odiar.

— E quem disse que não odeio? — ela brincou de novo. Clark, entretanto, não a correspondeu da forma qual esperava, os seus olhos estavam perdidos em pensamentos. Ela assumiu uma expressão séria — É tão grave assim? — perguntou preocupada.

— Não — respondeu firme, mas voltou atrás ao ver a expressão confusa da sua garota. Ele suspirou — Não para mim, ao menos. Mas sei que você repudiará tudo o que souber, Alura. A sua personalidade não mente.

Alura suspirou aliviada e sorriu perante sua preocupação. Inocentemente pensou que havia assustado o pobre homem a ponto do mesmo temer continuar com sua estranha e surreal história, porque internamente tinha quase certeza de que seria sobre a morte de Zod e de seus seguidores. Ela não poderia imaginar algo mais grave (e que a afetasse psicologicamente) do que uma briga entre seres com aquela força, com aquela tecnologia, 'Com aquele poder de fogo', completou em pensamentos sentindo um arrepio gelado lhe subir a espinha ao relembrar o som da monstruosa nave-mãe que quase destruíra Metrópolis meses atrás. Tinha certeza que houve uma chacina entre o povo de Krypton antes do belo planeta chegar ao seu fim e mesmo que não fosse apreciadora de tragédias (a não ser que fosse contra algum imbecil) ela sabia que estaria disposta a ouvir, ela precisava saber o final, saber o motivo, o porquê de toda aquela chacina á três meses. Talvez ela fosse a única depois do próprio Kryptoniano que obtivesse as respostas qual todas as vítimas envolvidas na tragédia ansiavam.

Ela não recuaria para isso.

— Isso só eu posso dizer, Clark. Deixa de drama e vamos logo antes que eu enlouqueça com esse seu suspense barato de novela — ela seguiu em frente o virando as costas, um sorriso leve em seus lábios que o fez sorrir também.

Ele amava Alura, pensou naquele instante que nenhuma faceta negativa dela poderia afastar o seu amor. Mas essa Alura, essa exata Alura que o olhava com amizade ostentando um pequeno sorriso em seus belos lábios o faria ceder aos joelhos se assim ela ordenasse.

'Essa Alura em especial seria o seu fim', seu lado Kryptoniano pensou, a ideia não sendo nada menos que ansiada.

— Então a senhorita Murray acha que sou dramático, hm? — brincou a seguindo, disposto a esquecer a tensão do assunto ao menos naquele momento. Ele deveria curtir cada momento da amizade que ainda restava.

— Óbvio, você adora uma cena. Mas não se sinta mal, esse é o mal dos heróis. Nas HQs que eu lia quando criança era sempre a mesma pose, pessoas como você estão sempre querendo aparecer — ela gracejou irônica mas não falava sério, ele também sabia disso. O homem Kent com seus trejeitos simplórios e natureza fácil não passava nem perto da personalidade de um homem egocêntrico, e Alura Murray tem em seu sangue o dom de identificar malfeitores e se orgulhava disso.

— Eu me sinto completamente ultrajado — começou também brincando. — Pelo pouco que ouvi de você eu já sei que definitivamente odeio ser posto nas suas estatísticas sombrias sobre tudo, Murray. Você está sendo muito precipitada em suas suposições sobre nós, pobres heróis incompreendidos, e está me ofendendo também.

Clark pingou sarcasmo em cada palavra, cada sílaba, levando Alura a soltar pequenas risadas ao seu discurso pomposo e exagerado.

— A minha intenção é essa — respondeu altiva. Clark fingiu uma cara chateada. — Não é minha culpa estar sempre certa, mas é sua culpa estar sempre errado. Acostume-se rápido com isso ou não viveremos em paz.

Ele ergueu uma sobrancelha em sua direção em completa descrença vendo o sorriso da morena se alargar vitoriosa. Percebeu naquele instante que mesmo que estivessem brincando o seu pai tinha razão sobre as mulheres.

— Não há nenhum respeito por mim nesse seu coração de pedra? Pelo o seu Salvador e ao de seu planeta? Onde foram parar as moças suspirantes e carinhosas ao ficarem de frente ao seu herói? Ninguém faz sequer um biscoito de agradecimento depois de terem suas vidas salvas!

Ela gargalhou, seus olhos ficando miúdos no processo enquanto o empurrava levemente pelo ombro.

— Envelheceram, meu querido. E perceberam tarde demais que babar ovo de homem não as levaram a lugar nenhum, então se eu fosse você aprenderia a fazer seus próprios biscoitos. E pro seu governo a única coisa qual sempre me salva é o meu salário no fim do mês, já você… — ela o olhou de rabo de olho, suas mãos entrelaçadas em suas costas como se estivesse recitando uma ordem — Você não faz mais que sua obrigação livrando nossos rabos de encrenca, forasteiro. Ponto final .

Clark pôs uma mão em cima do peito numa falsa expressão magoada a fazendo empinar o nariz em divertimento.

— Ora, ora, e onde fora parar aquela Alura de mais cedo? O que ela disse mesmo? — começou num tom brincalhão.

— Ah, merda! — Alura rolou os olhos, sua expressão mudando para uma chateada rapidamente — Você não vai mesmo fazer isso, não é? Por favor, me diga que não.

— Espere, acho que estou me recordando! — ele exclamou vitorioso. Alura grunhiu envergonhada.

— Isso é baixo demais até pra você, Kent!

— Era algo como… — ele a olhou com divertimento, uma sobrancelha arqueada, uma malícia no sorriso que poderia fazer multidões se ajoelharem perante sua beleza.

— Me mate, Kent. Eu imploro, faça isso logo

— Oh, sim, acabei de me lembrar. Era algo como "Obrigada por estar aqui por nós, Superman. Você não sabe o quanto tem sido necessário." — ele afinou a voz a imitando.

Alura rolou os olhos ao tom vitorioso do super ao seu lado, suas bochechas corando, sua expressão carrancuda.

— Você nunca mais nessa vida ouvirá sequer um elogio vindo de mim, Clark Kent. Uma pena pra você, perdeu a opinião da pessoa mais sincera e mais lúcida de toda Metrópolis City.

— Eu até me sentiria abalado em suas afirmações — ele gracejou — Mas você sabe o quanto eu sou insistente, e eu sei o quanto você pode ser maleável querida.

Ela sentiu um leve rubor lhe subir as bochechas.

— Vê se não abusa do meu bom humor, seu fodido idiota. Você pode até ser o Superman, mas eu sou Alura Murray. Não vai querer bater de frente comigo, acredite — ela franziu as sobrancelhas em sua direção numa expressão raivosa, falhando miseravelmente ao não conseguir esconder um pequeno sorriso em seu rosto. Clark gargalhou.

— Ah, perdoe-me, madame. Pode ter certeza que estou morrendo de medo dos seus braços magrelos e sedentários — a olhou com divertimento.

— Pois deveria ter mesmo! Meus socos são famosos por esses becos, o poder do meu punho faz um baita estrago. Apenas por isso não vou para academia, seria apelação demais contra os meus adversários — brincou mandando uma piscadela em sua direção enquanto girava o punho no ar num falso soco.

— Apesar de duvidar seriamente sobre sua questão sedentária eu não desacredito do seus dons como pugilista — 'Vi o seu estrago bem de perto, querida' murmurou mentalmente, orgulhoso das suas abilidades de defesa — Mas você sabe que nem mesmo um trem-bala me acertando em cheio causaria grandes danos, não é? No máximo sujaria minha capa.

Ele riu novamente ao seu olhar verdadeiramente chateado, como se um balde de água gelada tivesse caído em cheio sobre a sua cabeça.

— Você é um maldito fodido apelão, Kent. Odeio você — ela resmungou o olhando de rabo de olho, Clark segurou outra risada alta que surgiu em sua garganta — E isso só faz eu me lembrar do quanto estou em desvantagem nessa situação.

Seu tom ainda era descontraído, mas uma pontada fria em sua marca o avisou que aquele comentário não era só o seu humor negro dando às caras mais uma vez. Ele parou novamente a segurando no ombro esquerdo assumia um tom sério e olhando no fundo dos seus olhos.

— Eu nunca... — sua voz retumbou séria e grave em suas primeiras palavras deixando-a instantaneamente atenta ao que ele diria — jamais e sob nenhuma hipótese machucarei sequer um fio do seu cabelo, Alura. Prefiro morrer antes de vê-la ferida.

A garganta de Alura secou com aquela declaração vinda de forma tão séria, tão repentina. A mão do mesmo ainda em seu ombro a passando seu calor ao fazer aquela promessa só fazia a situação parecer mais surreal, mais grave, mais convicta. Clark não exitou, ela sabia que ele falava a verdade. Ela suspirou com a sensação quente de segurança que ele a passava.

— Olha o seu drama dando as caras de novo — ela pigarreou desviando os olhos de sí, fingindo um sorriso. Clark sorriu carinhosamente em sua direção. — Vou confiar na sua índole e acreditar que você cumprirá minhas condições.

— Eu jamais a faria se sentir coagida mesmo sem as suas condições, e embora não concorde totalmente com suas imposições saiba que farei de tudo para cumpri-las. Não quero deixá-la desconfortável.

— Essa afirmação só me deixa mais inquieta, sabia? — ela suspirou o olhando com seus olhos ainda suaves, mas Clark sabia que sua preocupação era real.

Ele sorriu de lado. Adorou aquela trégua entre eles, adorou aquela Alura que não o repelia. O sentimento de que tudo aquilo viria ao chão o fazia querer gritar.

— Alura — ele chamou com sua voz grave ganhando sua atenção — Não vou dizer que o que eu tenho para contar é algo relevante que pode ser facilmente lidado, embora eu gostaria que fosse. Não posso prometer que não irá se chatear porque eu sei que vai, eu sei que não gostará do final dessa história.

Ele levantou a mão em sua direção a interrompendo antes que ela o repreendesse novamente, os olhos do herói voltando ao mesmo estado melancólico de antes.

— Mas eu posso prometer do fundo do meu coração que eu nunca irei coagi-la ou intimida-la, eu jamais a forçaria a algo qual não se sinta confortável, isso não sou eu. A ideia de fazer algo do tipo com você me enoja profundamente. Eu sei que tenho exigido demais de você hoje mas, por favor, nem que seja apenas por hoje, confie em mim.

Ela fechou os olhos por breves segundos enquanto absorvia aquela declaração tão clara, sincera, tão intensa e especial. Clark a fez se sentir quente, pequenas borboletas batendo asas em seu estômago. Sim, certo, que seja. Amaldiçoado seja o caipira Kent de olhos limpos e honestos Ela confiava nele, de alguma forma louca ele não precisava pedir isso para ela cogitar a ideia.

Ela sorriu de lado pronta para respondê-lo quando ela viu. Algo insano e irreal.

Por milésimos de segundos ela visualizou uma corrente, uma fina e doente corrente acizentada que pulsava de acordo com seus próprios batimentos cardíacos. Estava envolta por um único e solitário fio de ouro que oscilava do mais grosso e brilhante até quase desaparecer completamente, instável como seus próprios sentimentos. Ela abriu os olhos ofegando, suas mãos tremeram, seu estômago se revirando. O que diabos foi aquilo?

Mas que diabos…! — ela exclamou roucamente, sua garganta repentinamente seca, suas pernas bambas.

— Alura? — Clark a chamou preocupado pondo a mão em seu ombro ao ver seu rosto livre de cor e uma pontada dolorida puxar dentro do seu peito.

— Você não viu? — ela passou as mãos pelo rosto desorientada. Pensou que estivesse ficando finalmente louca, sua mãe sempre disse que o destino dela seria trancada num manicômio. Sentia medo que as declarações de Vivian se tornasse enfim real, afinal, tal qual ela mesma, a sua mãe estava sempre certa. Alura estava completamente perdida, sempre fora uma pessoa lúcida, sempre fora uma pessoa com convicções firmes, e mesmo em seus piores momentos ela jamais teve alucinações visuais.

— Eu deveria ter visto algo? Por Deus, você está pálida. Vamos, vou tira-la da multidão. O que você está sentindo? — a perguntou confuso enquanto a puxava pela mão para longe do centro da cidade. Alura não respondeu, não queria que a chamassem de louca, fora algo de apenas meio segundo afinal, imaginou que talvez tivesse apenas se enganado. A ideia logo se desvanecendo da sua mente porque ela a sentiu, sentiu aquela corrente numa intensidade tão forte que quase cedeu aos joelhos. Foi sobrenatural — Sente-se aqui, querida. Não demoro.

Ele a deixou sentada no meio fio de uma rua não muito movimentada enquanto desaparecia no estabelecimento as suas costas, retornando em poucos segundos com uma garrafa de água gelada e uma barra de chocolate numa sacola. Se agachando a sua frente e desenrroscando a tampa da garrafa com habilidade ele a estendeu em sua direção. Tomando alguns goles sentindo o frio da água aquietar os seus sentimentos ela o agradeceu, a vertigem ainda não sumindo dos seus olhos.

— Coma. Vai te dar um pouco de energia — ela pegou a pequena barrinha das suas mãos não o questionando, mordeu a barra açucarada sentindo enfim o gosto doce penetrar em sua língua e na sua corrente sanguínea. Isso definitivamente era o que ela precisava.

— Obrigada, Clark — agradeceu evitando o seu olhar enquanto tentava se levantar. Clark a parou antes que conseguisse.

— Nada de movimentoa bruscos, Alura. A sua pressão acabou de cair, os seus olhos estão fundos. Por favor, descanse um pouco.

— Eu já me sinto melhor — teimou enquanto se preparava para se levantar novamente, parando em seus movimentos ao ver o olhar suplicante e infinitamente azuis do herói a sua frente. Suspirando ela desistiu da ideia lhe lançando uma carranca — Você é insuportável, Kent.

— Seus elogios são minha motivação diária, minha querida — ela soltou uma pequena e frágil risada perante seu cinismo, o som entrando nos ouvidos de Clark como uma sinfonia dos anjos. Mas ele não desviaria do foco, Alura quase oscilou em suas pernas á poucos minutos e isso era razão o suficiente para deixá-lo alerta — Agora me conte o que aconteceu.

— Não foi nada — respondeu rápida demais até para si mesma, uma careta se formando em suas feições ao perceber o ocorrido. Geralmente ela não era uma pessoa de respostas rápidas e incalculadas, talvez porque não intereragisse muito com todos ao seu redor e não precisasse passar por situações semelhantes com frequência. Clark logo percebeu sua pequena mentira, claro.

— Posso ver que está confusa, querida, mas não me oculte o que aconteceu. Estou preocupado com você. — ela desviou os olhos do seu rosto firme, logo sentindo os dedos de Kent roçar levemente pelo seu queixo puxando a sua atenção de volta para o seu olhar — Lua, por favor.

Alura suspirou audivelmente, enfim cedendo. Ela morreria se não compartilhasse o acontecido, sentia pelo pulsar da sua marca que Clark deveria saber também.

— Eu… — ela desviou os olhos de si. Como diabos ela explicaria isso? 'Conte a ele' sua mente sussurrou, e como pra provar que era o certo a se fazer a sua marca pulsou suavemente contra sua pele. Alura suspirou novamente- Eu vi... Algo.

— Algo? — ele franziu a testa em confusão — Como o quê? Na rua?

— Não.- ela pigarreou — Eu não sei como explicar, foi coisa de milésimos, talvez nem fosse real. Quer dizer, não foi real, não tem como. Eu pisquei os olhos e estava lá, e depois não estava.

Clark a olhou em confusão enquanto tentava decifrar o seu rosto confuso, frágil. Um pensamento obscuro passou pela sua cabeça de forma repentina e os olhos de Clark escureceram a sua frente, sua mandíbula travada. Ele só vira Alura assustada daquele jeito em uma única situação, o pensamento fez a raiva voltar aos seus ossos com rapidez. Ele pegou as suas mãos na dele.

— Era Zod? — perguntou duramente. Alura rolou os olhos, uma risada descrente escapando por entre os lábios.

— Não, Clark!

— Alura, não me polpe disso... — começou com uma voz fraca, Alura viu que o assunto o incomodava também.

— Zod está morto e eu sei disso, vi com meus próprios olhos — ela engoliu em seco sentindo suas mãos tremerem, Clark as apertando num carinho confortante. As vezes ela pensa que está superando o acidente mas falar sobre aquele dia a atormentaria para sempre, os seus pesadelos sempre provam o contrário das suas certezas. — Não estou alucinando! Eu senti e, droga, foi tão confuso. Não sou uma pessoa de sexto sentido, nunca fui, nunca.

— Alura, por favor, não estou conseguindo entender. O que você viu?

— Eu... vi uma corrente — disse evitando piscar com medo de visualizar a imagem novamente, evitando olhar para os olhos do forasteiro a sua frente — Não sei ao certo, parecia com uma corrente feito de… um material vivo. Pulsava, como se fosse um bater de um coração, como se respirasse. Estava seca e doente, esfarelando, quase sem vida. Mantida por apenas um fio de ouro vivo que hora ou outra oscilava do mais fino ao mais grosso.

Alura percebeu naquele instante o quanto se sentia patética ao explanar o acontecido para o herói a sua frente, o rosto descrente e o olhar assustado do pobre homem em nada ajudava em sua insegurança. Ela logo sentiu a necessidade de se defender de qualquer argumento atestando loucura que ela fosse ouvir.

— Não me olha desse jeito! Eu-Eu não sei o que era, foi apenas…

— Surreal — ele declarou num sussurro sentindo seu coração pular feliz no peito, feliz e confuso. Alura visualizou a ligação que os unia, ele soube disso no momento em que ela mencionou o fio de ouro. Mesmo que ainda não tivessem consumado seus corpos, mesmo que ainda não estivessem completamente ligados ela conseguiu esse grande feito. A ligação se mostrou para ela sem que ela precisasse ir fundo em sua mente fazendo com que suas paredes mentais doessem infernalmente, como aconteceu com ele quando visualizou a ligação pela primeira vez. Rápido, indolor, repentino. Confusão era um eufemismo para o que sentia, pensou naquele momento que ele precisava falar com o seu pai sobre isso, apesar de tudo não era natural que ela pudesse ver a ligação das suas almas uma vez que ela nem sabia sobre. Clark já sabia o que visualizar, ele já sabia quem era sua prometida, ele já sabia quase tudo da marca que um livro poderia explicar; mas fora a Alura quem ela se apresentou, fora Alura que aprendeu a se comunicar com ele através da sua marca, fora Alura que compartilhou os próprios sentimentos com ele sem que ela precisasse dizer, através da marca. Alura dominava a ligação que os unia melhor do que ele mesmo, o que deveria ser o alfa da relação, o provedor de conforto e segurança (segundo as leis Kryptonianas). E agora a marca se apresentava a ela involuntariamente.

O que diabos isso quer dizer?

— Clark — Alura o chamou a sua frente com uma voz levemente trêmula, a sensação de que deixara a alma do corpo por breves centésimos de segundos fora o suficiente para a fazer vacilar em seu estado normalmente carrancudo — Você sabe o que foi isso?

Clark franziu o cenho. Não, tecnicamente ele não sabia. Quer dizer, ele sabia que ela tinha visualizado a ligação de ambos mas não sabia como e nem porque. Ele estava perdido.

— Não. Eu não sei — respondeu rouco. Alura desviou os olhos de si levemente envergonhada.

— Em toda a minha vida eu nunca pensei ter visto algo que não estava lá, nem quando tinha febre alta na infância. Você acredita em mim, não é?

Sua voz vacilou. Clark a olhou no fundo dos olhos pegando as suas mãos no processo.

— Eu jamais desconfiaria de você, Alura — declarou firmemente, um sorriso brincalhão enfeitando sua face logo em seguida, disposto a fazê-la esquecer daquele assunto por enquanto. Ainda não era a hora, ele ainda não tinha as respostas — Embora sua sanidade não seja uma das melhores, diz a lenda que você adora afastar super-heróis gentis e bondosos que apenas quer protegê-la.

Alura comprimiu os olhos o fuzilando, uma risada suave escapando dos seus lábios enquanto ela dava um leve soco em seu ombro.

—Oh, pobre e inocente herói incompreendido. — resmungou irônica. Algumas provocações e risadas depois ela já tinha guardado o acontecido para remoer depois — Eu devia te denunciar pro FBI, seu idiota. Duvido que ficaria perseguindo o meu rabo depois disso, tenho certeza que eles têm métodos maravilhosos para lidar com alienígenas petulantes.

— Caso a senhorita não saiba lidar com mísseis e câmeras espaciais do FBI já faz parte da minha rotina. Não é como se eles fossem grandes coisas como fazem parecer.

Alura rolou os olhos com o seu tom altivo, uma risada travessa surgindo na sua garganta em seguida.

— Tenho certeza que 'o grande'… — ela rolou os olhos novamente, de forma lenta e dramática — …Superman pode lidar com eles, mas não tenho certeza se Clark Kent gostaria disso. Ter dupla identidade não é uma ideia muito inteligente se mais alguém sabe do seu segredo.

Clark levantou uma sobrancelha em sua direção, descrente.

— Está me ameaçando, Alura Murray?

— Você não sabe, Kent? Eu não faço ameaças… — ela chegou frente ao seu rosto, seus olhos brilhando diversão, seu hálito morno batendo na face do herói. Clark fechou as mãos em punhos para controlar a súbita vontade de beija-la — Eu faço promessas e eu nunca… falho com a minha palavra

Um nó se formou em seu estômago, suas mãos apertadas firmemente, sua mandíbula trincada. O sussurro da rouca voz da sua prometida junto com seu doce hálito lançado em sua face fez um canal direto para a sua virilha, seu membro adormecido dando sinais de vida em poucos segundos. Naquele momento ele inevitavelmente pensou em quanto tempo estava sem transar e que essa bela e voluptuosa mulher a sua frente era sua; sua mulher, sua senhora, sua prometida. Trincando os dentes ele se levantou se virando de costas para Alura, como se a simples imagem dela fosse o suficiente para enlouquece-lo. 'Inspire e expire, inspire e expire' sua mente lhe dizia, se concentrou naquele momento em apenas respirar e absorver a brisa gelada que varria Metrópolis naquele momento. Ele não se controlaria se sua linha de pensamentos viajasse demais, apenas pensou por um momento na possibilidade mais insana e surreal: 'Alura, ao seu modo, estava flertando comigo?'

— Clark? — sua voz saiu confusa enquanto ela se levantava lentamente, sua testa franzida. Ela levou uma não ao seu ombro — Ei, eu estava brincando. Sabe disso, não é?

Ela soou preocupada. Novamente. Ele riu audivelmente. Em menos de vinte minutos havia acontecido uma série de situações improváveis com a pessoa mais fechada que ele já conhecera na vida, pessoa qual, por sinal, estava destinada a ser dele. Viver pacificamente por uma tarde com Alura o proporcionou uma série de mudanças de climas e sentimentos qual ele nunca havia sentido com rapidez, era quase como descobrir o prazer numa montanha de adrenalina e incertezas, como pilotar uma moto em alta velocidade num deserto de pedras, sem luz e sem capacete. Era arriscado, incerto e ele nunca sabia quando estava prestes a se chocar contra uma rocha pontiaguda, mas o prazer de estar no controle da motocicleta era espetacular demais, maravilhoso demais, libertador demais. Alura era incrível e era dele. Essa mulher incrível estava destinada a si, nascida para si assim como ele era para ela.

O quão louco de amor ele poderia ficar se tivesse dias assim por toda a eternidade? E futuramente, ele espera, com uma noite de amor intensa sobre a sua cama sendo a cereja do bolo? Seu coração aguentaria? Ele não podia esperar para ver.

— Sim — respondeu sorridente, se virando para ver uma Alura o olhando com a maior cara de confusão do mundo. Isso o fez sorrir mais — Sim, eu sei querida. Seu senso de humor mórbido não para de me surpreender.

— Mas o que diabos foi isso de minutos atrás? — ela soou chateada, uma pontada de confusão entre suas sobrancelhas.

— Eu não sei do que você está falando — Clark respondeu com um sorriso doce, uma cara inocente. Alura o encarou descrente.

— Você é louco, Kent — ela resmungou em resposta fechando o seu casaco sobre si enquanto cruzava os braços, o olhar quente que o Super a enviava quase a fazendo se sentir nua. — Completamente instável, com uma pitada masoquismo também Devia procurar tratamento.

Ele sorriu de lado dando um passo em sua direção, seus músculos quase a fazendo recuar. Apesar da Áurea pacífica ela estava bem ciente do físico de Clark Kent e o que suas poderosas mãos poderiam fazer, e aquele olhar qual ela não poderia descrever em seus olhos, cheio de faíscas, não poderia deixar de intimida-la. E infelizmente ela sabia que não era medo, o medo era fácil de lidar, já essa inexplicável atração, não. Não era seu território, não era algo com qual ela estava acostumada. Maldito Kent.

— Estou procurando, Lua. Espero que minha doutora seja uma ótima tutora, está difícil ser um paciente estável. — ele passou ao seu lado com aquele olhar novamente, o vento frio de Metrópolis bagunçando seus cachos negros ao redor do seu rosto escultural. Ela não entendeu a referência das suas palavras e, sinceramente, esperava não entende-las. Percebeu naquele momento que Clark tinha traços insanos, alguns momentos ele parecia simplesmente…

— Maluco — resmungou mau-humorada o fazendo sorrir novamente, dessa vez com seu olhar tranquilo de volta.

— Vamos, querida. A noite é longa mas as horas são rápidas, ainda temos muito o que falar. — ele esperou até que ela estivesse ao seu lado para seguir em frente.

Alura só esperava que aquelas faíscas de momentos atrás fosse realmente loucura, caso contrário ela não saberia lidar se a situação se apresentasse novamente.

— Bem, é aqui — Clark disse ao chegarem de frente a um prédio de classe média num bairro mais do que decente, completamente diferente do seu lugar. Alura suspirou audivelmente enquanto puxava um monte de cabelo que havia caído sobre os seus olhos, seu suor brilhando a luz do luar.

— Você tinha que manter sua base secreta bem no fim de Metrópolis, não é? — resmungou chateada, sua respiração levemente ofegante. Alura não era uma pessoa de transportes mas também não estava acostumada a longas caminhadas e apesar de estar ciente que Clark andava quase á passos de tartaruga para acompanhá-la, o que ela imaginava que deveria ser frustrante devido a sua natural velocidade, ela ainda sentia seu peito queimar como se tivesse corrido de uma pista á outra. Seu sedentarismo realmente estava levando o melhor de si.

— Base secreta? — ele questionou rindo a fazendo rolar os olhos.

— É, base secreta, o lugar que os super-trouxas arquitetam seus planos e decidem qual próximo lugar salvar. Embora eu esperasse que fosse um lugar mais escondido.

— Você tem lido muitos quadrinhos, querida — ele balançou a cabeça indicando para prosseguirem, Alura resmungando logo atrás. — Essa não é a minha base secreta.

— Mas então você admite que tem uma — ela sussurrou divertidamente fazendo-o gargalhar.

— Eu não daria esse nome, mas sim. Tenho sim um lugar pra refletir sobre meus atos como Superman. Talvez um dia eu a leve lá — ele parou frente a portaria, puxando a porta e sinalizando para que ela passasse primeiro. Alura fez um tom de desaprovação ante ao seu comentário mas não o retrucou, não entendia porque Kent sempre falava como se fosse certo o fato de sempre se encontrarem.

— Mas e aqui, o que seria? — ela ergueu uma sobrancelha em sua direção enquanto o empurrava de leve ao passar por ele.

— Aqui é o que nós heróis chamamos secretamente de "casa" — ele sussurrou de volta num tom conspiratório vendo suas feições se torcerem numa carranca.

— Babaca — resmungou se dirigindo ao pequeno elevador enquanto ouvia Clark rir as suas costas.

— Boa noite, amigo — ele cumprimentou o porteiro.

— O elevador está quebrado — o homem respondeu friamente, uma Alura nada feliz se virando em direção ao balcão onde o porteiro estava.

— Você só pode estar brincando, cara — ela soou entre chateada e cansada. Subir oito lances de escada não está em sua atividade favorita depois de uma longa caminhada, seus calcanhares ardiam num latejar insuportável.

— E eu tenho cara de quem brinca? — ele retrucou com rudeza, um antebraço pesado pousando repentinamente frente ao balcão o fazendo pular de susto. Clark não ostentava um sorriso muito feliz ao falar com o porteiro novamente.

— Tenho certeza que algo será feito sobre isso — disse sério, ainda ostentando um sorriso que não chegava aos olhos. Ele sabia do péssimo temperamento da sua prometida e do quão rude ela poderia ser mas isso não significava que as pessoas poderiam destrata-la, ele não aceitaria.

— O síndico acha que pode ser a fiação, o eletricista chega amanhã de manhã. Até lá o elevador está interditado — explicou friamente. Clark acentiu enquanto se dirigia a Alura, guiando-a até às escadas do prédio.

— Sei que está cansada, lua. Me perdoe por isso. — Alura suspirou audivelmente ao seu lado quando ficou de frente a enorme escadaria, suas panturrilhas queimava só de pensar na enorme subida.

— Considerando o meu azar diário eu quem deveria me desculpar, se eu fizesse isso — ela lamentou ironicamente enquanto subia o primeiro degrau, o pensamento maldoso de que o Super ao seu lado não sentiria nem um pouquinho de cansaço em nada ajudava o seu bom humor a se manter firme.

— Se considera uma pessoa muito azarada?

— Você não sai do meu pé, não é? — retrucou sorrindo, Clark fingiu uma cara de dor.

— Logo agora que eu iria humildemente me oferecer para carrega-la. — Alura gargalhou irônica, arfando entre os degraus.

— Nem se isso fosse minha última opção do mundo, Kent. Mantenha seus músculos longe de mim. — ele ergueu as mãos numa trégua, sorrindo escondido ao vê-la vacilar um degrau a frente.

— Estarei pronto para segura-la quando cair, querida.

— Não jogue pragas sobre mim, seu maldito! — ele riu, o som divertido não permitindo que Alura erguesse sua carranca por muito tempo.

Não demorou tanto quanto ele pensou que demoraria, Alura até se esforçou para não demonstrar o quão cansada estava assim como ele se esforçou para não pega-la no colo e subir de uma vez as escadas. Mas assim que chegaram frente ao seu apartamento ela exalou profundamente enquanto se apoiava na parede, o suor cobrindo sua testa, suas bochechas vermelhas. Clark se aproximou com a Áurea exalando preocupação, seus dedos tremendo de vontade para puxa-la e apoia-la sobre si.

— Você está bem? — perguntou seriamente.

— Só preciso de um tempo — ela exalou novamente enquanto se erguia. — Você tinha que morar no andar mais alto, não é? — Clark sorriu se desculpando, logo destrancou a porta abrindo caminho para que entrasse, assim que ela passou por si ele a seguiu.

— Eu não tive tempo para arrumar, desculpe se vir algo jogado por aí. — internamente ele agradeceu aos céus por não ser uma pessoa de muitas bagunças, considerando que ele não planejou trazê-la para sua casa, considerando que ele não planejou absolutamente nada desde que conversara com o seu pai mais cedo e tomou a subita decisão de ir atrás dela. Pensar sobre isso o fazia refletir o quanto parecia ter sido uma eternidade atrás.

Clark entrou num cômodo enquanto falava, parecia ser uma cozinha. Alura ergueu os olhos para o imóvel ao seu redor e não ficou realmente surpresa ao encontrar tudo em seu devido lugar, pela suas roupas ela poderia dizer que ele era um homem limpo e organizado. O apartamento cheirava a uma colônia máscula e sabia que não vinha de nenhum frasco; aquele era o cheiro de Clark Kent. Era difícil de nomear os elementos que o compunham mas Alura poderia admitir com toda certeza, mesmo que nunca em voz alta, que é um aroma qual ela gostou mais do que deveria. E considerando que ela não usava perfumes justamente por não gostar de muitos cheiros admitir que o odor de Clark lhe é atrativo era uma tremenda revelação.

— Achei que fosse um homem de passos calculados, Kent — brincou irônica.

— Você se surpreenderia com o quanto impulsivo eu posso ser — ele respondeu misteriosamente — Fique á vontade, a casa é sua. Quer alguma coisa?

— Água parece bom — seus olhos vagaram para a decoração do local, particularmente não era uma pessoa de muitas firulas em relação ao design mas até mesmo ela percebeu que Clark era um homem neutro, seu apartamento compunha principalmente por tons pastéis e móveis modernos, mas sem muitos exageros. A iluminação era amarelada, quente, aconchegante. Alguns poucos quadros espalhados pela parede, a maioria dele no campo abraçando uma mulher de sorriso fácil, suas rugas puxando os olhos claros. Apostava que era sua mãe.

— Sua água, madame — Clark veio até si equilibrando uma jarra com água gelada e um copo, sua outra mão segurando uma forma de biscoitos.

— Não vai me dizer que sabe cozinhar também? — ela brincou segurando o copo que desajeitadamente ele lhe estendia, enchendo-o de água.

— Por que não? Heróis não podem manusear uma panela? — ele lhe sorriu brincalhão a fazendo rolar os olhos, talvez pela décima vez aquela noite.

— Vai se ferrar, Clark. Dramático do cacete — ela murmurou entre goles ouvindo Clark rir as suas costas, seus olhos ainda vagando o apartamento do mesmo. Ao canto ela viu caixas empilhadas, algumas vazias e algumas já abertas, peças de roupas e acessórios escapando por entre as brechas. — Mudou recentemente?

— Sim, desculpe a bagunça. Eu não tenho muito tempo.

— Sempre pronto pra salvar o mundo mas ocupado demais pra arrumar a própria casa. Típico — ela caminhou em direção a pequena lareira, o desgraçado tem uma maldita lareira na sala de estar. Alguns quadros estavam montados em seus lugares, assim como dois globos de neve. Ela viu a mesma mulher o abraçando ao lado de outro homem frente a uma imensa casa numa zona rural, os três sorrindo abertamente. Ele parecia ser mais jovem. — Essa é a sua família?

— Sim — ela sentiu a presença dele em suas costas, sua sombra a engolindo por inteiro. Ao lado do seu rosto o braço do mesmo se esticou até a foto a puxando para mais perto, frente aos seus olhos, enquanto seu outro braço a circulava num abraço indireto e apontava a mulher na foto — Essa é a minha mãe, Martha.

— Ela não parece tão terrível como você disse. Olhe só para esse sorriso, a pobre senhora que teve que atura-lo.

Ela lamentou ouvindo-o rir, ficando imediatamente ciente com a sua aproximação ao sentir seu peito retumbar poucos dedos às suas costas.

— Não se deixe enganar por esse sorriso maroto, essa boa senhora sabe como colocar as pessoas em seu lugar.

— Acho que gosto dela.

— Que grande surpresa, querida — Alura o sentiu mais perto, seu hálito batendo contra sua orelha. Ela iria repreende-lo, afasta-lo, jura que sim, mas ele voltou a falar novamente e ela não teve voz para interrompe-lo. Não com o tom triste qual ele usou nas próximas palavras — E esse é meu pai.

E então ela sentiu a sua dor, ela sentiu. Seu peito pesou, ardeu, uma dor fina que não era fácil de ignorar. Engoliu em seco, odiava sentir-se triste, odiava sentir os sentimentos de outra pessoa. Talvez porque ela não podia ajudar, o sentimento de impotência era esmagador.

— Você sente a falta dele. — declarou baixo.

— Todos os dias, alguns mais do que os outros. Ele foi um grande de homem, me ensinou tudo o que sei.

— Ele estaria orgulhoso, Clark.

— Não tenho tanta certeza disso — ela não podia vê-lo mas ele olhava diretamente para si, para sua cabeça de cabelos rebeldes pensando o quão desapontado seu pai ficaria com suas últimas atitudes. Ele não se arrependia, era seu futuro, Alura é o seu futuro, mas não podia deixar de se sentir culpado; culpado por Lois, pelo término grosseiro, pela traição. Culpado por magoar a sua mãe, culpado por envolver Alura em batalhas quais ela há meses atrás nem imaginava que existia, culpado por chateá-la, culpado pelas lágrimas que seu povo já a fez derramar. Tão, tão culpado.

Alura queria ceder aos joelhos, uma mistura de sentimentos pesados que repentinamente se apossou do seu ser, abraçou seu coração numa nuvem negra de lamentos. Clark. Ela não sabia, jamais imaginaria que tal herói pudesse se sentir desse jeito. Ela poderia consola-lo, lhe dizer algumas palavras de conforto mas o sentimento era tão pesado, era tanta... Culpa. Remorso. Se manter em pé estava ficando difícil.

— Clark, pare!

Ele piscou perante sua voz, alarmes disparando em sua cabeça pelo tom agoniado qual sua senhora usou. Imediatamente ele a virou a sua frente correndo os olhos pelo seu rosto franzido, agoniado. Quase com dor.

— Você precisa se controlar, sentir sua dor é uma merda!

— Me desculpe, Lua. Eu não sei como isso acontece, não é algo que dá pra controlar. Eu jamais a machucaria de propósito — ele parecia culpado, sua voz grave e pesada, e dessa vez não era por seus internos sentimentos conflituosos. Alura suspirou cansada, nem um pouco pronta pra entrar a fundo no assunto da marca. Não ainda, não agora. Por esse motivo ela relaxou fugindo das mãos do herói lhe lançando um sorriso de lado.

— Esqueça. Você não vai me fazer comer esses biscoitos envenenados com água, não é? — ela apontou com um acenar de cabeça a bandeja esquecida em cima do centro da sala.

Clark arqueou uma sobrancelha descrente a sua frente, sorrindo e balançando a cabeça em negação enquanto devolvia o quadro de volta em cima da lareira, a foto virada pra baixo.

— Você tem a sutileza de um coice de mula, Alura Murray.

— Minha sutileza está sempre á sua disposição, Clark Kent.

Ele sorriu novamente, talvez a milésima só naquela noite e se virou em direção a cozinha.

— Chá, café, suco ou refrigerante?

— O que acha que eu sou? Refrigerante, óbvio.

— Uma pessoa saudável é o que você não é, querida. — ele gritou da cozinha, Alura o ouviu abrir a geladeira.

— Claro, eu sou a única, vamos fingir que você não comeu aquele Double Cheese com meio litro de suco á duas horas atrás. — gracejou irônica, se virando para analisar as fotos da lareira novamente.

— O suco era diet! — ele se defendeu divertido fazendo os olhos de Alura rolar novamente.

— Ah, certo. Meu erro, me desculpe, vou corrigir: Vamos fingir que pôr 'diet' numa embalagem te faz menos gordo. — ela resmungou balançando a cabeça para si mesma, distraidamente pegando a primeira foto da pilha não arrumada da lareira — Qual é sua próxima desculpa? O pão era integral? O queijo era caseiro? A carne foi feita no óleo do côco e não no comum? Me poupe, Kent.

— Eu posso ouvi-la resmungar, Murray.

Alura exalou frustrada. Tinha a mania de resmungar mas sabia que era baixo o suficiente para que só alguém que estivesse ao seu lado pudesse ouvir. Alguns dos dons extraordinário do extraterrestre, ela supôs.

— Você é um saco, Kent. Maldito seja — ela pôs a foto que segurava na lareira novamente, logo tirando outra da pilha — Aposto que usa seus dons pra ser a velha foqueira do bairro, olhos e ouvidos abertos as conversas alheias. Insuportável, é o que você é.

— Ainda posso ouvi-la — ele sussurrou repentinamente próximo ao seu ouvido. Alura não pode evitar o reflexo automático do seu corpo que a fez soltar um grito fino de susto, seu corpo se encolhendo. Clark sorriu as suas costas, se divertindo as suas custas. Suas sobrancelhas franziram de raiva, seu corpo se virando num rompante frente ao herói lhe apontando o quadro qual segurava ameaçadoramente.

— Mantenha seus dons bizarros longe de mim, Clark Kent! Ou da próxima vez te arremesso algo na cara!

— Por favor, não o meu quadro. A moldura foi cara e seria um desperdício uma vez que isso não me faria o menor dos arranhões. — ele não era um homem esnobe, assim como não era metido, mas havia descoberto que provocar Alura revirava algo dentro de si. Algo como intimidade, familiariedade. Isso e o impagável rosto estressado da sua senhora, de alguma forma isso a deixava ainda mais quente.

Alura gaguejou, surpresa com o sorriso brincalhão no rosto do não-tão-humilde-Kent.

— E eu aqui achando que você fosse um homem decente, seu escroto. Tirando uma com a minha cara! Com a minha cara! — Clark riu, um som pequeno que ia aumentando a medida em que ela não conseguia manter a seriedade na própria voz, logo se rendendo e se entregando ao riso também. Ambos pareciam bobos, Alura ainda lhe ameaçando com um quadro enquanto tentava manter seriedade ao repreende-lo, seu sorriso bonito não a deixando firme em suas convicções — Para de rir! Eu tô falando sério, Kent! Eu não quero ser constantemente perseguida pelas suas peculiaridades, então mantenha-se ou vou enfiar esse quadro bem no meio da sua…

Seu sorriso foi morrendo a medida em que realmente prestou atenção no quadro qual segurava. Era Clark com uma mulher, como em todos os outros, a diferença era que essa não era sua mãe: Era uma ruiva, a ruiva mais bonita que Alura já viu em toda a sua vida. Ele estava de terno, lindo, pareciam estar num evento de gala, a foto flagrando seus olhos brilhando ao olhar na direção da ruiva que encarava a pessoa que fotografou a foto com olhos firmes, rosto limpo e decidido, sorriso de um milhão de voltz. O veludo bordô que ela vestia abraçava cada curva sutil como uma luva, sua pele alva e sem imperfeições, maquiagem impecável, cabelo impecável, olhos brilhantes e decididos.

Alura já havia visto essa mulher antes. Impossível não lembrar. A lembrança daquele dia voltou com força em sua cabeça deixando-a repentinamente tonta. A ruiva de terninho chique que estava impecável no dia do acidente, a que deu colo a Clark quando ele se rompeu em seus sentimentos, que enxugou suas lágrimas enquanto, ajoelhado, ele abraçava sua cintura. A ruiva que a olhou perdida quando Clark se soltou do seu corpo e veio em direção a si com olhos alarmados ao vê-la á beira de um desmaio. A ruiva qual de alguma forma insana e infantil ela não tinha ido com a cara naquele momento.

— Eu conheço essa mulher.

Clark franziu as sobrancelhas e se pôs ao seu lado, seus olhos varrendo a foto de forma rápida.

Oh.

Oh.

Caramba.

O coração de Clark deu um pulo dentro do peito, diferente das outras vezes esse não foi confortável ou apaixonado: foi culpa. Novamente. Temia que o sentimento fosse algo constante em sua vida desde Zod. Ele não sabia como reagir a essa situação, sentia como se tivesse feito algo errado, como se fosse flagrado em algo, o sentimento embolou sua garganta por segundos deixando-a seca. Era ridículo, óbvio, mas o sentimento pesado ainda estava lá. Olhou para o rosto confuso da sua prometida e avaliou suas feições, sua expressão mostrava confusão.

— Ela estava lá aquele dia, quando você...

Matou Zod.

Embora Alura estivesse relutante em terminar ele já sabia o que seus belos lábios queriam dizer. Se fosse há um tempo ele sentiria mais culpa, repulsa, mas desde que viu sua alma gêmea deitada numa maca, seus órgãos internos machucados, seus sonhos assustados e seus olhos apavorados a culpa não veio mais, não sobre isso. Já havia dito uma vez para si mesmo mas sempre gostava de ressaltar que qualquer um corajoso o suficiente para ferir sua senhora merecia um destino pior que Zod, ele não lamentaria mais sua morte. Não depois de Alura. Como se pra acalma-la do receio ele se aproximou mais, seus ombros se tocando.

— Ela estava lá. — ele afirmou, sua voz diferente qual ele usava consigo a segundos atrás — Seu nome é Lois Lane.

— A jornalista? — Alura conhecia esse nome, claro que sim. Lois Lane era uma defensora afinca do Superman no Planeta Diário, ela quem afirmou que os boatos sobre Alura estar de complô com os extraterrestres era, em suas próprias palavras: "ridículo" e "impensável". Ela estava a frente como uma das melhores jornalistas da cidade também.

— Sim. Ela me ajudou quando os boatos sobre você começaram, escrevemos juntos algumas matérias em sua defesa.

Alura franziu o cenho perante aquela observação inocente. Imediatamente sentiu que algo a incomodava, não sabia o que era e nem o porquê mas o incomodo ainda estava lá, surgindo pelas beiradas, rastejando a sua volta quase como um advinho de tragédias. Alura nunca fora uma pessoa de sexto sentido mas ultimamente as coisas surgiam a sua volta no ar, difíceis de ignorar. Alura sentia-se terrivelmente incomodada.

— Parece que você tem uma fã.

Clark conviveu o suficiente com a sua mãe, Lois e algumas garotas para saber que o comentário não fora feita de forma casual. Alura estava o questionando. Ele não a culpava, sabia que não era por maldade e nem porque ela sentia que ele lhe devia algo; era a marca. A marca sabia e ciumava o tempo qual ele passou com a ruiva, tempo qual eles poderiam estar juntos. A marca, suas almas, a alma dela, exigia explicações.

E ele nunca negaria algo para a sua senhora, mesmo que ela não saiba que está pedindo.

— Eu não diria fã, Lois entendia mas não apoiava os meus feitos como Superman. Defender não é aprovar, por incrível que pareça.

— Espera, espera — suas sobrancelhas se franziram quando ela olhou em sua direção, Clark sentiu seu coração errar uma batida novamente. Só que dessa vez, se era de amor por estar tão próximo a sua senhora ou medo da reação qual a ligação de ambos teria com o que ele iria revelar, ele nunca saberia. — Ela sabe quem você é? Sobre quem realmente você é?

— Fomos colegas de trabalho por algum tempo… — ele respirou fundo, evitando os seus olhos — E éramos noivos, também.

— Uou, Uou, espera!... o-o quê? — ela sorriu, uma risada descrente. Aquela risada não entrou em seus ouvidos como a sinfonia divina qual sempre era sua voz. — Você tem uma noiva? Lois Lane é sua noiva?

Era. Nos separamos recentemente, Lua. Não era pra ser — 'porque é você o meu futuro, é você quem eu amo' ele queria completar, de alguma forma sentindo necessidade de se explicar.

Alura não sabia como reagir, ela realmente não sabia e não entendia porque ela precisava pensar em como reagir perante uma declaração daquelas. Claro, Clark ja tinha trinta e três anos, óbvio que ele teve uma vida antes de si. 'Espera, o quê?' sua mente gritou, tão alto que sua cabeça doeu. Por que ela se importava? Por que isso deveria importar? Seu peito ardia, um sentimento estranho qual ela não sabia decifrar, sentimento que fez seu sorriso morrer, sentimento que a fez afastar um passo do herói, pondo alguma distância entre eles, sentindo que de alguma forma estranha havia um fio entre ambos que repuxou quando ela se afastou.

Alura estava confusa. Sua mente deu Reboot. Ela não deveria se importar, ela não se importava! Realmente não. Foda-se Clark Kent e a vida que ele tinha/tem, ela não se importa. Ela realmente não dá a mínima.

Mas então por que sentia-se trocada?

Instintivamente levou os dedos a sua marca, suas unhas curtas nervosamente coçando a pele ondulada qual, depois de muito tempo, pôs-se a arder e repuxar, como se brigasse contra sua pele, como se chorasse.

Alura não se importa. Não se importa mesmo. Não da a mínima.

Então por que se sentia trocada?

— Ei, ei, pare! — sentiu as mãos quentes de Clark segurando firmemente a sua esquerda, a mão qual usava para coçar a pele. Piscando uma, duas, três vezes ela voltou ao mesmo lugar qual estava a segundos: na sala de Clark Kent, o mesmo a sua frente a olhando com olhos cheios de sentimentos pesados, sentimentos quais ela não podia decifrar, o quadro pesando na sua mão direita. — Não faça mais isso, não faça isso a si mesma nunca mais. Por favor, lua!

Sua voz estava pesada, grave, preocupada, rachada, como se estivesse quebrado. Só então Alura sentiu seu corpo novamente, sua cabeça voltando ao lugar. Em seguida o ardor. E algo pegajoso em seus dedos. Olhando para baixo Alura viu sangue em seu decote, sua marca inflamada novamente. Merda.

— Merda — ela praguejou em voz baixa, a ardência aumentando de acordo com que a realidade se firmava a sua volta — Merda.

— Fique aqui, vou pegar o kit médico.

Os próximos minutos foram lentos, automáticos. Clark e seu rosto agoniado sumiu da sua frente, ela ouviu uma porta ser aberta num corredor a sua esquerda. O quadro pesou em sua mão como chumbo, ardia em seus dedos como lava. Ao pôr a foto em sua frente novamente os seus olhos correram rápidos á fisionomia de Clark Kent gravados na imagem: suas mãos estavam entrelaçadas á ruiva e ele sorria para ela, seus dentes brancos quase ofuscando tudo ao seu redor. Mas nada brilhava mais do que seus olhos, olhos quais estavam focados na estupenda ruiva ao seu lado. Uma guinada forte em seu peito fez a marca sangrar novamente. Ardia, coçava e doía como um inferno, doia como se chorasse.

Naquele momento percebeu que não poderia escapar daquele assunto para sempre, não quando algo que pertencia ao herói estava marcado em sua pele, não quando a machucava sem motivos aparentes. Infelizmente teria que acrescentar esse assunto tão incoveniente á conversa que teriam ao longo da noite. E ela ainda não se sentia preparada para isso.

— Sente-se, querida. — Clark voltou ao seu campo de visão com um kit médico em suas mãos, seus olhos sérios, sua voz pesada de algo qual ela não poderia nomear. Algo que parecia preocupação, talvez com uma pitada de culpa também.

O olhar pesado de Clark, o quadro em suas mãos e o ardor que ela sentia era demais. Ela precisava de espaço.

— Eu faço isso. — sua voz saiu seca ao voltar a falar, rouca. Clark sentiu os ares mudarem a sua volta, o calor aconchegante entre eles esfriando rapidamente. Doeu, claro, mas ele não podia culpa-la, não quando ele próprio sentia-se terrivelmente culpado. Ele não sabia se deveria sentir isso mas a culpa ainda estava lá, tão forte que quase se envergonhava ao olhar para o seu rosto bonito.

Como se tivesse a traído.

— Onde fica o banheiro?

— Última porta, no fim do corredor. Você precisa de ajuda?

— Não.

Alura agarrou o kit médico de suas mãos ao mesmo tempo em que entregava o seu quadro contra seu peito, seus movimentos rápidos, seus olhos evitando os seus, sumindo das suas vistas em seguida. Seu peito doeu uma batida, sua cabeça pesada de pensamentos. Os ombros murchos da sua alma gêmea caminhando para longe de si em nada ajudava sua cabeça a se ordenar. Ele olhou para o quadro imediatamente ficando ciente do quão incomodada sua querida deve ter ficado, e do quão confusa por sentir algo que não deveria.

Lois, naquela época, era sua certeza, sua paixão, seus pés firmes no chão, sua garantia de uma vida normal como qualquer outro ser humano. Lois representava estabilidade: uma esposa amada, um trabalho, uma casa com um cachorro e futuros filhos. Estabilidade. Estava tão conflituoso sobre quem era, quem queria ser e o que deveria ser que seus sentimentos foram bagunçados, a voz em sua cabeça o alertando que seu lugar não era ali só o trazia fantasmas a noite, só fazia com que ele dependesse mais ainda dá estabilidade que a ruiva representava. A amou, sim, mas não da forma que pensou que amara. Não depois de Alura. Só conheceu o verdadeiro amor quando seus olhos encontraram os dela pela primeira vez, tal como seus pais biológicos. A amava tão certo quanto o amanhecer, tão certo quanto a necessidade de ar. A amava como jamais amaria outra mulher novamente, soube disso depois de hoje.

A amava tanto que sentia vontade de gritar.

Quando Alura retornou, longos dez minutos depois, ele sentia-se nervoso. Como a primeira vez que se viram. Empurrado contra a parede, coagido, seus passos sendo forçados a serem calculados novamente, receio comendo cada parte dentro de si. Seus olhos, seus belos olhos de mel agora estavam tão frios como sempre, seu rosto bonito congelado em sua fiel carranca costumeira. A amava, a amava tanto, aquela Alura deveria ser sua por completo e ele se comprometeu a amar cada faceta que sua senhora carregava em suas costas: da mais fria a mais quente. Mas por um minuto, por breves segundos ele só queria aqueles sorrisos em sua direção novamente, por um momento ele queria ser alvo das suas brincadeiras mórbidas, por um momento ele só queria ver seus olhos brilharem de malícia quando o alfinetava com algo. Ele só queria quebrar a parede que tão naturalmente fora se desfazendo no começo daquela tarde, mas tão rápidanente havia se erguido novamente.

— Você está bem? — sua voz soou amena ao perguntar, relutante. Alura sentou-se em seu sofá e ele a seguiu, não se atrevendo a se sentar ao seu lado, mas rodeando a mesinha de centro e sentando-se no sofá a sua frente. As feições de Alura torceram levemente.

— Não. Essa maldição me perturba como se eu tivesse culpa dela estar aqui, uma punição constante. Eu só... — então ela levou os dedos a sua marca novamente, agora coberta por uma gaze, e antes que ele a repreendesse novamente ela voltou a falar — Me sinto estranha.

'Essa maldição', 'Punição constante'. As palavras entraram nos ouvidos do herói como uma ofensa, tão suja que algo amargo o varreu assim como um mar revolto, o lançando em várias direções violentamente sem esperanças de chegar a nenhum lugar concreto. Ela não a culpa, claro que não, não quando a marca agia como uma cadela em seu corpo. Clark só queria colocá-la em seu colo e mima-la, afagar os seus cabelos e beijar com afinco entre seus belos seios até que parasse de arder, até que sua senhora se sentisse confortável novamente. Ele queria tanto acabar com a distância entre eles que teve de morder a língua para não tomar nenhuma atitude impensada. Ele sabia que a ligação os atraia, a ele, por enquanto, por amor. Mas a luxúria entre ambos era inegável, sabia que se investisse a sua alma o reconheceria, que querendo ou não ela cederia aos seus cuidados.

Mas ele não seguiria essa linha de raciocínio, sabia que estava apenas chateado por não poder cuidar da sua senhora devidamente mas já havia decidido firmemente que ouviria seu consentimento plenamente sóbrio antes de reivindica-la como sua, antes de fazê-la refém dos seus cuidados, da sua proteção, do seu amor. Ele seria paciente. Ao menos mais um pouco.

— Eu sinto muito, lua. — sua voz estava pesada novamente, pesada de culpa, pesada de raiva pela impotência.

Alura não o olhou, seus belos olhos achavam mais interessante suas paredes do que o seu rosto. Ela se aconchegou em si mesma, enfiou as mãos no bolso da sua blusa antes de voltar a falar, ainda não o encarando.

— Eu ainda não quero falar sobre isso. Não agora. Por favor. — seu peito doeu, ardeu, suas correntes pessoais quase cederam á vontade terrível que ele sentia de sair e destruir alguma coisa. Sua senhora estava pedindo a ele para recuar da história de ambos, estava pedindo por favor. Clark preferiria que ela o enfrentasse ao invés de recuar da sua presença.

— Querida, eu sinto muito. De verdade. Gostaria tanto que as coisas não fossem como são pra você.

— Pare com isso, Kent. Eu já disse que não quero tocar nesse assunto agora, não me forcmandá-lo se foder! — suas sobrancelhas franziram de raiva, uma parte feia dentro de Alura querendo lhe arremessar algo no rosto ao mesmo tempo em que só queria bater a porta daquele apartamento e nunca mais voltar. Sua covardia dava as caras novamente.

A sua frente ela não viu, mas Clark apertou as mãos em punhos com força. Ele só queria cuidar do seu bem estar, embala-la em seus braços e esquecer que o mundo existia fora daquelas paredes, dar consolo ao seu corpo ferido e fazê-lo se sentir bem, fazê-la dele, fazê-la tão bem em seus braços, entre sussurros e gemidos, entre carinhos e luxúria, entre promessas e carícias que só assim ela entenderia o quão profundo era os seus sentimentos por ela: fazê-la entender que a marca era a ligação da alma de ambos, algo tão lindo e íntimo que só eles compartilhavam. Clark desejava desesperadamente tirar o gosto amargo da dor que sua companheira carregava, e logo de algo que deveria conforta-la, algo seu para ela.

Olhando para o seu rosto fechado, ainda não o encarando, Clark só pôde respirar fundo para controlar a enxurrada de emoções tristes que o cobria.

Tinha a sensação de que aquela seria uma longa, longa noite

Notas finais
Eu sinceramente nao sei nem o que estou fazendo aqui, so senti que deveria postar isso. Desculpas nao são o suficientes para eu pedir a vocês, sinceramente os dias passaram correndo, seguidos de meses, e quando vi ja tinha mais de um ano sem postar. Eu pesei seriamente em excluir essa historia, diversas vezes entrei no site so pra isso. Eu agradeço do fundo do coração quem anda esta aqui, as respostas dos comentários virão lentamente mas virão. Agradeço quem Favoritou, recomendou e comentou. Vocês são divinas. E eu ainda estou aqui por voces. Deixe-me saber se ainda estão aqui. Obrigada por tudo, meninas. O próximo capitulo ja esta sendo escrito. Eu ainda devo continuar?