You Rock My World
19 XIX
Notas iniciais
Primeira Parte:
Clark não saberia pôr em palavras a quantidade de conflitos que apertou o seu peito e o afogou em seus pensamentos. Alura estava distante, Alura estava chateada, Alura estava magoada. E a culpa ela dele, mesmo que de forma indireta ele sabia que sim, ele sempre soube que estava destinado a algo maior e nunca deu ouvidos a sua voz interior, e agora, anos depois, as consequências do seu comodismo castigava o peito da sua verdadeira senhora como uma punição ao invés da orgulhosa marca qual ela deveria ostentar com amor. Em sua garganta uma enxurrada de palavras giravam em espiral mas nenhuma se atreveria a sair, não, ele não tinha esse direito. Ele não poderia despejar a verdade sobre eles dois sem uma longa conversa para apaziguar os ânimos de Alura antes da bela história sobre os seus destinos juntos, então ele não poderia conforta-la sobre algo que ela ainda não entendia mesmo que cada célula do seu corpo doesse por isso.
Não ainda.
Então ele sabiamente esperou calado ouvindo as indagações da sua senhora flutuar em sua cabeça num incomodo constante, suas feições a entregavam. Ele amenizou com algumas conversas bobas posteriormente, desviando sua raiva de algo qual ela ainda não entendia para ele e suas pirraças sutis que fariam suas sobrancelhas franzirem e seus lábios ferinos despejarem suas grosserias espertas, algum tempo depois se tornando uma troca de farpas amigável. E assim ele contornou, seu peito suavizando a pressão de acordo com que sua senhora melhorava os ânimos. E então alguns longos minutos se passaram, talvez horas, ele não saberia dizer e sinceramente não se importava. Depois de algumas conversas vazias, mais algumas pirraças e brincadeiras aqui e ali a sua Alura maliciosa havia retornado tão ferina e risonha quanto sua personalidade a deixava. Ele próprio, á essa altura, havia rido tanto que seu rosto doía.
Sentia-se abençoado novamente.
— Você não fez isso — ele fez pouco caso da sua declaração anterior a vendo jogar a cabeça para trás com as sobrancelhas arqueadas, uma risada irônica fugindo dos seus lábios.
— Não só fiz como aposto que alguma pessoa de bem tenha filmado e posto no YouTube. Devo ser alguma celebridade por aí e nem estou ciente.
Ele riu novamente enquanto balançava a cabeça em negação, a olhando nos olhos.
— Você é maluca, sabia? Teve sorte dele não ter revidado, sabe como há homens ruins por aí.
— Ele quem teve sorte por EU não ter quebrado mais ossos na cara dele além do nariz. Vamos lá, você não está com pena dele, não é?
— Nunca. Ainda acho que ele teve pouco, se eu estivesse presente um nariz quebrado seria o menor dos seus problemas — ele declarou risonho mas dentro do peito aquela sua parte Kryptoniana concordava firmemente com suas palavras, seus instintos primitivos herdados do seu povo torcendo para encontrar pessoalmente o homem que atreveu a fazer mal contra sua Alura e fazê-lo engolir cada ofensa proferida contra sua senhora.
— Não seja dramático, estávamos bêbados. — ela fez pouco caso, fugindo os olhos do seu rosto. Clark sabia que ela estava constrangida das suas observações possessivas. — Claro, não estou defendendo o cara, ele mereceu cada gota de sangue que jorrou daquele nariz horrível, mas estávamos caindo das pernas. Além do mais ele era o típico capitão do time de futebol da escola, levar foras não era do seu costume, especialmente numa festa em sua própria casa. Não arrebentei seu nariz apenas pela audácia que ele teve ao me agarrar, foi mais como marcar território.
— Aposto que ele passou a pensar duas vezes antes de agarrar uma garota contra sua vontade depois da sua lição – Clark comentou com humor a fazendo soltar um bufo em descaso.
— Que nada, Fred Collins me infernizou até meu último ano escolar do ensino médio, conto nos dedos os dias que eu tive paz. No fundo acho que o cara estava apaixonado por mim. Completamente maluco, se quer saber o meu veredito.
— Você fala como se a ideia de alguém se apaixonar por você fosse um absurdo – ele declarou baixo, olhando no fundo dos seus olhos âmbares, olhar qual ela não sustentou por muito tempo.
— 'Absurdo' não é a palavras exata, mas 'improvável' com certeza. Caso não tenha percebido eu não sou um poço de virtudes, Clark.
— Você é mais do que vê de si mesma, Alura.
Alura franziu as sobrancelhas inesperadamente incomodada. Ela nunca fora fã de falsas palavras e mesmo sabendo que o herói a sua frente não tinha intenção de ofende-la Clark não a conhecia, as raras vezes em que se viram e as raras conversas qual tiveram não era de longe o suficiente para que o mesmo pudesse conhecê-la, menos ainda tirar conclusões precipitadas sobre si. 'Eu sou uma idiota arrogante' remoeu consigo mesma, 'uma fodida egoísta e muito feliz com isso, obrigada' concluiu com determinação. Instintivamente sentiu a necessidade de deixar isso claro ao herói, se defendendo das suas observações bobas e fantasiosas sobre uma mulher doce abaixo da sua camada de grosseria.
— Vamos deixar algo bem claro aqui, Kent; eu não sou a pessoa mais sociável do mundo. Ou a mais risonha, ou a mais simpática, ou a mais inteligente, ou a mais carismática. Não diga ao contrario! — ela o interrompeu, sabia pelo olhar chateado do super ao seu lado que ele tinha um seminário de razões contra os seus argumentos lutando para sair dos seus lábios — Você não me conhece mas eu sim. Eu não sou nada disso, e sinceramente, não me importo. Realmente não. A solidão é uma amiga conhecida, e muito bem-vinda devo afirmar.
Clark engoliu em seco, cada célula dentro de si lutando contra suas restrições, lutando para sair e defender Alura de si mesma. Não entrava na sua cabeça o quão negativa ela era sobre sua própria pessoa com tanta firmeza, como se realmente não ligasse, como… — Tão repentino quanto a chuva uma idéia passou pela sua cabeça sobre Alura — como se suas palavras fosse um discurso tão ouvido que, ao invés de retrucar, ela só o aceitou e passou recita-lo também.
Como se alguém jogasse tais inverdades em sua cara por muito tempo.
E como pra comprovar suas teorias insanas ele sentiu seu coração bater diferente, o pulsar da marca da sua senhora lhe enviando vibrações. Ele levou esse sinal como uma confirmação. Olhando com mais cuidado para sua prometida ele pensou e repensou em suas próximas palavras, optando por permanecer num campo mais seguro. Mas o assunto não estava morto, oh não; essa conversa seria abordada futuramente, a ideia de que alguém fez Alura criar uma imagem tão ruim de si mesma o incomodava em níveis altíssimos, ele não vê a hora de saber quem fora o culpado e fazê-lo pagar por isso.
— Eu entendo, Alura. Entendo que é feliz consigo mesma, é admirável na verdade. Nem todos conseguem viver só — respondeu passivamente, sorrindo para ela de forma gentil.
Mas mesmo que fosse uma resposta vaga para não entrar num assunto que a incomodaria as suas palavras refletiam a verdade sobre si mesmo, vergonhosamente se lembrava das inúmeras vezes em que a solidão o esmagara mesmo estando sempre rodeado de amigos. Clark é uma pessoa de contato, afeto, demonstrações públicas de carinho e carente da mesma atenção. Ele não sabia responder se o perguntassem se sua carência se devia ao nó que os unia, repuxando e o agoniando pela distancia de ambos desde sua puberdade até os tempos atuais, ou o fato de sua infância ter estado sempre recheado de carinho e atenção, consequentemente o deixando a mercê da solidão quando saiu em busca da sua própria identidade.
Clark ficou alheio ao revirar de olhos da morena a sua frente, assim como o seu suspiro desanimado. 'Lá vamos nós novamente' sua mente sussurrou cansada. Ele iria se decepcionar com ela, sabia disso, soube naquele instante que — por mais idiota que fosse da parte dele — Clark havia tirado conclusões precipitadas sobre sua natureza hostil, como se houvesse alguma centelha dentro de si que merecesse tal atenção. Já decepcionara pessoas antes, claro, mas de alguma forma…
De alguma forma a idéia de decepciona-lo não lhe era atraente, relutantemente concluiu consigo mesma. O porque ela não sabia e também não dava a mínima.
— Você é uma causa perdida, Kent. Maldito seja. — ela resmungou mau humorada, não exatamente com o herói a sua frente mas pelos inúmeros mistos de emoções que havia sido desperto dentro de si nos últimos meses.
Culpava o acidente, claro.
Ela viu o herói lhe sorrir e remoeu consigo mesmo, ninguém nunca sorria com frequência ao seu lado e ele fazia muito isso em sua presença, de certo ele achava engraçado suas frustrações, como se ela fosse seu show de stand- up pessoal. Sua mente sorriu maliciosa com a possibilidade de lhe tirar aquele sorriso e fazendo sua melhor cara de desgosto ela continuou.
— Aposto que você era um perseguidor nos seus tempos de escola também, não é? Assim como me persegue, assustando cheeleaders loiríssimas com suas espinhas e músculos de alienígena em puberdade, as forçando a saírem com você. Aposto que se trancava em armários no banheiro feminino só pra ver as pobres coitadas trocarem de roupa. Maldito seja, é o meu veredito.
Clark arqueou uma sobrancelha em descrença, sua boca levemente aberta numa surpresa muda. Antes de começar a gaguejar protestos, indignado consigo mesma pela imagem que sua alma gêmea tinha de si, ele viu a carranca de Alura oscilar, um sorriso bobo querendo escapar do canto dos seus lábios. Alura estava tentando o tirar do sério. Ele lhe apontou um dedo acusatório, se aproximando do seu lado.
— Você, Alura Murray, é a pior. A pior das piores, esteja ciente disso — declarou sério, seu tom perigosamente sussurrado. Alura aproximou sua face da dele, seus olhos ambares o encarando em desafio.
— Sempre, baby. E nenhuma centelha de mim se incomoda com isso.
E eles se encararam seriamente, seus olhares presos como correntes. Por incrível que pareça Alura fora a primeira a ceder, seu rosto se contorcendo e contorcendo até não poder se segurar mais, explodindo em risadas altas e jogando a cabeça para trás o levando a uma série de gargalhadas também.
— Você devia ver sua cara, Clark! "Você é a pior, Alura Murray" — ela o remendou numa imitação barata, caindo em risos contra seu sofá em seguida. Clark pegou uma almofada ao seu lado e jogou em seu rosto a fazendo rir mais, seus olhos brilhando á imagem da perfeição a sua frente.
— Você está condenada ao inferno, Murray. Pobre Lúcifer, perecerá nas suas garras maldosas — ironizou entre risos, seu coração batendo alegre no peito, seus ouvidos zunindo de felicidade ao serem presenteados com as risadas sinceras da sua alma gêmea pela primeira vez.
— Como se fosse possível ele resistir á minha incrível capacidade de ver o lado humorístico em tudo — ela fingiu um charme, seus olhos ambares brilhando de humor.
— O lado negro humorístico, você quis dizer. O pior possível!
— Nem tudo é perfeito, não é? — ela arqueou uma sobrancelha negra, um sorriso irónico pintando o canto dos seus lábios cheios, seu nariz arrebitado erguido como se o desafiasse a contradize-la, seu corpo se equilibrando em seus cotovelos enquanto parte dela estava deitada em seu sofá, resultado das suas gargalhadas anteriores. Se Alura fosse homem a imagem a sua frente seria de um típico cafajeste, daqueles que protagonistas de livros romancistas baratos cedem aos joelhos perante a mera imagem, submissas as suas vontades cruéis, e mesmo assim, deliciosas.
Clark quase se sentia como uma protagonista apaixonada pelo cafajeste nesse momento, sua mente insistentemente gritando "Você é! " com afinco á sua declaração anterior, "Você é perfeita, querida…". Eram raras as vezes que sua criação terráquea concordava com suas raízes Kryptonianas, mas quando seu lado El completou a linha de raciocínio com "…e é minha, toda minha, nascida para mim" ele não teve cabeça para discutir com a possessividade das suas raízes, ambos, terráqueo e Kryptoniano, entrando em acordo que essa senhora á frente era sua, nascida para ele, escolhida para ele. Não havia outra explicação para o seu coração que batia tão desgovernado no peito. Se havia alguma dúvida dentro de si sobre o que ele fez, faz e faria, havia tudo cedido ali: naquele dia depois de conversar com seu pai, naquela tarde que passou com o seu amor.
— Ou minha cara esta suja ou você é um idiota, e eu duvido muito que eu esteja suja — seus lábios se enrolaram num sorriso maroto ao focar em sua prometida novamente, seu peito quente de algo primitivo ao vê-la parcialmente deitada em seu sofá, em sua casa, comendo da sua comida e se aquecendo com sua jaqueta. A imagem deliciosamente quente, descontraída, e ainda sim, inocente de uma Alura confortável a sua frente se devia dele e os momentos que ele proporcionou a ela. Seu lado Kryptoniano ronronou, mais do que satisfeito em ser o provedor do bem estar da sua amada.
— Não tão suja quanto sua língua, Murray — ele a respondeu docemente, seu tom não combinando com suas palavras (e pensamentos) que mesmo de forma cómica deveria ter sido ferina, com uma calma tão serena em seu rosto que Alura não pôde deixar de perceber os contrastes na personalidade do grande homem a sua frente. Hora brincalhão, hora ingénuo, hora inconveniente, hora tolamente cauteloso, e claro, hora cheio de faíscas; sentimentos quais ela ainda não soube decifrar em seus olhos quando os viu enegrecidos e dilatados de algo que só ele mesmo podia esclarecer. Mas no geral, de todos os olhares e leves declínios em sua personalidade (talvez nem ele tenha percebido do quão rápido podia passar da água para o vinho) ele continuava, no final das contas, sendo Clark Kent. O homem sereno e gentil do campo.
Seus lábios se puxaram num leve sorriso, seu rosto agindo antes que seu cérebro.
Apenas o Kent doce do campo, pensou. Alienígena qual carregava humanos ingratos nos ombros, nunca pedindo apenas doando: doando sua força, seu tempo, seus dons, sua vida. Por mais que ela achasse sacrifícios em prol de pessoas ingratas tolas ela não podia deixar de achar seus sacrifícios admiráveis, talvez porque ela não se via dando tanto de si em prol de gente infernalmente insignificante. Egoísta, sim, mas ela nunca se incomodou com isso. Menos com Kent. A ideia de vê-lo se doando tanto e sendo recebido de forma rude, muitas vezes agressiva, tirava suas reservas pessoais dos eixos. Sentia vontade de socar alguém. Clark Kent, Kal-El era bom demais pra esse mundo.
Admitia, enfim, e não se arrependia.
Clark escondeu um sorriso, o sorriso mais apaixonado qual ele a daria, sorriso qual nem ela com toda a sua descrença sobre seus dotes pessoais poderiam negar que era de puro amor, amor por ela. Clark sentia seu coração desgovernado no peito, trotando alegre como um cavalo livre. Sentia pela ligação que Alura enviava e ele o doce presente da aceitação e compreensão, talvez, se ele tivesse certo em sua leitura, até admiração. Ele não deixou o pensamento sombrio perpetuar que isso poderia vir abaixo até o final daquela noite, no momento ele só queria se enrolar no casulo aconchegante que era os sentimentos positivos da sua prometida para ele e lá permanecer até o fim dos tempos.
— Bem, de qualquer forma a minha língua suja está com fome. Seus biscoitos envenenados acabaram?
— Ora, ora, o que temos aqui? Alura Murray está pedindo pela minha comida, feita pelas minhas mãos alienígenas?
Ela rolou os olhos enquanto se endireitava no sofá.
— Falei que os biscoitos eram envenenados, a radiação que você emana me fazendo pedir coisas que possivelmente podem me matar. Pobre de mim.
Clark se levantou fingindo um suspiro frustrado enquanto se dirigia até a cozinha.
— Isso é um mito maldosamente criado por ativistas idiotas. Sabe disso, não é? Eu jamais permaneceria na terra se soubesse que minha presença pode causar algum mal á saúde dos terráqueos — Alura grunhiu frustrada lhe arremessando uma almofada nas costas, a mesma que ele usara conta seu rosto minutos atrás.
— Eu estava brincando, cacete! O povo do seu planeta eram dramáticos iguais a você? Jesus tenha piedade.
Clark gargalhou abrindo seu forno vendo alguns dos seus biscoitos guardados cuidadosamente num invólucro de plástico, achando graça da mania que Alura tinha de clamar por divindades mesmo não acreditando nelas.
— Eu também estava, Murray. Quem não entendeu a piada agora? Achei que fosse mais esperta — ele a alfinetou ironicamente ouvindo seu suspiro chateado da sala.
— Você é um imbecil acima da média, Kent. Me desafiando? Louco de pedra — ela murmurou consigo mesma o fazendo sorrir.
— Eu posso…
— Me ouvir resmungar, eu sei, sua velha xereta! Ter alguma intimidade com você por perto deve ser uma merda, coitados dos seus vizinhos.
Ele voltou á sala lhe enviando um sorriso de canto, seus olhos brilhando com algo escuro.
— Garanto que ter alguma intimidade comigo é satisfatório, Alura. Nenhuma mulher nunca reclamou.
Ele viu suas sobrancelhas arquearem em pura descrença, sua boca maravilhosamente aberta de surpresa. Ele sorriu convencido antes de receber outra almofada na cara.
— Eu-Eu não estava falando disso, seu puto! Guarda suas piadinhas de duplos sentido pra você!
Clark não se arrependeu do que disse, e como ele poderia? O rosto da sua prometida estava maravilhosamente se cobrindo de carmim, seus olhos evitando os seus. Uma Alura tímida era demais para sua natureza protetora se controlar. Alura, por outro lado, não sabia como encarar Kent e seus poderosos músculos que agora se sentavam ao seu lado e lhe estendia uma vasilha cheia dos seus deliciosos biscoitos de avelã, com uma face verdadeiramente inocente, como se á segundos atrás não tivesse feito um comentário esportivo que inesperadamente a fez refletir sobre o mesmo. Alura nao gostava de afundar em seus próprios pensamentos, talvez porque as bordas do mesmos sempre eram envoltos por uma serpente negra pronta para lhe dar o bote, mas isso vinha acontecendo com uma crescente e irritante frequência.
Como nesse exato momento.
Acima da sua carapaça de frieza ela era ciente da aparência dele, bem ciente, talvez porque agora ela sabia quem realmente ele era e não havia mais como não perceber Clark Kent, ainda mais quando ela sabia que a sua segunda identidade era o mesmo herói símbolo sexual para muitas mulheres mundo afora, que vestia Lycra e derrotava barreiras com a força dos seus punhos. Alura é uma mulher que se sente atraída por homens acima de tudo — não que ela estivesse dizendo que se sentia atraída por ele — e um homem como Kent não passaria despercebido pois, como a maioria das mulheres, homens que marcam a sua presença sem necessitar chamar grandes atenções despertavam o seu interesse sobre o que mais aquela pessoa teria a oferecer e Clark definitivamente era um deles, nem mesmo sua natureza gentil e doce mascarava totalmente a selvageria da sua personalidade e ele não precisava ser o Superman pra qualquer um perceber isso. E um homem marcante naturalmente atrai mulheres, várias delas, e duvidava muito que as qualidades de, bem, como ela poderia dizer, relações intimas com Clark fosse abaixo da média. Ela poderia até estar equivocada porque algumas impressões podem estar erradas, mas ele era atencioso demais pra não agradar uma parceira. Inevitavelmente se lembrou da ruiva e do lindo anel prata que ela orgulhosamente usava em seu dedo, dado por ele. 'Ela é bonita demais pra ficar com um homem cujo as únicas qualidades ficassem só na aparência ou personalidade' remoeu, inesperadamente desgostosa, 'eles devem ter se divertido muito juntos'.
Seus pensamentos sombrios foram totalmente interrompidos ao sentir dedos grossos se firmarem em seu queixo, puxando o seu rosto para um Clark de olhar sereno.
— Pra onde os seus pensamentos a levam, querida?
Ele sabia. Alura sentia que ele sabia o que ela pensava, sentiu sua negatividade idiota passar para ele, sentiu-se traída pelo seu próprio corpo. Ele a sorriu carinhoso enquanto ternamente acariciava seu queixo bem abaixo dos seus lábios com seu polegar calejado. Por nano segundos ela parou de respirar.
— Pra bem longe de você, Kent. Para de relar em mim — ela fugiu do seu aperto ignorando com veemência o calor fantasma que permaneceu em seu queixo depois. Ele não se frustrou, percebeu que seus pensamentos haviam a levado para mares indesejados, o aperto aflito em seu peito a denunciou. Ele não saberia dizer o conteúdo dos seus pensamentos mas sabia que o motivo havia sido seu comentário anterior o fazendo imediatamente se chatear consigo mesmo. 'Essa é a nossa senhora, mas ela não sabe que é nossa' seu eu Kryptoniano o repreendeu 'não a deixe mais confusa do que a marca já faz!'.
— Eu fui rude não fui? Perdoe-me, eu me deixei levar. Não quis ofende-la, lua.
Alura exalou de olhos fechados, puxando a bagunça negra que dos seus cabelos para trás das suas costas. 'Ele sempre tem que pedir desculpas? E com tanta sinceridade? Maldito!' seus pensamentos gritaram, chateados por não conseguirem sentir raiva de Kent, não quando ele cedia a ela, não quando suas desculpas eram tão sinceras e serenas. Ele sabia recuar e isso a desarmava, esse controle ela não tinha. Era mais fácil lidar com quem reage á sua rudeza, entrar em campo desconhecido a tirava da sua zona de conforto e isso a incomodava em níveis alarmantes.
— Não importa — respondeu somente pegando um biscoito que ele agora lhe oferecia e levando aos lábios cheios, sentindo a massa crocante derreter em sua língua. Ela jamais o diria o quão deliciosos estavam.
Clark sorriu com carinho.
— Engraçado o que disse antes. Sabe, sobre minha época colegial.
— Sobre você ser um perseguidor incansável? Só um idiota acha graça disso, admita.
Clark rolou os olhos, seu ato dramático a fazendo rir. Ele não fazia muito isso.
— A graça está na situação, lua. Eu era completamente diferente do que você disse, apesar de tudo.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Ninguém nunca te interessou no colégio a ponto de você ser um idiota espinhento? Não que você precise do colégio pra ser um idiota, só lhe falta agora da espinhas — ela o alfinetou maldosamente, um sorriso travesso no canto dos lábios — Vamos, todo mundo já passou por isso.
— Pois para o governo da senhorita sabe-tudo os meus hormônios funcionam de forma diferente dos humanos, então eu nunca tive uma acne. E não, ninguém nunca me interessou a ponto de fazer coisas absurdas como me esconder nos armários femininos para as verem trocar de roupa — ele devolveu seu tom maldoso com seriedade e talvez, só talvez, visse uma centelha de arrependimento nos olhos ambares da sua senhora.
Ela pigarreou mudando de assunto.
— Você nunca teve uma maldita espinha estragando sua pele?
— Nenhumazinha.
Ela suspirou frustrada enquanto pegava outro biscoito da sua vasilha, mordendo um pedaço e lhe apontando o que sobrou em seus dedos acusatoriamente.
— Você nunca teve uma espinha, aposto que era o maior da sua turma, talvez até do maldito colégio inteiro. Com certeza havia rios de garotas caindo aos joelhos por você. Você é a droga de um bastardo com uma vida perfeita — ela pontuou pausadamente, o biscoito balançando em sua direção a cada palavra e terminando de ser engolido por inteiro pela sua senhora, os olhos dela brilhando repreensão. Clark sorriu divertido.
— Está longe da realidade, mas você fala como se eu tivesse cometido um crime.
— E cometeu! Como assim você passou pela puberdade sem nenhum problema sentimental? Vamos lá, ninguém nunca quebrou o seu coração?
— Eu não disse isso — ele soou levemente envergonhado, não estava acostumado com pessoas o perguntando sobre sua adolescência conturbada.
— Agora sim estamos chegando á algum lugar. Quantas colegiais cortaram o seu pobre coração radioativo?
— Por mais incrível que possa parecer… — ele ironizou em meio a uma risada — A lista não é grande como você pensa. Eu estava mais preocupado sobre descobrir quem eu era e manter meus dons escondidos, não tive uma vida amorosa muito agitada.
— Polpe- me da sua falsa modéstia, homem do espaço — ela retrucou com descaso.
— Sério, lua…
— Desembucha, Kent!
— Certo, você não vai deixar isso passar — Clark disse pra si mesmo, não sabendo se deveria rir da curiosidade repentina de Alura ou preocupar-se, afinal, ela é sua prometida mesmo que ainda não saiba, não havia como ter certeza de que a mesma não se aborreceria. Ficou mais do que claro que a alma dela não estava nada contente que seu parceiro gêmeo não tivesse a procurado antes.
Alura ergueu uma sobrancelha triunfalmente.
— Não, não vou.
Ele soltou um falso suspiro frustrado, seu sorriso escondido numa falsa careta.
— Tudo bem, detetive. Havia sim uma garota que marcou a minha adolescência, seu nome era Chloe e eu estava apaixonado como um idiota.
— Que novidade — ela rolou os olhos dramaticamente — Chegaram a se pegar?
— Ficamos juntos por um tempo, sim. Alguns poucos meses.
— Chloe, huh? Quantos dentes você quebrou do namorado bombado dela? Aposto que o time de futebol inteiro deve ter caído em cima de você por ter roubado a princesa do time.
Clark sorriu para si, um sorriso tão genuíno que a fez sorrir também.
— Você tem um certo complexo contra os membros dos times de futebol colegiais, não é?
— Todos. Mas não mude de assunto, Romeu! O foco aqui é você ter roubado a namorada de algum capitão de time! – ela sorriu, um som travesso e infantil fazendo os seus olhos brilharem. Clark se sentiu um pouco mais apaixonado, se isso fosse possível.
— Eu não sei direito que imagem você tem de mim mas posso afirmar com certeza que você está equivocada, lua. Chloe não era a garota mais popular da escola, muito pelo contrário na verdade. Era linda, sim, muito, mas também a melhor aluna que Smallville High School já teve sem sombra de dúvidas. Ela se tornou uma cientista brilhante, devo dizer.
Algo no comentário orgulhosamente genuíno do herói a fez franzir o cenho.
— Você claramente gosta de mulheres com mentes afiadas — comentou em descaso.
— É um fraco, admito — a respondeu em tom de brincadeira, achando que o tom repentinamente sério da sua prometida se devia a mais uma de suas brincadeiras maldosas — Mulheres inteligentes me cativam, não consigo me ver ao lado de uma pessoa com baixa capacidade cognitiva.
E os ventos mudaram novamente.
Alura sorriu de lado, inesperadamente amarga. Ao contrário do que Clark achava ela não havia levado na esportiva, mas não porque ela fosse uma mulher insuportavelmente bipolar; ela realmente não era. Mas Alura fora rodeada pela serpente negra dos seus pensamentos, o chocalho da mesma gritando em seus ouvidos, a borda da inferioridade pronta para o bote. Ela se chateou, sim. Não sabia o porque mas talvez, só talvez, aquele comentário em especial a afetasse pessoalmente.
— Uma cientista brilhante como ex namorada e uma das melhores repórteres que o Planeta Diário já teve como ex noiva. Você certamente coleciona troféus brilhantes em sua prateleira, Kent. Deve lustra-los bem, eventualmente.
Alura não sabia porque havia feito aquele comentário tão ferino de forma tão séria, surpreendendo a si mesma pela sua estupidez repentina. Afinal ela é uma mulher e como tal jamais diminuiria uma da sua própria classe, tinha aquele princípio dentro de si. Mas de alguma forma o infeliz ponto fora verbalizado em voz alta estragando o clima amigável que á pouco havia se estabelecido, sua marca pulsando ao mesmo tempo em que a voz da sua mãe sussurrava uma memória no fundo da sua mente "Você tem o cérebro do tamanho de uma ervilha, Chelsea!" a fazendo franzir o cenho chateada, o leve receio da inferioridade lhe roendo pelas bordas novamente. Fora tanta confusão de sentimentos em milésimos de segundos que ela perdeu os olhos de Clark levemente arregalados para si, sua cabeça se virando tão rápido em sua direção quanto o estalar de um chicote. Ele ficou ofendido, no mínimo. Pego de surpresa como um nocaute. Ter seu orgulho ferido logo num ponto tão intimo do seu ser, seu caráter que ele tanto lutava para manter intacto, o feriu principalmente porque fora da sua senhora que ele veio. Ele não queria que ela carregasse essa imagem de si, de um homem que dorme com mulheres brilhantes para descarta-las depois, usá-las quando o convinha, fora como… como se por um segundo Alura fugisse para longe, com receio de se entregar a ele com medo de ser usada.
— O que a faz pensar que eu sou esse tipo de pessoa? Não fale coisas assim, lua, elas foram mais do que troféus para mim. Algumas mulheres brilhantes passaram pela minha vida e infelizmente não deu certo, apenas isso. Como Kryptoniano estou destinado a algo… maior, só meu, mas isso não as diminui e nem ao que tivemos. Elas foram maravilhosas e admito que o… problema… estava em mim, mas isso não quer dizer que as deixei de propósito depois de usá-las, e nem que continuo as usando quando me convém.
Alura engasgou com sua própria respiração, o comentário repreensivo, mas de nenhuma forma rude, de Clark lhe pegou com tanta surpresa quanto sua própria estupidez. Estava acostumada a ser uma pária, claro, mas nunca de forma que afetasse outra mulher injustamente e nesse caso um homem também, afinal Clark não havia feito nada para receber uma acusação desse tipo e viu em seu rosto o quão àquilo o afetou. Sentiu-se envergonhada.
— Eu… foi… um comentário infeliz e desnecessário, me desculpe. Eu não sei o que deu em mim.
Ver Alura se desculpar com algo ferino que ela disse o pegou com tanta surpresa quanto o seu rosto envergonhado, suas bochechas levemente brilhando carmim ao mesmo tempo em que seus olhos ambares fugia do seu rosto. Isso o cativou, algo tão simples mas tão sincero que sua marca o alertou que ela realmente sentia pelo comentário infeliz. Ele sorriu carinhoso, sua grande mão cobrindo as suas pequenas e delicadas que descansavam sobre suas pernas. Ao ter sua atenção novamente, seus olhos caramelos se fixando no seu, ele sorriu novamente. Alura sentiu algo quente envolvê-la com aquele sorriso em especial.
— Eu sei que não lhe passei a melhor das imagens e embora me ofenda, admito, eu não posso culpá-la pelas suas suposições por mais absurdas que sejam. Espero que com o tempo você possa me ver de outra maneira.
E lá estava o pedido indireto de desculpas que tanto a desarmava, tanto a impossibilitava de repreende-lo por a tocar de forma tão intima. Ela não recuou suas mãos das dele e talvez, apenas talvez, seu polegar travesso tenha acariciado a palma calejada que ele ostentava em suas próprias mãos. Ela sorriu de lado, aquele sorriso cafajeste que tanto mexia com ele. Mal sabe o super o que se passava em sua mente, algo parecido com o quanto Clark Kent não deixava de surpreendê-la e que ela não gostava totalmente disso, era uma amante de rotinas e Clark foi um tufão em sua vida, virando suas certezas de cabeça para baixo e, lentamente, a mudando.
Ela realmente não estava gostando nada disso.
—_
Algumas horas se passaram, era tarde da noite. Não que Alura ou Clark percebessem isso, ambos entretidos demais numa conversa suave, amena. Como se eles se conhecessem de uma vida toda. Alura estava fascinada por Krypton, suas perguntas tímidas logo se tornando uma enxurrada quando percebeu sua imensa vontade de sanar suas duvidas. Clark sentia-se abençoado, claro. Apesar dos pecados da sua raça ao longo dos milénios Kryptonianos que levou seu planeta natal a um triste fim, Clark amava seu povo e a cultura qual ele nunca teria a chance de viver. Mas ele viu, viu na memória que os seus pais o deixou as cores da sua terra, a arquitetura, as músicas, a língua nativa, as modas, as artes, a crença, a tecnologia, a cultura em geral. Tudo que um livro poderia explicar fora armazenado na imensa memória da sua nave, e ele as via e as estudava como o excelente aprendiz que ele sempre fora. E Alura adorava cada nova informação que ele a dava. Ele viu os seus olhos brilharem, viu seus sorrisos, suas caretas, seus ofegos, ouviu suas perguntas e as respondeu com a mesma empolgação qual ela o presenteara. Sua prometida mostrava amor pelo seu falecido planeta, lugar qual poderia ter pertencido a ambos caso o declínio da sociedade Kryptoniana não tivesse ocorrido, caso o sol não os tivesse adoecido. Ele sentia o seu amor criar tentáculos prontos para lhe rasgarem o peito e puxar sua senhora para perto do seu corpo, sob suas asas, sob sua proteção.
Onde ela pertencia.
O som estava ligada num blues suave, baixo, o som profundo da cantora era um acréscimo ao ambiente tranquilo. Alura estava sentada em seu sofá, recostado no braço e abraçada a uma almofada enquanto seus delicados pés foram jogados preguiçosamente sobre seu colo. Sua mão esquerda segurava uma taça de vinho que brincava deliciosamente sobre seus lábios, seu braço direito apoiado nas costas do seu sofá, sua cabeça de seda negra descansando no mesmo. Ela parecia em casa, tão leve e confortável.
O lado feio dominante em seu peito retumbava de orgulho por ser provedor do seu conforto.
Ele por outro lado estava na outra extremidade do sofá tentando ao máximo concluir a historia sobre a crença do seu povo e os deuses que eles cultivavam sem tocar em seus belos pés que tão ousadamente deitavam em suas pernas. Era bobo mas ele queria toca-los, massageá-los, beija-los até. Ele queria ver como sua senhora reagiria ao ter suas mãos em seu corpo, mesmo que começando pequeno como os seus pés. Ele não sabia como haviam terminado daquela fôrma tão íntima, tinha certeza que Alura estava tão entretida que não havia percebido o quão relaxada estava, mas não questionaria. Ele estava sendo abençoado de muitas formas essa noite.
— …E então criamos um grande templo no centro de Kandor, nossa capital, em homenagem ao nosso deus Rao e a sua esposa, a deusa Yuda Kal. E por lei a cada trinta anos havia uma festa, por obrigação em toda Krypton, celebrando a bênção divina que a senhora Yuda Kal nos deu da vida longa, fértil e do conhecimento plano. E ao senhor Rao por ter nos presenteado com um planeta frutífero, vasto e rico tanto em minério como em vida selvagem. E claro, pelo sol divino, símbolo da sua existência, que fora de onde fomos criados e moldados com nossos poderes.
Ele finalizou contente. Os olhos de Alura brilhavam, maravilhosos como ouro derretido sob um céu de estrelas, seu rosto corado de empolgação e um sorriso em seus lindos lábios qual ela tentava esconder atrás da taça.
— E então? — ele perguntou ansioso ao rosto pensativo a sua frente.
— Maravilhoso, claro, mas... desculpe, mas todas as ficções religiosas são. Fico surpresa que o seu povo, anos luz evoluídos em comparação á sabedoria da terra, cultivava deuses e os adorava.
Ela bebeu um longo gole de vinho, seus olhos o desafiando a contradizê-las.
— Eu entendo sua descrença em divindades, lua. Os terráqueas cometem atrocidades em nome dos seus deuses e religião, nós também pecamos muito em nome do Senhor Rao, mas posso garantir que eles existem.
— Se esse for o caso então isso o faz um punk, não acha? Seu planeta fora destruído, seu sol, supostamente criado por Rao, estava doente. Ele não me parece muito justo com o seu povo. Onde ele estava?
Ela tinha um ponto, seu cérebro limitado na descrença agia racional ao pensamento da existência de um deus injusto que não protegeu seus súditos do fim. Mas Clark sabia da existência dos seus deuses, a própria prova estava marcada entre os seios da sua prometida. E havia justificativas para o fim, claro.
— Nossos deuses também nos deram livre arbítrio e infelizmente nosso povo ficou cego às consequências dos seus atos, eles selaram o seu destino, lua. Condenaram a si mesmos.
— Isso é uma desculpa esfarrapada, comum. Os Kryptonianos eram reis da ciência, da historia e da engenharia, poderosos, sábios. Isso não é nenhum dom divino, acredito que nós, terráqueos, poderíamos chegar ao mesmo nível, sem os poderes, claro, se tivéssemos mais tempo de vida. Deuses não tem nada a ver com isso.
— Você está falando para um Kryptoniano que seus deuses não existem, minha senhora. Não é muito sábio da sua parte. — comentou com falso sarcasmo.
— Oh, perdoe minha blasfêmia e poupe minha vida, nobre Kal-El — ela rolou os olhos, perdendo a breve mudança repentina nos olhos do super. Ele já a ouvira chamar seu nome antes mas fora numa situação de terror em seus pesadelos, ele não teve tempo de contemplar a magnitude de ter seu nome Kryptoniano clamado pela sua alma gêmea. Era diferente agora. Alura estava plenamente consciente, relaxada em sua casa. O El dentro de si ronronou de alegria — Mas isso é um touché, punk. Você não é capaz de rebater os meus argumentos.
Clark balançou a cabeça levemente para afastar os pensamentos daquele lado seu, se voltando ao presente e assistindo o rosto triunfoso da sua amada.
— Querida, eu quero que preste atenção nas coisas que irei lhe dizer. A história de krypton é longa e exaustiva, apesar do fim súbito, mas cada detalhe é importante. Nós não fomos extintos do nada, nossos deuses não nos viraram as costas só porque lhes convinha. Ainda há tanta coisa pra lhe dizer…
— Bem, eu não estou indo a lugar algum até a conclusão disso tudo. Encha minha taça e não reclame, Kent. Você quem me arrastou até aqui, afinal de contas.
Alura finalizou com um último gole profundo do que lhe restava na taça e uma sobrancelha erguida, seus olhar afiado, desafiando-o. Clark sorriu intensamente, inclinado seu corpo levemente para a direita pra pegar a garrafa na mesinha de centro, servindo sua senhora mais uma vez.
— Nossos deuses nos abençoaram de muitas formas, coisas que talvez jamais poderemos demonstrar o quanto somos gratos — ele olhou de esguelha para sua senhora, sabendo que suas orações á Yuda-Kal jamais serão suficientes pela bênção que ela o concedeu ao permitir que Alura fosse sua — Mas em determinado momento meu povo fugiu dos seus propósitos.
— Você não pode estar me dizendo que Krypton teve um fim trágico por causa da fúria dos seus deuses, punk — Alura o interrompeu incrédula.
— E não foi. Ouça-me, as coisas não iam bem em Krypton á alguns milénios antes do seu fim, as coisas já não fluíam como deveria. Meu pai tentava convencê-los do quão arriscado estava sendo as escavações em seu solo, estávamos subtraindo mais do que repondo, o ciclo natural de vida não era mais respeitado, os Kryptonianos estavam entrando em colapso e o nosso sol cada dia mais doente já não nos fornecia a energia necessária. Algumas civilizações se rebelaram contra o governo, contra os anciões. Eles queriam uma solução imediata.
— Eu não entendo — ela disse tensa, como se a cada detalhe que o herói lhe dava fosse uma palavra chave para que imagens assombrosas de Krypton em decadência invadisse a sua cabeça — Como o seu povo podem ter sido tão tolos? Eles eram reis da ciência, Clark. Reis da engenharia, da história, anos luz mais evoluídos do que nós jamais seremos. Porque se negaram a ver o que estava bem a frente? O seu pai não tentou convencê-los? Ele não tinha uma posição respeitada entre os seus?
Suas perguntas veio baixas, suas sobrancelhas franzidas e sua olhos perdidos. Ela realmente estava chateada com o fim de Krypton, principalmente por ter sido por motivos tão bobos.
— Tinha, sim. E por esse mesmo motivo ele não fora açoitado em praça pública — ela ergueu uma sobrancelha, sua expressão descrente — Meus pais eram respeitados entre nosso povo, eles ocupavam lugares de grande importância entre os nossos, mas com o passar dos séculos… eu não sei, nem ele mesmo fora capaz de me responder. Nosso povo não o escutou, o governo atual achou que ele queria causar um alarde desnecessário, pânico em massa. Alguns o acusaram de rebeldia. Se não fosse o Conselho dos Anciões e seu antigo histórico em batalha ele e minha mãe estariam verdadeiramente encrencados.
— Isso é revoltante! Pura merda do governo, como sempre. Seu pai não apresentou dados científicos?
— Todos possíveis, lua. Ele era um homem honrado, um guerreiro, os registos quais li falam que ele e o meu tio eram os melhores da linhagem El tanto em campo de batalha quanto num laboratório. Mas a sociedade Kryptoniana começava a ruir, as coisas não fluíam como deveriam. Então, quando perceberam que suas palavras de nada valiam, meu pai e o meu tio fizeram uma aliança em prol de construir a nave que um dia me traria a terra.
— Eles premeditaram a sua partida — ela concluiu seu raciocínio, sua voz surpresa, talvez até mesmo maravilhada. Sempre soube, com base nas outras famílias, o quanto outros pais e mães se sacrificavam em prol dos seus filhos, mas o que Jor-El e Lara Van-El fizeram por Kal-El fora o ápice do amor. Ao irem contra todo o seu governo para gera-lo, ao construírem uma única nave para afastá-lo da decadência de Krypton — mesmo podendo se salvarem, mas optando por encerrar de vez a geração fracassada do seu planeta -, ao abrir mão da convivência com seu único filho em prol do seu melhor.
Alura não soube explicar o quão admirada estava por Jor-El e Lara Van-El. Nobre cientista, nobre historiadora, e por fim, nobres guerreiros. Clark sorriu tristemente para sua amada, seus olhos nublados pelo carinho aos seus pais que cuidavam do seu ser antes mesmo que ele estivesse no ventre da sua mãe.
— Minha vinda ao mundo fora conturbada. O fato da minha mãe me gerar era considerado um crime grande, um ato de conspiração ao governo, um desafio aos anciões.
— Acho que em determinado momento os Kryptonianos perderam a essência da própria existência, não é? — ela perguntou suavemente, seu coração inchando com sentimentos de lamentos por Clark pela vida que ele jamais viveria, por pais que jamais estariam verdadeiramente presentes em sua vida. Ele acenou afirmativo.
— Quando o conhecimento ultrapassou a humanidade, quando o equilíbrio natural foram aos poucos sendo enterrados sob a ganância e ignorância, ali, nas pequenas decisões, Krypton ruiu. E teve o seu fim, de forma lamentável e trágica.
— E muito idiota, convenhamos — ela balançou a cabeça negativamente, a suavidade da sua voz sendo aos poucos temperada por suas chateações — Vamos lá, um planeta inteiro ser condenado a autodestruição por sua população extremamente rica em conhecimento e poder é patético. É tão revoltante, tão…
— Triste. — ele concluiu, o aceno cabisbaixo da sua prometida quase atraindo seu corpo ao dela, querendo conforta-la, firmá-la em seu abraço e garantir que tudo ficaria bem, que ele cuidaria dela, garantir que os erros tolos do seu povo não se repetiria.
Alura bebeu alguns goles generosos do seu vinho, tentando engolir o bolo estranho que se firmou em sua garganta, impedir que a ardência nos seus olhos transbordasse por seu rosto. Mesmo ela em toda a sua gloria sob seu manto de espinhos não negaria o quanto a trágica história de Krypton a abalou. Seus pensamentos a levaram para mares desconhecidos, uma mistura de angústia e revolta por algo que não deveria afetá-la em tamanha proporção. Perguntou-se, então, se os seus sentimentos de angustia eram realmente seus ou apenas Clark transmitindo suas próprias dores para ela involuntariamente, a ideia se dissipando quando sua mente agiu rápido — de uma forma qual não estava acostumada, afinal, nunca fora uma pessoa de mente afiada — e ela soube que, de alguma forma, não era a melancolia de Clark, o sabor amargo da revolta não era inocente igual ao do honesto homem do campo. Era sua própria raiva. A sentia como a sua, vibrava como a sua, queimava como a sua, rugia como a sua. Era sua empatia tola dando as caras novamente, era seu sofrimento pelo os que já se foram.
E Clark a sentiu também.
Não era frequente que as avalanches emocionais de Alura Murray fosse transmitido para ele, não de forma completa pelo menos, apenas centelhas daquilo que a afligia — o por quê ele ainda não era capaz de compreender. Mas sentir os sentimentos completos e verdadeiros da sua senhora num momento de angustia fora uma agradável — embora num momento de lamento — surpresa. Ele sabia perfeitamente o que aquele ato involuntário significava: Sua alma chamava por ele, sua alma precisava dele, precisava que arrancasse o sentimento escuro da sua senhora, que a acalentasse, que pusesse conforto onde estava sendo contaminado por sentimentos ruins. Como um colo, um cafuné, ou simplesmente um beijo que a tiraria do foco da realidade qual a atormentava. Ele sorriu docemente, sua grande mão agindo antes que sua mente ao se dirigir ao pequeno rosto macio da sua garota, firmando seus grandes dedos em sua bochecha macia enquanto sua palma apoiava seu queixo delicado. Alura o olhou surpresa, repentinamente arrancada das suas revoltas.
E embora seus toques fossem gentis e seus sentimentos profundos, sua voz soou séria. Ele não permitira que sua senhora chafurdassem em negatividade por seu falecido planeta, havia compreendido naquela tarde que a mesma sentia muito mais do que demonstrava e não o agradava a ideia da mesma tendo pensamentos incómodos quais ela nunca revelaria. Era uma Murray, afinal.
— Eu não quero vê-la triste por meu planeta, lua. Eles viveram suas vidas, fizeram suas escolhas e se foram com base nelas. Acabou, é passado.
Ela abriu os lábios para confrontá-lo perante sua frieza ao assunto, rebatê-lo, pois mesmo que ele já tivesse se acostumado ao fato de Krypton ter sido extinto ela não se via capaz, não em relação a isso, não quando a frustração da tolice humana ultrapassava planetas os condenando ao fim independente dos seus intelectos. Suas convicções, claro, morrendo como um balde d'água sobre uma chama ao sentir a almofada macia do polegar áspero do herói acariciar seu lábio inferior, o movimento dócil contrastando com a firmeza que suas mãos exalavam. Ela não saberia dizer se emudeceu, que sua boca secou e que seu coração acelerou pelo pedido em gestos para que ela se calasse ou pela surpresa de tê-lo tão próximo, tão íntimo, de forma que pouquíssimos se atreveram e saíram ilesos. De uma forma que não trouxe sua ira, mas sim águas rasas sob a borda dos seus olhos.
De alguma forma rachando seu manto e deixando-a frágil aos seus cuidados. Como fazemos quando confiamos em alguém, mesmo que involuntariamente.
— C-Clark...!
— Eu sei que é trágico, sim, mas já aconteceu. Não estou lhe contando essas coisas para que se entristeça, eu não quero ser o causador de tal sentimento logo para você — "…a minha senhora, quem devo minha alma, minha vida e devoção somente para fazê-la feliz" o El em sua mente completou, quase o tirando do foco. Alisando as maçãs rosadas da sua senhora ele completou — Lhe prometi somente a verdade e a darei, mas somente até o ponto em que não á magoe. Caso contrário não continuarei, e não voltaremos a falar sobre Krypton de novo.
Alura ofegou, o estado de torpor relaxante qual o herói a induziu sumindo quando sua repentina ira ás suas palavras — inesperadamente de comando, embora recitadas de forma suave — surgiu, quase a afastando do herói e da mágica sensação da sua mão contra sua face.
— Você prometeu! — ela acusou, sua voz levemente nervosa — Não seja um idiota, Clark. Você prometeu! As três condições, lembra?
— Eu não irei prosseguir com algo que está a deixando triste, Alura.
— Eu não estou triste, cacete! Estou com raiva! — ela respirou fundo, tentando achar algum fio de controle — Muita raiva, droga.
Ela desviou seus olhos caramelos dos dele, seu lábio inferior moendo nervosamente entre os dentes. Os olhos de Clark se tornaram repentinamente macios, seu peito inchando com algo pesado, uma mistura do amor que sentia pela sua senhora da própria dor que ela ostentava pelo seu planeta. Soava como uma caixinha de música de melodia triste.
— Por que, amor? — ele perguntou baixo — Se abra para mim, eu quero ouvi-la.
O apelido carinhoso escapou por reflexo, a essência apaixonada, sua devoção a ela, lambendo cada sílaba. Ele amou chamá-la assim. Alura não percebeu, sua revolta maior que o clima que se formava a sua volta.
— Como… como eles puderam, Clark? Seu povo tinha tudo! Conhecimento, poder, cultura, um bom planeta. Como eles puderam se permitirem cair? Por motivos tão tolos, tão… Patéticos.
Ela suspirou exasperada, a nuvem da indignação não a permitindo sentir o carinho afetuoso da sua alma gémea contra seu rosto.
— O que você realmente teme, querida? — sua pergunta veio quando Alura passou segundos encarando um ponto qualquer a sua frente, suas sobrancelhas franzidas de raiva. O vinco em sua testa o dizia que havia uma preocupação real ali, algo além da história do seu planeta. Ele percebeu naquele instante que não gostou além da conta de vê-la aflita.
— Eu… — ela balançou a cabeça negativamente enquanto piscava voltando á realidade, seu rosto fugindo das suas mãos antes do que ele pretendia permitir, seu corpo doendo pela perda — Nada, não é nada.
— Alura... — seu tom soou ameno, embora o pedido mudo para que ela continuasse estivesse escondido nas entrelinhas. Ela se recusou a olhá-lo nos olhos.
— É algo bobo, Kent. Esqueça.
Suas mãos grandes cobriu a sua pequena que repousava em suas próprias pernas, seu corpo incapaz de se manter longe dela. Ele sentiu as texturas dos seus dedos finos até conseguir sua atenção novamente, falando antes que ela tivesse a chance de recuar dos seus carinhos.
— Eu preciso ouvi-la, preciso saber o que a incomoda para que eu possa faze-lo sumir. Fale comigo, querida. — ele pediu num sussurro, seus olhos intensos fixos nos dela a implorando por confiança. E de alguma forma aquilo fora o suficiente para que ela cedesse, num suspiro contando suas preocupações.
— O seu povo tinha tudo, Clark. — ela começou numa voz baixa — Eram tudo o que não somos, o que almejamos. Absolutamente tudo estava á favor da sua raça, a favor da eterna existência de Krypton. Mas ele caiu, virou poeira, inexistente, um vácuo no espaço. Por motivos torpes. Se Krypton caiu... Se o seu povo pereceu pela ignorância… o que…
Clark acariciou sua mão numa massagem reconfortante, a incentivando a falar.
— …então o que será de nós? – sua confissão fora silenciosa, quase muda, quase vazia. Clark repentinamente emudeceu, pego desprevenido perante sua íntima confissão do que a atormentava. O desnorteou. E antes que ele pudesse articular algo a ser falado ela continuou, o vazio silencioso da sua voz tocando sua alma — Olhe para nós, Clark. Olhe para minha a raça, para o meu povo que de nada sabem, trovejando contra os mais fracos, travando guerras por mínimas misérias. Somos tão patéticos em comparação a Krypton, seríamos adolescentes rebeldes se fôssemos postos ao lado do seu povo, mas se mesmo Krypton ruiu por motivos fúteis… o que será de nós?
— Alura... – ele tentou tirá-la do frenesi de angústia qual ela mesma se pôs, cada palavra dita por sua prometida criando uma ponte direita para o seu peito, o seu coração, o alfinetando com suas preocupações. O El em si remexia como uma besta recém desperta, lutando e arranhando para confortar sua senhora.
— Como… como vamos nos defender do fim?
Aos poucos, como um fantasma, ele viu Alura Murray sumir, sua carapaça se tornando opaca até não a cobri-la mais.
E ele a viu.
A fragilidade do estado emocional da sua prometida permitiu que sua aspereza natural se fosse deixando uma frágil e preocupada Alura, sua alma gémea, a mercê dos seus cuidados ao mesmo tempo em que não estava. Seu peito doeu uma batida dolorosa, seu maxilar trincando nervosamente. Alura estava frágil, seus olhos temerosos cheios de traumas de coisas quais ele não pôde a livrar, sua voz não mais alta que um sussurro. Ele a queria. Tanto, tanto que machucava. Queria sua confiança, queria ser seu porto seguro, queria ser o único a vê-la vacilar em sua carapaça porque ele queria ser o único a reergue-la, ser o pilar qual ela se sustentaria para enfim voltar a ser a Murray de sempre.
Mas vê-la em tal estado de fragilidade, de angustia, sem poder pô-la em seu colo e mima-la com seus carinhos, com seus beijos, com promessas ao pé do seu ouvido de que tudo ficaria bem e que ele a livraria de tudo e a todos que a fizessem mal era demais. Ele não fora preparado para estar tão perto da sua alma gémea com uma blindagem pesada o impedindo de cuida-la e amá-la como sua senhora. E Kal-El, a parte orgulhosamente Kryptoniana do seu ser, quase pôs tudo a perder. Kal-El gritou em seu subconsciente que ele estava negligenciando sua senhora, que ele estava permitindo o seu sofrimento, que ele deveria abraça-la e nunca a deixar ir. Kal-El queria, exigia que a parte humana e cheia de princípios terráqueos fosse embora e deixasse que ele assumisse, porque apenas ele poderia fazer sua senhora feliz sem todas aquelas restrições terráqueas que o impedia de avançar.
Kal-El não entendia, se recusava a aceitar que ele, a alma gémea de Alura, seu destinado por direito, seu ataque e seu escudo, seu porto seguro, seu amigo, seu amante, seu senhor, deveria manter distancia como um homem qualquer em sua vida, como um mortal qualquer. Kal-El estava revoltado, seu manto tremeluzia ás suas costas tão furiosamente quanto seus pensamentos. E por um momento, um dos raros, Clark, o terráqueo e bondoso homem, concordou plenamente com o orgulhoso guerreiro de Krypton; sua parte dominante e autoritária. Sua alma chorava, a marca ainda inexistente em seu próprio peito repuxando como um fio, o levando para perto da sua senhora. Mas ele não cederia, ele não poderia, suas mãos atadas ás suas costas perante seu sofrimento. Ele não poderia pôr tudo a perder e fazer a lenta conquista para o coração da sua amada virar um jogo de gato e rato, em que ele desejaria seu amor e afeto possessivo acima das necessidades da sua senhora de uma única vez porque sabia que, ela querendo ou não, iria ceder. Nesse ponto Clark batia de frente com Kal-El, mesmo que ambos fossem reflexo do mesmo homem ele sabia que ambos eram personalidades distintas que o fazia um só. Ambos carentes, ambos apaixonados, amando, ansiando e implorando pelos toques da sua senhora, pelos seus cuidados, pelo seu corpo macio, pelo seu amor e devoção, pela eternidade que os pertencia. Mas Clark sabia o quão delicada a situação se apresentou para Alura e já estava bem consciente da sua personalidade. Ao contrário de Kal-El, o inegavelmente carente e apaixonado guerreiro, Clark, o inegável gentil e paciente repórter, sabia que ainda não era a hora. Que qualquer movimento errado resultaria no corpo entregue de Alura, mas não sua total confiança.
E ele jamais desejaria isso.
Então, engolindo com muita dificuldade os sentimentos que brigavam numa batalha sangrenta contra seu peito e pedindo a Yuda Kal que sua prometida não pudesse senti-los, ele a respondeu, seu tom não conseguindo camuflar suas batalhas internas soando grave, doloroso, como se uma bola de sangue lhe subisse a garganta.
— Você disse algo mais cedo sobre isso, lembra-se? Sobre eu não dever nada aos terráqueos.
Sua voz soou grave, as torrentes emocionais sua senhora os esmagando de diversas formas. Alura piscou várias vezes, seu corpo voltando ao presente momento, seu cenho franzido em direção á Clark não conseguindo entender sua linha de raciocínio. Ele balançou a cabeça levemente tentando ordenar seus pensamentos, deixá-los coerentes, o guerreiro El em si ainda lutando contra suas restrições terráqueos para chegar á sua Alura.
— Mais cedo, na praça... Você mencionou o quanto eu era necessário e em como eu deveria me sentir solitário num planeta que talvez ninguém me compreenda. E quando você falou eu a senti, uma pequena revolta porque alguns não seriam gratos. Eu agora sei que, de alguma forma, alguma parte sua se chateia com a ideia do seu povo me receber de forma rude.
Alura sentiu suas bochechas arderem com a inusitada exposição, odiando o seu corpo por alguns segundos pela traição, por confidenciar uma parte sua ao herói qual ele não deveria saber.
— E o que... O que isso tem a ver com o que eu lhe disse?
— Você as vê as minhas mãos, Alura? – suas mãos, ainda presa as dele, foram erguidas até que estivessem entrelaçadas pouco abaixo do seu rosto.
— O que? – ela franziu o cenho confusa, interiormente se perguntando o que suas enormes mãos tinham a ver com o assunto.
— Você as vê? As sente? – ele insistiu, seus olhos se conectando aos dela.
— Claro que sim! Eu não estou entendendo, Kent...
— Essas são as mãos do homem que aniquilou com a última chance de Krypton. Quando matei Zod e a nave-mãe eu destruí á chance de extraírem a matéria prima escondida em meu corpo que faria o sangue Kryptoniano correr por novas veias, eu destruí as chances do meu mundo reviver.
— Você não... – ela ofegou, a informação á pegando desprevenida – Você não pode carregar essa culpa, Clark.
— Eu a carrego. Mas de consciência limpa – ele disse firme, forte, a palavra de um homem qual podia confiar, seus olhos infinitamente azuis prendendo os seus com mais força – E faria de novo e de novo, quantas vezes fosse necessário. Eu sacrifiquei as chances do meu planeta pelo o seu e não me arrependo.
— Clark...
— Krypton teve a sua chance e se foi, a terra é a minha morada agora. Tudo o que mais amo e zelo está aqui e o protegerei enquanto vida eu tiver com cada fibra do meu ser. Com essas mãos, Alura, eu os defenderei e dedicarei cada essência da minha força á isso – ele decretou – Se depender de mim os seus olhos bonitos jamais verão o fim, eu não permitirei. É uma promessa.
Alura ofegou novamente, seus olhos cobertos de lágrimas não derramadas, uma emoção borbulhante que dançava em seu peito e agitava á sua marca. Era mais do que admiração e ela tinha medo de nomear o sentimento. Ela quase sentiu a redenção, seus braços repentinamente frios querendo abraça-lo com algo mais do que gratidão. Ela estava desorientada.
— Eu... Nós... Não merecemos o seu sacrifício. Nós não somos... Dignos. Você merece mais do que o fardo de nos carregar, Clark.
— Talvez – ele sussurrou, suas mãos se abaixando lentamente, seus olhares ainda fixos. A carapaça da sua senhora ainda não tinha se reerguido, ele sabia que não. Sua Alura costumeira jamais admitiria fraqueza e compaixão, então não perderia esse momento por nada, não piscaria ao menos que ela desviasse o seu olhar. E então ele a olharia mais, porque ele nunca se cansaria de olhar para ela – Talvez esteja certa e talvez algumas coisas me magoe, mas o meu bem mais precioso está aqui, Alura. Algo que eu amo com mais devoção que aos meus deuses, algo que eu morreria para proteger. E enquanto essa pessoa respirar, eu lutarei. E lutarei mais. Por ela. Somente por ela e por mais ninguém.
— Deve... ser um fardo pra essa pessoa carregar esse planeta patético inteiro nas costas, então – ela respondeu hipnotizada, sua voz não passando de um sussurro ofegante. Ela gritava em sua mente que ele estava falando da sua mãe, só podia ser da senhora Martha Kent, quem mais teria tanto poder sobre o homem mais forte do mundo? Por quem mais ele teria tanto amor e devoção? Mas a sua marca... A sua marca quase se transformou numa forma física, se deitando e se aconchegando na suavidade das palavras do homem a sua frente. Quase em adoração, mortificando o seu corpo. A sua marca dizia que aquelas palavras não eram pra senhora Kent, mas também não disse pra quem. Ela estava confusa.
— Eu não sei. Talvez ela me responda depois – ele sorriu carinhosamente, com tanto afeto que sua áurea branca quase á cegou. Alura não estava ciente, não se sentia em seu próprio corpo e não sabia o que estava acontecendo, mas nunca, em toda a sua vida, ela se sentiu tão segura.
Tão em paz.
Antes que ela percebesse ela estava próxima demais, o cheiro da respiração de Clark se mesclando com a sua. A bolha qual ele a induziu se quebrou com sua proximidade, percebendo que ela quem se aproximava. Ela recuou, tirou suas mãos das do herói e sentou-se no extremo do sofá, levemente ofegante, piscando rapidamente tentando se firmar á realidade ao seu redor. Clark sorria ternamente, pacientemente, ignorando a fera Kryptoniana que chorava com garras pra fora e cabeça baixa em derrota contra as portas do seu peito. Como se estivesse muito perto de algo qual ansiava com a vida e aquilo fora repentinamente tirado das suas vistas. Seu lado El era uma fera ferida de choro contido, mas Clark Kent sentia-se em paz. Ele fez o certo, Alura estava sendo guiada pela ligação e não por ela mesma, afinal. Mas era um bom passo, isso significava que ela sentiu-se atraída á ele também.
O deu esperança.
Ele se levantou suavemente vendo sua prometida de rosto corado não olha-lo nós olhos, e embora ele estivesse preocupado ele a daria o seu tempo para estudar e absorver suas palavras sinceras de carinho e paixão. Ele foi á cozinha, abriu a geladeira e pegou uma travessa de vidro com tampa.
— Tenho certeza que fast-food, biscoitos alienígenas e vinho não são o suficientes pra acabar com a sua fome terráquea. Á minha com certeza não sacia com isso. Você gosta de estrogonofe, querida?
Alura piscou mais algumas vezes, sua voz rouca presa na garganta. Ela ainda não tinha se orientado.
— Querida? – ele a chamou novamente, preocupado, largando a travessa e dando dois passos em direção ao sofá quando ela falou novamente.
— Tenho certeza que um caminhão de comida não seria o suficiente pra você, seu falso atleta – ela tentou sorrir, a tensão ainda em seus poros com o resultado final das suas perguntas internas: ela quase o beijou. Alura quase o beijou. Ele não avançou, não se insinuou, não estava sequer flertando, mas ela quase o beijou. E isso era surreal demais para dizer em voz alta, então ela nunca o faria.
Ela ouviu Clark rir da cozinha.
— Eu sou um cara grande que pratica mais atividades físicas que qualquer homem no mundo, então a comida não só é meu combustível como também minha melhor amiga.
Ela riu, o som descrente que fugiu dos seus lábios á fazendo se sentir mais real.
— Diga o que quiser para se sentir melhor, Kent. Vamos fingir que a gula não seja o seu pecado.
— E não é! – ele protestou risonho – Você não se importa se for requentado, não é? Eu fiz hoje, embora.
Alura franziu o cenho genuinamente confusa, algo clicando na sua cabeça, e então sorriu sarcástica. Clark realmente não sabia da blindagem do seu estômago pelo seu histórico terrível de lanches com procedências questionáveis.
— O que acha que eu sou? Uma senhora fina? – ela respondeu irônica, seu corpo ainda tentando voltar a seu humor negro costumeiro.
— E não é? – ele devolveu a ironia enquanto ria, sua resposta soando muito mais leve do que soaria se ela tivesse dito.
Então ela percebeu que Clark era um oposto muito extremo da sua própria natureza. Ele era gentil, doce e protetor. Seu caráter era inquestionável e sua força de vontade superava nações, depois dos minutos atrás ela percebeu que ele quase beirava á uma divindade; depois de hoje ela não se surpreendia e nem questionaria mais a estátua no meio do centro de Metrópolis que seus governadores e população queriam erguer em sua homenagem. Clark era força, Clark era um símbolo.
E Clark a tratava como se ela fosse de porcelana, ela percebeu. Logo ela quem tão fora acusada de grossa, egoísta e rude pela maioria que as cercavam durante toda a sua vida. E ela não iria mentir; realmente era tudo aquilo, talvez mais. E não se incomodava. Mas sob os seus olhos azuis ela quase se sentia diferente, como se sua personalidade de merda não fosse o fim do mundo que todos pintavam. Ela não gostava de se sentir assim, uma parte de si qual havia se aceitando desde a tenra idade fazendo cara feia para os seus muros bambos e manto de espinhos quebrados. Mas a sua marca... Marca qual ostentava o símbolo do semideus, marca qual ligou sua vida a ele inexplicavelmente, marca qual ela não entendia e nem sabia se queria, a maldita marca, estava feliz e aconchegante. Como uma tarde de leitura aos pés de uma lareira num dia frio. Como se a redenção não fosse tão ruim assim.
A sua marca pulsava como se aquele fosse o seu lugar; sob os olhos azuis do semideus. Ela nunca sentiu tanto medo dos seus sentimentos na vida.
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