You Rock My World
17 XVII
Notas iniciais

Alura não se lembrava da última vez em que esteve numa situação tão constrangedora como a que estava agora. Claro que já fora chamada pra sair por garotos antes, mas em nenhuma daquelas situações havia se passado pela a sua cabeça que poderia ser um encontro.
— Não é um encontro. Não é um maldito encontro! — murmurava para si mesma forçando as palavras a descer pela garganta.
Havia subestimado Clark Kent, admitia. Não que fosse muito inteligente subestimar um homem com dupla identidade cujo a segunda voa pelos céus, puxa navios com os braços e aterrissa aviões sobre os ombros, mas Alura nunca afirmou ser um poço de inteligência, sua falta de fé nas pessoas às vezes lhe traziam surpresas que quase nunca eram boas, exatamente como agora. Ela jamais imaginaria que o homem com seu jeito simples e sua personalidade maleável fosse invadir o seu colégio atrás da sua pessoa, seguida de uma inesperada — e constrangedora, tinha que dizer — demonstração de afeto público. Tinha certeza que seria a fofoca do ano no dia seguinte, afinal, ela nunca antes aparecera acompanhada de alguém senão a própria Rosaly.
Mas o fato é que ela estava ferrada, totalmente ferrada. Não é uma situação qual ela tenha aprendido a lidar com o tempo, não estava acostumada com pessoas indo atrás de si mesmo depois de claramente recusa-los e rebaixa-los, ainda mais a ele com sua aparência chamativa e seu futuro promissor numa grande rede de jornais, não estava acostumada a ter atenção de ninguém, especialmente alguém "decente". E agora ambos estavam naquela situação embaraçosa. Ela gostaria de odiá-lo o tanto que achava que ele merecia, mas uma parte de si se negava, porque uma parte de si estava impressionada com sua audácia. Ele não parecia ser o tipo de rapaz que contestava as decisões que eram impostas a ele, como ela claramente havia decidido que não queria vê-lo nunca mais. Mas então a sua mente se corrigiu com um grito exagerado 'Ele não é um rapaz, sua tola. É um homem feito!'.
— Eu sei — lamentou para si mesma em derrota. Ela só queria que essa situação fosse adiada por no mínimo um ano. Ou até que ambos esquecessem a existência um do outro. Infelizmente o seu azar nunca tirava férias, ela já deveria prever que os seus desejos nunca seriam respeitados completamente.
Estavam numa praça agora, seis quadras depois do colégio qual estudava. Depois de ambos discutirem — ela discutiu — sobre aonde a maldita conversa deveria acontecer, ambos entraram em consenso sobre aquele local público e arejado. Ela estava bem com isso na mesma moeda em que se sentia extremamente desconfortável. Ter pessoas perambulando de baixo a cima a olhando com cara de peixe morto não era bem a sua sua definição de conforto, mas não pôde deixar de pensar que ao menos em um lugar com testemunhas nada demais poderia acontecer com sua vida miserável.
Nada tirava da sua cabeça que Superman a cortaria em pedaços miúdos pela edição de merda que fizera sobre ele.
— Boa tarde, moça bonita. Posso te conhecer? — uma voz masculina a tirou das suas divagações. Alura enrugou as narinas em desagrado pela interrupção de suas lamúrias e tirando a unha do dedão que roía dos lábios ela olhou a frente com chateação, do outro lado da pequena mesa redonda qual estava ela viu um loiro esbelto e sorridente trajando típicas roupas de corrida a avaliando com interesse.
— E ainda mais essa agora — respondeu desgostosa em meio a um suspiro frustrado.
O loiro fez uma careta engraçada, tomou fôlego e antes que dissesse algo uma voz grave os interrompeu.
— Ela está acompanhada — ouviu a sua direita, um Clark não muito sorridente encarava o loiro que jogou as mãos pra cima em rendição e saiu resmungando um "Gente maluca", voltando a sua corrida. Clark acompanhou o loiro com o olhar até o mesmo virar uma esquina, sentou-se a sua frente a entregando uma bandeja com batatas fritas, hambúrguer e refrigerante e sorriu docemente como se nada tivesse acontecido. — Você sempre chama tanta atenção assim? — perguntou brincalhão.
— Só a dos babacas, obviamente — respondeu chateada — E você sempre intimida as pessoas assim? Não parecia ser do tipo brigão, punk.
— Só quando necessário — ele sorriu se desculpando — E que tipo de homem eu pareço pra você, senhorita Murray?
— Um perseguidor incansável, com certeza! — respondeu prontamente. Clark abaixou os olhos levemente constrangido, um sorriso sem graça no canto da boca.
— Eu realmente sinto muito que tenha essa imagem de mim, Alura. Não era o que eu pretendia passar.
— Corta essa, Kent. Não pretendia o cacete. Você invadiu o meu colégio!
— 'Invadir' é um pouco exagerado, não acha? — ele riu com graça.
— Não muda o fato de que você é um perseguidor — ela cruzou os braços o olhando com acusação. Clark suspirou, sua voz adquirindo um tom contrariado.
— Em minha defesa eu devo dizer que a esperei pacientemente por bastante tempo. E esperaria mais se você ao menos atendesse as minhas ligações, Lua.
Geralmente ela não era uma pessoa instável. Já estava acostumada com vários sentimentos nem sempre bons perambular os seus pensamentos em seus piores momentos, e em seu estado normal raramente sua apatia e indiferença era abalada. Mas Alura estava por um fio com sua vida e o rumo que ela tomou. Nos últimos meses sentia mais do que deveria, brigara mais do que gostaria e perdeu a linha por várias vezes por motivos aparentemente irrelevantes.
Exatamente como agora.
Um gatilho fora acionado dentro dela perante às palavras dele. Alura cresceu em fúria pensando em como ele não tinha o direito de exigir nada dela, até porque eles não se conheciam, até porque ela havia deixado claro desde o começo que não queria sua aproximação. Pensou naquele instante no quanto o alien estava abusando da sua boa vontade, ele não tinha o direito de exigir ou impor nada a ela.
— Murray pra você! — grunhiu ríspida — E você sabe que está soando ridículo, não é? Eu não tenho obrigação nenhuma em te ouvir ou te aturar. Você quem caiu de paraquedas na minha vida!
— Você também sabe que há algo importante para conversarmos, Alura. Não negue isso — ele soou sério, surpreso com sua inesperada rispidez e chateado com o rumo que a conversa estava tomando — Eu não queria que tudo acontecesse dessa forma, mas as suas recusas em me ver ou me escutar praticamente me forçaram a intima-la.
— Ah, perdoe-me pela grosseria, senhor fodido-Kent — sorriu irônica — Mas não é todo o dia da minha vida que eu vejo um completo estranho querendo arrancar á força a minha paz!
— Não seríamos estranhos se tivesse facilitado as coisas desde o começo, sempre soube que havia algo que precisávamos esclarecer — Clark soou grave — Sua negação pediu por essa situação.
— Não me lembro de ter pedido um maldito alienígena perseguindo o meu rabo! — cuspiu agressivamente, seus olhos exalando raiva, sua respiração levemente alterada, suas bochechas coradas.
Clark emudeceu perante o assunto abordado de forma tão direta; aquele era o maldito elefante na sala, era o X da questão. Ao cair em si, internamente se auto-flagelou por sua pequena perda de controle uma vez que ela estava com a razão, afinal, ele realmente não tinha direito nenhum de se chatear com alguém como Alura, ela sempre fora daquele jeito no fim das contas, e fora ele quem apareceu como um tufão em sua vida bagunçando as suas certezas e fantasiando sobre a ligação que os unia, esperando que ela se jogasse em seus braços pedindo pelo os seus carinhos. Ele quem a envolveu em assuntos do seu falecido planeta e por isso ele jamais poderia exigir afeto ou compreensão quando ela estava numa situação totalmente fora do seu normal, totalmente fora do seu controle, totalmente fora das suas expectativas.
Ele suspirou pesadamente sentindo seu peito doer, queimar. Uma mistura de sentimentos negativos que sabia que não vinha só de si mesmo, Alura estava um caco de conflitos, surpreendentemente ele sentia alguns deles: Medo, raiva, negação, indignação. Mas também haviam os bonitos, escassos, claro, mas ainda sim havia aqueles sentimentos coloridos que aquecia o seu peito e o fazia ter fé. Ele não poderia nomeá-los ainda, os sentimentos eram tão confusos quanto sua dona, mas sabia que eram positivos, sabia que eram uma centelha de algo que poderia se tornar grande.
Sentimentos quais só começaram a brotar com a distância que ela impôs.
Ele não poderia ficar chateado por ela ter pedido o seu longo, longo tempo, concluiu. Não quando ela passava pelo o que passava, não quando fora a distância que a fez criar certa afeição por ele. Ela tinha razão, eles não se conheciam, ele não poderia julga-la quando sequer haviam sido apresentados adequadamente numa situação corriqueira da vida, ele não poderia julga-la porque, infelizmente, a primeira vez em que se viram ela estava machucada por um ser de outro planeta qual a achou antes mesmo dele sequer pensar na possibilidade de haver alguém destinada a si, a primeira vez que se viram ele estava ceifando a vida de um homem malévolo com a força dos seus próprios braços. Irreal demais para alguém tão firme em suas convicções quanto já percebeu que a Murray é, irreal demais até para ele próprio que viveu desde a infância tendo que lidar com seus poderosos e únicos dons. Inesperadamente uma lembrança de semanas atrás flutuou sobre sua cabeça numa conversa que ele teve com Rosaly, desesperado por sua prometida não atender suas ligações. Ela disse:
— Alura é como um animal selvagem, Clark. Se apreciar de longe ela não irá machuca-lo, mas se invadir o seu espaço pessoal, se ela se sentir encurralada, ela o afastará e usará todas as armas que tem para isso. A defesa de Alura é sua ignorância. Se quer mesmo algo com minha amiga, é melhor aprender a lidar com isso.
A lembrança foi como uma golfada de ar fresco depois de horas num quarto abafado, assim como os seus pensamentos de cabeça fria sobre a situação da sua prometida. Ele não poderia exigir comportamentos românticos da sua bela senhora se a mesma não estava dedicando sua rispidez somente a ele, mas sim a todos que a rodeavam. Ele não poderia exigir comportamentos apaixonados de uma pessoa que mal o conhecia, que ainda não compreendia a ligação, que tem uma personalidade tão fria e fechada como sua Alura. Aquela era a sua natureza desde sempre, aquela era a pessoa que ela sempre foi e era a sua obrigação aceitar e contornar, aprender a lidar com isso uma vez que já a ama perdidamente. Um belo animal raro, de fato. 'Admire-a, mas a distancia' deveria ter um aviso desse tipo em suas roupas. Clark olhou para a mulher a sua frente com admiração; as suas sobrancelhas negras franzidas de raiva, os seus lábios cheios crispados, o seu nariz arrebitado, as suas bochechas levemente rosadas pelo sol da tarde, os seus longos cabelos negros flutuando contra o vento às suas costas. Clark reprimiu um suspiro apaixonado, seu coração batendo mais rápido, seu estômago numa festa ansiosa. A sua frente estava a mulher mais bonita do mundo, a mulher destinada a ele. Seu dever era ama-la e, com o tempo, fazê-la ama-lo também, como o seu pai e sua mãe. Era aceita-la e ajudá-la se assim fosse necessário.
Ele faria isso.
— Não tem nada a dizer sobre isso, seu maldito? — ele saiu do estado de torpor ao som da sua voz chateada. Ele a olhou com carinho, seus olhos tentando transmitir a profundidade dos seus sentimentos.
— Eu sei que é difícil, Alura — ele soou extremamente tenro, doce, amável. Alura piscou surpresa com a mudança dos ares a sua volta, a bolha de ira se dissipando á Áurea clara e morna do homem a sua frente. Ela abriu a boca para protestar, mas se calou quando ele tomou a palavra novamente — Acredite, eu sei, eu entendo. Eu posso imaginar que para você a nossa situação é terrível, incompreensível, ridículo até. Entendo que fui eu quem apareceu na sua vida e baguncei tudo, entendo que a minha existência signifique insegurança, entendo que a minha insistência a incomode profundamente, entendo que a minha invasão a sua vida seja um redemoinho de confusões e conflitos e entendo a sua raiva. Eu entendo, realmente o faço, acredite em mim.
Ela não esperava ser desarmada antes de guerrear, não esperava emudecer antes mesmo de sequer formular uma resposta. Ela não esperava aquele olhar cheio de pesar e compreensão. Alura engoliu as grosserias quais lutavam para sair sentindo-as rasgar a sua garganta como se fossem granizo, pois algo no tom compreensivo e no olhar bonito qual ele direcionava para si a fazia querer ouvi-lo. Ele falava a verdade, sentia isso na sua marca, e ouvir alguém dizer que entendia as suas grosserias perante a situação a fez se sentir inesperadamente acolhida. Ninguém antes havia feito isso além de Rosaly.
— Sei que pode parecer que fiz de propósito e que tenho cada passo em mente para tornar a sua vida um caos, mas acredite quando eu digo que essa situação me pegou de surpresa também, eu não esperava encontrá-la no meio de uma batalha. Por deus, eu jamais cogitei sequer a possibilidade da sua existência, era algo que eu apenas imaginava — soou pesaroso com as lembranças cruéis para ambos do dia da batalha, sabendo que deveria escolher bem as palavras para não assusta-la totalmente — Entrei nessa situação tão confuso quanto você. Por favor, aceite minhas sinceras desculpas sobre tudo. Eu não quis ser rude, eu não tenho a intenção de te atacar ou incomodar mesmo que seja isso que aparenta. Eu só quero conversar sobre a nossa situação, porque há uma a ser discutida. Por favor.
Alura suspirou audivelmente enquanto desviava os olhos do homem a sua frente, seu peito sendo inundado por sentimentos de conflito, confusão e compreensão. Ela acreditava nele, talvez até o perdoasse, e isso a tirava do direito de gritar e berrar até fazê-lo correr. Algo sobre a tranquilidade desse homem em especial perante as suas explosões a fazia querer se conter drasticamente.
— Com isso você está afirmando que estamos mesmo ligados, não é? Que não é só uma coisinha suja do meu azar? — sua voz saiu derrotada, como se enfim estivesse dando o braço a torcer verdadeiramente. Clark quase sorriu aliviado.
— Estamos — 'Você nem imagina o quanto' completou mentalmente num suspiro cansado — Não é algo que tenha a ver com ter ou não azar. É apenas… destinado.
— Bem — ela suspirou enquanto coçava os olhos com as palmas das mãos, sua voz cansada — Eu continuo não falando com estranhos, Kent.
Clark quase recomeçou o seu discurso desesperado sobre como eles precisavam realmente conversar quando ela o olhou com olhos mornos, sossegados, abertos ao que ele tinha pra falar. Ele sorriu com carinho.
— O que faremos sobre isso, então? — sussurrou bobo, hipnotizado pelas jóias ambares que eram os seus globos oculares o olhando com nada menos que atenção e trégua.
— Me conte sobre você. Vamos nos conhecer. Se no final disso tudo eu não chutar a sua bunda, então poderemos nos ver mais vezes — ela pigarreou claramente incomodada, como se aquilo fosse algo nunca antes usado no seu vocabulário. Estava fazendo muitas coisas quais não faria recentemente. Clark reconheceu o seu esforço e era grato por isso.
— O que quer saber?
— Primeiramente, nada ainda sobre a sua outra… identidade. Ao menos não diretamente — desviou os olhos dele — Preciso me acostumar com o seu eu "humano" antes de cair de vez nessa roubada.
— Sim, claro, como você quiser — respondeu ansioso. Ele concordaria em até mesmo deixa-la chutar sua cara se isso a fizesse ouvi-lo.
— E em segundo lugar, você não saberá nada sobre mim. Lembre-se que é o único quem deve explicações por aqui.
— Eu posso viver com isso — ele sorriu, mas Alura sentiu uma centelha de decepção no peito, um sentimento que não era seu. Apesar de tudo, apesar de compreende-la, ele esperava conhecê-la um pouco mais também.
— Bom. Comece do começo, por favor. A ficha completa, Kent — ela tirou a embalagem do canudo enfim tocando a comida que ele trouxera, abrindo a latinha de refrigerante. Ele fez o mesmo.
— Meu nome terráqueo é Clark Joseph Kent. — Alura ergueu uma sobrancelha em sua direção com a menção "terráqueo", mas não comentou. Sabia que como Superman não era possível excluir coisas que fizeram parte da sua vida inteira, mesmo que ainda fosse bizarro ouvir — Sou jornalista do Planeta Diário e tenho trinta e três anos.
Inesperadamente, Alura se engasgou com o refrigerante qual tomava. Tossindo algumas vezes ela o olhou com olhos acusatórios apontando o canudo em sua direção.
— Você tem trinta e três anos?
— Sim. Isso te incomoda? — perguntou lentamente, inseguro, de alguma forma a conversa com o vigia voltando a sua cabeça.
— Caramba, você é velho — resmungou chateada, mas Clark podia ver uma sombra de um sorriso em seus lábios — Velho e perseguidor. Sua ficha está muito, muito feia, Kent. Torça pra que eu não saia daqui direto pra uma delegacia, tiozão.
Clark rolou os olhos desgostoso e Alura sorriu triunfante com a nova descoberta sobre o que o aborrecia. Definitivamente ela o levaria ao limite com esse assunto dali em diante.
— Posso continuar?
— Os mais velhos primeiro, não é? — ela quase gargalhou ao olhar chateado e o maxilar travado do Super Homem a sua frente.
— Não começa — seu tom era firme, e embora estivesse levemente incomodado, internamente se divertia com o sorriso travesso da sua mulher. Alura ergueu as mãos em rendição — Eu fui adotado por Marta e Jhonatan Kent quando eles acharam a minha nave quebrada no meio de uma plantação de trigo, eu tinha apenas alguns meses de vida. Cresci em Smallville, no Kansas.
Alura escolhera ignorar a parte da "nave" intencionalmente quando voltou a se pronunciar. Ainda não estava pronta pra aquilo.
— Há! Eu sabia que você era um maldito homem do campo! Seu jeito simples e caipira falam por você, não importa quantos anos esteja morando em Metrópolis — comemorou convencida com sua descoberta sobre as origens simplórias do jornalista. Certamente remoera as suas raízes desde que se conheceram.
— Isso seria um problema pra você? Por algum acaso do azar você seria alguma ativista contra homens simples e inocentes do campo? — ela sorriu com sua piada clara, embora ele soasse um pouco inseguro. Uma parte infantil e adolescente dentro da muralha que era sua estrutura corpórea queria ter o melhor de Alura em todos os sentidos, queria impressiona-la.
— E porque seria? — ela franziu o cenho confusa, ainda sorrindo — Não faz diferença nenhuma de onde você é, um homem continua sendo um homem não importa qual parte do mundo venha. E você continua sendo o fodido-Kent de sempre, não importa se é da cidade ou do interior.
Clark sorriu ajeitando os óculos com os dedos. Sua insegurança era boba, claro, mas ele andava em cima de ovos se tratando da sua prometida. E ele decidiu não levar mais os pronomes ofensivos que sua pequena lançava sobre si, de alguma forma já havia percebido e aceitado que a forma de Alura demonstrar afeto ou elogios eram diferentes de qualquer outra mulher que ele havia conhecido, e de alguma forma boba ele estava feliz com suas palavras sem nenhum tom denotando desprezo, na verdade ela sorria discretamente. Era fácil lê-la se não levar as suas palavras como algo direto, se olhar além do que ela permitia que os outros vissem, e se achou idiota novamente por ter se chateado no começo da conversa de ambos.
Ele pigarreou voltando a realidade. O fato de estar na presença da mulher que ama e admira o faria ficar parado a olhando como um adolescente apaixonado por horas se perdesse a linha de raciocínio entre seus pensamentos românticos, e conhecendo Alura ela não gostaria muito de falar com as paredes.
— Eu tive uma infância difícil por conta dos meus poderes — continuou, seu tom mudando levemente para algo mais sério — Eu não sabia controla-los, não havia quem me instruísse, machuquei alguns colegas por causa da minha força, fiz algumas professoras cogitarem chamar a polícia, fui excluído de muitas situações sociais antes de aprender a domar os meus dons. Mudei de muitas escolas primárias na época, o que era um desafio porque Smallville tem pouquíssimas escolas disponíveis e em cidade pequena todos se conhecem, os diretores não queriam lidar comigo e minha fama problemática. Meus pais não sabiam mais o que fazer.
— Eu posso imaginar — ele a olhou com curiosidade perante seu tom sincero — Essa é a situação mais estranha da minha vida, jamais pensei que viveria para presenciar a existência de vidas fora do planeta terra, imagine sentar e conversar com você aqui e agora.
Ela suspirou e o olhou com seus grandes olhos castanhos.
— Por isso imagino que seus pais devem ter passado uma barra para cuidar de você.
— Você está certa — respondeu — Temos uma fazenda. Meu pai sempre esteve muito ocupado com o trabalho no campo para enfrentar diretamente o fato que eu era diferente, tinha uma cabeça dura, não sabia lidar comigo do jeito que minha mãe lidava, apesar de ter sido o melhor pai que eu poderia pedir. Mas minha mãe foi… incrível. Ela me acalmava mesmo quando estava um caos de confusão e tristeza por dentro, me dava colo e me protegia mesmo quando os vizinhos, alunos, professores e todos da pequena cidade me olhavam torto, estranho. Ela foi um bálsamo, ninguém me consolava melhor do que ela.
— Parece adorável — respondeu somente. Ela não teria muito o que falar sobre esse assunto em especial desde que nunca tivera afeto direto paterno, sequer materno. De certa forma, era um assunto que a incomodava.
Clark não percebeu sua leve inquietação, imerso demais em suas próprias lembranças ele continuou.
— E ela é. Mas é uma mulher nascida no campo, do interior, rústica. Algumas coisas penam para entrar em sua cabeça, suas convicções e certezas sobre tudo dificilmente são mudadas. — soou amargurado lembrando-se de como sua convivência com a senhora Kent estava difícil desde o rompimento do seu noivado.
Algumas vezes era quase insuportável às suas tentativas de reconcilia-lo com Lois. Ele não tem a visitado muito desde a última tentativa à uma semana atrás, quando ela o chamou para um jantar em família, o surpreendendo com a presença de Lois em casa.
— Posso opinar? — Alura perguntou contra sua própria vontade. Não era uma pessoa que costumava amenizar situações quais não lhe condiziam, mas algo no tom frustrado e no olhar chateado que o homem a sua frente adquiriu ao falar sobre a quadradisse da sua mãe a fez se sentir compadecida pela desconhecida senhora Martha.
— Á vontade, por favor.
— Você não pode culpa-la. Não é exatamente um defeito — Alura o tirou das suas lembranças ganhando sua total atenção, comendo suas batatas fritas frias, não o olhando nos olhos — Ela já fez muito em adota-lo e cria-lo com todo o carinho e atenção de uma mãe mesmo você sendo quem é; um homem de outro planeta com super poderes. Ela praticamente deu uma vida por você, a sua própria, pra cria-lo e educa-lo acima das suas peculiaridades, enfrentando tudo para defende-lo como você mesmo afirmou. Se me permite dizer eu acho que é ai onde o limite dela está, ela não pode aturar muito mais do que isso. Ela é uma mulher rústica, como você mesmo disse, afinal. Algumas coisas da sua criação fechada tem que permanecer com ela independente da sua situação.
Clark parou. Por um momento o seu queixo quase caiu, ele realmente teve que controlar sua musculatura facial para que algo assim não acontecesse. Alura estava prestando atenção em sua história, e melhor; estava tomando o partido da sua mãe. Ele realmente não esperava por isso, uma onda de sentimentos bons passaram pelos seus olhos ao respondê-la.
— Eu nunca pensei por esse lado antes, sabia? — respondeu sincero a olhando com admiração — Obrigado, Alura. Você me abriu os olhos para outra perspectiva — ela remexeu desconfortável, pigarreou e continuou.
— E o seu pai? — perguntou. Se chateava ao saber que começava a ficar verdadeiramente curiosa sobre o homem a sua frente e estava realmente gostando de conhecer mais sobre si, pensava que com a sua curiosidade e interesse em sua história realmente não haveria mais volta para aquela enrrascada. Infelizmente não conseguia sentir raiva da situação.
Clark sorriu com pesar com a menção do seu pai, seus olhos saudosos e cheios de amor misturado com dor.
— Meu pai foi um dos homens mais incríveis e honrados que eu já vi na vida — soou respeitoso, quase como uma oração — Tudo o que sei e tento seguir como princípio eu aprendi com ele. Minha mãe nasceu estéril, ela conta que isso a fazia muitissimo infeliz porque ela sempre quis formar uma família com o marido, as pessoas de onde eu venho acredita que uma família grande é a maior dádiva que um casal pode receber. Meu pai também queria, claro, mas ele a amava como ninguém, isso não era problema para ele independente de como foram criados, dizia que seria o suficiente para ele se fosse somente eles dois para sempre. Ele contava que viveria o resto da vida sem filhos se isso significasse que estariam juntos para sempre.
Clark imergiu em lembranças boas e acolhedoras que era o seu lar, com senhor e senhora Kent se amando e depositando todo o amor que tinham sobre ele, como uma família feliz e carinhosa que eram. Alura sorriu. Não era um sorriso doce, mas um amargo, falso. Ela jamais saberia como é crescer num lar envolto de amor e afeto, ela jamais poderia imaginar o que é ser amada acima de todos os seus erros e defeitos, ela jamais saberia o que é ser protegida. Naquele momento pensou que jamais saberia o que é amar um filho incondicionalmente uma vez que nunca fora acolhida.
— E aí eles me acharam. — ela voltou a realidade ao som da sua voz ainda recheada de boas lembranças — Tinham vinte anos, recém casados e estavam a caminho da sua nova casa. Eles viram a minha nave cair no meio daquela plantação abandonada no meio do nada. Quando chegaram até ela, a nave se abriu, como se previsse que aquele era o casal certo. Entenda que meus outros pais jamais permitiriam que terráqueos com más intenções fossem capazes de abri-la, apenas alguém com uma áurea clara poderia romper o lacre qual meus pais biológicos impôs á nave. Minha mãe me amou a primeira vista assim como o meu pai, mas sabiam que eu era algo complicado, sabiam que eu não era do mesmo planeta que eles e ainda sim me adotaram.
— Espere, espera, espera. — ela ergueu uma sobrancelha — Você tem duas famílias? Seu maldito mimado egoísta.
Clark riu com sua declaração sarcástica, ergueu os óculos com os dedos e continuou.
— Sim, assim como dois nomes; o terráqueo e o de Krypton, meu planeta natal.
— Krypton — ela pronunciou o nome lentamente, um sentimento estranho de déjà-vu passando pelo seu corpo. Surpreendentemente ela se acostumou com o nome e aquela história como se já tivesse a ouvido antes — Certo. Continue, por favor.
Soou ansiosa fazendo com que ele sorrisse genuinamente com o seu interesse.
— Eles decidiram me adotar, enfim. Conheciam um ótimo advogado local qual os ajudaram com tudo necessário, apesar de não precisar de muito. O bom de serem do campo é que as pessoas não fazem muitas perguntas sobre isso, não há burocracias enormes sobre adoções por lá, não é novidade fazendeiros adotarem as crianças que encontram ao invez de levarem até a polícia ou orfanatos superiores. Se o casal quiser ficar com a criança não há enormes burocracia sobre isso, principalmente por que muitas são abandonadas nas estradas de Smallville justamente por ser uma cidade pequena.
— Coitada das mães que tiveram o azar de perder os seus filhos em Smallville, então — sorriu irônica.
— É por isso que a polícia local sempre aconselha os parentes do desaparecido a bater de porta em porta. Muitas crianças foram achadas assim.
— Eu imagino. Malditos fazendeiros carentes — ela rolou os olhos divertida o fazendo rir — Certo, eu já entendi que sua infância fora cheia de amor, carinho e compreensão apesar da sua bizarrice Kryptoniana. Pronunciei certo?
Clark gargalhou sentindo os olhos brilharem com seu humor perante sua história de vida. Via em seu rosto que ela prestava atenção em cada palavra.
— Perfeitamente certo.
— Ótimo. Devo dizer que infelizmente eu estou interessada no que você está falando — rolou os olhos de novo de forma dramática- Mas o que eu quero saber mesmo é como você lidou com suas "peculiaridades" na pior fase da vida.
— E qual seria essa fase, ó amável senhora? — ironizou brincalhão.
— Adolescência, óbvio — Clark riu olhando para sua cara levemente ranzinza.
— Não parece gostar muito dos jovens da sua geração, Alura — comentou com humor, afinal ela também era bem jovem.
— E não gosto. Adolescentes tem tendências estúpidas! Barulhentos demais, emotivos demais, sem juízo demais, arrogantes demais, egocêntricos demais. São muitos S's para mim e minha boa sanidade.
— Quanto drama, Murray — ele murmurou com humor.
— Eu ouvi isso, idiota — respondeu afiada enquanto ele ria alto num pedido de desculpas. Ela o fuzilou com o olhar antes de continuar — Mas eu imagino que a sua adolescência em particular deve ter feito o senhor e a senhora Kent chorarem de arrependimento em posição fetal por não ter te deixado preso na sucata da sua nave.
Ele sorriu novamente. Não tinha como não sorrir perto da sua prometida, ainda mais quando o seu lado ranzinza era inesperadamente engraçado. Ele adorou esse momento mais do que qualquer outro.
— Eu não queria fazer parte da sua estatística sombria e injusta sobre a jovialidade alheia — dramatizou com humor — Mas infelizmente você tem razão. A minha adolescência foi um inferno para todos nós.
Ela bateu a mão na mesa sorrindo em vitória.
— Eu sabia! Sua cara de caipira bonzinho não me enganou nem por um segundo, Kent. Nem por um segundo! — ela riu, um som maravilhoso soando dos seus lábios com sua vitória sobre as razões do homem a sua frente. Clark se sentiu maravilhado com a interação leve que estavam tendo, conhecer esse lado da sua amada estava sendo uma dádiva que fez valer cada dia distante da mesma.
— Pobre de mim em suas garras malignas, Alura — disse jovialmente — Mas você tem razão, foi a pior fase de todas. Era fácil não pensar nos meus poderes quando eu estava ancorado na segurança dos braços dos meus pais ou brincando pela casa com o cachorro, ou ajudando o meu pai com as plantações. Era fácil ser Clark Kent em casa, no Kansas.
Seus olhos estavam repentinamente tristes agora. Alura sentiu uma guinada estranha no peito, sentia que algo ruim estava por vir. Quase se sentiu culpada por precipitar o assunto.
— Mas o que temos nunca é o suficiente quando somos adolescentes — ele finalizou sombriamente.
— Você foi um imbecil acima da média?
— Completamente — suspirou chateado — Eu não queria obedecer aos meus pais, eu não queria mais me esconder. A minha infância fora cheias de momentos bizarros na presença de outras pessoas, eu não era o cara mais popular ou o mais querido, mas vivia bem com isso. Os meus pais eram suficientes. Só que com a adolescência o meu corpo começou a se desenvolver, eu não era mais o garoto magricela estranho, eu já havia aprendido a lidar com a maior parte dos meus dons, eu não queria mais ter que apanhar dos meus colegas de classe porque era forte demais para revidar.
— Você fazia isso? — perguntou incrédula.
— Entenda que a minha força é anos luz superior que qualquer terráqueo, Alura. Eu não posso me estressar além do permitido por mim mesmo. Brigar ou revidar mataria sem intenção ao mais fraco dos meus golpes quando chateado. As vezes é uma maldição.
— Com certeza é — respondeu compreensiva — Quer dizer, eu não me vejo evitando idiotas apenas pela nobreza de não feri-los mesmo que eu quisesse. Não acho que lembraria disso quando meu sangue esquentasse, e isso acontece com muita frequência. Quando dou por mim a merda já está feita.
— Exatamente. Eu tive que lidar muito com minha raiva, e a puberdade não ajudava muito. Eu não tinha que me preocupar com "competição de força" na infância, mas na adolescência isso estava me matando. Porque eu deveria apanhar deles se era maior e mais forte? Não que os golpes doessem, claro que não. Com a minha puberdade veio cada vez mais força, se uma carreta me atropelasse eu não sofreria o menor dos arranhões, mas...
— Era o que aquilo representava, não a surra em si — ela finalizou. Ele suspirou assentindo, contente que ela tivesse entendido.
— Eu sempre fui uma pessoa tranquila, sempre evitei qualquer conflito, afinal, meus pais são muito pacifistas. Mas eu não queria mais servir de capacho para os outros. Eu queria saber quem eu era, porque eu tinha aqueles poderes, e isso só piorou quando os meus pais me contaram que eu não era filho deles. Quando o meu pai me mostrou a nave qual cheguei no planeta eu não queria mais ficar em casa, queria sair e respirar, queria fortalecer os meus dons, queria saber a minha verdadeira história. Houve um breve momento em que me achei superior aos demais simplesmente por ser quem eu era.
— Um babaca, de fato. Mas não posso dizer que você estava errado. Imagino que tenha sido complicado pra você. Porém seus pais não gostaram muito da ideia de você partir, não é?
— Não, não gostaram — respondeu tristemente — Minha mãe sempre teve medo de me perder, e meu pai… Meu pai achava que o mundo não estava pronto para mim, achava que eles não me receberiam bem, que me perseguiriam e me matariam se pudessem. Eles temiam que os meus dons fossem minha ruína, eles temiam que quisessem me matar. Eles estavam preocupados.
— Mas você não enchergava as coisas por esse lado — Clark assentiu e a olhou confuso, admirado. Ela o ouvia, ela o entendia. Não soube dizer quando alguém o entendeu antes na vida, mesmo Lois achava sua história exagerada. Seu peito estava inundado de pesar, mas o acalento que sua prometida o dava o fazia forte para continuar.
— Eu pensei que eles queriam me prender a uma vida de simples fazendeiro para sempre, um terráqueo comum. Pensei… que estavam sendo egoístas ao me negarem as minhas origens. Fui um idiota com os meus pais. Gritava com minha mãe, brigava com o meu pai, saia de casa e demorava pra voltar, nunca dava notícias. Às vezes me envolvia em algumas brigas bobas. Quando descobri as garotas e pra que mais elas serviam as coisas ficaram mais difíceis ainda.
— Não acho que seja uma memória que eu queira saber, idiota — ela resmungou se remexendo em seu assento mais incomodada do que gostaria.
— Desculpe. Não quis ser rude — disse envergonhado, se censurando internamente por quase ter contado um detalhe íntimo da sua vida que sua senhora não precisava saber por hora — Mas o fato é que até os meus dezessete anos eu era uma pessoa insuportavelmente barulhenta. Meus pais sofreram com minha rebeldia, ingratidão e incompreensão. Eu não tinha maturidade o suficiente para entender que eles temiam perder o filho qual criaram e amaram com tanta dificuldade. Eu pensei… pensei que eles não tinham o direito de achar nada porque não eram os meus pais biológicos.
— Droga, Kent — Alura praguejou perante o seu olhar ferido. Já imaginava o que tinha acontecido — Você disse isso pra eles?
— Disse — declarou num tom sofrido — Estávamos na estrada no meio de um engarrafamento. Eu estava brigando com o meu pai sobre as minhas origens e como eu pretendia ir atrás delas, mamãe chorava no banco de trás pedindo para que eu não os deixasse, meu pai disse que ainda não era hora de partir, que o tempo chegaria e eu disse… — ele parou. Desviou os olhos da sua amada e respirou fundo, como se aquela memória em particular o machucasse todos os dias desde aquele — eu disse que ele não tinha o direito de me impedir porque ele não era o meu pai de verdade.
Ele fechou os olhos se sentindo quebrado por dentro. Alura sentiu sua marca arder em arrependimento e saudades, sentimentos que não a pertenciam. Ela não sabia o que fazer, não estava preparada para aquela muralha oscilar em suas estruturas a sua frente. Ela nunca foi uma boa consoladora.
— Não se sinta obrigado a falar se não quiser. Sério. Podemos pular essa parte. — seu tom era ameno, apaziguador e culpado. De alguma forma ela gostaria de fazer mais para conforta-lo. Clark a olhou agradecido pela sua tentativa.
— Obrigado, mas prefiro continuar. Você precisa saber de tudo — ela ia questiona-lo mas se calou ao seu olhar. Ele queria continuar — Naquele mesmo dia um tornado nos pegou de surpresa. Eu consegui tirar minha mãe e uma outra família do carro ao lado, pensei que meu pai estava nos seguindo quando corremos pra um abrigo próximo. O seu cinto estava preso no banco, ele não pode sair a tempo e eu…
Ele parou novamente. Alura foi relutante em segurar a sua mão em cima da pequena mesa, sentindo os seus dedos serem imediatamente envoltos por suas mãos grandes e quentes num aperto sôfrego.
— Eu poderia salva-lo, Alura! Não seria difícil, aquilo não era nada pra mim. Mas meu pai… meu pai temia por mim, temia que não me entendessem, temia que me fisessem mal, temia que o mundo se virasse contra mim. Eu ainda era tão jovem, não poderia lidar com tudo o que estou lidando agora. E ele sabia disso. Ele sabia que as pessoas não estavam prontas, muito menos eu.
— Ele…?
— Morreu. Sim. Morreu para proteger o meu segredo, morreu na minha frente pra uma situação tão patética que eu poderia salva-lo dezenas de vezes se pudesse. — suspirou chateado, quebrado — Mas ele não queria, ele pediu para que eu recuasse e esperasse com paciência porque a minha hora chegaria. Foram as suas últimas palavras, cheias de amor e proteção, enquanto as minhas últimas palavras para ele fora cheias de raiva e ingratidão. Ele me protegeu até o último momento da sua vida. Naquele dia eu perdi um pai e minha mãe o amor da sua vida, o homem mais honrado que já conheci. Eu…
— Clark, pare. Você não precisa continuar. — ela apertou sua mão com carinho.
— A culpa foi minha. — declarou num sussurro. Ele não a olhava nos olhos envergonhado pela memória, envergonhado pela pessoa imatura qual fora. Alura sentiu algo estranho naquele momento, algo forte, algo como proteção. Ela não poderia aturar mais daquela culpa que ele carregava.
— Não foi! — exclamou convicta o fazendo olhar em seus olhos com surpresa — Eu entendo que se sinta assim, Clark, mas sabe que não teve culpa.
— Eu poderia tê-lo salvo, Alura!
— Poderia mas não fez, não porque você era uma pessoa ruim mas porque foi uma escolha dele. Você foi babaca, de fato, concordo, mas todo adolescente é. Não é como se você fosse maltratar o seu pai sabendo que aquela seria a última vez que se falassem intencionalmente. Ele escolheu morrer a expo-lo e correr o risco de perde-lo pra sempre, ele o amou até o último minuto mesmo que estivesse chateado com o que você disse. Eu pessoalmente acho que ele o perdoou no momento em que você falou... aquilo. O senhor Kent me parece ter sido um homem bom demais para carregar mágoa de uma explosão hormonal de uma criança chateada. Eu também acho… acho que é isso que os pais de verdade fazem, dão sua vida pelos filhos antes de vê-los machucados. Perdoam suas falhas. Não torne o sacrifício dele em vão remoendo o que poderia ou não poderia ter feito, ele te deu tempo, Clark. Tenho certeza que depois disso você fez de tudo para seguir os seus ensinamentos, que você amadureceu. Sinceramente? Acho que ele estaria orgulhoso, muito orgulhoso do homem que você se tornou.
Clark sentiu os olhos arderem de dentro pra fora do começo ao fim do seu discurso, seu peito fora arrebatado por paixão e cada palavra proferida por sua pequena mulher fora recebida com carinho. Fora um alívio na alma, como se anos preso numa corrente de culpa estivesse enfim disposta a se arrebentar. Ele jamais esperaria consolo e conforto vindo da sua Alura, não quando ele se considerava o errado da história, não quando Alura era tão convicta nas suas certezas. Ele, que pensou já ama-la o suficiente, sentiu seu peito inflar de amor. Conhecer mais de Alura seria a sua ruína, sentia isso, seria a sua coleira, temia ama-la tanto que não suportaria os minutos longe da sua mulher.
Alura, sem fôlego pelo falatório, nãorecia menos confusa. Ela raramente consolava as pessoas, nunca surgiu a vontade de fazê-lo na verdade. Mas ali estava o homem que erguia prédios com os braços e amparava aviões sobre os ombros com o olhar mais quebrado que ela já vira. Seu coração não permitia apenas olhar e rir da sua desgraça, menos ainda ser apática. Ver uma muralha desabar sentada no camarote passava longe da sua falta de empatia, ela jamais veria o sofrimento tão próximo sem tentar ajudar, mesmo que odiasse esse seu lado empático muitas vezes incoveniente. Alura era uma mulher qual não gostava de contato, não gostava de socializar, não gostava de pessoas em sua maioria; mas sempre as ajudaria, mesmo que odiasse isso. Fazia parte de si.
— Obrigado, Lua — ele pronunciou tenro, amável, apaixonado, verdadeiramente grato. Quase como uma adoração.
Seu tom tinha tantos sentimentos bonitos que ela simplesmente deu de ombros com sua audácia de chama-la pelo apelido. De alguma forma ela sabia que era um caso perdido, Clark não pararia de chama-la assim do dia pra noite. Sinceramente ela já não se importava mais com isso, já quebraram barreiras demais com aquela conversa para se importar com coisas pequenas.
Sinceramente ela gostava da forma que seu apelido saia dos seus lábios bonitos.
— Ele realmente me deu o tempo que eu precisava, o tempo que eu nem sabia que seria necessário — ele falou depois de um tempo, já recomposto.
— O que fez depois da sua perda?
— Quando meu pai morreu eu estava perto dos dezoito, depois disso eu cuidei da minha mãe e da fazenda até os vinte um, ela ficou muito abatida com a morte do pai e não tínhamos condições de contratar alguém para cuidar dela e da fazenda. Adiei os meus planos de partida, fiquei em casa até que ela melhorasse e depois, quando o luto passou e as coisas estavam nos trilhos de novo, eu parti. Eu precisava descobrir quem eu era e o que queria, qual era o meu destino. Eu precisava me encontrar.
— Sua mãe deve ter ficado arrasada, me parece ser o tipo de mulher que passa a mão na sua cabeça até hoje
Ambos sorriram sentindo o clima mórbido recente se esvair lentamente. Clark balançou a cabeça em negação.
— Arrasada ela ficou, apesar de ter compreendido. Mas você ficaria surpresa sobre ela passar a mão na minha cabeça, Martha Kent pode ser um espinho no pé se você não tomar cuidado.
— Se eu tivesse um filho como você cheio de dons estranhos e excesso de hormônios Kryptoniano correndo nas veias eu seria uma mãe bem, bem pior. Pode apostar. Não reclame de barriga cheia.
Clark sorriu ternamente. Intimamente ele espantou a ideia repentina e inesperada que passou pela sua cabeça, de ambos tendo um filho tão complicado quanto ele fora e das reclamações que ela faria para si sobre como era sua culpa o filho deles ser como ele na infância. Empurrou aquilo pro fundo da mente, aquela não era a hora.
— Bom, o fato é que eu saí de casa totalmente sem rumo e sem dinheiro, nunca tinha saído de Smallville antes. Passei por uns apertos.
— Porque não me surpreende que com quase vinte e dois anos você ainda não tinha juízo nenhum pra planejar uma viagem? — ela rolou os olhos entediada. — Homens.
— Não seja má, eu estava ansioso — sorriu acanhado — Mas os maus bocados me serviram de aprendizado. Cada lugar que eu trabalhei, cada pessoa que eu conheci e convivi me acrescentou algo, seja a situação ruim ou não. No fundo sou grato pela experiência.
— Olhe só para você, o cara branco e de boa aparência reclamando da vida. Não fode, Kent — resmungou com falsa chateação. Clark sorriu, seus dentes brilhando pela luz do fim da tarde.
— Serve de consolo saber que eu trabalhei num bar de beira de estrada, e um dos clientes babacas derramou cerveja na minha cabeça e quebrou o copo nas minhas costas?
— Você só está tentando me comover — ela abanou a mão com descaso.
— É sério! Foi a primeira vez que fui humilhado desde o ensino fundamental, quase não soube lidar pacificamente com a situação.
— E porque diabos ele fez isso? A não ser que esse seja o cumprimento comum no Kansas, claro — ela sorriu irônica.
— Ele era um caminhoneiro, chegou como se fosse dono do lugar e assediou minha colega de trabalho. Eu não poderia simplesmente sentar e assistir. Fui lá e pedi encarecidamente que respeitasse as moças do estabelecimento. Ele não gostou muito.
— Não importa o lugar, sempre tem um imbecil — ela rolou os olhos desgostosa — Não me diga que você não fez nada com ele?
— Com ele, não. Não posso machucar seres humanos a menos que seja excepcionalmente necessário. Princípios morais.
'Mas você já fez isso!' sua mente sorrateira o acusou, 'Com o homem grande á semanas atrás, lembra-se? O que chorou igual a um bebê'. Clark quase desviou os olhos de sua prometida, envergonhado com seu falso discurso, envergonhado pela memória chorosa e humilhada do homem qual ameaçou. Por mais que tentasse se esquecer do fato, era inegável que ele realmente abusou dos seus poderes perante um ser de força inferior. 'Mas foi por ela, por nossa prometida' outra parte de si se defendeu, a parte mais Kryptoniana da sua mente, a parte sem influências terráqueas 'Fizemos isso por ela. Ele ia machuca-la, ele a desrespeitou! Um filho de El jamais deve permitir que a honra da sua senhora seja manchada!', Clark concordou, de fato concordava com muitas atitudes do seu povo qual antes não lhe eram bem vistos, e olhando para o belo rosto da sua pequena mulher, tão belo e imaculado, ele varreu a culpa para debaixo do tapete. Concluiu naquele momento que ele faria tudo de novo se fosse necessário indepentende dos seus princípios terráqueos; a sua senhora e o seu bem-estar deve, sempre, vir em primeiro lugar.
— Eu não acredito! Deixou o idiota te humilhar de graça?
Voltou ao mundo real piscando lentamente com a exclamação chateada da sua pequena. Ele a deu um pequeno sorriso, retomando de onde havia parado.
— Ele, sim. Já o caminhão dele não teve a mesma sorte.
— Não brinca comigo, Kent. — ela sorriu ansiosa.
— É sério! Eu estava com tanta raiva reprimida que eu precisava descontar em alguma coisa, alguma coisa que o afetasse. Não é algo qual tenho muito orgulho de contar.
— Não fode com esse papo, sabe que ele mereceu. Qual era o caminhão? Você viu? Era novo? — ela saltitou empolgada por dentro
— Um Peterbilt vermelho-vinho. Lindo — respondeu com falso pesar. Alura arregalou os olhos descrente — Novinho em folha, parecia ter sido reformado recentemente. Quando eu terminei mal poderia dizer que o monte de sucata quebrada e amassada um dia fora um veículo de primeira linha.
Os olhos de Alura brilharam excitados.
— Qual era a carga?
— Troncos de arvore. Madeira.
— Por favor, me diga que você empalou a sucata na madeira.
— Em três troncos enormes — admitiu vergonhosamente.
Alura gargalhou com vontade a sua frente, seus olhos ficando miúdos no processo. Parecia jenuinamente feliz com o castigo que ele dera no caminhoneiro.
— Ele nunca vai saber o que o atingiu! Imbecil de merda.
— Você parece bem feliz com a desgraça alheia — ele sorriu acusador.
— É claro! — exclamou — Ver imbecis se ferrando deveria ser considerado um esporte. Eu com certeza assistiria às copas do mundo disso pra sempre!
Ela sorriu brilhantemente. Clark não pensaria no fato de que o único momento em que viu sua prometida sorrir realmente feliz era com a desgraça de alguém, pelo contrário, ele sentiu o seu coração se aquecer deliciosamente mesmo perante a felicidade mórbida da sua Alura.
— E depois, o que você fez?
— Fui embora antes que ligassem uma coisa a outra. Vaguei por muitas cidades, trabalhei de muitas coisas, investiguei qualquer relato ou sombra de naves sobrevoando o estado. Algumas pistas não levavam a nada, outras pareciam impossíveis de conseguir. A aquela altura, eu estava muito frustrado.
— E os seus poderes? Não complicou mais a sua vida?
— Com o tempo eu consegui lidar com eles, depois disso é como se fôssemos um só. Era muito frustrante destruir tudo em que tocava, machucar as pessoas sem intenção, houve uma época em que o mundo inteiro parecia feiro papelão para mim. Com o passar dos anos eu consegui conte-los nas medidas certas para cada ocasião, comecei a usa-los para me ajudar na minha busca por respostas também, fui aperfeiçoando minhas técnicas. Com vinte e seis eu salvei vidas, pela primeira vez em dificuldade considerável. Pensei que não conseguiria. Estava trabalhando de ajudante num navio, não sei ao certo o que deu errado mas de uma hora para outra tudo estava em chamas. Eu não pude sequer pensar.
— Deve ter sido assustador — Alura soou confusa. Nao tinha como ela engolir totalmente o papo de alien, mas ele estava a sua frente lhe contando a sua história e ela deu a sua palavra que o daria uma chance.
— Na verdade, foi. Mas o medo de ver alguém morrer a minha frente novamente ultrapassou o medo dos meus dons e depois foi tudo impulsos. Graças a Deus ninguém morreu.
— Graças a você, Clark. Não tire seu mérito. Essas pessoas estariam mortas hoje se não fosse por você.
Ela disse séria o olhando nos olhos, firme. Clark sentiu seu coração falhar uma batida. Ela pigarreou.
— Então, em todos esses anos você não conseguiu achar nada?
— Nada concreto, ao menos. Todas as pistas que eu seguia não davam em nada. Até aí eu já tinha voltado aos estudos, queria me formar e, talvez, esquecer sobre minhas origens e voltar pra casa. Graças a isso eu achei o meu destino, há benefícios em ser um repórter.
— Informações que o governo não nos deixam saber?
— Exatamente. Como uma nave espacial soterrada no gelo, por exemplo.
— Bastardos idiotas — resmungou cruzando os dedos frente ao rosto e o olhou com cautela — E depois?
— Eu fui até lá, claro. E descobri que era uma nave do meu planeta, estava lá a milhares de anos terráqueos. Com uma chave que meu pai Kryptoniano me deixou eu consegui acessar a nave e obtive as respostas quais precisavam. E aí é onde entra a minha outra realidade.
Alura respirou fundo. Sentia que as coisas não iam ser muito agradáveis dali em diante.
— Certo, acho que estou pronta. Continue.
— Tem certeza? Nós podemos parar por hoje — soou atencioso. Ele jamais a levaria ao seu limite contra sua vontade.
— Não me dê espaço pra recuar, bastardo — respondeu brincalhona apesar de tensa. Clark sorriu.
— Bem, o meu planeta, Krypton, estava doente...
E então ele começou uma narração longa e detalhada sobre o seu passado Kryptoniano, Alura o olhando com olhos brilhantes de atenção. Particularmente sempre adorou história, tanto a matéria quanto as estórias que o povo mais velho conta, intimamente ela gostava de saber os detalhes do passado que tornaram sua civilização o que era hoje. Mas ela nunca fora uma criança muito inteligente e de quebra sua memória nunca fora louvável, tornando assim o aprendizado inútil uma vez que detalhes importantes fossem apagados da sua memória com o passar do tempo. Mas ali estava uma história que, definitivamente, ela jamais se esqueceria, tinha absoluta certeza disso. Cada palavra que Clark falava era cuidadosamente reescrita manualmente em sua cabeça e arquivada em seus assuntos importantes internos com um zelo qual ela não se lembrava em ter tido em qualquer outra situação, ali estava ela olhando com atenção, e talvez, até admiração. Fez caras e bocas, suspirou algumas vezes, ofegou em outras, praguejou em muitas e muito, muito, muito tempo depois, quando a história teve fim, ela sentiu que poderia sentar e escrever um livro com cada palavra fiel ao relato do próprio Superman sentado a sua frente.
Alura não sabia se estava maravilhada ou horrorizada.
— Isso é loucura demais, Clark. E é incrível também — murmurou sem fôlego minutos depois do fim do relato, boba, dificilmente acreditando que aquilo era real e estava sendo confidenciado a ela.
Uma informação que países do mundo todo mataria para conseguir com tanto detalhe. O pensamento a arrepiou.
— Quer parar um pouco?
— Eu… — 'Ja escutei até aqui, não é? Não é como se eu pudesse voltar pra trás agora' pensou — Não. Continue, por favor.
— Certo. Bem… Em Krypton, eu sou Kal, Kal-El, filho de Jor-El e Lara. Um Kryptoniano.
— Kal-El — ela sussurrou sentindo o nome embolar e se adaptar estranhamente num som conhecido em sua língua — Bem, poderia ser um nome pior.
Ele sorriu, em seu corpo um arrepio gostoso lhe desceu a espinha ao ver a língua da sua prometida lamber cada sílaba e vogal do seu nome kryptoniano. Ele gostou disso, ele gostou muito, muito, disso. Fazê-la o chamar por Kal-El mais vezes era o seu mais novo e íntimo objetivo.
— Acho que sim. — concordou vago, sua voz meio rouca pelo pensamento anterior.
— Mas e a sua idade? Você tem trinta e três anos terráqueos ou Kryptonianos? A expectativa de vida são as mesma no seu planeta?
— Que as da terra? Não. Meu povo vive por muitos anos, milênios terráqueos até. Mas sim, eu tenho trinta e três tanto aqui quanto em Krypton, e apesar da expectativa de vida alta de lá eu já sou um adulto Kryptoniano. Mas no meu planeta eu ainda seria um aprendiz.
— Isso é uma puta maluquice, você sabe — ela sorriu confusa — Mas não deixa de ser legal. Talvez isso vá pro meu TCC.
Seus olhos brilharam divertidos. Clark sorriu lindamente em resposta.
— Torça pra que nenhum enfermeiro de manicômio esteja na apresentação. Não veríamos muito de Alura Murray depois disso.
— Bem, então isso vai surpreende-lo; apesar de todo o sedentarismo, eu sempre fui uma excelente corredora. Eles teriam que me pegar primeiro.
— Tenho certeza que dardos soníferos correm mais rápidos que você.
— Isso é uma aposta?
Ambos sorriram cúmplices. Ambos gostando mais daquele momento do que gostariam de admitir.
— Aliás, sinto muito. Sabe, pelo o seu povo. Deve ser difícil ser o último da espécie num planeta que talvez nunca o compreenda. Eu mesma não consigo compreender o quanto deve ter sido difícil para você mesmo com o senhor e a senhora Kent o apoiando, mas… Acho que posso ter uma noção. Não sei se posso dizer isso em nome de todos, mas com certeza falo pela maioria, então; Obrigada por estar aqui por nós, Superman. Você não sabe o quanto tem sido necessário.
Não era sua intenção acalenta-lo ou agradecê-lo, porém, quando o fez, não se arrependeu. Uma onda de empatia havia tomado conta de si ao homem a sua frente, ela jamais saberia como era ser quem ele era e ter que esconder isso, mas pegando partes da solidão de quando era adolescente ela poderia ter noção do quão sozinho ele deve ter se sentido com a mistura de perguntas sem respostas durante toda a vida e, quando as teve, descobriu que a própria raça estava extinta. E agora o pobre homem estava confinado a viver num planeta cheio de terráqueos ingratos que jamais agradeceriam os seus feitos.
Ela não soube dizer o porquê mas o pensamento a irritou profundamente.
Clark não estava preparado para aquele olhar vindo da sua prometida. Era sincero, quente, empático, acalentador. Ele sentiu como se uma vida cheia de obstáculos haviam válido a pena se ele pudesse ter mais daquele olhar, daquele sorriso bonito direcionado só para si. Ele se sentia abençoado, acolhido, valorizado. Nada mais importava, nem os insultos, os praguejos ou as noites solitárias incompreendido. Tudo havia sido perdoado ali, naquele exato momento em que sua mulher o agradecia pelos seus feitos, em que sua mulher dizia que o mundo precisava dele. Tudo, absolutamente tudo, teve enfim sentido.
Ele fez o que fez até agora, passou pelo o que passou, apenas por aquele momento.
— Obrigado, Alura. De verdade. E não se preocupe, eu sempre darei o melhor de mim para mantê-los seguros dos maus vindo de fora ou dentro do planeta. Especialmente você — ele pensou que Alura o contrariaria, talvez até o repelisse por sua intimidade. Mas ela sorriu tímida com as bochechas levemente coradas. Alura sorriu. Tímida. Alura. O momento foi bom demais para ter sido verdade.
A voz de Clark estava pesada de sentimentos bons, felizes, grato. Cheios em abundância de um sentimento qual ela ainda não conhecia. Por um momento eles ficaram só assim, se olhando, cada um afundados em seus próprios pensamentos sobre o outro. Alura não podia deixar de pensar em como sua percepção sobre o herói a sua frente havia mudado, Clark não seria Clark se não passasse pela sua cabeça o quão linda aquela mulher era por dentro e por fora, o quão maravilhoso estava sendo conhecê-la camada por camada.
Ele teria mais disso, com certeza.
Uma buzina soou estridente próximo ao casal fazendo com que ambos despertassem. Alura olhou ao redor pela primeira vez desde que se sentou ali sentindo um vento gelado arrebatar os seus cabelos e um arrepio gelado arrepiar os seus braços, se surpreendendo ao ver que já era noite.
— Por quanto tempo estivemos aqui?
Clark olhou ao redor também vendo a praça quase vazia, a noite fria. Ele parecia tão confuso quanto ela.
— Por horas, eu acho — murmurou — Não percebi o tempo passar.
Ele se levantou tirando o próprio casaco e se abaixando até ela, passando o mesmo pelos seus ombros. Ela não recusou o calor extra.
— Obrigada — agradeceu quase timidamente. Ele sorriu em resposta, seus dentes brancos e suas presas perfeitas tornando o momento ainda mais especial. Ela pigarreou internamente — Já terminou o que tinha de me contar? — perguntou sem realmente ter intenção de fazê-lo e, definitivamente, não com aquele tom tão decepcionado.
Clark a olhou surpreso.
— Não, claro que não. Mas achei que quisesse ir para casa já que está tarde, talvez fosse demais pra você por hoje.
— Eu não vou ir pra casa quando claramente há algo que eu realmente precise saber, duvido que tenha me contado isso tudo apenas para que eu fizesse uma autobiografia sua.
— Você está certa — sorriu levemente — Mas está frio, não podemos permanecer aqui.
— Sei que não — ela levantou-se — O que sugere?
— Bem… talvez… — ele pigarreou sem jeito — Talvez pudéssemos ir até a minha casa, ou a sua! — finalizou apressado perante o seu olhar carrancudo.
— Não fode, seu abusado. Não me faça arrepender do tempo que estou dando a você — declarou sorrindo, embora seus olhos dissessem que ela não estava brincando.
— Sim, claro — murmurou sem graça, também sorrindo — Mas precisa ser um lugar privado se for um ambiente fechado. Não é algo que eu queira que outras pessoas saibam.
Alura pensou por um momento. Ela definitivamente não conhecia nenhum lugar assim além dos seus próprios lares, uma hora dessas numa noite de sábado a cidade estava no pico da movimentação dentro de lanchonetes e cafeterias, e ela definitivamente não iria a um restaurante com Clark Kent.
'Não é a droga de um encontro!' gritou internamente.
— Ser quem você é não te dá o privilégio de conhecer algum lugar adequado?
— Na verdade, conheço vários. Porém... Teríamos que ir voando.
— Ha-Ha. Muito engraçado. — soou seria, quase rude — Você e suas peculiaridades mantenham as mãos longe de mim, Kent. Já tive vôos demais por uma vida inteira, acredite.
Clark acentiu tristemente ao ver o medo velado em seus olhos, medo esse que ele sabia ter nascido através de Zod. Seria uma vida até que sua prometida confiasse em si naquele ponto.
— Eu jamais a dexaria cair ou a machucaria. Sabe disso, não é?
— Você mesmo disse que era muito difícil se movimentar por aí quando o mundo todo parecia ser feito de papelão parante sua força — recitou suas palavras.
— Isso foi quando eu era mais novo, Lua. E depois do acidente — um bolo se formou na sua garganta — Eu voltei a aperfeiçoar cada vez mais os meus dons. Não há risco, acredite.
— Talvez um dia já que tanto insiste, Kent — 'O dia de são-nunca' pensou irônica.
— Jura que vai pensar no assunto? — soou esperançoso.
— É, é, um dia, quem sabe.
Clark sorriu perante a mais uma vitória. Internamente pensava que mesmo que ela não tivesse dado previsões certas a promessa era válida porque, só o fato dela não ter o enxotado ou xinga-lo, já era um ganho importante sobre Alura Murray.
— Mas então, o que devemos fazer?
Alura parou no tempo olhando para os seus olhos cristalinos, as ruas, o céu escuro e os seus olhos de novo. Ela não sabia que tinha o dom da leitura de olhares desde que não se lembrava a última vez que olhou diretamente nos olhos de alguém, mas ali estava ela descobrindo mais sobre Clark Kent do que ele havia lhe dito. Concordava com o ditado popular; os olhos realmente eram a janela para a alma, e a alma do Super Homem era tão grandiosa quanto ele, mas pura como a de uma criança. Doce, meiga, sincera, vibrante, clara. Tão pura que chegava a ser boba. Um homem com aquele olhar tão sincero não poderia lhe fazer mal, queria acreditar nisso. Internamente ela suspirou derrotada, depois de tudo o que ouvira, depois de tudo o que ele a mostrara por palavras e depois de tudo o que passaram ele merecia mais um voto de confiança, até porque sentia que todo esse bom papo escondia um lado terrível, um lado qual ela não seria tão conivente.
Infelizmente era uma conversa que não poderia ficar para depois.
Engoliu em seco sentindo suas têmporas latejarem e suas sobrancelhas franzirem numa careta desgostosa. Ela, depois de remoer os pós e contras com a melhor cara de Vivian Murray olhando para um Clark intimidado perante sua avaliação, suspirou derrotada.
— Talvez… — pigarreou extremamente desconfortável, olhando para longe dos seus olhos azuis no processo. — Talvez devêssemos ir para sua casa, então.
Clark não teria ouvido as últimas palavras proferidas pela sua prometida se não fosse quem era, mas sua super audição não o enganou quando o sussurro chateado chegou aos seus ouvidos. A percepção da realidade fora tão grande que ele emudeceu, seu olhar perplexo, as palavras presas na garganta. Sua prometida havia cedido. De novo. E ele não sabia o que fazer sobre isso, ele não esperava. Seu rosto, entretanto, reagiu antes que o seu cérebro: seus olhos brilharam, sua pele pareceu mais viva, seus lábios se puxaram num sorriso cheio de dentes. Feliz. Ele estava extremamente feliz.
Alura franziu o cenho desconfortável com seu semblante de nerd que acabara de tirar a maior nota da turma e o fuzilou com os olhos.
— Não me olha desse jeito, punk idiota. É assustador.- mentiu. Por mais estressada que estivesse com a felicidade aparente do mesmo perante sua declaração ela não poderia deixar de acha-lo... Belo. Havia beleza na felicidade simplória do homem Kent, o forasteiro do interior. Havia beleza no seu olhar brilhante perante conquistas simples.
Clark retornou ao chão murchando levemente depois disso, entretanto. Como se uma barra de aço se chocasse contra o seu rosto. Alura continuaria sendo Alura, no final das contas.
— Sim, claro — sorriu timidamente — Me desculpe.
— Que seja — mumurou irritada. Clark, entretanto, não se chateou. Prometeu aceita-la e compreende-la ao máximo exatamente do jeito que ela era, Alura já era Alura antes de si, ele quem chegou em sua vida como um relâmpago. E como o homem apaixonado que era ele não exitaria em ama-la mesmo com seu manto coberto de espinhos sobre os ombros.
— Há algo mais?
— Na verdade, há sim — ela o olhou diretamente nos olhos, séria. Por um momento ele pode sentir as borboletas no seu estômago darem canbalhotas — Eu tenho condições, três, na verdade. E quero sua palavra que irá cumpri-las.
Ele acentiu lentamente, relutante.
— E quais são?
— Primeiro… — suspirou — Eu quero que fique longe do meu espaço pessoal. Eu não gosto de me sentir intimidada, e o fato de não poder chutar a sua cara quando estiver abusando da minha paciência não me deixa nada confortável, estou em desvantagem aqui. E nada de toques sem minha permissão, eu não gosto de contato.
— Tudo bem. Tem a minha palavra — 'Não está nada bem!' seu eu interno gritou. O fato de estar perto da mulher que ama e ao mesmo tempo ter que manter distância fazia seu núcleo se revirar em protesto, fazia-o triste. Mas nada poderia ser feito perante aquilo. Ele respeitaria seu pedido.
— Bom. Em segundo eu quero que você prometa não me omitir nada que eu realmente devo saber. Sei que não estou aqui só pra servir como diário ambulante, sei que há coisas que nos ligam e sei que não vou gostar disso. Mas você tem que me prometer que contará o máximo possível. Eu tenho o direito de saber.
— Eu prometo, Alura — 'Nada mais do que justo, afinal' pensou tristemente. Sua pequena fera poderia odia-lo depois de hoje, mas ela tinha o direito de saber de tudo. Era o seu dever tirá-la do escuro.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— E isso nos leva a minha terceira condição, a mais importante de todas e a que eu quero a sua palavra de honra que irá cumpri-la.
Clark a olhou com receio. Algo sobre o olhar implacavelmente sério da sua prometida o fez incapaz de falar, fazendo com que assentisse em resposta. Viu sua Alura suspirar pesadamente com os seus olhos ainda o olhando com seriedade, e mesmo que ele seja o Superman, filho de Krypton, filho do poder, ele engoliu em seco. Afinal, se havia alguém no mundo capaz de feri-lo era a sua garota. Ele não a subestimaria.
— Eu quero ser capaz de ir embora no momento em que eu quiser, e você não irá me impedir ou me seguir. Sua força é infinitamente maior que a minha, portanto não quero sentir receio no momento em que bater a porta e ir embora, quero ter a sua palavra de honra, seja terráqueo ou Kryptoniano, que me deixará ir quando decidir, sem que eu seja seguida. Tenho a sua palavra?
O coração de Clark falhou uma batida, uma batida dolorosa. Lembrando da luta que foi conseguir ter aquele momento com sua garota o seu peito chorou em tristeza ao ver aquele felicidade duraria pouco, afinal, nada que Alura Murray fosse escutar dali em diante seria do seu agrado.
Talvez ela o odiasse depois de hoje.
Talvez ela nunca mais quisesse vê-lo.
Talvez quisesse romper a ligação entre eles assim como a sua mãe, desesperada para ficar longe de si, a tal ponto que arriscaria a própria existência em prol de não vê-lo de novo.
Talvez-
— Kent! — ele piscou lentamente retornando a realidade ao ver uma pequena mão balançar furiosamente a sua frente.
— Perdão, acho que divaguei — murmurou desorientado.
— Por Cristo, em que planeta você estava? — ela sorriu de lado com o trocadilho, fazendo-o sorrir também, embora o seu fosse quebrado, não conseguindo ocultar totalmente a sua tristeza — E então, tenho sua palavra? — ela estendeu a mão direita para ele.
Lá. A maldita pergunta de novo. Ele não poderia fugir disso, poderia?
— Eu… — 'Ela irá nos deixar! Recuse!' sua mente gritou, e algo dentro de si o fez acreditar que a própria marca havia influenciado nos seus pensamentos. E era o que ele faria, recusaria, pois ele não poderia simplesmente deixá-la ir. Entretanto, quando ele olhou no fundo dos seus olhos âmbar decidido a lhe negar essa condição, ele viu a centelha daquilo que o seu pai havia dito que era capaz de sufocar os sentimentos: medo. Olhando no fundo dos seus olhos ele se viu incapaz de recusar. Ele não queria a deixar desconfortável, ele não queria que ela o temesse, mas ele sabia que ela sabia o quão forte era e o que seria capaz de fazer se quisesse, ele poderia não concordar com aquela condição e não havia nada que ela pudesse fazer contra.
Mas ele não faria aquilo.
Porque ele não era um moleque, apesar de estar apaixonado como um adolescente ao ver seu primeiro amor. Porque ele tinha os seus princípios, e eles o diziam que ela era a sua prioridade, dizia que a sua vontade vinha antes da sua própria. Porque ele a amava, a amava tanto que não queria decepciona-la, não queria subjulga-la ao seu poder, queria o seu amor, a sua compreensão, o seu companheirismo. Ele queria o seu carinho sincero, sua permanência sincera, sua paixão sincera, nada que viesse da influência do medo ou do receio.
— Se eu te jogar debaixo de um carro quem se ferra primeiro? Eu, você, o motorista ou o carro? Porque não vejo outra maneira de tirá-lo do mundo da lua — ele ouviu sua voz distante. A sua frente uma Alura irritada o encarava com a mão ainda erguida no ar, seus olhos quentes aquecendo sua alma, seu nariz arrebitado a dando um ar imponente, os seus lábios cheios pedindo para serem tocados. Mas o seu olhar... O seu olhar estava preocupado. Preocupado com ele.
Aquilo o tocou de forma imaginável.
— Você tem a minha palavra, Alura — sua voz soou diferente aos ouvidos de Alura causando uma pequena dor em sua marca, porém, antes que tivesse a chance de perguntar o que havia de errado, ele apertou sua mão com firmeza. Seu toque era quente e macio, contrastando com sua força e sua mão viril, máscula. Era doce demais para um homem com o seu poder. Ela ofegou levemente.
— Clark, você…?
— Tem a minha palavra — disse novamente, baixo, parecia divagar. Os seus olhos estavam feridos, a sua voz levemente afetada. Alura franziu as sobrancelhas em confusão, mas não contestou, pensou que talvez não quisesse saber, talvez porque isso a tocasse também. O coração de Clark sangrava. Porque ele sabia que era incapaz de negar qualquer coisa a ela mesmo que isso o machucasse.
Mesmo que isso significasse deixá-la ir por uns tempos.
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