You Rock My World
16 XVI
Notas iniciais

Torturado era um eufemismo para definir seus sentimentos recentemente.
Clark Kent não costumava ser um homem impaciente, ele não podia deixar de enfatizar isso para si mesmo pois não estava acostumado com o sentimento desde a sua adolescência, de fato internamente se gabava pelo seu honroso temperamento diante seus obstáculos, o que não eram poucos considerando o fato que não pertencia ao planeta terra. Mas inesperadamente o seu bom temperamento estava sendo ruído ás beiradas com uma lentidão esmagadora. Alura, sua pequena mulher de temperamento forte, tinha a incrível capacidade de manipular o seu humor mesmo á distância, e embora soubesse que a ligação que os tornaria um só exigia tempo e paciência ele aos poucos não se considerava mais apto á cumprir seus requisitos. Alura era dele, era assim que as coisas deveriam ser e embora ele compreendesse a sua relutância, o seu eu apaixonado e eufórico, tal como a primeira vez que perdera a virgindade, o olhava com repreensão a cada dia que passava. Alura lhe pedira um tempo, espaço, ela precisava respirar diante ás novas descobertas e ele realmente entendia, ser compreensivo era uma das suas qualidades pessoais, era algo qual ele a daria por anos se assim ela quisesse desde que ela não o repelisse mais.
Ou assim ele pensava.
Clark não contava com a agonia da lentidão dos dias.
Ele já esteve irritado antes, chateado, chegou á um ponto tão grande de impaciência que fora grosso com ás pessoas no seu trabalho, em casa, quando ainda estava com Lois, e com pessoas inocentes qual nada haviam a ver com os seus problemas pessoais. Mas era diferente agora, era mais agoniante, era mais intenso, era mais... depreciativo. Antes ele não pensava que teria uma oportunidade tão cedo, antes ele não havia tido confirmação da sua pequena mulher. Ele deveria saber que para Alura ceder tão facilmente ela havia armado algo que o prejudicasse, mesmo que inconscientemente.
O obstáculo do longo tempo fora um golpe baixo, inesperadamente o nocauteando como um soco certeiro. Os segundos pareciam horas, as horas pareciam dias, os dias pareciam meses. Ele estava irritado, infernalmente irritado, e irritação não era algo que ele estava acostumado a sentir com tanta frequência, principalmente porque estava impotente diante da situação, principalmente porque ele não poderia fazer nada em relação a isso porque ele prometera lhe dar o seu espaço, e promessas não era algo que ele fazia levianamente. Entretanto ficar em casa era um martírio, ás paredes o sufocava, visitar a sua mãe e cuidar da vasta plantação de milho dos Kent já não lhe trazia calma alguma, o trabalho no jornal não rendia como deveria e se não fosse as pessoas necessitando de ajuda ao redor do mundo ele tinha certeza que enlouqueceria.
Alura tinha um poder sobre sua mente qual ela não sabia que tinha, e por Cristo, ele estava sendo modesto mais uma vez; na verdade ela tinha poder sobre o seu eu todo. Ela mexia com sua cabeça de formas qual pensou que não seria possível, ele estava na borda do precipício com os últimos acontecimentos. Sua mulher aparecia em seus sonhos, confundia-a com rostos nas ruas, as vezes achava ouvir a sua doce — e sempre irritada — voz soar perto dos seus ouvidos e (que nenhum sanatório descobrisse) jurava ter a visto perambulando em sua kitnet dias atrás. Ele não pensaria em seus sonhos, sonhos quais ela aparecia com nada além de uma fina camisola de seda, seu corpo curvilíneo aparecendo através do fino pedaço de pano, necessitada, carente, excitada, pedindo para torná-la sua.
Não, ele não pensaria nisso. Era um fantasma forte demais para ele exorcizar sozinho.
Como um homem calmo, muitas vezes tímido, ás pessoas não imaginavam o que se passava pela sua cabeça. Para o bem delas, porque ele tinha uma certa fraqueza pelo sexo. Porém o fato de poder matar a sua parceira com a mínima investida mal calculada pela sua força o fazia reprimir os seus desejos, ás suas vontades, suas loucas vontades de se enterrar dentro de uma mulher até cair exausto na cama. Isso nunca aconteceu com ele, pensara que nunca aconteceria e havia aceitado o fato de viver eternamente insatisfeito. Mas Alura, ah, sua doce Alura era a sua prometida, seu corpo seria inevitavelmente preparado para os seus desejos reprimidos de transar loucamente até a exaustão assim que a fizesse dele. Ela não era o seu objeto, longe disso, ele jamais pensara nisso sequer por um segundo pois além de amá-la e respeitá-la ele pretendia fazer com que ela o desejasse ardentemente antes de revindica-la, ele ouviria o seu consentimento plenamente consciente antes de avançar.
Mas a possibilidade de poder fazer amor com a pessoa que ama, pessoa qual aguentaria ás suas investidas, pessoa qual o desejaria com a mesma intensidade que ele a deseja fazia seus instintos mais primitivos querer rasgar a sua carne pra fora do corpo. Ele não podia contar nos dedos quantas vezes havia se masturbado aquele mês. Era vergonhoso, claro, sentia-se terrível depois, não estava acostumado a agir como um adolescente desde a perda do seu pai. Mas o que ele poderia fazer se não conseguia olhar para nenhuma outra mulher? Se nenhum outro corpo, cheiro, sorrisos e personalidade o atraía? E mesmo que o atraísse, ele jamais trairia Alura mesmo que ainda não estivessem num relacionamento. Seu subconsciente se recusa a se deitar com qualquer outra mulher além dela. E a excitação dura e latente em suas calças ás madrugadas da vida não o deixava descansar em paz, principalmente depois de vê-la em sonhos implorando para que ele a tomasse para si.
A única coisa qual ainda o acalmava era ouvir o doce e suave som da sua respiração quando dormia, era a ouvir resmungar pelos cantos da sua casa sobre como sua amizade com Rosaly não poderia ser uma boa influência e sobre uma infinidade de coisas que a irritavam, era vê-la sair para trabalhar todo dia de manhã com o rosto sonolento sempre sério. Era assisti-la de longe. Ele não fazia isso com muita frequência, claro. Ele não é um maníaco, a ideia de vigiá-la por minutos afim, mesmo que agradável, era invasivo e isso era contra os seus princípios, ele não era esse tipo de homem e não queria usar o privilégio dos seus poderes para vigia-la nas sombras. Por mais que quisesse — e faria, se assim ele decidisse — ficar a vigiando por horas a fio ele não dormiria com sua consciência o acusando de perseguição, ele jamais se perdoaria se a assustasse mais ainda, perdendo de vez a oportunidade que tão relutantemente lhe fora dada.
Era uma linha de pensamento nobre e honrosa qual ele firmemente lutava diariamente para manter no lugar, e seria fácil se ele tivesse certeza absoluta que a única coisa que o impedia de vigia-la fosse os seus princípios. O inferno sabia que se o próprio não estivesse tão ocupado com sua dupla identidade e o caos que o mundo beirava, ele não sairia mais da sacada da sua janela, até porque a marca que os ligava, ás vezes, chegava a um pico tão grande de estresse que ele achava que iria ceder aos joelhos. Ele não era um perseguidor, mas diante os últimos acontecimentos a sua relutância em deixá-la só era quase sufocante.
Segundo a ligação que os unia sua Alura estivera em perigo por três vezes esse mês, perigos quais ele não pôde defende-la diretamente. Estava próximo quando um ladrão tentou aborda-la indo ao trabalho a três semanas, longe o suficiente para que ninguém o notasse, se certificando que ela não se machucaria. O fato que o surpreendeu fora o soco certeiro que a mesma dera no assaltante antes de correr. Ele não podia deixar de se orgulhar. Quando ela estava longe demais para vê-lo ele abordou o rapaz que praguejava palavrões contra a sua morena enquanto segurava o rosto com força, entregando-o a uma delegacia de polícia mais próxima. A outra vez fora quando ela estava no trabalho, e os céus sabia o quão furioso ele ficava ao pensar nesse caso em particular. Ele estava em seu próprio trabalho quando sentiu a queimação característica dentro do seu peito, a queimação que ficava mais forte a cada segundo. Talvez fora a vez que seu coração mais tenha disparado fazendo-o quase invadir o seu trabalho é tirá-la de seja lá o que tivesse a prejudicando.
Ele pousou um prédio antes da editora qual Alura trabalhava, seus cabelos bagunçados fazendo cócegas na sua nuca e testa, sua respiração forte, tensa. Ele esperou. Sentiu os batimentos do coração da sua amada no primeiro andar, provavelmente o lugar dos escritórios principais. Ele sentia seu batimento acelerado, temeroso. Quando os segundos se tornaram minutos e a sua paciência tinha ido ao inferno, firmemente decidido a invadir o prédio não importando quantas pessoas ele teria que arrastar do caminho, ele a sentiu novamente. Já havia a sentindo outras vezes naquela semana, era um toque íntimo qual ela mesma descobrira, mas era diferente dessa vez. Mais quente, mais solitário, mais… medo. Sua preciosa mulher estava com medo e ele não poderia fazer absolutamente nada para consola-la. Amaldiçoada seja a distância e a promessa que ele fizera de ser paciente! De qualquer forma o toque fora apaziguador, fora reconfortante, sentiu como se um balde de água gelada tivesse sido derramada sobre os seus ombros depois de um mês rastejando nas areias do Saara. Como se uma mão quente e suave acariciasse o seu coração, como se sua voz sussurrasse em seu ouvido pedindo para que se ficasse longe, avisando-o que ela estava bem agora. Era mágico.
A ligação entre eles e tudo que a envolvia era linda.
Mas apesar de tudo, ele não esquecera o fato. Alura esteve em perigo dentro do seu próprio local de trabalho e futuramente ela não fugiria das suas indagações sobre esse dia infernal para ambos.
A terceira vez que sentiu a queimação característica na região do coração fora quando ele estava infernalmente longe, do outro lado do estado impedindo um prédio em chamas de cair machucando ainda mais civis, consequentemente derrubando ainda mais prédios. O lugar não fora evacuado a tempo depois de um helicóptero pifar ás hélices se chocando contra o condomínio, e enquanto ele mantinha a muralha de blocos longe de outros inocentes o corpo de bombeiros fazia o seu trabalho de resgate. Naquele momento ele entrou em pânico, seus nervos se contorceram em câimbras quando ele não pode atender ao chamado da sua pequena de imediato.
Como sua destinada e ele o seu pilar, era sua obrigação protege-la de qualquer coisa que pudesse feri-la, qualquer coisa que a prejudicasse. Isso vinha de dentro, um instinto puramente incontrolável, talvez porque de fato ele a amava e não suportaria a ideia de vê-la machucada. Era mais do que a proteção que o laço deles exigia, até porque os Kryptonianos nunca antes se envolveram ou se ligaram a uma raça, tecnicamente, inferior. A ligação entre um destinado e outro era simplesmente alertar, avisar, porque naturalmente o outro cônjuge seria perfeitamente capaz de se defender. Mas era diferente com Alura, ela era uma humana sem poderes, a ligação deles era única, jamais um filho de Krypton havia sido destinada a uma criatura frágil antes, ela poderia ser tirada dele a qualquer momento se não tomasse os devidos cuidados. E ele a amava, amava infernalmente tão certo quanto o amanhecer, tão certo quanto a necessidade de ar. Era seu dever cuidar do seu bem estar físico e mental até o último suspiro de ambos. Não porque era uma obrigação da ligação, mas sim porque ele havia se comprometido a si mesmo.
Mas sim porque ele a ama.
Fora coisa de minutos, apesar de todo o sufoco da situação. Quando os reforços do corpo de bombeiros e da polícia militar chegou para evacuar o local devidamente, quando o último civil fora retirado ileso do condomínio e das ruas e ele enfim pode deixar o prédio desabar, ele voou ultrapassando a velocidade do som ao local onde sua pequena o chamava, seu peito ardendo como brasa, seus músculos doendo. Ele estava levemente ofegante quando voou sobre os ares do local, e a situação qual ele a encontrou fora um tanto inusitada; Ás quatro horas da manhã Clark só teve tempo de vê-la entrar em um táxi às pressas mandando o taxista acelerar com um homem corpulento correndo atrás gritando furioso enquanto a insultava de nomes obscenos, o veículo saindo em disparada logo em seguida deixando-o para trás. O homem fez um som irritado enquanto segurava seu nariz com força que, só agora, Clark percebeu que sangrava em abundância.
Aquilo sim parecia um trabalho da sua Alura.
Sem conseguir conter seus instintos preocupados de um homem apaixonado e do senso de justiça qual tinha encravado em seu ser, ele não demorou a abordar o rapaz.
— Com licença, senhor — disse flutuando até o homem parando á poucos centímetros do chão, sua capa fazendo festa às suas costas. O homem se virou com velocidade, assustado, dando três passos para trás e tropeçando em seguida, caindo de costas no chão e o olhando com ódio.
— Maldito fodido bastardo! Qual é a porra do seu problema? — Clark ignorou os seus insultos, seus nervos preocupados somente com sua mulher. O homem levantou resmungando.
— Eu sou-
— Eu sei quem você é, engomadinho. O alien maldito que vive de favor em nosso solo. Aposto que está irradiando câncer para nós nesse exato momento, não é? — ele cuspiu sangue no chão — Bastardo...
Clark quase rolou os olhos frustrado, contendo a raiva que queria florescer em seu âmago. 'É claro que esse cara tinha que ser um ativista contra a minha existência', pensou chateado.
— Aquela moça entrou no táxi com pressa, parecia com medo — soou firme, seus músculos exalando autoridade — O que aconteceu por aqui?
Por um momento o homem a sua frente esqueceu a repulsa que sentia por Superman, seus olhos se transformando em ira de um segundo para o outro enquanto esbravejava.
— Aquelas duas vadias malditas! Elas vão ver, isso não vai ficar assim, ninguém faz o velho Bill de idiota. Eu vou acabar com a raça delas. Principalmente a da morena desgraçada!
— O que tem a morena? — Clark pousou no chão enfim, dando um passo predatório em direção ao homem corpulento o fazendo recuar ao voltar a realidade e perceber na presença de quem estava. O rosto sério do herói quase o amedrontou.
— Uou, uou, meu camarada! Alto lá! Eu fui uma vítima aqui, não vê meu nariz? Aquela puta o quebrou! — Clark travou a mandíbula com raiva. Sabia que o temperamento da sua mulher era forte, mas com certeza ela não é uma daquelas malucas que saem por aí distribuindo socos gratuitos. Algo sério havia acontecido para que ela escapasse do local com tanta pressa deixando um homem de aparência suspeita com um nariz ferrado.
— E por que? — sua voz soou séria, amarga, não gostando nada dos apelidos sujos que o homem atribuía a sua senhora.
— Como é que eu vou saber? As mulheres de hoje em dia estão loucas, cara. Loucas! Tudo se doem, tudo é abuso, tudo é machismo. — ele cuspiu no chão com desgosto a pronuncia da última palavra — Depois dessa historinha de empoderamento feminino não se pode mais tirar uma casquinha que já fazem um puta escândalo! — Bill gesticulou a sua frente, seus olhares afiados e seu rosto raivoso não agradando o Superman.
— "Tirar uma casquinha"? Você a tocou? — ele retumbou cortando o silêncio das ruas, duro, autoritário.
Bill o olhou com deboche.
— E o que te importa? A cadela é sua por acaso? Não fode, viadinho!
— Acho bom controlar a sua língua, senhor. Não permitirei que a desrespeite! — grunhiu com firmeza, seus olhos se apertando no processo.
Como um ser de força superior ele normalmente não reagia a provocações, visto que um soco seu causaria grandes danos a um prédio ele evitava ao máximo se irritar por bobagem. Mas era a sua senhora que aquele homem estava desrespeitando, ele não fora preparado pra ser frio perante essa situação.
— Você a tocou? — repetiu duramente.
— Quem é você? Doutor Phil? Se for um interrogatório eu quero que meu advogado esteja presente, camarada. Agora tire sua bunda cheia de lycra da minha frente antes que eu perca a paciência e acabe com sua raça amaldiçoada!
— Vou repetir do mais uma vez e pro seu bem espero que responda — soou baixo, ameaçador, seus 1,90 crescendo ameaçadoramente sobre o homem que o olhou amedrontado, surpreso com a repentina ameaça. O rosto de Clark escureceu com a raiva, seus olhos brilhando em luzes vermelhas lá no fundo da suas íris — Você. A. Tocou?
Seu tom sombrio fez os pelos da nuca do homem se levantarem e o brilho assassino em seus olhos o dizia para não brincar com a sorte. O homem engasgou temeroso. Ele realmente não esperava que o herói sempre prestativo o olhasse com aqueles olhos, os olhos de um assassino. Lembrou-se naquele instante das cenas que viu na tevê quando o alien fora anunciado, do mesmo quebrando o pescoço do seu igual qual tinha uma força equivalente a dele. Bill tremeu.
— Eu não queria nada com aquela vadia, eu juro! Queria comer mesmo só a amiga dela, mas aí ela já apareceu na violência! E e-eu não queria desperdiçar mulheres que vem de graça né, amigo.
— O que disse!? — Clark o segurou pelo colarinho da sua jaqueta e num piscar de olhos empurrava o homem suspendido contra uma parede do outro lado da rua. Olhos nos olhos. — A história desde o começo. Fale!
— E-Ei, calma aí, meu chapa! Eu não fiz nada demais, só queria um pouco de diversão!
— A TOCOU? — gritou. Bill tremeu a sua frente.
— Não, não, eu juro! E-Eu vou contar o que aconteceu, mas não me mate, por favor — choramingou. Clark assentiu duramente. Por mais que ele soubesse que não iria matá-lo aquele era um péssimo momento para testar os limites da sua bondade — Estavam caindo de bêbadas às duas, eu as ouvi conversando uma esquina acima de onde eu estava. Aí a loira apareceu do meu lado falando coisa com coisa, mas era tão bonita a vadia. Eu só estava flertando, cara, juro! Aí a morena desgraçada apareceu e me chutou nos ovos, nos ovos! Em seguida me socou o nariz e saíram correndo.
— Foi só isso? Você não a machucou? — apertou os dedos no colarinho do homem o fazendo engasgar.
— Foi, foi, juro que sim! Não a toquei!
— Bom. — o soltou lentamente, relutante em deixá-lo ir. O homem caiu no chão num baque mudo, desorientado. Clark o olhou de cima — Não encoste naquelas duas garotas de novo e em nenhuma mais contra as suas vontades! Entendeu?
— Sim, senhor. — Bill assentiu trêmulo, suor escorrendo de sua testa.
— Ótimo. Vá para casa — e ele levantou voo, mas não muito longe, o suficiente para se esconder entre as nuvens. Os seus instintos quase nunca o deixou na mão e nesse momento eles gritavam para não deixar esse homem sozinho, seu corpo se negava a ir pra casa antes de vê-lo partir. Concentrou sua super visão e audição no homem ainda no chão.
— O inferno que eu vou obedecer a um boiola clandestino — ele se levantou tropeçando sobre os pés, batendo a poeira da sua roupa — Aquele táxi é fixo nesse ponto, quando ele voltar faço questão de obriga-lo a me deixar onde as duas putas ficaram.
Ele acendeu um cigarro e sorriu passando a língua nos lábios sujos de sangue enquanto se escorava no muro qual antes estava sendo esmagado.
— Tsc! Por um momento pensei que aquele maldito fosse mesmo me matar. Clandestino idiota, sempre fazendo bagunça em lugares que não o pertence — ele cuspiu no chão desgostoso — Bastardo.
Ele continuou a fumar por alguns minutos, logo voltando as suas divagações.
— Aquela morena é uma maldita mas muito mais gostosa que a loira, farei questão de fode-la de todas os jeitos até que ela aprenda a respeitar um homem — ele alisou os testículos por cima da calça enquanto um sorriso puxava os seus lábios — Vou marcar aquele lindo rostinho, mostrar o quanto o meu punho pode fazer um estrago também. Ela vai ver só.
Geralmente Clark não daria uma de herói em situações corriqueiras. Perante á situações de roubos ou abusos ele chamaria a polícia e, se houvesse reféns, ficaria até o fim pra se certificar que ninguém saísse machucado. Mas era sobre a sua mulher que aquele homem falava de jeito tão sujo, era sobre a sua mulher que ele pensava quando seus olhos enegreceram de tesão e expectativas, era sobre a sua mulher que ele falava quando sussurrava ameaças sujas e violentas.
Sua mulher.
E mesmo que seus princípios gritassem para ele chamar a polícia e ir embora antes que machucasse um civil, ele não os ouviria. Não, não hoje, não agora. Não quando sabia que esse homem estaria nas ruas de novo em menos de três dias, não quando havia uma possibilidade do mesmo encontrar sua amada, não quando sabia que, se sua querida mulher não fosse a fera que era, ela poderia ter sido violentada e largada num beco sujo. Não. Ele não deixaria passar porque além de Clark Kent o amigo de todos ele era Kal-El, filho de Jor-El, o último kryptoniano vivo e o único homem ligado e destinado por direito a Alura Murray.
Sua mulher.
E ele defenderia a sua honra até o fim custe o que custar. Mesmo que se arrependesse depois.
Por via das duvidas ele esperou mais uma hora para não se precipitar em suas ações, rezando internamente para que aquele homem tivesse um breve momento de lucidez e fosse embora. Porém suas esperanças morreram quando o mesmo táxi em que sua mulher partira virou a esquina. O homem se deslocou da parede qual estava apoiado sorrindo triunfalmente.
— Já era hora — murmurou. Clark lamentou internamente dividido entre fúria e relutância. Ele temia passar dos limites, mas estava convicto em suas atitudes. Ele não recuaria.
— Pensei ter pedido que voltasse para casa, cidadão — Clark pousou silenciosamente as suas costas vendo o homem pular assustado novamente.
— Diabos! — se virou com os olhos arregalados — Qual é a sua cara? Não cansa de ficar atrás dos outros?
Clark ignorou a ambiguidade clara qual o homem se referia.
— Volte para casa, senhor. Por favor.
— Eu tenho o direito de ir e vir como qualquer cidadão americano, meu chapa! — cuspiu. Clark fechou as mãos em punhos, sua mandíbula se apertando enquanto sua paciência começava ruir — E-Eu vou pegar um táxi para ir embora, amigo. Juro
— Mentiras!— retumbou — Eu sei que está atrás das moças que saíram daqui. Eu o aconselho que deixe-as em paz, não torne a situação pior para você do que ela já está.
O homem o olhou incrédulo, suas feições mudando para cinismo em segundos.
— E se eu estiver? Isso não é da sua conta! Volte pro buraco de onde veio, alienígena desgraçado. O único que não tem direito de nada aqui é você. — sorriu triunfante — Acha que pode chegar no meu planeta e querer as prostitutas daqui só para você? Tem mulher pra todo mundo, meu chapa. Vá traçar às suas porque eu vou atrás daquelas duas, e você e sua fuça cancerígena não se intrometa! Alienigenazinho de merda.
Clark não respondeu. Infelizmente á sua invejável paciência o deixou antes que o pequeno e ofensivo discurso do homem terminasse. Ele sabia que iria se arrepender, ele sabia que não deveria usar os seus poderes levianamente; mas ele não era ele nesse momento, não quando a honra da sua mulher estava sendo poluída por aquele homem, não quando ele poderia ter violado a sua amada. Ele não seria benevolente. A risada do velho Bill morreu aos poucos ao ver seus olhos escuros de ódio.
— Vamos dar uma volta, "meu chapa" — antes que o homem pudesse assimilar o que as palavras do forasteiro significavam ele se viu inesperadamente cortando os ares, Superman o segurando pelo pulso num aperto de ferro. Quando caiu na realidade da situação ele gritou, berrou em plenos pulmões ao ver a cidade iluminada de Metrópolis desaparecer sob seus pés, o ar não passando corretamente por suas vias respiratórias.
— Por favor, por favor! — gritou desesperado quando sentiu-o parar acima das nuvens, medo correndo suas veias como lava fervente. Seu sangue pulsava com tanta força que fazia pressão nos seus ouvidos. Clark o olhou com descaso.
— 'Por favor' o que?
— Me deixe ir, por favor! — choramingou, seus olhos descendo lágrimas como rios, em nada aparentando o valentão de segundos atrás.
— Como quiser — e ele fora solto. Sentiu-se despencar numa velocidade que aumentava cada vez mais, o vento assobiava em seus ouvidos, ele não conseguia respirar, seus gritos roucos e desesperados cortando o silêncio das nuvens. Quando achou que era enfim o fim da sua vida miserável, sentiu sua perna esquerda ser agarrada, seu corpo de cabeça para baixo. Clark o observou cair com um sentimento quase sádico de contentamento, voltando a si mesmo antes que o homem chegasse ao chão. Ele jamais machucaria mortalmente um civil ao menos que fosse estritamente necessário.
— Pelo amor de Deus, me deixa ir embora — murmurou trêmulo, desespero eminente na sua voz.
— Voltará a atacar mulheres? — sua voz continha um tom grosso, rude, superior. O homem tremeu da cabeça aos pés.
— Não! Não! Nunca mais na minha vida, eu juro! Por favor, me deixe ir! Por favor! Inferno, eu tô me mijando aqui!
Clark revirou os olhos perante a visão, despencando lentamente até, enfim, pousar no chão com suavidade. O homem vomitou em abundância, chorando e tremendo com as calças molhadas. A visão era digna de pena.
— Com tanta mulher e eu fui logo me meter com sua mina — murmurou choroso. Clark o olhou levemente surpreso com sua declaração, mas não o desmentiu.
— Espero que tenha aprendido — soou firme
— Eu aprendi, eu aprendi! Por favor, me deixe em paz!
— Nunca mais toque numa mulher sem sua permissão, nunca mais as faça se sentirem coagidas. Principalmente aquelas mulheres, estamos entendidos?
O homem assentiu choroso, soluçando, prometendo veementemente nunca mais tocar numa mulher sem o seu consentimento, implorando para que ele fosse embora. Satisfeito, embora já sentindo uma pequena parcela de culpa querendo invadi-lo, Clark partiu direto para o terraço da sua amada. Segundos depois ele já ouvia as respirações pesadas e bater de corações suaves vindos do quarto da sua pequena, sabia que Rosaly estava com ela. Estava feliz que enfim estivessem juntas novamente.
Entrou sorrateiramente pela varanda sempre aberta e a passos surdino caminhou até ela, suas narinas imediatamente sendo invadidas pelo o cheiro doce da sua senhora. Se ajoelhou ao seu lado vendo seus traços finos suaves no mundo dos sonhos, alisou suas madeixas bagunçadas e sorriu ternamente. Era uma leoa acordada mas um anjo dormindo, seus traços aristocráticos não a lembrava em nada a pugilista que era quando precisava se defender. Ele não deixava de se maravilhar com a mesma, a adrenalina que bombeava as suas veias á segundos atrás diminuindo gradativamente, a raiva e a fúria se dissipando rapidamente como se nunca estivessem lá.
— Estou orgulhoso de você — murmurou rouco, seu tom contendo paixão, submissão, redenção. Estava em casa ao lado da sua amada — Tão forte, tão selvagem, tão bela, tão... Minha — se aproximou e beijou sua testa levemente, quase um roçar de lábios sôfrego — Mas garanto que chegarei a tempo da próxima vez, me perdoe por demorar. Ninguém a machucará enquanto eu viver, querida. Ninguém. É o meu dever protege-la.
Beijou sua testa mais uma vez tirando alguns fios de cabelos do seu rosto e murmurou.
— Estou no meu limite, Lua. Por favor, não me faça tomar ás rédeas da situação, você não irá gostar — sorriu alisando ás suas bochechas e se afastou contemplando um suspiro longo e profundo que sua amada deu.
Ele sorriu novamente, tocando a marca que os ligava com adoração por cima das roupas sentindo-a vibrar em reconhecimento sob os seus dedos. Estava feliz, a ligação de ambos estava feliz com o seu toque, sabia que Alura também. Se levantou lentamente, como sempre relutante, e partiu sem olhar para trás. Fora a última vez que a viu, e isso já faz muito tempo. Ele estava na borda. Não sabia quanto tempo mais aguentaria. Estava quase mandando seus princípios a merda e indo atrás da mesma.
Uma parte de si, mais especificamente a sua cabeça, estava horrorizado consigo mesmo. Quando se assumiu um herói jurou para si mesmo jamais usar os seus poderes para machucar/coagir/amedrontar um terráqueo a menos que fosse estritamente necessário, a menos que mais vidas estivessem em risco. Sentia-se enojado dos seus atos ao lembrar o rosto lavado de lágrimas do homem e da felicidade sádica que teve ao contemplar tal cena naquele momento, isso com certeza não faria com que a humanidade o visse com bons olhos, a imagem o causou insônia por varias noites. Outra parte entretanto, o seu coração, saltava de orgulho. Estava em festa, em júbilo! Havia mostrado ao homem que ameaçou a sua mulher que não deveria sequer pensar na mesma de forma imunda, o pôs em seu lugar. Seu coração estava em paz. Seu coração estava de acordo com seus atos defensivos.
Ele nunca se sentiu tão frustrado entre suas emoções.
— Estás aflito, meu filho. O que há de errado?
Se surpreendeu ao ouvir a voz do seu pai Jor-El. Por um segundo havia se esquecido de onde estava nesse momento. Sua mente desanuviou a medida em que retornava ao corpo, concluindo que estava em sua nave agora e passara muito tempo refletindo os acontecimentos das últimas semanas. Seu pai, ou o que um dia ele fora, estava ao seu lado em tradicionais e nobres roupas do seu planeta natal o olhando com olhos repletos de amor e sabedoria. Clark sorriu melancólico.
— Não me diga que são rumores terráqueos novamente? Aquela revista qual publicaram fora simplesmente baixo e vil, sabe que não deve deixar que manchem sua reputação.
— Não, não é isso, pai. Não se preocupe. — suas sobrancelhas se franziram com raiva ao se lembrar do fiasco dos rumores que cobriram Metrópolis dias atrás. Ele não podia deixar de ficar chateado, imaginar Alura lendo algo tão sujo e mentiroso como aquilo fez seus nervos ficarem a flor da pele por dias evitando até mesmo de visitá-la. Sabia que não aguentaria e bateria na sua porta com a desculpa de se explicar, implorando para que ela não acreditasse naquelas sandices. Ele jamais tocaria numa mulher com segundas intenções que não fosse a sua Alura.
— Então o que há, Kal-El?
Clark suspirou audivelmente.
— Minha prometida, meu pai — declarou cansado, como se aquele assunto já tivesse sido remoído por várias vezes com seu genitor.
— Ela está ferida? — Jor-El preocupou-se.
— Não! Por Deus, não — murmurou agitado. A ideia da mesma machucada o tirava dos eixos.
— Então o que há, meu filho? Há horas estás sentado aí afundado em agonia. Passara o dia todo na nave, não comeu, sequer fora trabalhar. Você nunca antes fora negligente com suas obrigações, Kal. Vamos, conte-me. Talvez eu posso ajudá-lo.
Clark sorriu em agradecimento.
— É só que... — sua voz morreu. Não queria parecer fraco perante o seu pai, o cientista e guerreiro mais renomado da falecida Krypton. Jor-El ergueu uma sobrancelha esperando por minutos, Clark enfim se rendendo ao seu olhar persuasivo. — Ela está me enlouquecendo, pai!
Exasperou-se. Jor-El sorriu compreensivo perante a agonia do seu filho.
— Elas sempre o fazem, não é mesmo? Benditas sejam as mulheres e seus poderes sobre nós.
— Ela me afasta quando me quer perto, me ofende mesmo quando não quer, me evita. Estou enlouquecendo, pai. As vezes sinto minha sanidade escorregar pelo os meus dedos. Ela passou por perigos quais eu não pude prever ou protegê-la devidamente simplesmente porque ela não me permite aproximar, e pela ligação sinto que isso afeta a nós dois. Dói, pai. Meu corpo, minha mente, tudo dói infernalmente. Sinto meus pensamentos me levarem para lugares mais obscuros quando a saudade aperta, eu preciso dela!
Jor-El suspirou contrariado.
— Eu avisei a sua mãe que isso aconteceria. Você não está pronto, Kal. Nenhum dos dois estão! Ambos não sabem como reagir perante a marca que os une. A ligação de alma dos Kryptonianos é de longe o poder de junção mais forte de muitos mundos, senão o de todos. Até para nós que fomos orientados desde a tenra idade a ligação ainda é temida, embora ansiada. Por mais que seja lindo e divino nos exige muita paciência e compreensão, coisas que só aprendemos com o tempo. Não era pra vocês terem se conhecido numa situação tão grave, não era pra você ficar sabendo de forma tão rude, simplesmente não era pra acontecer agora.
Seu pai, embora pensasse que fosse incapaz de demonstrar sentimentos considerando que o mesmo era apenas uma memória, parecia conflituoso a sua frente. Clark já havia ouvido várias e várias vezes sobre o laço que unia dois destinados de acordo com as histórias e tradições do seu povo e sabia que uma ligação forçada fazia ambos os destinados e seus relacionamentos correrem riscos, e seu pai, como cientista, guerreiro e um homem tradicional, ex membro do conselho dos anciões, respeitava ás ordens naturais das coisas acima de tudo. Fora essa paixão pela naturalidade que Clark fora concebido de um parto contrariando as leis do seu planeta, afinal. Porém, apesar de entender o ponto de vista do seu pai, não podia deixar de agradecer a sua mãe por ter mexido com o seu destino. Pensando bem ele ficaria muito infeliz se encontrasse Alura possivelmente com outro alguém e ele nada poderia fazer já que, possivelmente, estaria casado com Lois e até mesmo com um filho em seus braços. Ele agradecia a atitude da sua mãe mais do que imaginava ser grato.
— Você sabe que o amo e admiro, meu pai. Você é minha inspiração. Mas com todo o respeito do mundo, se não fosse agora, quando seria? Eu já tenho trinta e três anos e estava prestes a casar. Sabe-se lá quanto tempo teríamos que esperar? Quanto tempo fosse demorar? Quão longe a vida dela seria de mim daqui a uns anos? Sabe que os terráqueos amadurecem e envelhecem de forma rápida em comparação a nós. A ideia de encontrá-la com a vida construída ao lado de outra pessoa me esmaga o peito, sei disso porque me senti atraído a ela desde o primeiro segundo. Eu não aguentaria ver outro a amando no meu lugar. No final — ele suspirou exasperado — Acho que mamãe fez certo, na verdade sou eternamente grato. Agora que a conheci não vejo um mundo sem ela.
— Ela sempre estava certa, não é? — seu pai murmurou saudoso — Leve isso para o resto da vida, Kal: elas estão sempre certas, mesmo quando estão erradas. Contorne a situação ao seu favor, mas nunca as deixe pensar que você sabe que elas estão erradas.
Clark sorriu ternamente junto com o seu pai. Jor-el afagou o seu ombro com carinho.
– Eu o admiro, meu filho. Você já é o homem qual eu não fui na sua idade. Eu compreendo a sua forma de pensar, ás vezes me foge a memória que a vida terráquea é demasiada rápida, como um sopro em comparação a nós. E embora eu ainda prefira a forma tradicional dos laços se juntarem eu também concordo que sua mãe, de certa forma, fez o certo. Ela era uma mulher incrível, seus olhos podiam ver muito mais além do que nós. Eu não poderia pedir esposa e mãe do meu filho melhor do que ela foi.
— Você fala com tanto sentimento sobre ela, pai. Com tanta paixão. Quando será que eu e minha prometida teremos os nossos momentos juntos também? Penso em tantas possibilidades, sonho com tantas coisas. Tem sido difícil acordar e sentir o vazio pulsante em meu peito — sussurrou pesarosamente levando a mão direita acima do coração — Meu corpo dói, minha cabeça dói, minha alma dói. Tudo protesta contra a nossa distância, tem sido difícil a cada dia que passa. Ela não sente com intensidade desde que nossa relação não fora consumada, mas para mim é quase esmagador, pai. É terrível.
Declarou choroso. Num suspiro compreensivo, seu pai sentou-se ao seu lado.
— Não foi fácil com sua mãe também — ele confessou ganhando sua atenção — Lembro-me da primeira vez que nos vimos. Nunca antes havia presenciado estar na presença de uma criatura tão bela, tão magnífica! Ela era uma moça inteligente, forte. Uma guerreira de várias formas. Queria ser independente, livre a qualquer custo. Sua mãe... Queria quebrar nossa ligação, Kal — soou obscuro em sua declaração. Clark voltou seus olhos rápidos ao pai, assustado.
— Tem como fazer isso? — perguntou horrorizado.
— Não deveria, mas há seres que manipulam ás mais baixas e obscuras magias em outros planetas, filho. E garanto que a separação de dois destinados é dolorosíssima, desumano, cruel e sujo. Geralmente um deles nunca suporta a solidão ou a dor da desfeita do laço e perece para a morte.
— Eu não sabia que era possível separar almas gêmeas. — disse temeroso — Não é um laço que ultrapassa a morte?
— Sim. Uma vez ligado a uma alma elas se pertencerão por toda a eternidade, até depois da morte de um ou ambos. É o laço mais belo e divino existente. E embora muito dos seus segredos ainda não foram desvendados, quando aprendemos a dominar a ligação eu garanto; não há nada que nos preencha mais na vida. O prazer é triplicado, o amor, a troca de pensamentos. É mais forte que qualquer casamento, Kal. É divino.
Os olhos envelhecidos de sabedoria do seu pai brilharam de nostalgia. Ele sabia que seu pai estava pensando na sua mãe agora.
— Então... — começou confuso — Como algo assim pode ser destruído?
— Magos negros de mundos muito distantes descobriram como romper a ligação, mas é desumano, é doentio, é o mal em pura forma. Diabólico. Não deveria ser algo que alguém queira cogitar estudar.
Clark suspirou ao ouvir o tom do seu pai, medo correndo em suas veias.
— Há chances de…? — sua voz tremeu se negando a terminar.
— Não — Jor-El o olhou tranquilizando-o — A prática é imunda e perigosa, não poderíamos permitir que tal pandemônio continuasse. Nós, guerreiros de Krypton e almas já ligadas aos nossos parceiros, fomos enviados numa longa missão de extermínio contra esses seres malignos. Executamos a maioria e, num ato de misericórdia, executamos os infelizes que separaram as suas almas também.
Clark olhou chocado para o seu pai. Não imaginava que ele teria sangue em suas mãos. Jor-El o olhou com compreensão.
— Entenda, meu filho. Não vale a pena viver uma vida sem metade de si mesmo, aquelas pessoas acabariam loucas, o rompimento de um laço já destinado é um pecado grande demais para aguentarem as consequências. Além do mais os magos são de planetas anos luz de distância daqui, jamais pensariam na terra. Vocês estão seguros dessa maldição.
Clark suspirou audivelmente. Alívio tomando seu corpo.
— Por que... Por que alguém iria querer tal absurdo?
— O amor é uma dádiva para poucos, Kal. — Jor-El lamentou num suspiro — Você pode estar ligado a uma pessoa, você pode se deitar com ela todos os dias e satisfazer os seus desejos, mas isso não significa que você ama o seu companheiro.
— Eu não entendo — disse perplexo — Me apaixonei por minha mulher assim que bati os olhos nela, senti a linha que nos une me laçar em sua direção de forma arrebatadora. Como alguém pode não amar a sua alma gêmea?
— É assim que deve acontecer, embora o peso dos seus sentimentos sejam mais intensos por terem sido antecipados. Mas nem todos amam os seus destinados, Kal. Acontece de quase sempre ter respeito, consideração, proteção, carinho, cuidado, mas o amor pode não vir. Não era uma novidade em nosso planeta, embora não fosse visto com bons olhos. Muitos casados com seus destinados amavam outras pessoas.
— Tinham amantes? — ofegou perplexo.
— Sim. E em algumas raríssimas ocasiões os destinados quem eram os amantes, usados apenas para preencher o vazio enquanto sua alma gêmea era casado com outra pessoa. Nunca me ocorreu, mas dizem que a dor de uma traição entre destinados é enlouquecedora. O Conselho não via esse ato com bons olhos, era uma luta dentro dos tribunais para criar leis contra a prática de casamento entre pessoas já comprometida com o laço de ligação com outras pessoas. Destinados devem ser prioridades, não amantes casuais usados somente para satisfazer a carne.
— Isso é terrível. — murmurou sobriamente — Não consigo imaginar tal coisa, pensei que destinados obrigatoriamente amavam os seus parceiros e ficavam juntos.
— O amor não é uma obrigação, assim como não pode ser controlado. É o que acontece quando se encontra o verdadeiro amor antes da sua alma gêmea. Alguns casos são trágicos. E não se pode obrigar dois adultos a conviverem juntos contra a sua vontade, filho. O laço é lindo, intenso, firme, maravilhoso, porém nem todos se permitem descobrir os seus segredos, nem todos se permitem dar uma chance ás suas almas gêmeas, nem todos são pacientes. Mas só os casos de verdadeiro amor, Kal. Uma paixão não pode tomar um prometido dos braços do outro. Foi o que aconteceu com você, sua prometida e sua ex noiva, afinal.
— Há… alguma chance da minha destinada não me corresponder, pai? — ele olhou em sua direção com olhos marejados, frágil como uma criança, sua voz falha. Jor-El sentiu seu peito doer com a visão do seu filho fragilizado.
— Sempre há essa chance, vocês não são exceção — os olhos de Clark morreram nesse momento, seu peito falhando uma batida. Seu pai o olhou com carinho — Não se desespere, Kal-El. Não terminei a minha história.
— Pai…
— Sua mãe não me amava — disse o cortando. Clark arregalou os olhos em descrença.
— Impossível!
— É verdade, filho. Ela não me aceitou quando nos conhecemos e eu a pedi em noivado, por muitas vezes me repeliu, me desprezou. Procurara até magos negros para desfazer o nosso laço.
— Minha mãe não pode ter feito isso, pai — negou descrente — Por que ela faria isso? Vocês viveram sem amor?
— Claro que não! — Jor-El sorriu ternamente — Sua mãe veio a me amar futuramente. Sua época de recusa é algo que ela muito se envergonha e pretendia jamais tocar nesse assunto uma vez que o superamos, mas você precisa de exemplos para seguir.
— Como isso aconteceu, então?
— Bem, eu não a deixei em paz, obviamente — ambos sorriam cúmplices — A persegui por cada canto de Kypton a todos os momentos dos dias, estava chateado pela sua decisão, recusava a aceitar sua falta de sentimentos. A persegui tanto que também me envergonho, eu era jovem na época, imaturo. Não sabia como lidar com a rejeição da mulher que eu amava e pertencia a mim por direito.
— E então? — perguntou envergonhado. Ele sabia perfeitamente do que o seu pai estava falando.
— Então — ele sorriu com as memórias — Eu me desesperei. Invadi a sua casa numa noite chuvosa, chorando como uma criança, a dor da rejeição pelo o meu amor me rasgando o peito, tentando faze-la me aceitar. Foi nesse momento que eu vi o nosso problema em seus olhos.
— Qual, pai?
— Medo, meu filho — disse sobriamente — Medo. O medo ofusca até o mais radiante dos amores se você não se esforçar para se livrar dele. Sua mãe estava com medo da nossa união, estava com medo de perder sua liberdade, estava com medo de deixar de ser quem era para "virar uma tola que suspira de amores sem vontade própria", palavras dela mesma.
— Por que ela pensaria isso?
— Krypton já começava a se deteriorar naquela época, meu filho. Nós que percebemos tarde demais. Os partos não eram mais naturais, os futuros das crianças eram rigidamente escolhidas antes mesmo que nascessem, as criaturas começavam a serem substituídas por máquinas, o laço não era mais levado a sério, casos de cortes de ligação estavam cada vez maiores. Amantes, traições, guerra, extermínio, nascimentos planejados dentro de úteros artificiais cujo os fetos jamais poderiam traçar os próprios destinos, pessoas morriam sem motivos nobres. As mulheres não ansiavam suas posições de esposa, os homens não ansiavam suas posições de marido fiel e protetor, entenda que no nosso mundo um casamento não era uma obrigação, era uma dádiva para poucos. Mas as pessoas não queriam mais esses destinos. Sua mãe igualmente temia. Na época ela havia perdido uma grande amiga para a morte ao enlouquecer com a dor da traição do seu cônjuge, um homem frio e cruel que não a deixava sequer pôr os pés fora da sua mansão por ciúmes da sua beleza mas se engraçava com outras kryptonianas diariamente. Ele quebrou a alma dela e ela pereceu, ela cometeu suicídio. Sua mãe ficou traumatizada, elas eram grandes amigas.
— Eu não pensei que… — ofegou. Por longos minutos ele não teve voz para continuar. Seu pai esperou pacientemente — …eu não imaginava. Nunca pensei, jamais cogitei que coisas assim aconteciam em Krypton. Por isso vocês dois não se salvaram, então. Queriam dar um fim a todo aquele ciclo.
Jor-El assentiuliz que seu filho compreendesse.
— O que você fez então.
— Tomei-a em meus braços e jurei-lhe amor eterno e anos depois, quando enfim ela me deu uma chance, eu me esforcei todos os dias para fazer a sombra escura do medo sumir dos seus olhos conforme o tempo se passava. Descobrimos que tínhamos os mesmos ideais, os mesmos pensamentos. Descobrimos o amor, Kal. Eu já sabia o que sentia, era tão forte e em tanta quantidade que tudo o que eu tive que fazer foi preenchê-la com ele. Muitos usaram da sua ligação como um meio de estragar a vida dos seus parceiros por ciúmes e possessão, mas eu não queria prende-la em uma gaiola, queria voar ao lado dela. E ela entendeu depois de um tempo.
— Isso é lindo, pai. — Clark murmurou — Então é o que eu devo fazer?
— Não perca a paciência. O amor não ultrapassa a barreira do som como você, filho. Mas não seja tolo, não deixe o tempo passar. Ela é uma humana, sua vida é curta longe de ti, os anos irão passar num piscar de olhos para ela se não agir. Não se esconda. O amor não deve ser temido, deve ser espalhado. Ame-a, ame-a por vocês dois. Faça de tudo. Futuramente ela lhe retribuirá, como sua mãe fez. Fomos felizes por quase dois mil anos terráqueos.
Clark sorriu maravilhado, seu peito muito mais leve do que estivera em todo mês apesar das descobertas.
— Obrigado, meu pai. Farei o que aconselhou-me.
— Fará mesmo?
— Óbvio!
— O que está fazendo sentado aí, então? — Seu pai sorriu cúmplice para ele.
— Tem razão. Chega de esperar. Irei atrás dela agora mesmo. Obrigada, meu pai — Jor-El sorriu carinhosamente vendo seu filho se levantar com toda sua glória e sumir entre as portas da nave, seu corpo ganhando os ares segundos depois.
Kal-El era seu trunfo. Seu orgulho. Mais nobre que um dia ele fora.
— Foi mesmo necessário contar-lhe tais coisas terríveis? — uma voz feminina veio às suas costas o fazendo sorrir amavelmente. Se virou com graça e viu a memória da sua bela esposa flutuar atrás de si, uma memória fraca e sem forma, fragmentada. Mas mesmo que fosse apenas uma luz que contornava o seu tronco, pálida e fraca, ainda era a sua esposa.
— Não olhe para mim dessa forma, minha querida. Sabe que ele só está passando por isso por suas ações.
— Ele iria se casar, Jor-El! — ela exasperou-se como sempre fazia, sua voz soando espectral — Sabe-se lá o que teria acontecido se eu tivesse deixado-os a própria sorte. Ele poderia já ser pai! Já imaginou? Um filho da mulher errada! Isso é inaceitável!
Jor-El sorriu com carinho caminhando até sua esposa chateada.
— Sabes muito bem que uma terráquea comum jamais suportaria os seus filhos. Seus corpos são frágeis, quebrariam em um segundo ao primeiro movimento do feto Kryptoniano, Lara.
— Tu também sabes que nem tudo é impossível, meu marido. Eu preferi não arriscar!
— Você está certa, minha querida. Como sempre.
— Certa igual ensinaste ao meu filho? — murmurou chateada sentindo os dedos holográficos do seu marido levantar o contorno do seu rosto.
— Verdadeiramente certa, Lara. — ela sorriu amavelmente, o mesmo som qual ele se apaixonou a primeira vez que ouvira — O que eu não daria para estar vivo e tomar-te em meus braços, querida? O que eu não daria para vê-la completa?
— Seria a minha honra, meu marido. Mas tivemos uma vida boa. Longa. Nosso dever agora é instruir o nosso filho para que ele tenha o mesmo.
— Certamente. Falando nisso, deveria aparecer para ele. Ficaria radiante ao ver a mãe, você sabe. Nem sempre os meus conselhos podem suprir sua insegurança.
— Meu filho é forte e bonito, seu sangue é nobre assim como o seu carácter. Estou honrada. Mas sabes bem que enquanto nossa nora não vir até a nave eu não poderei me materialização para ele, não tenho forma, não tenho traços, não tenho cor. De alguma forma, ao passar minhas memórias para Kal, elas acabaram se fragmentando e foram passadas para nossa nora pela sonda que a marcou, e eu jamais deixaria meu filho ver-me de forma tão deplorável. Além do mais esse foi o nosso combinado, você o instruiria e quando fosse a hora eu apareceria também, mas somente na presença da nossa nora que trará minha outra metade e, enfim, poderei estar completa. Não quero que Kal me veja dessa forma degradante.
Jor-El assentiu, também infeliz que não poderia ver sua esposa.
— Você fala de nossa nora com tanto carinho, querida. Suponho que tenha se afeiçoado á terráquea.
— Claro que sim! — ela balançou a cabeça, seu sorriso soando orgulhosa — Por mais que eu não goste do meu bebê sofrendo, fico imensamente contente que a futura senhora El não seja uma garota boba fácil. Ela tem que merecer estar na família, Jor-El, e tem se provado capaz apesar das teimosias. Clark foi muito mimado, sempre bonito, sempre inteligente, sempre carismático. Devia ter mulheres em abundância em sua juventude. Ele precisa passar por esse caminho difícil para valorizar o amor recebido.
— Como sempre certa, minha querida. — ele beijou sua tempora. Mesmo que ambos não sentisse mais os toques, gostavam de compartilhar carícias. Ao amor de ambos foram muito bem salvos na memória da nave — O que os seus olhos espertos vêem?
Os olhos de Lara brilharam num tom vivo de azul, esfumaçados e fantasmagórico. Inexplicavelmente o seu dom de clarividência ainda funcionava quase que perfeitamente. Ela ofegou com as visões.
— Vejo um caminho sombrio de dor e desespero para ambos, meu marido.
Jor-El a olhou estupefato.
— O que faremos?
— Nada. Contra o destino não há remédio e já estamos mortos, não se esqueça. Tudo vai acontecer como deve.
— Há algum êxito no futuro?
Lara sorriu, seus olhos brilhando em azul esfumaçados novamente.
— Sim. Vejo felicidade e muito amor também, amor puro e verdadeiro. Nosso filho é um guerreiro e nossa nora tem audácia de um general. Juntos valerão por um exército de Kryptonianos, muito mais do que um dia nós fomos.
— Ficarão bem, então. — ele sorriu ternamente.
— Sim, ficarão. Só nos resta esperar.
(•••)
Quando ele chegou próximo ao seu prédio, se frustrou. Ela não estava lá, não estava em nenhum lugar perto. Por um momento pensou em ligar para Rosaly mas exitou ao se lembrar da reação da sua pequena, por aluma razão ilógica sentia que sua Alura não gostava de tal aproximação mesmo que ela não admitisse, como se ele e Rosaly pudessem ter algum caso. A ideia arrepiou o seu corpo em repulsa. Não que Rosaly não fosse atraente porque ela era, uma beleza rica que muitos cobiçam. Mas desde que conhecera Alura ele não conseguia e nem gostaria de cobiçar nenhuma outra mulher mesmo que o seu corpo estivesse implorando por contato sexual. Ele prometeu a si mesmo jamais tocar uma mulher sem ser sua Alura.
De repente uma luz se ascendeu sobre a sua cabeça. Alura usava a marca para se comunicarem, Clark não sabia como, mas ele tentaria o mesmo. Mesmo que ele ainda não tivesse uma marca ele sentia a ligação no seu coração, e foi pensando nisso de olhos fechados que ele a procurou. Seu pai uma vez o contou que a ligação funcionava como um fio brilhante dourado e grosso que unia um coração ao outro, com leves fios de ouro os rodeando e os entrelaçando. Infelizmente, no momento, o de ambos estava magro e sem cor como uma tripa seca e sem vida, mantida unicamente por um único fio dourado que tecia os seus corações. 'Isso irá mudar' ele pensou decidido 'Irei ama-la o suficiente para que ela corresponda'.
E enfim ele achou-a.
Estava longe, tão longe que fazia com que sua cabeça doesse ao tentar visualizar o fio que os unia com a mente, mas a achou. Ganhou os ares em segundos, não demorando mais do que um milésimo para chegar a porta da sua faculdade. 'Ser Kryptoniano tem lá suas vantagens' pensou. O lugar estava um caos de alunos para cima e para baixo, caminhavam em grupos e banhavam-se ao sol sentados na grama do campus. Se aproximou do vigia.
— Boa tarde. — sorriu cordialmente — Vim visitar uma aluna.
— É parente? — o sujeito alto — não mais do que ele — e bombado perguntou com monotonia.
— Não senhor.
— Algum acontecimento grave?
Clark franziu as sobrancelhas em confusão.
— Não. Por que isso é importante?
— Perguntas regulares, amigo. Não posso deixar que passe daqui sem a autorização da diretora ou do próprio aluno. É temporada de provas, muitas salas ainda estão em aula.
— Então, o que farei?
— Quem procura e qual sala ela cursa?
— Alura Murray. Não sei em qual sala ela estuda, mas sei que é contabilidade.
— Algumas turmas da contabilidade ainda estão em aula. Espere um pouco, tente acha-la no meio dos alunos que já sairam, senão terá que esperar as provas finalizarem.
— Quando todas as aulas acabam?
— Cinco e meia.
Clark olhou no relógio amaldiçoando o tempo. Ainda era três e meia.
— Droga — murmurou chateado.
— É alguém importante? — o vigia perguntou com curiosidade o olhando de cima a baixo, em todos os seus anos de trabalho ele nunca vira um homem daquele porte procurar uma garota daquele colégio.
— É a minha garota — respondeu tímido, gostando do jeito que a palavra fluía leve e natural entre os lábios. Como se fosse certo.
O vigia franziu o cenho.
— Não é professor, é? Porque eu acho que isso dá cadeia — o homem riu. Clark se remexeu desconfortável. Sabia que Alura era uns dez anos mais nova, mas até o momento não pensara sobre o assunto. Não via como um obstáculo e esperava que ela também não visse.
— Não. E não temos tanta diferença de idade assim.
— Sei — o rapaz corpulento comprimiu os olhos em sua direção — Vou quebrar o seu galho. Pode pedir um dos alunos para procurá-la e, se a acharem já livre de aulas, você pode entrar.
— Obrigado! — Clark sorriu se aproximando do portão. Se concentrou nas vozes com sua super audição tentando ouvir alguém falar da sua garota, quando uma ruiva relativamente perto dentro de um grupinho sorria e dizia: "Seu humor está pior que o da Chelsea, Leonard" o garoto comprimiu os lábios em linha reta e respondeu "Ninguém tem o humor pior que a Chelsea, Maddy. A garota já nasceu chutando os médicos!" E eles riram. Tentou ao máximo não agir perante o tom esnobe do grupo.
— Com licença. Maddy, não é? — ele chamou alto o suficiente para que ela ouvisse.
— Quem é que-Uau! — os olhos da garota cintilaram em sua direção com cobiça enquanto ela se aproximava do portão com um sorriso de lado. — A Comic Con deixou você fugir? De qual gibi sexy você saiu, geek?
Clark ajeitou os óculos sem graça. Claro que para esconder a sua forma ele deveria vestir roupas não chamativas, e seus óculos em nada ajudava deixando sua aparência um tanto quanto nerd. Mas ele não entendia absolutamente nada sobre o assunto.
— Você conhece Alura Murray? Gostaria que me dissesse onde posso encontra-la, por favor. — respondeu polidamente.
— Chelsea? Que engraçado, estávamos falando dela agora mesmo… — murmurou o olhando de cima a baixo, seus olhos explícitos a cobiça.
— Sabe se a sala dela está liberada? — perguntou desconfortável.
— Claro, somos da mesma turma — balançou a mão desinteressada — Como sabe o meu apelido? Chelsea falou sobre mim?
A garota piscou os olhos verdes com inocência, angelical. Clark não pode deixar de se lembrar de Lois.
— Definitivamente, não — soou grosso sem intenção. Lembrar de Lois sempre lhe rendia dores de cabeça — Ouvi seus colegas te chamarem assim. Pode me fazer um favor, por favor?
— Hum — ela murmurou sem graça — Qual favor?
— Pode chama-la, por favor? Diga a ela que se apresse em sair, se possível.
Os olhos da garota brilharam em compreensão.
— Aí meu Deus! Você e Chelsea estão se pegando? Não acredito! Pensei até que ela fosse lésbica! — Clark suspirou perante ao tom incrédulo da ruiva. A garota murchou levemente ao ver que sua empolgação e suas tentativas de arrancar informações não funcionaram — Tá bom, tá certo, pode deixar, vou quebrar o seu galho e vou dar o recado, mas somente porque ver Chelsea com alguém é algo que eu pagaria para ver. Em nome de quem devo chama-la?
— Não diga meu nome, apenas que estou a esperando aqui fora. Muito obrigada, Maddy.
— De nada, querido. Sempre que quiser. — piscou sorrindo — Tô indo.
Maddy sumiu no mar de alunos e Clark suspirou aliviado.
Os minutos se passaram enquanto esperava com mais lentidão do que ele gostaria, e infelizmente a sua paciência estava sumindo em momentos quais ele mais precisava dela, lentamente escorrendo pelo os dedos. Vinte minutos depois num lampejo de raiva que não era normal em si ele amaldiçoou a ruiva suspeitando que a jovem não tivesse entregado o recado do jeito que pedira. Clark muito raramente amaldiçoava alguém, não era do seu feitio. Sentiu-se envergonhado no segundo seguinte. Ele lavou a multidão com seus olhos sentindo, pela primeira vez, que sua super visão era inutil uma vez que nao conseguia achar sua prometida. Ele estava quase passando pelo vigia tamanha sua agonia.
Fora quando ele sentiu.
Seu coração deu uma batida diferente, quente, como uma mão o envolvendo numa carícia gentil e amável. Ele fechou os olhos apreciando o sentimento de conforto, de carinho, de lar, e num segundo ele teve a impressão de um leve toque em seu rosto guiando sua cabeça para a direção certa. Abrindo os olhos e olhando para onde o sentimento o levava, ele a viu.
Ele a viu.
Alura Murray o olhava com os maiores olhos castanhos que já tinha presenciado na vida, arregalados de surpresa. Teve a impressão que ela segurava o ar também, sua boca levemente aberta, seu corpo travado. Os seus olhos imediatamente se conectaram, íntimos, sentia que podia ler a sua alma naquele instante. Ela estava linda, como sempre linda. Sua linda. Sorriu de lado sentindo os seus olhos brilharem ao vê-la, seu olfato aguçado imediatamente reconhecendo o seu cheiro em meio a tantos. Seu corpo ferveu de saudades, de reconhecimento. Seu corpo sabia que era a sua mulher ali, e ele precisava de contato, ele precisava dela.
— Achei minha garota — ele disse mecanicamente ao vigia do seu lado.
— Quem é? — Clark indicou, o vigia seguindo o seus dedos com desinteresse quando, enfim, ele viu a garota arregalou os olhos com surpresa e descrença — Essa garota? Tem certeza?
Sua voz pingou ironia. Clark o olhou atravessado.
— Acha que eu não reconheceria minha garota? — antes que percebesse ele já tinha sido rude. Sentiu o espanto cobri-lo, ele quase nunca era rude com alguém sem nenhum motivo aparente.
— Calma lá, amigo. Eu quis dizer que a garota é dura na queda, nunca a vi acompanhada de ninguém.
— Sim, entendo — sorriu tentando aliviar o clima que ele mesmo impôs — Mas ela não está mais só.
— Certo — o vigia respondeu lentamente, um olhar estranho direcionado ao sorriso idiota do repórter, a cara perplexa da morena e ao sorriso idiota de novo. Deu de ombros, enfim permitindo a entrada.
Clark caminhou a passos decididos em sua direção vendo os seus olhos se arregalarem. Ela balançou a cabeça em negativo o fazendo parar levantando uma sobrancelha em descrença/desafio. 'Não acha que vai continuar fungindo de mim, não é?' murmurou internamente retomando os seus passos lentos, não queria assustá-la mais do que ela parecia. 'Não,não, não, não' ele viu os seus lábios rezarem desesperados. Internamente ele sorriu com sua agonia, não queria, mas não podia deixar de se sentir bem ao vê-la tão surpresa perante a sua presença, como se não esperasse uma atitude vindo da parte dele. 'E ela não esperava, você é um banana' sua mente má gritou consigo e ele concordou com ela, infelizmente. Mas não deixaria isso acontecer novamente.
Não mais.
— Alura — sua lingua se enrolou em cada sílada do seu nome quando chegou até ela, como se a simples pronuncia fosse motivo de adoração. Ele viu as bochechas da sua amada adquirirem um leve tom rosado.
Por Cristo, Alura estava corando. Para ele.
— Clark — ela sussurrou em resposta.
Bem, ele não estava preparado para aquilo. Seja pela sua abstinência sexual, seja por ser a pessoa que ama a sua frente, seja pela distância, seja pela surpresa da pequena Murray pronunciando seu nome com tanta intimidade, mas algo sobre o tom baixo, rouco e sensual com qual Alura Murray pronunciou o seu nome fez sua mente viajar longe e o seu corpo corresponder a bela voz. 'Não me provoque, Alura' pensou sôfrego sentindo os seus músculos se contraírem, um em especial estava ficando mais rijo do que deveria.
— E-Eu não esperava sua visita.
Sua repentina gagueira o tirou do mundo das fantasias sensuais com sua querida. Ele não esperava tamanha timidez sendo exalado da sua mulher-leoa, ele não esperava ser recepcionado dessa forma. Sorriu descrente.
— Eu avisei que não esperaria para sempre, Alura. Na minha humilde opinião eu esperei até demais — ele sussurrou para ela e, de repente, só existiam eles dois quando o seu olhar âmbar o correspondeu com intensidade. Nada mais os rodeava.
— Infelizmente sua paciência não durou tanto quanto eu queria — ela murmurou. 'A eternidade não seria suficiente pra você, Alura' pensou sorrindo.
— Quão cruel tem sido comigo, Lua — lamentou numa voz levemente melancólica, seus dedos instintivamente se dirigindo a um fio de cabelo teimoso que escapou do seu penteado. Seus dedos roçaram na sua testa, na maçã do seu rosto, na sua bochecha corada até atrás da sua orelha. Arrepios percorreram o seu corpo a sentir a textura daquela pele leitosa, a textura da mulher que ele ama sob os seus dedos. — Pensei que não fosse mais vê-la.
— Não é como se um insistente maldito como você fosse permitir tal coisa — ela resmungou, porém sua voz estava baixa, seu dedo inevitávelmente brincou com sua bochecha. Ele não podia deixar de sentir aquela textura macia e acetinada sob a palma da sua mão.
— Tem razão. Não permitiria — ele retirou a mão do seu rosto com relutância. Por mais que quisesse passar a eternidade assim ele tinha assuntos a tratar com sua pequena e deveria aproveitar agora que ela estava com a guarda baixa — Vim fazer um convite.
— Que convite? — ela franziu o cenho adoravelmente.
— Passe a tarde comigo — pronunciou lentamente. Deveria ter cautela, apesar de estar decidido Alura era uma caixinha de surpresas. Viu o seu rosto mudar em várias facetas em milésemos. Primeiro a surpresa, depois a leve raiva, conflito e, por fim, aceitação
— Eu tenho escolha? — ela murmurou o olhando intensamente nos olhos. Seu coração acelerou, seu corpo se aqueceu, tudo o que ainda restava ao redor de ambos se dissolveu num piscar de olhos. Era só ele e sua Alura ali.
— Receio que não, querida — Clark sussurrou de volta sentindo uma necessidade urgente de se aproximar. Ele precisava sentir mais da sua pele,do seu calor, ele precisava sentir... a sua boca na dele.'Oh, sim, sim' um outro eu ronronou dentro dele em agrado, como uma fera faminta sendo posto a frente de uma doce refeição. Doce e sua Alura. Ele precisava beijá-la, sentia que poderia chegar ao ápice do prazer apenas por imaginar sua macia língua enrolada na dele como duas serpentes entrelaçadas. Ele a olhou nos olhos profundamente pedindo algum tipo mudo de permissão, e então ele sabia; aquele era o momento. Era um momento qual não surgia muitas vezes, era um momento qual pensara que seria impossível se ter tão rápido com sua Alura, era o momento que ele deveria reivindicar sua boca num beijo deliciosamente apaixonado. Oh, merda, sim! Ela quer isso também. Ela quer, ela não se afastou, ele tem a sua aprovação, ele estava a apenas a dois palmos de distância do seu rosto. Ele só precisava se inclinar e...
— Pegando geral, hein, Chelsea! — um grito estridente veio em suas direções como um raio poderoso quebrando com força a barreira calorosa qual os rodeava. Alura recuou dois passos bruscos, ele viu os seus olhos desanuviarem do desejo mútuo que ela sentira. Naquele momento ele sabia que tinha perdido uma chance rara, chance essa que talvez não fosse aparecer novamente por tão cedo. Nem todos as pragas e maldições do mundo poderia expressar o misto de raiva e decepção que o lavou nesse momento.
— Vamos sair logo daqui. Você chama muita atenção — e lá estava Alura Murray Chelsea novamente, seus olhos expressando a frieza costumeira e seu rosto limpo de emoções além de irritação. Ele era apaixonado por essa Alura, completamente apaixonado, mas naquele momento, naquele pequenino momento, ele só queria o vislumbre dos olhos cheios de desejos que o olhavam a segundos atrás. Clark murmurou um 'sim' sentindo a garganta seca quando sua mulher passou por si deixando o cheiro dos seus cabelos impregnado no ar, fazendo com que o mesmo respirasse fundo tentando absorver ao máximo aquela colônia divina.
Quando voltou a triste e decepcionante realidade, os seus olhos sombriamente procurou o culpado da interrupção avidamente em seguida. 'Achei você' pensou com raiva fuzilando um rapaz de porte médio envolto de um grupo de amigos quais olhavam para ele sorrindo em deboche. Se a sua experiência de vida lhe dizia algo ele deveria ouvir; E ela lhe disse que a interrupção fora proposital. Guardou o rosto do moreno de sorriso sínico que o olhava com desafio, mas desafiando a quê?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Mexa sua bunda, Kent — cortou o contato visual apenas para olhar sua Alura já no portão de entrada o esperando irritada.
Fora quando a realidade o bateu e ele correu os olhos com velocidade para o rapaz novamente. 'Você não acha mesmo que vai tomar minha garota, não é?' Clark pensou levantado uma sobrancelha pro cara que o respondeu com um sorriso sínico, como se ouvisse os seus pensamentos. Clark lhe deu as costas com um último olhar fatal e caminhou em direção a Alura, mantendo a distância mínima possível enquanto andavam lado-a-lado para fora do campus. Olhando para o seu rosto de perfil ele concluiu que Rosaly tinha razão; Alura chamava mais atenção do que ela pensava que poderia. Ela não sabe o quanto é linda, sabe? De quaquer forma ela não parecia ser alguém que era ligada a aparências, o que infelizmente para ele e sua sanidade a tornava mais bela ainda. O seu desinteresse em chamar atenção era atrativo simplesmente porque ela não precisava chamá-la para tê-la, sua garota era infernalmente bela, e mesmo a sua ruim personalidade não era páreo para a atração alheia porque até mesmo o seu mau humor diário instigava alguns homens quererem descobrirem o que se escondia atrás daqueles olhos sérios. Ele sabia que a concorrência era grande, mesmo que Alura não soubesse disso. Mas isso era uma pena para o resto dos homens. Ele nunca a forçaria entrar num relacionamento com ele, mas não facilitaria para quem se atrevesse a querer passar da linha com sua mulher. Ela era dele e ele era dela, afinal.
Foi quando Clark Kent descobriu que era inesperadamente possessivo em relação a sua prometida.
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