You Rock My World
15 XV
Notas iniciais

Hoje não era o seu dia.
Alura Murray repetia essa frase com tanta veemência e frequência em sua cabeça que as palavras já se tornavam sem sentido, mas não havia colocação melhor para desventura que era sua própria vida, ela não podia evitar de reclamar quando situações como a atual aconteciam. O céu estava claro e radiante como quase sempre estava em Metrópolis, as pessoas seguiam com suas rotinas sem realmente vê-la, suas paredes emocionais pareciam finalmente refeitas e estáveis, seus cabelos não haviam se queimado no secador, ela não havia se atrasado para o trabalho e não topara com James em todo o dia sangrento. Aparentemente era para tudo estar perfeito para ela, tão perfeito quanto um dia bom poderia ser para uma Murray, mas nada tirava do seu peito e da sua cabeça que aquela manhã de segunda-feira não fora feita para si.
Estava sentada na sua cadeira desconfortável a mais de meia hora frente ao seu computador velho tentando finalizar seu trabalho; uma capa boba e fantasiosa como geralmente as revistas adolescentes sempre eram. Particularmente era uma tarefa bastante fácil para ela, visto que a mesma considerava que chamar a atenção de garotas no ápice dos seus hormônios juvenis furiosos não era uma tarefa que lhe exigisse muito esforço: deveria apenas pôr algum ídolo do momento flagrado num momento constrangedor com as escritas estampadas em cores berrantes e audaciosas abaixo das suas partes íntimas, ou forjar um momento constrangedor como ela sempre era obrigada a editar quando as notícias reais não rendiam o suficiente. Fácil e rápido, como sempre foi. Mas os dedos de Alura estavam travados, sua mandíbula apertada firmemente, seu rosto esculpido numa fiel carranca. Alura Murray não estava conseguindo concluir seu maldito trabalho pela primeira vez em dois anos que estivera trabalhando naquela editora. Porque? Bem, talvez porque o ídolo do momento flagrado num momento constrangedor — falsamente inventado por James e sua incapacidade de atrair leitores com notícias verídicas — era o seu próprio inferno particular.
O maldito Superman.
Sua sentença hoje era editar uma foto qual tiraram numa cidade do México quando um temporal repentino chocou cidade e alagou as ruas tal como o próprio mar forçando os moradores a se refugiarem nos tetos das suas casas e clamarem as suas divindades por algum socorro, Superman aparecendo minutos depois com sua capa ondulante e seu rosto bonito esculpido em determinação em prol de ajudar os necessitados. Numa das fotos do ato heróico do homem de aço ele segurava uma moça de pele bronzeada muito bem curvilínea qual havia sido pega desprevenida pela enchente ainda em roupas íntimas — bem íntimas, no mínimo. O bom homem da cidade de Metrópolis a salvou da água no último minuto da sua vida, quando um carro arrastado pela força do temporal quase esmagara sua cabeça. Ele voou longe do caos das ruas a segurando no colo sem nenhuma falta de respeito aparente, seu rosto demonstrando nada além de determinação em tirá-la daquela situação perigosa. Mas era aí onde o trabalho sujo de Alura entrava: o seu trabalho era fazer com que a mão dele estivesse na bunda da moça, um sorriso presunçoso nos seus lábios, uma leve ereção enfeitando sua roupa colada e insinuações descabidas em cores berrantes ao redor de toda a capa.
Alura sabia que estava brincando com fogo ao editar uma maldita capa que possivelmente faria o alienígena invadir o prédio e dizimar cada funcionário que trabalhava ali se assim ele o quisesse, ela sabia que não deveria manchar a imagem honrosa qual o forasteiro tentava manter com tanta dificuldade em cima das críticas dos terráqueos sobre a sua existência, e sendo sincera ela não estava nem um pouco feliz com aquela situação como achou que estaria. Alura podia, e tinha, uma par de motivos para querê-lo longe e achou que estaria disposta a tudo para fazer isso, talvez se ele a odiasse a deixasse em paz -pensava, mas mesmo que ela fosse uma maldita fodida ela ainda tinha os seus princípios enraizados firmemente no seu ser, e manchar a imagem de um homem inocente não estava na sua lista de prioridades. Tá legal que havia uma avalanche de questões não respondidas entre eles e ela odiava isso, odiava a situação, mas não poderia — e realmente não queria — prejudicar a face de um herói que fazia tanto em prol dos humanos. Reconhecia os seus feitos.
Não que ela gostasse de imaginar um homem grande e viril como Superman sentado numa cadeira confortável no final do expediente heróico do seu dia-a-dia, ainda com os trajes colados, segurando ansiosamente uma revista tão estúpida e fantasiosa quanto a MídiaNews. Mas se tinha uma coisa que ela sabia com certeza absoluta era que as fofocas corriam com tanta — ou talvez mais — velocidade qual o forasteiro voava pelos céus azuis de Metrópolis, e ela definitivamente não queria sua bunda envolvida nisso uma vez que tivera tanto trabalho para afasta-lo semanas atrás.
Afasta-lo.
Lembrou-se então quão surreal aquela situação parecia, a situação infernal que ela havia se metido indesejadamente, se desligando momentaneamente da realidade ao seu redor.
Fazia um pouco mais de três semanas desde a última conversa que tiveram e, desde então, Alura se amaldiçoara uma par de vezes ao inevitavelmente voltar para a conversa que tinham tido aquela noite. Por Cristo! Ela havia cedido, cedido! Logo ela, Alura Murray, a carranca esculpida a ferro, cedeu. E agora estava miseravelmente tentando esquecer o maldito fato, tentando evita-lo. Ela sabia que ele seria a sua ruína, sabia desde antes de conhecê-lo, sabia quando a marca amaldiçoada começou a se moldar no seu corpo. Mas antes era só uma previsão distante, um sentimento amargo que a visitava somente nos seus pesadelos, agora era real, estupidamente real. Ela era uma covarde, havia admito para si mesma todas as vezes que ignorava os toques insistentes do seu celular ao longo dos dias, mas se tem uma coisa que Alura Murray jamais daria sem certeza de cumprir era a sua palavra, e ela praticamente a entregou de bandeja para ele e o fato de sentir que devia algo ao repórter a acovardava perante a situação. Ela sabia no fundo do do seu âmago que o repórter não seria paciente para sempre, e sabia que não teria como fugir quando o momento chegasse porque ela tinha dado a sua palavra, ela tinha cedido.
Mesmo que ele não soubesse do seu pecado, ela sabia. Sabia que havia levado a sério o seu pedido por uma chance e sabia que levou a sério a promessa que fizera a ele.
— Maldito inferno — murmurou angustiada coçando os olhos com as palmas das suas mãos, como se aquele ato brusco fosse clarear sua visão para os próximos passos que ela deveria seguir.
Mas não clareou, porque a sua vida queria infernalmente fugir das suas rédeas e ela deu permissão para isso. A partir do momento que ela cedeu aquele homem, a sua desgraça particular, ela o deu permissão para entrar lentamente dentro de algumas camadas da sua pessoa. Ela já não tinha o controle absoluto de tudo — como sempre teve — e isso a assustava, assustava infernalmente. Desde a adolescência ela vivia e sobrevivia somente para ela mesma em prol dos seus desejos, vontades e realizações pessoais, sempre fora ela somente para ela; e agora ela permitiu que ele entrasse. Ela não sabia o que fazer sobre isso uma vez que seus encontros eram inevitáveis, ela só esperava que o repórter tivesse um pouco mais de paciência porque, definitivamente, Alura não tinha previsão — e nunca teria — de quando ela estaria apta para vê-lo de novo.
Ela só esperava que demorasse meses. E se possível — esperançosamente ela pensava — anos.
— Isso é pra hoje, Chelsea! Não te pago pra esquentar os meus assentos!
A voz estridente da secretaria particular de James, Roxanne — conhecida também como amante em algumas línguas — gritou às suas costas fazendo com que voltasse a sua realidade não menos cansativa que os seus pensamentos e suas têmporas latejou de forma dolorosa a menção do seu sobrenome. Com a carga emocional que enfrentava e o desafio de uma vida posto a sua frente ela sentiu vontade de sumir, evaporar, desaparecer. Ao menos por alguns dias.
— Você não me paga pra nada, Roxanne. Não trabalho pra você — retrucou, porém. Não engoliria desaforo dela uma vez que não a devia nada. Ouviu alguns funcionários que prestavam atenção no diálogo sorrirem discretamente da mulher e com isso sentiu o olhar assassino da secretária mirar a sua nuca.
— Vai se arrepender desse desrespeito, Chelsea. — disse duramente.
Pensava se o dia poderia ficar pior.
(•••)
O dia ficou pior.
Alura se amaldiçoou uma par de vezes antes de finalmente chegar em casa no fim do dia. Antes desse seu pequeno prazer particular, claro, sua vida desafortunada não deixaria passar em branco um dia sem seu azar eminente dar as caras. Primeiro porque Roxanne havia relatado ao seu chefe desagradável que ela se recusava a fazer o seu trabalho — como se ela fosse protestar contra a única coisa que pagava ás suas dividas logo pra amante do Diabo — e a havia desrespeitado publicamente, por esse motivo fora chamada ao escritório do mesmo numa conversa particular. Sozinha, num cubículo com o homem mais desprezível qual teve o desprazer de conhecer.
Sua cabeça doeu ao lembrar da conversa que tiveram mais cedo.
"- Você me intriga, Murray — ele começara a rodeando. Suas costas estavam retas sentada frente a mesa do mesmo, seu rosto impassível apesar do desgosto que sentia pelo homem — Uma hora você, indiretamente, circula os jornais da cidade como sendo a amante do novo herói — disse com desprezo a última palavra. Sua aversão eminente ao homem de capa.
Alura revirou os olhos quando ele lhe deu as costas. A vontade de socar Tobias repentinamente aparecendo outra vez.
— Em outra o jornal mais respeitado da cidade desmente com muita ênfase os absurdos que o fedelho empolgado soltou por aí com um dos melhores repórteres sendo o chefe da matéria, dando fim de vez a fofoca descabida de um garoto assustado. Até porque um homem daquele porte jamais se interessaria por... Você — ele se virou a olhando de cima a baixo, o gesto nojento da sua língua passando entre os dentes afiados e amarelados desmentindo o desprezo por ela dito em suas palavras. 'Você se surpreenderia' Alura resmungou internamente — E aí o assunto morre. Como se nunca tivesse acontecido. Mas então, meses depois, você se recusa a fazer uma simples edição, nada que você não tenha feito antes, e curiosamente o extraterrestre sendo o assunto da matéria.
— Roxanne se precipitou, James. Eu não me recusei a nada — ela disse no seu tom mais monótono e apático que sempre ostentava, mas uma centelha de medo surgindo dentro de si. Ela o odiava com todas as forças: odiava o seu olhar cheio de uma cobiça suja, odiava sua voz rastejante como o sibilar de uma cobra, odiava seu bafo de cigarro, odiava os seus malditos dentes que com certeza assombraria até o próprio cavaleiro das trevas. Ela odiava a forma como ele olhava para si como se fosse uma ovelha e ele um lobo faminto, incapaz de conter os seus impulsos assassinos.
Ela sabe que James e seus desejos egoístas eram dignos de temor, uma vez que ele perseguiria pessoas até o inferno para tê-los saciados.
— Eu não te dei permissão para falar! — ele bateu na mesa com força, seu cabelo gorduroso bagunçando alguns fios no processo. Ela engoliu em seco — Entretanto a sua negligência atrasou horas o lançamento do que seria a coluna mais rentável desse mês, coisa que nunca aconteceu antes. Será porque o seu heroizinho querido está na capa? O fato te incomodou?
Suas palavras soavam desdenhosas, sínicas. Alura poderia vomitar nesse momento.
— Não há fatos, James — sua voz carregava o mesmo tom entediado. Não se mostraria abalada com suas insinuações, James de todos os homens do mundo era o que menos deveria ver qualquer sentimento frágil em seu rosto — A matéria é tão verídica quando uma nota de trinta e eu não quero meu nome envolvido em qualquer situação contra um ser com aquela força. É simplesmente estúpido!
— Oh, mesmo? — os olhos dele cintilaram numa raiva mal contida se aproximando lentamente da mesma — E quem é você mesmo para dizer o que é ou não bom para a minha editora, Chelsea? Até onde eu saiba você não é ninguém, absolutamente ninguém! Não é como se alguém fosse dar atenção para as merdas que você faz!
A sobrancelha esquerda de Alura tremeu levemente numa raiva quase não contida. Geralmente ela não ligava com insultos e pragas lançados sobre si, mas vir de um homem tão sujo e baixo quanto James fazia o seu orgulho trincar levemente em repulsa. Ele valia menos que um cão sarnento a beira da morte, entretanto ali estava ela ouvindo o que não deveria ouvir simplesmente porque precisava daquele maldito emprego. E o idiota presunçoso sabia disso, e infelizmente ela também. Por esse motivo engoliu a enxurrada de pragas e socos quais queria — e realmente iria, se pudesse — desferir contra aqueles projeto de ser humano e piscou lentamente, seu rosto impassivo, como se tudo naquele ambiente não causasse repulsa dentro de si.
— Creio que você não vai querer então que a matéria se atrase mais, James. Irei concluir o meu trabalho agora — pronunciou duramente e se levantou pronta para sair, seu orgulho aplaudindo o seu ato com o resto que ainda sobrara dele.
Infelizmente nada era fácil na sua vida.
— Não tão rápido, pequena rata — ele murmurou caminhando até suas costas, lentamente, como um predador — Você sabe que precisa desse emprego, Chelsea. Ninguém nessa cidade a aceitaria se fosse despedida, eu particularmente cuidaria disso se preciso. Tenho poder nessa cidade, não importa qual impressão vocês tenham de mim.
Um arrepio subiu a sua espinha quando sentiu os dedos repugnantes de James traçar a sua coluna, sua mão apertando firmemente a maçaneta qual ela ainda segurava fazendo com que as dobras dos seus dedos ficassem brancas.
— Entretanto eu não quero perde-la minha querida, por isso sou tão bondoso perante as suas falhas — ele sussurrou próximo num tom ameno e íntimo, muito próximo para o seu gosto — Você tem talento, Chelsea. Trabalha por menos do que eu pagaria por um editor de verdade, rápida, competente, tem um rosto agradável, faz o que mandam. Um prato cheio demais para desperdiçar.
Ele respirou as suas costas como se estivesse farejando o seu cheiro, um som repugnante escapando da sua garganta no que parecia um ronronar de prazer.
— Eu a perdoarei dessa vez, Chelsea. Mas só dessa vez — disse sério ainda se mantendo perigosamente perto — Nenhum de nós dois quer que essa editora pare de receber lucros, não é? Especialmente se a culpa for sua. Tempo é dinheiro, Alura. Não permitirei atrasos novamente, entendeu?
— Entendi — as palavras saíram entredentes com uma raiva mal disfarçada nas entrelinhas. Antes que girasse a maçaneta de vez James apertou seu braço.
— Me pergunto que dia aceitará tomar o seu lugar de direito como a minha secretária particular, sabe que a proposta estará sempre em pé para você. — ele se aproximou o suficiente para que ela sentisse seu bafo rastejar em sua nuca, seu tom caindo drasticamente por um qual ela já conhecia e odiava mais do que qualquer coisa ou pessoa que já odiou na vida — Roxanne está ficando velha para o meu gosto, entende? Gosto de mulheres novas de temperamento forte, você sabe, algo sobre a recusa de um rosto bonito me atrai. A submissão de Roxanne se tornou enjoativo desde que você entrou aqui…
— Preciso terminar o meu trabalho, James! E mantenha sua secretária longe de mim, não trabalho pra ela! — ela se desvencilhou bruscamente das suas mãos e saiu porta afora. Sua respiração estava afobada, seu coração martelava com força no peito, fúria correndo pelas suas veias como veneno.
Correu para o banheiro assustando algumas funcionárias que fofocavam por ali as expulsando do lugar com sua voz exalando fúria, lavando o rosto com água fria em seguida, não reconhecendo a si mesma ao encarar o seu reflexo no espelho: a pele pálida, os lábios sem cor, seus olhos terrivelmente amedrontados. Algo sobre a perseguição de James fazia uma parte de si se encolher como uma criança frágil, não que ela admitiria isso algum dia em voz alta, mas o medo ainda estava lá. Ela sabia que as ameaças de James eram verídicas quando os seus olhos a olhava com uma cobiça suja, olhos e quem faria tudo para tê-la como troféu.
Imediatamente balançou a cabeça com força perante ao medo que queria permanecer em si, ela jamais demonstraria fraqueza perante a James e nem e ninguém. Precisava do emprego e não estava nem um pouco disposta a perde-lo, não fora a primeira vez a ser assediada em local de trabalho — visto que começou a trabalhar muito nova, na mesma época em que seu corpo adquiria mais curvas que as suas colegas de classe — e com certeza não seria a última, mas jamais se rebaixaria ao papel imundo e indigno de fazer sexo com um ser repugnante como James para ter algum crédito. Nunca. Havia força em si e ela não permitiria que o medo frágil e tolo de uma criança tomasse o lugar da mulher forte que ela era 'E ele não irá ficar imune para sempre', pensou. Ela não apodreceria nesse lugar estúpido, só precisava terminar a sua faculdade e ir em busca de algo realmente bom na área que ela mais se sentia a vontade. Ela não se deixaria abalar pela as atitudes vis de um homem sem honra.
Um estalo soou na sua cabeça como um alarme ao se dar conta que sua marca ardia e coçava com tanta força que ela quase se encolheu, os acontecimentos anteriores sumindo como fumaça ao pensar sobre o que aconteceria se ela não desse um jeito naquilo.
De fato a marca não tinha se manifestado muito depois da conversa estranha que teve com o repórter-herói-mentiroso, na verdade estava até se acostumando com sua existência que se tornou deveras confortável nos últimos dias, mas percebeu recentemente que ao mínimo sinal de perigo ela voltava a queimar e inchar como um protesto silencioso para que ela saísse do local. Mas ali, naquele momento, vendo-a avermelhada e inchada mais do que esteve nos outros dias ela sabia que deveria fazer algo, porque tinha certeza que a maldita funcionava como uma rede de comunicação até o seu dono, e tudo o que ela menos queria agora era o alarde que o Superman faria invadindo o local a sua procura.
Alura respirou fundo com as novas descobertas sobre a marca em seu corpo, mesmo que o pensamento dele se expor para salvá-la de algo fosse presunçoso e estranho a sua pessoa — acostumada a estar sempre só e não dependendo da proteção de ninguém — ela tinha absoluta certeza das suas especulações descabidas, por isso fez então a mesma coisa estúpida que ela sempre fazia — ou começou a fazer desde que descobrira o significado das queimações- quando algo assim acontecia; abriu os primeiros botões da sua blusa deixando a pele entre os seus seios exposta vendo que a marca estava mais avermelhada que o normal desde que repentinamente se estabilizara dias atrás, e por um momento surgiu a ideia que a gravidade do perigo agravava a aparência da maldição entre os seus seios. Mas ignorou os pensamentos voltando ao que deveria ser feito, especularia sobre a marca e seus segredos depois.
Respirou fundo.
— Eu estou bem, estou realmente bem. Não se preocupe — murmurou sincera fechando os olhos pondo sua mão direita em cima da marca num mantra silencioso. Não sabia se ele poderia ouvi-la ou senti-la, mas decidiu criar esse hábito com medo da presença do dono da mesma surgir do nada como sempre acontecia quando ela doía com tanta intensidade. Aparentemente funcionava, visto que a cicatriz desinchava lentamente depois disso. Ás vezes uma onda de alívio vinha dentro do seu peito, sentimento que não a pertencia, e só assim, certa de que ele não apareceria com aqueles infernais olhos azuis e aquela montanha de músculos que intimidaria até mesmo o mais forte dos terráqueos, ela conseguia se concentrar em seus afazeres até o dia acabar."
Agora, parada frente a sua nova porta, ela se encontrava perdida. Havia uma camada frágil sobre si mesma que ela só permitia desabrochar na segurança morfada das suas paredes. Em casa, finalmente em casa, finalmente só. Pôs a chave estrelada na fechadura girando duas vezes antes de ouvir o click característico, pronta para entrar no seu refúgio milagroso e se jogar no seu sofá velho quando ouviu um resmungo do outro lado do pavilhão. Virou a cabeça com sua expressão apática costumeira se deparando com a neta insuportável da velha Thompson que ameaçara semanas atrás.
A jovem a olhava fixamente, quase com raiva.
A menina era magra mas com curvas, bronzeada, cabelo chanel pintado de um loiro platinado vivo, um piercing verde brilhando no umbigo e o começo de uma tatuagem perto da virilha. Vestia uma blusa de uma boyband rosada e uma saia jeans curta clara, se equilibrava em saltos que não condiziam com sua idade e mascava irritantemente um chiclete barulhento. Era jovem, talvez ainda não fosse de maior, e mesmo assim a sua petulância, ousadia e, claro, o caso que ela tinha com o síndico não fazia Alura sentir pena de desferir suas grosserias para a mesma.
Não que Alura tivesse algo a ver com isso, ela não desperdiçava uma gota da sua vida pensando nos relacionamentos alheios — exceção de Rosaly e seu histórico romântico complicado — mas o caso que ela mantinha com César fazia com que a mesma e a sua avó se achassem o suficiente para transformar a vida de alguns moradores um inferno, inclusive a dela, e isso a irritava profundamente. Principalmente quando a garota a olhava do jeito que estava olhando agora; como se ela fosse a rainha do mundo e Alura uma barata grotesca que deveria ser esmagada.
— Minha sessão de autógrafos já encerrou por hoje, Leslie. Volte daqui a trinta anos — ironizou.
— Sempre receptiva e engraçadinha, não é mesmo Chelsea? — empinou o nariz — E não gosto que me chamem de Leslie, eu sou Kim!
'Oh. Claro.' Alura pensou rolando os olhos internamente. Kim porque o idiota do síndico achava mais excitante do que Leslie, seu nome real. Não que estivesse interessada na vida ou nos costumes alheios, mas as paredes eram finas e o prédio barulhento, querendo ou não ela acabava sabendo mais do que sua própria consciência apreciava, como as fofocas íntimas da vida romântica de um casal estúpido. 'A garota consegue ser imbecil mesmo com pouca idade' ironizou mentalmente.
— E pra você é senhorita Murray, Kim — respondeu séria — Agora não desperdice mais o meu tempo. — abriu a porta pronta para entrar quando a garota caminhou a passos rápidos ate si a puxando pelo braço rudemente.
— Não tão rápido, Murray! — ela vociferou — Cheguei de viagem ontem e fiquei sabendo que você ameaçou a minha avó e eu não gostei nem um pouquinho disso, ouviu? Cuidado com quem se mete, garota!
Alura não suportava que invadissem o seu espaço pessoal e era a segunda vez que alguém se aproximava e a agarrava sem sua permissão. Ela estava no seu limite.
— Não. Tenha cuidado você, criança! — se desvencilhou com seu melhor olhar Vivian Murray vendo a garota murchar levemente em sua arrogância. O olhar da sua mãe sempre funcionava — Não vou ser ameaçada na minha própria casa por uma pirralha, especialmente se for você! Agora saia do meu caminho.
— Não se meta com a minha avó, Chelsea! — Kim a ignorou apertando os punhos com força — Eu faço um estrago em você! Não duvide disso!
— O que vai fazer? — seus olhos brilharam perigosamente — Tingir as minhas paredes com seus amigos vândalos? Ou tem alguma esperança que a sua amizade com o síndico vai me render alguma punição? Devo te lembrar que eu sou proprietária legal desse apartamento e que a sua avó estava descaradamente infligindo regras rígidas sobre a vivência entre vizinhos? O que a polícia diria a conduta dela, do síndico omisso e a sua própria me ameaçando em minha residência? Gostaria de saber pessoalmente?
A garota a sua frente tremeu levemente com o seu tom frio e seu olhar mordaz, uma fúria mal contida no olhar. Se ela fosse um pouco mais inteligente saberia que na atual situação Alura não poderia chamar a polícia mesmo estando em seus direitos. Ameaçara uma velha, afinal. Além do mais uma briga de vizinhos por animais domésticos não seria realmente um caso policial, mas aparentemente Kim havia tingido o cabelo suficiente para cozinhar seus neurônios, lhe sobrando apenas um rostinho bonito.
— Ainda sim você não tem o direito de coagi-la. Não tem!
— O que uma menina mimada como você entende de direitos? Saia da minha frente antes que eu perca a paciência, e você não quer que eu perca a paciência, Leslie — murmurou sombria — Me toque novamente sem o meu consentimento e eu serei obrigada a torcer o seu braço, e isso sim é uma ameaça mais do que real.
— E eu posso te denunciar por isso se fizer, Murray! — gritou, mas seus olhos escondiam um leve medo ao ver o rosto sério e impassível de Alura.
— Não é como se eu tivesse medo de policiais, como uma cidadã honesta eu não devo nada a eles — a olhou de cima a baixo irônica — Dê um 'olá' á sua avó por mim. Passar bem.
Entrou em sua casa batendo a porta com força no rosto assustado, porém raivoso, da garota. Em dias normais ela ignoraria as ameaças de um adolescente, até porque ela nunca os levava a sério, achava os seus atos ridículos movidos a hormônios simplesmente estúpidos. Mas engolira sapos o suficientes aquele dia; fizera um trabalho estúpido que arriscava sua segurança, obviamente obrigada, e uma queimação ardente de revolta, amargura e arrependimento revirava em seu peito o suficiente para não engolir desaforos de mais ninguém naquele dia sangrento, ainda mais de alguém que não pagava o seu salário.
Entrou em casa tirando e chutando as suas roupas com raiva, enfim o estresse sucumbindo ao cansaço. Alura se sentia frágil, triste, doente e não era somente por seu emprego abusivo ou suas fugas do repórter. Era uma infinidade de emoções melancólicas que antes não estavam ali, e ela sabia o porque, afinal, mesmo que não a suportasse na maioria do tempo ela era a mais próxima que tinha de um familiar: Rosaly. O inferno congelaria antes que ela assumisse em voz alta que sentia falta da sua tagarelice sem fim e seus planos supérfluos de burguesa mimada — mas ela sentia, como se uma ferida estivesse aberta e inflamada.
Desde a última briga entre as duas as coisas não eram mais as mesmas e parte disso era sua culpa, admitia. Ficara magoada com Rosaly além da conta, mais do que pensou que poderia ficar. Tá legal, talvez tivesse exagerado um pouco, admitia, mas a loira não foi atrás de dela também. Além do mais ela sentia-se estranha, estranha de uma forma muito, muito ruim porque uma única pergunta não saia da sua cabeça ao longo dos dias: será que eles estão juntos nesse exato momento? Rosaly sempre fora uma beldade de mulher; loira, alta, olhos claros, boa e requintada família, educação de ouro e uma facilidade para cair nas garras dos amores que não era normal, ela dificilmente passaria despercebida onde fosse pois brilhava como um raio de sol. E as qualidades masculinas de Clark Kent não precisavam ser abordadas, o homem era uma escultura humana repleto de músculos e beleza, educação incontestável, filho favorito da própria Afrodite, além, claro, de ser o Superman. Eles fazia um casal e tanto, remoeu amargurada. É só então ela percebeu a sua estupidez.
— Pelas bolas de Merlin, estou sendo ridícula! — praguejou caminhando até sua geladeira vazia encontrando duas latas de cerveja apenas. Abriu uma com amargurada.
De tanto odiar adolescentes ela estava agindo como uma, e pior; uma adolescente apaixonada. Não que ela estivesse, puff, não. Inferno sangrento, não. Mas as especulações embaralhavam sua mente com frequência, uma mistura de medo, raiva e curiosidade que não a deixava dormir. Estava fervendo por respostas, estava fervendo para evita-las. Clark Kent era um maldito enigma que ela não queria lidar, pessoalmente nunca gostou de contos complicados ou se aventurar no ramo investigativo, mas o homem era uma espinha na sua bunda, um mistério em pessoa que perturbava os seus sonhos, os seus estudos e, por mil diabos, até mesmo o seu trabalho.
As vezes jurava que estava sendo velada enquanto dormia, jurava não estar sozinha, mas era impossível; Clark, segundo as colunas do seu próprio trabalho jornalístico, estava ocupado demais salvando milhares de pessoas severamente necessitadas. Em pouco tempo ele já era um símbolo, quase um deus; alguns idolatravam, outros desprezavam. Ela ficava no meio do fogo cruzado. Não poderia deixar de sentir orgulho dos seus atos — o porque nem ela sabia, visto que não simpatizava com o sujeito — mas também não evitava sentir certa raiva perante a sua bondade, um sentimento egoísta e sujo porque ela se preocupava — inferno sim! Ela se preocupava, admitia — que toda aquela bondade pudesse ser ferida com a ingratidão de muitos. Pela primeira vez na vida Alura estava levemente preocupada com os sentimentos de um homem, e pior; um mentiroso, alienígena e desconhecido.
Ela sentia-se ligada a ele de uma forma quase — quase — sentimental. E isso a tornava um bolo gigante de dúvidas.
Nunca sentiu muito afeto por ninguém, especialmente pelo sexo masculino, mas aí ele surge com seu jeito caipira e simplório, cheio de sorrisos e olhares doces. Ele mentira, claro, mas ela jamais o daria uma centelha da sua atenção se soubesse quem ele é desde o princípio, na verdade tinha certeza que procuraria a polícia no primeiro contato invasivo. Ele também a ajudou com Tobias como havia prometido. Sua matéria fora tão bem escrita, tão detalhada e tão ferina que ninguém jamais diria algo sobre eles novamente, ele era bom no que fazia. Reconhecia isso agora, reconhecia os seus atos bons para com ela mesmo quando ela era um chute no saco, a preocupação que ele teve em deixá-la confortável mesmo que ela não ligasse para isso. O tempo que estiveram afastados fizera bem para sua mente, seus pensamentos. Muitas coisas quais ela não via antes passou a ser óbvio, o tempo a fez ate mesmo pensar com mais atenção sobre o repórter, o tempo a ajudou ser mais receptiva á sua existência. Mas ela ainda temia a sua presença.
Principalmente depois do trabalho sujo que ela fizera hoje.
Sentou-se no sofá velho segurando a cabeça com força como se o mundo estivesse sobre os seus ombros. Certamente ele a odiaria, no mínimo e com todo o direito do mundo, e isso de alguma forma a incomodava. Sua faculdade estava arrancando as suas tripas, já não tinha sua fiel amiga do seu lado, um alien de sorriso maroto a perseguia — com fortes índices de ser para assassina-la depois que a revista fosse publicada — e seu chefe a amedrontava.
Ela só queria sumir por uns tempos.
(•••)
A sexta-feira chegou numa velocidade quase anormal, mas se deu conta que a culpa era dela mesma que não se preocupava com o tempo visto que já não tinha mais ninguém para conversar ou sair. A semana toda fora um inferno, no mínimo. A revista qual a capa ela editara e posteriormente fora aprovada pelos editores chefes causou um alarde qual não esperava e em poucas horas de venda as notícias voaram pela cidade contra o herói de capa. Um sentimento amargo de culpa e repulsa ardeu em sua marca cuja qual ela tinha que lembrar por várias vezes sendo a ligação entre eles, e ela sabia que ele sabia que a culpa era toda sua. James, óbvio, estava radiante com a proporção que sua notícia estúpida causou, assim não a encurralando mais em nenhum cômodo suspeito.
Já ela estava uma droga.
Agora, no fim do seu expediente, ela só queria voltar para o confinamento do seu quarto e seguir com sua rotina de sempre, tentando de alguma forma estúpida fingir que aquilo não era sua responsabilidade. 'Eu não autorizo as coisas por aqui' ela resmungou internamente em seu caminho para casa 'Só faço o que me mandam, os homens no topo da pirâmide que comandam tudo'. Mas seus pensamentos não eram apaziguadores. Por mais que ela tentasse não se concentrar no assunto, lembrando interiormente que pessoas como ela não se apiedava por ninguém, menos ainda por ele, o sentimento amargo ainda estava lá rastejando pelas beiras pronta para dar o bote. O bote, no caso, seria uma muralha voadora incrivelmente raivosa pronta pra lhe causar pesadelos por várias noites. Ela torcia ver seus olhos traídos apenas em sonhos, não saberia como reagir se o visse pessoalmente.
Mais tarde no mesmo dia, já em casa, limpa e vestida, a sua rotina não a valhia merda nenhuma. Estava largada no sofá tentando se concentrar no noticiário de Gotham City, uma pizza família do seu sabor favorito esfriando na mesinha de centro, sua cerveja intocada a muito esquecida agora pingava no chão, ao lado dos seus pés. Estava um lixo mental. Culpava Rosaly, culpava sua mãe, culpava a si mesma, culpava Clark.
Ela não deveria se sentir oprimida por suas ações nada nobres, tinha ciência que nada daquilo era um plano maligno da sua mente perversa, era apenas o seu trabalho fodido como o de qualquer outro trabalhador, ela só recebia ordens e deveria cumprir se quisesse um teto sobre a sua cabeça. Mas lá estava ela ignorando as aventuras do sentinela negro, ignorando seu alimento favorito, ignorando a sua cerveja; por culpa, por confusão. Sentimentos que ela a muito havia esquecido o significado. Na sua mente a imagem do herói vinha com frequência, seus olhos traídos, sua mandíbula travada em raiva — Sua atitude foi baixa, Alura — ele dizia para ela com sua voz retumbante, e ela se encolhia num poço de raiva e ressentimento. Como uma adolescente idiota.
— Eu sou uma idiota — lamentou pela vigésima vez desde o incidente. A palavra "baixa" flutuando na sua cabeça como se fosse seu próprio nome sussurrado por Rosaly, sussurrado por Kent. Era demais até mesmo pra uma rocha como ela.
Fora desperta das suas melancolias internas pelo toque estridente do seu celular a muito esquecido vindo do quarto, receio lentamente correndo pelo seu corpo. 'E se for ele?' pensou, mas não poderia se dar ao luxo de passar o resto da sua miserável vida sob o manto da covardia, apesar de tudo Clark Kent não merecia a alcunha de "aproveitador" uma vez que estava apenas fazendo o seu trabalho em prol dos outros, de uma raça qual ele nada deve, por sua culpa. Com esse pensamento ela levantou lentamente ouvindo o sofá ranger, pensava que aquele soldado não aguentaria o peso da sua bunda por mais tempo. Quando enfim chegou ao quarto e viu o aparelho brilhar em cima da cama a covardia queria mostrar as caras novamente mas ela não a merecia nesse momento, ela precisava se explicar. 'Que estupido' cuspiu internamente 'Eu dar satisfações para alguém qual quero longe'
Qual foi uma enorme surpresa — e alívio — ao ver o nome de 'Rosaly-pé-no-saco Campbell' enfeitar seu celular depois de tanto tempo. Verificou as horas, nove e meia da noite, e se preocupou: Rosaly nunca a incomodava depois das oito. Deslizou o botão com pressa antes que a chamada finalizasse.
— Diga. — a linha ficou muda por alguns segundos.
"Alura" a voz melódica e fina de Rosaly soou do outro lado e ela não sabia o quão sentira falta dela até aquele momento "Er, Oi! Já faz… já faz um tempo…"
— Sim, faz. — Alura pigarreou inaudivelmente perante a própria indiferença, não queria piorar as coisas entre elas — Como você está?
Rosaly engasgou. Aparentemente não esperava que ela continuasse a conversa.
"E-Eu estou bem, bem… e você?"
— Estou… — 'um lixo, no minimo'— bem. Onde esteve?
Rosaly viajou para algum lugar no começo da semana, a primeira viagem em dois anos de amizade sem a avisar e a perturbar arrastando para bares em despedida como se fosse a última vez que fossem se ver.
"Leipzig, Alemanha! Papai fechou um negócio importante por lá e teve que viajar às pressas, e você sabe como ele não sabe fazer nada sem mim, então me arrastou junto dando a notícia em cima da hora. Sabe como ele é!"
Ela riu do outro lado, tímida, relutante com sua própria tagarelice. Alura sorriu também.
— O seu velho é um aproveitador, já disse isso. Deveria cobrar um cachê enorme pelos seus serviços, Rosaly.
"Lua!" Ela gargalhou, uma risada realmente verdadeira "Eu o cobro do meu jeito, você sabe. O arrastei por cada loja que aquele lugar tinha pra oferecer, e digo logo que a moda alemã são de tirar o fôlego!"
— Polpe-me, Rosaly — ela riu rolando os olhos, o clima muito mais ameno — Sabe que me interesso por moda tanto quanto você se interessa pelas minhas cartas de Yu-Gi-Oh.
"Sempre Alura Murray, não é?" Ela riu doce "Eu… queria te ver. Que tal tomarmos aquele drink? Eu pago tudo!"
— Se sairmos a essa hora só voltaremos amanhã, Campbell — Alura murmurou entediada, mas já procurava um jeans novo no guarda-roupa.
"A ideia é essa, mein liebe!" Ela gargalhou eufórica, de certo esperava mais negatividade da amiga "Havanna?"
— Claro, onde mais? — resmungou — Chego em meia hora.
"Vista algo quente, há gatinhos na cidade!"
Alura rolou os olhos antes de encerrar a ligação, um sorriso real no rosto. Seu humor lentamente melhorando.
(•••)
Havanna fora o lugar onde a amizade das duas realmente se oficializou depois de Alura Murray socar o nariz de um homem inconveniente que se roçava em Rosaly, e desde aquele dia ela não a deixou mais em paz. O bar era pequeno, nada luxuoso, mas o clima era agradável e a cerveja era gelada então ela não poderia pedir mais. Ficava num bairro relativamente bom, longe de toda a agitação que o núcleo de Metrópolis poderia oferecer, longe da sua própria casa. Trinta minutos depois ela atravessava a entrada colorida e apertada do lugar sendo recepcionada pelo forte cheiro de tequila, música dançante e fumaça de cigarro, torcendo o nariz com o cheiro terrível do tabaco.
Procurou por entre as pessoas a mesa qual sempre se sentavam vendo uma loira ricamente trajada num vestido escuro curto de cetim, cabelos perfeitamente ondulados e brilhantes, unhas feitas tamborilando impacientemente na mesa, de certo pela sua demora — 'Nem todo mundo tem a sorte de ter uma BMW disponível quando quer, os plebeus andam de táxi' resmungo interiormente — e olhos marcantes em tons de azul claro e delineado preto. Rosaly jamais passaria despercebida. Caminhou até a mesa empurrando aqui e ali entre as pessoas, suspirando aliviada ao chegar no seu destino. Rosaly sorriu radiante para si logo a apertando num abraço esmagador. Alura sentiu o inconfundível cheiro do seu perfume caro e os cabelos macios da mesma contra sua bochecha.
— Me largue, mulher — resmungou mal-humorada na sua orelha fugindo do seu aperto de cobra, mas um sorriso sincero enfeitando seu rosto. Rosaly gargalhou audivelmente.
— Você está ótima! — ela saudou a olhando de cima a baixo, fazendo com que Alura reprimisse um revirar de olhos. Duvidava muito que estava "ótima" numa calça skinny preta, seu velho converse vermelho, sua blusa branca do do The Doors e sua jaqueta de couro falso surrado mais velho que o Matusalém.
— Não vou encher tua bola também — retrucou com falsa chateação. Rosaly a olhou com suas íris brilhantes, um sorriso maior que o seu fino rosto poderia suportar.
— Senti tantas saudades dos seus resmungos, senhorita Murray — ela disse quase como adoração. Alura sentiu uma leve quentura nas bochechas.
— Seus lamentos românticos quase me fizeram falta também. Quase — retrucou chateada com a repentina demonstração de afeto — Pelo visto começou a beber sem mim — mudou de assunto.
— Só um pouquinho — ela fez sinal com os dedos dizendo quantidade mas os quatro copinhos na mesa diziam ao contrário. Sentaram-se uma frente a outra, Rosaly indo no balcão e voltando rapidamente com duas garrafas de tequila de limão. Seu estômago embrulhou já imaginando o porre que teriam.
— Quando chegou de viagem? — perguntou virando seu primeiro copo, sentindo a queimação característica descer pela garganta, Rosaly a acompanhando em seguida.
— Não tem nem duas horas, na verdade — respondeu enchendo os copos novamente. Alura levantou uma sobrancelha em descrença.
— Não deveria estar em casa descansando?
— Depois dessa noite vamos rezar pra não entrarmos em coma, querida Lua. — Rosaly gargalhou perante a carranca no rosto da Murray, mas ela não recusou o segundo e o terceiro copo de bebida que vieram.
— Espero que tenha se alimentado, Ross. Se desmaiar perto de mim juro que vou te deixar com os mendigos!
— E quem te iludiu que eu, a rainha das mesas, vou cair primeiro? Sua bunda gorda vai ser a primeira a se estarrachar no chão, Lua.
— Isso certamente não está vindo da mesma mulher que precisa ser carregada para casa todo final de semana — as orelhas e rosto de Ross adquiriram um tom vermelho, seus olhos brilhando em desafio.
— Quer apostar?
— Apostar é para idiotas — sorriu triunfante virando o sexto copinho.
— Só pra quem sabe que vai perder — Ross alfinetou. Alura sorriu perante a conversa fluida entre as duas como se nada tivesse acontecido. Estendeu sua mão por cima da mesa sorrindo desafiadora.
— Cem pratas que você cairá primeiro.
— Apostado — apertaram as mãos — Mas, se eu ganhar, além das cem pratas eu vou te dar uma semana de carona até o trabalho.
O estômago de Alura revirou perante a ideia. Rosaly Campbell tinha um senso de liberdade que não se deveria ter atrás do volante, isso e somado ao fato que ela nunca iria parar atrás das grades pela posição social do seu pai, o que fazia com que a loira tivesse segurança o suficiente para ter ataques inesperados de velocidade mesmo em trânsito apertado. Alura relutou.
— Com medo? — Rosaly brincou a olhando com malícia. Alura bufou.
— Não, porque sei que vou ganhar.
— Veremos.
Brindaram alegremente virando de vez mais um copo de tequila.
(•••)
Alura Murray teve experiências o suficientes com Rosaly para saber que iria ganhar, o que de fato aconteceu. Isso e o seu estômago blindado devido aos montes de porcarias de fontes questionáveis que come diariamente, além do fato que ela se divertiu com algumas pessoas desconhecidas na sua adolescência regida de muita dança e muito álcool. O que ela não imaginava, porém, era que Rosaly não só tinha ficado estupidamente bêbada como literalmente caiu três vezes no chão ralando os joelhos e as mãos. Estavam uma apoiada no ombro da outra nesse momento, bêbadas, às quatro da manhã, procurando um ponto de táxi mais próximo.
— Lua, eu não sinto minhas peeernas — Rosaly fungou o nariz no seu ombro deixando rastro de coriza na sua jaqueta. Alura fez um som de desagrado.
— Calada — retrucou. Sabia o quanto a amiga ficava insuportável bêbada.
— Jesus Cristo, amado senhor, me segura que eu vou morrer — Rosaly gritou debilmente ao seu lado estourando os seus tímpanos, a cabeça pendendo de um lado para o outro jogando ainda mais o seu peso sobre Alura.
— Perdeu o juízo, mulher? Sai de cima de mim! — a repreendeu inutilmente, Rosaly estava bêbada demais para dar atenção ao seu mau humor.
— Mãezinha, não me xinga muito quando eu chegar no céu, prometo que não beberei uma gota de álcool aí do seu lado!
— Shh! Quer ser atacada por algum maldito, mulher idiota? Fique quieta! — inesperadamente Rosaly se jogou em cima de si levando as duas ao chão, mais ralados se espalhando pelas duas. Sua cabeça bateu no concreto frio, Rosaly sentada em sua barriga a olhando irritada — Que porra você pensa que está fazendo, Campbell? Perdeu o juízo?
— Sim, eu sou mulher! Algum — soluço — problema com isso senhor Murray?
— Senhor? O que diabos você está falando, Rosaly? Fique quieta! — Alura levou sua mão á boca de Rosaly tentando tapá-la para evitar os seus gritos histéricos levando uma mordida no dedo em seguida — Ai, sua cadela! Qual é o seu problema!
— Você e seu machismo imundo está me chamando de 'mulher' a noite toda como se fosse um defeito ser uma criatura tão esplêndida como nós, querendo oprimir a minha voz, mas eu não me calo! Não me calo! Machistas não passarão! — se levantou de cima de si saindo do seu campo de visão.
— Puta burra! — Alura praguejou sentindo sua cabeça rodar, ainda estirada no chão. Ao longe ela podia ouvir uma Rosaly fora de si fazendo um discurso numa língua estranha, talvez alemão. Sua visão estava embaçada, cansada, seu corpo em estado de torpor. Pensou que se ela fechasse os olhos nesse exato momento iria dormir ali no meio fio, na rua, como uma mendiga. O sono parecia tentador, entretanto, para se importar com qual imagem ela estava passando nesse exato momento.
— Ei, delícia! Tá sozinha? — Alura abriu os olhos em alerta sentindo o sono esvair dos seus poros, reconhecendo de longe um fodido perto demais das duas. Se levantou com rapidez sentindo o mundo doentemente rodar ao seu redor. Gemeu segurando a cabeça com força, espremendo os olhos, tentando achar Rosaly nas pequenas fendas. A encontrou quase uma esquina abaixo de onde estava jogada no chão, uma figura corpulenta a agarrando pelo braço — Qual é, gatinha! Esconde as garras. Eu posso te levar pra casa se quiser.
Alura levantou lentamente praguejando para todos os santos, aquilo sempre tinha que acontecer pra encerrar a noite, algum babaca tinha que agarrar Rosaly ou a si mesma. O álcool foi se dissipando do seu corpo com a mesma velocidade qual seus pés começavam a andar em direção a sua amiga.
— Eu não preciso da sua ajuda, machista idiota! Não me calo! — ela batia fracamente no peito do desconhecido, balançando debilmente sobre as próprias pernas. O homem riu com vontade a agarrando pela cintura.
— Não precisa se calar, delícia. Quero te ouvir gemer — Rosaly se agitou em seus braços tentando fugir dos beijos do estranho. Alura sentia a mesma adrenalina correr pelos seus nervos quando algum idiota tentava se aproximar de Rosaly, e embora os seus reflexos estivessem afetados ela não recuaria. 'Ele não vai machuca-la, nenhum babaca fará isso nunca mais' pensava com fúria.
— Acho bom deixar a minha amiga em paz, imbecil! — trovejou as costas do troglodita. Lentamente ele se virou ainda agarrado a cintura de Rosaly que parecia tonta demais para lutar.
— Duas numa noite só, hein! Parece que o Bill aqui está com sorte — ele sorriu, aquele mesmo sorriso nojento que os homens ostentavam quando olhavam para o seu decote. Alura apertou as mãos em punhos.
— Rosaly, se prepara pra correr! — avisou ainda com os olhos fixos no careca que parecia se divertir ás custas da sua ira.
— Não sei se consigo, Lua — ela murmurou enjoada.
— Consegue sim! Se prepare no três.
— Vocês não vão a lugar nenhum, putas! — ele deu um passo em sua direção.
— Um, dois… — o homem se aproximou o suficiente para que ela atingisse com força um chute entre suas pernas o fazendo urrar de dor, o álcool em seu sangue depositando mais força nos seus movimentos do que ela normalmente bateria.
— Vagabunda! Eu vou acabar com você!
Antes que ele pudesse se levantar Alura o golpeou novamente com um soco de direita certeiro, sentindo os ossos do nariz quebrar contra os seus dedos. O homem caiu no chão com uma mão no rosto e outra nos testículos.
— Três! Corre, Rosaly! — Alura apoiou Rosaly nos seus ombros forçando ela é a si mesma a correr, sabia que em breve o homem levantaria, um saco estourado e um nariz quebrado não era o suficiente contra a raiva da sua masculinidade abalada. Correndo e tropeçando pelas ruas elas ouviam o homem praguejar distante, aparentemente já em pé. Virando a curva de uma esquina Alura avistou um carro conhecido, um táxi. Gritou com todo os pulmões pedindo que parasse e, quando enfim deslizou Rosaly no banco de trás e sentou no da frente, viu o homem de antes furioso virando a esquina com o nariz sangrando em abundância.
— Eu vou te foder, sua puta desgraçada!
— Tá esperando o quê, meu senhor! — ela gritou ao taxista ao seu lado — Acelera essa caranga!
O troglodita conseguiu socar o fundo do carro antes que o táxi enfim se movesse, a imagem de um gordo careca furioso de nariz quebrado no meio da rua jurando a todos os demônios que as acharia. Soltou um suspiro aliviado fixando seus olhos numa Rosaly adormecida no banco, a baba escorrendo pela sua boca grudando nos seus cabelos, o rosto sereno, como se a momentos atrás não estivessem numa fria.
— Francamente, Rosaly — ela respirou fundo — O que vou fazer com você?
(•••)
Alura acordou no outro dia com o som repetitivo de batidas na sua cabeça que fez seus tímpanos estourarem com força. Gemeu com dor ainda desorientada tentando se localizar. Estava no seu quarto, obviamente, mas como fora parar ali? Vasculhando suas memórias do dia anterior ela se lembrou da ligação de Rosaly, da aposta, do porre, dos tombos, do ataque estúpido de Ross, do troglodita idiota, dos seus dedos se chocando contra o rosto do mesmo, da corrida, do táxi, da Rosaly babona, do mantra que repetiu perante a queimação da sua marca repetindo que estava bem, do taxista as deixando em seu predio, dela praticamente ter que carregar Rosaly para cama, de deitar e apagar.
— Que noite... — murmurou sentindo sua boca seca implorando por água mas se recusava a levantar. Tinha sono o suficiente para dormir por uma década. Quando fechou os olhos e se sentia embalada por Morfeu novamente o barulho repetitivo voltou, mais alto, seguindo de um grito de frustração da loira que, percebeu agora, não estava ao seu lado na cama.
— Não tem comida nessa casa, inferno! — Ouviu Rosaly gritar e se sua cabeça não estivesse doendo tanto ela reviraria os olhos. Fechou os olhos decidida a ignora-la quando um furacão loiro apareceu na porta do seu quarto — Alura Murray!
— Morreu! — cuspiu desgostosa se escondendo entre os cobertores.
— Não ainda, mas morrerá em breve e eu também, porque não achei uma sombra de comida nessa casa! Como pode viver assim?
— Peça pizza e não me enche.
— Eu não posso comer pizza, tô de dieta — Alura resmungou algo se ajeitando entre os travesseiros — Alura!
— Me erra, Rosaly! Você é adulta, se vira!
— Mas ao contrário de você, Miss arrogância, eu quero a sua opinião pra qual comida pedir também. — Alura cochilou brevemente antes que Rosaly se jogasse em cima dela — Me responda, sua gorda. Juro que vou gritar nos seus ouvidos se e ignorar de novo!
— Inferno sangrento, Campbell! Peça comida japonesa, tailandesa, chinesa, cozinhe até mesmo as raspas de tinta das paredes se quiser, mas me deixa dormir!
— Vaca rabugenta desgraçada — Ross resmungou saindo do quarto batendo a porta. Alura pegou no sono de novo, nada mais importava agora além de si mesma e da necessidade que seu corpo tinha de descansar.
(•••)
A semana correu relativamente normal para Alura, uma vez que ela e Rosaly estavam de volta a animada — e muitas vezes frustrantes, por parte de Alura — amizade as coisas pareciam, de certa forma, nos eixos. Menos, é claro, pela sensação inquietante que queimava o seu peito. Em dois dias faria exatamente um mês e meio desde que ela evitara o repórter, um mês e meio que ela covardemente evitou as suas ligações, um mês e meio que sua cabeça maquinava os pós e contras do reencontro inevitável.
Ele deu a ela espaço, como ela pedira, e ela deu a ele a desvantagem do escuro. Isso não saia da sua cabeça, sua marca queimando em culpa e remorso por sua covardia eminente. Ela jamais se importaria com isso antes, jamais ligaria para os sentimentos de uma pessoa qual não conhecia, mas pela marca, as vezes, ela achava que o sentia; sua angustia, sua tristeza, sua raiva e até mesmo a adrenalina que possivelmente corria pelo seu corpo sempre que estava em mais uma das suas perigosas missões heróicas pelo mundo. Era estranho sentir os sentimentos de outra pessoa, era surreal a forma como sentia a ligação com mais força quando parava para pensar nela e, de certa forma, sentia saudades.
Ela sabia que o sentimento era mútuo, ela sabia que aquilo não vinha apenas dela até porque ela nunca se dignou a sentir saudades de ninguém além de Rosaly. Ela sentia os sentimentos de Clark Kent.
A revista qual James publicara que rendeu tanto alvoroço em torno da integridade do Superman veio a ser sua própria ruína duas semanas depois, uma vez que as fotos reais foram publicadas de forma viral assim como o depoimento da própria mulher que ele resgatara. Ás revistas tiveram que ser recolhidas e queimadas, o que significava que o humor do seu chefe estava pior do que o normal.
— O homem é um gato, um deus grego, não posso negar que joguei algum charme quando a adrenalina da situação passou — a vítima da enchente, conhecida como Caterine Roménez, disse num vídeo publicado no YouTube — Mas o herói é tão íntegro quanto os seus músculos enormes. Apenas sorriu desconfortável com minha insinuação, me cobriu com uma toalha e disse para me cuidar voando logo em seguida. Não posso dizer que não fiquei desapontada, mas é a vida! Nem todos os homens são para mortais como nós, meninas! — e ela ria com seus dentes brancos e seus lábios cheios, o vídeo se encerrando segundos depois. Alura reviu o vídeo várias e várias vezes, um sentimento de alívio em seu peito. Ela procurava não pensar porque ter sentido aquilo.
Nesse momento ela estava no carro de Rosaly se segurando com força no banco vendo a loira ziguezaguear com uma velocidade além da permitida entre os carros na pista. Quando enfim chegaram na lanchonete qual sempre almoçavam Alura rezou em agradecimento por qualquer ser divino que a tenha livrado das garras da morte.
— Você está exagerando, Miga — ela resmungou a sua frente quando já estavam sentadas na lanchonete, seu almoço acabado.
— Você dirige como uma louca, Rosaly. Nunca mais entro naquela máquina da morte com você, o próprio diabo, no volante.
— Hunf! — Rosaly bufou — Queria eu ter ganho aquela aposta, assim você não poderia fugir das minhas exímias qualidades de motorista.
— Não me lembre daquela droga de noite, sua sem noção! Minha mão ainda está horrível pelo soco, tudo porque você não consegue fechar a droga da boca quando convém — Alura alisou a mão direita ainda enfaixada, como se para enfatizar o que disse. Rosaly rolou os olhos
— Eu não vou te pedir desculpas por minhas falhas quando não estou sóbria, Lua — ela suspirou — Mas saiba que eu sou eternamente grata, sabe, por tudo que você faz. Você sempre está lá quando alguém tenta me machucar.
Rosaly a olhou com algo que Alura só poderia ler como gratidão e carinho. Ela se remexeu desconfortável na sua cadeira, evitando os olhos emotivos da loira.
— Não dormiria a noite se deixasse uma tola como você solta por aí sozinha. Apenas isso. — resmungou chateada.
— Custa receber meus sentimentos com o coração mais aberto? Por Deus, Alura. Você é impossível — ela riu, um som jovem e despreocupado. Alura quase sorriu também. — Ei… sei que a gente tem evitado o assunto, eu particularmente não saberia lidar com essa conversa antes mas… quero te pedir perdão.
— Pelo o que, mulher? — desviou os olhos da loira, desconfortável, sabendo muito bem qual assunto se tratava.
— Por armar pelas suas costas e te comparar a sua mãe, eu... Eu não tinha o direito, e não estava no melhor de mim, Lua. A ideia de você me odiando quando eu apenas fiz algo que julguei ser certo me tirou da linha. — Ross estava pesarosa agora, sua Áurea sempre brilhante murchando levemente — Você não é ela, Lua. É melhor, muito melhor. Não a conheço mas eu sei que são diferentes, você não sabe mas tem uma porção de bondade e empatia em você que não vemos em muitas pessoas. Você sempre ajuda quem precisa, mesmo odiando isso. Essa é você, faz parte da sua pessoa.
— Pare com isso. Você não me deve nada, para de dizer essas coisas — murmurou — Eu e minha mãe somos estupidamente iguais e é isso, nem sempre dá pra fugir dessa realidade mas a vida continua, não é o fim do mundo. E eu quem peço desculpas… por magoar você. De verdade.- Pigarreou desconfortável, não estava acostumada a pedir desculpas uma vez que estar sempre certa fazia parte dos seus princípios — Eu fiquei chateada, claro, mas não tinha o direito de fazer você reviver aqueles dias, foi baixo da minha parte. Você não merece nenhum babaca no seu caminho, ninguém que a magoe. Eu me preocupo, Rosaly. Você é horrível em pares românticos. Não quero que se machuque de novo.
— Pare, eu já te perdoei — Rosaly piscou para espantar as lágrimas, surpresa que sua amiga sempre tão fechada estava mostrando um pouco de si mesma para ela, mas ela conhecia bem Alura para saber que não deveria explorar mais dos seus sentimentos que ela já deixou transparecer naquele momento, então continuou como se o que a amiga tivesse acabado de declarar não fosse um milagre divino — Mas…
— Voce não volta atrás no que fez, eu sei — completou rolando os olhos entediada — Você é um pé no saco, Ross. Odeio lidar com você.
— Você me ama mesmo assim — sorriu.
— Não conte com isso — Rosaly lhe mostrou a língua em resposta, tomou um gole do seu suco diet e pigarreou.
— E o Clark, Lua? — perguntou lentamente torcendo que o seu tom doce disfarçasse a curiosidade em sua voz. Alura bufou a sua frente totalmente chateada, se fechando de novo.
— Me diga você, oras!
— Francamente, Lua — Rosaly rolou os olhos — Eu não quero nada com o seu homem, pode ficar tranquila.
— Ele não é meu, sua estúpida. Nem o conheço!
— Porque você não quer, querida — rebateu sorrindo. Alura ficou uns bons minutos encarando-a com seu olhar amedrontador, mas Rosaly o sustentou com indiferença. Alura Murray não a assustava. Segundos depois ela bufou em desgosto.
— Nós discutimos aquela noite.
— E a culpa foi de quem?
— Dele, óbvio! — resmungou — Mas talvez, só talvez, quem sabe, eu tenha exagerado um pouco. Mas bem pouco, que fique claro.
Os olhos de Rosaly brilharam. Ela jamais em mil anos esperaria uma confissão de Alura.
— Como sempre fazendo tempestade em copo d'água, Murray.
— A culpa não é minha, é de vocês dois e dos segredos terríveis do maldito fodido.
— Ah! Vocês confessaram segredos? Interessante. Diz aí, ele é tão sexy quanto aparenta?
— Polpe-me, Rosaly. Não falamos sobre isso.
— Você é um tédio, miga. Sério. — suspirou.
— Que seja — o silêncio voltou novamente, Rosaly encarando os seus olhos com afinco — O que diabos você quer agora?
— O resto do drama, querida. Aquele auê todo não pode ter dado em nada. E aí? Como ficaram?
— Bem... — ela relutou. Não havia mais ninguém na face da terra quem ela poderia contar seus segredos ou desabafar, a sua amiga era uma sem noção mas inofensiva, era confiável.
— Oh meu Deus! Tem mesmo mais? Eu estava blefando quando perguntei. Me conta tu-do!
— Não é nada demais, doida — ela desviou os olhos da loira sentindo suas bochechas esquentarem — Discutimos. Ele é um maldito insistente e eu decidi… talvez, quem sabe, um dia... D-Dar uma chance de nos conhecermos melhor.
Rosaly abriu e fechou a boca como um peixe morto, desorientada. Alura nunca gaguejava, nunca corava e nunca dava chances pra ninguém, embora ali estava ela fazendo as três coisas. Em seguida Ross abriu um sorriso gigante, Alura temia que o brilho dos seus dentes a ofuscasse.
— MIGA, SUA SAFADA! — Rosaly gritou alegre, radiante, atraindo olhares para elas.
— Shh! Tá maluca?
— Maluca? Eu tô bege, minha querida. Be-ge! — Alura não sabia o que diabos aquilo significava, mas não perguntaria. Ross podia conversar horas a fio sem se cansar — Não acredito que tem trepado às escondidas com um homem daqueles e não me disse nada, logo eu, sua melhor amiga! Me conta tudo! Ele é tão grande quanto parece? Você fica dolorida depois?
Alura arregalou os olhos sentindo sua face esquentar. Os outros clientes do estabelecimento a olhavam de rabo-de-olho pelo alarde da loira, aparentemente também interessado na sua vida sexual.
— Por minha própria sanidade, do que diabos você está falando sua idiota? Rosaly, juro por Deus que vou socar a sua cara.
— Você não acredita em Deus! — acusou com o dedo em riste na sua direção, um sorriso gigante estampado no rosto.
— E não acredito em você também! Tem noção dos absurdos que está falando? Eu não estou transando com o Kent!
— Não minta para mim, Alura. Um babado desses e você querendo omitir detalhes ricos.
— Não estou! Você é a única tonta na face da terra que achar que 'dar uma chance de conhecer alguém' signifique transar com essa pessoa. Por isso você vive se metendo em enrascada.
— Então... Sem sexo? — seus olhos piscaram como um cão que não recebeu afago.
— Óbvio que não, idiota!
— Você é uma tola, Alura — Rosaly suspirou frustrada, como se ela tivesse o direito de se chatear com a declaração da amiga — Se aquele homem fosse meu eu não sairia do colo dele.
— Ele não é meu — resmungou.
— Ai, que saco — rolou os olhos — Mas dar uma chance já é alguma coisa, pelo menos. E aí? Como tem ido?
— Não tem — disse desviando os olhos — Ele estava me sufocando, o idiota. Pedi espaço, tempo. Só assim eu conversaria com ele.
— Isso é bem a sua cara — Ross suspirou levando o copo de suco aos lábios — E isso tem quanto tempo? Uma semana?
Alura se remexeu desconfortável.
— Um mês e meio — murmurou timidamente. Ross tossiu audivelmente se engasgando, a olhando em estado de horror.
— UM MALDITO MÊS E MEIO, ALURA MURRAY? — os clientes a olharam outra vez. Uma garçonete rechonchuda veio pedir silêncio. Minutos depois Rosaly se acalmou, a olhando ainda com horror — A essa altura do campeonato já tem outra cavalgando nele, sua tola!
— Não me importo — retrucou sentindo uma pontada em sua marca dizendo ao contrário.
— Alura Murray, você tem que ser internada num hospital psiquiátrico! Suas funções mentais não devem estar funcionando corretamente. Deixar um homem daquele de molho? Onde já se viu!
Alura teve que ouvir uma palestra completa sobre como deveria tratar um homem como Clark Kent por mais quarenta minutos antes que chegassem ao trabalho. Já no fim do expediente deu um jeito para não se esbarrar com a loira sabendo que haveria longas horas sobre o seu discurso relacionado a sedução feminina. Mais tarde, já em casa tentando voltar a sua rotina, porém, uma preocupação deveras estúpida rodeava os seus pensamentos. Uma única frase correndo com velocidade, indo e voltando, na sua cabeça; "A essa altura do campeonato já tem outra cavalgando nele"
Isso não deveria incomodá-la, deveria?
(•••)
A semana passou novamente e logo já era sexta-feira de noite. Tecnicamente era a partir dali que começava o seu descanso, e seria, se as suas provas não tivessem caído justamente num sábado de manhã. A ideia de levantar cedo para ir ao colégio não a deixava nada satisfeita fazendo com que seu mau humor oscilasse entre alto e enorme.
Acordou no outro dia as seis da manhã com a pior cara que poderia acordar. Se levantou chutando as cobertas e os travesseiros, tirou o pijama com raiva jogando para todos os lados do quarto fazendo uma trilha de bagunça até o box do chuveiro. Já debaixo d'água teve que se concentrar para não cair no sono mais de uma vez, lavou os cabelos e os hidratou saindo logo em seguida, encarando o seu reflexo no minúsculo espelho. Pensou que se os professores não a passassem pelas suas notas com certeza a passaria com medo da sua cara assustadora, sentia-se horrível! As olheiras estavam escuras e fundas abaixo dos seus olhos, seu olhar cansado, seus lábios sem cor, sua pele sem vida. Tudo isso se devia ao fato da sua péssima memória, esquecendo na noite anterior que haveria aula no dia seguinte, se empaturrando de pizza e cerveja até altas horas da madrugada.
Ao todo não dormiu mais do que três horas e sabia que isso sugaria suas energias pelo o resto do dia. Vestiu uma calça jeans claro, um vans preto, uma blusa regata branca de alças finas e um sobretudo fino de lã cinza. Uma vez que sua preguiça falava mais que a vontade de parecer ao mínimo apresentável ela deixou os cabelos soltos, catou as chaves o celular, jogou na bolsa lateral da escola e saiu.
(•••)
Uma droga. Seu dia se resumiu a isso. Não conseguiu se concentrar em nada, as palavras a sua frente se embolava inevitavelmente, quase dormiu duas vezes sentada na cadeira e uma delas recebeu esporro de algum professor qual ela não lembrava o nome tirando algumas risadas dos idiotas que estavam na sua sala. Agora, as três e meia da tarde, finalmente livre das provas e das aulas, ela poderia enfim voltar para os seus travesseiros. Só a ideia a fez sorrir. No meio do corredor ela parou um momento no bebedouro quando uma voz repentinamente veio ás suas costas a chamando, e ela obviamente ignorou. Não falava com ninguém nessa escola a não ser por questões acadêmicas, para alguém a chamar fora da sala de aula com certeza não era pra nada que preste.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ei, Chelsea! — seus olhos rolaram nas órbitas sentindo o peso do fardo que era o seu sobrenome estúpido. Maldita seja a família do seu pai. Secou a boca na manga da blusa caminhando a passos firmes para a saída dos fundos quando uma mão agarrou o seu pulso com força. Se virou irada pronta para fazer chorar a pessoa estúpida. — Tá surda, garota? Tô te chamando a horas!
— Quem diabos é você é o que quer? — sua voz soou amena, mas firme o suficiente para fazer a ruiva a sua frente recuar do seu espaço pessoal.
— Madeline, Maddy pros íntimos. Estudamos na mesma classe desde o começo do ano, duh! — a ruiva revirou os olhos — De qualquer forma eu só vim te dar um recado.
— Que recado?
— Tem um homem lá fora te procurando. Pediu que saísse rápido.
— Não conheço nenhum homem — respondeu ríspida. A ruiva revirou os olhos de novo.
— Bem, ele te conhece.
— Valeu o recado — murmurou chateada mudando o seu caminho decidindo sair na entrada principal.
— Se não o quiser me dá que eu farei bom proveito, Chelsea! — a ruiva gritou ás suas costas com entusiasmo atraindo olhares para si.
Alura se encolheu entre resmungos e chateações, ser o centro das atenções definitivamente estava na lista que ela odiava. Se perguntava que homem em sã consciência a procuraria, particularmente não conhecia nenhum importante a ponto de procurá-la no colégio, suas opções eram nulas. Atravessou os portões sendo recebida pelo sol brilhante da tarde, vários grupos de alunos conversando e rindo entre si. Procurou na multidão qualquer rosto conhecido que possivelmente a procuraria, a resposta vindo mais cedo do que ela estava preparada.
Ele.
— Não pode ser — murmurou sentindo a cor fugir do seu rosto e sua respiração engatar na garganta. 'Quem mais séria?' sua mente tão má quanto ela própria perguntou em desdém.
Clark Kent ainda era tão bonito quanto se lembrava, talvez a distância o fizesse parecer ainda mais sensual dentro das suas roupas simples. Seu cabelo estava levemente bagunçado, muito diferente do padrão certinho e organizado quando ele estava de Superman. 'Superman' sua mente sussurrou assustada 'Esse cara é o Superman e está me procurando!' Um sinal de alerta repentinamente piscou perante os seus olhos se lembrando do trabalho sujo que fizera para James a dias atras. 'Será que ele vai me matar aqui agora ou depois de me dar um esporro?' uma parte tola sua perguntou. Ele estava do lado de fora do campus olhando cada estudante com a atenção, a procurando. 'Ele está me procurando' ela suspirou em pensamento se repreendendo logo depois. 'Não, ele não pode me ver, ainda não estou pronta' e quando ela ia se virando lentamente para escapar pela a porta dos fundos como pretendia anteriormente, a sua marca, a maldita traíra, percebendo a intenção dela fugir do seu dono pulsou repentinamente, como a batida de um coração. Era comum isso acontecer, já estava acostumada, porém não esperava que com esse gesto bobo os olhos azuis celeste do forasteiro a encontrasse rapidamente, como se uma seta de neon estivesse repentinamente apontada para sua cabeça.
Alura congelou no lugar, suas pernas se recusando a dar mais um passo, seu rosto livre de qualquer cor, seus olhos assustados. Ele olhava para sua alma, sentia-se despida, repentinamente com vergonha pela forma carinhosa e ainda sim feroz que era observada. Passado alguns segundos ele percebeu que ela não se moveria e isso o arrancou um sorriso cheio de dentes, lindo, o sol repentinamente brilhando as suas costas como se ele fosse um anjo. Alura teve que reprimir um suspiro. Ela viu os lábios dele se mexerem falando com o vigia do colégio mas não conseguiu captar o que foi dito, o ar ainda faltando os pulmões pela visão de Clark Kent a sua frente.
Clark apontou em sua direção e o vigia seguiu o seu dedo, o olhar de descrença no rosto do homem assim que a viu quase a fez sorrir, trocaram algumas palavras antes que o vigia assentisse para ele e o deixasse atravessar os portões. Sem a sua intenção a sua cabeça balançou negativamente o olhando o fazendo erguer uma sobrancelha questionadoramente, pondo as mãos nos bolsos da jaqueta e dando um passo em sua direção claramente ignorando seu pedido mudo para que ele não se aproximasse.
— Ah, não, não, não — ela sentiu suas pernas amolecerem. 'Corra, idiota' ela dizia a si mesma, mas o seu corpo não a obedecia, seu corpo entendia que nada mais importava agora do que Clark Kent vindo em sua direção com um sorriso tão bonito que deveria ser pecado existir. Ele estava perto, poucos passos. Oh, droga, ele chegou. Seu corpo enorme tapando o sol a minha frente.
— Alura. — ele murmurou em um tom rouco, baixo, grave. Quase uma oração. Seus olhos eram janelas abertas para a sua alma, e a sua alma estava tão visível que não teve como não lê-la: ele a observava com carinho, paixão, adoração e um sentimento que ela não pode distinguir. Sentia-se adorada, exaltada apenas pelo seu olhar profundo.
— Clark.— não foi sua intenção dizer seu nome num suspiro fraco, bobo, mas quando o seu nome escapou dos seus lábios viu uma centelha do azul celeste dos seus olhos escurecerem num tom intenso, não de forma assassina. Era algo que ela não nomearia para o próprio bem da sua sanidade — E-Eu não esperava sua visita — pigarreou tentando recobrar sua dignidade.
Clark sorriu a sua frente, um sorriso sacana de lado.
— Eu avisei que minha paciência não duraria para sempre, Alura. Na minha humilde opinião eu esperei até demais — sussurrou para ela, a conversa caindo em um tom íntimo alarmante.
— Infelizmente sua paciência não durou tanto quanto eu queria — respondeu sentindo a boca seca, esquadrinhando o rosto perfeito a sua frente como se fosse a primeira vez que o visse na vida. O seu cheiro era forte, másculo, viril, como de um lenhador depois de um banho bem tomado. Era maravilhoso, quente, potente.
Clark Kent era perigoso de várias formas. Perigoso para sua existência, perigoso para sua sanidade. Não se lembrava de como ele era belo quando sorria até aquele momento.
— Quão cruel tem sido comigo, Lua — sua mão esquerda se dirigiu ao seu rosto arrastando um fio de cabelo teimoso da sua testa o pondo gentilmente atrás da sua orelha, os olhos dele fixo nos dela — Pensei que não fosse mais vê-la.
— Não é como se um insistente maldito como você fosse permitir tal coisa — resmungou encabulada com a mão dele ainda descansando e alisando a sua bochecha com o polegar.
— Tem razão. Não permitiria — ele sorriu doce retirando a mão do seu rosto com relutância — Vim fazer um convite.
— Que convite? — franziu o cenho.
— Passe a tarde comigo. — sua voz era grave, lenta a pronúncia das palavras. Alura tremeu perante a profundidade daquela pergunta, 'NÃO!' sua mente gritou num alarme estridente a fazendo suspirar cansada perante a controvérsia do que ela queria, do que ela podia e não podia. E ela definitivamente não podia mais fugir de Clark Kent.
— Eu tenho escolha? — murmurou não conseguindo usar nenhum dos seus tons chateados, petulantes, provocativos ou ofensivos. Ela naquele momento não era Alura Murray, filha de Vivian Murray, uma fodida expert em partir corações e afastar pessoas com sua frieza e indiferença; ela era só Alura ali, apenas ela é Clark Kent no ambiente, todas as dúvidas, medos e repulsa dos últimos dias sumindo como se nunca tivessem existido.
— Receio que não, querida — sussurrou de volta se aproximando lentamente, o clima esquentando ao seu redor, seu timbre e sotaque a embalando num estado de torpor delicioso. Alura não queria, mas estava pronta para o que viesse.
— Pegando geral, hein, Chelsea! — alguém gritou ás suas costas quebrando o clima sensual que os rodeava a fazendo perceber que ainda estava no campus com todos olhando. Percebeu então que estava perto demais do repórter saltando dois passos para trás quase instantaneamente, pigarreando, sentindo as bochechas quentes. Seu mau humor voltando como uma torrente sobre suas costas fazendo o clima acizentar novamente.
— Vamos sair logo daqui. Você chama muita atenção. — resmungou chateada. Clark parecia contrariado a sua frente, no mínimo, mas não comentou nada. Porém ela o viu lançar um olhar sombrio para alguém as suas costas, possivelmente quem os atrapalhou de... bem, seja lá o que aconteceria. Alura não pensaria sobre isso.
Ela não sabia o que aconteceria dali em diante mas de uma coisa tinha certeza: estava fodida, perdidamente fodida. Se era uma coisa boa ou ruim ela não saberia dizer, e nem queria descobrir, mas infelizmente era algo que ela já não tinha mais controle.
Sentia que Clark Kent estava no comando agora.
(Notas finais? ♥)
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