Notas iniciais
Olá! Tudo bem, moças? Já tem um pouco mais de um mês, não? Senti muitas saudades de todos vocês ♥ Bom, se quiserem saber a razão do meu sumiço (eu recomendo, é importante) então creio que nos veremos em breve nas notas finais, sim? Ah! Essa é a Parte 1 do capítulo! Sim, eu tive que dividir. Quando fui postar o capítulo bateu mais de 10.000 palavras, e como são capítulos explicativos (notas finais) terá bastante texto e iria ficar deveras cansativo, então cá estamos nós. Boa leitura, meninas! (Infelizmente não achei esse gif em tamanho maior, o que é uma verdadeira pena; ele é perfeito para o capíulo)

'O Céu frio e cinzento cobria nossas cabeças naquele final de tarde, entretanto não era uma novidade; era sempre frio em Swindon. Eu odeio frio. O frio lembra a mamãe quando está com raiva, mas uma forma intrigante o clima inglês era o seu perfil perfeito, os dias nublados pareciam a abraçar como um grande casaco de pele caro; lhe caía como uma luva. Era lindo em si, mas era duro: mamãe estava sempre fria, assim como Londres.

Mas apesar de tudo eu jamais imaginaria que ela me deixaria aqui sozinha.

Os pequenos e suaves flocos de neve já podiam ser vistos caindo do céu, e eu sabia que em breve cobriria todo o chão, em breve nenhum carro poderia atravessar as ruas. Quanto tempo mais eles iriam me deixar aqui? Perguntei para mim mesma apertando o casaco sobre os meus ombros. Meus coleguinhas passavam por mim rindo, zombavam da minha aparência melancólica frente a escolinha, eles corriam para os seus pais que o recebiam com abraços calorosos e os levariam para casa em segurança.

Mamãe nunca me abraçou.

Eu sei que ela é triste por minha causa, eu sei que papai também é apesar de não me mostrar, mas eles nunca antes haviam me deixado assim antes; vulnerável e sozinha frente a uma escola que em minutos estaria vazia, em minutos todas as ruas estariam. Lágrimas quentes queriam correr pelos meus olhos, mas eu não ia deixar! Mamãe diz que chorar era para tolos. Eu não quero parecer mais tola do que eu já sou agora.

— Sinto muito, Alura — minha professora de inglês tocou os meus ombros enquanto se abaixava pra ficar da minha altura, seu rosto carregava uma feição de pena — Não consegui falar com os seus pais, as linhas estão mudas. Mas posso levá-la para casa, se quiser.

— Não — minha voz soou rouca, baixa e infantil. Eu só tenho oito anos, afinal — Eles virão, sei que sim. Papai e mamãe sempre demoram.

— Tem certeza? — ela perguntou relutante. Me senti feliz com o seu carinho, os professores não eram muito carinhosos comigo. Deve ser porque só tiro notas baixas e, mentalmente, os xingava de incompetentes por não conseguir me ensinar, o que era uma mentira. Todos conseguiam aprender, menos eu — A neve vai piorar em breve, não quero deixá-la sozinha aqui aqui.

— Tenho sim — afirmei com convicção — Eles sempre vem.

— Certo — ela acariciou os meus cabelos com cuidado, um olhar relutante enfeitando o seu rosto bonito — De qualquer forma, vou tentar ligar mesmo quando eu estiver em casa. Me dê notícias quando chegar, ouviu? Meu número está na sua agenda?

— Sim, senhora Jhonson, pode deixar. Obrigada — agarrei meus livros com mais força frente ao corpo. — Eles vão chegar em breve, você vai ver. — murmurei as últimas palavras, tentando acreditar nelas.

Ela sorriu enquanto se levantava acariciando os meus ombros uma última vez, se virou e entrou no carro, aquele olhar doente ainda em seu rosto quando partiu. Tentei sorrir para mostrar que estava tudo bem, certa das minhas palavras, confiante.

— Papai e mamãe vão chegar logo, sei que vão — sussurrei para mim mesma vendo o carro da professora sumir na estrada.

Mas eles não vieram.

Uma hora depois eu ainda estava frente a escola agora fechada, as ruas escuras, a neve mais densa. Eu estava com roupas inapropriadas para o inverno, não esperávamos que a neve viesse tão cedo, o meu corpo tremia. Uma hora depois, com lágrimas congelada e não derramadas nos olhos, eu me lembrei que hoje os Chelsea jogava ao vivo contra os Tottenham, era um jogo épico entre rivais no mundo do futebol, ou seja: papai e mamãe não viriam me buscar, eles devem ter me esquecido enquanto se entretinham com o estúpido jogo. Eu não sabia voltar pra casa sozinha, mamãe me dizia que eu era estúpida por isso e as vezes eu acreditava, todo mundo sabia onde eram os seus lares menos eu. Com os joelhos enferrujados pelo frio eu dei meus primeiros passos em direção as ruas de Swindon, tentando refazer o trajeto que o carro da mamãe fazia todos os dias.

Aquela foi a primeira vez que eu fui deixada realmente só.

E não foi a última.'

Puxei uma grande quantidade de ar para os meus pulmões quando os meus olhos se abriram, meu tronco sendo empurrado pra cima com rapidez, suor correndo pelo o meu corpo, um leve tremor nas minhas mãos. Algumas piscadas e olhadas ao meu redor depois eu percebi que estava no meu quarto, no meu apartamento embolorado, em Metrópolis. Um suspiro aliviado escapou pelo os meus lábios quando percebi que eu estava apenas tendo um sonho, um pesadelo.

Uma memória.

Tombei meu corpo para trás novamente fechando os meus olhos com minhas mãos o cobrindo, minha respiração ainda alterada pela experiência anterior.

— Foi apenas um sonho, um maldito sonho — murmurei.

Mas as palavras não entravam na minha cabeça. Em meu peito eu sentia meu coração bater descompassado, as imagens ainda vívidas na minha cabeça, sentindo o frio ainda cortando o meu rosto enquanto eu chorava perdida nas ruas de Swindon até um policial gentil me achar e me levar para casa. Foi uma lembrança, uma lembrança estúpida e sem graça. Fazia tempo que eu não tinha pesadelos com a minha infância, fazia tempo que eu não me recordava de coisas tão tolas. 'Eu já superei essas coisas' recitava num mantra comigo mesma tentando bloquear mais recordações indesejadas que queriam invadir a minha cabeça. O meu corpo ainda tremia pela memória do frio inglês, os meus olhos ainda pinicavam pela vontade infantil de chorar, a solidão e o medo que senti naquele dia ainda correndo pela as minhas veias. As sensações eram estupidamente reais.

Senti um gosto amargo de revolta na boca, o mesmo sentimento corrosivo que senti quando o policial me deixou frente a minha casa, o mesmo sentimento de quando eu entrei no meu lar e percebi que eles não tinham sequer notado a minha falta. Estavam com os olhos vidrados na TV assistindo o estúpido jogo. Assim que atravessei a porta de casa, uma eu de muitos anos atrás só queria chorar no colo dos meus pais e perguntar porque eles me deixaram lá; agora eu sinto raiva, raiva pela negligência dos meus entes por causa de um maldito jogo de futebol. O meu peito doeu uma batida protestando contra ao sentimento corrosivo, bem em cima da minha marca de nascença.

A marca.

Abri os olhos alarmada me levantando com força outra vez, minha visão escurecendo por breves segundos. Uma avalanche de memórias de ontem a noite cortando a minha cabeça fazendo com que o sonho idiota qual tive não fosse mais nada além disso; um sonho idiota. Agora, um pesadelo atual e real me preocupava: Clark Kent. Superman. Rosaly. Acidente. Mentiras.

Uma fobia crescendo em minhas veias. Minha respiração ficou ofegante, meus sentidos apurados, minha pulsação se alterando a cada segundo. De repente, as paredes do meu quarto estavam perto demais, prestes a me esmagar. Joguei as cobertas no chão e corri para o banheiro sentindo a mudança de temperatura machucar os meus pés. Abri a porta com um solavanco indo direto para o sanitário, me ajoelhando e pondo todas as besteiras que comi ontem para fora por longos minutos. Tossi ao terminar, me sentando ao lado do sanitário com uma expressão perplexa no rosto.

Clark Kent é o Superman. Passamos a noite juntos ontem num encontro arranjado por Rosaly Campbell, a mulher que se diz minha amiga. Ele mentiu, ela mentiu.

As palavras chaves me fizeram encolher no chão do meu apertado toalete, abraçando os joelhos pondo a minha cabeça entre eles. Ao meu redor os sons da minha respiração afobada soava como sinos. Depois de anos rodeada pelo meu próprio azar, cá estou eu novamente surpresa com a capacidade da minha vida virar contra mim sem mais nem menos. Uma eternidade toda tentando mostrar para minha mãe que eu seria diferente das suas previsões melancólicas sobre a minha pessoa e agora me encontro querendo chorar como uma criança ao ter o coração partido, enganado, confuso e com medo. Eu não sabia porque estava tão afetada, eu não sabia porque ele me afetava daquela forma. Uma sensação claustrofóbica se arrastava lentamente ao meu corpo ao lembrar da sua presença, sua forma como Superman, como se a qualquer momento outra nave gigantesca fosse pousar em nossa terra com Zod e seus parceiros malignos de poderes incalculáveis descendo dela, exigindo um ser qual não conhecíamos, nos fazendo pagar caro sob suas mãos poderosas e inabaláveis ao nosso sofrimento.

Medo, terrivelmente com medo, confusa e decepcionada.

Aqui estou eu em meu estado de espírito mais deplorável, aquele estado que ninguém nunca antes viu senão a minha própria mãe, mas ela já não estava aqui para mandar calar-me porque eu a atrapalhava de ver o seu jogo. Agora, nem a sua voz áspera podia se espalhar pelo os cômodos me alertando que, mesmo perante a sua frieza, eu não estava sozinha. Agora eu estava estupidamente só e eu não sei porque eu estava desconfortável com essa situação, eu sempre gostei da companhia fria e fiel da solidão, então porque eu me sentia tão vazia? Tão abalada? Tão...

Enganada.

Minhas primeiras e tímidas lágrimas correram pelo meu rosto ao perceber a minha tolice, fazia anos que eu não chorava, anos! E bastou aquele ser entrar na minha vida para que os meus muros se abalassem, para que criasse sentimentos confusos e tolos no meu peito. Talvez… talvez eu estivesse realmente gostando da companhia do repórter, ele parecia ser um bom homem, ele parecia ser digno da minha educação. E então ele mentiu. Se transformou a minha frente como um passe de mágica, uma hora era ele e outra hora não era. Eu fiquei apavorada, sentindo olhos vermelhos de lasers do Capitão Zod me observarem a cada canto que eu olhasse, como se o Superman fosse a personificação do próprio mal, como se ele fosse o próprio imã para desgraças.

Pensando sobre o quão afetada eu estava pelo repórter/herói, percebi que isso me abalava em imensidões impensáveis e jamais sentidas. Isso tudo era uma tolice, eu sou inabalável, ou ao menos pensei que era. Mas cá estou eu, patética e frágil escondida no meu banheiro sentindo a amaldiçoada marca penicar como um inferno, me lembrando que de alguma forma o meu tormento sobre aquele ser não teria fim. Ela era um desagradável aviso sobre a sua existência. Eu sempre soube que era uma pessoa azarada, os primeiros sinais da minha desgraça começaram a aparecer ainda muito cedo quando eu inexplicavelmente perdi a carteira do meu pai com todo o seu salário dentro. Eu só tinha seis anos, ainda era nova para entender sobre azarações, e mesmo que até hoje eu não acreditasse em carma eu era constantemente perseguida por um. Mas eu não imaginava que a minha vida me sacanearia de uma forma tão imaginável que eu não conheço palavras sequer pra expressar minha indignação.

Ontem eu tinha me expressado demais, sido legal demais, sorrido demais. Eu sempre soube que demonstrar conforto ao lado de alguém acabaria sendo a minha ruína, e agora aqui estou eu, envergonhada da minha própria sombra ao lembrar o quão frágil eu fiquei ao lado do repórter ontem a noite. Quando ele me salvou pela segunda vez da morte uma parte dentro de mim quebrou, uma porta, e dela o meu lado mais desprotegido veio a tona. Eu chorei em seu peito, demonstrei meu desespero. Eu senti o seu cheiro, me entorpeci, desmaiei em seus braços fortes com seu odor másculo invadindo as minhas narinas e acalmando os meus nervos.

Eu fui uma idiota.

'Alura Murray, você é patética' disse a mim mesma. Fazia muito, muito tempo que o sentimento de pena de mim mesma passava pela minha cabeça. Por mais que eu não fosse tão inteligente como os meus pais queriam que eu fosse, eu nunca fui uma pessoa de me auto apiedar. Desde que entrei na adolescência as minhas desventuras não eram mais desculpas para me encolher e chorar como uma garotinha idiota, como todos esperavam que eu fizesse.

Pisquei os meus olhos chorosos levantando a minha cabeça dos meus joelhos, lembrando dos caminhos difíceis que passei para superar os meus medos.

Fisicamente, eu sempre tive tudo. Os meus problemas sempre foram comigo mesma, mas eu sobrevivi a minha própria selva interna. Eu consegui superar os meus medos e receios com a minha frieza, eu consegui deixar para trás as minha mágoas e prosseguir sozinha. Comecei do zero trabalhando desde muito nova para ter o pouco que eu tenho hoje e nunca mais chorei desde então. Nunca mais permiti que as lágrimas viessem, desde que fiz catorze anos. E aqui estou eu jogando o meu legado fora, o meu orgulho. a minha dignidade.

Fraca como minha mãe sempre disse que eu era.

Por que dói? Porque sinto tanto medo? Porque eu me importo? Porque... Sinto a sua falta? Tombei a cabeça para trás. Meu peito doía num sentimento esquisito e desconhecido, minha mágoa e medo palpáveis a qualquer um que pudesse ver através de mim. Mas ninguém podia, ninguém compreenderia a minha cabeça fodida. Eu era uma bagunça de sentimentos, vontades e desejos. Não poderia ser compreendida por ninguém porque nem eu mesma me entendia.

Uma onda realidade passou pelo o meu corpo, meu orgulho querendo se refazer, se curar, como um mutante. 'Não faz mal' pensei amargurada. Eu dou o meu jeito, eu sempre consigo me levantar usando apenas as forças das minhas próprias pernas. Porque, de alguma forma, eu sei perfeitamente como catar os meus cacos afiados e recomeçar do zero com a força de vontade e a coragem que eu tenho, a mesma coragem que me fez trabalhar em tudo que era lugar -perigoso ou não- desde muito nova, a mesma que conseguiu reunir dinheiro o suficiente para pagar um apartamento em outro lugar do outro lado do mundo, a mesma que imigrou de um país para o outro sem ter absolutamente nada nem ninguém me aguardando além de uma moradia precária numa grande cidade qual eu nunca estive, e comigo eu levava nada além da vontade e poucas roupas na mala. E era o que eu faria: recomeçaria. Porque eu, Alura Murray, podia ser uma tola de sentimentos fodidos mas eu não era uma desistente.

Me levantei secando as poucas e rasas lágrimas que escaparam dos meus olhos, tirei o pijama suado e entrei no box ligando o chuveiro.

Clark Kent não iria me quebrar.

(•••)

Me servi de uma caneca de café recém feito preto e sem açúcar para me manter acordada. Por mais que eu quisesse dormir todo o dia e esquecer os acontecimentos da noite anterior eu não podia me dar ao luxo, obrigações chamavam por mim. Estava sentada em meu sofá desgastado enquanto Rubens trabalhava na minha porta. Eu olhava fixamente a pequena estante de livros do outro lado da minha sala, ali um pequeno pedaço da minha vida preguiçosamente enfeitando minha prateleira; um diário velho e acabado, o maldito livrinho que achei em cima do meu guarda-roupa ontem enquanto dava uma geral na casa. Eu não precisei abrir aquela merda para descobrir do que se tratava, o sonho de ontem foi o suficiente para me fazer lembrar das minhas lamúrias escritas aí. Quando decidi me mudar a quase três anos atrás certifiquei-me de desfazer de qualquer coisa qual não era necessária, mas aparentemente aquele diário puído veio como um intruso em minhas malas. Agora lembro-me de jogá-lo em cima do guarda-roupa quando o achei ao desfazer as minhas bagagens a quase três anos atrás, não sabia o que passava na minha cabeça naquele momento para cometer tal erro pois eu não queria fantasmas me perseguindo depois de tudo o que eu fiz para ir embora de casa, mas ali estava ele; como uma lembrança indesejado da minha infância solitária.

Não quero que pensem em mim como uma coitada porque eu não sou e repudio o sentimento profundamente, há pessoas piores do que eu vagando por aí enfrentando o mundo de cabeça erguida. De fato, não há tragédias em minha infância além da solidão; sempre fui muito bem alimentada, nunca me faltou roupas, brinquedos, minha casa estava sempre quente, sempre estudei em boas escolas. Mas uma antiga eu, uma criança tola de muitos e muitos anos atrás só queria um beijo de boa noite, um abraço quando meus machucados doíam, um afago nos cabelos quando tirava notas boas. Supérfluo, não? Quantas crianças espalhadas pelo mundo anseiam pela metade das coisas que eu tive e eu ficava me lamentando pela negligência dos meus pais como um cão ferido precisando de afago.

Meus pais.

A mera menção das palavras e o sonho louco que eu tive me trouxe lembranças á muito enterradas, e eu odiava isso.

Papai é um homem bom, apesar de louco. Ele preenchia minhas lacunas emocionais quando não estava delirando no porão traçando datas confusas, sussurrando sobre homens do espaço, conspirações iluminatis, signos idiotas e perseguições do governo. Sempre me perguntei porque ele achava que o governo iria se interessar por nós; uma família inglesa comum no mundo. Ele não batia bem das idéias. Mas Vivian, minha mãe, era tão lúcida e amarga que se transformou numa rocha; dura, fria e impenetrável. Segundo as leis de maus-tratos infantis ela nunca me destratou, nunca me bateu ou me xingou de nomes horrivelmente pesados, nunca me diminuiu em público e nunca me negou a quem perguntava. Mas ela também nunca me amou, de fato. Fugia de mim pelo os cômodos da nossa casa como se eu fosse o próprio diabo, sempre me olhou com frieza e uma mágoa que eu não entendia de onde vinha.

Eu era uma estranha dentro de casa, uma estranha que ela alimentava e ocasionalmente brigava, uma estranha que ela direcionava palavras duras sobre a realidade do mundo e a crueldade de se ter uma criança em plena juventude, uma estranha que ela carregava como se fosse o seu maior fardo. Ás vezes eu queria entende-la. Mamãe não era só rude comigo, o mundo todo e a todos que habitam nele são alvos do seu ódio, na verdade, de um jeito estranho eu era a pessoa que ela mais demonstrava afeto; e ela nunca fazia isso. Por outro lado eu não me importava mais, eu parei de pensar sobre isso a muito tempo atrás. Ela não é problema meu.

Papai sempre foi o seu pote, quando ela estava cheia até a borda de amargura e decepção ela despejava toda a sua severidade e frustração dentro dele, o enchendo de olhares melancólicos de uma culpa que eu jamais poderia entender o porque. Nunca conheci meus avós ou tios por parte de mãe, a família dela era toda complicada e as mulheres da sua genética tinham um temperamento forte demais para manterem contato uma com as outras, isso só piorou com a sua gravidez prematura e indesejada, eles não precisavam me dizer para que eu soubesse disso. Meu pai sempre foi pirado desde criança e creio que isso só piorou com o meu nascimento, a sua família não poderia suportar suas loucuras e a carranca da minha mãe para ficarem próximos de nós, mas eles eram dóceis, gentis e muito risonhos. Eles sempre me ligavam para saber como eu estava e se precisava de algo, me mandavam presentes de todas as dadas comemorativas do ano, vovó Olga -se existir um Deus que ele a tenha- falava bastante sobre como gostaria que eu morasse com ela.

Deve ser por isso que não me familiarizei muito com eles, eu sou uma pessoa que gosta do meu próprio e solitário espaço desde que me entendo por gente, socializar nunca fora o meu forte e eu nunca fiz questão também. Antes pensei que talvez fosse por querer ser igual a minha mãe, talvez ela me desse um pouco mais de atenção se visse que éramos parecidas em algo, depois descobri que gostava da solidão por mim mesma. Mas ás vezes penso que talvez, só talvez, eu seria diferente se ela me desse o seu carinho. Ás vezes eu também me pergunto se há algo de errado comigo e minha foma de olhar o mundo.

Eu nunca tive grandes objetivos na vida, sinceramente eu já alcancei tudo o que queria: sair de casa, ter um emprego que me rende um bom salário e cursar uma faculdade decente, então eu não me importava com coisas ou pessoas fora dessa meta. A minha monotomia e indiferença tenha afugentou cada pessoa que queria ficar ao meu lado. Depois de um tempo brigando e implorando pelo o meu próprio espaço eu me cansei, ás pessoas metiam em suas cabeças que poderiam me salvar de mim mesma e demoravam a desistir mas elas nunca entendiam que eu não precisava ser salva, eu nunca precisei; eu só era eu mesma confortável com nada mais além da minha própria companhia. E então, quando viam que eu era simplesmente do jeito que eu sou, enfim se cansavam. Algumas raras vezes doía, admito. Apesar de tudo eu não sou feita de pedra, eu tenho sentimentos, eu gostava de alguns deles, mas o meu ritmo era monótomo e cinza demais para que acompanhassem. Não eram suas culpas a minha personalidade fodida e eu não deveria ser o seu fardo. E nunca tive sonhos brilhantes, sorrisos radiantes e uma meta grandiosa; eu era e sou Alura, apenas Alura, apenas eu mesma.

Talvez ninguém pudesse lidar com isso.

— Senhorita Alura? — fui bruscamente arrancada dos meus pensamentos sórdidos por uma voz masculina, minha visão desanuviando de acordo com que eu voltava pra minha realidade.

— Sim, Rubens? — respondi por reflexo.

— Já terminei com sua porta.

Por um momento tinha me esquecido do senhor no meu apartamento, mergulhei tanto em memórias que nem mesmo o barulho irritante da instalação me fez acordar. Balancei a cabeça levemente tentando empurrar minha própria melancolia pro fundo do baú. Agora não era hora. Me levantei do sofá ponto a caneca de café -agora frio- e fui dar uma checada no trabalho do ancião. A porta nova e cara não combinava em nada ao clima morfado e sem cor do meu apartamento, era um destaque novo e brilhante no meio de toda minha tralha velha. As dobradiças eram fortes e brilhantes, a maçaneta prata lustrosa e a madeira acobreada pesada renovou um clima de mudança dentro de mim. Talvez eu mandasse pintar o apartamento também.

— Está perfeito, Rubens. Muito obrigada — o senhorzinho sorriu satisfeito enquanto limpava o suor que escorria por sua testa com uma flanela velha.

— Garanto que o trabalho é de primeira e com o bom material que a senhorita comprou demorará anos até o próximo defeito aparecer, talvez nunca.

— Assim espero, foram quatrocentos dólares fora os seus serviços, afinal — resmunguei caminhando até a minha carteira em cima do balcão da cozinha. Contei o dinheiro e me voltei a Rubens, lhe entregando a sua quantia merecida. Ele sorriu gentil.

— Deus lhe abençoe — saudou com sinceridade olhando os meus olhos. Movi o peso de uma perna para o outro levemente desconfortável.

— Amém, o senhor também — respondi, entretanto. A minha incredulidade não deve anular a fé dos outros. Eu jamais seria desrespeitosa com quem realmente me desejasse o bem, mesmo que por meios quais eu não acredito.

Meu pai acredita fielmente que a posição das estrelas interfere em nossas vidas, então quem sou eu pra apontar a crença alheia.

— Vou deixar meu cartão com a senhorita caso precise. Nunca se sabe. — comentou em tom de descaso.

— Homem, acho bom que eu não precise. Paguei caro demais pra chamá-lo aqui de novo e me arrancar mais dinheiro — resmunguei chateada, Rubens entretanto riu gostosamente, seus olhinhos pequenos se apertando no processo.

— Gosto do seu humor, senhorita Alura. Me lembra a minha esposa atualmente, estamos casados a vinte cinco anos. — revirei os olhos com sua declaração mas sorri levemente para não parecer mal educada. Por mais que eu queira ficar longe das pessoas elas tem uma mania de gostarem de mim que eu sinceramente não entendo.

— Então você está numa fria, amigo — lamentei falsamente e ele riu novamente. Pensei nesse momento que talvez eu esteja cursando a faculdade errada e deveria largar tudo ao vento e sair por aí fazendo Stand-Up. Me renderia uma grana já que ultimamente todo mundo acha lindo o meu humor ruim.

— Que nada, eu amo aquela velha rabugenta. Quero morrer ouvindo os seus resmungos sobre tudo.

— Os homens enlouqueceram, Rubens. Vocês nunca fizeram muito sentido mas isso tem se tornado grave de uns tempos pra cá — ele gargalhou com vontade, se inclinando levemente para trás no processo.

— Um dia vai encontrar um bom rapaz que adorará o seu jeito de ser também, senhorita Alura. Nós adoramos moças complicadas.

— Eu aqui indo com a sua cara e você me desejando uma praga dessas. Sinceramente, viu — apertamos nossas mãos enquanto ríamos, despedindo-se, me desejando um bom dia.

Ao bater a porta -agora sem ferrugem e barulhos rangentes de filme de terror- eu olhei para tudo ao meu redor sentindo a solidão dos cômodos me abraçar novamente. Não, não era os meus pais. Apesar dos sonhos me chatearem eu não ligo mais para isso, procuro não pensar sobre. Mas um assunto, aquele assunto não poderia ser esquecido por tão cedo. Clark Kent. Superman. Rosaly. Traição. Segurei minhas têmporas firmemente sentindo uma dor fina apertar dentro da minha cabeça, um bolo na minha garganta de lagrimas não derramadas. 'Você já chorou o suficiente por uma era, imbecil', repeti para mim mesma, 'Você não é mais uma criança, deixe de ser tola!' minha mente gritava. Respirei fundo uma par de vezes até que a enxurrada atrás dos meus olhos fossem afastadas.

Minha cabeça estava confusa, minha vida estava confusa, me senti dentro de um livro mal-escrito sobre os tropeços fodidos na vida de uma mulher sem metas. O que diabos está acontecendo? Porque está acontecendo comigo? O que ele queria? O que Rosaly estava pensando? Por que eu me sinto tão triste, decepcionada, quebrada, traída... saudosa. Balancei a cabeça com força como se o ato fosse derrubar os meus pensamentos sem sentindo.

— Foco, Alura — sussurrei sentindo meu coração acelerar ao lembrar da sensação de proteção quando os seus braços me rodearam ontem — Não pense nele, não lembre dele, não fale sobre ele. Esqueça, simplesmente esqueça, viva como se não tivesse acontecido.

Caminhei pela casa como se estivesse procurando algo, como se minha sanidade estivesse dentro de algum dos cômodos esperando por mim. Ao passar pela sala e olhar para o maldito diário outra dor fina começou nas minhas têmporas. Demais, era tudo demais; os sonhos, o Kent-fodido, o Superman idiota, a Rosaly traíra, tudo. Caminhei com raiva até a cômoda pegando aquele maldito livro e o arremessei na lixeira da cozinha. Eu não preciso dessa merda, eu não preciso de mais problemas. O passado é passado, o presente é confuso e o futuro é incerto; mas eu, Alura Murray, não serei derrubada pela as brincadeiras do destino.

Tentando erguer os cacos da minha dignidade novamente eu me dirigi ao meu cubículo apertado que carinhosamente apelidaram de banheiro. Preciso de um banho, preciso tirar os rastros daquele imbecil do meu corpo, preciso lavar a minha alma até que eu volte a ser eu mesma.

(...)

Apertei a toalha ao redor do meu corpo quando saí do chuveiro. Limpando o vidro embaçado do meu espelho eu olhei para mim mesma com atenção depois de muito tempo tempo. Eu sou uma pessoa bonita se consider os padrões de beleza mundial e apesar de não ser uma pessoa ligada a estudos eu tinha uma educação acadêmica relativamente boa mesmo que eu não a use com frequência. Os modos que me foram ensinados eram invejáveis, minha mãe era grossa e rude mas o seu porte era incontestável perante ocasiões importantes e ela se certificou que eu absorvesse cada um dos seus ensinamentos. E isso me rendeu alguns incômodos porque, apesar da minha frieza, eu tinha uma educação inglesa invejável. As meninas das escolas quais estudei sempre me quiseram em seus grupos e os garotos nunca me deram trégua; o meu armário cheio de bilhetinhos na época do colégio que o diga.

Mas desde que entrei na adolescência e me tornei quem eu sou, Alura Murray, o status, os garotos e as amizades nunca me interessaram. Fora quando a minha rudeza começou a criar garras também. Claro que eu gostava de homens, já tive um namorado ou dois a uns tempos atrás mas eu percebi que aquilo não era para mim, eu não queria ninguém em meu pé me sufocando com romances e contos de fadas de um futuro conjugal. Eu dei o pé em cada um deles, ás vezes me divertia uma noite ou duas e me mandava quando a coisa ficava séria demais. Quebrei alguns corações, admito.

Meus cabelos negros e indomáveis escorriam pelo os meus ombros e costas, a toalha pequena mal continha os meus seios e apertava os meus quadris levemente largos, minha cintura era fina apesar das mínimas ondulações que eu tinha na minha barriga causados por inúmeros pedaços de pizzas ao longo dos anos. Apesar de todos os apelidos bonitos que me colocavam (tirando os insultos quando conheciam a minha personalidade fodida) eu nunca fui uma mulher de aparências, eu nunca vi nada além de Alura Murray me encarar através dos reflexos, eu não me importava com qual aparência eu ostentava. Eu não sou perfeita. Como toda mulher comum eu carregava comigo algumas finas estrias na minha bunda, o tamanho da mesma somada com minha total falta de paciência para academias também me causava algumas mínimas celulites abaixo das nádegas. Meus cabelos também não são uma peruca perfeita como a de Rosaly é, alguns frizz enfeitavam as suas pontas que o tornava uma bagunça leonina ao acordar, no meu rosto algumas leves e quase transparentes sardas enfeitava aqui e ali.

Porém, acima dos defeitos e qualidades, o que eu via agora era uma mulher qual a vida queria fugir do seu controle. Meus olhos estavam inchados e levemente avermelhados causado por lágrimas estúpidas que insistiam em correr livremente por meu rosto, meus lábios estavam secos e rachados, minha feição estava cansada. Entre os meus seios a maldita marca pulsava, queimava e coçava numa intensidade realmente incômoda que me fazia sentir vontade de gritar, a maldita marca que eu repudio com todas as minhas forças. Eu sou uma pessoa levemente curiosa, eu queria mais do que tudo saber porque eu a tinha, porque a mim, mas a minha indiferença em assuntos alheios vencia a minha curiosidade; eu realmente não queria descobrir porque ela estava ali. Era pequena, mas avermelhada e inchada como se alguém tivesse me marcado a ferro, e a maldita parecia protestar a minha conduta perante ao forasteiro. Por breves momentos me permiti relembrar de ontem, me lembrei de como ela estava quente e confortável, como uma cama fofa depois de um longo dia de trabalho árduo. Ela enviou sensações confortáveis ao meu corpo me deixando mais solta e confiante perante a sua pessoa.

Ela reagia a presença dele, do repórter mentiroso.

Lembro-me dos seus sorrisos fofos quais mostravam suas adoráveis presas, do seus olhos brilhantes toda vez que me olhava como se eu fosse uma joia rara em montanhas de bijouterias, do seu toque quente e apaziguador toda vez que o frio do medo das lembranças do acidente abalava o meu corpo. Repentinamente mais lágrimas invadiram os meus olhos, lágrimas de raiva, de amargura, de decepção, de... medo. Porra, eu estou terrivelmente com medo. Tudo o que eu sempre quis na minha vida fora uma casa só minha, um emprego bom e viver a minha independência solitária vagando sozinha no mundo em prol dos meus próprios objetivos. Mas essa marca, essa maldita marca que pertencia a ele me dizia que os meus planos estavam arruinados, me dizia que por mais que eu quisesse viver a minha maldita vida num buraco escuro ele não permitiria porque, de alguma forma estúpida e injusta, estávamos ligados.

Eu me amaldiçoava pela minha estupidez sentimental, não me lembro de um dia em que eu estivesse tão frágil, mas uma enxurrada de perguntas e sentimentos confusos invadiam a minha cabeça numa velocidade alarmante. A pouco tempo atrás eu tinha admitido a mim mesma que a muralha voadora maldita me atraía de uma forma nada comum, e a dias atrás eu me sentia bem toda vez que o repórter insistente me ligava. Duas pessoas que era, na verdade, um só. Eu jamais queria ver o homem de aço novamente, apesar da atração eu não desejava a sua presença, as sua visitas, porque a sua existência significava um abalo no mundo, no meu mundo. Ele era um risco a minha sanidade, a minha monotomia, a minha segurança. O meu maior medo em sua existência é o risco que ele nos trás, porque se há um sentinela há perigos cada vez maiores para o desafiar. E, por mil diabos, eu jamais me recuperaria se entrasse num confronto semelhante ao acidente novamente. Podem me chamar de covarde, mas apesar de toda a minha frieza eu estava acostumada com o mundo do jeito que ele era, eu estava preparada pra enfrentar qualquer obstáculo que aquele mundo pudesse me dar.

Mas é tudo diferente agora, eu já não sei mais o que me aguarda no dia seguinte. Quando revi os vídeos da nave-mãe destruindo o centro da nossa cidade com suas ondas malignas o som que ela fazia enfeitou meus pesadelos por dias, a forma com que os aliados do general quebrava os nossos pescoços sem dificuldades ou remorso tremeu a minha alma, e Zod e seus olhos malignos... aqueles olhos, prontos para me partir ao meio, não exitando nem um segundo mesmo que em meu colo uma criança soluçava e chorava de medo jamais sairiam das minhas lembranças. A forma que ele me arrancou os cabelos, me arremessou pra fora do carro, cortou os ares comigo presa pelo pescoço em seu pulso de ferro, a raiva qual ele me olhou era demais, era tudo demais. E é por isso que eu quero distância do Alien forasteiro, é por isso que eu o temo: ele representa instabilidade, perigo. A sua existência é a bandeira vermelha para qualquer outra ameaça fora do nosso planeta, sinalizando que estamos prontos pra uma guerra. Inferno, não! Eu não quero ficar no meio desse fogo cruzado.

Eu não quero que Metrópolis, sempre bela e ensolarada, vire a maldita Gotham.

Meus olhos foram atraídos para a marca novamente, a toalha mal a cobrindo. Puxei-a um pouco para baixo libertando os meus seios do seu aperto podendo contemplar completamente o sinal da minha desgraça. Ela pulsava dolorosamente, ardia, como se estivesse ligada aos meus sentimentos tortos e conflituosos, como se estivesse protestando contra os meus pensamentos negativos em relação ao seu dono.

Sorri amargurada.

No final das contas, a minha mãe tinha razão: eu sou uma decepção.

(...)

Limpa, alimentada e muito melhor que quando e acordei eu estava no meu quarto nesse momento sentada em minha cama rodeada de cobertores e travesseiros. A minha frente estava o objeto que apesar de necessário eu nunca gostei, mas nesse momento eu o repudiava: meu celular. O aparelho estivera desligado desde ontem a noite e eu não fazia questão de acordá-lo, mas eu precisava. Tudo o que eu menos quero nesse mundo é algum deles dois, Rosaly ou Kent, na minha porta. Hoje era sábado, o relógio da sala marcava quase quatro da tarde. Eu e Rosaly sempre saíamos no sábado, ela sempre passava aqui ás cinco e eu definitivamente não quero vê-la por um bom par de tempo. Com uma coragem momentânea eu apertei firme o botão na lateral do aparelho, vendo-o ligar em seguida. Alguns minutos depois uma enxurrada de mensagens e ligações apareceu na minha tela a fazendo travar por uns minutos.

— Maldição — resmunguei, dividida entre ficar com raiva pela quantidade ou amargurada pela apunhalada que me deram.

Pela primeira vez desde ontem parei para pensar sobre um assunto importante: Rosaly sabia quem realmente Clark Kent é? Repentinamente fiquei dividida entre dois sentimentos ruins: Se Rosaly sabia quem realmente Kent é então ela merece levar um soco certeiro naquele nariz arrebitado com toda a minha força, mas se não sabe de nada como a ingênua que ela sempre foi então ela pode estar em perigo andando com ele. Não que eu ache que aquele idiota faria algo contra ela mas sendo ele quem ele é os olhos cheios de más intenções estão sempre o cercando, sempre querendo descobrir algo pra afetá-lo. Rosaly poderia estar em perigo nesse exato momento.

Como se adivinhando os meus pensamentos, meu celular vibrou seguido de um toque irritante.

'Chamada de Ross Pé-no-saco Campbell'

Covardemente deixei-o tocar até a chamada cair, o processo se repetindo mais cinco vezes. Na sétima ligação eu deslizei o botão para atender, tomando uma golfada de coragem que não fazia parte de mim nesse momento.

— Diga.

"Lua! Pelo amor de Deus, você está louca de sumir assim? Quer me matar? Eu já estava ligando pra polícia! Sorte sua que estive o dia todo ocupada com os negócios de papai ou teria feito um verdadeiro carnaval na porta da sua casa! Jesus Cristo, eu estava tão preocupada!"

Rosaly soluçou do outro lado da linha, parecia prestes a chorar. Ela sempre foi exagerada.

— O que quer, Rosaly? — minha voz saiu baixa, mortal. Rosaly soltou um suspiro pesado.

"Eu estava preocupada, Lua. Muito preocupada infernalmente preocupada. Nossas ligações não chegavam até você, você não respondia as nossas mensagens. Por um momento pensamos que estivesse em apuros. Combinamos que, se até ás oito você não desse sinal de vida, iríamos invadir o seu apartamento com toda a polícia da cidade!"

Ela começou a tagarelar fazendo a minha cabeça doer.

— Nós? — a interrompi abruptamente — Quer dizer você e o maldito do repórter? Não me foda, Rosaly! O que diabos você tem na porra da sua cabeça? — minha voz alterou.

Rosaly ficou quieta por uns minutos.

"Olha, eu sei que você está chateada, e com razão! Mas eu pensei... e-eu pensei que estivesse fazendo o certo por você, Lua. Ele é um homem bom, bom demais para ser verdade e está afim de você então eu pensei 'por que não juntar o útil ao agradável?' Juro que minhas intenções não foram te chatear, eu só pensei... que você curtiria o momento"

— 'Bom demais para ser verdade' — a remendei cinicamente — Curtir o momento? Eu pareço ser incapaz de arranjar alguém se eu quiser?

"Incapaz você não é e sabe disso, sabe que é linda. Mas as boas oportunidades sempre passam a sua frente e você está sempre jogando fora, Lua! Ele é um homem maravilhoso, um deus grego e um verdadeiro cavalheiro."

— Então pegue-o e faça bom proveito desse fodido, sua maldita traidora! Quem você pensa que é querendo tomar as rédeas da minha própria vida? Eu não sou uma criança!

"Epa, epa, alto lá, Alura Murray! Em nenhum momento eu tive más intenções, eu sou a sua amiga! Achei que já estava na hora de você encontrar alguém legal para sair! O jeito que você vive não é saudável, Lua. Eu me preocupo com você!'"

— Você... — ofeguei com raiva sentindo as palavras entalarem na garganta — Você não venha me dizer o que esse cara é, eu sei bem o que ele é e o quero longe de mim, ouviu bem? Longe, inferno!

"Que diabos, Alura Murray Chelsea!" Rosaly gritou repentinamente histérica."Qual é o seu problema? O que te custa sair com alguém legal e ser gentil ao menos uma vez na sua vida? Vai contra seu código moral ser humana em vez de uma parede dura, fria e frígida como você sempre descreve a sua mãe? Fala dela mas vocês são iguaizinhas!"

Ofeguei surpresa e machucada, realmente machucada. Ela não tem o direito.

"L-Lua, me perdoe! Eu não-"

— Sua tola ingênua! — a cortei bruscamente — Você e essa sua maldita mania de achar que uma mulher só é feliz se estiver acompanhada. Você sabe muito bem o que homens já fizeram com você, Rosaly! Se lembra de como nos conhecemos? No hospital? Você não me parecia feliz naquele dia! — gritei.

"Isso... foi baixo, Alura"

Ela murmurou quebrada do outro lado da linha. Esse é um assunto extremamente delicado que me arrependi instantaneamente de ter mencionado. Ficamos quietas por um minuto, uma ouvindo a outra suspirar pesadamente. Acho que Rosaly chorava. Meus olhos ardiam de dentro para fora também.

"Eu só... queria tirar essa sombra pesada do seus olhos, esse fardo solitário que você carrega. Ás vezes você me parece tão triste e eu só queria fazer algo que achei que poderia te ajudar"

Ela sussurrou entre soluços. Apesar do arrependimento por ter sido tão dura com ela, eu trinquei os meus dentes com raiva.

— Eu não preciso ser salva de mim mesma, Rosaly. Já passou da hora de você se tocar disso!

"Entendo" murmurou chorosa "Mas eu não volto atrás no que eu fiz. Ele é um bom rapaz, sei disso, diferente de qualquer outro que eu já tenha visto. Ele é um homem. Ele me ligou atordoado dizendo que vocês tiveram um pequeno desentendimento no final da noite passada e que você não atendia as suas ligações, eu nunca vi um homem se preocupar tanto quanto ele se preocupou com você hoje, o homem que queria ir na sua casa para esclarecer seja lá o que vocês conversaram mas ficou dividido porque sabia que você precisava do seu tempo. Você deveria prestar mais atenção nas oportunidades que a vida te dá, Lua. Oportunidades que eu nunca tive e que não vem mais de uma vez"

Uma guinada forte no fundo do meu peito fez meu coração acelerar quando percebi a situação. Minha marca pulsou dolorosamente, como jamais havia doído antes fazendo que escapasse um gemido de dor dos meus lábios. Me senti doente.

— Vocês parecem estar bem íntimos, não é? — minha voz soou seca.

"O que você quer dizer com i-"

— Quero dizer que você está querendo-o para você, Rosaly. — sussurrei dolorosamente — Você quem deveria prestar atenção nos seus atos antes de empurrar suas frustrações pra vida alheia!- cuspi rancorosa.

"Alura, mas que diabos! Você entendeu tudo errado!"

— Faça bom proveito do repórter e não me incomodem mais, seus malditos — desliguei o celular pondo o seu contato na lista negra, dessa forma ela não poderia me ligar mais.

Deitei na minha cama puxando os joelhos pro peito, me embolando debaixo dor cobertores. Lágrimas voltaram aos meus olhos, lágrimas de amargura, de remorso, mas eu não as derramaria. Não por ele, não por ela, não por esse sentimento tolo. Meu peito queimava um sentimento quebrado e doloroso, um sentimento que talvez eu nunca tenha sentido antes, um sentimento que eu não queria dar um nome, um sentimento qual eu não queria pensar. Mas lá fundo, bem no fundo, num lugar irracional e pouco frequentado por mim, eu sabia que talvez pudesse ser mágoa...

Ou ciúmes.

(Bora pras notas finais? ♥)

Notas finais
Olá, moças. Tudo bem? Bom, esse capítulo era pra ter saído á umas três semanas atrás e com certeza não seria exatamente esse, era pra ter postado mais três capítulos que davam seguimento na história mas fatores recentes me fizeram repensar algumas coisas. Eu recebi umas mensagens na minha caixa pessoal que realmente me preocuparam e gostaria de esclarecer alguns pontos por aqui. — Numa das mensagens foi apontado que a Alura era a personagem mais arrogante e estúpida que ela já tinha tido o desprazer de conhecer. Que a história era incrível, mas a protagonista não é digna de carinho (palavras da própria remetente) — Em outra mensagem que recebi foi abordado que a fanfic tinha muito palavrão e insinuação de conteúdo sexual pra uma categoria de super herói que era exclusivamente destinado a criança/adolescente (Não, não é brincadeira, eu gostaria que fosse) — E em outro (e mais insuportável, eu digo) são as cobranças de sexo na fanfic, de hot, de hentai. E, claro, sobre o romance. Olha, eu realmente fiquei abatida com as mensagens por primeiro; eu sou uma manteiga sentimental e, segundo; eu perdi leitoras fiéis e ainda não entendo o porque. Pensei que talvez eu estivesse enrolando demais nos acontecimentos, pensei que talvez o problema fosse até a Alura, então tirei o meu tempo para ler mais fanfic e tirar conclusões. Li esses dias uma fanfic no Archive Of Our Own que tinha exatamente 125 capítulos, como naturalmente uma long fic tem, porém o primeiro beijo do casal (de uma categoria pouquíssimo conhecida, no brasil só tem uma fanfic dela) veio no capítulo 55 e o primeiro hot veio no capítulo 88 (sim, eu contei) e a história se assemelhava bastante a minha forma de escrever e os leitores realmente a lia pensando na história que se desenvolvia e não nos poréns que será obrigatório em toda fanfic. Resumindo: eu não sou doida de enrolar tanto pra acontecer alguma coisa entre o Kal e a Lua, eu sie como é frustrante aguardar os momentos íntimos dos personagens, eu sou uma hentai nata afinal. Mas eu peço que prestem mais atenção na história, eu não posso desenvolver um romance do nada. Eu sou adepta a capítulos longos justamente por isso, pra mastigar cada sensação, cada sentimento, e a impressão que vocês estão dando é que estou machucando os meus dedos á toa. Sobre a Alura e sua personalidade ruim: espero que esse capítulo sentimental para caramba tenha aberto mais os horizontes de vocês (ou fechado mais, sinceramente não me surpreenderia mais) sobre o leque de emoções que Alura é. Ela não é uma coitada, ela não é uma pessoa de passado traumatizante, mas a sua infância envolve muito mistério (coisa que eu só ia abordar depois que Alura e Kal-el estivessem mais próximos mas fui forçada a por essas coisas sentimentais agora) e muita solidão, isso resultou uma criança madura antes da hora que tem a própria visão do mundo. Ela vai mudar, gente. A Alura e fria (muitas vezes arrogante) e grossa para afastar as pessoas, ela não tem uma boa experiência de uma vida conjugal devido aos próprios pais, a mãe sempre a criou mostrando que sentimentos era uma falha, Alura nunca se apaixonou. Então, por favor, não se preocupem: A nossa moça complicada não será uma fera bestial para sempre, isso está mais perto de mudar do que vocês imaginam. Clark é um poço transbordante de amor e Alura ainda é um pote vazio, como o seu pai era. Mas Clark só a preencherá de coisas boas. Fiquem e verão ♥ Sobre a tag heróis: A fanfic é marcada para 18+ e não é só pra chamar a sua atenção, vai ter sim muito sexo, insinuação de sexo, palavrão, acidente detalhado e, claro, já falei muito sexo? Se já, eu tenho mesmo que avisar que será explícito? Porque será! O mundo das hqs não é de longe para crianças (mas leia, isso fica a seu critério), não é só porque os filmes estão bonitinhos e heróicos que quer dizer que os personagens são castos. Por favor, isso é ingênuo demais até pra uma criança de dez anos. Fiquem se quiser, mas estejam avisados. Enfim, sinto muito se eu fui rude, mas eram pontos que precisavam ser abordados. E, ah! Como todo escritor eu também tenho uma meta de comentários, mas eu pensei e repensei e consluí que é injusto com as leitoras que comentam diariamente esperar pela boa vontade (ou a falta dela) dos outros para postar, mas isso não quer dizer que voc~e não deva deixar alguma mensagem sobre o trabalho do seu autor. Todo comentário é importante, e nós sempre acompanhamos a quantidade de vizualização que a fanfic tem, e sinceramente estou um pouco abalada. essa fanfic tem mais de 3.000 visualizações e eu não sei onde estou errado para estar perdendo leitores. Eu quero ouvir vocês, suas opiniões são mais do que importantes. Por favor, não deixem essa fanfic morrer Criticas construtivas formam grandes escritores, pessoal! Bom, estou sem celular também, possa ser que eu demore a postar ou os capítulos fiquem mais frios, eu realmente me sinto mais intima da história escrevendo pelo celular. Responderei absolutamente todos os comentários mais tarde, agora eu realmente não posso. Me perdoem as notas gigantes, isso tudo foi necessário. Espero que tenham compreendido. Beijos e até a próxima!