Notas iniciais
Olá, minhas pessoas lindas! Cá estou eu, atrasada porém viva. Eu planejei um destino diferente para o encontro deles, mas ao escrever saiu isso e eu realmente gostei do resultado. Espero que gostem também. FINALMENTE ALURA SE ENCONTRA COM O CLARK, MANAS! Capítulo especialmente dedicado a minha melhor amiga, companheira e irmã: Gabriela Dias. te amo, neném. Espero que goste ♥ Boa leitura!

Alura Pov's On

Quando desci na minha parada os meus passos eram ligeiros em direção ao Taco's Company, eu e Rosaly sempre perdíamos nosso tempo por ali entre cervejas e comidas mexicanas estranhas. Meu coração estava acelerado, minha respiração ofegante. Em meu peito a marca queimava como brasa e uma mistura de medo com adrenalina corria minhas veias; medo de um novo acidente, medo do que estava por vir. Minha consciência gritava por trégua, pedia que eu desse meia volta e me escondesse novamente no meu refúgio solitário. Eu queria ouvi-la, entretanto, meus pés não me obedeciam. Meu corpo andava por conta própria em direção a onde eu sabia que seria minha perdição, um alerta vermelho soava na minha cabeça. Eu só queria voltar para casa, e o contraste da minha mente temerosa e o meu corpo desobediente fazia minha aparência parecer pior do que geralmente já era. Meu corpo estava suado, os cabelos grudando na minha nuca, os nervos tensos. Quando o estabelecimento apareceu a minha frente foi como se uma trava quebrasse dentro de mim, fazendo com que minhas pernas doessem com a velocidade com que corria em direção ao local. Minha mente gritava contra as minhas atitudes tolas.

Eu deveria ter a escutado com mais empenho.

Eu estava parada frente a antiga lanchonete qual eu e Rosaly sempre damos um tempo antes de minhas aulas começarem, ofegante, cansada pela corrida, e então, quando eu entrei, uma explosão de sentimentos invadiu o meu peito sem meu consentimento. Meus olhos procurou avidamente por aquela cabeleira loira qual eu já estava acostumada a ver reluzir em qualquer lugar qual íamos, afinal Rosaly Campbell era uma presença difícil de ignorar. E então nossos olhos se encontraram.

Como se ele já soubesse que eu estivesse ali antes mesmo de entrar na lanchonete.

Não, não era Rosaly. Rosaly não faria meu estômago se embrulhar quando nossos olhos se encontrassem, Rosaly não faria meu dormido coração disparar uma corrida dolorosa, Rosaly não faria eu me preocupar com minha aparência quando eu estivesse em sua presença. Definitivamente, Rosaly não estava ali, aquela desgraçada não estava, era uma armadilha, uma maldita armadilha. Surpreendendo a mim, o meu cérebro agiu rápido em me dar respostas, isso era raro. Um encontro arranjado. Eu queria odiá-la por arranjar esse encontro tão repentino e inesperado, eu queria poder gritar palavrões para ela até meus pulmões se cansarem, eu queria poder fazê-la se arrepender. Mas eu não posso. Porque uma fodida e confusa parte de mim gostou daquilo, uma parte de mim gostou de ver... ele. Não era exatamente ele, eu jamais o imaginaria em roupas sociais e óculos de Nerd, eu jamais o imaginaria usando uma loção cara e inebriante somente para me ver, eu jamais o imaginaria tão bonito em roupas normais. Quando nossos olhos se encontraram, eu estava perdida. Fodidamente perdida. Eu só queria fugir dali. Virei os meus pés ignorando o ser qual meus olhos traidores adorou olhar e segurei a porta pronta para sair fora, pronta para fugir covardemente mais uma vez de sentimentos confusos e idiotas. Mas, claro, com a maré de sorte que eu tenho -percebam a ironia- eu tinha que ser impedida.

Ele tinha que abrir aquela maldita boca.

— Senhorita Murray? — soou grave pelas minhas costas, uma voz profunda e rouca. Percebi um leve tom de preocupação também e, se eu estiver certa, ansiedade.

Parece que eu não sou a única fodida por aqui.

— Você não é Rosaly — murmurei debilmente o óbvio, ainda de costas. Ele riu, uma risada gostosa que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.

Eu já o odiava duas vezes mais.

— Temo que não. Me perdoe por isso — soou inseguro.

Longos segundos se passaram, uma corrente tensa estava entre nós. Entre nós. Como se fôssemos os únicos naquele lugar lotado de estudantes.

— Eu sou Clark Kent, do Planeta diário.

De alguma forma estúpida e constrangedora eu já sabia daquilo desde o momento que entrei aqui, ele não precisava me dizer. Sua presença era chamativa o suficiente entre aquele mar de estudantes para eu saber que ele não era um mero universitário, ele não era um mero garoto preocupado com suas notas, ele era um homem. Era a minha praga, a minha armadilha. Inferno, eu não deveria me sentir assim por alguém que eu não conheço.

— Sua amiga me ligou pedindo que eu a encontrasse aqui.

— Ela não me disse nada sobre você estar aqui. — soei rude em minhas palavras, irritada com a situação. Clark hesitou por uns minutos, parece ter notado minha chateação, mas depois de alguns minutos ele retomou a palavra.

— Eu sei. Me perdoe por isso.

— O que quer de mim, Kent? — a minha pergunta tinha ambiguidade, eu esperava que ele não percebesse.

— A minha entrevista, senhorita — ele vacilou em suas palavras. Eu gostaria de ver suas expressões nesse momento, tentar decifrá-lo. Mas eu sou uma maldita covarde e ao mesmo tempo que eu gostaria de olhar para o seu rosto e gravar os seus detalhes, eu queria ir embora e fingir que aquele encontro nunca aconteceu. Meu coração pulsava com saudades, como se já conhecesse aquele homem parado atrás de mim.

Um maldito, de fato.

— Pedi para que me deixasse em paz, Kent. — murmurei — Eu poderia ligar para a polícia agora mesmo, sabia? Isso pode ser considerado perseguição.

Alguns segundos se passaram, novamente. A energia entre nós estava mais forte.

— Me perdoe — senti sinceridade em suas palavras — Deixe-me redimir, por favor.

— Seja verdadeiro dessa vez, o que quer de mim? — voltei a proferir as tolas palavras sem o real consentimento do meu cérebro. Eu não sei se quero realmente saber.

— Conhecê-la — sua resposta foi diferente, foi insegura e temerosa. Parecia com medo da minha reação. Minha respiração falhou por alguns momentos.

— O quê?

— Quero conhecê-la, Alura — ele parecia mais firme agora, destemido — Por favor.

Ri sarcástica. Uma avalanche de emoções borbulhando em meu corpo, respiração lenta e profunda, suor escorrendo pelas minhas costas, meu rosto quente. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu não gostava da sensação que me fazia sentir impotente. Era como se toda aquela presença na minhas costas pudesse me fazer ajoelhar sem ao menos ouvir o seu pedido.

— Achei que quisesse apenas a sua maldita entrevista idiota, Kent.

— Eu não estaria aqui apenas por algo tão superficial, Alura — seu tom soava mais baixo agora, perigosamente baixo para a minha própria desgraça.

— Devo recusar, entretanto. — respirei fundo mais de uma vez, tentando achar o restinho da minha dignidade, tentando achar a mim mesma. Me virei lentamente para ele com a minha melhor cara de Vivian Murray, porém evitando os seus olhos. Recentemente, covardia parece ser a minha marca registrada.

Puta merda. Esse maldito é realmente grande.

— Eu não fui informada de nenhum encontro e me lembro claramente de mandá-lo pro inferno uma par de vezes, Clark-fodido-Kent. O suficiente para que catasse os cacos do seu orgulho e me deixasse em paz para sempre. — meus olhos eram baixos mas as minhas palavras frias. Uma risada curta veio do Nerd a minha frente, não ousei encarar seu rosto para ver seu sorriso idiota.

Não era pra ele estar sorrindo perante a minha frieza, o plano não era esse. Talvez ele seja maluco.

— lamento ser um incômodo para você, eu realmente não queria que fosse desse jeito, mas como repórter a persistência é uma das minhas qualidades e a senhorita é uma moça escorregadia — ele riu doce, uma risada gostosa de ser ouvida.

— Tsc! — estalei a língua, repentinamente irritada em níveis gritantes. — Não tenho obrigação nenhuma de perder meu tempo com você, seu fodido. Me deixe em paz — soei mortalmente baixa, me virando pronta pra sair.

Uma mão grossa e pesada veio ao meu ombro parando os meus movimentos. Minha respiração entalou na garganta. Apesar do grosso sobretudo que usava eu podia sentir sua palma quente contra a minha pele me fazendo ofegar levemente. Esse cara era perigoso, terrivelmente perigoso.

Eu precisos sair daqui o mais rápido possível.

— Por favor, Alura — disse — Prometo ser o menos invasivo possível, tudo o que eu menos quero no mundo é deixá-la desconfortável ou chateada. Apenas... fique. Por favor.

Sua voz soou perigosamente baixa e profunda novamente, uma conversa intima. Respirei fundo novamente, meu rosto quente, meu suor se acumulando. Ele não devia estar implorando dessa forma, era humilhante. E mais humilhante ainda era uma parte de mim ter se abalado com suas palavras. Isso era um absurdo, eu sou inabalável. Entretanto, lá estava eu a sua frente ainda evitando o seu rosto, esperando uma parcela gigante de mim voltar ao normal e acertar o saco desse imbecil. Infelizmente, a parcela maior de idiotisse do meu corpo cobriu a razão, e me vi inclinada a aceitar sua intimação.

— Não me toque sem que eu permita — virei novamente me esquivando da sua mão, com o rosto emburrado virado para o lado. Ainda não ouso encará-lo — Vamos para uma mesa, idiota. Estamos engarrafando a entrada da lanchonete.

Clark sorriu. Não o encarei com medo do que pudesse ver, mas senti o brilho ofuscante dos seus dentes mesmo de rosto virado. O imbecil parecia realmente feliz. Como um cavalheiro ele me guiou até a mesa qual antes estava, se sentando a minha frente. Enfim decidi encarar o seu rosto, sentindo que minha dignidade não poderia ser estraçalhada por uma presença masculina.

Eu deveria ter continuado o ignorando.

Clark era uma visão atraente demais para ser chamado de repórter. Sua estrutura era grande, enorme, como se seu hobby fosse levantar blocos de concreto. Ele vestia roupas profissionais mas, de certo modo, parecia ser um homem do interior. Seus cabelos estavam levemente bagunçados o dando um ar selvagem, seu maxilar quadrado era enfeitado por um sorriso de lábios finos e dentes brancos, seu queixo era másculo, ele era todo másculo. Sua presença exalava poder e dominância, apesar de parecer que eu sou a única a perceber isso, as pessoas ao nosso redor não pareciam intimidadas com a sua presença marcante. Seu cheiro inebriante de pós banho e perfume amadeirado enfeitiçava o ar ao nosso redor, atraindo olhares de mulheres de diversas idades, e seus olhos... Eu não poderia encará-los. Não ainda, não agora. Eles exalavam intensidade sobre mim o suficiente para que eu quisesse fugir, era uma porta aberta de sentimentos quais eu ainda não queria descobrir quais eram.

Clark Kent era um quebra cabeça a minha frente. Uma parte de mim tinha certeza absoluta que ele escondia algo grandioso, algo que me atraiu, algo que me fez agir daquela forma tão idiota e sentimental quando nossos olhares se encontraram, algo que meu íntimo gritava saber o que era. Ele realmente me lembrava a figura imponente do Superman. Eu ignorava, claro, já tenho problemas demais para querer acumular outros quais não me dizem respeito. Até porque, era impossível. O homem a minha frente não poderia ser ele, eu não queria que fosse. Quer dizer, era patético pensar nessa ideia, um absurdo até. Mas descobri ultimamente que o mundo era louco o suficiente para que algo assim fosse possível, eu só não queria... descobrir. Eu não quero obstáculos na minha vida pacata e solitária.

— Obrigada por ficar — ele me tirou dos meus pensamentos torpes com seu sorriso bonito de dentes brancos. Evitei seu olhar novamente, eram intensos demais para mim.

— Depois de hoje você me deixará em paz, ouviu? Eu não quero repórter nenhum na minha cola nunca mais! — resmunguei rudemente. Clark sorriu de novo, esse idiota faz isso com frequência.

— Prometo que depois da minha matéria nenhum repórter a incomodará outra vez. Não permitirei.

Estalei a língua nervosa. De uma forma estranha as suas palavras pareciam conter duplos significados. Não me prendi a esse incômodo, entretanto. Não me preocuparei com nada relacionado a esse homem, depois de hoje nunca mais o verei.

— Você tem duas horas antes que minha aula comece, punk.

Esfreguei as minhas mãos debaixo da mesa sentindo aquelas mesmas sensações de antes, uma atração perigosa pelo homem a minha frente.

Ele tirou um bloco de notas de sabe lá deus onde, me perguntei quem mais no planeta usava bloco de notas. Bufei. meu corpo ainda reagia estranho, eu estava tensa, meu estômago embrulhado. Clark pediu suco para nós, entretanto eu cancelei o meu -enviando um olhar gelado a ele como se dissesse para não tomar as minhas decisões- e pedi uma tequila sentindo seu olhar preocupado sobre mim. Dois goles depois as suas perguntas começaram. Eram coisas realmente profissionais e isso me aliviou um pouco, odiaria ter que responder coisas quais me levassem mais a fundo naquele dia. Por incrível que pareça -surpreendendo a mim imensamente- tudo foi feito com uma leveza impressionante. Suas perguntas eram objetivas porém não me deixando desconfortável ou constrangida, ele parecia ter cuidado em usar as palavras para mim e anotava tudo em seu bloquinho, suas letras eram bonitas. Uma hora depois eu posso dizer que o clima entre nós estava muito mais estável do que antes, mesmo que meu corpo ainda agisse estranho eu conseguia empurrar isso para o fundo do baú. Ele era gentil, inteligente e muito paciente.

Mistura perigosa para um homem com sua aparência atraente.

(...)

Um pouco mais de uma hora, mesmo com as sensações esquisitas no meu corpo, a nossa conversa era até agradável. O clima pesado passou, apesar das confusas sensações que ainda pairavam sobre mim. Estávamos conversando até amigavelmente, e assim continuaria desde que eu evitasse encarar os seus olhos.

— Então, seu encontro com Tobias aquele dia foi um infeliz acaso? — ele perguntou continuando nossa conversa.

— É, ele me ajudou quando eu passei mal por causa... — parei no tempo lembrando agora da minha marca, a marca que ganhei no acidente. Ao tocar no assunto, percebi que ela estava quente e aconchegante, quase como se fosse um corpo à parte confortável sobre a minha pele. Fora a primeira vez que não a senti pinicar, coçar, arder ou puxar. Era quente, confortável e... Acalentador.

— Alura?

— Já disse que pra você é senhorita, Kent — o respondi com a sombra de um sorriso brincando em meus lábios depois de despertar dos meus pensamentos.

— Como quiser, senhorita— sua ênfase foi cômica e descontraída — Continue, por favor.

— O que espera que eu diga mais? O cara é uma ameba! — suspirei frustrada — Agradeço por sua ajuda aquele dia, mas antes ele me deixasse à deriva no meio fio. Sua covardia impulsiva me trouxe tantos problemas que eu poderia enfiar um belo processo naquele rabo medroso dele — revirei os olhos. Clark riu balançando a cabeça levemente

— Você estaria no seu direito se o fizesse.

— Eu sei! Mas Rosaly Mary Campbell consegue ser um pé no saco quando quer. Sua insistência ainda me fará ter um infarte — dei mais um gole na minha bebida — Ela só o defende porque ele tem uma carinha bonita.

— Então acha que ele tem um rosto bonito? — meus olhos foram parar em Clark pelo seu tom, diferente de qualquer outro que ele usou aquela noite. Entretanto, desviei meus olhos do seu rapidamente.

— Esso tipo de pergunta não faz parte da sua profissão, Kent — ri sarcástica, ele continuou sério — Mas, é, ele até tem um rosto agradável se o seu padrão de beleza for garotos com cara de meninas. Não é minha praia, no entanto.

— E qual é sua praia, senhorita Murray?

— Isso definitivamente não é da sua conta, senhor-fodido-Kent. — fui rude, dessa vez sem querer. Ás vezes eu não podia evitar ser uma babaca ambulante.

Ele sorriu sem graça, ajeitando aqueles óculos que realmente não parecia se enquadrar no seu rosto.

— Você tem razão, me desculpe. Pode me dizer o que aconteceu em seguida de Tobias e seu mal-estar?

A sombra do meu sorriso descontraído repentinamente sumiu com a mesma rapidez que apareceu.

— O general aconteceu — minha voz saiu sombria, amargurada.

Clark se mexeu a minha frente mas eu já não via mais nada, meus olhos estavam nublados pelas lembranças, pelo medo, pela dor, pelo desespero, pela impotência. Meus ombros tremeram levemente quando lembrei do seu olhar odioso dirigido a mim com tanta fúria, olhos que logo brilharam como neon prontos para matar a mim sem nenhum remorso. A mim e a Pietro.

— Ei — minha pele vibrou ao sentir seus dedos em meu queixo os levantando. Seus olhos me avaliavam com uma preocupação maçante, estava alarmado — Pare, por favor. Você não precisa voltar a aquele dia.

— Desculpe — murmurei sentindo minha voz falha na garganta. Clark apertou meu queixo levemente. Senti o peso dos seus sentimentos em meus ombros: ele estava preocupado, realmente preocupado.

— Alura — sua voz era branda e calma, mas ainda sim alarmada — Você não está mais lá, ele não vai machucá-la. Nunca mais, ouviu? Acabou.

— Eu sei, eu sei, desculpe — limpei a garganta fugindo do seu aperto, mas o meu emocional já estava abalado o suficiente para que eu não conseguisse usar meu tom normal. Me vi vagando nas lembranças de novo — Eu só... foi terrível. Eu sempre fui cética, sabe? E de repente descubro que homens do espaço são reais e eles são anos luz mais fortes do que qualquer poder de fogo nosso jamais serão. Tantas... tantas pessoas se machucaram, tantas pessoas morreram. Crianças, mulheres grávidas, idosos... havia um menininho em meu colo naquele dia, ele só tinha quatro anos e estava tão assustado, tremia e chorava tanto! — fiz uma pausa ofegando, as lembranças dolorosamente martelando na minha cabeça — Entretanto, o general não se importava com nossos princípios. Estava pronto para nos matar sem nenhuma pena, sem nenhum remorso, estava pronto para me matar. Ele estava tão perto...

— Não precisa continuar, Lua. Por favor, pare — seu tom era pesaroso, profundo, culpado.

Pisquei várias vezes para voltar a realidade.

— Me perdoe, eu não sei o que deu em mim. Geralmente eu não falo muito, me desculpe — me embolei nas minhas próprias palavras, uma pequena onda de pânico cobrindo meu corpo. Clark cobriu sua mão na minha em cima na mesa e como num passe de mágica toda a dor se foi, todo o pânico. Seu rosto estava sério, seu maxilar trincado, sua respiração pesada. Clark parecia estar a beira de um ataque de fúria, o porque eu não faço ideia.

— Não me peça desculpas por se abrir para mim, eu adoro ouvi-la. Fale o quanto quiser, o que quiser, prometo que jamais contarei a ninguém. Apenas... desabafe. Divida suas dores comigo, Alura. Eu posso ajudá-la.

A grande parte fodida de mim estava com uma resposta pronta para ele, para repreendê-lo, magoá-lo, afasta-lo. Mas uma onda de carinho e alívio percorreu o meu corpo com o seu tom brando e o seu toque macio, sua voz sincera. Eu não sei o que estava acontecendo comigo naquele momento e nem porque eu permitia a sua aproximação, mas era algo bom de certa forma. Eu me sentia... segura.

— Não preciso de uma babá, Kent. E pra você ainda é senhorita, ouviu? — eu sorri amigavelmente para ele, ainda não me dando conta do quanto estava sendo agradável com alguém desconhecido. Clark relaxou os ombros dando a sombra de um sorriso, mas o grande homem a minha frente ainda estava tenso e uma áurea de raiva cobria sua face. Desviei os meus olhos da sua figura, ciente de ter deixado sentimentos expostos demais por um século.

— Podemos encerrar por aqui, já é o suficiente.

— Não fode — resmunguei tentando voltar ao meu tom de sempre — Não quero você na minha cola com mais perguntas desagradáveis quando sairmos daqui. Vamos acabar isso de uma vez. — ele hesitou por longos minutos. Rolei meus olhos.- Vamos lá, Kent. Eu não sou feita de porcelana.

— Certo — disse lentamente — Você quem decide. Mas, por favor, se você se sentir desconfortável não precisa responder — puta merda, ele estava realmente preocupado.

— Vou socar a sua cara se continuar me tratando assim, seu punk fodido — resmunguei e então ele finalmente riu. Clark Kent tem sérios problemas em relação a humor, o cara ri de tudo o que eu falo e eu o insulto a cada cinco segundos. Deve ser retardado, o coitado.

— Okay, vamos continuar da parte em que o Superman apareceu.

— Ah, claro... — suspirei desanimada.

— Não gosta dele? — sua voz usava aquele tom novamente, um que eu não sabia identificar.

— Não tenho nada contra, ele nunca me fez nada diretamente — resmunguei mal-humorada.

— Bem, não parece — ele riu.

— Olha, ele é um alien com tanta ou talvez mais força que o anterior e mesmo assim não quis nos foder, acho que isso faz dele uma 'pessoa'... boa. Ou seja lá o que ele é, tanto faz, não me importo — murmurei indecisa — Eu só o quero bem longe de mim.

— Isso é um pouco rude — ele franziu as sobrancelhas.

— Eu tenho os meus motivos pessoais — resmunguei — Mas de uma visão geral da coisa, eu acho legal que tenha alguém com a força dele do nosso lado. Claro que é a obrigação dele, até porque o maldito se escondeu no nosso solo, mas ele poderia simplesmente ligar o foda-se e sumir quando a merda fedesse. Então, é, ele é miseravelmente necessário. Longe de mim, claro, mas necessário. Sabe-se lá quais tipos mais de seres maldosos tem pelo mundo afora, não é mesmo?

— Devo concordar com você — disse. Sua voz estava estranha, sua áurea mais abalada. Não me pergunte como eu senti isso, não quero saber — Você tem uma visão única de tudo que a cerca, senhorita Murray.

— Sei que sou meia estúpida, Kent. Não precisa enfeitar pra puxar o meu saco.

— Ei — seus olhos correram para o meu rosto velozmente, parecia ofendido. Desviei os olhos de novo — Não diga coisas negativas sobre si mesma, é uma mulher incrível.

— Você só pode estar brincando — zombei — É um daqueles homens tapados ou tem probleminha da cabeça. Sinceramente, acho que é os dois juntos.

Clark riu novamente. Isso já estava me irritando. A minha intenção era ofendê-lo, não ser seu show de Stand-Up particular.

— Devo admitir que sua personalidade é complicada e um pouco instável, mas isso não a faz uma má pessoa. Você é incrível.

— Acabou de me chamar de maluca, seu fodido — ignorei seu elogio, um sorriso desenhou os meus lábios — Agora chega de conversa fiada, você já tem a sua matéria e nós fizemos um trato.

— Realmente. Obrigada por isso, Murray — ele sorriu docemente. Desviei meu olhar do seu rosto bonito sentindo minhas bochechas arderem. Clark Kent é, definitivamente, um maldito.

Ele insistiu em pagar a conta e sinceramente eu não fazia questão de recusar, a partir do momento em que eu fui arrastada pra essa situação contra a minha vontade ele tinha que lamber as minhas botas mesmo e torcer que eu não chutasse a sua bunda. Devo admitir que, no geral, foi tudo muito agradável. Se eu ignorar as sensações do meu corpo, as especulações descabidas da minha cabeça e a sensação de familiaridade com aquele homem, foi quase como uma conversa normal.

Saímos juntos do Taco's e eu saquei o celular, arregalando os meus olhos ao perceber que perdi o meu horário.

— Puta merda — murmurei chateada.

— Algum problema?

— Todos. Perdi o horário e não posso mais entrar hoje na faculdade. Saco!

— Me perdoe por isso — ele soava verdadeiro, culpado.

— Inferno, as provas estão perto e vou acabar levando bomba de novo — sussurrei para mim mesma — Bem, já que minha noite foi pro diabo que carregue eu vou pra casa. Boa noite, Kent. — me virei em direção pro ponto de ônibus mais próximo.

— Ei, espere — Clark me seguiu — Deixe-me acompanhá-la.

— Nem fodendo! Rala pro seu canto porque foi assim que combinamos, Kent.

— Não, nós combinamos que nenhum repórter iria incomodá-la mais.

— E você é o quê, poço de inteligência ambulante? — perguntei sarcástica.

— Nesse momento, um amigo — seu sorriso de dentes brancos fez um bico emburrado surgir em meus lábios, meu rosto virado do lado contrário do seu.

— Faça o que quiser, não ligo — resmunguei. Não acho necessário dizer que o repórter riu novamente, não sei se levo isso como uma ofensa -será que ele me acha uma palhaça?- ou uma bizarrisse pessoal dele.

Seguimos para o meu ponto em silêncio, um silêncio confortável e necessário. Eu já havia falado demais aquele dia, demonstrado demais, e o repórter respeitou a minha vontade. Isso o fez ganhar pontos comigo. Não era todo homem que ficava calado quando sabia que era o momento, não era todo homem que não me enchia o saco, não era todo homem que não me olhava com olhos sujos de desejo quando eu claramente não queria. Clark era um homem estranho, sua educação e simplicidade me fez perceber logo de cara que ele não era de Metrópolis, na verdade, me fez pensar que ele não era de canto nenhum da terra, uma pessoa como ele não poderia existir. Seguindo essa linha de raciocínio, as minhas especulações idiotas e descabidas me levaram novamente a um caminho perigoso para se pensar. Meu corpo ficou tenso repentinamente, meus passos mais cautelosos.

E se Clark realmente fosse… ele?

Balancei a cabeça levemente com a ideia. Não, não poderia ser, eu estava paranoica. Não tem como um ser daquele se vestir de repórter, não tem como um homem daqueles se camuflar por aí, ele não poderia simplesmente se esconder entre nós. Os poucos momentos que passei ao lado de toda aquela imponência fez-me sentir pequena, inferior de certa forma, ele era quase um deus e eu uma humana machucada, todo aquele poder e presença esmagadoramente forte não poderia ser simplesmente escondida atrás de uma aparência inocente de um repórter educado de óculos Nerd. Pensando sobre isso a ideia descabida começou a sumir da minha cabeça, aceitando a minha paranoia.

Não pode ser ele.

— Alura? — senti uma mão no meu antebraço parando os meus passos, meus olhos alarmados se dirigiram ao dono da voz — Você está bem?

Clark parecia preocupado novamente.

— Perfeitamente — resmunguei desviando do seu toque. Sua presença era o suficiente para que eu me sentisse mexida, não precisava de mais.

Clark sorriu novamente, um sorriso limpo e meigo.

— Íamos passar do ponto se continuasse. Minha presença é tão boa a ponto de querer prolonga-la? — suas palavras cobertas de humor quebrou as especulações dentro de mim, me fazendo o olhar chateada.

— Não fode, Kent. Não me faça nocauteá-lo — resmunguei ríspida. O idiota sorriu, claro, como se a minha ideia fosse absurda. Óbvio que eu não poderia derrubar um homem daquele tamanho, mas morreria tentando se fosse necessário.

— Vou ficar até o seu ônibus chegar, está bem?

— Não está nada bem, eu não preciso de babá. Sou uma mulher adulta, Clark — desviei meu rosto do seu olhar preocupado e levemente sorridente. Percebi que o chamei pelo nome pela primeira vez na noite, foi natural e, de certa forma, bom. Clark parece ter percebido isso também mas não comentou, para a nossa sorte.

— Eu sei, Murray — sua pronúncia ao meu sobrenome foi carinhosa — Mas me sentiria menos preocupado, as ruas estão perigosas. Vamos lá, não é sacrifício nenhum. Prometo ficar quieto.

— Tsc! — murmurei emburrada — Faça o que quiser, não sou sua dona.

O sorriso do Clark foi diferente dessa vez. Eu diria até... Fofo, acanhado, fazendo com que ele abaixasse a cabeça durante o ato. Não me perguntem como uma pessoa com o cérebro do tamanho de uma ervilha como eu posso estar descrevendo as suas emoções, eu simplesmente… sei. E preferiria não pensar sobre isso. Nos sentamos abaixo da tenda do ponto relativamente perto e, como prometido, ele ficou quieto. Eu precisava pensar, e ele não parecia desconfortável com o meu silêncio. Percebi que as ruas de Metrópolis estavam esmagadoramente vazias, vazias demais para uma cidade tão agitada, era apenas nove da noite. Pensei sobre o medo que a população ainda sentia e, mesmo que aqui não fosse a maldita Gotham e uma muralha voadora estivesse por aí nos protegendo, todo cuidado era necessário. Internamente eu agradeci ao fodido ao meu lado por ter ficado, por mais que eu não fosse uma donzela indefesa uma presença masculina agradável não era dispensável, grande como ele é eu não precisaria machucar os meus punhos socando a cara de babacas.

Clark era um homem misterioso. Por mais que suas emoções pudessem ser lidas por mim, havia um manto sobre ele que o escondia das minhas observações, isso era um pouco desconfortável. Ele era educado, paciente, profissional e cavalheiro. Em dias como os de hoje isso era uma raridade, Clark era uma raridade. Isso me fez pensar que homens como ele não poderia estar sozinho, se ele não teria alguém o esperando em casa, alguém preocupado com seu sumiço uma hora dessas da noite. Meu coração pesou inexplicavelmente, eu o estava atrapalhando de alguma forma.

— Escute — ele olhou para mim no mesmo instante como se estivesse esperando as minhas palavras — Meu ônibus não deve demorar, você devia ir pra casa. Está tarde.

— Está tarde para você estar nas ruas sozinha também, Alura — ignorei a audácia em suas palavras ao me chamar pelo nome. De certa forma eu já não me importava.

— Deve ter alguém te esperando em casa e eu não quero atrapalhar — resmunguei chateada. Clark sorriu, um som bonito saindo dos seus lábios.

— Eu não tenho mais alguém em casa, Alura. Moro só. E mesmo que tivesse, o único lugar qual eu queira estar é exatamente aqui — não respondi. Por um lado eu ainda digeria o inexplicável alívio que correu pelas minhas veias ao saber que ele não era comprometido, e por outro eu não queria pensar na intensidade da sua última frase.

O barulho de um motor ao longe me despertou das minhas confusões, meu ônibus acabara de virar a esquina. Um sentimento idiota de chateação me invadiu ao perceber que já teria de ir embora ao mesmo tempo em que eu estava feliz por sair da sua presença estranhamente confortável. Me levantei.

— Meu ônibus está vindo, Kent — murmurei evitando o seu olhar, Clark parou a minha frente com as mãos nos bolsos.

— Obrigada pela noite, adorei conhecê-la pessoalmente. Espero que possamos nos ver mais vezes, Alura — meu coração deu um salto e eu sorri, fiz isso com muita frequência essa noite.

— Não conte com isso, Clark-fodido-Kent. Espero não ver sua fuça nunca mais na vida — ele sorriu mostrando os dentes.

— Não conte com isso, Alura-teimosa-Murray — repetiu minhas palavras. Sorri acanhada com sua audácia e ele também, cúmplices do nosso humor e do clima confortável que nos rodeava. — Suponho que eu não posso te dar um abraço de despedida.

— Jamais, seu abusado — revirei os olhos — Mas pode apertar minha mão — estendi a direita em sua direção.

Repentinamente me senti nervosa com aquela simples aproximação, minhas mãos soavam, meus dedos estavam gelados. Ele espantou meu frio com suas enormes e másculas mãos, apertando carinhosamente num cumprimento firme porém gentil. Ofeguei sentindo o coração martelar no meu peito, um arrepio gostoso subindo pelo os meus braços e se alojando na marca entre os meus seios, a aquecendo, a deixando mais confortável possível. Meu rosto se tornou rubro sem o meu consentimento, quente. Clark também parecia em transe com o nosso contado. Pela primeira vez na noite eu olhei de verdade para o seu rosto bonito vendo-o conflituoso também, uma bagunça de sentimentos espalhados por sua face, mas só quando eu olhei verdadeiramente para os seus olhos que eu senti meu corpo paralisar.

Eu não deveria ter feito isso.

Seus óculos eram estranhos, parecia embaçado de alguma forma, me deixava confusa como se quisesse repelir minha atenção para outro lugar. Mas determinada como eu estava o olhei com mais afinco, sentindo meu coração quase quebrar a caixa torácica de tão forte que ele pulsava em meu peito, um suor frio correndo a minha espinha. E então eu vi aquilo que seus óculos estranhos escondia.

Eu o vi.

De repente não era mais Clark Kent a minha frente.

— Você… — murmurei debilmente, ofegante.

Meu coração correu no peito uma batida desenfreada, minha respiração se elevando em níveis alarmantes, meus olhos arregalados.

— Alura? — sua voz saiu preocupada. Dei um passo para trás puxando com brusquidão a minha mão que ainda estava entre a sua — Ei, o que houve?

Outro passo para trás. Ele me olhou alarmado.

— Alura, por favor, fala comigo — minha marca ardeu como brasa me fazendo gemer de medo, meus olhos se enchendo de água.

— Tire os óculos... — sussurrei temerosa, ele me olhou com uma expressão estranha. Preocupado, terrivelmente preocupado.

— Alura…

— TIRE A PORRA DOS ÓCULOS AGORA MESMO! — gritei com todo o meu fôlego, histérica, uma lágrima salgada descendo pelo meu rosto. Clark me olhou altamente preocupado, mas uma decepção cortante passando pelo seu rosto. Lentamente as suas mãos subiram ao seu rosto como se não quisesse me assustar, ao segurar os aros do objeto ele me olhou tristemente.

— Por favor, não me odeie — sussurrou. E então, o mundo do sumiu abaixo dos meus pés. Com os óculos confusos fora do seu rosto eu pude vê-lo claramente, límpido, como se antes a minha visão estivesse embaçada por uma névoa e agora eu pudesse vê-lo com clareza, vê-lo como ele realmente era.

A minha frente estava Superman, o Homem de Aço.

Um grito entalou na minha garganta, meus olhos o olharam com horror, meu coração batia tão forte que doía.

— Alura — ele se aproximou

— Fique longe de mim, inferno! — voltei a gritar. As estruturas daquele ser pareceram abaladas, ele recuou com o olhar ferido.

— Por favor, me deixe explicar. — seu olhar machucado tentava me transmitir calma — Vamos conversar, por favor.

A simples ideia de permanecer do seu lado fazia minha cabeça doer infernalmente, me sentia claustrofóbica, como se a qualquer momento outro terrível acidente fosse acontecer perante os meus olhos. Olhei rapidamente para os lados acima das nossas cabeças, sentindo como se a qualquer momento outra nave monstruosa pudesse cortar os céus e foder a humanidade outra vez. Dei outro passo para trás.

— Alura — ele parecia alarmado. Recuei outro passo em direção a pista — Ei!

Me virei assustada, correndo, sentindo uma onda de lágrimas invadir os meus olhos. Meu coração pulsava temeroso, decepcionado.

Extremamente decepcionado.

Aconteceu rápido, muito rápido, eu não saberia dizer. Uma hora as minhas pernas corria longe do ser imponente de olhar ferido, outro, no meio da rua, vi um carro se aproximar cantando pneus com velocidade alarmante, jogando os faróis altos no meu rosto, me cegando. Eu iria ser atingida em cheio. O tempo parou. Um vulto rápido e forte passou por mim tocando o meu corpo e quando pisquei eu já não estava frente ao carro, eu não estava no meio da rua. Estava esmagada entre uma parede e um homem, um homem enorme de cheiro maravilhoso.

Meu corpo tremia pelo choque. O dele também.

— Por cristo, Lua! Porque fez isso? — vociferou. Apesar do tom alarmante a sua voz era dolorida, terrivelmente dolorida, terrivelmente quebrada. Sua respiração estava falha — Eu quase a perdi, meu deus, eu quase a perdi. — sussurrou choroso ainda coberto pelo choque — Não faça mais, por favor. Nunca mais. Eu morreria se você se fosse, me mataria se não pudesse vê-la mais — ele murmurava baixinho esfregando os lábios e o nariz contra a minha cabeça, respirando profundamente. Seus braços estavam fechados possessivamente como correntes no meu corpo, um ao redor da minha cintura e outro pelo meu ombro esquerdo segurando a minha cabeça contra seu peito com sua mão forte.

Eu não o ouvia com clareza. Meu corpo estava em choque, tenso. Minha visão embaçada pelas lágrimas, a garganta doída pelos soluços não soltos, minha marca ardia como um inferno sangrento. Eu estava quebrada, fodidamente decepcionada.

— O que quer de mim? — sussurrei quebrada, incapaz de fugir do seu aperto de ferro como se a qualquer momento eu fosse desaparecer, minha bochecha colada em seu peito ouvindo seu coração retumbar. Ele afastou minimamente de mim, olhando o meu rosto. Eu não poderia encara-lo — Porque não me deixa em paz? Por que? Eu estava tão bem.

— Me perdoe, por favor me perdoe, eu não tive a intenção de magoa-la — sua voz era dolorida e chorosa. Seu cheiro inebriante amolecida os meus membros, eu estava fraca, terrivelmente quebrada e decepcionada. — Estávamos indo tão bem — murmurou sôfrego.

— Mentiu para mim — minhas lágrimas fugiram dos meus olhos deslizando pelo meu rosto — Tudo isso pra me ferrar. Porque não me deixa em paz? Porque não me deixa seguir com minha vida?

Mais lágrimas escaparam. Os seus olhos brilharam também, uma sombra rosada cobrindo cobrindo ao redor dos seus globos oculares. Como se estivesse prestes a chorar.

— Acha que eu fiz tudo isso para magoa-la? — sua pergunta era incrédula, descrente — A última coisa que eu quero nesse mundo é feri-la, Alura.

A dor das suas palavras me fizeram chorar de verdade, chorar com soluços e lágrimas em abundância, fraca e quebrada. Decepcionada.

— Eu não o quero por perto, porque me faz sentir essas coisas? — lamentei entre lágrimas e soluços, meu corpo convulsionando com a intensidade que as lágrimas saiam. Seus braços se apertaram ao meu redor com proteção. Eu ainda era incapaz de me defender, incapaz de afasta-lo. — Porque faz com que eu sinta essas coisas — murmurei.

— Me perdoe por magoa-la, eu não quero fazê-la sofrer — sussurrou contra os meus cabelos — Prefiro morrer ao vê-la triste, me perdoe por isso.

Um tempo se passou. Meu corpo perplexo, incapaz de agir por si só, minha marca ardendo, minhas lágrimas ainda correndo abundantemente. Sua respiração era tensa e quebrada contra o meu rosto.

— Me perdoe se fui incapaz de permanecer longe, dar o seu tempo, mas é tão difícil ficar longe de você — murmurou — Estávamos indo tão bem.

Seus lamentos iam se perdendo pelo ar, meu cérebro não digeria as suas palavras. Meu corpo amoleceu em seus braços, ouvi seu coração acelerar.

— Querida! — ele disse alarmado, mas não entendi com clareza. Uma inexplicável sonolência me abateu, acho que o dia foi agitado demais para a minha cabeça. Meus olhos se fecharam lentamente, minha cabeça encontrou conforto em seu peito forte. Seus braços acariciaram as minhas costas com carinho, quente e macio. Aquilo foi o suficiente para me fazer adormecer.

Adormecer em seus braços protetores.

Alura Pov's Off.

Palavras não eram capazes de descrever o quão quebrado ele estava naquele momento. Voando suavemente acima de Metrópolis com sua amada nos braços ele lamentou profundamente os últimos acontecimentos da noite. Havia presenciado de pertinho a sua mulher, sua joia, sua preciosidade. Havia visto sua irritação, seus sorrisos e seu jeitinho complicado de ser, ele não poderia se sentir mais apaixonado. Dentro de si, um sentimento diferente começou a pulsar, a se arrastar por suas veias, pelo o seu ser.

Ele amava aquela mulher.

E então, ele foi tolo. Devia ter se afastado quando teve oportunidade, quando a noite se encerrara, mas não. Seu corpo não queria ficar longe, sua Áurea precisava da dela, do seu cheiro, da sua voz.

Ele deveria ter imaginado que, como sua prometida, ela iria reconhece-lo mesmo através dos seus óculos especiais e ela o viu, ela viu através de Clark Kent. Ele sentiu uma pontada de orgulho e felicidade com seu reconhecimento, os sentimentos bons sumindo de acordo com que o medo e desespero em seus olhos surgiam. Ela estava com medo, medo dele. Algo dentro de si quebrou, quebrou em vários pedacinhos, sua alma fora triturada. Ele não queria presenciar medo nos olhos da mulher que ama, da mulher qual ele pertencia. E, para piorar o seu estado, ele viu decepção também. Naquele momento ele queria morrer, ele magoou a mulher qual amava, a tal ponto que ela preferiria fugir ao ter de encarar a sua presença.

E ela quase foi atropelada. Uma bomba de desespero correu o seu peito quando a puxou de frente ao seu destino trágico, a abraçando com força quando estava segura em seus braços. Ele presenciou de perto o pavor e o horror que era imaginar a sua mulher machucada. Ele nunca sentiu tanto medo na vida, tanto pavor ao pensar que se não fosse quem fosse ela poderia estar morta agora. Clark chorava por dentro, a possibilidade o machucando de formas intensas demais, jamais sentira aquilo. Aquele pânico, aquele terror. Fora apenas alguns segundos, coisa se milésimos, mas o suficiente para que ele decidisse cuidar dos seus passos com especial atenção. Sua prometida era perigosamente impulsiva.

E ela estava magoada, triste, decepcionada, temerosa. Por causa dele. Ele não queria implantar aqueles sentimentos ruins nela, ouvia com clareza a velocidade do seu coração para saber que as emoções eram esmagadoras demais para ela. Ele só queria amá-la e cuidá-la como deveria ser. E então, o seu corpo adormeceu. Ela adormeceu deliciosamente em seus braços. A levava para casa nesse momento com os olhos molhados, coração quebrado. Ele sentia-se decepcionado ao saber que, depois de hoje, ele não aguentaria ficar longe da sua mulher, não quando presenciou o seu sorriso, não quando presenciou a sua forma natural de falar consigo, não quando a viu em perigo.

E se agonizava ao saber que a sua presença iria incomodá-la.

(•••)

Quando ele pousou na sua pequena varanda, os seus pensamentos eram diferentes. O tempo esfriando a cabeça voando com sua mulher, sua deusa na terra, em seu colo fora o suficiente para que pensasse com mais clareza. O que já foi feito não tinha concerto, e ele não iria se afastar novamente. Entrou no quarto da sua rainha a pondo com todo o cuidado do mundo na cama, como se ela fosse uma boneca de porcelana: o que de fato parecia, se não fosse seu temperamento ruim. Riu tristemente com o pensamento, o olhar decepcionado da sua senhora ainda gravado na cabeça. Tirou o seu casaco, seus coturnos e desfez o nó dos seus cabelos a cobrindo confortavelmente em seguida. Afastou os cabelos do seu rosto e contemplou a sua beleza, mesmo que agora ela estivesse marcada de lágrimas. Beijos os seus olhos molhados com carinho sugando as suas lágrimas no processo, sôfrego e culpado. Em seguida a sua testa macia, cheirando os seus cabelos negros e fartos.

— Me perdoe por decepciona-la, minha querida. Por magoa-la — sussurrou em sua fronte, as sobrancelhas franzidas pela dor sentimental que sentia — E me perdoe por não poder ficar longe. Não posso mais.

Beijou seus cabelos com carinho.

— Eu prometo compensar cada lágrima sua derramada todos os dias da nossa longa vida, minha senhora — se afastou olhando o seu belo rosto, passando as mãos em suas bochechas rosadas — Tente não me odiar tanto, querida. Acolha-me. Eu prometo tentar fazê-la a mulher mais feliz do mundo...

Ele se levantou lentamente, cobrindo os seus ombros e alisando as suas bochechas uma última vez aquela noite.

— ...A minha mulher.

E partiu rapidamente antes que cedesse aos desejos do seu corpo que clamava por ela, clamava por abraçá-la e consola-la. Em sua cabeça a única certeza inundava os seus pensamentos, o dando a coragem e a convicção que precisava para seguir em frente: a amava, a faria dele, a faria feliz.

Ele faria de tudo para reconquistar sua confiança.

Notas finais
Ufa! Finalmente, não? Perdão não ter postado ontem, aconteceram uns imprevistos e acabei dormindo cedo demais. — Explicação rápida sobre os óculos do Superman: "Em 1978, a edição em quadrinhos Superman #330 deu a resposta para a questão da dupla identidade de Clark Kent-Super-Homem. Nesta edição, descobriu-se que, além de voar pelo céu com velocidade supersônica e ter força suficiente para levantar 10 edifícios, o Super-Homem tem a habilidade de criar vínculos com indivíduos que sofrem de prosopagnosia, ou seja, agnosia visual, que é a incapacidade de memorizar rostos. Sim, é isso mesmo. Aparentemente esse desordem mental é implantada por Clark Kent por meio da hipnose com suas lentes hipnóticas de cristal de Kryptonita. Mistério resolvido, e um tanto desanimador. Tudo isso se deve à imaginação fértil de Martin Pasko, escritor de Homem de Aço. - Explicação retirada do site Vix" E é isso, meninas. Bom, eu espero que tenham gostado, sinceramente! Por favor, me digam tudo o que acharam desse capítulo, estou bem insegura com ele. Bem, eu não tenho muito o que dizer, só a agradecer pelo carinho das minhas leitoras maravilhosas. Vocês são demais! Até mais, meninas! ♥