You Rock My World
11 XI
Notas iniciais
O estado de espírito de Alura Murray não carregava muitas novidades para expressar mundo afora. Geralmente ela estava com raiva, irritada, estressada, cansada, apática, entediada ou desinteressada, não todos ao mesmo tempo e não na mesma ordem. Ela não era exatamente um poço de novidades e estava bem assim, convivia bem consigo mesma em sua rotina tediosa sem grandes problemas, mesmo que estivesse extremamente cansada do seu emprego fodido ou da sua faculdade sufocante.
Entretanto, já faz mais de um mês que ela se pergunta todos os dias onde foi que errou.
Ela sempre foi considerada azarada, não só pelas pessoas de fora mas por si própria e ela era conformada com o fatídico fato, apesar de odiá-lo profundamente. Sua vida sempre fora traçada por desventuras indesejadas e situações complicadas, deve ser por isso que ela prefira a rotina, coisas novas quase nunca significavam coisas boas para si. Mas desde o maldito acidente entre aliens qual ela fora injustamente envolvida, tudo ao seu redor aparentava estar de complô contra sua pessoa e sua paz de espírito. Alura sabia que suas lamúrias internas soavam pateticamente dramáticas, ela detestava drama. Criada do jeito que ela foi e vivendo a vida que vive o drama era algo longe demais da sua realidade para se encaixar nas curtas frestas entre suas fortes e difíceis personalidades, e por isso ela martirizava se perguntando se estaria sendo estupidamente dramática se ela dissesse que queria se esconder no conforto dos seus cobertores com nada além de água gelada, uma fita do Batman e pizzas até o mundo se ajustar novamente.
O trabalho tem sido difícil. Antes, trabalhar como Designer numa editora de revistas adolescentes parecia ser calmo o bastante para não a tirar da sua zona de conforto, mas é claro que com a sua maré de azar até o seu emprego já fodido teria que se virar mais ainda contra si em algum momento. Como se já não bastasse aquele bastardo pervertido do James para complicar os seus dias, a editora tinha que querer explorar cada vez mais a vida do forasteiro de capa vermelha.
Emocionalmente falando, Alura não enfrentava os seus melhores dias.
Alura Pov's On
O mundo todo estava alvoraçado em volta desse ser como se fôssemos um grande e abafado formigueiro e ele um cubo grande e suculento de açúcar. Sim, eu sei que isso foi idiota, eu também sou. Mas o fato é que os seus feitos milagrosos e -segundo alguns- divinos, tem deixado oito bilhões de pessoas eufóricas, curiosas e, infelizmente, mais perigosas. A raça humana deve ser a única estúpida o suficiente para querer se rebelar contra um homem com aquela força, e eu sei do que estou falando, eu o vi mais perto do que gostaria. Entretanto, eu entendo que o mundo não estava preparado para a descoberta de outros planetas e vidas fora da terra, deve ser por isso que alguns agem como idiotas ao mencionar a muralha voadora que aquele ser é, eu com certeza não estava, e quanto mais eu tento fingir que o mundo continua do mesmo jeito de dois meses atrás mais ele me mostra o quanto eu aparento ser uma intrusa aqui.
Desde que eu admiti para mim mesma que aquele homem mexia comigo -se isso é bom ou ruim eu não sei, e prefiro não descobrir-, tudo o que eu menos queria era saber dele e do seu rosto bonito. Sua capa esvoaçante, seu físico másculo, sua voz grave, seus lábios atraentes e seus belos olhos cristalinos já enfeitavam meus sonhos demais para que eu quisesse o ver fora deles. Mas eu sabia que, infelizmente, isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde, a marca muito bem desenhada entre meus seios era a prova disso. Por mais curiosa que eu estivesse sobre aquele estranho símbolo que surgiu em meu corpo, sobre o forasteiro e sobre a nossa suposta ligação, eu preferiria que isso viesse o mais tardio possível e talvez, se eu tiver sorte, nunca. Covarde, não? Eu sei. Também não me orgulho disso.
O forasteiro atrevido é o maior motivo das minhas angústias e estresses ultimamente. Meu trabalho só publicava coisas sobre ele, coisas estúpidas e sem fundamentos tipo relatos eróticos das suas fangirls carentes e fantasiosas, não preciso mencionar que são adolescentes também, não é? Na universidade qual estudo não se fala de outra coisa também, tanto homens como mulheres. Ele tem sido usado até mesmo como exemplo nas minhas aulas e provas! Um saco, um terrível pesadelo sem fim.
E como se já não me bastasse de problemas, veio Tobias e sua fuça arrogante xeretar onde não devia. Juro que ainda vou socar aquela cara afeminada com toda a força que meus falidos seis meses de jiu-jitsu pode dar, mesmo que isso já faça cinco anos. Por causa dele James não largava da porra do meu pé querendo porque querendo saber de uma história que não lhe cabia para publicar, por causa dele as pessoas do colégio me olhavam torto -bom, bem mais torto do que antes, mas isso já é outra história- e por causa dele um mar de sanguessugas imbecis -também chamados de repórteres em alguns lugares- tem invadido a minha privacidade e acabado com o meu humor, o que já é quase nulo. Tudo ao meu redor lutava contra minha paz.
Ross e seus repentinos segredos também era uma espinha na minha bunda.
Aquela maldita ratinha está escondendo alguma coisa grande de mim, tenho certeza. Desde ontem ela tem me evitado e hoje nem foi pro trabalho, não me ligou ou mandou mensagens, não fez sequer um sinal de fumaça. Tudo bem que ela não nasceu colada em mim, sinceramente eu agradeceria se o seu silêncio fosse duradouro desde que isso não queira dizer problemas, mas conhecendo a tagarela e nada discreta Rosaly como conheço eu posso afirmar com convicção que boa coisa ela não está tramando. Já peguei até me perguntando se eu fiz algo que a ofendeu, ou se ela está com algum problema grande e não quer contar. Não que eu ligue, puff, claro que não! Mas a loira tem uma incrível capacidade de escolher miseráveis para se envolver e eu aposto um rim que os seus olhares travessos e os sorrisinhos pelos cantos é resultado de mais algum babaca que pretende quebrar os seus sentimentos. Sei disso porque, pra ela estar me evitando, ela deve saber que ele é um imbecil e não quer me contar com medo do esporro que com certeza eu darei nela. Eu me pergunto quando ela vai tomar vergonha naquela cara de porcelana e aprender que a vida não é se apaixonar pelo primeiro idiota que fode bem. Eu ainda vou dar uns tapas de verdade na cara daquela loira, e em seguida uns murros no imbecil que ela deve estar saindo pra ele saber que não é só porque ela é desmiolada e meio burra sentimentalmente que ele vai poder fazer o que quiser e sair ileso.
Pra magoar Rosaly tem que passar por cima de mim primeiro.
Também tem o maldito Kent. Aquele fodido covarde não me ligou mais. Eu obviamente estava feliz em voltar para a minha vida solitária de sempre mas, como já deixei claro, a minha pessoa estava passando por uma fase confusa e de um jeito bem imbecil e egoísta eu sentia falta de provoca-lo em ligações. Porém era uma faca de dois gumes, na mesma medida que era divertido era também deveras irritante pois o bastardo parecia não se abalar com as minhas grosserias e até mesmo revidava, e isso sempre acabava comigo batendo o telefone em sua cara... acompanhado de um sorriso idiota no meu rosto. Discreto e enferrujado, mas era um sorriso.
E, claro, as minhas drásticas mudanças de humor.
Eu não sei o que está acontecendo comigo, com meu corpo, com minha cabeça. Tenho andado numa montanha russa de emoções, vontades e sentimentos. Meu corpo estava confuso; Ás vezes tenso, ás vezes relaxado, ás vezes excitado, ás vezes dolorido sem motivos aparente, e na mesma intensidade que meu corpo estava em conflito a minha mente também estava. Pensava em várias coisas ao mesmo tempo e ás vezes em absolutamente nada, sentia falta de coisas quais nunca quis antes e de pessoas, não, não, alguém com qual eu nunca estive. Não sei como descrever... Era como se eu sentisse necessidade de algo que eu não tenho. Será que era esse o piripaque que Rosaly sempre alertou que eu teria se eu não transasse com alguém urgentemente? Por que não havia outra explicação coerente. Eu me sentia irritantemente carente, estupidamente abatida, meu corpo estava cansado de um exercício qual eu não havia feito, eu estava um frangalho. Todos esses desejos e sentimentos confusos me sugavam toda a energia e paciência, levando assim o meu humor, me deixando extremamente irritada sem motivo nenhum.
Exatamente como agora.
Estava nesse momento frente ao meu apartamento miserável tentando abrir o encosto que minha porta é, tendo em mente que eu realmente preciso deixar de frescura e mandar trocar essa merda. Pode parecer que não, mas sair e interagir com as pessoas, principalmente sabendo que serão homens e que provavelmente eles darão em cima de mim é quase impossível para uma pessoa como eu lidar com serenidade. Primeiro porque eu não gosto de perder saliva conversando com alguém que eu não queira, e segundo que eu vou ter que deixar de comprar uma carta rara de Yu-Gi-Oh nova esse mês pra arrumar essa bosta.
As vezes acho que essa história de signos realmente existam e que o meu, seja lá qual for, deva ser o mais fodido de todo o zodíaco.
— Bom dia, senhorita Murray — falando em encosto, uma voz masculina já conhecida veio inesperadamente pelas minhas costas. Ignorei, claro, e continuei com o árduo trabalho que é impedir a mim mesma de botar aquela porta abaixo. — Eu disse bom dia, senhorita Murray!
— E o que tem de bom? — resmunguei.
Estar vivendo nos limites da minha raiva não fará bem pro meu coração.
— A senhorita precisa de ajuda?
— Não.
— Certeza? Sou bom com essas coisas.
— Já disse que não. Obrigada — 'Não o agrida, Alura. Pense em como será ruim ter que olhar pra cara da sua mãe no tribunal', recitava comigo mesma num mantra.
— Ora, deixa disso, eu quero ajudar! Uma moça bonita como você não pode ficar desamparada. — mordi minha bochecha sentindo o restinho da minha paciência reserva se esvair como fumaça. Larguei a porta com brusquidão e me virei com as mãos na cintura e as sobrancelhas franzidas.
— Eu tenho cara de quem precisa de ajuda? Se manda! — vociferei grossa já sabendo com quem eu lidava. A minha frente estava o síndico e filho do dono do prédio, um dos mais incompetente que eu já vi. E o mais ousado também. Era um loiro alto de olhos verdes e barba rala, pele bronzeada como a de um surfista. Ele estava sempre abordando as moças patéticas que viviam nesse prédio velho. Infelizmente pra mim (e para ele) eu estava inclusa na sua lista de assédios também.
— Senhorita, eu acho que posso ajudar. Sou bom em mexer com ferramentas, principalmente se for para uma bela donzela. E não precisa me pagar nada depois! Bem... ao menos que queira — ele sorriu, um sorriso branco e sacana que faria muitas se derreterem porque ele realmente tem um rostinho bonito. Mas não a mim, queridos. Eu não sou uma Murray apenas por azar do destino, ser fria como gelo e afastar homens estava no meu DNA.
Rolei os olhos em desgosto ao seu cavalheirismo forçado não acreditando que mulheres iam pra cama com ele por uma jogada tosca como essa.
— Diga, qual é o seu nome mesmo? Bella, Pela, Cela… É um nome idiota, lembro disso — estalei os dedos da mão direita como se estivesse realmente empenhada em descobrir sua identidade. Ele fez uma careta engraçada parecendo contrariado com as minhas suposições.
— É César, senhorita Murray. Sou o síndico e filho do dono do prédio. Ao seu dispor, claro — um sorriso ousado desenhou os seus lábios. Estalei a língua na boca pronta para revidar sua falsidade. Depois de hoje, ele vai pensar duas vezes em olhar para mim de novo. Já estava de saco cheio de suas investidas.
— Então ouça bem, César O Síndico: se der em cima de mim outra fez eu vou te ferrar com um taco, ouviu? Um lindo taco de beisebol feito de aço que eu guardo para ocasiões extremamente especiais, como foder imbecis! — mudei as minhas expressões o suficiente para ele saber que eu não estava brincando, a mesma expressão dura que Vivian Murray sempre me olhava. César sorriu completamente sem graça a minha frente recuando um passo, intimidado.
Intimidar os/as babacas também estava na minha lista de prazer pessoal.
— Mas a sua porta…- sua voz morreu a minhas costas quando me virei e, num ato impensado e cheia de fúria, meti o pé com força na fechadura vendo-a estourar a minha frente, fazendo a porta bater com força na parede de dentro da minha casa. Me virei pra Cásar de novo com minha cara chateada vendo seus olhos arregalados de surpresa.
— Problema resolvido. Se manda! — ele piscou uma, duas vezes, surpreso — Está surdo? Rala daqui!
— B-Bom dia — murmurou passando por mim, ereto, mas seus olhos exalando uma raiva contida pelo fora que recebeu.
'Enfia seu bom dia onde o sol não bate', pensei.
Me virei pra ver o estrago que eu mesma fiz percebendo que agora eu realmente terei que chamar alguém. Suspirei chateada com minha impulsividade. Entrei no meu apartamento jogando a bolsa no sofá de qualquer jeito, desamarrando os cabelos e já iria tirar meus sapatos se um cheiro podre não tivesse invadido minhas narinas. Tapei o rosto com força, peguei um abajur que estava próximo -porque nem fodendo eu vou explorar essa casa cheirando defunto sem algo pra jogar em alguém- e sai caminhando pelo apartamento pra achar a fonte do odor.
Meu rosto que sempre demonstrava irritação ou indiferença mostrou uma nova faceta quando cheguei na cozinha: incredulidade.
Ontem eu havia comprado carne o suficiente para passar um mês, mas a burra aqui se esqueceu de pôr na geladeira. O problema no entanto não era esse, o problema foi eu ter deixado a janela da cozinha aberta e uma cambada de gatos malditos ter entrado na minha casa e feito a festa com minha comida, deixando sua sujeira para trás pra idiota aqui limpar. Trinquei meus dentes com raiva sentindo que a qualquer momento poderia esganar alguém. Normalmente, em um prédio consideravelmente grande igual ao que eu moro não era pra ter esses bichos uma vez que as regras de boa convivência entre vizinhos não permitia, mas alguém aqui dentro obviamente não respeitou as normas trazendo essas pragas de quatro patas para cá.
E pro azar dela eu sabia exatamente quem era.
— Isso não vai ficar assim. — murmurei entre dentes.
Silenciosamente eu fui no meu banheiro e peguei um saco de lixo de 100 litros resistente que eu sempre tinha guardado -nunca se sabe quando podemos, por exemplo, querer esconder um corpo, né. Brincadeira.- e voltei lentamente pra cozinha sem querer fazer barulho. Porém assim que os bichos me perceberam começaram a correr, mas com a raiva que eu estou não deixaria passar essa situação em branco. Depois de apanhar as pragas barulhentas e joga-los dentro do saco eu saí do meu apartamento em direção ao elevador, apertando com grosseria o botão pra um andar abaixo. Quando a caixa se abriu eu bufei de raiva sentindo o sangue pulsar nos meus ouvidos, arrastando o saco pelo corredor até uma determinada porta.
Bati uma, duas, três vezes. Na sexta eu já esmurrava.
— Eu sei que você estar aí, Thompson, sua maldita! — gritei usando tanta força na porta que a fazia balançar. — Eu já arrombei uma porta hoje, não seria sacrifício nenhum colocar outra abaixo também!
Ouvi som de trancas do outro lado junto com vários resmungos grosseiros. Rolei meus olhos batendo o pé no chão impacientemente sentindo os gatos arranhar o saco que eu segurava. Cinco ou seis trancas depois a mulher abre a porta. Era uma idosa rechonchuda calçada em chinelos rosas e vestido estilo capa de bujão, vários Bob's enfeitando sua cabeça de cabelos brancos. A imagem fofinha dessa senhora não me engana nem por um segundo, ela já era conhecida por adorar infernizar a paz alheia.
— Minha jovem, isso não são modos!
— Corta essa, Thompson. Você sabe o que é isso aqui? — arrastei o saco até ela o abrindo. Seus olhos se arregalaram.
— Meus bebês! Que monstruosidade! O que você fez com meus bebês?!
— A questão aqui é o que eu vou fazer com suas malditas bolas de pulgas se você não der um fim nelas!
— Eu sou moradora desse prédio e uma idosa, tenho os meus direitos. Os meus gatos ficam!
— A senhora tem a obrigação de cumprir com as normas do prédio que diz claramente nada de bichos. Você é velha mas não é caduca! Esses animais idiotas acabaram com a minha comida e o meu apartamento!
— Que calúnia! Meus bebês jamais deram trabalho, não fazem uma bagunça sequer. Você está mentindo, menina!
— Você acha isso porque talvez seja tão porca quanto eles! — A velha arregalou os olhos, apontei o meu dedo pra ela — Se esses bichos entrarem no meu apartamento outra vez eu vou os jogar pela janela, você me ouviu? Vou deixar eles se espatifarem cinco andares abaixo!
— Sua-Sua monstra perversa! Vou chamar a polícia pra você, não toque nos meus bebês!
— Pois se considere avisada, senhora!
Me virei pronta pra partir. Entrei no elevador fazendo sinais com meus dedos pra velha sinalizando que eu estava de olho nela, e as portas se fecharam. Respirei fundo sentindo minha marca arder como fogo e desejei loucamente ter visão laser pra derreter a cara das pessoas também. Fui pro andar do idiota do síndico porque eu não vou aturar a merda alheia calada. Bati na porta de César com força vendo-a abrir pouco tempo depois.
— Senhorita Murray, que surpresa — ele não forçou um sorriso, dessa vez ficando com a cara séria, seus olhos ainda carregando raiva — Em que posso te ajudar? — perguntou irônico.
— Escute aqui — apontei o dedo pra ele — Eu sei que você está dando colher de chá para aquela velhota do 302!
— A senhora Thompson? Não sei do que…
— Não fode! Aquela maldita tem mais gatos do que você tem de dignidade, mas vou logo avisando que a próxima vez que aquelas bolas irritantes entrar no meu apartamento eu vou dar um sacode neles e jogar os restos na sua porta!
César arregalou os olhos.
— Essa é uma acusação muito grave, Murray…
— Você estar transando com a neta dela não anula suas obrigações de síndico, César — o cortei — Eu paguei por essa merda de lugar, então acho bom você fazer o seu papel por aqui antes que eu dê a doida!
Me virei e voltei pro elevador, fazendo os mesmo sinais com os dedos dizendo que estava de olho nele também. Entrei no meu apartamento espumando raiva, sentindo cada pedaço do meu ser numa bola confusa de sentimentos negativos. Não me lembro de um dia que eu estivesse com mais raiva como hoje, era animalesco e nada agradável. Eu não queria aquilo dentro de mim, não sei de onde essa negatividade pesada surgiu. Fui para o meu quarto e troquei a roupa do trabalho por uma mais leve, passando no quarto da bagunça e pegando os objetos de limpeza. Eu iria dar uma geral na casa inteira até não sobrar nenhum resquícios de animal aqui dentro ou não me chamaria Alura Murray.
Alura Pov's Off
(...)
O relógio marcava duas e meia da tarde quando ela enfim sentiu o cheiro de lavanda do desinfetante perfumar cada canto da casa. Não a confundam com uma maníaca por limpeza porque Alura Murray definitivamente não o era, mas a ideia de ter pequenos parasitas em sua zona de conforto a deixava paranoica o suficiente a ponto de não deixar a oportunidade de uma limpeza geral passar. Agora, deitada no chão da sua sala vendo o quanto seus móveis brilhavam mesmo sob o reflexo imundo da parede embolorada, ela sorriu. Levantou-se lentamente se dirigindo ao cesto de roupa suja pondo toda a colcha da casa ali fazendo uma nota mental para não se esquecer de o levar a lavanderia mais tarde. Se lembrou do livro que achou e o pegou em cima do sofá, o levando até a prateleira minúscula da sala, era um diário antigo que encontrou em cima do seu guarda-roupa enquanto arrumava.
Daria uma olhada naquela coisa velha mais tarde.
Se dirigiu ao banheiro sentindo suas costas estalarem. Depois de um banho bem demorado e muito bem tomado ela se sentiu cinquenta por cento mais calma do que já esteve em toda a semana. Saiu do banheiro envolta da sua felpuda toalha torcendo para que ninguém estivesse passando pelo corredor naquele momento já que a sua porta ainda estava exageradamente quebrada, pegando seu celular em cima do sofá e ligando para um "faz tudo" qualquer que achou na lista telefônica. Já com sua chegada prevista pra daqui a trinta minutos ela se dirigiu ao próprio quarto, trancando a porta ao passar. Trocou de roupa rapidamente e enxugou os cabelos no secador, sendo esse o tempo que levou até o rapaz do concerto chegar.
— Ô de casa! — ela o ouviu da sala.
— Já vai! — gritou, passando o pente mais umas duas vezes no seu cabelo revolto decidindo o pôr numa polpa bagunçada no alto da cabeça. Se dirigiu a sala em seguida.
— Boa tarde. Senhorita Murray?
Um homem gordo e baixinho estava a sua frente, usava óculos de fundo de garrafa e uma grande barba grisalha enfeitava o seu queixo.
— A própria.
— Eu sou Rubens. Tomei a liberdade de dar uma breve olhada em sua porta enquanto não vinha, e devo dizer que teve sorte de ainda estar viva. Eles levaram muita coisa?
Alura piscou lentamente não entendendo bulhufas do que o homem falava. Seu rosto, porém, não demonstrava seus pensamentos. Já teve demonstração de emoções demais por um dia.
— Não entendo o que quer dizer, senhor.
— Foi um assalto não foi? Por isso a porta está nesse estado.
— Ahn, na verdade não — ela coçou a garganta, levemente desconfortável tendo ciência que fizera um estrago feio no momento de raiva — A porta não queria abrir e eu tive que derrubar.
— A senhorita? — ele a olhou incrédulo de cima a baixo. Antes que a morena se irritasse ele desviou o olhar coçando a garganta — As moças de hoje em dia sabem bem se defender, não é mesmo? — comentou sorrindo — Sua tranca é de péssima qualidade, moça. Me surpreenda que não tenha a chutado antes. A pessoa que a instalou fez o favor de empenar a sua porta, que também não é das melhores.
— É a mesma desde que eu comprei o apartamento, tem uns três anos. Não me surpreenda que esse lugar fora feito com as piores marcas do mercado — Alura rolou os olhos — Dá pra consertar?
— Dá pra 'dar um jeito' pra senhorita passar a noite, mas eu recomendo que troque a porta e a fechadura o mais rápido possível.
— E quanto isso vai me custar?
— Cerca de quatrocentos dólares se quiser uma porta e tranca de qualidade.
— Porra, antes eu fosse assaltada — murmurou chateada sentindo uma parcela da sua raiva voltar — E quando você pode fazer isso?
— Se a senhorita quiser, amanhã de manhã está tudo pronto.
— Ótimo. Dê um jeito nessa bela porcaria por hoje, por favor. Amanhã a gente resolve definitivo.
Rubens assentiu se pondo logo a trabalhar. Alura gostara do senhorzinho, era discreto e respeitoso. Ela não tinha nada contra o sexo masculino, gostava de pensar que era apenas cautelosa demais, adquiriu experiências suficientes desde que seus seios começaram a apertar os sutiãs e sabia que estar ao lado de alguém do sexo masculino era sempre motivo de estresse. Não que ela não gostasse de flertes ou cantadas, ela gostava, mas era uma mulher difícil e não era qualquer olhar que a faria dar mole pra alguém e geralmente os homens eram sensíveis e estressadinhos demais perante um redondo e grosseiro 'Não'. Ela pensava que o homem que não soubesse lidar com sua personalidade ruim não era digno de ter qualquer relação com ela.
Rubens terminou certa de quarenta minutos depois pedindo desculpas pelo resultado final, ele não poderia fazer muito. Aquilo a sua frente era uma verdadeira 'armengação' e realmente não poderia ficar daquele jeito por muito tempo, mas era o suficiente para passar a noite. Pagou Rubens pelos seus serviços combinando de se encontrarem na manhã seguinte e saiu de casa. Precisava urgentemente de algo decente para jantar ou iria acabar parando no hospital com outra infecção estomacal. Pegou um ônibus para ir até o seu mercado favorito. Ela gostava de andar, longas caminhadas pelas ruas de Metrópolis sempre a faziam acalmar os ânimos, mas para chegar até o mercado que sempre fazia compras ela teria que passar perto do local em que sua vida virou de cabeça para baixo -perto porque as ruas e estabelecimentos por ali ainda estavam sendo reconstruídas- e ainda não estava pronta para isso, só de pensar na ideia o seu estômago se agitava de forma incômoda. Ela não gostava de pensar no quanto aquele dia realmente a amedrontou.
Menos de dez minutos depois ela desceu no seu ponto e caminhou poucos passos até passar pelas portas do local dando de cara com o velho norueguês sentado atrás do balcão, como sempre com o jornal na mão e um cachimbo apagado pendurado na boca.
— E aí, velhote — o cumprimentou o fazendo levantar os olhos preguiçosamente do jornal e olhar para si sem nenhuma vontade. Seus olhos miúdos se arregalaram levemente quando a viu, surpreso com a aparição depois de tanto tempo, mas ele não demonstrou. Bufou e virou a página do jornal velho ignorando sua presença — Vejo que continua amável como um chute no estômago.
— Achei que estivesse morta, pirralha — comentou com sua voz grave e rouca, sinal de vários anos de fumante.
— Você não teria tanta sorte, velho.
— Infelizmente, não — murmurou voltando aos seus jornais.
Eles não se odiavam realmente. Na verdade a relação entre eles era o mais próximo do aceitável de amizade que eles poderiam querer. O velho era um antigo general de guerra, sempre fora rude e fechado, e Alura adorava isso. Em compensação, ele a adorava. Ela lembrava a sua filha já falecida que era tão mal-humorada quanto ela. Ele estava feliz em vê-la e ela estava feliz de estar ali, mesmo que o lugar fosse sujo e pobremente abastecido de alimentos.
— Se eu procurar mais um pouco, sou capaz de achar minha avó morta entre os insetos e as teias de aranha desse lugar — comentou ácida passando pelas prateleiras pegando o que precisava.
— Se a achar mande tirar o bigode. Faz cócegas quando me chupa — ele gargalhou rouco contemplando seu rosto se contorcer numa careta de desprezo.
— Velho filha da puta — sussurrou permitindo-se sorrir da piada de mau gosto. Ela adorava isso nele.
Não falaram mais nada depois disso e o silêncio era confortável. Alura pegou as mesmas besteiras que sempre pegava; bastante macarrão instantâneo, refrigerantes, três litros de leite, carne, milho para pipoca, quatro caixas de cereal, uma garrafa de óleo, duas garrafas de vinho, produtos para higiene pessoal e do lar e um salgadinho que vinha com uma figurinha do Batman.
Levou as compras até o balcão vendo o velho a ignorar por longos minutos, passando lentamente as páginas daquele jornal de vinte anos atrás. Suspirou com falso chateamento.
— Vamos lá, velhote. Não quero ficar nesse cenário de filme de terror a tarde toda. Naftalina e remédio de ameixas nunca foram meus cheiros favorito e aqui está estupidamente impregnado.
— A defunta bigoduda da sua avó não reclama — ele sorriu novamente, enfim passando as compras da morena. Ela riu balançando a cabeça negativamente, estava pronta para responder a altura quando seu celular tocou na bolsa. Resmungou um palavrão e o tirou vendo o nome de Rosaly piscar na tela. Estreitou os olhos desconfiada.
— Diga.
"Lua! Ai, estava com tantas, tantas, tantas saudades de você! Como você está? Como foi o seu dia?"
Alura suspirou. Ainda estava chateada com Rosaly e sua repentina mudança, mesmo que não admitisse a última parte.
— Bem. O que quer?
"Te ver, miga! Que tal a gente se encontrar hoje a noite?"
— Não dá, tenho aula, você sabe disso.
"Então vamos nos ver agora!"
— Estou no mercado e vou demorar.
"Não me diga que é naquele lugar imundo? Não deveria fazer compras aí! Os alimentos são de fontes e qualidades questionáveis e o dono tem cara de maníaco psicopata"
— Era só isso? Preciso desligar agora.
"Não, espera! A gente pode se encontrar naquela lanchonete mexicana perto da sua faculdade mesmo, não tem problema"
— O que está armando, Rosaly?
"E-Eu não sei do que está falando, senhorita estressadinha"
— Eu não sou tão idiota quanto pareço, Campbell. Desembucha.
"L-Lua, eu só quero te ver. Por favoooooooor!!!"
Alura suspirou cansada, sabia que algo acontecia mas tinha ciência que não descobriria nada no conforto da sua bolha. Geralmente ela não se importaria com a merda acontecendo ao seu redor, mas se tratava de Rosaly naquele momento.
E ela se preocupava com Rosaly.
— Que seja. Daqui uma hora naquela lanchonete próxima a minha faculdade.
"Yeahhhhh! Você é a melhor! Beijos, Lua. Espero que se divirta! E vá embora já daí, esse homem não é confiável! Te amo, miga"
Antes que ela respondesse Rosaly já tinha desligado. Franziu os olhos confusa, como assim "espero que se divirta"? Antes que ligasse os pontos o velho a interrompeu com uma tosse forçada.
— Noventa e dois e cinquenta, fedelha.
— Não fode, velho ladrão. Porque não me aponta uma arma logo? É mais digno — reclamou. Alura sempre reclamaria do preço de qualquer coisa que passasse de quarenta pratas. Deve ser por isso que se encontrou em Contabilidade.
— Porque fui proibido de portar qualquer tipo de armas pro resto da minha vida depois de enlouquecer no Vietnã. Mais alguma pergunta?
— Você é realmente um estúpido maníaco, não é?
— Isso depende. Você é comunista? — ela abriu um sorriso cheio de dentes balançando a cabeça para os lados, o fazendo sorrir também. Tirou o dinheiro da carteira e o pagou, começando a guardar suas compras nas sacolas. — Escute, você é a única que conheço com um nome tão bizarro, tenho certeza que li sobre você no jornal. Não é você que está namorando o alienígena?
— Acha mesmo que se eu estivesse namorando um homem daquele eu estaria aqui vendo sua cara gorda enrugada?
— E onde uma fedelha irritante como você estaria? Na casa da mamãe?
— Vira essa boca pra lá, praga. E não sei, talvez em milão fazendo umas compras. — zombou sarcástica.
— Com que dinheiro? Você é uma pobre tão fodida quanto eu, pirralha. — ele gargalhou.
— Gordo escroto do caralho — murmurou sorrindo minimamente.
— Devia comer coisas melhores, por isso está com essa cara anêmica e essas ideias idiotas.
— Pra isso eu teria que parar de comprar aqui, velho. A qualidade das coisas desse lugar são as piores.
— E porque continua comprando, idiota? — Alura olhou pra cara dele se perguntando que tipo de pessoa aconselhava indiretamente um cliente a comprar em outro lugar. Ela deu de ombros evitando seu olhar.
— Seu cheiro de idoso geriátrico não é tão insuportável assim — resmungou emburrada repentinamente, falar sobre sentimentos era um pouco difícil para si. O velho riu e entregou as suas sacolas.
— Agora carregue essa bunda gorda pra fora do meu estabelecimento, seu perfume doce está afeminando o meu lugar. E não demore mais pra voltar, o dinheiro que eu te roubo alimenta meu vício em conhaque. — aquela era a sua forma de dizer que sentiu saudades. Alura bufou pegando suas sacolas.
— Até mais, velho gordo idiota.
— Não se eu morrer antes, fedelha malcriada metida.
De costas um para o outro, eles sorriram. Era uma comunicação estranha e muitas vezes soava ofensiva, mas se entendiam e se gostavam dessa forma.
(...)
Já de banho tomado, roupas trocadas e suas compras guardadas nas prateleiras, ela pegou suas chaves, sua mochila e saiu. Era seis e pouco da noite e gostaria de andar um pouco até chegar ao lugar marcado. Uma sensação esquisita cobria o seu estômago, uma sensação que talvez ela não gostasse, nunca gostava quando pressentia que algo novo iria acontecer em sua vida pois, como já disse, coisas novas quase nunca significavam coisas boas. Aos primeiros passos pelas ruas uma sensação forte atingiu o seu peito, em cima da sua marca. Olhou ao redor alarmada com medo de outro desastre, sentindo seus joelhos tremerem. Ela só esperava não ter um ataque de pânico na frente de todo mundo. Dez minutos depois parada no mesmo lugar ela percebeu que o problema não estava fora, mas sim dentro do seu corpo. Um sentimento angustiante de que deveria se apressar tomou conta do seu peito e sentindo o quão forte ele era ela decidiu seguir os seus instintos, afinal enlouqueceria se não o fizesse. Pensando nisso ela se dirigiu a estação de metrô para chegar mais rápido ao seu destino.
O destino da nossa Lua começa a ser traçado daqui pra frente.

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