You Rock My World
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Notas iniciais

Rosaly era uma boa mentirosa. Não no sentindo perverso e maligno da coisa, apenas aprendeu a dobrar algumas pessoas a seu favor com respostas evasivas ou inverdades não-prejudiciais. Com o histórico travesso que tinha das suas escapadas na adolescência podia se dizer que mentir já não era um obstáculo para ela, de fato vazia isso muitas vezes ao dia considerando o status social da sua família e seu cargo de recepcionista na empresa qual trabalha. Mas não para Alura. Ela simplesmente não conseguia e nem queria mentir para sua melhor amiga, exceto por hoje. Estava se sentindo horrível pela maneira qual a evitou durante o dia, sabia que não conseguiria sustentar uma mentira olhando aqueles olhões questionadores e seu rosto sério, então foi a medida mais eficiente -e covarde, admitia- que encontrou para fugir da amiga. Alura não a questionou em nenhum momento, mas seu olhar não conseguia esconder a confusão e se sua leitura corporal fosse tão certeira como achava que era, podia jurar ter visto uma pitada de preocupação também, e isso a arrasava. Sabia que a amiga sentia mais do que demonstrava e não queria lhe dar nenhuma preocupação desnecessária, esperava que futuramente ela entendesse o que estava fazendo.
Isso se ela não a matasse antes.
— É por uma boa causa — murmurou apreensiva — É para o bem dela.
Aumentou um pouco o volume do rádio tentando se distrair do seu conflito interno, tamborilando os dedos no volante no ritmo da batida da música pop que tocava. Estava no trânsito agora, no meio de um farol fechado. Olhando rapidamente para o celular no banco ao seu lado viu que estava quase trinta minutos adiantada para o compromisso que marcara, a ansiedade dentro de si não a permitiu sossegar dentro do seu ambiente de trabalho e pediu uma hora adiantada do seu tempo de almoço para seu gerente dizendo-lhe que não se sentia bem, mas que iria repor a hora não trabalhada no dia seguinte.
E lá aparecia a mentira de novo.
Estava com a saúde perfeitamente bem, e nem fodendo que iria cumprir horário extra em plena sexta-feira.
Quando não estava com Alura ela mentia com uma frequência quase frequente. Nada grande a ponto de prejudicar alguém, nunca, somente coisas pequenas para escapar de situações inevitáveis, mas não deixava de se sentir mal por isso. As pessoas não gostavam de gente verdadeira, gente que falava dos seus reais sentimentos, gente que expressavam seus reais pensamentos, e então adquiriu esse pequeno mau hábito que a salvava e muito quando estava na presença dos amigos arrogantes do seu pai. Entendia agora perfeitamente que não era apenas o mau humor que afastava as pessoas da sua Alura rebelde, mas também a sua ácida sinceridade sobre várias coisas. Mas como uma quase socialite que ela é isso era inevitável, seu pai tinha status o suficiente para que fosse sempre obrigada a comparecer em eventos requintados e se tinha uma coisa que aprendeu ao longo dos seus vinte e cinco anos é que gente requintada eram falsas uma com as outras. Era um fardo que tinha que carregar.
Estacionou na vaga disponível frente ao pequeno restaurante no centro de Metrópolis. Depois de se acomodar dentro do mesmo e pedir um suco natural diet de entrada, alegando para o garçom que estava esperando seu parceiro para que enfim fizesse o pedido principal, ela repensou na suas recentes decisões. Tá bom, talvez ela estivesse sendo um pouco dramática, admitia, mas ela conhecia Alura Murray o suficiente para temer a sua ira. A jovem moça tinha uma decadência gritante em seu humor e talvez ela não reagisse tão bem a um encontro arranjado. Sim, um encontro arranjado. Tinha a sensação que sua morte estava próxima, quase vislumbrava o brilho sádico nos olhos da amiga a perfurando quando a mesma percebesse a situação que ela queria colocá-la. Bem, não que Alura saberia que era um encontro romântico, estava contando com isso ao seu favor, mas de qualquer maneira isso a deixaria fodidamente mal humorada pelo próximo século, talvez a evitasse por um tempo. E pensar sobre isso a angustiava. Amava aquela garota como uma irmã que nunca teve e odiaria vê-la chateada consigo.
Ou magoada.
De todas as opções, preferiria mil vezes ver sua carrancuda favorita cuspindo palavrões ou grosserias contra si do que vê-la com os sentimentos machucados, e imaginar essa possibilidade a fez repensar por breves segundos sobre o encontro que estava tramando com o repórter. E se Clark Kent não fosse tão bom quanto achava que fosse e a magoasse? Certo, a conhecia o suficiente para saber que se isso acontecesse ela chutaria suas bolas com mais força do que aquele pequeno corpo aparentava ter e se mostraria no dia seguinte inabalável, como sempre aparentava. Mas isso não quer dizer que ela não tinha sentimentos, e Ross não queria ferra-los.
Balançou a cabeça afastando a negatividade e olhou ao relógio novamente.
Ainda faltava vinte minutos.
Ela não tinha um histórico digno de se vangloriar por ter encontrado bons homens na vida, a maioria com quem saíra/namorara/transara foram grandes decepções sentimentais, mas, apesar das seus medos repentinos, ela tinha quase certeza que Clark era um rapaz diferente. Nunca o viu mas pelas poucas conversas que tiveram percebeu que o homem era de uma gentileza e humildade que não se achava fácil por aí, além de ter se mostrado muito bondoso e paciente, e isso fazia com que o mesmo fosse qualificado por si como digno pra sua amiga. Precisaria ser um santo para aguentar o furacão Alura, mas com a convivência Ross aprendeu que aquela carcaça rude não era tão impenetrável quanto aparentava, e esperava que Clark e seus dotes incríveis como ser humano visse o mesmo ao invés de desistir no meio do caminho.
Ela sempre foi uma mulher romântica, sempre acreditou no melhor das pessoas. Óbvio que isso a trouxe uma série de relacionamentos falidos e vários potes de sorvetes esvaziados por uma Rosaly em frangalhos frente a qualquer filme meloso para piorar a sua fossa, mas não conseguia mudar a sua essência. Talvez fosse o espírito da sua mãe refletindo sobre si. Não se lembrava muito dos momentos que as duas passaram juntas na sua infância, a matriarca Judie Oxford Mary veio a falecer quando ela ainda era muito jovem, mas o seu pai sempre disse que o ambiente em que sua mãe entrava era sempre abençoado por cores e calor. Ela queria ser uma pessoa assim também, bondosa, romântica, positiva e altruísta. Talvez estivesse tomando a decisão errada ao armar um encontro indesejado para sua ogra favorita, mas não podia ficar sem arriscar. Kent aparentava ser um homem bom demais para se dispensar, ainda mais com o mesmo tendo ciência do gênio ruim da amiga e mesmo assim querer tentar a sorte. Ela não iria deixar essa oportunidade de ouro escapar mesmo que isso custasse alguns meses aturando o gelo glacial que Alura Murray lhe daria.
Olhou pro relógio mais uma vez.
12:00 em ponto. Estava na hora.
Pediu outro copo de suco de abacaxi com menta enquanto verificava as suas mensagens. Nenhuma de Alura. Por um lado se sentia bem que a outra nunca a pressionasse por respostas sempre que ela escondia algo de si, por outro se sentia um pouco mal ao pensar que talvez ela não se importasse tanto assim consigo. Suspirou audivelmente. Lidar com a rabugenta Murray era estar sempre no escuro sobre seus sentimentos; sabia que ela os tinha e sabia que se importava, mas a frieza e grosseria da outra as vezes a fazia ficar insegura sobre suas convicções. E se Alura fosse realmente aquele poço de negatividade sem soluções? E se ela de um dia para o outro decidisse que sua amizade era incomoda demais para ela e se afastasse? As ações da outra era muita das vezes egoísta, sabia que a morena era ciente disso e que ela não se importava com seu defeito, e isso sempre fazia com que um pequeno medo se instalasse no seu peito. Não aguentaria perder a amiga por nada nesse mundo.
— Só espero que ele não desista… — murmurou entre suspiros. Era a primeira vez que armava tal coisa e esperava do fundo do coração que isso não fosse um completo desastre.
— Senhorita Campbell? — uma voz deveras máscula a chamou tirando-a da névoa dos seus pensamentos.
Ao levantar a cabeça para olhar o homem a sua frente a sua boca ficou repentinamente seca. 'Afrodite deixou seu filho fugir?', pensou.
A primeira coisa que percebeu foi sua altura, até mesmo ela com seus 1,70 teria dificuldade em alcançar o seu rosto. Em seguida a sua estrutura corporal. Aquele homem definitivamente vivia por academia, era a única explicação plausível para toda aquela muralha imponente erguida a sua frente. Em seguida fora o seu rosto. 'Merda, mil vezes merda, justo hoje que tô de calcinha bege', pensou. Aquele rosto maravilhoso definitivamente era um lugar qual ela adoraria sentar. Maxilar quadrado, lábios finos mas não menos convidativos, nariz bem desenhado, cabelos negros feito a noite, queixo esculpido. Mas o que mais impactava naquele homem era seus olhos. Um pedaço do céu fora roubado, esculpido e posto em seu globo ocular e apesar de toda a sua presença altiva e imponente que fazia todos os outros homens do ambiente chorarem de inveja, os seus olhos exalavam uma calmaria, uma bondade tão linda que a emocionava, quebrando toda aquela seriedade que sua postura exalava. Era um belo pedaço de mau caminho a sua frente.
'A vagina abençoada que pôs esse pedaço de perdição no mundo merecia um templo de adoração', pensou.
— Senhorita Campbell — ele a chamou novamente, dessa vez mais alto que a anterior — Você está bem?
— Talvez um pouco molhada demais para quem tomou banho apenas algumas horas atrás, baby. Meu nome é Rosaly, mas para você é só Ross. — disse com seu melhor tom de predadora que sempre fazia seus homens caírem de quatro, cruzando as pernas e lhe piscando um olho.
O homem a sua frente puxou os lábios para cima num sorriso extremamente envergonhado abaixando a sua cabeça, ajeitando os óculos com os dedos. Estava claramente sem jeito. A olhou novamente ignorando seu comentário anterior, estendendo a mão direita para si.
— Sou Clark Kent. É um prazer conhecê-la, e me perdoe por atrapalhar seu dia de trabalho.
Ross apertou sua mão mecanicamente sentindo um balde de água extremamente gelada caindo na sua cabeça. 'Puta merda!', pensou. Ela não acreditava que tinha descaradamente dado em cima do paquera da sua melhor amiga, e que paquera! Balançou a cabeça levemente para espantar os flertes que sua mente maliciosa estava planejando, descruzando as pernas e ajeitando a própria postura para uma menos 'quero te dar aqui e agora'. A partir daquele momento ela jurou a si mesma que olharia para Kent como o homem menos interessante da face da terra. Seria difícil, claro, extremamente, quase impossível, mas ela não era uma fura olho e aquele homem em breve estaria comprometido com sua amiga.
Claro que estaria. Faria se tudo para que isso acontecesse, um deus grego daquele não poderia ser desperdiçado. A mataria se ela não desse uma chave de cocha bem dada nesse colírio para os olhos.
— Posso me sentar? — ele perguntou apontando para a cadeira a sua frente.
— Por favor — retirou sua bolsa da mesma para liberar o espaço. Pigarreou constrangida — Peço desculpas pelo, uh, flerte. Tipo, eu tinha certeza que você não era nenhum velho cheio de rugas ou um desfavorecido visualmente mas eu realmente não esperava alguém com a sua… aparência — finalizou incerta não querendo deixar totalmente explícito o quanto internamente ainda babava por aquele Deus a sua frente.
Clark riu acanhado ajeitando novamente os óculos no rosto, olhando para si em seguida.
— Agradeço o elogio, eu acho — pigarreou sem graça — E peço perdão pelo atraso, vim o mais rápido que pude mas no momento estou sem carro e as ruas de Metrópolis são sempre muito cheias para quem está de bicicleta.
— Quê isso, não tem importância — respondeu ainda embaraçada pela situação anterior ao mesmo tempo que impressionada pelo tom ameno, jovial e pacífico que Clark usava, porém sendo o som mais másculo e potente que já ouviu na vida. E ela já tinha saído com homens o suficiente para saber do que estava falando. Aquele homem era raro, mesmo com sua aparência de nerd certinho. — Suponho que ainda não tenha almoçado.
— Ainda não, senhorita.
— Então vamos fazer os pedidos, estou faminta! E me chame de Rosaly, por favor.
Clark riu assentindo, chamando o garçom em seguida. Seus pedidos foram breves assim como seu almoço, falando uma coisa ou outra volta e meia, se conhecendo. Já na sobremesa Rosaly decidiu tomar a frente no assunto qual os levaram até ali já que o mesmo parecia -pasmem- acanhado demais para aquilo. Imaginar um homem daquele porte acanhado para falar sobre mulher, sendo a mulher a sua amiga ogra, era inédito demais para ela. Queria gravar aquile momento como provas.
— Então, como você caiu nas graças da minha amiga, Clark? — o perguntou determinada hora.
Ele demorou a responder, era uma pergunta que o encurralava. Ele sabia exatamente o que sentia e sabia que era real, mas não poderia dizer suas razões em voz alta sem parecer um completo maluco ou revelar os seus segredos. Rosaly esperou pacientemente. Como amiga ela queria ver sua companheira feliz e interagindo com alguém do sexo masculino, mas como irmã ela não poderia evitar os questionamentos. Precisava conhece-lo antes de ajudar na aproximação dos dois. Entendia sua demora, sabia que Alura não era muito virtuosa em qualidades aparentes às pessoas, mas algo devia ter para estarem ali.
— Eu… não sei como explicar isso direito, Rosaly. Não sem parecer um maluco, talvez um adolescente sonhador.
— Não sou adepta a julgamentos, fique tranquilo. Bom... ao menos que você seja um stalker maníaco, aí terei que socar a sua cara e chamar a polícia — comentou bem-humorada o fazendo rir abaixando a cabeça levemente.
— Acredita em amor a primeira vista, Rosaly? — perguntou depois de um tempo.
— Eu sou uma romântica nata, Kent. Acredito em várias formas de manifestações de amor, principalmente essa.
— Bem, isso facilita um pouco — ele suspirou soltando uma risada nasal — A primeira vez que vi a sua amiga ela abalou o meu mundo, literalmente. Não há frase melhor para definir o sentimento — disse baixo, revivendo as sensações maravilhosas e confusas que passaram pelo seu corpo quando realmente a viu depois de ter matado Zod — Minhas mãos ficaram trêmulas, meu estômago agitado, minha pulsação acelerada. Tudo nela contribuiu para que o momento fosse único, seus lindos olhos âmbar, sua boca rosada, seu nariz arrebitado, seus cabelos fartos, sua expressão mau humorada, seus passos decididos, sua língua afiada. Foi a primeira vez que vi um anjo — sorriu acanhado olhando para sua sobremesa intocada — E desde então não consegui tirá-la da minha cabeça.
— Uou!— Rosaly interrompeu surpresa — Isso é muita coisa, Kent. Não dá pra acreditar que estamos falando da mesma pessoa. Espere, isso foi antes ou depois do acidente?
— Um dia depois que ela teve alta, pelo o que eu soube — tinha ciência que mentia em alguns pontos mas era necessário — E um dia depois a esse eu descobri o seu contato, Rosaly. Como repórter eu consigo algumas informações com facilidade e não foi difícil descobrir que a filha de Edgar Hudson Campbell era sua melhor amiga e nem qual hospital estava internada. O relato polêmico que o rapaz deu na entrevista foi de grande ajuda também.
— Tobias — Rosaly bufou desgostosa — Eu ainda acho que ele foi pressionado pelo susto do momento mas Alura está puta da vida com ele. Acredita que ele ainda tenta se aproximar? Claro que eu não falo isso pra ela, apesar de achar que eles deveriam conversar. Ela diz que se o ver pessoalmente é capaz de quebrar o nariz dele, e eu não duvido nada. Você já deve ter percebido o humor ácido dela.
— E a falta dele também — completou rindo a fazendo rir também — Mas ela está certa, Rosaly. Para uma pessoa como Alura, ter a sua vida exposta ao mundo, ainda mais em cima de mentiras, deve ser altamente estressante. Ele tem sorte que ela não o denunciou.
— E que agradeça a mim por isso! Foi tão difícil convence-la. Quase fui pisoteada, sabia? "Está contra mim, Campbell? Dê o fora da minha casa!" foi o que ela disse depois de sugerir deixar ele pra lá — Clark riu com todos os dentes a mostra, feliz em ouvir um pouco mais da sua pequena de sua natureza difícil — Espera um minuto, se você supostamente ficou interessado na minha amiga desde que a viu depois do hospital então já tinha planos românticos quando me ligou.
— De fato — admitiu — Isso principalmente, mas como repórter eu me senti compadecido pela situação em que Tobias a colocou. Eu teria que fazer uma matéria sobre as vítimas do acidente de qualquer forma, e veio bastante a calhar a situação por pior que ela seja.
— Inteligente, Clark — riu — Mas isso não vai te ajudar a favor do furacão Alura. Você precisa de um plano se quiser atravessar aquele muro que a cerca, eu mesma ainda não consegui por completo.
— E o que você me sugere? Qualquer conselho é bem-vindo
.
— Bem, pra começar você não deve chamá-la pelo seu último sobrenome, nunca. Tipo, nunquinha mesmo! Ela o odeia.
— Devia ter me avisado um pouco antes dela dar com o telefone na minha cara a primeira vez que eu liguei. Só fui perceber que era pelo sobrenome duas tentativas falhas depois, com ela me mandando ir para um lugar nada agradável — riu.
— Ai, eu sinto muito por isso — ela suspirou — Alura e um pouco difícil de lidar, tenho quase certeza que foi pela sua criação que teve, mas se for um homem insistente verá que ela é muito mais do que isso. Ela é uma mulher extraordinária, Clark.
— Eu não duvido disso, Rosaly. Não se preocupe — ele sorriu amavelmente — E costumo não desistir dos meus objetivos facilmente.
— Espero que sim porque ela vai tentar te repelir de várias formas possíveis. Sério. A conheci a dois anos e nunca, nunquinha a vi com alguém. Por vontade própria mesmo, sabe? Ela é linda, chama a atenção onde passa, mas os homens tem medo de interagir com ela. Seu rosto sempre fechado é quase sempre o culpado.
— Acho o rosto marrento dela adorável e suas grosserias estranhamente me fazem rir. Não se preocupe Rosaly, eu quero mesmo tentar algo com com essa garota, algo sério. Mas vou precisar da sua ajuda.
— Cara, você já está apaixonado ou é um masoquista? — gargalhou o olhando estranho — Tá, tá bom, mas não diga que eu não te avisei, senhor repórter — ela riu novamente. Por dentro batia palminhas de euforia — Pode contar comigo.
— Obrigada, Rosaly. Significa muito para mim — ela o viu sorrir com uma expressão genuína de felicidade. Sentiu uma pontada de alegria no peito ao saber que aquele sorriso poderia em breve pertencer a sua amiga birrenta.
— Para mim também, Kent — respirou fundo ficando repentinamente séria — Ela é sozinha, muito sozinha — confidenciou. Não era do seu feitio falar da vida pessoal dos outros para desconhecidos, ainda mais se tratando da sua irmã de consideração. Mas estranhamente sentia que podia confiar no Kent. — Ela não admite, claro. Ás vezes chego a acreditar mesmo que ela é feliz daquela forma, mas não creio que alguém possa se sentir bem vivendo desse jeito tão retraído. Eu só espero estar tomando a decisão certa.
— Não se preocupe tanto, minhas intenções são as melhores possíveis — a olhou com carinho. Não viu nenhuma malícia escondida nos seus olhos, apenas conforto — Ela… ela me faz feliz só de saber da sua existência, e isso é muito estranho mas muito gostoso de sentir. Ela deu sentido a minha vida, entende? — Rosaly ofegou com o que viu em suas expressões, um sentimento quente e completo emanando daquele ser. — Eu não quero mais ficar longe.
— Cara — ela riu ainda embaraçada. Um homem daquele tamanho admitindo seus sentimentos para uma pessoa como Alura é simplesmente inacreditável — Você está fodido, muito fodido, definitivamente fodido. Se apaixonou pela pessoa mais inalcançável na face da terra, senhor Kent! Só tenho a lhe desejar sorte, muita sorte. E uma paciência perfeita como a de Jó. Talvez um protetor genital também, nunca se sabe o que se pode vir de uma Alura chateada.
Ambos riram, contentes com o que armariam em breve.
— Vocês são muito amigas, não é?
— Melhores amigas do mundo todo! — respondeu prontamente com um enorme sorriso no rosto — Eu amo aquela maluca, faria qualquer coisa por ela, e sei que do seu jeito torto e grosseiro ela me ama também. Bom, ao menos eu espero que sim.
Gargalharam.
— Não consigo imaginar como vocês duas construíram essa irmandade, são de personalidades tão diferentes — ele riu — Sem querer ofender, é claro.
— Nah, não se preocupe. As diferenças entre nós duas são realmente gritantes, mas nos acostumados uma com a outra. Se eu for te falar como exatamente nos tornamos amigas eu não sei dizer, quando menos percebemos já estávamos íntimas uma da outra. Claro, a minha insistência sempre me ajudou nisso. Mas eu me lembro perfeitamente do dia que nos conhecemos. Ela me odiou logo de cara, e eu também não era muito chegada a sua pessoa! — ela riu, os olhos transmitindo emoções antigas e nostálgicas — Eu estava numa época difícil.
— Sinta-se livre para desabafar, se quiser. Sou um bom ouvinte.
— Não — balançou a cabeça espantando as memórias — É uma história meia deprê e eu não quero te pôr numa fossa a essa hora da tarde. Só pra você ter ideia o acontecimento se passou num hospital.
— Hospital? Alura se machucou? — Clark parecia levemente alarmado. Rosaly não percebeu, entretanto. Estava ainda letárgica pelas memórias boas e ruins.
— Não, nada grave. Só a sua alimentação terrível de sempre que a deu uma forte infecção estomacal na época. Ela... me ajudou muito, mesmo que não saiba. Ela nunca acha que é uma boa pessoa, sabe. Mas era ela quem esteve ali quando eu tava na pior. Nem me conhecia, acredita? — sorriu — Por isso eu farei de tudo que estiver ao meu alcance para vê-la feliz. Ela merece, é uma mulher incrível, apenas mau compreendida. Nem sempre suas grosserias são para nos pôs para baixo, acho que ela só não sabe como se expressar direito, e na real nem liga pra isso. Nossa Lua é uma anarquista!
— Vou guardar essa informação.
— A sete chaves! Ela sempre vai ser grossa com quem tenta invadir sua bolha pessoal, muitas das vezes eu sei que é apenas uma auto defesa, então paciência é a palavra chave dessa relação. E aprenda a dobrá-la! Aquela mulher também tem seu lado infantil, e nada é mais fácil do que dobrar uma criança birrenta, apenas sorria, compreenda e não ligue para seus ataques. Quando pegar o jeito você verá uma Lua completamente diferente da ogra que ela sempre demonstra ser.
Clark sorriu sentindo seus olhos brilharem. Não via a hora de conversar com ela, tocá-la, sentir seu cheiro de perto, ouvir suas histórias, até mesmo ser alvo das suas grosserias -pois pelo o que entendeu ela também o era com pessoa próximas, mas em grau diferente. Algo dentro do seu peito entrava em festa ao imaginar seus momentos juntos.
(...)
Clark insistiu em pagar a conta quando ambos terminaram e em troca Rosaly o ofereceu uma carona até em casa. Com o porta malas um pouco aberto com a bicicleta do repórter dentro, desviando das avenidas principais, eles ainda conversaram bastante sobre a morena. Clark usava bem as palavras para não dar brechas a moça achar que talvez ele fosse um perseguidor ou um maluco, e Rosaly estava simplesmente radiante por ter presenciado de perto a magnitude dos belos sentimentos de Clark Kent, seu futuro cunhado, em nome de Jesus. Como uma romântica nata ela estava mais do que convencida de que amor a primeira vista era possível, e era essa certeza que a faria ajudar aquele simples homem de beleza marcante com todas as suas forças possíveis.
— E como iremos fazer? — ele questionou quando ela estacionou na garagem do hotel em que estava hospedado.
— Bem, hoje não dá mais tempo porque uma hora dessas ela não vai querer falar comigo. Não avisei que não almoçaria com ela hoje, fiquei tão ansiosa que esqueci, ela deve estar puta comigo. Mas espere minha ligação amanhã que já tenho tudo em mente.
— Eu realmente não sei como agradecer, Rosaly. O almoço foi incrível e muito esclarecedor, muito obrigada por me ajudar.
— Eu digo o mesmo, Kent. Apenas não desista. E faça minha amiga feliz, ou eu te mato! — ambos riram. Clark desceu do carro pegando a sua bicicleta e agradecendo mais uma vez, ostentando um sorriso mais do que ofuscante demonstrando sua felicidade. Quando Ross estava de volta na estrada um sorriso bobo não conseguia largar o seu rosto. Estava convencida que Clark Kent era uma boa escolha como pretendente e iria ajudar esse possível romance com tudo de si.
Acreditava firmemente que aquele casal daria certo com fé em Deus, ou não se chamava Rosaly Campbell.
(Notas finais, babys!)
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