You Rock My World
8 VIII
Notas iniciais

De todas as batalhas que ele sempre soube que enfrentaria um dia, essa era a mais inusitada e complicada de todas: a batalha do coração. Depois da sua conturbada adolescência sem o seu pai, lutou consigo mesmo para se tornar um bom homem e para todos que o conheciam ele era um rapaz admirável, um homem correto de bom coração. Mas o que ele mais gostava em si mesmo era o seu carácter. Seu pai sempre o ensinou que carácter fazia parte do perfil de um homem honrado, e ele sempre tentava ouvir seu pai.
Ele ficaria envergonhado se o visse agora.
Que honra tinha num homem que mentia para sua própria parceira? Que fugia das suas obrigações? Ele não amava Lois, descobriu que nunca a amou da forma que pensara e já não conseguia mais fingir. Ela foi a primeira e única mulher que tecnicamente o aceitou do jeito que era e isso o fascinou, o deslumbrou. Tapou os olhos e ouvidos para o resto do mundo depois disso, não queria mais saber quem era, não queria mais ouvir aquela voz que o impulsionava a sempre procurar por 'algo' a mais, a silenciou.
Ele se acomodou.
E assim ficou por quatro anos; escondido no corpo da ruiva qual achou que ficaria pra sempre, trabalhando como um simples jornalista, compartilhando um simples apartamento no centro de Metrópolis. Até Zod ameaçar seu planeta. Mesmo que não quisesse ele precisava agir como um verdadeiro filho de El naquele momento, pessoas não poderiam morrer em troca do seu comodismo. Lois não queria que ele se revelasse, sabia que isso arruinaria seus planos. Ela queria casar, ter filhos e uma bela casa num bairro caro em Metrópolis, não um super herói qual estaria sempre se arriscando pelo mundo em prol dos outros e nunca teria tempo para si e seu sonho de construir uma família.
Ela não poderia estar mais certa.
Ele descobriu que não precisava fugir de quem ele era, as pessoas não precisariam teme-lo. E aquela rejeição que sempre pensou que viria, que Lois sempre o alertou que o arruinaria, não veio. Tem sim os milhões contra a sua existência, mas em compensação aos bilhões que o amavam isso não era nada. Ser Superman não era tão impossível como pensou que seria, sentia como se ele pudesse enfim ser ele mesmo, sentia que podia ser feliz com sua verdadeira face, como um filho de El. Ele se aceitou. E então Zod o apresentou a pessoa que viraria sua vida de cabeça pra baixo; sua prometida. Um tapete fora puxado dos seus pés no momento em que mergulhou naquelas ondas âmbar que eram seus olhos, e naquele mesmo momento ele soube que estava ferrado.
Procurou respostas no seu pai biológico, respostas essa que fez seus ossos tremerem. Aquela mulher o pertencia, era sua por direito, e por mais errado e egoísta que isso fosse ele não poderia deixar de gostar da situação, mesmo que posse fosse contra a sua natureza, contra os seus princípios. E então não conseguiu parar de pensar nela, o levando a sempre visitá-la em seu leito no hospital e velar o seu sono. Não demorou muito para descobrir estar apaixonado por aquela mulher. Particularmente nunca acreditou nessas coisas, achava ser impossível se apaixonar por alguém que não conhecia, uma tolice até. Mas olha onde estava agora. Seu peito queimava por um sentimento que nunca havia sentido antes. O quão errado isso era? De manhã ele alternava entre ser um repórter e um herói, a noite tentava sem sucesso ser um homem atencioso para Lois, mas só de madrugada o seu coração estava em paz… por causa dela. Sentia como se o peso do mundo estivesse em seus ombros e por incrível que pareça não se devia a sua vida dupla, era até fácil viver com isso, na verdade, mas sua vida pessoal estava um caos. Não queria ferir Lois, não queria decepcionar a sua mãe ou desonrar os ensinamentos do seu pai, não queria assustar a bela garota que de nada sabia, de nada tinha culpa sobre o seus destinos inevitáveis mas a cada dia que passava já não conseguia mais lidar com isso como se fosse um acaso do destino. Estava apaixonado, irremediavelmente apaixonado.
Não estava nos seus planos, seu pai garantira a si que isso não era efeito da sua prometida: atração sexual sim, querer cuidar do seu bem estar e protege-la sim, mas se apaixonar não. Seu pai Jor-El amava a sua mãe, sua prometida, mas isso veio com o tempo de convivência entre os dois, ele aprendeu a ama-la, respeita-la e admira-la acima dos seus instintos carnais conforme o tempo passasse, porque isso não poderia acontecer o mesmo consigo? Seus sentimentos pela moça só embaralhavam ainda mais a confusão em sua cabeça. E quando ele estava com o a cabeça cheia, coração pesado, cheio de conflitos internos, ele a procurava. E a sensação que tinha quando a via era de alívio, parecia que seu mundo estava enfim nos eixos, sentia paz. Tinha anos suficiente nas costas para distinguir seus sentimentos e não poderiam culpa-lo por isso, não poderiam culpa-lo por se apaixonar pela mulher que seria seu futuro, não poderiam culpa-lo por desejar muito além do seu corpo.
Por mil infernos, ele sentia a sua falta.
E agora estava ali, fugindo da sua vida. Estava no Kansas agora, na casa dos seus pais adotivos olhando as plantações de milho a sua frente tentando enxergar neles uma resposta para as suas angústias. Seu coração doía.
Ele sentia sua falta.
— Me lembro quando era criança — uma voz gentil veio as suas costas caminhando até si. A voz sempre afável de sua mãe era incomparável — Correndo entre as plantações com uma toalha vermelha nas costas fingindo ser um super herói com o cachorro latindo atrás. Seu pai ficava louco, vocês destruíam toda a nossa colheita.
Clark sorriu com a lembrança. Olhou para sua mãe ao seu lado com carinho pegando a garrafa de cerveja que a mesma lhe estendia.
— Eram bons tempos — disse depois de um gole — Sinto saudades daqui, mamãe.
— Sabe que pode voltar a hora que quiser, meu filho — ela lhe afagou um dos seus braços com carinho — Mas sei que não é saudades que o trouxe aqui às onze da noite de uma terça-feira. O que está acontecendo, Clark?
— Não é nada — desviou dos olhos dela para as estrelas no céu — Ainda não me adaptei totalmente a minha nova vida, só isso.
— Clark Joseph Kent, mentir para a mãe é um pecado terrível — disse com humor o fazendo abaixar a cabeça, riram juntos em seguida.
— Não sou muito bom nisso, não é?
— Ah, não se diminua tanto. Sempre fora ótimo em desviar de assuntos importantes — comentou ainda com humor — Mas por mais que não tenha vindo de dentro de mim eu sou a sua mãe, e sei quando meu filho está com problemas. O que há, querido?
Martha agora sustentava um olhar preocupado em si. Ele sentou-se na grama e ela fez o mesmo, entrelaçando seu braço com o do filho.
— É... muito complicado para explicar, mamãe. Quase impossível. Você não entenderia.
— Querido, estive com você em cada fase importante da sua infância até a adolescência, e lidar com essas duas fazes mais super poderes não foi fácil pra uma mortal — Clark riu sentindo sua mãe puxar seu rosto em direção a ela — E vou estar em cada fase que me permitir estar ate o meu último suspiro. Confie em mim, Clark.
— Eu confio a você minha vida, senhora kent — suspirou pesado — Mas não quero decepciona-la e sei que farei isso. Não tenho intenção de magoar ninguém, mãe.
— Tem a ver com Lois, não é? — ele não olhou para ela, confirmando suas suspeitas.
— Você a ama como uma filha — comentou com pesar.
— Mas é você o meu filho, e é do seu lado que estarei. Meu coração dói ao ver angústia em seus olhos, meu menino. Desabafe para mim, ao menos tente.
Clark suspirou cansado. Sabia que sua mãe não ficaria do seu lado quando soubesse de tudo, mas era a única pessoa com quem podia contar, sua única família na terra. Segurou as mãos dela as beijando, olhando em seus olhos.
— Estou apaixonado, mamãe — quase sussurrou.
Martha franziu o cenho confusa.
— E quem não sabe disso — comentou risonha — Estar apaixonado é o certo, não há nada de errado em gostar da própria…
— Não é por Lois! — a cortou rápido — Não é por Lois. Não sinto o que achei que sentia por ela, mamãe.
Martha o olhou surpresa torcendo para que aquilo fosse mais uma das brincadeiras idiotas do filho. Ao ver seriedade em seus olhos ela arrumou a sua postura o encarando com seriedade.
— Explique-se, Clark — pediu com um tom firme, nada parecido com a mulher humorada que estava a sua frente a poucos segundos.
— Não há muito a se explicar. Descobri não amar Lois, e conheci uma mulher no acidente — sorriu ao lembrar dela — E é por ela que estou apaixonado — simplificou não querendo dar grandes detalhes, achou que seria menos indolor dizer tudo daquela forma simples.
— Clark — segurou o rosto do filho — Você passou por muitas coisas de um mês para cá, é normal que esteja se sentindo confuso.
— Não estou confuso, mãe — tirou as mãos da mãe do seu rosto as segurando — Sabe que não tenho mais idade para isso. Estou apaixonado por ela, já disse. Perdidamente apaixonado. É sério, mãe. Nunca me senti assim por mais ninguém.
— Sabe também que não tem mais idade para paixonites, Clark Kent. Quem é ela? Qual o seu nome, sua idade, sua profissão, seus pais, sua vida? — Clark desviou os olhos — Por Deus, você nem a conhece! Isso é um absurdo, Clark. Está confuso, muito confuso.
— Mamãe, você não entende…
— Tem visto ela? Falado com ela?
— A vi pessoalmente quando esteve internada no hospital, ela estava no acidente também. Nunca soube que eu estava lá, ia sempre tarde da noite quando ela já dormia — não contou a noite que fora flagrado por ela — E sim, acho que temos conversado — respondeu incerto. Não sabia se podia chamar as discussões com sua prometida cabeça dura de conversa. Sorriu consigo mesmo, tinha percebido que ela era uma pessoa de personalidade difícil e por incrível que pareça as suas ignorâncias o faziam rir — Mas ela não sabe quem eu sou, acha que sou apenas um repórter querendo entrevistá-la.
— Então aproveite que essa loucura ainda não foi longe demais e esqueça essa mulher! — disse firme — Não fique achando meios para lhe trazer mais problemas. Agora você é a esperança do povo, filho. E tem a Lois é claro, vocês vão...
— Não posso mais continuar com Lois! — sua voz soou baixa, porém firme como uma ordem — Eu descobri que não a amo, mãe. Não posso fazer isso comigo e com ela. Eu não quero mais continuar com ela.
— Está querendo ir pelo caminho errado Clark, mas como sua mãe eu não posso permitir! A sua vida já está toda planejada, tudo como deveria estar e agora quer jogar tudo para o alto? Por uma mulher que você nem conhece? Querido, entenda que na posição em que está agora sempre vai ter umas e outras pra te jogar charme mas você não pode cair nessas armadilhas, essas mulheres não são nada além de distrações.
— Não fale assim dela! — se alterou levantando-se, sentindo os músculos do corpo tencionarem fazendo a garrafa entre seus dedos estourar com facilidade. Martha também se levantou recuando um passo — Ela não é esse tipo de mulher, não admito que a senhora fale assim da minha prometida!
— Prometida? — balbuciou assustada com a inesperada alteração do seu filho.
Clark respirou fundo tentando achar o controle dentro de si. Sua alma chorava por dentro ao perceber o quão estúpido fora com sua própria mãe, não queria ter gritado com ela e nem a assustado. Desfez os nós dos dedos da mão esquerda que ainda estava fechado em punho, vendo o que um dia fora uma garrafa de cerveja totalmente triturada, era agora farelos de vidro. Balançou a cabeça negativamente pensando nas consequências que teria uma pessoa que não fosse sua mãe insultar sua Alura, precisaria controlar aquilo o mais rápido possível.
— Vamos entrar, mamãe. Tenho uma história do meu povo pra te contar.
Estendeu a mão para ela que a pegou prontamente, sabia que seu filho não seria capaz de machuca-la. Apesar da raiva e confusão que borbulhava dentro de si com o inesperado comportamento do seu Clark ela ouviria atentamente, é isso o que as mães fazem.
(•••)
— Está me dizendo que essa garota nasceu pra você?
— Resumidamente, sim.
Martha parecia indignada a sua frente, seu rosto vermelho denunciava o quanto estava chateada.
— E ela sabe disso?
— Não, mamãe. Nem desconfia. Pra ela eu sou como todos me veem pelo mundo, só espero que seja a visão positiva da coisa.
— Não brinque numa hora dessas, Clark Kent! Tem noção do quanto isso é errado de diversas formas? Meu filho me escute, você não pode vê-la mais. Não é certo!
— Eu preciso, mãe! Não ouviu tudo o que eu disse? Ela é destinada a mim! Minha! Eu não posso fugir disso, eu não quero fugir.
— Não gosto do tom de posse em sua voz, Clark. Não criei meu filho pra ser esse tipo de homem — repreendeu severa.
— Eu sei — suspirou — Estou tentando controlar isso e várias outras coisas também. Não é fácil se tratando dela.
— Você não pode mais vê-la, Clark — repetiu — Sei que seus pais biológicos queriam o melhor pra você mas isso não é apenas sobre você, a moça merece viver a vida dela em paz. Você está com Lois agora, e assim deve ser. Tudo está como deveria estar, filho. Esqueça isso!
— Como pode pedir a mim que fique longe da única coisa que me faz bem? O nosso encontro é inevitável, mãe. Estamos destinados um ao outro, não há para onde fugir. Uma hora ou outra a gente iria se encontrar, a única diferença é que minha mãe biológica acelerou as coisas.
— Sua mãe biológica não é desse planeta, ela não tem o direito de sair por aí mudando a vida terráquea alheia em favor da raça dela. Não seja egoísta igual a eles! — Clark a repreendeu com o olhar — Eu sei que é a sua mãe biológica, sei que ela entende mais das suas necessidades como um Kryptoniano do que eu, mas você foi criado na terra Clark. Não fazemos as coisas assim por aqui.
— Quer realmente que eu a esqueça — concluiu revoltado.
— É o certo, Clark.
— Mas e os meus sentimentos? Eles não são importantes? Não quer me ver feliz?
— Como se sentirá feliz buscando a felicidade no caminho errado? Voce está confuso, filho. Não importa o que seus outros pais disseram, esse não é o caminho certo, pode viver sem essa mulher. Pare pra pensar melhor e verá que estou certa. Esse sentimento foi implantado, não é real, não é, Clark. Você não...
— Eu te amo mãe, mas não admito que me desrespeite diminuindo os meus sentimentos! — a cortou caminhando até si, olhando no fundo dos seus olhos — Não há amor instantâneo para o que nós dois fomos destinados, é algo que talvez se desenvolva apenas com o tempo, mas eu sinto. Morando aqui dentro — apontou para o próprio peito — Tão forte e pulsante como deve ser, tão bonito e puro que me liberta apenas em estar na sua presença. Estou apaixonado por aquela mulher, mãe. Não a conheço bem, eu sei, mas me apaixonei pela sua Áurea. Pelo seu cheiro, a textura da sua pele, o som da batida do seu coração, pela forma como respira, por cada perfeição e imperfeição que meus olhos alcançaram, pela jeito petulante que ela tem. Eu estou apaixonado. Não diminua meus sentimentos, eu sei o que pulsa aqui dentro.
Martha ficou embascada por longos minutos. Olhava para o rosto do seu filho procurando uma fresta, uma brecha de insegurança, apenas uma. Mas não achou nada. Como toda mãe ela sabia ler a sua criança e a sua frente via um homem determinado. Sabia que deveria escuta-lo, sabia que os sentimentos dos seus filhos eram reais, mas não podia aceitá-los. Não criou um homem que não honrasse seus compromissos, e pensando nisso decidiu lembrá-lo de um.
— Você está noivo, Clark.
Clark se abalou verdadeiramente com a realidade que sua mãe lhe jogou nas costas de forma tão fria e cortante, realidade essa que já tinha se esquecido completamente. Sentou no sofá com as mãos no rosto sentindo o peso da culpa sobre si, o peso da aliança já esquecida em seu bolso. Inevitavelmente lembrou-se também do dia em que pedira Lois em casamento a sete meses atrás. Mesmo com aquela voz interna lhe dizendo que não era o certo ele o fez, achou que estava na hora, achou que a amava. Lois ficou tão feliz! Mas como não estaria? Ela praticamente o empurrava a todas as joalheria da cidade para ver alianças antes mesmo que ele cogitasse a ideia, sempre deixou claro para ele que ela queria formar uma família.
Noivo.
A palavra se repetiu na sua cabeça tantas vezes que sentiu tontura, um gosto amargo e corrosivo lhe subindo a garganta.
— Ah, querido…
Sua mãe se sentou ao seu lado afagando seus ombros, Clark parecia arrasado. Na cabeça dele imaginou Lois de noiva entrando na igreja, grávida de filhos seus, o chamando de marido, fazendo amor consigo. Porque a ideia lhe parecia agora tão repugnante? Tão errado como o próprio pecado? Inevitavelmente comparou sua Alura com Lois, encaixou-a nas suas fantasias o rosto da sua prometida, e então, como sempre, o seu mundo entrou nos eixos de uma forma tão arrebatadora que lavou a sua alma de todas aquelas sombras que o atormentava. Ele jamais seria capaz de entrar numa igreja com Lois, lhe dar filhos. Não a ela. Clark estava decidido.
— Você tem razão, mamãe. Eu não a conheço...
— Querido, que bom que…
— E eu tenho que mudar isso o mais rápido possível — finalizou deixando sua mãe de boca aberta.
Se levantou caminhando até a saída de casa com sua mãe o chamando atrás de si. Não voltaria atrás, não viveria mais uma vida que não lhe pertencia. Não era apenas Clark Kent, ele era Kal-El, filho de Jor-El e Lara, esperança dos terráqueos e o futuro homem daquela que chamaria de sua. Ele não desistiria mais disso.
— Clark, o que diabos vai fazer?
— Me perdoe, mamãe — se virou para ela a abraçando e beijando sua testa — Eu não posso e não quero mais fugir disso.
— Clark, pense bem. Isso é uma tolice!
— Eu estou apaixonado, não posso mudar isso. E você tem razão, sentir paixão na minha idade não é o certo, o certo é ama-la como minha futura mulher. E pra isso eu tenho que conhecê-la pessoalmente.
— E Lois? Porque não pensa nela também? Ela não tem culpa das suas incertezas, Clark! — gritou consigo
Sua mãe parecia furiosa e em seus olhos ele viu o que tanto não queria ver: decepção.
— Eu não a amo, vejo agora que nunca a amei. Eu estava fugindo de mim mesmo, mãe — explicou mais uma vez, calmo — É injusto viver do lado de quem não amamos. Eu estou a polpando também, não vê? Preciso ir, mãe. Fique bem — se virou dando alguns passos em direção as plantações.
— O seu pai ficaria desapontado — Clark parou no meio do caminho sentindo o quanto as palavras o afetaram. Mas não voltaria atrás, era o seu futuro.
— Eu sei.
E num impulso o seu corpo saiu do chão numa velocidade absurda, ganhando os céus, deixando uma mãe decepcionada e preocupada para trás.
(•••)
Ele tinha que parar com essa mania e tinha ciência disso. Se a sua ousada e nada gentil prometida descobrisse que ele tinha o péssimo hábito de velar o seu sono ela ficaria furiosa, e se tinha uma coisa que aprendeu com Alura Murray Chelsea é que não deveria cutucar a onça com vara curta. Ele estava em seu quarto agora, achou mais seguro entrar pois não estava trajado com suas roupas de Superman e alguém poderia vê-lo flutuar por aí. Não queria ter feito isso, invadir a privacidade da sua Alura não fazia parte dos seus planos pois não queria tornar as coisas piores como passar uma má imagem de si para ela, não queria parecer um maníaco perseguidor. Mas a noite estava quente e as portas da pequena varanda do seu quarto estavam abertas e dela exalava o seu cheiro, tão forte e embriagante que quanto deu por si já estava lá dentro com os olhos fixos na cama onde repousava sua pequena mulher.
Suas pupilas dilataram. Não tinha sido uma boa idéia.
Alura estava deitada de bruços sobre a cama abraçando um travesseiro, seu rosto coberto pela cortina de cabelos negros. Vestia nada mais que um minúsculo short soltinho e uma blusa regata preta, a posição qual estava deixava sua bunda deliciosamente arrebitada contribuindo rapidamente para uma ereção que se formava nas suas calças. Sentia que a sorte não estava ao seu lado quando seu membro despertou apenas por inalar o cheiro daquela morena. Rogou para todos os santos terráqueos por autocontrole, sentia seus instintos Kryptonianos cada vez mais aguçados: Sua respiração, seu olfato, seu tato, sua visão, seu paladar. Tudo passou a clamar por Alura em questão de segundos, chamava seu nome numa prece silenciosa implorando por seus toques, implorando por aquele corpo debaixo do seu gemendo seu nome enquanto ele marcava seu pescoço com suas mordidas e lambidas.
— Por Deus, o que está fazendo comigo — sussurrou sôfrego tentando desviar o olhar daquela mulher. Não era certo cobiçá-la dessa forma, ela não era apenas um pedaço de carne, não deveria ter invadido sua privacidade. Mas como ficar longe? Como não a desejá-la quando sabia que ela pertencia a si? Que ela iria sentir o mesmo na sua presença? Só de imaginá-la suando de vontade dele tanto quando ele estava por ela agora fazia uma fera dentro de si ronronar em agrado.
Clark respirou fundo uma, duas, mil vezes. Não funcionou, o lugar estava coberto pelo seu cheiro. Fechou os olhos forçando seu corpo a lhe virar as costas, estava a um fio de fazer uma besteira qual se arrependeria e não queria ser flagrado novamente, ainda mais com aquela ereção enfeitando sua calça. Deu três passos pesados em direção a varanda pensando e repensando nas suas ações, tentando desviar o foco daquela deusa em forma de mulher deitada naquela cama quando ele a ouviu chamar por ele.
— Kal...— ela sussurrou tão baixo e abafado que por um momento achou estar enlouquecendo pelo desejo que estava sentindo — Kal-El...
Ele praguejou fechando as mãos em punho tentando se controlar. De todas os momentos que ela poderia chamá-lo aquele definitivamente não era um bom, não quando uma parte de si estava consideravelmente desperto e pronto para fazê-la dele.
Ele poderia simplesmente ignorá-la e ir embora, era o certo, mas quem disse que seu corpo o obedecia? Ao contrário do que deveria fazer ele deu meia volta novamente indo em sua direção, sua respiração ficando ofegante a cada passo que dava. Aos pés da cama sentiu um suor sôfrego escorrer pela sua coluna, seu cheiro mais forte do que nunca, seu corpo tão perto mas ao mesmo tempo tão longe. Então aquilo era o efeito de estar perto da sua prometida? Aquele prazer louco que o fazia ter vontade de se enterrar dentro de si até seus olhos revirarem e seu corpo desfalecer entre seus braços? Era um desejo alucinante, sentia como se não fizesse sexo a séculos, sentia como se estivesse na presença da própria Afrodite.
Sua Afrodite.
Pensava o quão tolo devia estar parecendo agora. Suado, ofegante, uma ereção brincando entre suas pernas gritando pelo interior da sua pequena. Respirou fundo tentando achar sua sanidade, ele não podia seguir por esses pensamentos. Não estava ali pra isso.
— Kal...Tenho medo...
Clark sentiu vontade de gargalhar repentinamente. Era um estúpido, estava de quatro por aquela mulher, perdidamente apaixonado e não poderia se sentir mais feliz. Ignorando as reações do seu corpo ele se aproximou levando suas mãos para seus cabelos fartos e macios, um cheiro maravilhoso exalava deles. Afastou-os levemente podendo ver com clareza aquele rosto esculpido por anjos, as sobrancelhas franzidas como se estivesse num pesadelo. Clark debruçou sobre seu rosto chegando perigosamente perto sentindo suas estruturas tremerem.
— Estou aqui, minha Lua — sussurrou baixinho afagando levemente os cabelos da mesma — Nada a fará mal enquanto eu viver. Eu prometo.
Suas palavras tiveram efeito imediato na moça que instantaneamente relaxou o corpo respirando com suavidade em seguida. Clark sorriu maravilhado com o que seus olhos viam, se empenhando em gravar cada pedaço daquelas feições angelicais que tanto contradiziam com a personalidade da sua dona. Ele sentiu uma batida diferente em seu coração, um sentimento mais tenro e puro. Fora derrotado por aquela paixão, sabia disso. E não permitiria que nada nem ninguém atrapalhasse seus planos de conquistá-la.
— Tente ser gentil comigo amanhã, querida. Irei ao seu encontro. — voltou a sussurrar ainda fazendo carinho nos seus cabelos.
Ir embora fora mais difícil do que pensou que seria, não por causa da sua ereção latente que gritava por aquele corpo, mas sim por seu coração que não queria se afastar. No final das contas ele ficara até os primeiros raios do dia entrar em Metrópolis. Tentou não a cobiçar mais e nem a invadir a sua bolha pessoal, passou a noite numa poltrona que tinha longe da cama a velando. Sabia que não acordaria cedo pois a mesma ainda tomava os fortes soníferos, então não viu problemas alisar o seu rosto e beijar sua fronte em despedida quando se foi. Voando de volta para casa não pôde deixar de pensar no quanto estava errado naquela história, ele realmente sentia muito quando seus impulsos falavam mais que a razão e acabava invadido seu espaço, sua vida. Mas se consolava pensando que lutaria para que em breve aquilo não fosse mais um problema.
Em breve ele não precisaria mais se esconder para vê-la.
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