You Rock My World
9 IX
Notas iniciais

Clark sempre fora um homem controlado. Tendo ciência que era um filho de Krypton, infinitas vezes mais forte que um homem terráqueo jamais poderia ser, sempre tentou manter o controle das suas emoções, principalmente negativas. Apesar da sua fase rebelde na adolescência, agora, com trinta e três anos de vida, ele podia contar nos dedos quantas vezes teve alguma explosão de raiva e o número diminuía ainda mais se levar em conta quantas vezes seus poderes o impulsionaram a fazer um ato impensado, quase nulo. Sempre fora um homem paciente também. Ciente de que seus anos se arrastavam com uma sôfrega lentidão comparado a vida terráquea, procurava sempre ser o mais sereno possível, tanto com aqueles que o rodeavam tanto quanto sua vida pessoal, sabia que as coisas aconteceriam nos momentos certos.
Então porque aquilo não entrava na sua cabeça agora?
Ah, sim, ele se lembrou o porquê, ou por quem, na verdade: Alura Murray Chelsea.
Depois do dia em que passou a madrugada velando o seu sono ele prometeu a si mesmo que acabaria com aquela distância no dia seguinte, não suportava mais ver a sua prometida apenas quando a mesma dormia e ouvir a voz dela apenas por telefone estava se tornando um martírio. A visita que fizera a sua pequena e a esperança de poder conversar com ela sem todas aqueles dúvidas e culpas o corroendo havia influenciado tanto o seu corpo que agora ele estava naquela irremediável situação com Lois. Não conseguiu olhar nos olhos da ruiva ao chegar em casa ao raiar do dia depois daquele e não era a primeira vez que deixava sua noiva dormir sozinha para visitar sua prometida, e por mais errado que fosse o sentimento de traição não vinha por Lois… mas por ela. Sabia que estava arriscando alto demais, sabia que estava fazendo tudo errado, magoando pessoas, mas não viveria mais um segundo naquela situação esmagadora.
Como um homem de palavra e um homem apaixonado ele pretendia cumprir a sua promessa interna de vê-la pessoalmente o mais rápido possível, mas infelizmente isso não aconteceu. O porquê? Martha Kent e Lois Lane estavam o enlouquecendo. Sua mãe havia ligado para Lois naquele mesmo dia em que pretendia anular a distância entre ele e sua prometida e seja lá o que a senhora Kent havia dito deixou Lois completamente fora dos eixos. Martha não havia contado o segredo que ele confiou a ela, sabia que não, mas como toda mulher ela tinha o dom de manipular mensagens escondidas nas entrelinhas e como Lois nunca deixou a desejar no quesito raciocínio rápido ela captou o que tinha certeza que sua mãe lhe disse: Clark não quer mais se casar. Seria muito dramático se dissesse que sua vida virou um rebuliço depois disso?
Ela não saiu da sua cola desde então. O seguindo dentro e fora do trabalho, ligando várias vezes ao dia sem necessidade aparente, abraços demorados, beijos excessivos e um súbito interesse nos seus atos heroicos recheavam seus dias e o tornavam deveras maçante, e com tudo isso acontecendo ele não teve tempo para sua menina de nariz arrebitado e língua afiada e isso era o suficiente para levá-lo a beira do precipício da paciência. Seu corpo estava tenso, seu humor não era o dos melhores, sua cabeça doía como um inferno e, por Deus, ele só queria que Lois calasse a maldita boca sobre o casamento. Seis dias depois ele percebeu estar fazendo tudo errado, mais ainda do que já estava: ele estava vivendo uma maldita vida dupla. Saber disso o atingiu como uma bomba pois ele não era esse tipo de homem, e por mais que não amasse mais Lois ele não poderia fazer isso com ela, nem com mulher nenhuma, dirás a sua prometida. Como pretendia conquista-la se sua vida estava presa a outra mulher?
E foi pensando nisso que eles estavam ali agora, naquele mesmo restaurante que ele a pediu em namoro e anos mais tarde em casamento.
Olhando para ela a sua frente ele viu uma vida passar aos seus olhos, uma vida com momentos ruins mas cheios de momentos felizes e pacíficos também. Internamente, abaixo de toda aquela camada irritada que repentinamente o cobria, se perguntou se era um monstro, um maldito cafajeste bastardo. Porque apesar de lamentar as lágrimas que traria para aqueles olhos que antes iluminava o seu dia ele não conseguia sentir remorso do que estava pra fazer.
Lois era uma mulher forte regida por inúmeras qualidades. Civilizada, inteligente, educada, perspicaz e muito astuta faziam parte do seu currículo pessoal. Sempre admirou aquelas qualidades na ruiva, sempre gostou de mulheres com personalidade, sentia-se encantado toda vez que a olhava e houve um tempo em que não se imaginava sem aquela mulher, estava disposto a ter uma vida ao seu lado.
E aquele encanto vendou seus olhos para os seus defeitos.
Nesse mês que se passou depois do acidente ele presenciou uma versão da mulher ao seu lado que não conhecia, uma mulher prepotente, controladora, egoísta, desumilde, egocêntrica e deveras arrogante. E nessa semana que passou sem ter nenhum contato com sua prometida a visão que ele tinha de si piorou conforme os dias se arrastavam, viver ao lado de Lois era estar em completa submissão para que só assim tudo ficasse bem entre eles. Se perguntava se aqueles defeitos sempre estiveram lá. Todo mundo tinha defeitos, ele sabia disso e era capaz de aceita-los sem grandes problemas, afinal é isso que nos torna humanos certo? Então porque a sua presença havia se tornado tão incomoda? Sabia que não era pelo fato de não ama-la mais, não era por estar apaixonado por outra: era ela, ela toda. Estava ali a dez minutos tentando manter um diálogo direto e civilizado com sua futura ex noiva, queria concertar as coisas o mais rápido possível, não suportaria mais sentir aquele peso de infidelidade e sufoco dentro do peito, mas a sua voz, antes tão doce e encantadora aos seus ouvidos, não parava de tagarelar a sua frente e seus tímpanos protestava contra aquele som enjoativo e irritante.
Seu corpo ultimamente estava agindo estranho na presença de outras mulheres também, de uma forma tão ruim que o fez ser afastado do trabalho por dois dias depois de rudemente dispensar uma jornalista que a tempos dava em cima dele mesmo sabendo que estava comprometido com Lois. A mulher saiu chorando. Nunca havia feito uma mulher chorar antes, senão sua mãe com suas babaquices na época da adolescência. Um peso fora do comum cobria seu peito ao perceber o que havia feito com a moça, mas uma parte de si, tão egoísta quanto sua própria noiva, não queria sentir remorso por ter se zangado com a mulher oferecida, apenas uma mulher o interessava e era ela e somente ela que deveria se jogar em seu colo, e por mil diabos, ela estava tão longe!
As mulheres o consideravam um homem atraente, humildemente ele sabia que poderia até estar em cima da média, mas eram tempos sombrios pra quem se atrevia a lhe jogar algum charme levando em consideração que seu estresse não o permitia ao menos ser educado, e com um sorriso no rosto ele pensava que estava pegando o mau humor da sua amável (não tão amável assim) Lua. Os perfumes haviam se tornado doces demais, as vozes finas ou grossas demais, os falatórios repetitivos demais. Como Clark Kent ele se martirizada pelo sentimento negativo em seu peito, ainda mais voltado para pessoas que de nada tinham culpa das suas crises românticas, mas como Kal-El a sua consciência sabia que aquelas mulheres eram irritantes aos seus olhos porque nenhuma delas era Alura, sua defeituosa porém perfeita Alura. E por isso não conseguia sentir muito remorso por estar sendo um babaca.
Lois era esperta suficiente para perceber que algo acontecia entre eles, e era esperta (ou covarde) o suficiente para não interroga-lo, mas depois da maldita ligação da sua mãe as investidas sexuais estavam cada vez mais insistentes, suas roupas cada dia mais curtas, seus perfumes cada dia mais doces e sua voz cada dia mais melosa. Ele não suportava mais aquela situação, não viveria nem mais um segundo naquela vida dupla e foi pensando nisso que a trouxe para aquele caro restaurante. E agora estava ali a sua frente impossibilitado de falar, sendo interrompido a cada tentativa. Ela estava nervosa, sabia disso pela batida do seu coração e o leve piscar frenético, um tique incontrolável quando entrava em situações extremas. Vestia um vestido negro curto colado ao corpo, maquiagem pesada, cabelos ondulados soltos, brincos grandes de ouro que ele mesmo lhe dera a um tempo. Estava perfeitamente linda como ela sempre fora, mas não o atraía nem um pouco. Uma parte negra sua só conseguia pensar em enumerar defeitos que via, defeitos que lhe davam dor de cabeça, defeitos que antes não estavam lá. Sua cabeça mesclava entre irritação, confusão e impaciência. Aquele comportamento não era normal, precisava ver seu pai com urgência para lhe fazer mais perguntas sobre os efeitos do laço entre ele e sua prometida, os efeitos que isso teria em seu corpo.
Um estalo na sua cabeça soou quando se deu conta de ter estado submerso em pensamentos por tempo demais e se odiou por isso. E se ela tivesse falado consigo e ele sem querer tivesse a ignorando? Já estava com a imagem manchada demais, não queria sair como um idiota insensível, mais do que já iria ser considerado depois daquela noite. Focou sua atenção completa na ruiva novamente e percebeu que os quarenta minutos que estavam ali foram gastos com Lois falando desde o momento em que entraram até nesse instante, e internamente uma veia de maldade latejou na sua cabeça.
Porque diabos Lois não calava a boca?
— A igreja tem que estar repleta de flores! Quero peônias, orquídeas, lírios e tulipas, vi numa revista sobre casamentos clássicos e os arranjos com elas são maravilhosas! Estive pensando em petúnias também, sabe? Várias delas! Desde a entrada até o altar, quero vê-las em todos os lados. Você deve vestir um Black Tie porque quero tudo bem tradicional como o casamento dos meus pais. As damas de honra e as convidadas tem de estar bem apresentáveis para aparecer no nosso Book de casamento, mas elas não podem vestir vestidos muito chamativos porque quero que as melhores fotos sejam minhas, vou por essa exigência nos convites. Quero também…
— Lois — sua voz saiu mais rude do que pretendia o surpreendendo, tanto por ter falado inconscientemente tanto por usar aquele tom — Precisamos conversar.
— Já estamos conversando, querido — ela sorriu amarelo e o ignorou desviando os olhos de si — Continuando. Devemos passar a lua de mel na Europa por quinze dias, sempre quis conhecer Paris. Não podemos nos exaltar demais, quero engravidar daqui a dois anos exatamente, tempo o suficiente para curtimos um ao outro e organizarmos nossas vidas. Papai e mamãe também gostarão de um tempo até serem avós…
— Lois — recomeçou usando um tom mais firme olhando dentro dos seus olhos, se certificando que ela não os desviaria — Precisamos conversar e não é sobre o casamento — 'Que não vai acontecer' completou mentalmente — E você sabe disso.
— A única coisa que eu sei é que você tomou muito vinho, Clark. Não deveríamos falar sobre nós agora.
— Sabe muito bem que duas taças de álcool não tem efeito sobre mim como teria em outro homem! — esbravejou contra seu cinismo sentindo sua invejável paciência querendo lhe dar Bye Bye restaurante afora. Suspirou audivelmente passando as mãos no cabelo, precisava urgentemente se controlar — Não podemos mais ignorar o que está acontecendo entre a gente, ou o que não está. Precisamos realmente ter essa conversa e tem de ser agora.
Lois a sua frente piscou três vezes rapidamente, sorrindo com uma meiguice que não combinava consigo.
— O que quer que eu dizer com isso, querido? Nós estamos perfeitamente bem.
— Fingir demência nunca foi sua especialidade, Lois. Não faça isso — ela arregalou os olhos levemente — Sabe perfeitamente que não estamos bem e creio que não ficaremos por tão cedo.
— Clark, eu não estou entendendo. Não vejo nenhum conflito entre a gente.
— Lois… — seu tom saiu em alerta. Nunca usou esse tom com ela antes mas sua paciência não era uma amiga fiel naquele momento e não queria testar seu limite.
— Certo, eu admito que estamos meio afastados esses dias — disse lentamente olhando a taça a sua frente, ele sabia que a culpa era dele e ela queria dizer isso — Eu entendo que você tem trabalhado demais e tem essa coisa de salvar gente por aí e talvez isso esteja causando conflito entre a nós. Mas eu tenho certeza que daqui a um mês quando nos casarmos tudo ficará bem!
— Acho que o problema é bem maior do que-Espera aí. Como assim nos casarmos daqui a um mês? Está marcado pra ano que vem.
— Eu mudei a data semana passada. Não há pra que esperar, amor — ela sorriu novamente.
— Não pode tomar uma decisão dessas sozinha, Lois. Deveria ter perguntado qual era minha opinião sobre isso — alterou-se.
— Mas eu te disse!
— Quando?
— Quando chegamos aqui, oras. Está com uma memória péssima, querido — ela riu nervosamente. Abaixo da mesa as mãos dele se contraíram em punhos sentindo o sangue pulsar entre os dedos.
— Não pode tomar uma decisão dessas sozinha, Lois — repetiu mais firme — Deveria ter me informado muito antes!
— Eu já marquei com o pastor, Clark. Está tudo pronto. Além do mais eu achei que esperar até o ano que vem era muito tempo, não há necessidade de adiar o dia mais importante das nossas vidas.
Ele respirou fundo sentindo suas têmporas latejar. Estava agindo como uma criança irritada, como um homem que era ele deveria contornar aquela situação, mas devido aos últimos acontecimentos o seu corpo gritava tensão. Pediu aos céus um pouco mais de controle ou ele não saberia lidar com a ruiva.
— Minha mãe quem planejou isso, não foi? Ela sabe? — Lois fugiu o olhar por breves segundos antes de fixar em seu rosto novamente.
— Claro que sabe. Não seja bobo, ela é minha sogra, planejamos isso juntas. Na verdade todos já sabem, informei aos nossos amigos mais próximos e papai e mamãe estão felizes que não queremos esperar mais! — ela sorriu radiante, tão falsa que Clark teve que tomar mais um gole de vinho pra se acalmar, logo ele que nunca foi fã de bebidas.
— O que mais você já planejou pela as minhas costas?
— T-Tudo — sussurrou, levemente temerosa pelo olhar sombrio que seu noivo carregava a sua frente — Absolutamente tudo. Poderemos nos casar amanhã mesmo se quiser, só precisamos falar com o pastor — riu com gosto tentando amenizar a tensão, o som se perdendo gradativamente ao ver Clark com o maxilar trincado a sua frente.
Ele não queria ser rude. Durante a semana havia feito um pequeno discurso mental para lidar com aquela situação sem magoa-la mais do que iria, mas perante a situação ele viu o Clark Kent bom moço dar adeus a sua educação e sensibilidade dando lugar a Kal-El, filho de Jor-El, filho de Krypton. Tão educado como deveria ser, mas com a seriedade e orgulho que só um El teria.
— Então desmarque com o pastor e recolha os convites porque não haverá casamento.
Declarou impiedoso, tão frio quanto sua própria nave escondida nas geleiras. Ele presenciou a sua frente Lois aderir várias facetas: confusão, incredulidade, amargura e por fim a mágoa. Ela empalideceu, seu corpo tremeu levemente, seu olhar sempre desafiante tremulou, um sorriso nervoso apareceu em seus lábios tornando a aparência em si todo um completo desastre. Internamente o velho Clark gritou consigo mesmo. Não queria ter lançado aquilo na sua cara com tanta insensibilidade, com tanta desconsideração que o próprio tom o assustou. Apesar de tudo não pretendia magoa-la mais do que já iria, toda a conversa pacífica e civilizada que ele tinha na cabeça não incluía egoísmo e impaciência. Fora um idiota, um completo idiota. E não tinha como voltar atrás.
— O que… que… quer dizer? — perguntou trêmula, as palavras arrastando para sair numa lentidão agoniante.
— Eu… — exitou. Respirou fundo tentando controlar o estresse, tentando não ser um imbecil insensível e olhou para seus olhos com seriedade -Me perdoe eu não pretendia falar desse jeito tão rude, não quero magoa-la mais ainda, Lois. Mas já que não há como voltar atrás a gente deve falar sobre isso agora. Eu não posso mais fazer isso, não quero mais me casar com você.
— Cl-Clark… Eu sei que você está bastante atarefado com a sua vida. A gente pode adiar pro mês que vem mesmo, não tem problemas.
— O problema não é o meu trabalho e muito menos minha vida como Superman, o problema… — exitou sabendo que as próximas palavras seriam patéticas e um tanto quanto clichê, mas nada se encaixava melhor na situação — Sou eu. O problema sou eu, Lois. Eu não quero mais, apenas isso.
Lois parou no tempo outra vez o olhando incrédula, o rosto sem nenhuma expressão. Cinco minutos depois sua expressão se transformou para uma raivosa, explodindo em seguida.
— Ah, faça-me o favor, Clark! Não me venha com "O problema sou eu" porque não tenho mais quinze anos — seus olhos se tornaram duros repentinamente — Apenas isso? Fácil assim? O que acha que eu sou, uma idiota? Eu tenho cara de idiota?
— Lois…
— Calado! Claro que tem a ver com essa vidinha de Super que você decidiu seguir, desde aquela luta com aquele ser estranho você vem agido de forma diferente!
— Zod por pior que fosse era meu semelhante, eu sou estranho pra você? E não fale como se o que eu faço pelas pessoas fosse algo medíocre! Há gente que precisa de ajuda, Lois. Eu achei que você entendia perfeitamente bem sendo que sempre foi a primeira a me apoiar em relação aos meus poderes!
— Eu nunca achei que você realmente viria a se revelar! Tá legal que lutar contra seu semelhante fosse necessário, mas não achei que depois disso você veria mais prazer em salvar miseráveis do que em mim!
Clark a olhou perplexo não reconhecendo a mulher a sua frente. Pela visão periférica ele viu as outras pessoas no estabelecimento e certificou-se de não falar tão alto.
— Não achei que fosse estupidamente egoísta... Pra que eu quero os meus dons senão para ajudar? De que eles me servem se não posso salvar o povo que meu acolheu, o meu povo?
— Pro inferno eles! Onde eu fico nessa história? Agora que seu ego de Superman foi acariciado, onde eu entro? E os meus sonhos, Clark? E eu?
— Ego de Superman? Acha que eu faço o que faço para ter o ego acariciado? Eu não sou você, Lane!
— Olhe como fala comigo, Clark!
— Ou o que? Vai gritar comigo? Como sempre faz quando te contrariam? Cansei disso.
— Chega! — ela bateu audivelmente na mesa fazendo os pratos e talheres sacolejarem atraindo os olharem para si, seu rosto vermelho igual brasa, sua respiração irregular. Lois se levantou trêmula e apontou o dedo para Clark — Nós vamos nos casar amanhã mesmo e eu não quero mais falar sobre esse assunto, entendeu? Vamos esquecer o que aconteceu aqui.
— Eu não sou seu filho e minha resposta é não. Não! — Clark também se levantou fazendo sinal para o garçom que prontamente veio até si, pedindo a conta — Não há mais volta, Lois. Tanto para o que disse tanto pro nosso falido casamento. Isso acaba hoje.
Ele assinou a conta deixando algumas cédulas para o garçom, retirou a aliança do dedo e pôs em cima da mesa.
— Eu te deixo em casa — se virou e saiu.
Lois demorou longos dez minutos para digerir o que tinha acabado de acontecer. Olhou ao redor vendo as outras pessoas a olharem com pena e odiou aquele sentimento de abandono, odiou a todos. Pegou a aliança masculina em cima da mesa e saiu a passos rápidos do estabelecimento. Ao chegar no estacionamento viu o homem que um dia seria seu marido ao lado do carro a olhando com olhos frios como aquela noite. Caminhou até si furiosa.
— Quem é a vagabunda? — gritou.
— Como?
— A vagabunda que você está fodendo! Quem é?
— Não estou transando com outra mulher, Lois. Não seja infantil!
— É claro que está! Sai tarde da noite é só volta perto do amanhecer, inúmeras ligações para um número desconhecido, sorrisos idiotas sem motivos pelos cantos. Acha que eu sou imbecil? É claro que está comendo outra! Uma puta sem classe que abre as pernas pra um homem casado! Eu não passei toda a merda que tive que passar do seu lado durante esses anos pra te entregar pra uma vadiazinha assim tão facilmente!
Clark sentiu uma raiva crescendo em seu peito, uma raiva que nunca sentiu, uma que começava do pé da cabeça e ardia os dedos das mãos. Alura, sua Lua, não era nada disso que Lois ferinamente dizia, tinha ciência disso, mas não podia evitar o sentimento negativo que corroía sua alma. Ele não queria fazê-la se arrepender do que disse.
— Controle a sua língua, Lois — murmurou raivoso, sua voz soando mais grossa — Eu não estou com muita paciência hoje, não me teste!
— Então eu estou certa, como sempre. Tem sim uma putinha oferecida, é claro que tem. Você sempre teve um tesão que nunca achei em outros homens e de uma hora para outra não quer mais transar comigo? Eu sabia que iam dar em cima de você com essa sua exposição mas não pensaria que o ingenuozinho do Kansas me passaria para trás.
Clark cerrou os dentes com força. Olhou atentamente no rosto daquela mulher procurando a Lois que um dia amou e não achou nada, absolutamente nada.
— Mas eu estou disposta a te perdoar. Dispense essa rameira de quinta e volte pra casa, Clark. Sabe que é o certo, sabe que é o que sua mãe quer e o que seu pai iria querer — disse ácida — Deixamos pra nos casar semana que vem, então. Verá daqui a uns anos que se casar comigo foi a melhor decisão da sua vida.
E ela sorriu, sorriu como se tivesse ganhado aquela batalha. Clark quase não acreditou nas suas palavras mas quando a viu andar até si teve certeza que não estava num pesadelo.
— Agora vamos pra casa, querido — ela passou as mãos de unhas vermelhas pelo seu peitoral, o abraçando e distribuindo beijos no seu pescoço — Sexo selvagem sempre o fez pensar melhor.
— Não — ele a afastou com brusquidão — Não iremos pra casa, Lois. Você vai. Fique com tudo, o apartamento, os móveis e até mesmo o carro, eu só quero minhas roupas. Irei embora hoje mesmo.
— C-Clark!
— Ligue para todos que você anunciou o casamento e o anule, farei o mesmo com o pastor. A partir de hoje nós não temos mais nada, Lois. Nada. Não quero mais ser perturbado por isso.
— Não quer… Não quer mais ser perturbado? Há menos de dois meses atrás éramos um casal apaixonado e agora você me diz que não quer que eu o perturbe mais? — ela soluçou, se rompendo em lágrima em seguida pela primeira vez na noite. Clark sentiu uma guinada no coração, não a amava mas não queria fazê-la sofrer apesar de tudo — Eu não posso aceitar isso, Clark. Não posso! Passamos por tantas coisas juntos, tantas coisas... Nós podemos recomeçar!
— Lois... — usou um tom mais ameno — Você é linda, inteligente e verá que é a melhor decisão para nós. Um dia irá encontrar alguém que a ame como merece, mas esse alguém não sou eu. Sei que estou a magoando, sei que foi muito repentino mas eu não posso mais. É injusto com nós dois.
— Você me ama! Eu sei que ama, sei que sim!
— Não, eu não amo. Achei que amava mas estava enganado, aquilo não era amor era carência, comodismo, carinho, paixão, mas não amor — olhou para os olhos dela com seriedade — Espero que um dia consiga entender.
— E quem você ama, então? A putinha que você está fodendo? — riu entre lágrimas e soluços. Clark sentiu a repentina paciência dentro de si se esvair.
— Lois, você não quer ir por esse caminho.
— Eu vou acha-la, Clark. Vou descobrir onde ela mora, o número do seu telefone e darei uma surra nela, uma baita surra — riu amarga — Uma surra tão grande que ela vai ter que usar…
Clark a segurou pelos braços com força a olhando com ira, no fundo dos seus olhos uma pequena luz vermelha começava a nascer.
— Não tocará em um fio de cabelo dela, Lane. E sabe o porquê? — ela arregalou os olhos vendo os do seu parceiro cada vez mais quentes — Sabe? — vociferou a fazendo balançar a cabeça freneticamente para os lados — Porque eu sou o protetor dela e meus olhos estará em cada passo que der. Não ouse sequer pensar em machuca-la. Você não quer me ver furioso, Lois.
— V-V-Você está me ameaçando?
— Você me forçou a isso — a soltou vendo a mesma cambalear para trás segurando os braços que antes ele apertava com força, perplexa. Clark se virou inalando fundo o ar da noite fechando os olhos com força tentando conter os lasers que antes estavam furiosos para sair. Ele definitivamente precisa ver seu pai, esse descontrole não pode ser normal. Sacou o celular do bolso e ligou para um táxi, não estava mais com cabeça para Lois aquela noite — Vou buscar minhas roupas de carro, chamei um táxi pra você — disse.
Lois assentiu sem olhar para ele, ainda perplexa pelo repentino descontrole do seu ex parceiro. Clark nunca, nunca havia a machucado se quer com um olhar antes. Ele esperou até o táxi chegar. Passou sua jaqueta pelos ombros da ruiva, a noite estava deveras fria, e deu ao taxista o endereço da senhora Lane mãe de Lois. Quando o carro partiu ele se dirigiu ao seu. Não prestou muita atenção no caminho, em poucos minutos já estava no antigo apartamento que compartilhava com Lois. Pegou todos os seus pertences do lugar e como prometeu não levaria nada além daquilo que pertencia exclusivamente a ele. Depois das malas prontas ele se dirigiu para um pequeno hotel no centro, o mesmo lugar que ficou ao chegar em Metrópolis anos atrás. Após conseguir um quarto e tomar um banho ele se sentou na varanda sentindo o vento frio lamber seus cabelos. A noite não fora nada como planejara, ele não foi ele mesmo e não se orgulhava do que havia feito e dito, mas enfim estava livre.
Livre.
Ao ter noção do quanto essa palavra abria possibilidades ele vestiu as suas roupas e rapidamente saiu do local, voando velozmente sobre os prédios da Cidade que nunca dorme. De certa forma, apesar do seu fracasso em ser um homem decente nessa noite, fato que pisava em sua honra, ele estava feliz. E mais feliz ficou ao ver o terraço do prediozinho que ele tanto já conhecia sentindo vários cheiros, mas apenas o dela se destacava e fazia seu estômago se revirar com força. Ela estava acordada assistindo ao noticiário de Gotham, como sempre. Aquela atenção que ela depositava no morcego era deveras incomoda para ele, admitia, mas estava disposto a faze-la ver o quanto ele poderia ser melhor. 'Que infantil eu sou' pensou ao se ver competindo internamente com o Sentinela de Gotham pela atenção da morena. Se dirigiu a uma das janelas do prédio fazendo de tudo para que ela e nem seus vizinhos o visse. A viu andando pela casa com aquele pijama que o tirava do sério e sentiu seu corpo tremer de desejo, ela era a personificação da tentação e lhe custava muita sanidade para não avançar o sinal da paquera. Precisava conquista-la antes.
— Vai se foder, Rosaly! Eu não tenho tempo pra isso! — a ouviu esbravejar, doce como só ela sabia ser. Percebeu em seguida que falava no telefone. Por mais invasivo que fosse Clark não conseguia controlar direito seus sentidos perto da sua menina, então ele ouviu o diálogo claramente.
"Miga, é só uma baladinha, não tem nada demais!"
— Nada demais? Eu preciso mesmo te lembrar que hoje ainda é quarta-feira? Já sei o que te dar de aniversário Ross, um maldito calendário e talvez um pouco de noção!
"Não seja tão negativa, Lua. É só uns drinques, vamos, por favor. Não vamos ficar bêbadas"
— Nós sempre ficamos bêbadas, sua tonta. E eu não estou disposta a esmurrar todos os pretendentes que você joga na merda das minhas costas, e você sempre faz isso.
"Ahhh você é tão chata! Como consegue viver sem transar? Deve estar nascendo telha aí, colega. Lua, sexo não é crime e faz bem pra saúde, não há nada demais nisso!"
— Escute, eu não vou ficar aqui ouvindo você dizer o que eu devo ou não fazer com minha vagina, dê você a sua que eu estou muito bem não sendo tocada por babacas! Não acredito que está mesmo me aconselhando a dar para um desconhecido de balada, isso é um cúmulo da sua estupidez.
"Ai, ai, seu problema é desconhecidos então? Como quer conhecer alguém se você afasta todo mundo? Ah! Espera aí! E aquele repórter gostosão? Tenho certeza que você conseguiria ele facinho"
— Você é doente, Rosaly. Doente e sem noção. Não vou ficar perdendo meu precioso tempo falando com você!
"Não, lua, espera, não desliga! Qual é, dá uma chance. Isso não vai te arrancar pedaço"
— Oh, claro que não — revirou os olhos irônica — A menos que ele seja um maníaco degolador de Aluras, não é mesmo? Não há como saber.
"Credo, lua!"
— Além do mais ele nunca mais me ligou. Deve ter enfim desistido — Clark sentiu uma entonação diferente vindo da sua pequena, mas não soube adivinhar o que significava.
"Também, com você sendo grossa feito uma cavala com o cara o tempo todo queria o que? Não é todo mundo que está disposto a te aguentar desse jeito que eu aguento não, meu bem! Devia fazer um altar pra mim, sabia? E eu te disse que deveria ter dado em cima dele, lua"
— Eu não quero nada com o Kent, Rosaly Mary Campbell! E vai dormir que amanhã nós duas trabalhamos.
Ele a viu desligar o celular com raiva e se jogar no sofá em seguida, resmungando o quando estava andando em más companhias com um leve bico lindo enfeitando sua cara emburrada. Clark sorriu para si mesmo, tanto por estar perto daquela que ama tanto pela conversa estranha que as duas amigas tinham. Rosaly claramente a adorava mesmo com sua personalidade difícil e ele agradeceu por isso, por sua prometida ter uma amiga fiél com quem podia contar, apesar de não ter gostado nenhum pouquinho dessa história dela sair arranjando pretendentes para sua Lua por aí. Se pegou admirando-a por mais algum tempo, talvez horas, ele não saberia dizer. Quando ela foi para cama e apagou as luzes ele sentiu o celular vibrar no bolso. O pegou vendo coincidentemente mensagem de Rosaly. Conversaram por uns minutos rindo com satisfação no final, ela seria de grande ajuda pro que planejava. Por ora, ele decidiu que precisava realmente ter uma conversa com seu pai para entender aquelas alterações de humor que estavam pairando sobre si, apesar de estar se sentindo setenta por cento melhor do que quando chegou ali. Constatou que a presença da sua Alura modificava o seu humor. Levantou vôo em direção aos céus rumo a sua nave sentindo o vento gélido bater contra seu corpo mas isso não o incomodava, estava feliz por tê-la visto, estupidamente feliz e quente.
Tão quente quanto seu coração.
—
(Pequeno bônus da mensagem que Clark trocou com Rosaly)
"Desistiu cedo, Kent ;(" recebido por 'Rosaly Campbell', às 23:40pm ✓✓.
"Não é do meu perfil desistir, senhorita Campbell. Apenas tive uns problemas pessoais quais já resolvi, pretendo ganhar minha entrevista com mais afinco do que antes. Escute… sei que pode parece inapropriado, mas poderia me ajudar a me encontrar com sua amiga? Ela é um tanto quanto escorregadia" enviado por 'Clark Kent', às 23:42pm ✓✓.
"Hmmm eu não sei, Kent. Minha amiga tem um gênio difícil de lidar e não gostará nada disso, não sei se quero arriscar minha amizade tão preciosa apenas por uma entrevista boba" recebida por 'Rosaly Campbell', às 23:45pm ✓✓.
"Por favor não me leve a mal, senhorita Campbell pois minhas intenções são as melhores possíveis. Mas eu… me interessei pela sua amiga, eu gostaria de conhecê-la pessoalmente não só pela entrevista" enviada por 'Clark Kent',às 23:47pm ✓✓.
"O.M.GGGGG! Eu sabia que minhas deduções estavam certas! Podem me chamar de vidente, queridos! AHHHHHH! Okay, okay, respira Rosaly! Bom, se for por isso eu posso sim, claro. Mas eu vou logo te alertando que minha amiga não é nenhuma miss simpatia, não se iluda não" enviada por 'Rosaly Campbell', às 23:48pm ✓✓.
"Eu já percebi, senhorita Campbell mas isso em nada diminui meu interesse, estou completamente fascinado por ela. Obrigada por me ajudar" enviada por 'Clark Kent', às 00:00pm ✓✓.
"AHHHHH EU JÁ SHIPPO! #MortaFeatEnterrada" enviada por 'Rosaly Campbell', às 00:01pm ✓✓.
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