You Rock My World
7 VII
Notas iniciais

(Essa é Ross)
Por mais que Alura repudiasse a ideia e jamais permitisse que alguém dissesse aquilo em voz alta ela tinha que admitir: tinha o gênio ruim da sua mãe. Sabia que era uma pessoa grossa, insensível, mau humorada, rude, irritante, fria e até mesmo um pouco arrogante, como sua própria mãe. Porém, acima de tudo, Alura puxou um defeito (ou qualidade, dependendo do ponto de vista) que mais lhe marcava como uma verdadeira filha de Vivian Murray: quando ela tomava uma decisão, independente do quanto aquilo fosse magoar alguém, ela não voltava atrás. Era uma pessoa de palavra mas acima de tudo era egoísta, não colocava ninguém acima do seu bem estar (ou ela achava que assim fazia) e prezava pela sua paz mental. Não queria mudar, sabia que sua personalidade insuportável afastava grande parte das pessoas mas isso não a incomodava, achava que nasceu para ser sozinha, já tinha aceitado esse fato e sinceramente era feliz assim. Se não fosse por Ross seu plano solitário seria concluído com perfeição. Infelizmente (ou felizmente) a sua amiga maluca conseguia a sua atenção, sua afeição, sua consideração e até mesmo seu profundo respeito, porém ela era uma Murray Chelsea e como tal a sua palavra era irredutível até mesmo para Rosaly, o que fazia com que discutissem a maior parte do tempo.
Como estavam fazendo agora.
— Não — decretou com sua voz fria de sempre. Ross ofegou chateada.
— Mas Lua-
— Não — repetiu cortando a amiga, fazendo com que a mesma lhe lançasse um olhar fulminante.
— Custa me ouvir?
— Já ouvi o suficiente, e a resposta continua sendo não — levantou-se do seu sofá pegando o copo em cima do centro a sua frente, caminhando pra cozinha logo sendo seguida por Ross.
— Se tivesse me ouvido saberia que isso é o melhor pra você! — irritou-se sentando em cima da bancada — Qual é, lua! Sabe que estou certa.
Alura abriu a geladeira e enfiou o rosto dentro dela ignorando a amiga. Concluiu que precisava mesmo ir no mercado vendo ali dentro apenas uma caixa de leite cortado, uma vasilha de macarrão velho e uma jarra de água pela metade, se perguntava como deixou que sua dispensa chegasse naquele estado lamentável de pobreza.
— Não me ignore Alura Murray Chel-
— Não se atreva, Rosaly! — fechou a porta com força olhando chateada para uma Ross emburrada, um leve bico descansando em seus lábios.
— Você não gosta do seu sobrenome e eu não gosto de ser ignorada, que tal entrarmos num acordo? — perguntou sarcástica. Alura rolou os olhos impaciente sentando-se numa cadeira em seguida, sinalizando que estava a ouvindo — Eu só acho que falar com esse repórter vai ser bom pra você esclarecer as coisas, Lua. Desde que seu amigo deu aquela entrevista um monte de abutres mau educados tem ligado pra mim e pra você até hoje.
— Tobias não é meu amigo — repetiu pela milésima vez para Ross usando seu tom mais cortante — E se sabe o quão ruim esses imbecis são não deveria sugerir que eu aceitasse ser entrevistada por um deles.
— Mas aí é que está, eu não daria essa ideia se já não tivesse escolhido a pessoa certa pra você — disse orgulhosa de si mesma vendo Alura a olhar com sua cara apática de sempre.
— E quem seria, dona enxerida?
— Bom — começou empolgada com a atenção recebida — Desde que saiu do hospital um repórter muito gentil tem me ligado dizendo querer entrevista-la, disse também que não quer lhe perturbar ou inventar notícias fantasiosas, apenas ouvir sua parte como tem feito com várias outras vítimas do acidente.
— E você caiu nessa conversa fiada de lobo sob a pele do carneiro? Não seja tão ingênua, Ross! — suspirou chateada — Repórteres são todos iguais: mentirosos e invasivos. Não quero minha paz perturbada por um bando de sem o que fazer.
— Mas Lua, eu tenho certeza que é um bom homem! Tem uma voz tão doce e profunda, foi tão educado — sorriu sonhadora suspirando — Aposto que é bonito.
— E eis aqui a real intenção de Rosaly Mary Campbell, a cupido — a olhou com irritação — Fique com ele pra você, não tenho interesse em ninguém, menos ainda em repórteres.
— Luaaa — bateu um pé no chão nervosa — Estou certa que ele é um bom profissional e até mesmo um bom homem.
— Você está tão certa sobre a bondade desse repórter como está sobre o carácter de Tobias, não é mesmo? — alfinetou ácida. Ross levantou com raiva.
— Eu só acho que você deveria ouvir mais o lado das pessoas ao invés de concluir tudo sozinha e julgar todos como culpados!
— E a minha resposta continua sendo não! — levantou-se também usando o mesmo tom de voz altivo, frio e cortante que sua mãe sempre usava consigo vendo Rosaly se encolher minimamente — Não insista mais, Rosaly.
Ross olhou dentro daqueles olhos claros por longos segundos tentando achar uma brecha, uma fina brecha para que pudesse argumentar novamente, mas não achou nada além da frieza e indiferença habitual. Como sempre. Alura não estava inclinada a ser volátil perante a situação, mas infelizmente para ela Ross também não. Ela é uma pessoa extremamente positiva e de bom coração, estava sempre disposta a perdoar, amar, cuidar e dar segundas chances as pessoa: e como uma pessoa positiva ela não deixaria sua amiga naquele mar de negatividade de sempre.
— É a sua palavra final? — perguntou em tom de desafio pondo as mãos na cintura
— Sim. Como sempre. E você sabe disso — seu olhar era inabalável e teria feito qualquer outra pessoa correr, menos Ross.
Amava a amiga como uma parte de si, uma irmã. Enquanto ela esteve internada pode ver um lado de Alura que nunca viu antes em todos esses anos; um lado feminino, ás vezes até sentimental e positivo, e agora que fora apresentada a aquela Alura não estava disposta a vê-la se afundar na sua negatividade costumeira. Queria vê-la sorrir como quando estava com a adorável família Monaé e faria de tudo pra isso acontecer.
— Essa conversa não acabou, senhorita Murray
— Sim, acabou — a cortou — Olha Ross, sei que quer o melhor pra mim mas uma hora ou outra essas bestagens vão acabar sendo esquecidas. Eles só querem uma notícia que prendam os idiotas e encham seus bolsos de dinheiro, o maldito alienígena é o assunto do momento, afinal. A qualquer momento alguém vai acabar falando ou fazendo uma burrada relacionada ao forasteiro e vão acabar esquecendo sobre essa infeliz mentira. Notícias vem e vão, uma hora isso vai ser tão insignificante pra eles quanto é pra mim.
— Lua, eu sei que tem razão mas veja por um outro lado: Tobias foi idiota o suficiente para dizer que você estava de complô com os alins e que inclusive namorava um deles, isso quando todas os repórteres do mundo queriam apenas um deslize para poder transformar em uma grande notícia! Todo mundo quer saber mais sobre o Superman, qualquer coisa que vierem a dizer é lucro pra essa gente, pelo visto até mesmo as besteiras de homem assustado pelo momento — respirou fundo segurando seus ombros — Por isso não acho que vão te deixar em paz por tão cedo. Sei o quanto você odeia que invadam sua privacidade e hora ou outra irá acabar surtando com toda essas especulações descabidas.
Alura suspirou chateada. sentia tantas coisas negativas por Tobias naquele momento que desejou que estivesse na sua frente só para nocauteá-lo. Intimamente sua resposta continuava a mesma: não, e não mudaria de ideia por nada, nem mesmo por Ross. Se conhecia bem, sabia quando empacava como uma mula numa questão e sabia que a resposta seria sempre negativa. Mas estava cansada e Rosaly não a deixaria em paz nem por mil diabos, então encenou uma cara compreensiva e respondeu:
— Eu vou pensar nessa droga, tá bem?
— Mesmo? — Ross se animou.
— Mesmo — a palavra saiu com dificuldade. Ela definitivamente odiava mentir mas internamente dizia a si mesmo que era por um bem maior.
— Aí, miga! — gritou a abraçando com força — Você é a melhor!
— Me solte, mulher — resmungou saindo dos braços da amiga arrumando a própria roupa — Agora vá pra casa, quero dormir.
— Está me expulsando, senhorita ingratidão?
— Claro que estou, senhorita irritante. Ja me encheu o saco demais por hoje. Se manda.
— Tá bem, tá bem, dessa vez eu te perdoo — Ross a viu apertar os olhos irritada, sabia que ela estava chateada o suficiente para que não enchesse mais o seu saco então caminhou até a sala pegando sua jaqueta, sua bolsa cara e a chave do seu carro — E, ah, o nome dele é Clark Kent.
Alura sentiu um arrepio incômodo lhe subir pela coluna ao ouvir esse nome. Olhou para Ross com os olhos estreitos, caminhando até si.
— Como é?
— O nome do repórter é Clark Kent, lerdinha — riu alheia da cara azeda da amiga — Ele é do Planeta Diário e tem experiência na carreira. Sabe como esse jornal é respeitado, Lua. Não poderia ter alguém melhor.
— É, é, que seja — gesticulou impaciente — Onde conheceu esse cara mesmo?
— Já disse, ele tem me ligado dois dias depois que saiu do hospital. Muito gentil da parte dele ter respeitado seu repouso, não é?
— Tchau, Rosaly — Alura a arrastou pra fora do apartamento resmungando palavrões, odiava as tentativas idiotas da sua amiga de sempre fazer com que saísse com alguém — Você sequer o viu, cacete. se controle!
— Um homem tão gentil e educado não poderia ser feio, Lua.
— Os feios tem obrigação de serem gentis — resmungou já segurando a porta.
— Ei! Isso foi preconceituoso, sua estúpida — Ross gargalhou vendo uma veia de irritação se sobressaltado no pescoço da amiga — Tá bom, eu já vou. Mas vou passar seu número pra ele! — e bateu a porta saindo correndo em direção as escadas ouvindo Alura gritar palavrões e ameaças as suas costas.
Entrou no carro ainda rindo da expressão chateada da amiga e arrancou com o carro em seguida temendo que a mesma arremessasse um tijolo em seu carro, afinal nada de bom vem de uma Murray Full Raivosa. Ao seu lado viu seu celular apitar e após conferir a estrada a sua frente ela o desbloqueou lendo a mensagem da sua melhor amiga na tela.
"Não se atreva, sua maldita!" — mensagem de ' Bff Lua ♥', às 16:55pm.
Ross gargalhou com vontade. Apesar de várias vezes perder a paciência com sua amiga ela a amava do fundo do coração e jamais desistiria de mostrar para si como o mundo e as pessoas podem ser agradáveis e coloridas e foi pensando nisso que fez algo que achou ser certo.
"Minha amiga não aceitou a entrevista, como sempre, senhor Kent. Mas não acho certo que seja perturbada constantemente por outros repórteres apenas por sua teimosia, então deixo em suas mãos a tarefa de convencê-la. Eis aqui o numero: Xxxxx-xxxx. Ela é reservada e muito hostil com quem não conhece. Por favor, tenha paciência. Espero que não me desaponte" — enviada para 'Senhor-voz-sexy-Kent,' às 17:00 PM ✓✓.
"Não sabe o quanto eu sou grato, senhorita Campbell. Sua amiga não poderia estar em mãos melhores, prometo cuidar dela. Não irá se arrepender. Muito obrigada e boa tarde" — respondido por 'Senhor-voz-sexy-Kent' respondeu, às 17:01pm.
— Que rápido... — murmurou. Franziu o senhor lendo a mensagem, "prometo cuidar dela", mas balançou a cabeça espantando os pensamentos e enfim se concentrando na estrada.
Gritava por dentro numa repentina insegurança. Esperava estar fazendo a coisa certa.
(•••)
Estava a dez minutos olhando pra sua tv sem realmente ver nada. Sua mente estava longe. Geralmente ela não perdia o noticiário de Gotham por nada, adorava ver o Cavaleiro das Trevas chutando algumas bundas do mal, foi por isso que assinou um canal só com notícias de Gotham aliás, mas a mente estava cheia de porcarias sobre a sua vida que ela não gostava de pensar porém era inevitável. Ao passar os olhos lentamente pela sua pequena sala viu no calendário a data marcada, começo do mês, e calculou que havia exatos 30 dias desde que saíra do hospital. Um Mês.
Suspirou. Não queria lembrar do hospital.
Entretanto, era inevitável.
Sua mente voou para o dia infernal que acordou do acidente, da confusão, da dor, do medo. Lembrou dos pesadelos, da sensação de estar sendo observada, do pavor de lembrar dos olhos vermelhos querendo mata-la, do sufoco ao ter sua garganta apertada, da dor de ter seus cabelos arrancados. Lembrou-se também da amável e doce família Monaé, do carinho e cuidado de Ross e… dele. O homem-muralha de olhos azuis tão limpos quando o céu de verão sem nuvens, porém cabelos tão negros quanto a noite sem estrelas, sorriso gentil, voz potente.
Ela não queria vê-lo nunca mais.
Toda a sua perfeição a irritava profundamente, irritava de uma forma que nem as insistência de Ross conseguia, a tirava do sério, a fazia querer correr pra bem longe sem nunca olhar pra trás.
Porque ele a atraía.
O desgraçado a atraía.
Não foi fácil admitir isso para si mesma, na maioria do tempo se pegava ignorando aquela ridícula sensação em seu baixo ventre quando o via na TV e por esse motivo ela não queria vê-lo nunca mais. Ele transformou sua vida minimamente calculada numa bagunça sem medidas, a existência dele era agora um incômodo constante como um espinho no pé. Ela já viu muitos homens na sua vida, se envolveu com poucos, mas jamais se sentira atraída por nenhum deles, era uma sensação nova. Era uma mistura de querer soca-lo eternamente com a de admira-lo por longas horas, trazia uma formigação quente ao seu monte de Vênus e ela não gostava disso. Não. Ela odiava.
Nunca mais o viu desde o dia que o expulsou do seu quarto no hospital. Acordou no outro dia rodeada de enfermeiras e médicos e pela sua recaída teve de passar mais dois dias em observação. Quando saíra enfim, foi surpreendida pela família Monaé a convidando para um almoço, almoço qual teria recusado prontamente se o convite não fosse feito pelo adorável Pietro. Um golpe baixo, uma covardia usarem aquela miniatura irritantemente adorável para lhe pedir algo. Tendo aqueles olhões infantis a mirando com tanta expectativa ela não pôde recusar, obviamente. Se falam duas ou três vezes por semana, desde então. Eles agora estavam na França visitando os parentes de Sophia, seu celular que antes só servia para jogar Yu-Gi-Oh Duel Links agora era constantemente utilizado para se comunicar com aquelas pessoas que tanto a acolheram.
Aquilo a assustava.
Ser querida a assustava, ser elogiada, ser necessária a assustava. Não estava acostumada com isso, não queria isso, por isso assim que saiu do almoço e pisou os pés em casa ela se isolou, se trancou por quatro dias inteiros sem sequer abrir as janelas do quarto nem responder ás ligações. Estava insegura, não queria se aproximar de ninguém, não queria ter sua rotina mudada, não queria que esperassem algo dela, tinha… medo. Naquele momento temia tudo: temia o valor da família Monaé, temia os repórteres, temia o general que sempre infernizava seus sonhos… temia a ele.
Ela não queria se sentir tão mexida com uma simples presença e se estivesse em seu estado natural de espírito isso seria irrelevante, como sempre, mas isso caia por terra quando o noticiário o mostrava. Ela sabia que aquele maldito filha da puta tinha feito algo com ela, era a única explicação decente para explicar todo o seu conflito, além do mais tinha a marca… a marca. Por reflexo coçou entre os seios em cima da dita cuja sentindo a forma bem desenhada sob seus dedos, algo parecido com um S com a textura de uma ferrada, o mesmo maldito símbolo que aquele forasteiro ostentava na caixa torácica daquela roupa extravagante. Antes era só uma cicatriz boba de nascença mas depois do acidente ela tomou uma forma inusitada. Odiava aquela marca também. Ela era o sinal de que iriam se reencontrar, sentia isso. Não sabia porque ela estava ali entre seus seios e sinceramente não queria, não estava disposta a saber mais nada relacionado aquele homem. Por isso fingia que nada estava acontecendo, por isso fingia que aquilo não estava ali marcado na sua pele, por isso fingia que ele não existia.
E assim seguia.
Um dia de cada vez.
Balançou a cabeça freneticamente quando seu estômago faminto roncou a despertando dos seus pensamentos torpes. Vendo pela janela da cozinha que a noite já tomava conta do céu ela se dirigiu a cozinha, parando no meio do caminho ao lembrar que seus armários estavam vazios. Fez o retorno pegando seu celular no sofá discando pra uma pizzaria já conhecida pedindo o de sempre: pizza família, Coca-Cola e muito katchup. Sua fome era ancestral.
Caminhou para o banheiro tirando suas roupas no caminho. Ao chegar no mesmo se deparou com o espelho frente a pia. Nua frente ao mesmo viu algumas cicatrizes em suas costas, as pequeninas quase imperceptíveis, mas em compensação duas grandes que valia por todas. Havia uma cicatriz funda nas suas costelas também assim como uma perto da virilha, aquela em especial ainda doía bastante. Subindo mais ela ignorou a marca entre os fartos seios e captou uma pequena cicatriz abaixo do queixo. Balançou a cabeça em negativo, não ligava pra aparências e não deveria ligar para aquelas linhas. Entrou no chuveiro ligando-o ao mais fria possível para se livrar dos pensamentos idiotas imaginando uma música qualquer do Michael Jackson.
(•••)
— C-Cinquenta e cinco e noventa, moça — o rapaz baixo e franzino a sua frente falou, seu rosto coberto por espinhas. Alura revirou os olhos chateada.
— Porque não me apontam uma arma de uma vez? É mais digno — disse fria vasculhando sua carteira em busca do dinheiro resmungando o quanto o preço do combo aumentou desde sua chegada em Metrópolis. Alheia ao rapaz a sua frente não notou o olhar nada decente que o mesmo dirigia as suas longas e alvas pernas exposta, sua fina cintura e seus fartos seios. Ele pensava se uma mulher como aquela lhe daria uma chance algum dia.
— P-Pra você eu faço por q-quarenta, linda — gaguejou ainda olhando os firmes seios presos por uma camisa regata cavada do Batman, ao subir o olhar lentamente sentiu um arrepio cortante lhe subir pela espinha ao se deparar com o olhar amedrontador da mesma.
— Até onde eu sei voce é apenas o entregador, não o caixa — disse fria como o inverno, o rapaz se encolheu. Jamais vira um rosto tão angelical o olhar com tanta frieza — E se me olhar desse jeito asqueroso de novo eu quebro o seu nariz, moleque.
— D-Desculpe…
— 'D-Desculpe' — Alura remendou com desprezo lhe estendendo o dinheiro — Pegue essa droga e some da minha frente.
— Sim, senh-
Bateu a porta antes que completasse. Não tinha paciência para adolescente é menos ainda para os do sexo masculino que viviam mergulhados em hormônios. Caminhou até seu sofá se jogando nele abrindo sua encomenda, o noticiário de Gotham estava pra começar com notícias urgentes e não queria perder isso por nada. Vestia uma cueca curta preta apertada que comprara especialmente para dormir com sua blusa surrada do Batman terminando o look, aquele sempre foi o seu pijama desde que se mudara. Estava enfiando uma gorda fatia de pizza na boca quando seu celular tocou.
Olhou pra tela chateada pensando ser Ross mas era um número desconhecido, e mesmo que fosse o próprio Deus não atenderia aquela droga. Odiava celulares e só os usava para o trabalho ou jogar.
— E agora gravações exclusivas do Batman.
Alura voltou os olhos para a tv ignorando o irritante toque. A sua frente viu o Batmóvel seguindo uma Lamborghini Púrpura em alta velocidade, as gravações pegando claramente o rosto maníaco do coringa e sua prostituta particular, pensando nisso Alura sorriu maldosa, estava louca pra ver o Cavaleiro chutar os traseiros deles até o manicômio mais próximo. Viu as cenas mudarem pra um combate corpo-a-corpo entre os dois no centro da cidade, seus olhos brilhavam ao ver o que um ser humano comum era capaz de fazer com pessoas de DNA modificados. Estava bem ali na sua rotina de todas as noites quando simplesmente não deu mais para ignorar a décima chamada do seu celular. Com os dedos engordurados pegou o mesmo o atendendo em seguida.
— Espero que seja importante — resmungou com os olhos presos na tv mordendo outro pedaço gordo de pizza.
— Desejo falar com senhorita Chelsea, por favor — uma voz masculina e profunda disse do outro lado da linha, inexplicavelmente seus pêlos da nuca se eriçaram. Ao ouvir seu sobrenome infeliz Alura engoliu o pedaço de pizza audivelmente, apostava que o homem do outro lado da linha tinha ouvido também.
— E quem deseja? — perguntou séria. A pessoa do outro lado respirou fundo duas vezes antes de responder com a voz rouca e gentil.
— Clark Kent, do Planeta Diário — respondeu — É a senhorita Chelsea quem fala?
— Não — disse rude ao lembrar de quem se tratava e com quem aquele homem conseguiu seu número ficando instantaneamente mais nervosa, suas mãos começando a suar. Ouviu a pessoa do outro lado soltar uma risada doce.
— E onde ela está?
— Ela morreu — respondeu ríspida — E não ligue mais!
Desligou o telefone sentindo sua respiração ofegante. Seus batimentos inexplicavelmente acelerados, sua veia do pescoço pulsando. O que diabos era aquilo? Que sensações eram essas? Levantou tendo a sensação de estar sendo observada, já não tinha mais ânimo para ver nada, por isso desligou as luzes e rumou para seu quarto deixando o celular na sala vendo a tela brilhar numa nova mensagem. Trancou a porta do quarto, tomou seu remédio pra dormir e se jogou na cama. Iria matar Rosaly das formas mais cruéis possíveis.
E já não gostava de Clark Kent também.
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