You Rock My World
6 VI
Notas iniciais

Metrópolis estava especialmente quente aquele dia, talvez fosse o dia mais quente do ano. Alura não era uma pessoa muito ligada ao calor mas por incrível que pareça não gostava de tempos fechados também, achava que só contribuía mais ainda para o seu mau humor diário então, de uma forma estranha, hoje ela estava feliz e tentava convencer a si mesma que se devia apenas pelo lindo sol que brilhava no céu azul celeste enfeitado de gordas e brancas nuvens, e acreditava firmemente nisso.
Mas a Ross ela não enganava.
Ross sabia que o orgulho de Alura não a deixaria admitir isso nem em mil anos mas ela estava feliz porque aquela tarde recebera visitas, e bem inusitadas, diga-se de passagem. A família Monaé, família qual esteve antes de apagar no acidente, estavam agora espalhados pelo seu quarto: A adorável Lola, seu pai Jeremy, sua mãe Sophia e o pequeno Pietro. Os cinco conversavam como se fossem amigos a anos, contavam sobre aventuras de acampamentos e micos feitos em datas comemorativas, quem olhava de longe imaginava que eram uma grande família feliz. Rosaly entretanto não participava, estava surpresa demais com a amiga para se juntar ao falatório.
Ross descobriu algo novo sobre sua carrancuda parceira hoje. Achava que pelo fato de estar sempre de mau humor, pouca paciência e por nunca ter tido bom contato com crianças na infância, ela os repudiava; mas ali estava a sua frente Alura com um brilho lindo nos olhos mostrando pacientemente a Pietro no seu colo sua coleção de cards do Yu-Gi-Oh. Não entendia nada sobre aquilo e não entrava na sua cabeça como sua amiga adulta e formada colecionava aquelas cartas como se fosse seu maior tesouro, mas isso não importava para si. Alura estava feliz e isso era tudo o que precisava saber.
— Veja o que tenho aqui, Pietro — Alura pegou outro baú de cards que estava numa cômoda ao seu lado, essa sendo de madeira feita a mão cravejado em detalhes de ouro — Aqui estão guardadas algumas das cartas raras do jogo.
— Uau, tia Lua! Me moista? — Disse se embolando nas palavras como toda criança da sua idade. Pietro se acomodou em seu colo, os olhinhos brilhantes a olhando com admiração.
— Claro, você se mostrou digno — ela olhou diretamente para Ross a fazendo crispar os lábios com a provocação, jamais mostraria sua coleção para quem não entendia sua paixão e é óbvio que sua amiga nunca a viu — Preparado?
— Sim, sim, sim!
— Então eu lhe apresento o paraíso, meu caro Watson — abriu o bonito baú, revelando dentro de si cinco fileiras de bolos de cartas lacrados dentro de caixas brilhantes ilustradas em alto relevo.
— Uoooooou! — Pietro gritou animado. Seu olhos brilhavam como estrelas, a boca aberta em surpresa. Alura sentiu um pequeno formigamento de felicidade dentro do peito olhando aquela criança.
— Você gostou?
— São... São... MALAVILOSAS! — gritou eufórico levando toda a família a gargalhar, Rosaly sentou-se na poltrona ao lado da maca da amiga.
— Então eu não sou digna, senhorita Murray?
— Claro que não, amadora. Quem sabe um dia — Alura sorriu lhe piscando um olho.
— Posso tocar, Tia? — Pietro a olhou nos olhos com carinho, empolgado demais por uma garota compartilhar seus gostos.
— É claro — respondeu suave vendo o pequeno pegar um dos decs em seu baú olhando cada detalhe como se o objeto fosse sumir a qualquer minuto.
— Isso parece ser caro demais pra uma criança brincar, Alura. Não toque diretamente, Pietro! — sua mãe o repreendeu mas o pequeno estava entretido demais abrindo a caixa para prestar atenção nos adultos.
— Não se preocupe, senhora Monaé. São todas plastificadas, não irão danificar — respondeu Alura.
— Ora querida, deixe disso! Me chame de Sophia. Depois do que fez pela minha família não precisa nos tratar como estranhos.
— Mas não fiz nada, senh-Sophia. – explicou para ela pela milionésima vez só aquele dia, encabulada, as bochechas levemente se tingindo de rosa. Ross tirou o celular da bolsa pronta pra gravar aquele momento raro.
— O doutor Morrison nos disse que levou dez pontos nas costas no corte mais grave, Alura. Você protegeu meu bebê, entrou na frente dos cacos e o deu colo quando a besta atirou aquele, aquele… raio estranho da morte — Sophia falou com um bolo na garganta sentindo o peso do acidente ainda nas suas costas. Seu marido, Jeremy, segurou suas mãos lhe dando apoio — Sem você não sei o que seria do nosso filho, ele poderia estar morto agora mesmo e não teríamos feito nada! – soluçou se rompendo num forte choro em seguida.
A sala ficou silenciosa naquele instante esperando a matriarca da família se recompor. Seu marido a abraçou sussurrando palavras de conforto com a voz embargada, a pequena Lola também se segurando para não desmoronar. Alura estava incomodada, extremamente acanhada. Não queria mérito pelo o que fez, por Deus, era apenas uma criança! Não fez mais do que sua obrigação em protegê-lo assim como teria feito por qualquer outro ser humano digno de proteção, não era uma criatura tão fria a ponto de ignorar o sofrimento alheio. Mas não diria isso a ela. Sophia ainda estava extremamente abatida pelo o ocorrido a levando ter crises de choro sem mais nem menos, ainda estava assustada e emotiva e não lhe tiraria seu desabafo mesmo que isso a incomodasse profundamente, não exatamente pelo choro, mas por toda a gratidão que depositavam em si, não estava acostumada a ser alvo de bons sentimentos alheios.
— O nosso bebê, Jeremy! Podíamos ter perdido nosso bebê! E eu não estava lá pra protegê-lo — dizia entre soluços abraçando o marido com força, Ross se dirigiu ao bebedouro pra pegar um copo d'água para ela.
— Mamãe tá cholando de noivo? — Pietro sussurrou em seu colo atraindo sua atenção para ele — Ela só faz cholar. A culpa é minha, tia?
— Não, projeto de Yugi — tentou descontrair a sua maneira, não sabia como se dirigir a uma criança direito então se perguntava se estava indo bem — A sua mãe… só está feliz em te ver bem.
— Ela tá' cholando puquê ta' feliz?
— É… — disse incerta — Acho que sim.
— Mulieles são estlanhas— resmungou voltando para as cartas entrando novamente naquela bolha infantil. Alura sorriu do pequeno pensando no quanto aquelas palavras faziam sentido.
— O que tem na mão, Duelista? — voltou os olhos para o rapazinho que segurava cinco cartas brilhantes, os olhos reluziam como duas safiras — Veja só se não é o…
— Exódia, O Ploibido! — ele completou totalmente admirado — Como cunseguiu?
— Ah, meu caro Watson — disse nostálgica alisando uma barba imaginaria e olhando dramaticamente um horizonte inexistente — Ganhei num duelo a muito, muito tempo atrás.
— Uau! Não blinca! Verdade?
— Claro que é verdade — empinou o nariz orgulhosa — De um duelista inimigo quando eu estava no colegial. Ele chorou por três dias inteiros depois da perda, essas cartas custam setecentos dólares.
— Uau, tia! Quando clescer quelo casar com você! — ela arregalou os olhos emudecida ouvindo risadas se espalharem pelo quarto.
Sophia, agora recomposta, olhava a cena com admiração. Depois do ocorrido seu filho antes sempre falante ficou dois dias sem conversar, afinal foi um impacto muito grande para uma criança de quatro anos, mas ali estava ele no colo da sua heroína interagindo como se nada tivesse acontecido, seu coração de mãe se enchia de amor e carinho pela moça. Ela se levantou e caminhou até si a fazendo despertar da surpresa que seu filho a colocou, segurou seu rosto com ambas as mãos e carinhosamente depositou um beijo em sua testa. Alura se sentiu petrificar.
— Obrigada por tudo, Alura.
(•••)
Ross ajeitava o travesseiro em suas costas, se deitando neles em seguida. Depois do afeto da família Monaé não conseguiu mais formar nenhuma palavra coerente deixando pra sua fiel amiga o trabalho de socializar com os falantes e calorosos Jeremy e Sophia, que ficaram em seu quarto até às seis da tarde. Lola não falava muito, com seus onze anos estava entrando naquela idade complicada da adolescência e permaneceu com os olhos grudados no celular todo o tempo mas via que a pequena estava feliz em estar ali. Pietro adormeceu pouco tempo depois em seu colo sendo a deixa para a família se retirar, não antes de mais beijos, abraços e vários convites para jantarem juntos.
Alura quase não piscava, estava surpresa demais com a sua vida de uma semana pra cá pra se lembrar das necessidades do corpo. O mundo descobriu que há vidas em outros planetas, inclusive um forasteiro criado em nosso solo, fora envolvida num desastre que acreditava que só veria em televisão, protegera uma criança e agora a família a amava, seu corpo fora feito de tela para vários cortes, hematomas e machucados, recebeu flores e estava comendo verduras e legumes desde que entrou no hospital. Havia se esquecido de algo? Ah, sim, o maldito relato do Tobias lhe rendeu dois repórteres invadindo seu quarto e sabia que eles estavam acampados lá fora para falar consigo.
Pensando nessa bagunça toda ela só queria voltar pro seu minúsculo apartamento, fechar as janelas e vegetar por ali até os hormônios do mundo se acalmarem e agradecia a qualquer divindade que pudesse existir que no dia seguinte iria receber alta.
— Se não falar nada nos próximos dez minutos vou ser obrigada a usar o desfibrilador em você, Lua — Ross resmungou ao seu lado.
— Engraçado, Ross. Estou morrendo de rir — bufou.
— Vamos lá, ser pedida em casamento não é tão ruim assim. Pena que só poderão se casar daqui a uns, sei lá, vinte anos? Não vai estar tão bonitona com quase cinquenta, né? — gargalhou alto vendo Alura a olhar com raiva.
— Não enche, Rosaly – murmurou — O dia foi maluco demais pra mim, não quero relembrar de nada por agora.
— Desculpa, miga — limpou as lágrimas do canto do olho que se formaram ao gargalhar — Mas você tinha que ver sua cara quando começaram a te abraçar, beijar, pedir em casamento — ela riu de novo — Ainda me surpreende o quanto você não está acostumada com contato humano.
— Surpreende? Tem seis dias que estou no hospital e você é a única alma boa no mundo que veio me ver. Já era pra você ter uma ideia, Rosaly — Alura se arrependeu do que disse logo em seguida vendo os ombros da sua amiga murcharem e seu sorriso sumir.
Não sabia porque havia dito aquilo, não deveria se importar, sabe o quão difícil fa suaamília é e já imaginava que isso aconteceria e estava conformada com isso... Mas não Ross. E quando a viu caminhar até si com aquele rosto de animal ferido sabia que vinha mais uma daquelas emoções que não suportava: pena.
— Lua, eu avisei os seus pais. Juro.
— Não seja tola. Não sei porque falei isso, era pra soar engraçado — desviou os olhos dos dela — Eu sei o que fez e a avisei pra não fazer. Já sabia que isso ia acontecer, e na real, não me importo nem um pouco. Juro. Então não me olhe como se eu fosse a maior coitada do mundo pois sabe que odeio isso.
— Não estou com pena de você, Alura Murray! — tentou soar ríspida — Mas fico triste, com raiva. Então quer dizer que se você não tivesse a mim estaria sozinha nesse hospital? Acabou de sair de um confronto entre aliens poderosíssimos e sua mãe não liga pra dizer nem um 'oi'? Não importa se vocês não se dão bem, é a obrigação dela…
— Não torne as coisas pior, Rosaly! — a cortou ríspida sentindo seu sangue ferver nas veias, Ross emudeceu a sua frente — Eu sei o quão ruim parece ser, mas eu não ligo. De verdade, não ligo. Podemos mudar de assunto, por favor?
— Como vai a minha paciente predileta? — Doutor Morrison entrou de repente na sala silenciando-as. Sentou-se frente a Alura fazendo os testes de rotina.
— Cansada dessas paredes, Morrinson. Terei alta amanhã mesmo?
— Tudo dependerá de como irá passar essa noite sem os sedativos, senhorita Murray. O botão ao lado da sua maca irá chamar os enfermeiros qualquer hora que precisar.
— Obrigada por tudo, Doutor Morrison — Ross quem disse apertando a mão do médico quando este terminou os exames.
— É o meu trabalho, senhorita. De qualquer forma a paciente precisa descansar agora. Quanto mais repousar, mais rápido poderá ir embora.
— Sim, certo, tudo bem — Ross caminhou até si beijando sua testa contra sua vontade e ajeitando seus cabelos — Amanhã volto no mesmo horário, certo?
— Claro — conseguiu desviar de outro beijo em sua testa fazendo cara feia pra Ross que se afastou sorrindo levemente.
— Me perdoe, Lua – sussurrou enquanto fechava a porta atrás de si. Alura por milionésimos segundos a odiou. Aquele pedido de desculpas pesaria em sua consciência pelo resto da noite e não conseguiria descansar até conseguir convencer a amiga que ela não tinha feito nada errado, e Ross sabia disso.
Suspirando cansada ela se acomodou nos travesseiros sentindo seu corpo reclamar pela dor, sabia que passar aquela noite sem os sedativos seria uma tortura mas contava com seu cansaço emocional para a embalar rapidamente ao mundo dos sonhos. E assim foi, quando menos percebeu a sua mente empurrava as vozes e imagens do dia lá para o fundo, deixando o vazio e o silêncio do quarto lhe trazer o descanso merecido.
(...)
Ele sabia que não deveria estar ali.
Prometera a si mesmo que a deixaria em paz ao menos até sua vida pessoal ter tomado algum rumo, ao menos até que sua cabeça estivesse no lugar, ela merecia um descanso depois de tudo o que aconteceu por sua culpa. Sim, sua. Clark sabia que a culpa daquela bela mulher estar em um hospital nesse momento era sua, aliás ele fora um covarde. Quantas vezes seu sexto sentido tentou lhe avisar que seu lugar não era ao lado de Lois? Quantas vezes sentiu que havia algo a mais no mundo lá fora, algo grande que o esperava? Quantas vezes se viu sonhando com uma mulher com cabelos negros de cheiro doce? Desde os seus quinze anos até agora, trinta e três anos, seu inconsciente o alertava para o mundo lá fora, o alertava para algo maior e infelizmente achou que ao encontrar suas origens seria suficiente, infelizmente pensou que quando Lois entrou na sua vida e o aceitou do jeito que era ele seria feliz mesmo com aquele vazio, e por quatro anos empurrou aquele sentimento pra dentro do peito. Se não fosse sua covardia e comodismo ele a teria encontrado antes, e ela não precisaria estar ligada á aqueles aparelhos agora.
Quatro anos... E agora não havia mais como fugir daquilo. Quando sua prometida aparecera na sua frente fora como se todo o mundo fizesse enfim sentido, sentiu um peso tirado do seu peito, sentiu-se mais forte, sentiu-se um filho de El; destinado a grandeza ao lado da sua mulher. Ele sabia que ela era seu futuro e não havia como fugir; não por uma obrigação, não apenas por ser seu destino, não por ser a escolhida da deusa... Mas sim porque estava apaixonado. Perdidamente, incondicionalmente apaixonado. E agora não conseguia mais fingir estar feliz longe daquela que era sua por direito.
Há três dias ele tenta convencer a si mesmo que ela precisa de um tempo, que ela precisa se recuperar do trauma que passou mas a três dias ele vem falhando miseravelmente nos seus planos. Quando foi que ficou tão egoísta? Desde quando colocava suas necessidades acima dos outros? Não queria magoar Lois, não queria decepcionar sua mãe, e por Deus: não queria, jamais, assustar ainda mais aquela linda mulher. Então porque estava ali? Porque estava em seu quarto agora, velando o seu sono como vem fazendo a três longas noites? Porque o seu coração batia tão feliz no peito ao estar perto do seu calor, seu cheiro, seu corpo... sentia as pupilas dilatarem olhando aquelas curvas. Não era certo o que fazia, estava todo errado e ainda a cobiçava daquela forma, mas como poderia se controlar? A três dias não se deitava com Lois, não conseguia mais a tocar mesmo com sua insistência, como tocá-la se não a desejava? Se não a amava mais? E quando sua cabeça se enchia de 'porquês' ele voava quilômetros da sua casa apenas para ver uma mulher cujo o cheiro mexia com seus instintos.
Era uma reação esperada, sabia que ela fora escolhida para ser sua companheira ideal e era completamente normal sentir seus instintos masculinos despertarem, mas não havia nenhum manual de instruções lhe dizendo que se apaixonaria. Não era pra isso ter acontecido. Mas ali estava ele trajado de Superman olhando aquela que roubara seu coração, aquela que era sua por direito. E de repente seu coração se acalmou, uma tempestade que fora embora de um segundo para o outro. Ele estava ali com a mulher que amava e nada poderia estar mais certo do que isso, as consequências que viriam ele lidaria com elas feliz, faria de tudo para conquistar aquela bela moça de lábios rosados e nariz arrebitado.
— Hmm... Kal... – seu coração acelerou no peito. Ela o chamava novamente, como fazia todas as noites e cada vez parecia ser a primeira — ...Por favor... Não... – murmurou chorosa. Clark se aproximou cautelosamente.
— Estou aqui – disse suave levando suas mãos ao seus cabelos macios os acariciando, como fazia todas as noites desde a primeira.
— Estou com medo— sussurrou com a voz falha ainda no mundo dos sonhos. Clark se ajoelhou com uma perna ficando da altura da sua prometida deitada, beijando suavemente a linha tensa que se fazia entre seus olhos sentindo seus lábios formigarem ao entrar em contato com aquela pele tão macia.
— Estou aqui – repetiu – Nada lhe fará mal enquanto eu viver – sussurrou. Uma avalanche de emoções lhe cobriu o peito, emoções fortes e doces que acalentava seu coração antes tão solitário – Eu prometo.
— Kal... – ela disse mais uma vez antes de entrar novamente no mundo dos sonhos tranquilos, relaxando seu corpo.
Clark se levantou devagar se afastando da sua pequena, virando de costas, passando as mãos pelo rosto exasperado. Precisava ir embora antes que perdesse o controle, estava a um fio de beijá-la e não queria fazer isso sem seu consentimento, não deixaria as coisas mais complicadas do que já eram. Abriu a janela devagar sentindo o vento frio entrar pelo quarto, o mesmo vento solitário o avisando do vazio que sentiria ao sair. Encostou sua testa na vidraça tentando controlar o aperto no peito que sentia. ‘Sou patético’ pensou ‘Eu só irei embora, não é como se fosse uma despedida’
Era sempre doloroso partir daquele lugar sem ela nos seus braços, sem sequer poder se mostrar com medo da sua reação, pensava no dia em que poderia vê-la sem todas essas complicações, sem ninguém para lhe cobrar algo que não fosse sua mulher. Clark ainda estava parado frente a janela na sua confusão interna quando Alura sentiu sua pele se arrepiar com o vento que entrava, se estivesse sedada isso não seria um problema, mas aquela noite não havia tomado os remédios. Se mexeu na cama desconfortável sentindo o frio aumentar, devagar se sentou com as mãos no rosto sentindo sua cabeça explodir em vários pedacinhos. Gemeu de dor.
Clark praguejou contra si mesmo mil e um xingamentos quando sua audição captou seus movimentos, sua estupidez acordara sua mulher e agora não poderia ir sem que ela percebesse sua presença. A janela estava aberta, poderia aproveitar que ela ainda não o percebeu e ir embora mesmo que ela se assustasse com o vulto, mas porque não conseguia ir? Seus pés estavam colados no chão, seu corpo tenso. Ele precisa ir embora antes que a assustasse, mas porque seu corpo não se mexia? ‘Sou um maldito bastardo egoísta’ resmungou mentalmente já aceitando sua derrota contra si mesmo. Já estava ali, não é? Não iria fugir como um covarde, precisava saber se ela estava bem.
— Inferno sangrento! – ela murmurou massageando as têmporas com os olhos ainda fechados, via pontos brancos através da suas pálpebras e um enjôo subindo seu estômago – Maldição!
— Você... está bem? – Clark se praguejou mais uma vez aquela noite. Não conseguiu segurar a língua diante o sofrimento da sua amada, queria ajudar de alguma forma. Se perguntava onde fora parar todos os seus anos de experiência pois se sentia agora como um adolescente em seu primeiro encontro.
Alura parou seus movimentos de repente. Se perguntava se era apenas um truque da sua mente ou se realmente estava ouvindo vozes. Suspirou, achava que era maluca o suficiente para várias coisas mas ouvir vozes estava fora de cogitação. Abriu os olhos devagar os sentindo arder, piscou freneticamente por um tempo e viu sua visão focar numa silhueta a sua frente, uma silhueta grande como uma montanha. Seus olhos se arregalaram quando sua visão se acostumou com a escuridão mostrando os detalhes do homem a sua frente: forte como uma muralha, alto, uma longa capa vermelha esvoaçante, cabelo negros perfeitamente alinhados, olhos azuis como o céu num dia de verão sem nuvens. Era ele, seu pesadelo. Pensou em gritar, pensou em lhe arremessar o abajur na cabeça, pensou em várias coisas negativas para o homem a sua frente mas não conseguia se mexer, estavam parados um olhando para o outro.
— Você... – sussurrou. Clark, hipnotizado pelos olhos da sua morena, deu um passo a frente vendo-a se retrair – Não se aproxime!
— Não vou te fazer mal – ergueu as mãos em rendição. Seu coração doeu ao ver negatividade naqueles olhos que já tanto gostava – Eu sou...
— Sei o que você é – cuspiu repentinamente nervosa – Vá embora! Vou chamar as enfermeiras!
— Precisamos conversar – disse devagar.
— Não temos nada pra conversar! Vá embora, já disse!
— Por favor... – sussurrou sentindo seu peito ser esmagado numa dor alucinante ao ver medo nos olhos da sua pequena – Não vou lhe fazer mal, prometo – deu mais um passo em sua direção, os olhos de Alura vacilaram, seu coração batendo a mil no monitor ao seu lado – Acalme-se, não precisa me temer. Eu jamais faria mal a você.
— Por favor, vá embora – disse mais amena diante as palavras do homem a sua frente – Já tenho problemas demais, não o quero por perto. Por favor – implorou desesperada quando ele aproximou mais um passo. Clark parou de repente sentindo seus olhos arderem de dentro pra fora. Então aquilo era ser rejeitado? Aquilo era a dor de amar? Olhou para os olhos da sua prometida, olhos grandes e caramelados expressando raiva e medo. Ele não a perturbaria mais. Não precisavam ter aquela conversa agora e sabia disso, sua teimosia quem o guiou e agora ela estava ali; indefesa e assustada. Naquele momento ele se repudiou, á imagem da sua prometida com medo dele era algo qual jamais queria presenciar.
— Eu irei. Mas vou voltar – disse por fim sentindo as palavras saírem amargas – Posso saber o seu nome?
— Não precisa saber o meu...- Alura parou repentinamente sentindo sua cabeça arder, uma dor alucinante que a fez querer gritar. Clark aproximou-se rapidamente pondo-a em seu colo olhando cada traço do seu rosto com atenção, sabia que havia algo errado – Não encos... – não pôde completar desmaiando em seguida, do seu nariz um filete grosso de sangue. Clark usou sua visão de raio x para inspecionar sua mulher, estava desesperado, seu coração bombando no peito numa velocidade impressionante. Viu quatro costelas suas se recuperando de uma fratura e em seu crânio uma pequena rachadura da finura de um fio de cabelo, nada realmente grave que pudesse causar grandes complicações, mas para ele era o suficiente. Um sentimento amargo e terrível o invadiu: ódio. Estava com ódio de Zod e seus seguidores, ali ele viu seu remorso por matar o último da sua espécie sumir de uma vez por todas.
Todos que fizesse mal para sua prometida mereciam um fim pior do que ele deu ao general.
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