Notas iniciais

Continuação do capítulo anterior.
(Do outro lado da cidade momentos mais tarde...)
Desde pequeno sua mãe sempre o ensinou os princípios básicos para moldar o caráter de um ser humano decente, já seu pai sempre ensinara os princípios básicos de um homem respeitável e juntos eles fizeram de si quem ele era; Clark Kent, um ser humano respeitável, um homem honrado e um filho dedicado. Sentia orgulho de quem era, sentia orgulho do seu trabalho e mesmo com todas as dificuldades que enfrentara na sua infância e adolescência devido ao seus dons sentia que isso só o impulsionou a querer dedicar sempre o melhor de si em prol dos outros. Esse era Clark Kent, o homem qual fora criado para ser. Ou era. Desde que a estranha "nave alienígena" pousou no planeta terra a sua vida virou uma bagunça.
Não.
Ele achou que sua vida tinha virado uma bagunça aí, mas não foi.
—" Voce é um fracasso como Kryptoniano, uma desonra! Olha o que você fez com nossa raça! Irei mata-lo, filho de Jor-El! E então vamos ver se os seus queridos humanos, seus amados e imundos pais terráqueos e sua prostituta prometida chorarão por você! -- Zod gritou coberto de uma fúria que jamais sentira antes na vida. Seus aliados estavam mortos graças a Kal-El e seus amigos terráqueos, sua nave, a última esperança de trazer Krypton de volta, destruída. Ódio corria por suas veias como lava, vingança era seu único pensamento. Fora gerado para proteger Krypton mas agora que tudo se fora ele apenas queria a cabeça do primogênito dos El.
Só que por mais que os insultos do general o atingissem apenas um em especial ganhou sua atenção.
— Prometida? O que é? Explique-me! -- Zod o olhou furioso achando o mesmo estivesse zombando de si, mas então quando viu a inocência nos olhos de Kal-El ele se pôs a rir, gargalhar, uma risada do fundo da garganta que arrepiava os cabelos da nuca.
— Então o prodígio dos El ainda não sabe? Por isso estás tão despreocupado em me enfrentar! Só porque quero ver seu desespero quando torcer a garganta dela eu irei lhe explicar resumidamente: todo Kryptoniano tem um par ideal, um destinado, um prometido, um par insubstituível. Você foi mandado a terra por um motivo: a sua destinada reside aqui. E embora ela não pudesse ser localizada os seus pais e tios eram cientistas muito renomados do nosso planeta e conseguiu localizar e adaptar uma prometida ideal a você. Genial, admito. Jamais imaginei que um terráqueo poderia ser importante de alguma forma, e achar um terráqueo prometido e ideal a sua Áurea, o seu ser, não foi nada fácil mas pelos os dados que consegui roubar do sistema de toda Krypton eu vejo que eles conseguiram. Nesse planeta habita uma mulher destinada a si, apenas uma, escolhida a dedo pela deusa, a criança perfeita.
— Você... Está mentindo! -- Clark gritou partindo pra cima do general, que facilmente se desviou do enfurecido Kal.
— Estou? Nunca se sentiu sozinho, vazio, incompleto? Nunca se sentiu deslocado mesmo no seu ambiente mais confortável com pessoas mais queridas? Nunca se sentiu frustrado ao se deitar com uma mulher e nunca receber o prazer e satisfação que deveria?
— Não! -- gritou, mas suas palavras vacilaram. Sentia-se exatamente assim desde que se entendia por gente.
— Ah, eu vejo -- Zod gargalhou mais uma vez -- Apenas um destinado pode suprir nossa, vamos dizer, carência, Kal-El. Ninguém mais, não importa o quanto se iluda com outras mulheres -- olhou diretamente nos olhos do filho de Jor-El vendo o quanto aquelas palavras o atormentaram, ali soube que ele já estava se enganando com alguém, como a sabe-tudo da sua mãe previu -- Ora, ora, veja como é o destino! Eu consigo senti-la!
— O que?
— Veja como o destino é incrível, Kal-El! Sua prometida está perto, sua marca começou a se desenvolver nesse exato momento, concentre-se que irá sentir também, o belo simbolo da Casa de El entre os seios-- sorriu passando a língua entre os dentes, Clark ainda estava embascado pela recente informação, seria o momento perfeito para o general mata-lo mas decidiu brincar um pouco mais -- Que tal nos apresentarmos? Será uma honra fazer a vida sumir dos olhos dela.
Zod levantou vôo naquele momento em direção a lanchonete qual a moça estava, sendo seguido por um confuso Kal, e aí sim: desde que a conhecera sua vida estava de cabeça para baixo."
Ao matar o que acreditava ser o último da sua espécie Clark levantou vôo direto para a sua nave pondo com urgência a chave-mestra da sua família na entrada, vendo o holograma/consciência do seu pai surgir. Pediu, exigiu, implorou pela verdade que seu pai não o contara e então ele viu os últimos momentos dos seus pais e tios, desde o conselho do seu pai com os anciões, a rebeldia de Zod, encontro também a sua bela mãe com sua tia Alura in-Ze implorando para apressar sua escolhida até o momento que o planeta se desfez em fogo, com seus pais e tios se amando pela última vez. Descobriu também que tinha uma prima, mas estava perdida num planeta desconhecido e talvez jamais se encontrassem.
Clark gritou mais uma vez. Tudo na sua vida era uma mentira, até mesmo Lois era uma mentira, a sua mãe Kryptoniana estava certa. Ao voltar pra casa a janta da sua mãe terráquea não parecia mais tão saborosa quanto era e fazer amor com Lois aquela noite nunca foi tão sem emoção, sentiu-se vazio. O mundo jogou os holofotes nas suas costas agora, era seguido constantemente por mísseis e câmeras espaciais, não era exatamente um problema já que ele sempre as destruía mas se perguntava se sua vida seria pra sempre assim, um ciclo vicioso de fuga e vazio.
Olhos castanhos.
Lindos olhos grandes e castanhos surgiu na sua mente. Ela, sua prometida. Chamá-la de sua erguia um ego em seu peito que não sentia orgulho de tê-lo, a moça não deveria ser envolvida em seus problemas, ela não tinha nada a ver com aquilo e não era culpada pelas loucuras do seu planeta, era tão jovem… e linda. Clark tem sonhando acordado desde então, por três dias consecutivos. Como sua tia dissera a atração sexual era inevitável, era a sua prometida afinal, não se sentiria satisfeito fazendo amor com mais ninguém e estava ciente disso, porém a sua mãe disse que a máquina e o soro que usaram na sua prometida quando ainda bebê não poderia simular jamais a mínima das paixões, então o que era aquilo no seu peito? O que era aquilo no seu estômago toda vez que pensava no lindo rosto da sua mulher? Sua mulher... Afinal os dois querendo ou não, lutando contra ou não, no fim, era aquilo que ela era para ele e sempre seria; sua mulher.. Ele sorriu bobo com isso se acostumando a ideia com uma rapidez impressionante até mesmo a ele, um instinto primitivo de carinho repentinamente se alojando em seu peito. Nunca sentira isso antes. Não poderia ser nenhum efeito colateral do experimento dos seus familiares, sabia que eles eram geniais demais para que isso acontecesse, então o que era? Tinha medo das respostas. Tinha medo das perguntas. Era um homem de honra e princípios e gostaria de continuar assim até o fim dos tempos, mas como manter-se numa mentira sendo que a sua verdade já fora apresentada a si?
Kal…
Abriu os olhos rapidamente. Ouvira a voz dela o chamando novamente, tão baixa e distante que poderia não passar de uma ilusão. Mas não pra ele, ela sempre o chamava a esse horário da noite e sabia também se tratar de um sonho. Estava nesse momento flutuando muito acima da cidade de Metrópolis, tão alto que parecia um pequeno cenário de lego abaixo de si. Estava pensando, refletindo, tentando esfriar a cabeça, não queria agir por impulso e acabar a assustando. Sentia o vento forte bater contra sua capa mas não se importava, fechou os olhos de novo se concentrando nas vozes da cidade tentando achar apenas uma pessoa.
Kal-El…
Os abriu de novo ao ouvir a voz baixa e rouca da moça, ela o chamava mais alto agora e não iria fugir mais disso, precisava enfrentar seu destino. Pôs os punhos para frente tomando impulso, voando rápido como uma bala em seguida para um hospital de classe media-alta que ficava perto do destruído centro da cidade, em segundos já se encontrava acima dele. Respirou fundo com os olhos fechados sentindo um cheiro gostoso entrar em suas narinas, cheiro de mulher. Quando menos percebeu estava flutuando frente a uma janela que dava de cara com um beco imundo mas Clark não saberia dizer, o único cheiro que sentia era o dela. Abriu a janela sem dificuldades assim como entrou no quarto também, estava tudo escuro e silencioso mas ele via perfeitamente bem. Via os pequenos pernilongos a várias distâncias do casal, os ácaros do sofá, a película da televisão, flores em cima de uma mesinha com um cartão em cima: "De Tobias para a bela moça que eu salvei", dizia.
'Quem diabos é Tobias?' Se perguntou sentindo-se estranho por dentro. 'Seria um namorado?'
— Kal-El! -- ela gritara chamando sua atenção, contorcia-se na cama num visível pesadelo.
Caminhou alguns passos leves até si temendo acorda-la, ela suava, respiração ofegante.
— Kal...
— Estou aqui —- as palavras fluíram trêmulas dos seus lábios sem que percebesse, assim como não percebeu que sua mão havia se dirigido aos seus cabelos macios e molhados pelo suor os afagando, deixando-a instantaneamente mais calma.
Sem controlar sua visão afiada ele gravou cada detalhe daquele lindo rosto para si: cabelos negros ondulados e bastante volumosos, pele branca rosada, nariz arrebitado com algumas sardas espalhados por eles e pelas bochechas, se não fosse sua visão perfeita ele jamais repararia, olhos grandes apesar de estarem fechados e lábios médios de cor rosada. Linda, simplesmente linda. Sentiu sua respiração ficar ofegante de repente, olhar para aquela mulher não poderia estar fazendo bem para seus neurônios, sentia como se seu estômago habitasse borboletas acrobatas, sua mão coçava para toca-la mais e seus lábios esquentaram ao imaginar como seria beijar os seus lábios tão rosados e quentes, será que eram macios como aparentavam? Será que eram doces? Sentimentos estranhos o invadiu como numa enxurrada, sentimentos fortes e imagináveis que jamais pensou que poderia sentir na vida, parecia que uma porta dentro de si fora destrancada e agora não poderia impedir as coisas que vinham de dentro dela. Kal não percebeu mas seu corpo começou a desmoronar e em segundos estava de joelhos ao lado da mulher que o derrubou de todas as formas possíveis, derrubou seus medos, suas inseguranças, seu vazio e ao se ver completo apenas por estar do lado dela sentia pela primeira vez de dentro pra fora seus olhos arderem, era patético o quanto se emocionara a ponto de querer chorar.
Estava de joelhos por aquela mulher.
E por mais tolo que fosse chegar á uma conclusão tão rápida do ocorrido ele já tinha anos suficientes para saber o que estava acontecendo: Clark havia se apaixonado pela a sua prometida. Ele sabia que era tolo e impensável, mas era exatamente isso. Ele estava perdido. Oh, não, pior, muito pior: paixões são passageiras, era imaturo e ele não tinha mais idade para isso. Mais a frente ele descobriria que estava muito mais ferrado do que imaginava. Afinal, amar Alura Murray Chelsea não era exatamente difícil, mas fazê-la convencer sobre os seus sentimentos não seria uma tarefa muito fácil.
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