You Rock My World
4 IV
Notas iniciais
Ela se considerava uma pessoa defeituosa, achava que era de fábrica; infelizmente havia puxado mais dos seus pais malucos do que qualquer outra pessoa que passou na sua vida. As vezes se perguntava como a santa Rosaly a suportava sendo que nem ela mesma se suportava, seus pais não a suportava, uma vez teve um cachorro e ele fugiu no dia seguinte e tinha certeza absoluta que ele não a suportara também, então era uma certeza que Alura tinha em si era que nasceu para viver sozinha.
E em casa, de preferência.
Seus dedos tamborilavam freneticamente a tela do seu celular em cima das suas cochas, estava nervosa, muito nervosa, e impaciente. "Paciência é uma virtude!" Diziam, e infelizmente ela não era uma pessoa muito virtuosa. Seus olhos passavam pelo quarto numa raiva mal contida, olhara tanto tempo para aquelas paredes que já havia decorado tudo: as paredes era de tom azul bebê, o chão era varrido por porcelanato branco fosco, do seu lado esquerdo havia uma enorme janela que, para o seu azar, como sempre, dava de cara num beco maltrapilho e fedorento mas por sorte era o único infortúnio do lugar qual estava. A sua direita, um pouco mais longe de onde estava, havia uma pequena saleta com um sofá cor creme na parede, uma mesinha de centro de corte engraçado feita de vidro com um vaso de flores vazio em cima, frente a elas uma tv de 40 polegadas presa a parede e um pouco mais ao lado uma porta que a levava ao banheiro. Por incrível que pareça estava numa maca muito confortável, os aparelhos que a monitoravam estava também ao seu lado esquerdo, abaixo de sua maca um tapete cor creme felpudo fora posto para seu conforto, e por mais estranho que fosse soar, todo aquele conforto a deixava ainda mais nervosa.
Sua vida estava um verdadeiro pandemônio.
Há quatro dias estava enfiada naquela "prisão de luxo", como ela mesma apelidara, e não sabia se sua situação estava pior dentro ou fora dela. Quatro dias atrás passara por momentos infernais, quatro dias atrás o mundo mudou de uma forma rápida demais para que pudesse acompanhar, tudo por causa dele, o homem de capa vermelha que algumas pessoas agora chamavam de herói. Sua mente estava uma bagunça, um caos, odiava estar numa situação qual não podia prever ou controlar, era uma pessoa fiel a rotinas e sentia dentro das suas entranhas que aquela estranha revelação sobre homens do espaço mudaria sua vida completamente, muito mais do que já mudou. Era pessoal, sentia que sim.
O pesadelo que vivenciou a alguns dias atrás a abalou de uma forma que não pensou que abalaria. Sua cabeça estava repleta de perguntas quais não queria as respostas, tem pesadelos horríveis e confusos todas as vezes que dormia, a dor e a sensação de impotência sempre a pegava desprevenida vez ou outra e odiava se sentir assim; frágil, exposta e vulnerável. Sentia-se como uma pequena garotinha se escondendo das tempestades monstruosas de Metrópolis, e por mais covarde que isso fosse soar ela queria permanecer assim, escondida pra sempre do extraterrestre forasteiro e fingir que tudo o que sofreu naquele dia não passou de um infeliz infortúnio da vida.
— Lua? -- ouviu uma voz doce atrás da porta do quarto cortando seus pensamentos cinzas.
— Entre -- respondeu rouca como se estivesse engolindo um coquetel de areia.
A porta do quarto se abriu e como sempre a loirissíma e sempre elegante Rosaly Campbell passou por ela, em suas mãos um enorme buquê de flores diversas exalavam um cheiro doce a fazendo torcer o nariz.
— Advinha quem mandou essas lindas flores pra senhorita? — perguntou naquele tom divertido que só ela sabia fazer para contraria-la.
— Flores? Para mim? De que manicômio saiu o remetente? — soou ácida, irônica. Ela nunca ganhou flores na vida e nunca esperou ganhar, sabia que aquele buquê inesperado representava problemas.
— Ai, miga, não começa — Ross suspirou rolando os olhos, voltando a sua energia exageradamente feliz outra vez — Foi o Tobias, aquele seu amigo do acidente. Não é fofo?
— Amigo, o Tobias? O mesmo maldito que deu uma entrevista falando que eu conhecia os alienígenas e que "talvez" estivesse com eles? Jogue isso no lixo, Rosaly! — se alterou sentindo sua pressão arterial aumentar gradativamente fazendo que o monitor do seu coração apitasse — Por causa daquele boca aberta tem uma fila de repórteres me enchendo a droga do saco dia e noite! Sinto como se a qualquer momento a droga do FBI fosse arrombar minha porta e me encher de porrada!
— Calma, calma, respira miga, você não pode se estressar se lembra? Ordens médicas — Ross segurou as mãos dela a olhando com carinho — Todo mundo ficou meio imbecil depois dessa revelação, miga. A gente não esperava por super homens do espaço se atracando em Metrópolis, foi um choque grande demais para lidar, ainda é! Quando vocês foram atacados na lanchonete…
— Resume, Ross — Alura a cortou impaciente, porém mais calma agora. Ross e seus poderes sobre si também era frustante.
— O que quero dizer é que não deveria o julgar pelo susto do momento, ele tá arrependido poxa, foi um momento de estresse pra todos os envolvidos.
— Você me viu ferrar alguém depois do acidente só porque eu estava "estressada"? -- Alura apertou os olhos em direção a si com uma raiva crescendo nas suas fendas carameladas. Ross suspirou chateada, conhecia a amiga bem demais para saber que ela não voltaria atrás em sua palavra por tão cedo.
— Tudo bem, você ganhou, não falo mais do Tobias pra você -- jogou as mãos pra cima em sinal de rendição
— Muito obrigada!
— Mas que ele é um gato, isso é.
— Rosaly!
— Precisava ver sua cara -- Ross gargalhou com vontade caminhando agora pelo quarto para por as flores no vaso do centro -- Mas as flores e o cartão ficarão aqui para ler quando estiver mais calma.
Alura fechou os olhos com força contando até dez lentamente, já imaginava que para a amiga concordar com sua teimosia com tanta facilidade alguma coisa ruim tinha que vir acompanhada, como sempre. Ross ligou a tv no noticiário e pôs o controle no seu colo, se sentando numa cadeira ao seu lado em seguida.
— Quando poderei dar o fora daqui, Ross? -- Alura perguntou depois de um tempo, quando sua raiva já estava controlada.
— De acordo com o doutor Morrison em três dias você poderá voltar pra casa.
— Três dias? -- disse alto a olhando com olhos arregalados -- Não posso ficar aqui por mais três dias! Eu já me sinto bem.
— Miga, você ficou em coma por dois dias depois de ser atacada por seres de outro mundo, eu e o doutor achamos mais seguro que fique aqui ao menos até que suas vertigens e sangramentos nasais passem.
Alura suspirou chateada, de fato ainda não estava cem por cento bem mas não podia ficar naquela prisão por tanto tempo, iria ter um ataque de nervos, sentia isso.
— Ao menos me transfira de hospital. Não me agrada a ideia que gaste seu dinheiro comigo dessa forma, esse quarto é um exagero.
— Bobagem, sabe que isso não faz diferença pra mim -- falou tímida. Ross era a única burguesa que conheceu na vida que se constrangia por ter dinheiro -- Além do mais eu sei que faria o mesmo por mim.
Alura rolou os olhos estressada porém sentindo uma leve quentura nas bochechas, ali estava a mesma Ross que sempre confiava demais em si, de uma forma estranha se sentia bem com isso. Era amiga da solidão, conformada com o fracasso que era e não sentia falta de mais nada, mas Ross era um acréscimo que fazia bem para sua alma, bem de uma forma irritante e escrota mas muito pura. Abaixou a cabeça quando sentiu suas bochechas corarem, coisa tão raro quanto a fada do dente. Não diria em voz alta nunca mas a amava como uma irmã que nunca teve e era eternamente grata por sua amizade maluca.
— Alura, veja isso -- virou para Ross que apontava pra televisão.
O jornal exibia uma música exagerada anunciando uma notícia importante, seguido por âncoras de rosto sério. Alura sentiu que ingetaram gelo líquido em suas veias ao ver a mesma luta de quatro dias atrás filmado por uma câmara amadora, tão violenta e sangrenta quanto lembrava. De repente o soldado negro mirou seus olhos vermelhos para a pessoa que filmava, Alura sentiu seu coração disparar numa velocidade alarmante, o suor descia sua nuca, sabia o que viria em seguida. Então o outro homem de capa o atingiu numa velocidade incrível entrando numa luta selvagem novamente, o arremessando para longe. Ele olhou para pessoa que filmava e veio caminhando lentamente até ele, viu a câmera tremular.
— Corra para longe, é perigoso ficar aqui -- sua voz poderosa retumbou pela tv olhando a pessoa com repreensão.
— V-Você vai n-nos… matar? -- a pessoa, um rapaz ela supôs, perguntou trêmulo. Um vinco se criou na testa do homem musculoso.
— Irei salva-los. Vá pra longe. -- e se virou fazendo sua capa farfalhar exageradamente e num estalo seu corpo voou pra cima como um foguete, a pessoa que filmava gritou por longos segundos.
— Ele está do nosso lado, pessoal! Uhul! -- Alura sentia uma raiva latente na sua cabeça, pela irresponsabilidade e inconsequência tinha certeza que se tratava de um adolescente idiota.
A notícia voltou para os âncoras novamente. No jornal não se falava em mais nada, nas rádios, nos jornais e, por mil diabos, as revistas também foram contaminadas pela chegada do extraterrestres e como trabalhava numa editora de revistas adolescentes já sentia suas esperanças de seguir em frente como se nada tivesse acontecido descerem pelo ralo.
— E agora vamos a principal do dia: O novo ícone Superman! Está realmente com nós ou contra nós? O que acha disso, Janet? -- o âncora se virou para a colega de trabalho.
— Antes de tudo eu gostaria de dizer que ele é um gato! E...
Rolou os olhos novamente já não suportando todo aquele marketing e puxação de saco. Sim, agora o mundo o chamava de Superman! Poderia existir algo mais clichê? Pegou o controle em seu colo e arremessou na televisão fazendo-a desligar, pra sua sorte sempre tiveram boa mira.
— Ei, sua selvagem! -- Ross protestou a olha do indignada.
— Por favor, Ross, isso só piora a minha situação -- tentou fazer sua melhor cara de coitada para a loira a sua frente, o que parecia ter funcionado.
— Perdão, Lua. Deve ser difícil pra você. -- a olhou com pesar vendo os hematomas e cortes espalhados pelo corpo da amiga.
— É, que seja -- se mexeu desconfortável sentindo os pontos que levara nas costas puxar, ser tratada como uma coitada não estava na sua lista de coisas favoritas -- Mas nada se compara a droga do almoço desse lugar.
Como prevendo seu infortúnio uma enfermeira rechonchuda entrou no ambiente segurando uma bandeja de comida pondo em seu colo, Alura fez cara de desgosto enquanto ouvia sua amiga rir gostosamente.
— Não entendo como pode reclamar tanto, o cheiro está uma delícia!
— Quer pra você, então? -- perguntou irônica.
— Nem pensar, senhorita Chelsea! Precisa comer direito se quiser sair daqui rapidamente -- Alura arregalou os olhos para a enfermeira, batendo a cabeça não tão sutilmente na parede atrás de si, seu estresse chegando quase no pico.
— Não me chame de Chelsea, cacete! -- a enfermeira engasgou surpresa com o ataque repentino, Ross se levantou rapidamente sorrindo radiante para a enfermeira apaziguado a situação.
— Pode deixar que eu cuido da Lua, senhora McLaren. Ela vai comer tudinho.
— É senhorita! -- a enfermeira esbravejou com raiva se retirando em seguida, resmungando o quanto as mulheres perderam sua educação com o passar dos anos.
— Não precisava ser tão grossa, Lua. Não tinha como a pobre senhora saber que você odeia seu sobrenome.
— "É senhorita!" -- Alura imitou forçando uma voz engraçada -- Que seja, não como isso aqui.
— Ah, mas vai comer sim! -- Ross gritou ameaçadora -- Ou deixo os repórteres lá fora entrarem pra te entrevistar! -- Alura a olhou com um sorriso irônico nos lábios.
— Você não seria capaz de fazer isso comigo, Ro..
— Quer apostar? -- a interrompeu. Alura fechou a cara, mas no final comeu toda a comida que a enfermeira solteirona trouxera.
(•••)
Era oito da noite agora. Doutor Morrison havia acabado de sair do seu quarto lhe aplicando um forte sedativo que a faria dormir por algumas horas, ela já começava a sentir os efeitos letárgicos no seu corpo
— Preciso ir agora, Lua -- ouviu a voz de Ross meio longe -- Amanhã eu volto às onze, como sempre. Quer que eu traga algo?
— Obrigada—- ela disse baixo, sentia seus olhos quererem fechar de sono -- Obrigada por cuidar de mim e ser minha amiga, sem você estaria sozinha aqui, minha família não se importa. Obrigada, Rosaly.
Rosaly sentiu uma pontada no peito ao ouvir sua companheira. Sabia que para admitir fraqueza o sedativo era fortíssimo e estava agindo no seu corpo com rapidez, mas ficou feliz em ouvir, amava Alura mesmo com seu jeito ogro de ser e estaria sempre do lado dela independente do seu humor.
—- Faria o mesmo por mim -- respondeu ainda emocionada abraçando sua amiga com força.
— Faria qualquer coisa pra te ver feliz, Ross…
E apagou num sono pesado deixando uma Rosaly emocionada para trás, derramando algumas lagrimas. Saiu do quarto, apagou as luzes em total silêncio, rezando internamente por sua amiga e sentindo um afeto crescente no peito.
Ela também faria qualquer coisa por Alura.
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