You Rock My World
3 III
Notas iniciais

Escuridão. Fora a primeira coisa que percebeu a sua volta, em seguida veio o frio, muito frio. O chão estava úmido também, uma textura que fazia cócegas em seus pés e ecoava um barulho estranho ao pisar. Parou de repente, o que ela fazia ali? Quem era ela? Porque estava num lugar como aquele?
Alura...
Virou a cabeça pra esquerda, tinha certeza que ouvira algo. Deu dois passos indecisos em direção a voz ouvindo o barulho dos seus passos soar solitário no ambiente. Como fora parar ali?
Alura...
Acelerou os passos não se importando com os pingos do líquido pegajoso no chão sujando suas pernas nuas, uma repentina fobia crescendo em seu peito.
Alura!
Viu mais a frente uma parede de cor preta, escura como o breu, não sabia como sua visão captou-a em meio a tanta negritude que a cercava. Aproximou-se, percebendo que no centro da parede havia uma brecha por onde escapava uma luz quente, do tamanho de uma fechadura. Dois passos a frente, receosa, podia sentir sua pele se aquecer com o brilho alaranjada que saía da pequena brecha.
Alura!!!
Ouviu novamente e era tarde demais para pensar, seus olhos já procurava com afinco o que a chamava por entre a fechadura na parede. Seu corpo foi tomado pela luz laranja que escapava por entre a brecha e num rápido piscar de olhos se viu num lugar totalmente diferente, seu corpo agora era coberto por um vestido de textura rica e a luz do sol lambia sua face, olhou ao redor devagar, estava numa mansão de arquitetura estranha, uma varanda para ser mais exata. Abaixo da varanda ela viu o caos num planeta diferente qual jamais vira na vida, a tecnologia, as casas, as pessoas, as vestimentas, tudo a fazia se sentir anos luz frente a sua realidade. Ao olhar o horizonte ofegou maravilhada com o tamanho do sol, tão bonito em sua forma, tão atraente. Mas se sentiu triste de repente, o sol estava doente e ela sentia isso, o planeta todo estava e aquilo trouxe lágrimas aos seus olhos, sabia que todos eles morreriam, todo esse povo, todo esse planeta iriam simplesmente... Morrer. E não iria demorar. E ela não gostara de saber disso. Se afastou da varanda assustada, não queria saber, não queria ver, apenas queria sua casa, seu lar. Onde estava mesmo?
— Alura! -- uma mulher gritou ao seu lado, ao olhar pra sua face sentiu a perplexidade lhe bater ao ver o quanto era bela e seus olhos tão intensos, tão azuis que sentiu como se já tivesse os visto antes. Em seu colo um bebê chorava, um bebê com olhos idênticos ao da mãe -- Ainda bem que chegou.
Iria responde-la que não sabia onde estava, não sabia quem era quando a mulher simplesmente andou até si atravessando o seu corpo como se fosse um simples holograma, virou-se de lado perplexa a vendo caminhar em direção a outra mulher do outro lado do cômodo que acabara de entrar.
— Perdoe-me, vim o mais rápido que pude, Lara.
—- Não faz mal, querida cunhada. Conseguiram?
—- Eu e Zor-El trabalhamos á meses nisso. Tenho certeza que dará tudo certo.
—- Graças aos deuses! --- a mulher abraçou seu bebê com carinho --- Ele não ficará só.
—- Jor-El não gostara disso, Lara. Sabe como seu marido é rígido em questões sentimentais, nos reprenderá severamente!
—- Jor-El não precisa saber, nosso bebê não pode ter um destino tão solitário, não permitirei!
—- O que eu não devo saber, minha esposa?
Ela virou a cabeça para a voz atrás de si, um homem robusto e forte mas de olhar cansado falara, caminhando até às outras duas mulheres, passando pelo seu corpo como se fosse nada além de um ectoplasma. Selou os lábios da sua esposa rapidamente e depositou um beijo na testa do seu bebê, olhando para as duas com olhar rígido em seguida.
—- O que não devo saber sobre o destino do meu Kal? --- olhou severamente para sua cunhada a fazendo desviar o olhar, sua esposa se pôs a frente.
—- Não aqui, meu marido. Vamos para a sala de embarque, não há muito tempo.
Então a cena a sua frente tremulou se tornando aos poucos dura e enegrecida como concreto até que se viu novamente no breu, mas antes que o desespero se alojasse em seu peito surgiu uma parede atrás de si que tremulou, tremulou até cair em vários tijolos acompanhado de uma voz firme e raivosa.
— NÃO! -- o homem bateu as mãos na estranha mesa qual estava, se virando de costas em direção a janela do ambiente -- É a minha palavra final.
—- Sua palavra de nada serve contra a de uma mãe, Jor-El -- a mulher que aparentava ser sua esposa disse firme e decidida se levantando também -- Meu filho não ficará sozinho!
—- Nosso filho, Lara! Nosso! E Kal-El não é incapaz de amar e muito menos de procurar o amor por si só, não vejo porque interferir nisso. Eu me recuso a fazê-lo!
—- Zor-El e Alura in-Ze já fizeram! -- Jor-El olhou acusatório para sua cunhada que estava escorada na parede do local, ela o encarou de volta.
—- Não olhe para mim desse jeito, Jor-El. Fizemos o mesmo para nossa Kara Zor-El, é o melhor para eles!
—- Como pode controlar a vida da sua filha que nem nasceu ainda? É apenas um bebê, deve tomar suas decisões, amar suas paixões de acordo com suas vontades. Estão tirando a liberdade emocional dos nossos filhos!
—- Meu marido, por favor, não perca a razão. Isso não simula sequer a mínima das paixões, sabe que não há jeito de criar o amor -- Lara abraçou as costas tensas do seu marido -- Kal será diferente, os humanos o rejeitarão, se sentirá tão só. Meu coração de mãe não permite isso. Ele deverá achar sua companheira o mais rápido possível!
—- Nosso filho não é incapaz, Lara --- repetiu se afastando do toque da mulher -- Pode muito bem achar uma mulher a altura para reproduzirem.
—-- Mas será a errada! -- exaltou-se o largando -- Homens não vêem um palmo a sua frente sem ajuda de uma mulher, dirás uma errada! Sabe quanto tempo isso poderia demorar? Décadas! Meu bebê não irá sofrer por anos, desolado em desgraça ou entre as pernas da mulher errada, seja quem for não o fará feliz, não suprirá o vazio! Ele não irá desperdiçar uma gota de sua semente com uma terráquea errada, não permitirei! -- Jor-El olhou horrorizado para sua esposa, desacreditando que a mulher que tanto ama fosse capaz de falar coisas tão vulgares --- E se, apenas se ele for em busca da mulher certa poderá levar anos a se encontrarem, ela teria a aparência de uma senhora! Não, o meu filho não passará por isso!
—- Basta, Lara! -- a segurou pelos ombros com força -- A reunião com o conselho foi um fracasso, não temos muito tempo para desperdiçar com um assunto já encerrado, isso não irá acontecer! Deixe-o fazer suas próprias escolhas, ele será um Deus para aquele povo, precisará se preocupar com muito mais além de mulheres e herdeiros!
—- Isso já aconteceu -- saiu dos braços do seu marido o olhando com desafio, amava-o mais do que tudo mas não iria permitir que seu filho sofresse.
—- O que você fez, Lara?
—- O que uma mãe deve fazer! -- ela gritou -- Mostre a ele, Alura.
A esquecida mulher moveu-se devagar, estava para ter neném a qualquer minuto e torcia para que acontecesse antes do fim do seu planeta. Digitou rapidamente teclas aleatória numa mesa com milhares de botões e aos poucos imagens foram surgindo em todas as paredes do local.
—- De acordo com os dados que tiramos do planeta que escolheram, a prometida do Kal-El ainda não é nascida, mas conseguimos encontrar seus futuros pais -- imagens de um rapaz hippie engraçado e uma moça de cara azeda foram aparecendo na tela -- São novos mas inconsequentes, não demorará para reproduzirem. Nossas pesquisas revelou que há 99,8% de chance do fruto deles ser a destinada do meu sobrinho. Como Kal partirá em algumas horas uma sonda irá com ele com os dados desse casal, irá acompanhá-los até gerarem frutos. -- ela virou-se para Jor-El -- Quando a máquina reconhecer a destinada ela será marcada, para que em sua veias corra nossa vitalidade pois assim que se encontrarem ela passará a envelhecer de acordo com Kal-El, para que não morra antes de si. Fizemos o mesmo com nossa filha, Kara. Ficamos inseguros se no planeta que escolhemos haveria um predestinado a sua altura e infelizmente não achamos nada, nem parentes que gerarão uma criança compatível a nossa filha, por isso uma sonda idêntica irá acompanha-la por toda sua vida a procura do seu companheiro ideal, não sabemos a espécie dele então não sabemos o seu tempo de vida, por isso a sonda de Kara deu muito mais trabalho a ser criada. Mas conseguimos!
Jor-El sentiu a garganta seca. Sentou-se perplexo
—- Vocês não só estão manipulando a vida dos nossos filhos como também de raças que ainda nem nasceram! Isso é um absurdo, Alura in-Ze! O que você e meu irmão tem na cabeça para fazerem algo assim? É grotesco!
—- Temos em mente que nossa espécie não pode morrer! -- ela se alterou -- Eles iriam se encontrar em algum momento da vida mesmo, é o destino deles, só iremos acelerar esse prazo!
—- Estão brincando com a ordem natural da vida, Alura! Foi por isso que decidimos ter filhos do modo natural, lembra-se? Para trazer de volta a ordem natural das coisas. Com isso vocês estão fazendo nossos esforços valerem menos do que nada!
—- Meu filho não ficará sozinho naquele planeta medíocre, menos ainda se rebaixando pra humana errada! -- gritou Lara calando as vozes dos outros dois -- Se for pra se deitar com uma humana, para ama-la então ao menos que seja com uma destinada a si, com uma que suportará ter seus filhos e seguirá com nossa raça sem alterar a força da nossa linhagem, com uma que preencherá seu vazio! -- Lara agora era um mar de lágrimas, soluçava como uma criança -- Me recuso a ver o homem que amo dizer que estou sendo cruel ao querer o melhor para o meu filho.
—- E na outra criança? Pensaram nisso? E se não for o destino que elas quiserem? E se não for o destino que almejam? Como estarão prontos para pertencerem aos nossos filhos se acelerarem o processo?
—- Nossos filhos serão deuses naqueles planetas, Jor-El…
—- Uma pessoa em sã consciência não irão recusa-los -- Alura completou -- Além do mais a atração sexual será irremediável e isso nada terá a ver com nossa interferência, querendo ou não, o relacionamento tendo paixão ou não, será consumado pois sua almas estarão ligadas para sempre. Estamos apenas garantindo nossa espécie com mais rapidez, Jor-El.
—- E a mim só quero ter a segurança que meu filho estará bem. Ele tem um coração lindo, Jor-El -- ela olhou nos olhos do marido, aqueles olhos que tudo podiam ver -- Ele irá ama-la, irá cuidar dela. Não há honra maior do que essa!
—- E se ela não ama-lo, Lara? O que irá fazer? -- Lara abaixou a cabeça, de fato não pensara nessa possibilidade e nem mesmo a considerava, seu filho seria um deus, lindo em sua magnitude e tinha certeza que todas a amariam. Jor-El balançou a cabeça em negação, se levantou e tomou seu filho dos braços de Lara.
—- Onde irá? -- ela perguntou receosa.
—- Temos menos de oito horas, irei me despedir do meu filho -- virou as costas para sua esposa e cunhada caminhando em direção a si, seu esquecido ectoplasma que observava aquela cena com descrença e horror. Jor-El de repente parou frente a si com o pequeno Kal nos braços, olhava pra sua direção com tanto afinco que imaginou se ele poderia vê-la, deu dois passos em sua direção, e jurava, olhou dentro dos seus olhos -- Eu sinto muito, criança. -- Sussurrou para ela, seu mundo tremeu a sua volta -- Mas seu destino já está traçado a ele.
Diante as palavras do homem, uma parede começou a se solidificar a sua frente. Sentiu quando ele a atravessou como se realmente não estivesse ali e a cena a sua frente começara a se desintegrar. Uma outra formava a sua esquerda mas estava suja, embaçada, não conseguia entrar naquele filme — ou seja lá o que aquelas imagens fossem — então apenas observou de fora, como num cinema. De acordo as imagens iam clareado percebeu de tratar do belo planeta qual vira a momentos atrás, mas estava um caos, uma guerra acontecia. Ao fundo ouvia-se gritos de mulher, aproximou mais da tela para tentar ver melhor o que acontecia.
—- Força, Alura! Falta pouco, bem pouco, só precisa de mais um empurrão -- Lara falava frente as pernas abertas da sua cunhada dando a luz a um bebê. Ela segurou com força na mão do homem ao seu lado dando um último grito indo com ele toda as suas forças, um choro alto fora ouvido -- Nasceu, Zor-El! A pequena Kara!
—- Bem a tempo -- o homem respondeu a pegando no colo e olhando suas feições. Nariz arrebitado, bochechas rosadas, ralos cabelinhos loiros como o sol e lindos grandes olhos azuis escuros -- Tem a beleza da mãe e será uma guerreira como os pais. Nossa filha é perfeita, Alura in-Ze -- aproximou-se da sua esposa que ergueu os braços para pegá-la.
—- Temos tão pouco tempo -- sussurrou deixando algumas lágrimas escaparem. Pôs a neném em seu peito, dando de mamar a primeira e última vez -- Me perdoe por não poder ficar, minha menina.
—- Só temos quinze minutos, querida --- Zor-El disse com pesar vendo a sua mulher que nunca chorou desabar a sua frente beijando o rosto do seu bebê -- É para o bem dela, meu amor.
—- Eu sei, eu sei -- tentou controlar as lágrimas. Não era o momento para desabar, seu destino já estava traçado e nada poderia mudar aquilo -- Seja forte, pequena Kara. Mostre ao mundo quem você realmente é, uma Kryptoniana! Filha de Zor-El e Alura in-Ze, sobrinha de Jor-El e Lara, uma guerreira de sangue nobre! --- beijou a testa da sua filha com amor, entregando nos braços do pai em seguida. Não veria a partida, não queria sentir dor maior ao ver a nave do seu bebê partindo antes de morrer, queria ter na lembrança até o seu fim ela em seus braços.
Zor-El abençoou sua filha como todo pai deve fazer a sua criança, beijou sua testa e se dirigiu até a nave que a levaria deixando Alura in-Ze e a cunhada sozinha no quarto luxuoso da senhora da casa, Lara.
—- Você ainda sangra -- disse baixo ao ver os lençóis da sua cama cada vez mais tingirem-se de vermelho carmesim.
—- Não faz diferença, em breve estaremos todos exterminados -- sorriu amargurada. Lara segurou a sua mão com força deixando enfim o rio de lágrimas banharem seu rosto.
—- Acha que fizemos o certo acelerando o inevitável, Alura? E se nossos bebês sofrerem com nossas escolhas? Eles poderão não estar prontos para a confusão de sentimentos que irão os atingir ao encontrarem seus parceiros.
—- Irão sofrer de qualquer jeito, querida Lara. Serão criados longe do seu planeta natal, sem família, sem instruções, talvez Kara e Kal-El jamais se reencontrem -- Lara chorou aos soluços, ouvira as naves ligando -- Mas pense pelo lado positivo, tivemos muita sorte de achar uma humana compatível com um filho de Krypton, abençoada pela deusa para ser destinada a ele, isso é um milagre! Ele não irá sofrer tanto, Lara, apenas tem de fazer as escolhas certas, não poderá deixá-la escapar -- suspirou -- Só espero que minha Kara encontre o seu destino também, espero que nossos filhos sejam melhor do que nós.
—- Ela encontrará, Alura in-Ze. Tenha fé!
Antes que ela respondesse seus maridos entrara pela porta a trancando em seguida, suas feições cansadas.
—- Deu tempo? -- Lara perguntou desesperada.
—- Sim -- respondeu Jor-El -- As naves acabaram de partir.
—- Também não temos muito tempo -- Zor-El disse pegando sua esposa no colo e a levando até a varanda do quarto para ver o último pôr do sol -- O fim está próximo, querida. Quer ir a algum lugar? Qualquer coisa para ver minha mulher feliz.
—- Não há outro lugar qual eu queria estar além dos seus braços, meu amor -- ela disse alisando o rosto do seu marido se beijando em seguida.
—- Jor-El, ainda está bravo? -- Lara perguntou aos sussurros não querendo atrapalhar a despedida do casal. Ele a abraçou pela cintura a fazendo laçar seus braços em seu pescoço.
—- Não concordo com o que fez, manipulou a vida do nosso bebê e de pessoas que ainda nem nasceram para um fim egoísta, eles iriam acabar juntos de um jeito ou de outro e sabe disso.
—- Mas você não nos ouviu? Nós não…
—- Contudo -- a interrompeu -- Você é a mãe, sabe o que é melhor para o nosso filho e pode ver muito mais além de mim, então confio nas suas decisões. Talvez, só talvez, seja melhor que ele a encontre o mais cedo possível.
—- Oh, querido -- o abraçou com força -- Espero que nosso Kal-El fique bem.
—-- Ele irá, querida -- alisou as maçãs do seu rosto, ouvia o fim cada vez mais próximo deles -- Está tão linda quanto no dia que a conheci, Lara. Eu a amo mais do que tudo, obrigada por fazer minha longa vida valer a pena -- sussurrou vendo os olhos da esposa se encherem de lágrimas, já sentia a quentura da próxima explosão que os erradicaria da galáxia
—- Eu também o amo, meu querido esposo. Nada nesse mundo me fez mais feliz do que os dias que passamos juntos -- e se beijaram com ardor, o último beijo.
Ela se afastou da tela com lágrimas nos olhos vendo a família se desintegrar com o fim do mundo, sumindo das suas vistas como areia sopradas ao vento, desintegrando-se e sumindo até tudo explodir e se resumir a uma poeira no espaço, como se nada jamais tivesse habitado aquele espaço vazio. Andou de costas sem rumo, perplexa com o que vira, um turbilhão de informações fritando seu cérebro. Virou-se e disparou a correr para longe das telas, não queria mais ver, não queria mais saber, não queria mais ouvir, não queria mais aquelas lembranças complicadas que não a pertenciam. Correu no breu úmido e frio, não sabia aonde iria ou até mesmo onde estava mas continuou correndo e correndo, tentando fugir de um futuro inevitável até que num segundo tropeçou na lama estranha a fazendo se contorcer no chão, uma dor aguda e latejante a atingindo na cabeça, a primeira vez que sentira dor desde que se encontrara naquele lugar amedrontador. Sentiu vontade de gritar, a dor aumentando gradativamente, pôs as mãos nos ouvidos para não ouvir as vozes das pessoas que vira anteriormente, para tentar impedir que aquilo realmente acontecesse.
Se encolheu em posição fetal sentindo a dor aumentar de forma alarmante a fazendo gritar, começara ouvir outras vozes, bips, e sentia seu corpo agora em algo relativamente macio.
—- Um médico! Por favor, um médico! Preciso de um médico agora mesmo, caramba! Que atendimento de bosta esse aqui! Eu tô pagando, sabiam disso? Minha amiga precisa de um médico!
Ouviu uma voz conhecida gritar desesperada, sentia uma estranha sensação de familiaridade se apossar de si.
"Ross?" O nome veio a sua cabeça trazendo consigo uma avalanche de informações, como, por exemplo: Seu nome era Alura, odiava seu sobrenome, tinha vinte e dois anos, pais malucos, emprego de merda, uma amiga completamente sem noção, apartamento pequeno, faculdade desgastante e pior: era a pessoa mais azarada do planeta. Já não sabia mais se seus berros eram de dor ou de desgosto por ter de enfrentar sua realidade maluca novamente.
Ross andava de um lado para o outro no pequeno quarto gritando por um médico, ainda que o mesmo já estivesse nele á cinco minutos fazendo os primeiros procedimentos em si que não conseguia parar os sons de lamentos que fugiam dos seus lábios, ora pela dor, ora pela irritação que lhe subia as veias ao ouvir a voz da sua amiga tagarelar sem parar e ora por tentar puxar na memória as poucas coisas que passavam na sua cabeça a momentos atrás, sentia como se uma parte importante de si tivesse evaporado do seu ser, uma parte que faria grande diferença em sua vida dali pra frente.
O que estava acontecendo antes de ouvir Ross mesmo?
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