You Only Live Once
1 Bem vinda a Selva
Notas iniciais
Há cerca de três meses quando me propuseram esse plano, eu pensei que era loucura. Continua sendo loucura, uma baita de uma loucura. Agora, parada com minha mala de rodinhas em frente a uma casinha de madeira, eu tinha mais certeza do que nunca de que isso não podia dar certo. Mas eu tinha que tentar, era isso ou nada.
Fiquei parada na calçada em frente à casa por cerca de 15 minutos, criando coragem para pisar pelo menos na varanda. Estava repetindo uma espécie de mantra na minha cabeça, era o que minha mãe me dizia quando ia fazer uma viagem longa, e eu chorava por medo de ficar sozinha. Absolutamente tudo o que você quer, está fora da sua zona de conforto. Você tem que sair para buscar.
Quando vim da Argentina, tinha muitas expectativas. Encontrar meu pai, fazer parte da nova família dele, pertencer a um novo lugar. Mas nunca me passou pela cabeça que eu, Alícia Baquedano, no alto dos meus 20 aninhos e sem um puto no bolso, entraria em uma universidade.
Prendi o ar, e o soltei vagarosamente, analisando a casa. Aquela deveria ser a república pela qual Ana era responsável, se é que podia se dizer que ela era responsável por alguma coisa.
Conheci Ana há cerca de seis meses atrás, eu cantava em um bar duas vezes por semana escondida de meu pai, e um dia ela me abordou ao final da minha apresentação. Mal pude acreditar quando ela me disse que trabalhava com arte, e gostava da minha voz. Ela me ofereceu uma bolsa integral para o curso de Música da Universidade de Calloun, e ficou cerca de meia hora tentando me convencer de que não era uma pegadinha.
Minha primeira reação foi aceitar, imediatamente. Embora ela não fosse uma pessoa que inspirasse muita confiança assim logo de cara, era o mais perto que eu já tinha chegado de uma oportunidade, e eu precisava arriscar... Mas então lembrei de meu pai. Meu pai mal aceitava o fato de ter uma filha latina, não suportava a idéia de me ver cantar, e eu não podia decepcioná-lo.
No fim, para desespero de Ana, eu fiz minha inscrição para o processo seletivo da Universidade, mas estava determinada a estudar Direito. Era o que ele queria, e era o que eu ia aprender a querer também. Consegui uma bolsa integral.
Então, duas semanas mais tarde quando eu já estava quase conformada com meu destino, Ana apareceu novamente no bar com um plano mirabolante que me permitiria conciliar a música, e o curso de direito. Supondo claro, que dê certo. E foi assim que eu vim parar aqui, com uma mala de rodinhas, sozinha na porta de uma república.
Estava perdida em meus devaneios, sem pressa nenhuma de seguir meu caminho, quando observei uma garota. Ela saiu pela porta da frente com um cigarro na mão. Seus cabelos vermelhos cor de sangue caíam totalmente desgrenhados por sobre o ombro, e seu rosto estava todo borrado, provavelmente por dormir maquiada. Ela usava pijamas. Era quase uma hora da tarde, e aparentemente tinha acabado de acordar.
Demorou um tempo para me enxergar ali, o cigarro já estava pela metade.
– Vai ficar parada aí até quando? – Disse, sem sair do lugar. Seus olhos me mediam de cima a baixo. Ela pareceu encontrar alguma coisa errada na minha vestimenta. – Entra, garota.
Olhei para baixo, pra ver se eu tinha esquecido de por as calças ou alguma coisa assim. Não, ela estava lá. Suspirei mais uma vez, e comecei minha caminhada rumo à entrada da varanda. Logo em frente à cerca de madeira, tinha 4 mini buggies estacionados ao lado de um Volvo azul marinho reluzente, todos sobre o gramado baixo.
– Você sabe quem eu sou, ou sempre convida as pessoas a entrarem na sua casa assim desse jeito? – Perguntei, tentando parecer simpática enquanto subia os degraus da varanda. Ela me parou logo na ponta da escada, com a mão sobre meu peito, barrando minha passagem. Seu olhar não era nada receptivo.
– Eu sei quem você é. – Começou, os olhos vidrados nos meus. As íris verde musgo brilhavam tanto que era impossível não reparar. – Você é a argentina que Ana encontrou num bar, a aluna prodígio. Ela não para de falar em você.
– Meu nome é Alícia... – Murmurei, tentando não gaguejar. Não ousei abaixar a cabeça um segundo sequer, minha voz podia me trair e falhar, mas eu ia continuar encarando-a olho no olho... Ainda que ela tivesse que olhar para baixo pra me alcançar! A garota devia ser uns 20 centímetros mais alta que eu. – Alícia Baquedano.
– Seguinte, Alícia. – Agora ela me segurava pelos dois ombros, o rosto estava mais perto do meu do que eu consideraria confortável, e seus olhos mal piscavam. – Tente se lembrar de três palavras, só três, e você vai ficar bem. Eu. Mando. Aqui. Eu faço o que eu quero, quando quero, do jeito que eu quero. Não se meta nas minhas coisas, e podemos nos dar bem. – Ela ajeitou a gola da minha camiseta, fazendo uma careta de nojo enquanto isso. – Nos vemos por aí, Hermana.
E entrou, me largando lá fora com toda a minha bagagem sozinha. Fiquei tão atônita que me vi novamente na mesma situação embaraçosa de minutos antes: Parada diante da porta parecendo uma imbecil. Eu hein, que garota estranha! Ela está bem doida se pensa que eu vou me deixar intimidar desse jeito.
– Hey! – Um garoto alto e magricela aparecera na porta da casa. Ele parecia totalmente confortável com sua bermuda um pouco caída e o camisetão em gola V, os cabelos castanho-avermelhados desgrenhados e sem corte contribuíam com o seu visual largado. Aposto que se a camiseta não fosse tão comprida, a cueca estaria à mostra. Ele caminhou até a minha bagagem prontamente, e sorriu pra mim. Os olhos cor de mel eram tão gentis que não pude deixar de sorrir em resposta. – Não liga pra Stella, eu não sei o que ela te disse, mas tenho certeza de que não foi muito receptivo. Eu sou Noah, Noah Manson.
– Alicia. – Estendi a mão para ele, ele a apertou.
– Vem, sei que chegar num lugar novo e dar de cara com um trator desgovernado de cabelo tingido não é encorajador, mas eu garanto que a maioria do povo daqui é bem legal. Eles vão deixar que você viva até o fim do semestre.
–Assim espero. – Respondi, mantendo o sorriso no rosto.
Entramos na sala, ele acenou para que eu fosse na frente, mas recusei a oferta. Um sorriso travesso apareceu no canto de seus lábios, como se fosse divertido observar meu nervosismo. Então ele adentrou o cômodo e eu o segui, timidamente.
A casa por dentro era a coisa mais fofa. Na sala de estar, nada combinava e ao mesmo tempo o conjunto dava completamente certo. O conjunto de sofás era feito de madeira, e tinha uma enorme almofada marrom escura onde as pessoas se sentavam. Na parede, bem em frente à janela, tinha uma poltrona reclinável já desgastada pelo tempo, mas linda, e aparentemente aconchegante. Ao lado dela estava uma outra poltrona, mais nova e quadrada, com listras em dois tons de marrom. O tapete tinha um tom de verde musgo que ornava com as cortinas, e o móvel onde estava a TV era todo retrô, antigo, mas reformado recentemente.
Jogado em cima do sofá de dois lugares, com uma garrafa de cerveja na mão e um saco de salgadinhos no colo, estava um cara com cabelos castanhos na altura do queixo e barba rala. Ele é bonito, muito bonito. É alto como Noah, mas não tão magro. Seus braços são bem torneados, e mesmo não podendo ver as pernas devido ao grosso jeans largo, eu poderia jurar que eram torneadas também.
Resolvo parar de olhar quando Stella se joga no colo dele, derrubando o salgadinho no chão. Ela aproxima seu rosto ao dele, e ele a beija rapidamente, mas logo a afasta com os olhos grudados na TV.
– Daqui a pouco, faltam 20 minutos. – Explica ele. Desvio os olhos para a TV e percebo o motivo de tanta concentração. Nada como uma bela partida de futebol americano para separar casais.
Ela está visivelmente irritada, mas disfarça com um sorriso irônico. Aproxima seu rosto do ouvido dele, e morde-lhe o lóbulo da orelha em seguida. Ele estremece, mas não tira os olhos da TV.
– Você vai ter bastante tempo pra se arrepender disso, gato... – Sussurra ela, agora arranhando o maxilar dele enquanto fala. – É uma promessa. – Ela se levanta, atravessa o cômodo, e some na passagem que leva ao corredor.
O cara revira os olhos, e permanece concentrado no jogo.
– Esse projeto de homem largado em um sofá feito bosta mole, é Ryan Dawson. – Noah esclarece. – E essa figura doce e simpática que agora nos priva de sua companhia. – Ele sussurrou o “felizmente” no meu ouvido. – É Stella Windsor. Aposto que ela não se deu ao trabalho de se apresentar a você lá fora.
– Não mesmo. – Respondi, de imediato. – Mas deixou seu recado bastante claro.
Noah mantinha seus olhos em mim enquanto eu falava, ele mal piscava, era meio constrangedor.
– Aposto que deixou. – Ryan se manifestou ainda sem tirar os olhos da tela. Ele tem uma voz forte, rouca, gostei de ouvi-la. Os olhos de Noah se voltaram a ele. Estava começando a achar esse garoto estranho. – Mas não se preocupe, ela vai arranjar alguma outra coisa pra implicar e vai te esquecer antes do que imagina.
Rezei para que estivesse certo, caso contrário, aquela garota encontraria uma adversária a altura. Não a conheço, mas sei que detesto gente folgada.
– Vem, eu vou te mostrar seu quarto. – Noah tocou gentilmente meu ombro, me guiando pelo corredor.
O corredor começava estreito, do lado direito tinha um arco sem portas que dava para uma cozinha de ladrilhos brancos no chão, e azulejos brancos nas paredes. Tudo seria branco demais, se os móveis não tivessem cores vivas como a mesa laranja, e as cortinas floridas que contrastavam com o móvel de mármore escuro que abrigava a pia e o fogão. Do lado esquerdo tinha uma porta de madeira, palavras como “Não estou, não encha o saco, vá se ferrar” e coisas do tipo estavam espalhadas por toda a extensão da madeira, provavelmente marcadas com um bisturi ou qualquer outra coisa pontuda. Bem no meio da porta, gravado em uma plaquinha dourada, lia-se o nome da coordenadora: Anastasia Kailis.
– Esse é o escritório da Ana, e o quarto dela é logo atrás. Ela lacrou a porta do corredor que daria acesso ao cômodo, então essa é a única maneira de entrar.
Assenti. O corredor se estendia um pouco mais a frente, e então terminava, dando origem a dois novos corredores.
– Obviamente. – Começou Noah novamente. – Temos a ala feminina e a ala masculina. Mas isso é só na teoria, na prática a Ana mal vigia a si mesma, que dirá a nós. Ela só diz que se alguém aparecer grávida ela tira a criança de dentro a porradas.
– Onde ela está?– Perguntei. Ela tinha me apoiado incondicionalmente desde o começo dessa história toda. Tinha que estar ali pra me dizer o que fazer já que eu não sabia os detalhes do seu plano mirabolante.
– Quem sabe? Provavelmente tratando de assuntos referentes ao ano letivo. Ela é bem louca mas cumpre com suas responsabilidades. – Noah agora me guiava pelo corredor da direita. Direita Alícia, Di rei ta. Não esqueça, ou vai acabar no quarto de um dos garotos por acidente. – Deve voltar em breve.
Andamos alguns passos pelo corredor da direita, passamos por três portas. As paredes cor de creme pareciam ter recebido uma boa camada de tinta recentemente. Noah tirou uma chave do bolso quando chegamos a quarta e última porta, e me deu as costas por uns segundos para abrí-la.
– Você tem a chave dos quartos das garotas? – Perguntei, arqueando uma sobrancelha. Esperei a resposta,mas ela não veio, ao invés disso ele acenou para que eu entrasse.
– Sua companheira de quarto é a garota mais linda de todo esse campus! – Disse ele, animado. Pegou minha mala no corredor e trouxe-a pra dentro. – O nome dela é Marie, ela foi ao salão de dança, logo deve voltar.
Olhei em volta do quarto, era grandinho até. Por ser uma república, eu imaginava um cubículo. Tinha uma janela grande e arejada em uma das paredes, logo abaixo dela tinha uma cama com a colcha rosa claro e alguns bichinhos de pelúcia em cima. Na parede oposta à cama tinha uma outra cama, esta forrada com lençóis em cores neutras e uma fronha azul clarinha. No fundo, ao lado das cabeceiras de ambas as camas, tinha um móvel grande, claramente dividido em dois. Cada metade tinha uma estante logo acima à cabeceira, e um mini armário acima da estante. Na parte ocupada, via-se bichinhos e fru-frus por toda parte.
– Ela parece ser bem organizada e vaidosa... – Observei, fitando curiosamente a estante acima da cama dela. Alguns livros de autores como Shakespeare, Gil Vicente, e outros gênios do teatro estavam organizados em ordem alfabética, e do lado oposto à estante tinha um estojo de sombras de dar inveja a qualquer mulher, e uma coleção de esmaltes em tons mais claros ao lado. – É sua namorada?
Perguntei, virando-me novamente pra Noah. Ele olhou para mim quando me virei, mas não moveu os lábios uma só vez para responder minha pergunta. Mas que raios, será que eu estava falando tão baixo assim? Que irritante.
– Não vai me responder? – Revirei os olhos, impaciente. – É sua namorada?
Ele levou uma das mãos à nuca e acariciou os próprios cabelos, parecendo sem graça.
– Não, é minha melhor amiga. – Respondeu, simplesmente. Quando pensei que não fosse dizer mais nada, ele suspirou, e continuou. – Você tem que olhar para mim quando fala comigo, eu preciso enxergar seus lábios.
Pisquei os olhos algumas vezes, confusa. O que era aquilo? Uma espécie de cantada barata?
– Eu sou surdo... – As palavras saíram com certa dificuldade de sua boca, mas ainda mantinha um sorriso tímido no canto dos lábios. E claro, depois disso meu queixo foi parar no chão. Como se conversa tanto tempo com um surdo sem perceber que ele é surdo?
– Co... Como? – Foi o único som que consegui emitir, tamanha era a minha surpresa. Por sorte ele parecia ter entendido o que eu queria saber, pois seu sorriso se alargou.
– Não sou surdo de nascença, fiquei assim há pouco mais de um ano depois de um acidente. É por isso que consigo me comunicar numa boa, eu conheço o formato das palavras, mas não sou mãe Diná, você precisa olhar pra mim! – Esclareceu, dando um soquinho fraco no meu ombro.
– Oh... – Murmurei, envergonhada pela forma rude com que cobrei uma resposta. – Desculpe... Mas Porque raios você não falou logo???
Ele pareceu se divertir com a minha reação.
– Eu gosto de ver quanto tempo as pessoas demoram pra descobrir.
Piscou pra mim, rumando em direção à saída do quarto.
– O banheiro das meninas é bem aqui em frente. – Apontou para a porta da frente. – Pode dormir se quiser, tem toalha no guarda roupa para tomar banho, e umas 4 horas aparece lá na sala. Você vai conhecer a praça.
Piscou pra mim e sumiu porta afora. Queria saber o que raios acontecia nessa praça.
Finalmente estava sozinha com meus pensamentos novamente. Suspirei, abrindo minha mala. Tateei minhas coisas em busca do retrato da minha mãe, queria colocá-lo o mais rápido possível na minha mesinha de cabeceira.
Meu Deus, eu estava me enfiando no meio de um manicômio. Vou sair daqui “Loca como El tigre” que nem a Shakira.
Ai Mamá, ayúdame. Rogo a ti, ayúdame por favor! Me siento tan sola!
Olhei o retrato dela por um tempo, alisando suas feições como se ela pudesse sentir minhas carícias. Por fim, beijei o retrato e acomodei-o na mesinha ao lado. Só então pude notar um pedaço de papel ali, bem ao lado do despertador. De longe reconheci os garranchos de Ana no bilhete, tinha um outro papel grampeado com ele.
Alicia,
Desculpe não estar aí para te receber, me apareceram umas coisas pra resolver. Devo estar por aí em breve. Grampeei o horário de suas aulas do curso de direito, dê uma olhada. Você é livre para transitar por todas as acomodações destinadas aos cursos de artes por todo o seu tempo livre, pode assistir as aulas, pode usar os estúdios, os instrumentos, as salas de ensaio e pode alugar um dos meus pupilos pra te ajudar sempre que precisar. E se alguém se negar, ou implicar com você por aí, a gente inventa uma punição bem dura tipo ser meu escravo por tempo indeterminado. Oficialmente você está inscrita em uma república próxima ao prédio de Direito, mas eu mexi meus pauzinhos e te coloquei aqui, acho que vai ser mais fácil pra você aproveitar o seu tempo, e conviver com pessoas que tem os mesmos objetivos e sonhos que você.
Se cuida guria,
Ana
Sorri, balançando a cabeça negativamente. Folheei o bilhete em busca do meu horário e passei os olhos nele. As aulas pareciam tão entendiantes... Será que existe alguém nesse mundo que estuda isso por livre e espontânea vontade?
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4 horas em ponto, me encontrei com Noah na sala conforme tinha prometido. Subimos em um daqueles mini buggies estacionados no jardim e em cerca de 15 minutos desembarcamos no centro do campus.
Nos sentamos em um banco em frente a praça. É um lugar bem arborizado, com mesas para piquenique ao lado de uma pequena churrasqueira, 2 quadras poliesportivas (uma do lado direito, e outra do lado esquerdo) e uma trilha. A praça era cercada dos dois lados por pequenos estabelecimentos: Uma hamburgueria, uma lanchonete saudável (tipo subway), e outras barracas que ofereciam todo o tipo de comida imaginável. No meio tinha um coreto encantador, com degraus na frente e atrás, e grades baixas em volta. Algumas trepadeiras se enfiavam no meio das grades. Lá em cima, uma garota se apresentava com um violoncelo. Em volta tinha muitos e muitos canteiros com diferentes tipos de gramas e flores. O caminho por entre eles era feito de pedra, algumas pessoas se amontoavam entre eles, sentando-se nas muretas.
Noah me contou mais sobre as curiosidades do campus, as lendas, os micos, e coisas que ele achava que eu deveria saber sobre as pessoas mais famosas dali. Queria saber mais sobre Marie, mas sempre que perguntava dela, ele ficava tão vermelho que eu pensava que ia explodir, então sorria de canto e mudava de assunto.
Me falou também que ele, Ryan, e Stella fazem parte de uma banda com dois outros caras que eu não conhecia, fiquei empolgada para vê-los se apresentarem. Provavelmente iam tocar mais a noite, os instrumentos estavam com Ryan.
Estávamos há cerca de 20 minutos ali, quando Noah acenou animadamente para uma garota que saía de outro daqueles mini buggies, ela estacionara há alguns metros de nós. Aquilo era bem útil sabe, seria bem difícil se locomover sem eles.
A garota sorriu, acenando de volta pra ele, e então caminhando em nossa direção. Wow, aquela chica parecia ter saído de um catalogo de moda, de verdade. Seus lindos cachos loiros caíam até a sua cintura, e seus olhos azuis cristalinos brilhavam mesmo a certa distância. Ela usava uma blusinha de manga comprida branca que deixava à mostra uma faixa pequena de sua barriga, e uma saia meio rodada de rendas verde clara.
De repente eu me senti desleixada com meus fios castanhos presos em um rabo de cavalo mal feito, meus jeans, e minha camiseta neon do coldplay.
– Bon jour Mademoiselle! – Cumprimentou ele, indo ao encontro dela e abraçando-a pela cintura. Estalou um beijo em sua bochecha. – Você está parecendo uma boneca Barbie que acabou de encontrar a Fada Azul e virou uma menina de verdade.
Brincou ele, ela lhe deu um tapa no ombro e lhe mandou calar a boca, rindo. Me lembrei das palavras dele no quarto dela mais cedo (ainda não sentia que aquele quarto era meu). “Ela é minha melhor amiga.” Me perguntei se toda essa atmosfera elétrica que eu podia sentir entre eles era coisa da minha cabeça, e se não fosse, será que eles conseguiam sentir também?
– Esta é Alícia! – Ele apresentou, puxando-a pela mão para que se aproximasse de mim. – A garota que você abandonou durante o primeiro dia. Ela foi recebida pela Stella sabia?
O lindo rosto se contorceu em uma careta.
– Desculpe por isso. – Ela disse. Sua voz ornava perfeitamente com todo o resto, era baixa, doce, e ficava ainda mais sofisticada devido ao delicado sotaque francês. – As coisas saíram do controle, estou treinando para um teste, quero o papel principal da próxima peça de teatro.
Seus olhos brilhavam de excitação. Devia ser maravilhoso simplesmente seguir os sonhos sem se preocupar com nada além disso.
– Não tem problema, Noah me mostrou tudo, eu acabei sobrevivendo. – Respondi, tentando ao máximo ser simpática. – Marie, certo? Bem, ele não estava brincando quando disse que você era a garota mais bonita desse campus.
– Ele disse isso? – Ela virou-se para ele, surpresa. Noah não negou, nem confirmou, apenas levou a mão a nuca e olhou para o chão, sorrindo envergonhado.
– Bom, eu vou atrás de Ryan, preciso montar minha bateria se quiser tocar as 6. – Desconversou ele, sumindo em meio à multidão. Queria saber como um surdo toca bateria, perguntaria a ele mais tarde.
– Como é que se come nesse lugar? – Perguntei a ela, logo que Noah saiu. Eu estava com fome há bastante tempo. Tentei comprar uma porção de batatas fritas, mas quando ofereci meu dinheiro eles riram da minha cara. Claro que aquele imbecil magricela que devia ter me avisado foi o primeiro a rir, e ainda se recusou a me dizer como se fazia com a desculpa de rir mais um pouco às minhas custas mais tarde.
– Você ainda não tem seu cartão magnético? – Ela enfiou a mão dentro da bolsa, tirando de lá um mini cartão bem simples, com seu nome e curso nele. Parecia uma espécie de carteirinha, mas aparentemente não se podia nem comer sem ele. – Tome, use o meu. Amanhã eu vou com você ao prédio da secretaria e te arrumamos um, aí você me paga um almoço. – Piscou pra mim. – Aqui tudo é pré-pago. Seu cartão é recarregado todos os meses com uma carga de 200 libras. Claro que nada disso sai de graça, esse preço está incluso na mensalidade.
Ela sentou-se no banco onde estávamos minutos antes de sua chegada, então deduzi que não fosse me acompanhar até o quiosque. Acenei para ela em sinal de agradecimento e rumei ao quiosque de batatas fritas, louca de fome.
A fila estava grandinha, mas não me importei com a espera. Olhei mais uma vez em volta. A garota com o violoncelo não tocava mais no coreto, cedera o lugar para uma dupla de humoristas, não podia ouvi-los daqui pra dizer se eram engraçados. As muretas dos canteiros aos poucos se enchiam de gente, aparentemente a praça era o point de sexta feira à noite na faculdade.
E quando finalmente acabei de passar meus olhos pelo ambiente ao meu redor, sobressaltei-me ao ver um imbecil olhando para mim com cara de tacho logo atrás na fila.
– Olá – Disse ele. Arqueei uma sobrancelha, aquele sujeito era bem estranho. Suas roupas, seu jeito, o penteado, tudo parecia formal demais pra um happy hour na praça. Por deus, ele estava de calça social e camisa, só faltava a gravata. — Nova por aqui? Acho que me lembraria se já tivesse te visto antes.
Me deu uma súbita vontade de rir. Sério, de verdade, milhões de pessoas me viam todos os dias e a maioria delas não lembraria de mim se me visse depois. Esse cara provavelmente não se lembraria de mim amanhã. Contive o riso.
– Sim, cheguei hoje. – Respondi.
Ele tirou uma das mãos detrás de suas costas, e nela estava uma rosa vermelha. Ele estendeu-a para mim. Arregalei os olhos, completamente surpresa.
– Bem vinda!
Conversamos durante todo o tempo em que estive na fila (cerca de cinco minutos). Eu achei realmente fofo da parte dele me dar uma flor, será que me achava bonita? Ele certamente era bonito, apesar de coxinha.
Descobri que o nome dele é Joshua Hook (N.A: Hook = Gancho em inglês.), zoei ele por isso, nos divertimos um pouco. No fim, por mais que meus primeiros momentos com Stella não tivessem sido dos mais encorajadores,eu tive sorte no meu primeiro dia. Conheci Noah, que parecia um cara legal, acho que vou me dar bem com minha colega de quarto, e ainda tinha recebido uma flor de um carinha que parecia ser um amor.
– Se precisar de ajuda, ou quiser um guia, pode me ligar. — Pegou gentilmente o celular da minha mão e anotou seu próprio telefone. Colocou seu nome como “Capitão gancho”, e eu simplesmente não conseguia parar de rir disso.
– Que foi? Eu escutei essa piadinha minha vida inteira, o maior jeito de derrotar o inimigo é se unir a ele! – Ele ria também, mas seu rosto estava levemente corado de vermelho. – Pelo menos agora você vai lembrar de mim sempre que assistir Peter Pan.
Eu queria poder discordar, mas ele tinha razão.
Quando finalmente peguei a batata frita, segui de volta ao banco onde deixei Marie, e Joshua veio comigo. Ele me falava curiosidades sobre suas aulas de arquitetura e o programa de natação da faculdade, que foi o verdadeiro motivo pelo qual ele escolheu esse lugar. Meio que me identifiquei com isso, entendia perfeitamente como era, como ele se sentia.
Quando nos aproximamos, vi que Marie não estava mais sozinha. Noah brincava com ela, ele tinha alguma coisa nas mãos que ela queria pegar. Eu tinha deixado um amigo assim na Argentina... Mas não queria pensar sobre isso. Ryan andava de um lado para o outro em frente ao banco, segurando o celular no ouvido com mais força do que o necessário.
– Eu não acredito que você não apareceu. Onde raios você se enfiou ?! – Gritava ele ao telefone. – Não, eu não quero controlar todos os seus malditos passos, mas precisamos de você pra tocar! Stella! Não se atreva a desligar essa porr... DROGA!
Parou de gritar, por fim, jogando o celular no chão. Passada a distração com o celular, Ryan ergueu os olhos pra nós, e a raiva que já existia em seus olhos se intensificou quando ele olhou para Joshua. Fiquei olhando de um para o outro, pasma. Ninguém se mexeu por um tempo.
O primeiro a se mover foi o próprio Ryan, que caminhou pé ante pé, vagarosamente em direção a nós. Seus dentes estavam cerrados e seus punhos fechados. Parecia completamente diferente do cara que eu vira de manhã.
– Fique longe dela. – Disse a Joshua, entre dentes.
Joshua piscou, parecendo confuso. Ergueu as mãos para o alto em sinal de rendição.
– Eu só acompanhei ela na f...
Ryan empurrou-o com as duas mãos, tão forte que o coitado se desequilibrou e caiu no chão.
– Eu tenho outros problemas pra resolver, não to com tempo pro seu cinismo... Só fica longe dela se quiser preservar essa sua cara de bunda intacta.
Noah conteve uma risadinha, Marie olhou feio pra ele.
Eu não sabia o que deveria fazer. Não conhecia direito nenhum dos dois, não sabia em qual dos dois poderia confiar mais.
– Eu vou embora Alícia... – Joshua murmurou, levantando-se. Estendi minha mão para ajudá-lo. – A gente se esbarra por aí. Sabe onde me encontrar.
Ryan ergueu o punho, e por um segundo pensei que fosse dar um murro na cara do sujeito, mas não o fez. Apenas suspirou, tentando manter a calma da maneira que podia enquanto o observava se afastar. Quando finalmente perdeu Joshua de vista, seus olhos procuraram a mim.
– Se souber o que é bom pra você, não fale com ele quando “esbarrarem de novo por aí”.
Ele estava falando sério, bastante sério. Eu só não conseguia entender o que raios podia ter de errado com aquele garoto. Ele me parecia tão educado, gentil, prestativo.
– Olha, relaxa aê todo mundo, é o primeiro dia da garota, e ela já teve mais emoções do que o necessário por hoje. – Noah se manifestou, me abraçando pelos ombros fraternalmente. – Porque vocês não voltam pra casa? Eu pego umas cervejas e a gente, sei lá, faz um som na sala mesmo, com violão e talz.
Ryan acenou com a cabeça, concordando.
– Já que a irresponsável vocalista da porra da banda sumiu no mundo! – Reclamou ele remexendo o bolso, tirou dele uma chave. – Alguém quer carona?
Noah e Marie negaram. Ela rumou ao Buggie que estacionara um pouco adiante, e ele foi atrás das cervejas, acenando para que eu fosse com Ryan.
Dei de ombros e segui Ryan até o volvo azul marinho estacionado há uns 2 quarteirões adiante. O que pode acontecer afinal? Ele parece bem irritado e levemente transtornado, e pretende pegar o volante. Nada de mais. Na pior das hipóteses eu morreria.
– Então... Dia difícil? – Murmurei, meio insegura. As mãos dele permaneciam bem fechadas em volta das chaves, seus passos eram duros e firmes contra o concreto da calçada, e seus olhos estavam vermelhos e saltados. Caminhava ao lado dele, correndo um pouquinho para acompanhar seus passos rápidos.
– É... Dificuldade é um bônus quando se aceita Stella por perto. – Sua voz estava ainda mais rouca, dolorida. Seus olhos lacrimejaram por um segundo, talvez mero reflexo da raiva. Mas ele logo tratou de reprimi-las.
Por um segundo, me perguntei como ele e Noah poderiam ser amigos. Um fazia de tudo uma piada, até dos próprios problemas, o outro parecia levar tudo a sério demais. Mas no segundo seguinte me lembrei da atitude da garota ao me receber, e então a segunda pergunta que veio a minha mente fazia muito mais sentido pra mim: Como ele poderia se relacionar com uma garota como Stella?
Quando chegamos ao Volvo, Ryan entrou no banco do motorista, batendo a porta bem forte. Seu braço longo atravessou o banco do passageiro e abriu a porta pra mim, achei bem fofinho da parte dele.
Uma de minhas pernas já estava dentro do carro quando um ciclista bem rápido passou ao nosso lado, jogando uma coisa no meu colo. Era uma rosa, tomei cuidado ao pegá-la nas mãos pois ela ainda tinha espinhos. Era vermelha, e estava bem aberta, linda. Uma fita preta estava amarrada a ela. Pensei em Joshua... Só poderia ser ele, não é?
Ryan colocou a chave na ignição, e estava quase dando a partida quando notou a rosa em minhas mãos. Seus olhos se arregalaram um pouco, e suas sobrancelhas franziram. Se continuar nesse ritmo, vai ter rugas aos 30.
– Se livra disso. – Disse, simplesmente, tentando arrancar a flor de minhas mãos. Tirei-a de seu alcance.
– Não! – Gritei, indignada.
– Isso não é bom! Eles marcaram você! – Gritou, ainda mais alto do que eu. Um enorme ponto de interrogação se formou em minha cabeça. De que raios ele estava falando?
– Me marcaram? Me marcaram pra quê? Quem? – Abaixei a voz, fitando-o, agora sem ao menos piscar. Esse cara é louco, definitivamente é louco.
– A fita preta... Eu não tenho como provar, mas é uma marca.
– Marca de quê?
Ele suspirou longamente.
– A marca da seita.
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