You Only Live Once

2 Temos tudo sobre controle... Ou não.


Notas iniciais
Voooltei! O primeiro capítulo foi inteiro do ponto de vista da Alícia, porque ela é a protagonista e eu precisava apresentá-la direitinho, mas a partir de hoje os caps vão ser divididos entre os personagens. Eu acho que assim fica mais divertido de escrever, tenho que entrar em várias cabeças muahahaaaa! Enfim, aproveitem e comentem ok? Eu não mordo, pelo contrário, adoro falar. (Nem dá pra perceber né?)

PDV da Alícia

Quando abri os olhos na manhã seguinte, minha cabeça era um emaranhado de pensamentos e dúvidas. A rosa vermelha com a fita preta não saía da minha cabeça, muito menos minha conversa com Ryan depois disso.

Flashback

– Todos sabem da lenda da Seita, isso circula por todos os corredores desse campus, mas ninguém acredita... – Começou, depois de uns 5 minutos de um silêncio quase insuportável. Ele estava enrolando e eu queria saber mais. – O negócio é que eu não tenho como provar, mas eu acredito. Acredito de olhos fechados.

– E qual seria a “Lenda da Seita”? – Perguntei, subitamente interessada naquela conversa.

Ele girou a chave na ignição, suspirando longamente. Pareceu ponderar por um momento se deveria ou não me contar, felizmente, optou pela primeira alternativa. Levou a mão direita aos fios castanhos, a franja lhe caía sobre os olhos. Ajeitou-a para trás, e então voltou às duas mãos para o volante tirando o carro da vaga. Decidi não apressá-lo, mas a curiosidade estava me matando.

– A lenda diz que a Seita é um grupo de estudantes daqui. – Começou, mantendo os olhos fixos na direção. Vagarosamente, nos afastamos da praça. Somente quando viramos a esquerda numa estradinha de asfalto foi que o carro ganhou velocidade, e Ryan continuou a falar. – Um grupo da elite, ricos, filhos das figuras mais importantes da Inglaterra, talvez do mundo todo.

Outra pausa.

– Eles... selecionam os estudantes. Perseguem os bolsistas.

– Tem uma novela mexicana com uma história igualzinha! – Interrompi, não me contendo. Ele olhou feio pra mim.

– Só que isso não é novela, é de verdade. – Ele enfatizou. Olhei-o com mais incredulidade do que deveria. – É sério... Olhe, semestre passado, um garoto morreu no meio da praça. Teve choque anafilático.

– Choque o quê?

– Morreu de alergia. – Imaginei uma pessoa morrendo naquela praça assim que as palavras saíram da boca dele. Já pensou? Todos lá, se divertindo e de repente uma pessoa cai morta? – O nome técnico pra isso é choque anafilático. – Esclareceu ele. – O carinha era aluno de um amigo da Ana, parece que ele tinha alergia a um corante e ingeriu uma grande quantidade dele em alguma comida ou bebida do quiosque.

Ok, agora eu entendia o que era Choque anafilático, mas ainda não entendia a relação desse acidente com uma seita que sinceramente eu duvidava que existia, e minha rosa.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– As comidas daquele quiosque são feitas artesanalmente, e todos ali garantem que não usam aquele tipo de corante.

– Meu, você não tem mais o eu fazer não? Realmente foi atrás de detalhes como esse? Você nem conhecia o cara!

– Não vou deixar pessoas morrerem porque eu não as conheço. – Deu de ombros, ainda sem tirar os olhos da estrada. – Ana tem me ajudado, foi ela quem descobriu que o tal carinha recebeu uma rosa que nem a sua. E então recebeu ameaças, avisos, ele foi intimado a trancar a matrícula, e se recusou.

– Ryan, o cara morreu de alergia! – Comecei, ponderadamente. Eu mal podia acreditar que um homem feito estava defendendo uma teoria de conspiração. Francamente, ele devia experimentar jogar RPG. – Sei lá, o resto pode ser brincadeira de mal gosto, não deve ter relação nenhuma entre as duas coisas.

– Todos pensam assim, é por isso que ninguém investiga! – Insistiu. Revirei os olhos, erguendo as mãos para o alto num sinal de rendição. –É como eu disse, não tenho como provar. Pelo menos por enquanto. Só se livra disso e fica longe do Hook.

– Você acha que Joshua tem alguma coisa a ver com isso ?!

Ele não respondeu, mas pelo maxilar contraído e a expressão endurecida eu sabia a resposta. De repente eu entendi o que ele tinha em comum com Stella: Os dois são completamente loucos.

Fim do Flashback

Bocejei, esfregando os olhos com a mão direita. Podia escutar o barulho de chuveiro ligado, e Marie cantarolando baixinho. Peguei meu relógio na mesa de cabeceira, os ponteiros (sim, gosto de relógios de ponteiro, me julguem) marcavam 9:00.

Levantei-me vagarosamente, ficando de frente para minha própria imagem refletida no espelho do guarda roupa duplo. Os poucos raios solares que adentravam as frestas da janela fechada eram o suficiente para dar certa luminosidade ao quarto. Meu cabelo estava todo emaranhado, como de costume, meus olhos marcados pelas rotineiras olheiras embaixo dos olhos. Não importa o quanto eu durma, elas sempre estão lá.

Troquei de roupa sem pressa, colocando uma calça jeans larguinha e uma regata listrada de rosa e verde, depois penteei meus fios castanhos e os prendi num rabo de cavalo alto. E claro, durante todo esse tempo a rosa não saía da minha cabeça, muito menos as palavras de Ryan. “Se livra disso e fica longe do Hook” Ele está completamente maluco, não está?

Marie saiu do banheiro, me tirando dos meus devaneios. Secava seus longos cachos loiros com uma toalha, enquanto outra estava presa em seu corpo.

– Bom diiiiia! – Cantarolou ela, abrindo o guarda roupa e retirando um pente e um pequeno pote de gel modelador de cachos. – Dormiu bem? Eu vivia batendo a cabeça nessa estante da cabeceira no começo.

– Eu dormi bem sim, só acordei cedo com umas caramiolas na cabeça. – Murmurei, a imagem da rosa voltou à minha cabeça mais uma vez. – Você acredita nessa teoria toda do Ryan?

Ela demorou a responder, suas mãos deslizavam o pente carinhosamente por entre os cachos.

– Ele te falou sobre o garoto que morreu? – Perguntou, baixando um pouco a voz. Acenei afirmativamente. Os olhos da garota passaram a mirar os próprios pés, e o brilho dos olhos azuis se apagou momentaneamente. – Eu o vi morto, Alícia. Todos nós o vimos. As pessoas saíram de perto formando um espaço vazio enorme em volta dele, eu não suportei vê-lo ali, sozinho, caído, sem ninguém pra lhe dizer nada, ou confortá-lo de algum jeito

Ela fez uma pausa. Despejou em uma das mãos uma quantidade mínima de gel modelador de cachos e espalhou por todo o cabelo, com uma paciência que sinceramente eu não teria.

– Quando eu me debrucei sobre ele, com Noah e Ryan no meu encalce, seus olhos se fixaram nos meus e permaneceram assim sei lá quanto tempo, enquanto nós aguardávamos o maldito socorro... e eu vi... Eu vi exatamente o momento em que ele morreu. Tenho pesadelos com isso até hoje. – Ela ergueu os olhos para o espelho, se recompondo. Seu reflexo encontrou meus olhos. – Eu não sei, se a teoria do Ryan é verdade ou não. Mas eu me sinto responsável por ele, todos nós somos, porque ninguém mais se importa. Então nós não podemos deixar todo mundo esquecer essa história, alguma coisa tem que ser feita.

Sabe, a primeira vez que botei o olho em Marie, eu enxerguei uma linda mulher, totalmente patricinha e até um pouco fútil. Mas agora eu nunca mais conseguiria enxergá-la dessa maneira. Ela era bem mais que isso.

Ela balançou a cabeça negativamente, provavelmente afastando lembranças ruins, e então se debruçou sobre suas gavetas tirando duas peças de roupa de lá.

– Me desculpe, mas vou ter que te deixar hoje de novo, fiquei de receber um amigo, ele é novato também. – Mudou de assunto, mas manteve seus olhos no chão por todo o trajeto do guarda roupa até o minúsculo banheiro. – Você vai se dar bem com a galera, eles são ótimos. Talvez Noah possa te mostrar um pouco da área acadêmica.

– É, talvez. – Murmurei, quando me lembrei finalmente da minha habilidade de falar. – Não se preocupe, eu vou ficar bem.

Ela me dirigiu um sorriso triste e fechou a porta do banheiro. No fim, minha pergunta não tinha sido completamente respondida. Eu ainda não sabia se Marie acreditava nele ou não, e não sei porque essa informação é tão importante pra mim, simplesmente é. Mas agora eu sabia, que com seita ou sem seita, tem alguma coisa muito podre nessa história.

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PDV do Adam

Estar aqui, em meio a todos esses prédios ainda é meio surreal para mim. Eu conheço bem o programa de artes da Universidade de Calloun, passei metade da minha vida ouvindo as histórias de minha mãe sobre esse lugar, e a outra metade planejando, arquitetando, e estudando maneiras de estar aqui hoje. Eu posso ver parte daquelas histórias quando olho para a pequena fonte no meio do complexo de prédios, ou quando passo meus olhos pelo caminho de grandes pedras chatas e amarelas que a cercam se desdobrando em diferentes caminhos, cada um levando a um prédio.

Algumas coisas, no entanto, estavam diferentes de como eram na época de minha mãe. O prédio menor à direita abrigava o estúdio de música, minha mãe contava que gostava de ir se refugiar ali para escrever quando a sala não estava em uso. Mas na época dela as paredes eram todas fechadas (com exceção de duas pequenas janelas) e feitas de tijolos. Hoje, duas daquelas paredes permaneciam ali, mas as outras duas tinham sido substituídas por vidros que brilham tanto que quase me cegam.

Fora isso, tudo parecia ter um toque a mais de modernidade que não fazia parte das histórias. As paredes amarelas agora eram brancas, as portas manuais agora eram automáticas e sinceramente eu estava ansioso para saber quanto essa modernidade tinha afetado o ambiente por dentro.

– Dou um dólar pelos seus pensamentos. – A voz tão familiar veio de algum lugar atrás de mim, e eu sorri quase que instantaneamente

– Duas coisas. – Virei-me em sua direção, e antes que me desse conta ela já tinha jogado seus dois braços em volta do meu pescoço, me abraçando forte e bagunçando meus fios loiros. – Primeira: Essa expressão já saiu de moda, logo você, tão antenada, deveria saber disso. – Ela riu, exibindo seus dentes branquíssimos. – Segunda: Sério que eu to valendo tão pouco assim?

Quando afrouxamos o abraço eu pude olhar para ela mais a fundo. Marie sempre me lembrou aquelas bonecas de porcelana, antigas e frágeis feito cristal. Desde o seu primeiro dia na minha rua, quando ela veio até mim meio chorosa, com os olhos inchados mal sabendo falar inglês, eu simplesmente a coloquei embaixo das minhas asas e passei a amá-la como uma irmã menor. E um irmão mais velho sabe quando algo está errado com a irmã menor.

– Qual o problema? – Perguntei, ajeitando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.

– Não é nada. – Balançou a cabeça negativamente. – Só lembranças difíceis.

Eu sabia que ela não estava mentindo. Não me deu uma resposta que se pode chamar de conclusiva, mas não estava mentindo. Ela faz um negócio estranho com as sobrancelhas quando mente, elas se franzem de um jeito engraçado.

– Mas não importa, alguém aqui está realizando um sonho hoje, e é isso o que importa! – Ela sorriu timidamente, passando um dos braços pelo meu ombro e me empurrando em direção a entrada do prédio de literatura.

Eu sempre soube que queria ser escritor, graças a minha mãe eu sempre me mantive próximo a esse mundo. Mas esse é um termo muito amplo, existem diversos tipos de escritores para ainda mais diversos tipos de leitores. E foi graças a Marie que eu descobri que queria escrever peças de teatro.

Na quarta série ela bateu na porta da minha casa absolutamente frustrada por ter que interpretar uma árvore sem falas na peça da escola, ela chorou por horas. Depois de consolá-la, enchê-la de comida e consolá-la mais um pouco, eu decidi que faria uma história onde ela seria a protagonista, e assim eu fiz. Ficou um completo desastre, um lixo, tão ruim que nem ao menos conseguimos colocar em prática, mas a partir daquele dia, eu nunca mais parei.

– Graças a você. – Murmurei, puxando-a para mais perto e beijando-lhe o topo da cabeça.

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PDV do Ryan

Sabe aquele momento em que você abre os olhos ao acordar, e por uns segundos nada passa pela sua cabeça? É tudo um borrão só, você não se lembra onde está e em que pé está a sua vida? Sabe, quando sua vida está na merda, isso pode ser bastante reconfortante.

Mas não dura muito... De repente suas memórias chegam numa cacetada só, e você percebe que está ferrado quando a primeira palavra que você pensa depois disso é: CARALHO.

Sim, caralho.

Pego meu celular na mesa de cabeceira, já passa do meio dia. Procuro qualquer sinal de Stella nas minhas mensagens, ligações perdidas ou recados na caixa postal, nada.

Sabe o que me deixa puto, muito puto, de verdade? Eu não sou um cara chato, nunca fui. Eu não encho o saco querendo saber de tudo a cada cinco minutos, nunca proibi ela de fazer absolutamente nada, pelo contrário, sei que não tenho esse direito. Mas sumir assim, sem dar notícias por uma noite inteira é foda.

Tiro meus cabelos dos olhos, jogando-os para trás com uma das mãos. Minha cabeça dói bastante.

Suspiro. Espio rapidamente a cama de Noah, já sabendo que ele não devia estar lá. Ele levanta cedo aos sábados, é o dia de cuidar da bateria, o que deve ser um trampo do cassete. Pego meu celular, procurando seu número nos contatos, então envio uma mensagem.

Stella apareceu?

A resposta veio cerca de dois minutos depois.

Não... Mas Matthew Harrison apareceu há meia hora, falou sei lá o quê pra Alícia e ela foi com ele sabe lá Deus pra onde. Devíamos ficar de olho nisso, vai dar merda.

Ah, puta merda!

Tudo o que tem dedo do Harrison tem Stella no meio. Eu sei disso, Noah sabe disso, mas a novata provavelmente não.

Matthew e Stella se conhecem desde sempre. Uma vez os pais de Stella a internaram por 2 semanas num reformatório como forma de punição por ela ter posto fogo na jaqueta da nova empregada da casa. Acharam que isso a poria nos eixos, mas na minha opinião isso foi uma puta burrice. Lá ela conheceu Harrison, e as coisas ficaram piores.

Stella sozinha já é uma bomba relógio sempre pronta pra explodir... Seus encontros com Harrison geralmente eram a iminência de uma catástrofe nuclear.

Meu celular vibrou. Era Noah.

Hey cara, dá uma olhada nisso. Acabei de receber de um número desconhecido. (Arquivo anexado)

Senti meu sangue subir e meu rosto esquentar antes mesmo de abrir o arquivo. Eu tinha certeza que coisa boa não era, e podia sentir o dedo da Stella no meio.

Abri o arquivo. Era uma foto de Alícia na porta do banheiro próximo à praça, ela se encolhia tentando esconder o corpo coberto apenas por calcinha e sutiã. Estava molhada, a mão direita estendida tentando evitar a foto.

Cara, isso é completamente desumano, cruel, e muita burrice.

Se Stella estiver envolvida nisso como eu acho que está, ela acabou de assinar sua carta de expulsão.

Fechei a mensagem de Noah. Meus dedos discaram o número de Stella o mais rápido que pude, e para minha surpresa, ela atendeu no segundo toque.

– Hello Darling...

– Foi pra isso que você sumiu? – Vociferei, mal podendo me conter. – Pra aterrorizar a pobre garota e deixá-la pelada só por diversão? Teve que ir buscar aquele covarde filho da puta do Harrison porque sabia que ela nunca iria a lugar nenhum com você depois do modo como você a tratou ontem?

– Na verdade... – Começou, tão calmamente que me irritou ainda mais. Praticamente miava ao telefone. – Foi exatamente isso. Gato, relaxa, não foi nada demais, foi só um recado pra mostrar quem manda.

– Como vocês fizeram isso? Stella, que porra é essa?

– Foi bem fácil, a garota é uma anta. – Ela ria entre uma palavra e outra. – Matt disse pra ela que era um dos seus colegas do curso de direito, e se ofereceu para mostrar as instalações deles pra ela. Você consegue imaginá-lo estudando direito?

Ela se divertia, se deliciava contando aquilo. Eu me sentia enojado.

– Então levou-a a praça com o pretexto de comer alguma coisa, e “acidentalmente” derrubou-a na fonte. Aí foi fácil, ela entrou no banheiro para se secar, e é tão burra... facilitou tanto meu trabalho que mal teve graça. Acredita que ela pendurou as roupas na porta do Box? Só tive que puxá-las de lá e sair. Poxa, eu tinha preparado umas táticas pra tirar à força caso precisasse. – Continuou Stella, como quem conta uma piada. – Aí quando deu falta das roupas, me seguiu até o lado de fora do banheiro, onde Matt tirou as fotos. E claro, espalhou pelo campus.

Cerrei os olhos, contando até 10 mentalmente, e tentando controlar o emaranhado de perguntas que surgiram na minha cabeça. Quando conheci Stella, ela já era assim? Nós parecíamos tão iguais, fazíamos nossas loucuras, nos divertíamos, estourávamos lixeiras, badernávamos, e de repente eu me pego chocado com suas atitudes. Quando nos tornamos tão diferentes? Quem foi que mudou?

– Se te pegarem, você vai ser suspensa, talvez expulsa... – Comecei pausadamente. – Vai ter que voltar a viver com seus pais...

– Eu não vou voltar pra lá! – Praticamente gritou. – Não, ninguém vai me pegar, eu não vou ser expulsa, não vou voltar pra lá.

Ela se esforçava para manter a postura, o sarcasmo, a indiferença, mas eu a conheço... Eu sinto o desespero, o medo implícito em sua voz, e isso me parte o coração.

– Devolve as roupas dela Stella... Tenta se redimir, tenta melhorar sua situação....

Detestava esse lance protetor que eu sentia em relação a ela. Eu tinha que ser firme, repreendê-la, e ali estava eu tentando minimizar seus atos, tentando concertar seus erros. Estava eu nos extremos de novo, entre amá-la e ter nojo dela. Dois sentimentos muito reais, e bastante presentes. Me sentia como se duas cordas me puxassem para lados opostos, meu corpo já não agüentava mais, logo cederia.

– Oh não conte com isso. – O medo se esvaíra de sua voz com a mesma rapidez que chegara – Não vou tentar redimir porra nenhuma.

E desligou, me largando sozinho com meus dilemas novamente.

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PDV da Marie

– Alícia! – Bati à porta do box do banheiro. – Vamos, pegue as roupas aqui!

Eu e Adam íamos para a praça tomar um suco quando recebi a mensagem anônima. Fiquei horrorizada quando vi a foto... Pobre garota! A primeira coisa que fiz foi ligar para ela, e quando atendeu estava tão irritada que eu mal entendia o que ela falava. A muito custo consegui entender onde estava, então eu e Adam fomos até a república pegar umas roupas secas pra ela e levamos até o banheiro perto da praça, onde estava escondida

Eu me sentia culpada... Poxa vida, não custava ter dado um pouco mais de atenção a ela esses dias. Todos aqui sabem que Matthew e Stella não são lá flores que se cheire, como pude não dedicar um tempo pra dizer a ela coisas como essas?

Adam estava encostado na parede, constrangido, pedindo desculpas a todas as garotas que entravam. Era engraçado o jeito como ele enrubescia e gaguejava suas desculpas diante de cada uma delas.

Segurei a sacola no vão entre a porta do box e o chão, Alícia a recolheu rapidamente.

– Olha, me desculpe! – Pedi, sinceramente. – Eu devia ter te levado comigo.

– Não é culpa sua... – Murmurou, sua voz soou arrastada. – Stella vá a pagarme, yo voy... Marie... Que raio de roupas são essas?

Ah sim, eu imaginei que ela teria esse tipo de reação.

– É que... Eu fiquei sem graça, não quis mexer nas suas coisas. Essas roupas são minhas.

– Ah, isso explica muita coisa! – Replicou, mal humorada. Não podia culpá-la, ela tinha ficado seminua em público, não há humor que agüente. – Argh, primeiro sou vista de calcinha e sutiã, depois com roupas de Barbie. Aonde vai parar a minha reputação?

– Hey! – Ok, agora eu fiquei ofendida! Poxa, estava tentando ajudar aqui.

Ela murmurou um “sem ofensas”, e seguiu resmungando baixinho enquanto ouvia-se o barulho da sacola de roupas sendo remexida e seus movimentos enquanto se vestia.

Uns 10 minutos depois, estávamos finalmente saindo do banheiro, e eu tinha aprendido todo um novo vocabulário de xingamentos em espanhol. A baixinha é bravinha mesmo, Stella vai ter um problema quando cruzar com ela.

As pessoas olhavam para Alícia, alguns com solidariedade, mas a maioria parecia dividida entre rir e apontar pra ela, ou olhar de perto para ver se era mesmo a garota da foto, e então rir e apontar pra ela.

– A cara de alguém vai ser arrastada no asfalto por causa disso. – Ameaçou, bufando bem alto, e depois soprando sua franja raivosamente.

– Hey, putinha! Você é uma delícia hein? – Uma voz se sobressaiu na multidão, Alícia virou o corpo na direção do som quase imediatamente.

– AH VÁ SE FODER SEU PUNHETEIRO DE MERDA! – Gritou ela, encarei Adam, e ambos sufocamos o riso.

Agora era quase três horas da tarde, as apresentações no coreto começavam às quatro e eu realmente queria que Adam conhecesse nosso “point”, mas com certeza era melhor tirar Alícia dali antes que ela agarrasse o pescoço de alguém.

– Quando eu pegar aquela desgraçada e aquele falso, vou descontar toda a minha raiva na cara del... Hey, aquele ali não é o Noah? – Alícia olhava espantada para algum lugar atrás de mim. A simples menção do nome dele arrepiou meus pelos da nuca, e me virei.

Ele estava há uns 500 metros de nós, com duas garotas, uma embaixo de cada braço. Uma delas derramava goles de cerveja em sua boca, enquanto a outra mantinha os dedos em seu pescoço, ora ou outra deslizando-os em direção ao peitoral, empurrando um pouco sua gola V da camiseta .Senti meu estômago revirar.

– Wow, ele não me parecia esse tipo de cara... Ele é tão legal! – O queixo de Alícia estava levemente caído, mas o meu não. Doía, e me dava náuseas, mas não era nenhuma novidade para mim. Todos os fins de semana era a mesma coisa.

– Ele não é esse tipo de cara. – Comecei, mais amargamente do que gostaria. – Não é como se ele tivesse brincando com elas, elas sabem exatamente o que ele pensa sobre elas, sabem que são só diversão. É uma via de mão dupla. – O que definitivamente não tornava as coisas mais fáceis pra mim, mas quem se importa? – Querem saber meu palpite?

Olhei para ela com o canto de olho, ela e Adam acenavam afirmativamente.

– Eu acho que faz muito pouco tempo... Desde o acidente. – Meus olhos fitavam o chão, enquanto eu tentava controlar a náusea. – Ele não quer dar espaço pra ninguém, não se acha bom o suficiente pra ninguém... Se ele ao menos soubesse...

Olhei para os dois, com os olhos grudados em mim, já tão perto que quase podia sentir a respiração deles. Resolvi me calar, já estava falando demais.

– Ah, não importa.

– Ele gosta de você. – Alícia olhava pra mim como se lesse cada pedaço da minha alma, isso me incomodava e me dava uma sensação estranha.

– Claro que gosta, sou amiga dele. – Dei de ombros, como se fosse a conclusão mais óbvia do mundo. Ela revirou os olhos.

– Você me entendeu. Acho que ele gosta mesmo de você. – Insistiu, com aqueles olhões castanhos ainda presos em mim. Só que ela só estava ali há dois dias, ainda não tinha como entender o absurdo que estava dizendo.

– Ah, fica quieta! — Murmurei, entre risos. – De jeito nenhum!

– Se tem certeza, acho que podemos fazer um joguinho, só pra animar as coisas. – Adam se pronunciara. Ele tinha um sorriso divertido nos lábios enquanto se aproximava de mim. Eu recuei um passo, mas ele foi mais rápido que eu e logo sua mão me segurara pela cintura, me puxando.

Olhei para ele confusa.

– Que raios você pensa que está fa...

Ele me beijou. Repeti isso na minha cabeça por várias vezes antes de absorver o fato. Meu amigo, praticamente irmão, estava me beijando. Meus olhos estavam arregalados de surpresa enquanto sentia sua boca sobre a minha.

Senti-o se afastar por um segundo, mas suas mãos não se afrouxaram em minha cintura. Logo seus lábios estavam em meus ouvidos.

– Vai ter que atuar melhor se quiser impressionar o bofe. – Sussurrou.

E então, antes que pudesse digerir as palavras, seus lábios já estavam nos meus de novo. Passei meus braços em torno do seu pescoço puxando-lhe levemente os cabelos da nuca, e então, meio relutantemente, deixei que aprofundasse o beijo. Senti suas mãos mais firmes em minha cintura, apertando seu corpo contra o meu.

Era um beijo estranho... Não que ele beijasse mal, com certeza não beijava mal, só não parecia certo.

Me senti aliviada quando finalmente acabou.

Suspirei algumas vezes, em busca do meu fôlego. Procurei Noah em meio a multidão com o canto do olho, e o encontrei no mesmo lugar de antes, parado, boquiaberto olhando em minha direção.

Notas finais
Gostaram?? Pelo amor de Deus, me digam o que acharam ok? Eu sou uma pessoa extremamente ansiosa poxa, não judiem de mim hasaushauhsa. Beijooos! Até a próxima.