Notas iniciais
trigger warning: violencia

Era (finalmente!) o dia da inauguração do Sweet Rose.

O dia anterior tinha sido todo dedicado a checar os últimos detalhes e estava tudo perfeito; a decoração, as sobremesas que seriam servidas, a divulgação tinha sido feita em todos os lugares – no Cullen’s, salão da Carmen, no estúdio de Eleazar com os clientes dele, Kate e Leah, na oficina onde Jacob trabalhava, entre os clientes de Emmett, os amigos de Esme e Carlisle, pelas ruas aos redores do Sweet Rose, na vizinhança de todos. Tinha tudo pra ser um sucesso.

Rosalie estava tão animada que não conseguia parar de sorrir para o próprio reflexo no espelho. Não sabia se ia lotar, mas esperava que tivesse pelo menos algumas pessoas além de sua família e amigos mais próximos porque aquele era seu bebê, tinha participado de cada detalhe daquele projeto – desde a reforma do lugar até escolha da posição dos doces na vitrine, mesmo que aquele fosse o trabalho de Bella. O que a fazia pensar: como era bom dividir o gerenciamento do lugar com sua cunhada, como se arrependia de um dia ter pensado que ela poderia estar se aproveitando de seu irmão.

O tempo que passaram juntas decidindo a coisas as tinha aproximado ainda mais, agora sabia como ela era uma pessoa esforçada, talentosa, engraçada, agradável e como amava o seu irmão. Ela era como uma irmã realmente, a amava como uma irmã – e o melhor, sabia que era um carinho recíproco porque Bella era como um livro aberto, muito fácil de ler. Como as coisas seriam mais fáceis se todos fossem como ela, seria mais fácil até se aquilo fosse algo de família.

Não que estivesse pensando em alguém em especial, claro. Tentava se enganar como se conhecesse outra pessoa da família dela que não fosse seu irmão, Emmett.

Agitou a cabeça, respirou fundo e soltou o ar com força. Aquela não era a hora de pensar nele. Não era hora de pensar em como três meses tinham se passado desde que foi ao apartamento dele pronta para beijá-lo – e fazer outras coisas se ele quisesse – e ele mandou que ela resolvesse a própria vida antes de procurá-lo (lembrar disso ainda a fazia sentir vergonha de si mesma, era uma ferida mal cicatrizada em seu orgulho). E nesses três meses, eles mal tinham se falado. Só se encontravam quando estavam cercado de pessoas ou com a Bella por perto, nunca sozinhos, nunca tiveram tempo de conversar sozinhos sobre o que aconteceu, simplesmente fingiam que nada tinha acontecido. Como ela queria que ele fosse um livro aberto como a irmã e assim saberia se aquela noite ainda o atormentava como a atormentava. Mas ele não demonstrava nada, era extremamente respeitoso, a tratava como uma cliente ou cunhada de sua irmã. Aquilo não devia incomodá-la, afinal, ela escolheu aquilo. Quando teve a chance de escolher, escolheu voltar pro Royce – e ela não parava de se perguntar se tinha tomado a decisão certa. E sempre que acabava chorando sozinha durante o banho, pois tinha a resposta daquela pergunta.

Tentando não chorar sem motivo, Rosalie terminou de passar o gloss nude em seus lábios. A inauguração seria naquela manhã de sábado, então não estava usando maquiagem pesada, apenas o corretivo para cobrir as olheiras, rímel e gloss, enquanto seus cabelos estavam soltos em ondas suaves sobre seus ombros. O vestido frente-única branco com muitas flores vermelhas que tinha escolhido combinava com o visual simples e clean que estava usando; o decote destacava seus seios sem exagero, abraçava seu tronco e então ficava mais solto, deixando-a confortável por não marcar seu quadril largo ou qualquer dobrinha indesejada indo até a altura de seus joelhos.

Um pouco de perfume. Um par de brinco grande. Uma correntinha mais discreta. Algumas pulseiras vermelhas. Estava se sentindo muito bem. Com a sandália vermelha com tiras amarrada ao seu tornozelo e salto sentia-se ainda melhor porque parecia dar mais elegância ao seu corpo.

Quando ela saiu do banheiro, Royce, que terminava de se arrumar para acompanhá-la, se virou e a olhou da cabeça aos pés.

— Que vestido é esse? — ele perguntou com o cenho franzido.

— É meu. — Rosalie forçou um sorriso. — É novo, gostou?

— Claro que não, você vai trocar isso.

— Royce...

— Está indecente. Seus peitos estão quase caindo pra fora desse decote, pelo amor de Deus. Você devia tentar se cobrir mais, não se mostrar por ai como se tivesse o corpo de uma modelo.

E pensar que ela esperava pela aprovação e até um elogio dele. Quanta ingenuidade.

. . .

Bella estava tão animada que não conseguia parar de sorrir e não conseguia parar quieta em lugar só. Estava tudo pronto para a grande abertura, já tinha conferido tudo trezentas – talvez trezentas e uma – vezes, mas a ansiedade era grande demais para se controlar. E ainda era nove horas, faltava uma hora. Edward tentava fazê-la se acalmar, mas isso só a deixava mais nervosa.

— Edward, eu te amo. — ela disse naquela manhã, quando ainda estavam no apartamento dele. — Mas se você me mandar ficar calma mais uma vez, eu vou socar a sua cara.

Os dois foram os primeiros a chegar, as oito da manhã, até porque moravam praticamente na frente do prédio da Sweet Rose. Bella checou tudo mais uma vez, então foi direto pra cozinha terminar algumas cobertas e sobremesas que tinham que ser feitas na hora porque ficavam melhores frescas, enquanto outras passaram a madrugada na geladeira ou congelador para ficarem perfeitas. Poucos minutos depois, dois funcionários ajudantes de cozinha chegaram – Maya e Embry – prontos para ajudá-la a terminar as coisas. Era quase nove horas quando Esme e Carlisle chegaram também, Esme foi direto pra cozinha ajudar a nora enquanto Carlisle ficou com o filho no salão principal.

Ela estava na cozinha quando Edward anunciou que Alice tinha chegado. Bella limpou as mãos em um pano de prato e saiu da cozinha pela porta dupla, sorrindo para sua funcionária.

Alice Brandon era a simpática barista que Bella e Rosalie tinham decidido contratar antes mesmo de ver seu trabalho, apenas pelo seu sorriso fácil e animação contagiante, e confirmaram a contratação quando viram as obras de artes que ela conseguia fazer em café com espuma de leite. Ela seria ótima para lidar e servir os clientes, enquanto Rosalie estaria no caixa e Bella liderava a cozinha.

O longo cabelo castanho de Alice estava preso em um alto rabo de cavalo, seu rosto delicado com feições miúdas como uma fada de lábios e nariz finos estava com uma maquiagem tão natural que mal parecia usar, a única evidência óbvia era o rímel e o batom rosa salmon. De jeans, camisa pólo rosa e sapatilha preta nos pés, ela tentava não se destacar, mas era impossível, ela chamava atenção natural sem se esforçar e nem parecia perceber. Nem Bella ou Rosalie sabiam sua história toda, sabiam apenas sobre seus cursos e trabalhos, da sua vida pessoal sabia apenas que ela tinha vinte e seis anos, tinha se mudado para Seattle há dois anos e tinha uma filha de cinco anos que fazia seus olhos brilhar só de mencioná-la.

Alice passou pela parte do balcão que se erguia para passagem e deu um rápido abraço em Bella.

— Conseguiu dormir um pouco? — perguntou divertida.

— Claro. — Bella disse sorrindo.

— Mentirosa. — Edward riu. — Ela não parou de se mexer na cama um minuto, foi dormir de madrugada e acordou sete da manhã. E me acordou junto, que fique claro.

Alice e Carlisle riram enquanto Bella corava.

— Eu vou te chutar, Edward.

— Eu também te amo, bebê. — ele riu.

— Alice, você cuida de tudo aqui? Tenho que terminar umas coisas na cozinha.

— Claro, vou cuidar da minha parte. — ela apontou para máquina de café.

— Ah, e me avisa quando todos nossos amigos chegarem, ok?

Edward assistiu sorrindo a namorada voltar pra cozinha, a felicidade dela era palpável e ele não podia estar mais feliz com isso. Ainda pensava sobre como sentiria falta de vê-la a qualquer hora do dia quando ela estava a poucos metros de distância de seu escritório, mas não podia estar mais orgulhoso do novo começo que ela estava tendo e de tudo que ela ainda conquistaria, ele tinha certeza, Bella era talentosa demais. Lembrou-se das palavras de Jasper na carta em que propôs a sociedade com ela e Rosalie: “você, Isabella Swan, é boa demais para que o mundo não conheça o teu talento. Inferno, você é boa demais para ficar a sombra do seu namorado, ninguém jamais deve duvidar que você está onde está por causa do seu talento e por puro merecimento, não por dormir com seu chefe”. E ele estava absolutamente certo, ela merecia poder brilhar sem que a sombra dele a ofuscasse. E aquele era o dia dela e de sua irmã.

E pensar em seu melhor amigo trouxe de volta a saudade que sentia todos os dias, por mais que conversassem por mensagem e as vezes Skype, fazia falta tê-lo diariamente ao seu lado; mas não podia continuar sendo egoísta, queria que ele encontrasse o tipo de felicidade que tinha encontrado com Bella.

Sua irmã foi a próxima a chegar seguida pelo marido. Rosalie estava de jeans, um suéter azul-marinho que parecia maior que ela e sapatilha, que fez Edward franzir o cenho; esperava que ela chegasse esbanjando vida e sorriso, usando roupas com detalhes vermelho, sua cor favorita e da sorte, que ela usava em todas as suas datas especiais, mas nos últimos tempos tudo que ela parecia usar eram calças jeans e blusas ou suéteres maiores que ela. Quando ela sorriu, Edward percebeu que o sorriso não chegou aos seus olhos e aquilo trouxe o sentimento que mais vinha sentindo quando estava perto de sua irmã: impotência. Apertava seu coração não saber como ajudar sua irmã, não saber como salvá-la.

Mas não estragaria o dia dela, mesmo se Royce lhe provocasse. Estavam todos avisados que a missão do dia era ignorar Royce a todo o custo, independente do que ele dissesse, ninguém deixaria que ele estragasse o dia da Rosalie e da Bella.

Com o passar dos minutos, o resto do grupo foi chegando. Primeiro Emmett, depois Carmen e Eleazar, então Kate, por último Jacob e Leah – com a sua agora evidente barriga arredonda de seis meses de gravidez.

Alice avisou a Bella que estavam todos ali e segundos depois ela e Esme vieram carregando duas bandejas.

— Comida! Finalmente! — Leah comemorou fazendo-o rir.

— São bombas de chocolate. — Bella disse sorrindo. — Essa ocasião merece um brinde e temos que brindar com doce, pra combinar com a situação.

Quando todos tinham a sua, inclusive Alice que permaneceu atrás do balcão e Royce, que estava sentado em uma das mesas sem nem ao menos fingir interesse pela ocasião, Bella e Esme colocaram as bandejas juntas sobre o balcão e se aproximaram.

— Temos que brindar a Bella e a Rosalie pelo ótimo trabalho, meninas, o lugar está espetacular. — Esme disse com um sorriso orgulhoso no rosto.

E estava mesmo, o café e confeitaria era delicado e aconchegante, deixava claro que cada detalhe tinha sido pensado com cuidado. Tinhas mesas redondas de ferro com duas cadeiras ao redor, o balcão era também uma vitrine refrigerada de pequenos doces e na parede estava outra vitrine refrigerada onde estavam tortas e bolos completos para a exposição; do lado de fora, sob um toldo, também tinham outras mesas para aqueles que quisessem apreciar sua bebida e sobremesa ao ar livre. Era um lugar para uma passada rápida antes do trabalho ou um café da manhã diferente com uma conversa agradável, uma pausa no fim da tarde ou no meio dela. Além de ser o lugar certo para encomendar doces.

— E temos que brindar a Jasper também. — Rosalie lembrou. — Porque nada disso seria possível sem ele.

— Com certeza. — Bella concordou. — E claro, a todos vocês que estão nos apoiando desde o começo desse nosso sonho. E eu quero um brinde ao Edward também.

— Não, hoje é o seu dia.

— E eu não teria esse dia sem você que me deu minha primeira oportunidade, você mudou tudo na minha vida. Você completou todas as partes que eu sentia que faltava. — Bella respirou fundo e deu uma risada nervosa. — Tudo bem, eu não quero chorar.

Edward riu e passou o braço ao redor do ombro da namorada, a puxando para seu peito e beijou sua cabeça enquanto a abraçava.

— Eu te amo, Bella.

— Acho que cheguei na hora certa.

Todos se viraram surpreso quando ouviram a voz masculina conhecida.

— Jasper! — Kate gritou seu nome. — Você voltou!

Ele estava parado na porta com seu conhecido sorriso de lado, tão divertido e malicioso como todos lembravam. Ele não tinha mudado muito, seu cabelo permanecia o mesmo raspado nas laterais e o topo penteado para trás preso em um pequeno elástico atrás de sua cabeça; tinha deixado crescer uma barba bem aparada que cobria seu maxilar, mas sem subir muito por sua bochecha, subia um pouco por seu queixo em um cavanhaque bem-feito; estava mais bronzeado, usando jeans e uma camisa social rosa com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos.

— Claro que voltei, vocês não acharam que eu perderia a abertura do Sweet Rose?

— Porra, quando você voltou e por que não avisou que estava voltando? — Edward perguntou indo na direção do melhor amigo.

— Queria fazer uma surpresa. E eu cheguei hoje, só passei em casa pra tomar banho, comer alguma coisa e deixar minhas coisas, vim direto pra cá.

— Senti sua falta, irmão. — Edward disse sinceramente antes de abraçá-lo.

Jasper fechou os olhos por uma fração de segundo, antes de bater carinhosamente nas costas do amigo, sorrindo.

— E eu a sua. Senti falta de casa.

Todos tiveram seu tempo de abraçar Jasper enquanto todos se abraçavam, Bella pediu que Alice pegasse mais uma bomba de chocolate na cozinha pra ele. Jasper deu alguns passos pro lado pra saber com quem Bella falava e ergueu uma sobrancelha quando Alice voltou da cozinha com a sobremesa na mão.

— Oi Alice. — acenou com um sorriso galanteador.

E ela se surpreendeu em ser cumprimentada, até pareceu corar.

— Ele não muda, meu deus. — Edward suspirou fingindo indignação.

Jasper riu.

— Só estou sendo simpático com a nova funcionária e amiga de vocês. Passei muito tempo longe, preciso me ambientar novamente.

—

E estava tudo sendo um sucesso! Rosalie pensava enquanto entregava o troco de uma cliente. Mais do que ela esperava, se fosse sincera. Tinha uma fila de clientes esperando serem atendidos pela Alice, Edward teve até que colocar a mão na massa e ajudá-la a servir os doces, enquanto ela preparava as bebidas feitas de café ou chocolate, pra que não atrasasse ninguém. Claro que ela esperava ter alguns clientes, mas não tanto pra que formasse uma fila que chegasse até a calçada. Uma fila! Rosalie não poderia estar mais orgulhosa.

A única coisa que lhe chateava era olhar na direção de Royce e ver que ele continuava sentado em uma mesa, mexendo no celular e parecendo entediado, enquanto seus amigos estavam orgulhosos, interagindo com os clientes e tentando ajudando como pudessem. Pra não deixar que isso a afetasse, ela simplesmente começou a ignorar a presença dele e continuou seu trabalho.

Quando Carlisle se aproximou, Rosalie franziu o cenho.

— Alguma coisa errada?

— Não, está tudo perfeito. — seu pai sorriu orgulhosamente. — Vocês fizeram um ótimo trabalho, querida. Vim ficar um pouco no caixa pra que você circule um pouco, é importante que você converse com as pessoas. Jasper está lá fora conversando com alguns clientes que já falam sobre encomendas, é o tipo de informação que só você pode dar. Aproveite e leve uns cartõezinhos no bolso.

Rosalie sorriu.

— Obrigada pai. — beijou a bochecha dele antes de fazer exatamente o que ele sugeriu.

“Obrigada e volte sempre” era o que ela mais estava dizendo enquanto todos estavam saindo satisfeitos, mandando elogios a chef confeiteira do lugar, afirmando que realmente voltariam sempre, mulheres dizendo como era bom agora terem um lugar tão simpático pra que pudessem tomar café antes do trabalho ou no fim da tarde com as amigas.

Mas seu sorriso sumiu ao sair do Sweet Rose e ver Emmett ao lado de um carro conversível prata conversando com uma mulher que parecia uma maldita modelo da Victoria’s Secret; era tão alta quanto ele, mas com um corpo que não parecia ter nenhuma imperfeição sob um minivestido azul royal de alças, suas pernas não pareciam ter fim de tão longas, sua cintura era tão fina que as mãos enormes de Emmett deviam se fechar ao redor dela, seus peitos eram medianos e ela estava sem sutiã mas eles continuavam firmes no mesmo lugar, quadril estreito e um bumbum arrebitado, os cabelos loiros dela eram longos, cortados em camadas e tão brilhantes que pareciam sair direto de um comercial de shampoo; e o rosto dela também parecia perfeito, olhos claros e lábios cheios com uma maquiagem de aparência profissional.

Não que Rosalie tivesse reparado tanto nela. Talvez um pouco. Mas a perfeição da mulher não era algo que ela pudesse ignorar, ainda mais quando ela estava tão próxima a Emmett, brincando com a ponta da gravata dele enquanto conversavam.

— Rosalie...? Rosalie!

— O que?! — piscou no susto e olhou pra trás. — Desculpa, o que?

— O que você... — Leah seguiu a direção do olhar de Rosalie. — Ah, entendi.

— O que? Só fiquei surpresa, nunca tinha visto o Emmett com ninguém, você a conhece?

— Sim, é a Irina. É uma cliente e amiga do Emmett, ele a levou jantar comigo e Jacob umas semanas atrás, ela é bem simpática. Por que, ciúmes? — Leah ergueu uma sobrancelha, irônica.

— Claro que não, só perguntei. Aliás, o que você queria?

— Ah sim, duas clientes querendo te conhecer.

Ciúmes? Até parece. Só porque a mulher parecia uma modelo, era tudo que Rosalie não era na aparência e parecia bem íntima de Emmett não significava que ela estava com ciúme. Nem tinha porque ter ciúme já que os dois não tinham nada.

Mas enquanto conversava com as clientes, não conseguia parar de olhar na direção deles.

Emmett entrou no Sweet Rose e voltou com um pratinho na mão, que entregou a Irina; ela comeu a sobremesa com um garfinho de plástico, disse alguma coisa e os dois sorriram juntos.

Foca na sua conversa, disse a si mesma. Entregou um cartão a cliente e foi conversar com outra.

Irina beijou o rosto de Emmett, eles se abraçaram e ela entrou no carro, acenando enquanto ia embora.

Rosalie sentiu que podia até respirar melhor. Até que ele começou a andar na sua direção e ela voltou a sentir o ar ficar mais denso, tentou agir naturalmente.

— Parabéns, Rose, está tudo maravilhoso. — Emmett a elogiou, segurando o pratinho vazio que antes tinha sido de Irina.

— A maioria é trabalho da Bella, as coisas que eu fiz estão mais nos bastidores.

— E sem isso minha irmã não poderia fazer o trabalho dela, então você merece créditos também, para de se diminuir e se desmerecer, apenas aceite e agradeça pelo elogio.

— Ok. — Rosalie riu. — Obrigada, Emmett.

— Agora sim.

— Então, sua namorada gostou do que comeu? — perguntou tentando fingir desinteresse e quis puxar as palavras de volta no momento em que elas saíram de sua boca.

— Minha namorada? — ele franziu o cenho, confuso. — Você tá falando da Irina? A loira que eu tava conversando? Não. — ele riu. — Ela não é minha namorada, eu fui advogado do divórcio dela e acabamos nos tornando amigos, apenas isso.

— Legal. — Rosalie sorriu, então agitou a cabeça constrangida. — Quero dizer, legal que vocês são só amigos. Quero dizer, que vocês conseguiram se tornar amigos. Você precisa falar alguma coisa antes que eu continue falando, por favor.

Emmett riu.

— Eu entendi o que você quis dizer, Rose.

— Bom.

— Então...

Emmett não sabia o que falar, mas não queria se afastar dela ainda. Era a primeira vez em três meses que ficavam tão próximos sozinhos, mesmo que tivessem cercados de pessoas.

“Resolva sua vida e, se estiver solteira e eu puder ser a primeira opção, sabe onde me encontrar” tinha dito e ela tinha resolvido, voltou e permaneceu com Royce. A ele só cabia aceitar e seguir sua vida. Três meses tentando seguir sua vida e fingir que nada tinha acontecido enquanto sua mente tentava trazer de volta aquela lembrança a cada cinco minutos.

E ele sabia que ela tinha escolhido errado. Não porque devia escolhê-lo, mas sim porque Royce não era o homem certo pra ela, não devia ser certo pra ninguém. Lembrava-se da primeira vez em que a viu no Cullen’s, ela parecia brilhar e transparecer confiança, agora ela parecia apagada tentando passar despercebida. Royce estava esmagando o espírito dela.

E o pior é que Emmett não sabia como salvá-la disso. Ou se ela queria ser salva.

— Rosalie! — Royce gritou o nome dela.

Ela se virou sobressaltada e, sem olhar pra trás, foi na direção do marido, que não tirou os olhos de Emmett. E Emmett não quebrou o contato visual, Royce pensava que podia intimidá-lo? A ideia fazia Emmett querer rir – e na verdade, ele realmente ergueu o canto da boca debochadamente. Por um segundo pensou que Royce poderia interpretar aquilo como uma provocação, mas ele que interpretasse como quisesse.

Emmett não parou de encará-los até os dois entrarem juntos no Sweet Rose, aparentemente discutindo. Ele só sentia muito por Rosalie, Royce podia ir se foder duas vezes.

Odiava ter que sair no meio de um dia tão importante pra sua irmã, mas não tinha mais clima ou estômago pra continuar ali sorrindo como se nada estivesse acontecendo (e pior, nada estava acontecendo a não ser em sua mente) então pediu a Jacob que avisasse a Bella que recebeu uma ligação urgente e precisava ir ao escritório, depois podia conversar com ela melhor.

E dentro de seu carro enquanto dirigia pelas ruas de Seattle só conseguia pensar em como precisava tirar isso de sua cabeça ou enlouqueceria em meio essa obsessão chamada Rosalie Cullen, ou melhor, Rosalie King.

. . .

Rosalie estava exausta. Não de seu trabalho, não por fecharem o Sweet Rose apenas as cinco horas da tarde, estava orgulhosa dessa parte. Não por terem ido para o Cullen’s, logo depois para brindarem com álcool de verdade, essa parte tinha sido divertida. Estava exausta de brigar e escutar reclamações de Royce, que tinha reclamado de absolutamente tudo o dia inteiro. Exausta da sua vida, no limite.

Tinha certeza que ele continuava falando, mas já tinha parado de prestar atenção há muito tempo enquanto olhava a vizinhança passar pela janela. Quando ele estacionou o carro, soltou um longo suspiro e desceu sem esperá-lo.

Ao entrar em casa, jogou a bolsa no sofá e foi direto pra cozinha. Estava bebendo água quando escutou a porta bater com violência e Royce gritar seu nome. Deixou o copo na pia, soltou um novo suspiro e voltou para a sala.

— Você vai continuar me ignorando?! — ele rosnou.

— O que foi, Royce? Você não cansou ainda?

— Eu estou tentando conversar com você, Rosalie!

— Não, você está tentando puxar uma briga — disse calmamente. — e eu estou cansada demais pra isso.

— Pra conversar comigo você está cansada, mas estava toda animada com seus amigos né? Estava empolgada pra conversar com todas aquelas pessoas, agindo como uma mulher solteira e me ignorando. Você viu como todo mundo estava me ignorando? Eu era nada! Aquele lugar é seu e da Bella, Edward ficou ao lado dela como se fosse a porra da primeira-dama do lugar e eu? Fiquei de lado, ignorado!

— O que você queria, Royce? Ser a primeira-dama também? — perguntou irônica.

— Você tá debochando da minha cara?

— Não, eu só não sei o que você espera que eu fale! — disse exasperada agitando as mãos no ar. — O que você quer ouvir? Um pedido de desculpa? Me desculpa, ok?! Me desculpa!

— Eu me senti humilhado, todos devem ter percebido a maneira que eu fui tratado por todos, inclusive por você! E aquele irmão da namoradinha do seu irmão, eu vi vocês dois conversando, o que ele queria?

— Isso de novo? Pelo amor de deus! — ela passou a mão no cabelo, frustrada. — Eu te disse no momento em que você me chamou que ele estava apenas me parabenizando, como todo mundo. Menos você, claro, que parecia mais interessado no seu celular.

— Eu fiquei do seu lado o dia inteiro! Aguentei aquele bando de gente insuportável que vive me destratando pra te fazer feliz e é assim que você me retribui?! Nada que eu faço é bom suficiente é bom pra você?!

https://www.youtube.com/watch?v=7Rou9PtSDR4

Stupid Boy – Cassadee Pope

Rosalie riu, teve que rir.

— Você está rindo de mim? — Royce estreitou os olhos, se aproximando.

— Claro que não, só achei a pergunta irônica levando em consideração nosso relacionamento, quer dizer, em algum momento você acha algo que eu faço bom o suficiente, Royce?

— Claro que você faz algumas coisas certas, as vezes que te repreendo é pro seu próprio bem, mas eu reconheço quando você faz algo certo.

— Deus, você tá se escutando? Você tá falando de mim como se eu fosse uma criança ou um cachorro que você tá adestrando. Você me repreende pro meu próprio bem? — Rosalie franziu o cenho e gritou: — Você não é o meu pai!

— Por que você está gritando?! — ele gritou.

— Me... — Rosalie parou no meio do pedido de desculpa e deu risada. — Você viu o que eu ia fazer agora? Eu te pedir desculpas, de novo. É sempre assim, a gente discute, você grita, eu choro e eu peço desculpas, esse tem sido o nosso relacionamento, eu tô nesse piloto automático há meses e quer saber de uma coisa, Royce? Eu cansei.

— O que você está falando?

— Eu cansei! — Rosalie gritou. — Cansada de deixar você fazer isso comigo! Eu tava me sentindo bem hoje, sabe? — sorriu nervosamente com as lágrimas crescendo em seus olhos. — Eu coloquei aquele vestido, eu estava me sentindo linda e tudo que eu queria era que você, o meu marido, dissesse alguma coisa boa, fizesse um elogio e o que você fez? Você me olhou como se eu fosse nada. — fechou os olhos deixando as grossas lágrimas livres por seu rosto. — Você fez eu me sentir um nada.

— Isso é por causa daquele vestido estúpido?

— Não é sobre o vestido! É sobre você! É sobre mim! Sobre como eu deixei que você me transformasse nisso — gesticulou pra si mesma com nojo. — Eu me troquei hoje, coloquei uma roupa que você aprovasse e ainda assim você não me disse nada de bom, você não foi capaz de me dar parabéns pelo meu trabalho o dia inteiro! E agora você tá aqui reclamando porque eu tava aproveitando meu momento, o reconhecimento do meu trabalho e eu estava prestes a pedir desculpas de novo, desculpas pelo que?! Pelo seu egoísmo? Eu cansei! Cansei de pedir desculpas! Eu faço tudo, tudo, que eu posso pra te fazer feliz, pra te deixar satisfeito, pra evitar uma briga e nunca é suficiente, eu nunca sou suficiente! — Rosalie chorou, se virou dando as costas para o marido. — Eu tô cansada.

— Tudo bem, Rosalie, vai dormir e a gente conversa amanhã cedo quando nós dois estivermos de cabeça fria antes que alguém diga algo que vá se arrepender.

Ela estranhou as palavras dele porque Royce nunca era de fugir de uma discussão, mas em compensação, ela também nunca fui de entrar na briga e gritar com ele, sempre acabava aceitando tudo e se desculpando. Rosalie se virou para encará-lo novamente.

— Eu só me arrependo das coisas que eu não disse antes, de tudo que eu aguentei calada por medo. Eu quero o divórcio, Royce.

— O que?!

— Eu quero o divórcio. Ele estava certo, eu mereço mais.

— Ele quem? Quem tá virando sua cabeça contra mim?

— Todo mundo! Mas eu não podia aceitar o todo mundo tentava me dizer porque seria confessar ao mundo que fracassei, eu não queria essa vergonha e humilhação, então eu aguentei e tentei salvar nosso casamento. Eu tentei e tentei tanto, mas eu cansei. E que diferença vai fazer na minha vida mais vergonha e humilhação se você me faz sentir isso praticamente todos os dias? — riu amargamente. — Você pode dormir na sala, de manhã você junta as suas coisas e vai embora.

Sem forças pra dizer mais nada, Rosalie se virou pra ir na direção do seu quarto quando Royce agarrou seu braço com violência e lhe puxou pra trás, fazendo-a gritar de surpresa e dor.

— Você acha que vai me dispensar desse jeito? — ele gritou em seu rosto, furioso.

— Me solta, você tá me machucando, Royce.

— Me desculpa, amor, me desculpa — ele soltou seu braço e segurou seu rosto entre as mãos. — Me escuta, Rosalie, eu posso melhorar, você sabe disso, a gente pode resolver nossos problemas.

— Não. — tentava virar o rosto, fugindo das tentativas de beijo dele.

— Eu te amo, Rosalie, eu te amo!

Rosalie o empurrou com violência, se livrando de seu toque.

— Não! Para de dizer isso, você não tem o direito de usar amor como desculpa pra nada porque isso não é amor! Amor não devia fazer eu me sentir como um lixo! Amor não devia machucar, mas você me machuca! Eu não sei se em algum momento você me amou, mas se o que a gente tinha foi amor você destruiu, você esmagou até não sobrar mais nada, Royce.

— Agora que você tem um novo negócio, vai ganhar mais dinheiro, você pensa que pode me abandonar assim com esse papo de que merece mais?

— Não me venha com esse papo de garota mimada e privilegiada que não conhece a realidade porque eu sei como sou sortuda, mas eu me esforço pra manter e merecer tudo que minha família construiu. E poderíamos ser pobres juntos, viver num apartamento de um cômodo, ter apenas um colchão e comer miojo em todas as refeições que eu seria feliz ao seu lado se você me amasse, mas você não me ama. Eu mereço mais! E eu não digo em bens materiais, eu mereço mais do que você pode me oferecer em todos os outros aspectos do nosso casamento.

O rosto de Royce foi relaxando, a tristeza cravada em seu rosto contorcido foi sumindo até ficar uma máscara livida de frieza.

— Eu poderia ter a mulher que eu quisesse, uma mais rica, mais bonita, mais gostosa e fiquei com você, a gorda qualquer que poucos querem e você acha que merece mais? Casar com você foi um favor que eu te fiz, você deveria me agradecer e beijar meus pés todos os dias antes de cuspir esse discurso de eu mereço mais. — Royce gargalhou.

Rosalie nem teve tempo de reagir antes que ele agarrasse um punhado de seu cabelo na parte de trás de sua cabeça, fechando a mão com força o suficiente pra que ela sentisse como se estivesse arrancando seu escalpo. E nem pode pedir socorro, porque a mão livre dele cobriu sua boca e abafou seu grito de dor.

— Eu desperdicei meu tempo aguentando você, sua família estúpida e você acha que pode me dispensar assim? Você é minha. E tudo que você tem é meu. Agora, eu vou esquecer todas essas besteiras que você me disse e fingir que essa noite nunca aconteceu, nós dois vamos dormir e amanhã vai ser um novo dia. Ok, querida? — sorrindo, ele soltou seu cabelo e tirou a mão de sua boca e apertou seus lábios sobre os dela com força.

Com a mão na parte de trás da cabeça, arfando por causa do choro, Rosalie deu alguns passos para trás.

— Sai da minha casa, Royce.

— O que? — ele arregalou os olhos. — Você quis dizer nossa casa, querida.

— Essa casa é minha. Meus pais pagaram por ela, é no meu nome que ela está, é a minha casa e eu quero você fora dela agora ou eu vou chamar a polícia. Você vai ouvir de mim pelo meu advogado.

— Que advogado, Rosalie? O irmão da namoradinha do seu irmão?

Rosalie ficou calada e Royce aceitou aquilo como consentimento.

— Sua vadia!

Ela tentou correr na direção da cozinha, mas ele foi mais rápido e a segurou pelo cabelo, puxando-a para trás. Rosalie quase caiu, mas ele a manteve em pé quando a jogou contra a parede, batendo sua cabeça com força e a prendeu pelo pescoço.

— Vocês já tão dormindo juntos? Você já é a putinha dele, Rosalie?

— Royce... — tentava falar, mas era impossível enquanto ele apertava sua garanta. Batia em seu braço, tentava alcançar seu rosto, mas ele não afrouxava o aperto.

— Você acha que vai me trocar por aquele gorila só por que ele tem um diploma de direito e se acha melhor do que eu? Você é minha!

Royce soltou seu pescoço apenas para agarrar seu cabelo, puxou-o pra baixo com força e a jogou no chão. Rosalie tentou se arrastar pra longe dele, mas ele logo estava ao seu lado, a próxima coisa que viu foi o pé dele indo na direção de seu rosto e tudo ficou escuro.