You & Me
46 Sm :: 01
Vozes masculinas foi a primeira coisa que Rosalie escutou ao entrar em sua casa. Deu um longo suspiro pesado, aquela seria mais uma noite daquelas.
Gritos, xingamentos, risadas. O cheiro de cigarro, suor e cerveja. O sofá e a mesinha de centro tinham sido afastados, sendo substituídos por uma mesa redonda com seis cadeiras – a mesa simples de madeira desmontável, assim como suas cadeiras, que Royce tinha lhe convencido a comprar dizendo que precisariam de uma mesa para receber a família dela para jantares, mas nunca tinham usado para isso, ela saía do quarto de bagunça para sala apenas quando ele precisava dela pra jogar pôquer com seus amigos.
E lá estava ele e outros e cinco homens jogando pôquer, eles conversavam e riam alto, falavam palavrões e coisas do jogo, enquanto seguravam as cartas em frente a seus rostos, outras ficavam na mesa junto com as fichas, ela não entendia nada de pôquer e Royce nunca tinha paciência de lhe ensinar, nem a deixava assistir os jogos, só a chamava quando precisava de mais cerveja ou que preparasse alguma coisa pra seus amigos comer. Todos pareciam ter a média de idade de Royce, mas eram diferentes na aparência – um negro musculoso e careca; um branco um pouco acima do peso que tinha umas tatuagens no rosto (que a lembrava tatuagens de prisão); outro cara branco era mais magro e também tinha muitas tatuagens, usava cavanhaque e um longo cabelo liso que ia até o meio das costas; os outros pareciam irmãos e latinos, falavam com sotaque e xingavam em espanhol. A diversidade do grupo seria interessante se eles não fossem um bando de porcos chauvinistas, rudes, desagradáveis, inconvenientes. Rosalie odiava aquele bando de porcos e quando pediu que Royce não os trouxesse mais em sua casa, aquilo gerou uma grande briga sobre como ela estava sendo preconceituosa e esnobe, gritos retóricos de que se aquela não era a casa dele também (ele vivia ali, mas aquela casa era dela, Rosalie quis dizer, o dinheiro dela tinha pagado aquela casa, ela pagava as contas, ela mantinha a casa, mas ficou calada, talvez estivesse realmente sendo esnobe) e então ela acabou pedindo desculpas, arrumando a bagunça que eles fizeram e aguentou calada quando os amigos voltaram.
— Rosalie! — Royce gritou, parecendo meio bêbado. — Minha linda esposinha chegou, ela não é linda?
Os amigos dele riram, alguns concordaram, um até disse que ela era gostosa. Rosalie quis vomitar.
— Pega mais cerveja pra gente, querida. — Royce pediu.
— Claro. — ela tentou sorrir.
Sem soltar sua bolsa, foi até a geladeira e pegou um six-pac, voltou e entregou a Royce.
— Linda, agora me dá um beijo aqui. — ele passou o braço ao redor de sua cintura e ela se abaixou para beijar sua boca.
— Que rabo. — um dos caras disse. Rosalie se ergueu, mortificada, esperando que Royce a defendesse, mas ele apenas gargalhou.
— Meio gordo, mas ainda é lindo quando ela tá de quatro, certo Rosalie? — ele bateu em sua bunda.
— Se vocês me dão licença, eu vou tomar banho. — ela saiu de seu enlaço, só queria dormir.
— Ih Royce, acho que ela não gostou muito do comentário. — ela escutou do corredor um dos caras dizer e todos riram.
— Vai dormir no sofá. — mais gargalhadas.
— Vou nada, eu sei como amansar a fera. — Royce riu. — E foi bom ela ouvir isso, talvez comece a comer menos, não quero que ela acabe como a sua mulher, Rat. Você provavelmente não consegue mais ver a boceta da sua mulher por causa da barriga. — e todos gargalharam, enquanto um homem mandava Royce se foder.
Rosalie nem percebera que tinha parado de andar e que estava chorando. Quando entrou em seu quarto, fechou a porta e enxugou seu rosto.
E no banheiro, enquanto tomava banho, se ensaboou mais consciente sobre seu corpo que nunca. Não era magra com uma barriga negativa como a Kate; não tinha o corpo todo tonificado como Leah; não tinha curvas apenas nos “lugares certos” como a Carmen. Era grande, sempre tinha sido. Tinha o quadril largo, coxas mais grossas, sua barriga era suavemente arredonda, seus seios eram grandes e isso os impediam de ser duros e firmes, seu braço tinha pele demais, tinha dobrinhas. Desde sempre lutava contra seu peso, as vezes conseguia se sentir bem em seu corpo, mas talvez Royce estivesse certo, estava na hora de voltar pra dieta.
Rosalie não conseguiu dormir até que eles tivessem ido embora, por causa das vozes altas. E quando eles foram embora, no meio da madrugada, e Royce veio para o quarto fedendo e Rosalie pediu pra que ele fosse tomar banho, eles brigaram sobre como ele fazia tudo pra fazê-la feliz, aguentava até a “família de merda dela”, e ela não podia ser no mínimo educada com seus amigos. Rosalie pediu desculpas.
. . .
Outro dia, semanas depois, outra briga...
— Dinheiro? Você quer mais dinheiro? — Rosalie perguntou incrédula, enquanto terminava de se arrumar para o trabalho no banheiro do quarto.
— Vamos, Rosalie, alguns dólares não vai fazer falta, não seja mão de vaca.
— Vai fazer falta sim, Royce! Nós temos contas pra pagar, coisas pra comprar. E não são alguns dólares, você tá me pedindo quinhentos dólares! E mesmo se eu quisesse te emprestar, eu não tenho esse tipo de dinheiro aqui.
— Tudo bem, podemos ir no Cullen’s e você pega no caixa.
— Eu não posso roubar quinhentos dólares desse jeito, pelo amor de deus!
— Roubar? Porra, Rosalie, aquilo ali é seu também, qual é a vantagem de ter um lugar daquele se você não pode pegar dinheiro quando quiser? Você é idiota, porque aposto que o Edward enche o bolso dele.
— Eu vejo o livro caixa, Royce, Edward me mostra o registro de todos os depósitos e retiradas, ganhamos a mesma coisa. Tudo que Edward ganha é fruto do trabalho dele.
— Claro, porque ele é perfeitinho assim como você, a única coisa errada na sua vida sou eu. Porra, eu sou seu marido, não um caso de caridade, tudo que eu preciso é quinhentos dólares emprestados e eu vou te pegar de volta. Eu queria ter esse dinheiro, mas já usei o dinheiro do último trabalho e eu preciso pagar essa dívida...
— Dívida? Que dívida?
— Escuta, querida, foi só algo do pôquer, eu não quero te incomodar.
— Pôquer? — Rosalie quase gritou e saiu do banheiro, Royce estava sentado na cama com as costas na cabeceira e as pernas esticadas, despreocupado porque não tinha que trabalhar. — Você está devendo quinhentos dólares em pôquer?
— Por que você está gritando?! — Royce gritou. Que ironia, ela pensou. — Eu já ganhei muito mais na mesa, mas tive uma noite de azar.
— Ganhou mais? — ironizou. — Eu não vejo isso aqui.
— Você não entende de pôquer e invisto...
— Investe em que? Em mais jogo? Cerveja? Eu não acredito que você está perdendo o meu dinheiro na mesa de jogo, Royce!
— Seu dinheiro? Ah, eu sabia! Chegamos ao ponto, né Rosalie? Você jogando na cara que é o seu dinheiro, como sempre! — Royce gritava ao se levantar e se aproximar dela. — Eu queria ver se você teria esse dinheiro se não estivesse trabalhando no negócio da sua família! Você é privilegiada e gosta de esfregar isso na cara de todo mundo, sendo uma puta arrogante, esnobe, mimada!
Rosalie ofegou com lágrimas ardendo em seus olhos. Não era a primeira chuva de ofensas que recebia, mas nunca deixaria de se sentir ferida por elas. Mas talvez ele estivesse certo, ela era privilegiada e talvez não tivesse aquela vida se não fosse pelo negócio que estava em sua família há anos. Rosalie se desculpou.
. . .
(Cena acontece no mesmo dia do capítulo 09 de Catch Me)
Rosalie passou o dia se sentindo confusa e malditamente culpada, mesmo que não tivesse feito nada errado. Não tinha beijado Emmett, tinha conseguido dizer não, mas por uma fração de segundo ela quase cedeu a tentação. Ele estava tão perto e… Se ela fechasse os olhos podia se lembrar perfeitamente do rosto perfeitamente esculpido e do cheiro limpo e masculino dele tão perto. Mas era errado. Pelo amor de deus, ela era uma mulher casada!
Uma mulher casada no meio de uma crise, uma voz lembrou no fundo de sua mente.
Mas todo casamento tinha suas crises, o que devia fazer? Largar tudo e trair seu marido no primeiro sinal de problemas? Não era esse tipo de pessoa. Seus pais tiveram suas crises, discussões e brigas sérias no decorrer dos anos casados, ela lembrava-se das vezes em que os dois gritavam um com o outro, sua mãe batia a porta do quarto e seu pai dormia em um quarto de hóspedes, mas logo eles estavam se amando novamente.
Mas eram coisas que aconteciam raramente, não praticamente dia sim e dia não, não por motivos pequenos e bobos.
Ela tentava comparar seu casamento com os de seus pais, mas sabia que estavam longe de serem parecidos. Mas ela estava tentando tanto fazer dar certo, não podia aceitar o fracasso, ainda mais quando era o que todos esperavam que acontecesse.
Quando ela entrou em casa no meio da noite, a primeira coisa que viu foram as latas de cerveja vazias e amassadas pelo chão e a caixa de cerveja vazia na mesinha de centro. Rosalie suspirou.
Jogou a bolsa no sofá e foi limpar as coisas, fechou a caixa de pizza e a colocou sob o braço então recolheu as latinhas do chão. Colocou as latinhas na sacola apenas de latas e a caixa na lixeira de reciclagem. A pia estava cheia de louça, tinha que limpar a mesinha e secar a cerveja do chão, mas estava tão cansada.
— Finalmente você chegou, eu estava com fome, tive que pedir pizza porque não tinha nada pra jantar. — Royce reclamou.
Ela respirou fundo, pegou um pano úmido na pia e se virou soltando o ar.
— Royce, eu deixei carne e batata na geladeira, tudo que você precisava fazer era esquentar no microondas. — disse enquanto caminhava para a sala novamente.
— Inferno, eu não queria comida de três semanas atrás, queria minha esposa em casa preparando meu jantar e jantando comigo.
— Eu fiz isso anteontem e estava ótimo. E se você tivesse me esperado um pouco, teríamos jantado juntos. — ela disse e passou o pano no tampo de vidro da mesinha. — Custava você secar depois de molhar tudo? E usar um prato? Deixou cheio de marca do fundo da garrafa e gordura.
— Você já chega reclamando, mas que inferno! Aposto que estava toda feliz no bar, agora chega em casa e a primeira coisa que faz é reclamar e reclamar!
— Eu? A primeira coisa que você fez ao me ver foi reclamar, nem me deu oi ou perguntou como eu estou, já veio reclamar.
— Mas eu tenho motivo!
— E eu não? Olha a bagunça que está essa casa, você não faz nada o dia todo, o mínimo que podia fazer era tentar manter as coisas em ordem assim eu não precisaria trabalhar o dia todo e trabalhar quando eu chegasse em casa também! — jogou o pano no chão e usou o pé para esfregá-lo sobre as partes molhadas de cerveja.
— Se você trabalhasse menos teria mais tempo para o seu lar e seu marido! E agora vai jogar na minha cara que eu estou desempregado? Eu estou tentando, ok? Mas não é fácil, porra! Aproveita e fala que não tenho diploma de faculdade porque não vim de uma maldita família perfeita e privilegiada!
— Eu não estou falando nada disso, só queria um pouco da sua colaboração, Royce!
— O que vai jogar na cara na próxima vez? Que eu não sou homem suficiente pra te engravidar? Não foi o que disse antes de sair de casa?
— Ah, pelo amor de deus, isso de novo? Eu não disse isso! Apenas sugeri que você fosse a um especialista e se certificasse que está tudo bem com você, talvez você tenha uma baixa contagem de esperma.
— Ou seja, eu não sou homem suficiente, é isso que você está dizendo? — ele se aproximou com o rosto vermelho em sua fúria.
— Não! Isso não tem nada a ver com masculinidade, Royce, é uma condição de saúde.
— Você quer outro homem é isso? Alguém mais homem? — Royce agarrou seu braço e apertou. — Aquele irmão da namorada do seu irmão talvez? Por isso você ficou defendendo ele?
— Você está machucando meu braço de novo, para com isso. — ela pediu com as lágrimas crescendo em seus olhos. Ela teve que usar suéter de mangas compridas exatamente porque o último aperto que ele dera em seu braço tinha deixado as marcas roxas de seus dedos e ele apertava o mesmo lugar.
— Você mudou depois que essa garota entrou na nossa vida e trouxe junto o irmão dela, é isso que você quer?
— Royce... Me solta! — ela gritou e puxou o próprio braço com raiva.
— Eu te solto! Porque você não aproveita e volta para aquele maldito bar, é lá onde você é feliz, se comportando como uma vagabunda cercada de homens, é isso que você gosta, não é? Ficar cercada daqueles machos que ficam jogando cantadas e tentando te foder.
— Talvez eu vá! Talvez eu até deixe um deles me foder! — gritou sem pensar.
E a próxima coisa que sentiu foi o forte tapa em seu rosto, que fez sua cabeça chicotear para o lado. Ela parou ofegante, as lágrimas desceram por seu rosto enquanto a dor latejava em sua bochecha, sentiu o gosto de sangue e ergueu a cabeça com a mão sobre o lugar do tapa.
Royce a encarava ofegante e com os olhos arregalados, parecendo tão surpreso quanto ela pelo que tinha acabado de fazer.
— Rosalie...
— Não me toca. — Rosalie sussurrou quando ele esticou a mão e bateu na mão dele quando ele tentou novamente. Gritou: — Não me toca!
Sem pensar, ela pegou a bolsa no sofá e correu pra fora de casa, batendo a porta ao sair. Escutou Royce gritar seu nome, mas ignorou. Caminhou para seu carro pegando a chave em sua bolsa e entrou.
— Rosalie, por favor, vamos conversar. — Royce pediu batendo no vidro da janela de seu carro, mas ela ignorou. Com as mãos trêmulas, colocou a chave na ignição e ligou seu carro. — Rosalie! Rosalie!
Saiu com o carro e dirigiu para longe de Royce, que seguia gritando seu nome no meio da sua. Pelo espelho retrovisor o viu passar a mão nos cabelos, olhando ao redor, parecendo desnorteado descalço e de samba-canção.
Não gostava tanto de se inspirar na relação de seus pais? Seu pai jamais teria encostado um dedo em sua mãe, a voz da realidade sussurrou em sua mente. Seu pai cortaria as próprias mãos antes de encostar um dedo para ferir sua mãe, ela sabia.
Rosalie dirigiu sem rumo pela noite escura, enxugou as lágrimas com uma mão para enxergar melhor. Ao parar em um sinal vermelho, encostou a testa no volante e chorou. Não tinha pra onde ir, não podia enfrentar seus pais naquela situação e Edward tornaria tudo pior, seus amigos eram amigos de Edward e acabariam contando algo. Estava se sentindo sozinha.
O sinal abriu e ela nem percebeu, só voltou a dirigir quando um carro buzinou atrás dela.
— Que você... Tem segundas intenções.
— Bem, droga, pensei que era mais discreto. — agitou a cabeça com resignação. — Ele está certo, você sabe.
— Emmett.... — ela sussurrou.
— Você é casada, eu sei. Mas não com a pessoa certa, Rosalie, você sabe disso. — disse se aproximando ainda mais até ficar a menos de um passo dela, tão perto que ela erguia o rosto para olhar em seus olhos. — Você merece mais.
— Não. — ela fechou os olhos.
— Tudo bem.
Emmett. Bella estava com seu irmão então Emmett estaria sozinho, podia ir pra lá agora. Não ficaria sozinha e Royce merecia isso depois do que tinha feito.
—
Confortável, Emmett estava sentado junto ao balcão de sua cozinha usando apenas a calça azul bebê de um pijama, comendo um prato de lasanha de bolonhesa que Bella tinha deixado pronta na geladeira. Essa era uma das melhores coisas de ter sua irmãzinha morando com ele novamente, sempre tinha comida pronta na geladeira, só precisava esquentar e comer – e de brinde sempre tinha uma boa sobremesa também, como amava sua irmã.
Estava bebendo um gole de refrigerante direto da lata quando o interfone tocou. Levou mais uma garfada a boca e foi até ele, que ficava na parede atrás da porta, para atender.
— Sim?
— Senhor Swan, tem uma senhora aqui que deseja subir para falar com o senhor.
— Quem?
— Ela disse que o nome dela é Rosalie Cullen.
Por sorte já tinha engolido a lasanha ou teria se engasgado, com certeza.
— Rosalie? Você tem certeza?
— Foi o que ela disse, ela me parece bastante agitada, senhor. Peço que ela espere aqui ou...
— Não, não, diz o andar e número do meu flat pra ela, pode mandá-la subir.
— Sim, senhor. — e ele desligou.
Emmett colocou o interfone de volta na base. Rosalie? O que ela estava fazendo ali? Depois do que tinha acontecido a tarde, quando quase acabou cedendo ao seus desejos e a beijado sem pensar, achou que ela fosse lhe evitar por algum tempo e não surgir em sua porta.
— Merda. — praguejou ao lembrar que estava sem camisa.
Correu escada acima pra pegar uma camisa, pegou a primeira que estava sobre a cama, uma regata branca que não fazia muito pra esconder seu corpo, deixava seus ombros e braços a mostra, mas já era alguma coisa. Desceu rapidamente e pegou um guardanapo de papel na mesa pra limpar a boca, bebeu mais um gole do refrigerante, sentindo-se mais nervoso do que gostaria. Porra, parecia uma garotinha ansiosa esperando seu par chegar para levá-la ao baile.
Respirou fundo e tentou relaxar. Ou, pelo menos, fingir que estava relaxado, era melhor que nada.
Pelo menos sua casa estava organizada. Nunca recebia mulheres em seu flat, aquele era seu santuário e Rosalie estava prestes a invadi-lo. E o pior, ele não se importava nenhum pouco.
Quando a campainha tocou, ele caminhou até a porta tentando parecer desinteressado, como se alguém estivesse vendo e ele pudesse passar de “Está vendo? Eu não tão otário quanto pareço”. Praguejou novamente baixinho ao perceber que estava descalço, mas tudo bem, era bom não parecer que estava se esforçando muito para recebê-la. Abriu a porta.
Ia cumprimentá-la, mas voltou a fechar a boca vendo o estado dela. Rosalie estava com a mesma roupa que a tinha visto pela manhã, mas seu rosto parecia ainda pior. Seus olhos estavam vermelhos e pareciam um pouco inchados, como se tivesse chorado. O canto de esquerdo de seu lábio inferior parecia inchado também e seu rosto estava vermelho, mas não completamente, apenas o lado esquerdo, como se... Como se tivesse levado um forte tapa.
— O que diabos aconteceu com você? — rosnou.
— Posso entrar? — pediu num sussurro. — Eu não tinha pra onde ir.
— Claro, Rosalie, entra.
Deu espaço pra que ela entrasse, hesitante. Fechou a porta e a seguiu para o meio da sala, enquanto Rosalie olhava ao redor.
— Você tem um lugar lindo, Emmett. — ela elogiou.
— Hum, obrigado, Rosalie...
— É mais organizado do que eu esperava pra um solteiro. — ela continuou tentando manter o assunto trivial, sorriu nervosamente pra ele. — Mas talvez seja a influência da Bella.
— Ela só tem influência na cozinha, o resto eu cuido. Nem sempre fica assim, mas no geral, consigo manter o lugar humanamente habitável.
Rosalie riu.
— Isso é bom.
— Você não veio aqui pra conhecer e elogiar meu flat, Rosalie, o que aconteceu com você?
— Eu te disse, não tinha pra onde ir e pensei que talvez... Eu só pensei em você.
Emmett arregalou os olhos.
— E o Royce?
— Nós brigamos.
Emmett estreitou os olhos e se aproximou dela, segurando o queixo delicadamente dividido.
— Ele fez isso com você? Ele te bateu? — rosnou furioso. — Aquele filho da puta ousou te tocar?
— Emmett....
— Eu vou acabar com a raça dele agora.
— Não! — ela segurou seu braço. — Eu não quero ficar sozinha agora, por favor.
— Merda, Rose, o que ele fez com você?
As lágrimas cresceram nos olhos dela e Emmett quis destruir Royce com suas próprias mãos, ele finalmente entendeu o que Jacob sentiu ao socar a cara de Sam para proteger a Leah.
Emmett pegou a nuca dela com cuidado e a puxou para seu peito, passando o outro braço ao redor de seu corpo e lhe abraçou.
Rosalie não devia se sentir tão segura nos braços dele, não se conheciam há tanto tempo assim, mas naquele momento era como se nada pudesse lhe atingir. Se sentia tão pequena e delicada nos braços de Emmett, que era mais alto, largo e musculoso que ela, deitou a cabeça no largo peitoral dele e chorou silenciosamente.
— Você está com fome? — ele perguntou. — Eu não sou bom em consolar as pessoas, mas sempre acho que comida ajuda.
Rosalie fungou e saiu de seu abraço, passando a mão no rosto para enxugar as lágrimas.
— Eu estou, na verdade. Passei em casa e tudo aconteceu, nem tive tempo de comer.
— Tudo bem, Bella deixou lasanha suficiente na geladeira, é de bolonhesa, você gosta? — ela assentiu. — Ótimo, vem. — ele a puxou na direção do balcão. — Senta ai que vou esquentar um prato pra você.
— Obrigada, Emmett.
— Estou a sua disposição.
Ela o observou enquanto pegava o refratário de vidro coberto com papel alumínio na geladeira e um prato no armário. Colocou um pedaço grande no prato e levou ao microondas, deixou esquentar enquanto guardava as coisas.
— Quer algo pra beber? Refrigerante, suco, água?
— Refrigerante está bom, dane-se a dieta.
— Dieta? Por que diabos você faria uma dieta?
Rosalie riu.
— Você é bom pro meu ego, obrigada.
— Estou falando, você não precisa fazer dieta nenhuma, Rosalie, você tem o corpo perfeito.
— Com vários quilos a mais nos quadris e no... E na parte de trás.
— E desde quando isso é algo ruim? Eu não quero soar desrespeitoso, mas isso não é algo ruim, seu corpo é lindo, quente pra caralho.
— Deus, você fala umas coisas que eu não sei como responder. — ela riu constrangida, abaixando a cabeça.
— Desculpa, vou tentar me controlar.
Ele colocou o prato quente com um garfo e faca na frente dela, junto uma lata de refrigerante gelado e ficou em pé na sua frente, pegando o próprio pra terminar de comer.
Na primeira garfada, Rosalie gemeu com a boca ao redor do garfo.
Porra, se Emmett não a imaginou gemendo com a boca ao redor de outra coisa – sentiu aquele gemido em seu pênis. Porra, não ouse, rosnou mentalmente para seu pênis. Aquela calça de pijama era fina demais pra ter uma ereção, ficaria vergonhosamente evidente (e não vergonha por questões de tamanho, nisso ele se garantia, a vergonha seria toda de Rosalie que, com certeza, ficaria constrangida o vendo de pau duro).
— Isso tá muito bom. — ela disse. — A Bella é uma cozinheira fantástica.
— Sim, ela é talentosa na cozinha. — Emmett disse orgulhoso da irmã. — Você quer me contar o que aconteceu?
Rosalie agitou a cabeça e encheu a boca de lasanha novamente.
— Tudo bem. Mas, pelo menos, eu mereço saber porque você veio aqui, Rosalie. Você podia ter ido atrás do seu irmão, seus pais, seus outros amigos, mas você veio até mim, por que?
Ela não o encarou enquanto falava, ficou mexendo na lasanha com o garfo. Bebeu um gole do refrigerante e ergueu o rosto para encará-lo.
— Eu não sei, Emmett, só... Parecia certo. Eu não queria ficar dando explicações da minha vida, não queria ouvir lição de moral, eu só... Não sabia pra onde ir e você foi a primeira pessoa em que eu pensei, então eu vim pra cá, desculpa.
Lentamente, Emmett sorriu.
— Eu fico feliz que tenha pensado em mim.
Ela sorriu de canto de boca e ele perguntou:
— Então, você gostou do que a Bella te mostrou? O Sweet Rose?
— Sim! — ela disse empolgada. — Eu amei cada detalhe. Sua irmã é a melhor pessoa que eu poderia querer como sócia.
— Eu concordo. E vocês já decidiram uma data?
— Sim, daqui três meses estará tudo pronto.
— Por que tanto tempo?
— Ainda tempos algumas coisas pra arrumar no lugar, fazer uma divulgação legal, terminar a questão de contratos com fornecedores, também temos aquelas vistorias de segurança, vigilância sanitária e outras chatices pra garantir nossas licenças e alvarás, então não vamos apressar nada pra sair tudo perfeito.
— Aposto que minha irmã deu uma chorada sobre isso, né? Ela está bem animada e impaciente.
— Sim. — Rose riu. — Mas ela acabou entendendo.
Eles conversaram mais sobre aquele assunto e Rosalie percebeu como era fácil conversar com ele, fazia tempo que não se sentia tão confortável ao chegar do trabalho e falando do trabalho, sem gritos, discussões, repreensões, Emmett lhe escutava com atenção e interesse sincero. Também fazia tempo que alguém não cuidava dela desse jeito, o jeito que ele preparou seu prato, como no meio da conversa perguntava se estava satisfeita ou se queria mais.
Devia estar realmente carente de carinho e atenção se alguém lhe servindo um prato de lasanha e conversando sobre seu trabalho mexia tanto com seu coração, quase lhe levando as lágrimas. Era assim que sonhava que sua vida seria – simples e fácil, porém feliz.
“Você é casada, eu sei. Mas não com a pessoa certa, Rosalie, você sabe disso.”
Ela afastou aqueles pensamentos, terminou sua lasanha e metade da lata de refrigerante. Se ofereceu para lavar a louça, mas Emmett recusou sua oferta e a mandou sentar no sofá e ficar confortável. Que mudança em sua rotina não ter que lavar a louça do jantar.
Mas não ela não sentou, olhou ao redor do flat dele mais uma vez enquanto tamborilava os dedos na lateral da própria coxa nervosamente. Ele tinha um lugar realmente legal ali, grande e confortável para um homem solteiro e ainda tinha a parte de cima, a escada que devia levar a parte onde estava o quarto dele e banheiro.
Caminhou até a janela e olhou a vista que ele tinha; a noite escura sobre a rua calma iluminada apenas pelas lâmpadas dos postes espalhados pelas calçadas, alguns poucos carros passando, alguns estacionados na frente do prédio ou do outro lado da rua, algumas janelas dos prédios ao redor ainda tinham luzes acesas e outras já estavam apagadas.
Distraída, nem percebeu a aproximação dele e se sobressaltou ao se virar quase trombando com ele, que estava na sua frente. Olhando em seus olhos com tanta profundidade que parecia poder ler sua mente, analisar sua alma, descobrir todos os seus segredos. Constrangida, ela voltou a olhar a janela.
— Nós vamos ter que conversar em algum momento, Rosalie. Eu preciso saber o que aconteceu com você.
— Eu estava pensando em você. — ela se virou pra ele novamente. — Sobre... Hoje.
— Sobre o que?
— Você sabe.
— Sim. — sorriu divertido. — Mas eu quero ouvir você falar.
— Você ia... — ela parou e continuou com a voz mais baixa: — Me beijar.
— Eu ia. Eu não consigo pensar em nada que eu quero mais nesse momento que te beijar, Rose. — Emmett disse dividindo olhares entre os olhos e a boca dela.
Rosalie engoliu seco, nervosa. Estava mesmo incentivando aquilo? Seu corpo parecia formigar. Ou chiar, como gotas de água caindo em uma panela quente até evaporar completamente, mas o que estava evaporando era seu bom senso, deixando apenas seu corpo quente.
— Você é tão linda...
Com um pequeno passo Emmett se aproximou tanto que eles se tocavam, ergueu a mão e pousou em sua bochecha, acariciando com o dedão.
— E o Royce?
— O que? Já te disse, nós brigamos.
— E ele te bateu?
— O que? — Rosalie empalideceu.
— Seu rosto está vermelho, nós podemos ir na delegacia agora, se você quiser, ou amanhã, posso ser seu advogado...
— Não. — ela agitou a cabeça, se afastando. Voltando a realidade. O que estava pensando? O que estava fazendo? — Eu gritei durante a briga e estava chorando, por isso meu rosto está vermelho.
— Só de um lado? — ironizou. — Isso parece mais um tapa, Rosalie.
— Não é.
— Então você não está se divorciando?
Divórcio? Podia fazer isso? Aceitar o fracasso de primeira?
— Não.
— Então o que? Você queria um pouco de distração? Uma diversão durante a madrugada antes de voltar pro seu casamento infeliz e seu marido fracassado?
— Quem você pensa que é pra dizer que meu casamento é infeliz? Você não conhece a minha vida, nem o meu casamento. — rosnou, furiosa.
E ele não está certo? Sua consciência pareceu sussurrar. Cala a boca.
— Se eu fosse casado não deixaria minha mulher sair chorando no meio de uma briga e ir procurar consolo nos braços de outro homem.
— Eu não vim buscar consolo nos seus braços. — Rosalie disse ofendida.
— Você foi a única que mencionou o nosso quase beijo e se eu não tivesse perguntado sobre Royce aposto que teria me deixado te beijar, mas eu não faço isso. Eu não fico com mulheres casadas, esse é o tipo de problema que eu não quero e não preciso.
— Eu... — ela passou a mão no cabelo, sem ter como rebater a verdade. — Foi um erro ter vindo, eu vou embora.
— É melhor mesmo. — Emmett disse. — E lembre da próxima vez que quiser me procurar que eu não sou um brinquedo pra você tirar da prateleira, usar e depois guardar de volta, é até cruel da sua parte tentar me usar assim sabendo do meu interesse em você. Resolva sua vida e, se estiver solteira e eu puder ser a primeira opção, sabe onde me encontrar.
Ele tentou não se abater pelos olhos cheios de lágrimas dela, lutando contra a vontade de pedir desculpas e abraçá-la – tinha um fraco para lágrimas, não sabia lidar com pessoas chorando. Tinha sido cruel em suas palavras? Não mais do que ela em suas ações.
Quando ela se apressou para porta e saiu do flat sem olhar para trás, Emmett a seguiu apenas para fechar a porta, passando a chave.
Se arrastou para o sofá e sentou, jogando a cabeça para trás com os olhos fechados. Tinha estado tão perto de realizar as fantasias que vinha atormentado sua mente há meses, então a deixou escapar. E por que? Por princípios.
Mas o que podia fazer? Não podia fazer isso, era algo que tinha em sua mente desde sempre: jamais trair ou ser amante de ninguém, porque sua família tinha sido destruída por uma traição e um amante, quando sua mãe traiu seu pai e largou tudo pra morar com ele. Charlie, seu pai, tinha vivido para compensar a ausência de sua mãe e por isso Emmett não pensava nela, nem tinha ódio, talvez ainda ressentimento e amargura, mas geralmente era como se ela não existisse mais, porém, nunca colocaria outra família naquela posição. Talvez Royce não merecesse aquele tipo de consideração, devia ser até bom ser o motivo do divórcio dele, mas Emmett também não iria se colocar naquela situação, podia ter um pouco de orgulho. Não era um partido tão ruim que não servia de primeira opção, merecia ter alguém por inteiro e não apenas algumas partes enquanto as outras eram de outra pessoa. Ele merecia mais.
Assim como Rosalie merecia mais, ele só esperava que ela conseguisse enxergar isso.
—
Royce gritou seu nome no momento em que Rosalie colocou os pés dentro de casa. Ela se assustou e não entrou, odiava que seu primeiro instinto fosse ter medo e fugir de seu marido, mas foi isso que sentiu. Só entrou e fechou a porta quando percebeu que ele não se aproximava com raiva, mas sim arrependido.
— Rosalie, querida, me perdoa. Rosalie — ele segurou seu rosto entre as mãos e beijou seus lábios algumas vezes, com lágrimas descendo por seu rosto. — Por favor, me perdoa. Eu sei que eu não mereço depois do que eu fiz, mas eu te imploro.
— Você...
— Eu sei. — ele fechou os olhos sem soltar seu rosto, grudou a testa na dela. — Eu me odeio mais do que você nesse momento por isso, eu te juro, querida. Eu estava nervoso, bêbado, eu perdi o controle. Você me fez perder o controle quando sugeriu que ia deixar que outro homem te tocasse, eu só vi vermelho, eu não posso suportar a ideia de te perder, Rosalie, eu perco minha cabeça porque eu não existo sem você. — ele afastou o rosto e a beijou novamente. — Eu te amo tanto, tanto. — vários beijos. — Eu não sei o que faria sem você na minha vida, quando você foi embora e não atendeu o celular, meu deus, Rosalie, eu fiquei com tanto medo que você não fosse voltar, por favor, me perdoa...
— Royce... — pegou o pulso dele pra que ele soltasse seu rosto.
— Não, eu preciso que você me perdoe. — Royce caiu de joelhos e abraçou suas pernas.
— Meu deus, Royce! Levanta!
— Não, eu tô implorando o seu perdão, querida. Você é minha esposa, é tudo que eu tenho de mais precioso, eu preciso de você. Rosalie — ele chorou. — Eu nunca mais vou te machucar, eu juro, vou ser o marido perfeito que você merece. Te ajudar em casa, trabalhar mais, eu faço qualquer coisa, Rosalie, qualquer coisa. — ele ergueu o rosto pra ela. — Não desiste da gente, do nosso casamento, podemos fazer dar certo. Eu, você, os filhos que estamos tentando ter, podemos ser como seus pais, querida, não deixa que um erro jogue tudo a perder.
Royce sabia usar as palavras certas pra amolecer o coração da esposa e soube que tinha funcionado quando Rosalie suspirou e lhe mandou se levantar, então ela se desculpou.
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