You Could Be My Queen
6 Capítulo 6
Notas iniciais
– Como você conseguiu esse corte, Sarah? – Hoggle me perguntou no dia seguinte em que fui visitá-lo.
– Ah, tropecei numa arvore e acabei cortando. – dei de ombros. – Só espero que isso suma até o meu aniversário.
– Seu aniversário?
– Sim, Hoggle. Faço 18 anos daqui seis dias. – mesmo contra a minha vontade, comecei a contar os dias para o meu aniversário, numa tentativa frustrada dos dias passarem mais rápido.
– Então isso quer dizer que você vai poder voltar pra casa? – sua voz era tristinha e isso já estava me irritando.
– Ah, não, Hoggle! Até você?
Ele chutou algumas pedrinhas imaginárias e ficou olhando para os próprios pés.
– Desculpa, Sarah, é porque eu não tenho muitos amigos por aqui e você, bem, você sempre foi tão gentil comigo.
– Ah, Hoggle, me desculpe! Eu não quis ser rude! É que minha cabeça está tão confusa!
– Você quer ficar? Por causa dele?
– Não sei, Hoggle, não sei o que eu quero da vida.
Ainda dei mais algumas voltas, tentando alinhar meus pensamentos para finalmente tomar uma decisão, mas simplesmente eu não conseguia.
A cena do piquenique de ontem, aquele quase-beijo, os lábios frios de Jareth, tudo isso rodava na minha cabeça como uma vitrola quebrada.
Não consegui chamar Jareth pra outro piquenique naquele dia, ele ficou um pouco chateado mas pareceu compreender quando eu disse que precisava pensar sobre o meu futuro.
Já estava quase anoitecendo quando eu parei em frente ao castelo, antes de entrar, e olhei para cima: Jareth sentado na janela, me observando ao mesmo tempo em que brincava com as bolas de cristal.
– Venha, Sarah! Ou você vai perder o pôr-do-sol! – Jareth gritou da janela.
Sorri e entrei no castelo, seguindo pelas escadas até a sala do trono, ele ainda sentado na janela quando eu cheguei.
– Perdi muita coisa? – perguntei ofegando, sentando ao lado dele.
– Não. – ele apontou para um morro. – Só aquela arvore que está balançando mais do que o normal hoje, o vento mais forte naquela região.
Ri do comentário dele, mas ele continuou sério. Talvez ele passasse mais tempo observando o clima do que eu imaginava.
– Sabe o que seria perfeito, pra combinar com o sol de pondo?
– O que?
– Você cantando.
Jareth quase caiu da janela.
– Como é, Sarah?
– Você canta muito bem, Jareth. Eu sempre fico te ouvindo cantando, escondida pelos cômodos do castelo.
Jareth abriu um sorriso enorme, igual criança quando ganha um doce.
– Então você gosta de me ouvir cantar?
– Sim, eu gosto. – segurei na mão dele. – Você poderia cantar algo pra mim, como presente adiantado de aniversário?
Ele sorriu de novo.
– Vamos pensar em algo.
Ficamos ainda alguns minutos em silêncio, só observando o vale, quando finalmente Jareth começa a cantar:
Tell me when you're sad
I'm gonna make it cool again
I know you're feeling bad
Tell me when you're cool again
Who'd have ever thought of it
Who'd have ever dreamed
That a small town girl like you
Would be the boss of me
Tentei não imaginar que ele escreveu aquilo pra mim, pois eu nunca tinha ouvido antes e a letra se encaixava tão perfeitamente na nossa relação que era impossível não pensar nisso, mas eu tive que perguntar:
– Foi você quem compôs? – perguntei ainda segurando a mão dele.
– Sim.
– Foi pra Felicity?
“Diz que sim, diz que foi pra ela!”
– Não. – ele apertou mais forte a minha mão. – Você sabe exatamente pra quem eu escrevi.
– Por que, Jareth? Por quê?
– Sarah, você já reparou que a pergunta que você mais faz é “por quê?” Porque eu te quero pra sempre aqui comigo não serve como resposta?
Suspirei e encostei minha cabeça no ombro dele, enquanto ele voltava a cantar e o sol terminando de se por.
– Como vai ser? – decidi aplicar a minha tática de mudar de assunto.
– Vai ser o que?
– No dia do meu aniversário. Como vai ser?
Jareth me mostrou, como sempre fazia, uma das bolas de cristal, que apenas refletia nossa imagem, como se fosse um espelho.
– Lembra que eu te disse que esse cristal realizaria todos os seus sonhos?
– Então ...
– Este será seu presente de aniversário, Sarah. Cabe a você decidir o que quer, se deseja ficar aqui comigo ou se deseja voltar pra casa.
– Belo presente de aniversário. – resmunguei pra mim mesma.
Jareth sorriu de um jeito bobo e continuou.
– Espero que você já tenha tomado a sua decisão.
– Ainda não. Tenho mais alguns dias pra pensar.
– Ou talvez não. — Jareth apontou para o relógio, que logo adiantou algumas horas.
– Isso não é justo!
– Você também diz muito isso, Sarah! Mimada, como sempre.
Eu estava com tanta raiva do Jareth que não queria mais ficar ali, logo desci da janela e fui saindo, sem me despedir.
– Sarah! Espere! – gritou antes que eu pudesse chegar até a porta.
Me virei e ele já estava do meu lado, me pegando pelo braço.
– Me desculpe, Sarah!
O rei dos Goblins pedindo desculpas? Isso parece novidade. Ou mudanças estão acontecendo?
– Me desculpe, mas essa sua indecisão está me deixando muito ansioso, achei que se eu avançasse o tempo, você se decidiria logo.
– Não, Jareth, isso só vai causar o efeito contrário.
– Prometo que não mudarei o tempo até o seu aniversário.
– Promete?
– Prometo! – ele sorriu e me derreti por dentro com aquele sorriso.
– Tudo bem. Piquenique amanhã?
– Tudo o que você quiser, Sarah.
Ficamos alguns instantes ainda nos encarando, como se um esperasse que o outro desse o primeiro passo.
Segurei nas mãos dele, fiquei na ponta dos pés e dei um selinho rápido nele.
– Boa noite, Jareth.
– Boa noite, Sarah. – ele ainda me segurou pelas costas, ficou encarando meus lábios e a cena de ontem veio a mente novamente, meu coração batendo rápido quando eu pensei que seria um beijo de verdade, mas ele apenas me deu um beijo na testa.
Até quando isso vai durar? Na verdade, eu sabia a resposta: mais cinco dias.
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