No dia seguinte, Iman estava sofrendo com a ressaca e vergonha de sair de casa, ou melhor, do meu quarto.

– Você jura que o professor David teve que me trazer até a sua cama? — ela perguntou depois de tomar um antiácido.

– Sim. — falei admirando o cristal, quase não prestando atenção às lamentações dela.

– Oh, céus! Como eu vou encarar o professor na aula na quinta-feira? — ela deu um pulo da cama e foi até a janela. — Acho que vou mudar de turma.

– Não se esqueça que ainda tem o Mark.

– O Mark? — Iman sentou-se ao meu lado. — O que eu fiz?

– Bom, você caiu nos braços dele, depois o xingou por ter ficado com a lourinha e eu ...

– E você o que? Por favor, não me diga que vocês ficaram!

– Não! Eu só tentei dar uma força. — coloquei o cristal no criado-mudo e comecei a dar uma arrumada no quarto.

– Que força, Sarah? — Iman voltou pra cama e jogou o travesseiro no rosto.

– Eu só disse pro Mark que você era afim dele. Só isso.

– Só isso? — ela quase gritou. — Não vai ter jeito, vou ter que mudar de cidade!

Depois do almoço, Iman voltou pra casa dela, mas ainda tive que aguentar as lamurias dela, até finalmente a convencer que até segunda-feira ninguém mais teria lembrado do que aconteceu.

À tarde, eu tinha planos de ir até o parque com o Merlin, mas o cansaço e o estress da noite anterior me fez dormir a tarde inteira, com direito a sonhos de David vestido de Jareth me dando aulas e me castigando com palmadas na bunda.

Quando desci pra jantar, Irene segurava Toby no colo e meu pai no telefone, todos arrumados como se fossem sair para jantar.

– Oh, Sarah! Que bom que acordou! Eu não queria te incomodar. — Irene disse quando me viu.

– Vocês vão sair? — papai continuava no telefone. — E vão levar o Toby?

– Ah, sim! Vamos jantar com a madrinha do Toby, por isso ele também vai. Você quer ir também? Não te chamei antes pois achei que talvez você tivesse planos pra hoje à noite.

Uma única vez em que eu saio numa sexta-feira à noite e a Irene já pensa que vou sair no sábado, domingo e, se duvidar, durante a semana também.

– Ainda não sei o que vou fazer hoje. — mentira, vou ficar trancada no quarto admirando minha bola de cristal que deveria estar quebrada mas está intacta. — Mas acho que vou recusar o convite.

– Tudo bem, querida! Na próxima vez, eu aviso com antecedencia, assim você pode chamar o David pra ir também.

Eu ainda não acredita em como Irene me jogava tão discaradamente pra cima do David. Apenas sorri, como se eu concordasse com o que ela dizia.

– Sarah irá conosco? — papai perguntou assim que desligou o telefone.

– Não, pai, vou ficar por aqui mesmo.

– Tudo bem, filhinha. — ele beijou a minha testa e lembrei-me de David ontem a noite. — Se for sair, apenas deixe um bilhete na geladeira, ok? — Um trovão lá fora assustou Toby, que quase começou a chorar. — Melhor irmos antes que a chuva chegue. Até mais, Sarah!

Eles mal sairam e eu tirei Merlin da garagem e o coloquei dentro de casa, antes que a chuva chegasse e ele começasse a chorar.

Comi uma pizza da noite anterior, assisti um pouco de TV, subi pro meu quarto e coloquei o meu pijama: uma calça moletom e uma camiseta velha da minha mãe, dos tempos de faculdade, era o meu pijama favorito.

Deitei na cama e Merlin deitou sobre a minha barriga.

– Pelo jeito minha barriga ainda é um ótimo travesseiro, não é, Merlin?

Outro trovão lá fora e dessa vez a chuva chegou com força, o vento fazendo os pingos na janela soar como pedras sendo atiradas.

Peguei o cristal e comecei a admirá-lo contra a luz.

– Bom, se o cristal voltou a ser como era, é porque o Jareth me deu uma segunda chance. Você não acha, Merlin?

Ele não respondeu, apenas resmungou e voltou a se ajeitar na minha barriga.

– Ou você realmente mudou ou você me ama de verdade, Jareth, pra me dar uma segunda chance. Pena que eu sou burra demais pra te trazer de volta pra mim.

Um trovão seguindo de um raio quase fez Merlin pular da cama.

– Oh, Rei dos Goblins, eu quero você aqui comigo. Agora.

Mais um trovão e dessa vez a energia acabou, só os raios lá fora iluminando o meu quarto.

A campainha começou a tocar incessantemente.

– Quem é o maluco que aparece em casa numa hora dessas? — vasculhei a gaveta do criado-mudo e encontrei a minha lanterna. — Venha, Merlin, venha comigo.

Merlin desceu as escadas na minha frente, a campainha tocando sem parar.

Abri a porta e um David ofegante se apoiando com as duas mãos na batente da porta, os olhos arregalados.

– David, o que você faz aqui?

– Está tudo bem, Sarah? — ele perguntou, tentando recuperar o folego.

Reparei que David estava completamente seco e isso seria impossível com o temporal que estava acontecendo. Olhei pra fora e não havia sinal do carro dele, nem um guarda-chuva que justificasse ele não estar molhado. Voltei a encara-lo, como se ele me devesse uma explicação, mas ele apenas recuperava o folego.

– Você me chamou. E eu obedeci. Estou aqui.

Joguei a lanterna no chão e me atirei nos braços dele. Suas mãos me seguravam com força e eu senti, novamente, aqueles lábios gelados tocando os meus, aquele beijo que eu só senti apenas uma vez, mas que eu nunca esqueci o sabor.

Seu corpo tão junto ao meu me fez sentir seu coração bater tão rápido quanto o meu. Brinquei com o seu cabelo e ele gemeu enquanto nos beijavamos. Eu ainda não acreditava que ele estava o tempo todo perto de mim.

Um trovão tão forte, que parecia que estava ao nosso lado, interrompeu o nosso beijo, mas ainda continuei abraçada a ele.

– Jareth, por que? Por que você fez isso comigo?

– Eu queria ser aquele que você sempre me pedia: um amigo, um companheiro. — Jareth puxou o meu cabelo atrás da orelha. — Mesmo sem entender porque você disse aquilo na sua festa de 18 anos.

– Foi burrice minha, Jareth! Aquela era a minha fala na peça de teatro que estavamos ensaiando quando você me levou pro Labirinto. — passei de leve meus dedos sobre os lábios frios dele. — Minha decisão de ficar com você já estava tomada quando nos beijamos.

Jareth sorriu. O sorriso David Jones.

– Fiquei feliz em saber que você aprendeu a sorrir, Jareth.

– Me lembro muito bem de você dizendo que eu deveria sorrir mais. — ele me abraçou forte. — Acho que aprendi a sorrir por você.

– Toda noite eu te pedia desculpas. — aconcheguei minha cabeça no peito dele.

– Eu sei. Eu ouvia toda noite e toda noite eu te perdoava. Eu só me irritava por você estar se apaixonando pelo David Jones. Não era essa a minha intenção.

– E qual era a sua intenção?

– Fazer parte da sua vida enquanto você não dizia as palavras certas. Eu não suportava a ideia de ficar longe de você.

– Bom. — inclinei minha cabeça para enxerga-lo melhor. — David Jones faz muito sucesso na faculdade, muitas meninas desejam ele.

– É, eu tenho o meu charme. — e sorriu. — Mas quem eu queria, finalmente eu consegui conquistar.

A chuva aumentou e os raios e trovões também. Merlin choramingou e voltou correndo pra dentro.

Jareth beijou a minha testa.
– Vamos entrar, vou ficar aqui até seus pais chegarem.

– Eu não quero mais beijos na testa, Jareth.

– Não? — ele me olhou confuso.

– Quero beijos de verdade. — puxei-o pelo cabelo, seus lábios agora não estavam tão frios, mas não deixavam de ser deliciosos por causa disso.