Nunca acordei tão animada para uma aula como tenho acordado para as aulas de quinta-feira!

Aquela quinta-feira, no entanto, estava muito atípica!

David pediu que formássemos duplas para a leitura e compreensão de texto, e como éramos em trio, jogamos no palitinho e Iman fez par com a loirinha entusiasmada que senta atrás de Mark (Jéssica era o nome da team leader) e eu, dupla com o Mark.

Neste dia, a troca de olhares com o professor David foi intensa e Mark se incomodou com isso.

– Você ta paquerando ele? – ele perguntou bravo.

– Paquerando quem?

– O professor! – Mark virou para olhá-lo e juro que eu vi David estreitar os olhos discretamente.

– Claro que não, Mark! É que ele me lembra alguém conhecido, mas não lembro quem. – lembro sim, lembra o Rei dos Goblins.

– Ah. – ele resmungou. – Ta, vamos continuar.

Tentei voltar ao texto, mas a todo momento eu me sentia observada. Queria levantar a cabeça e me certificar de que era o professor me olhando, mas eu sabia que Mark já estava incomodado o suficiente e eu não queria outra cena dele ali na sala.

No final da aula, quando eu já estava quase na porta, escuto David me chamar:

– Sarah, pode vir aqui um instante?

Iman e Mark me olharam intrigados, como se perguntassem se eu tinha aprontado alguma coisa pra ser chamada pelo professor.

– Encontro vocês lá fora. – falei antes de voltar pra sala.

David estava sentado, passando o olho pelas folhas de respostas dos alunos, mas aparentemente, sem ler algo em especial.

– Alguma coisa aconteceu, professor?

– Por que você fez dupla com o Mark? – ele perguntou ainda olhando para as folhas.

– Desculpe, professor, mas você disse que a gente podia escolher quem quiséssemos.

– Eu só acho que você poderia ter escolhido a Iman ou o nerd Harry Potter.

Eu não estava entendo onde ele queria chegar.

– Foi apenas questão de afinidade.

Agora David me olhou, arregalando os olhos.

– Ele é seu namorado?

– Não! Não! Claro que não! – eu quase gritei de desespero. – Apenas nos conhecemos há bastante tempo, fazemos parte do mesmo grupo de teatro, mas não, eu não tenho interesse nele.

Eu vi David nitidamente relaxando o corpo na cadeira, como se estivesse aliviado, mas achei melhor tentar não ver coisas demais.

– Ah, tudo bem. – ele sorriu pra mim. – Só evite fazer dupla com ele.

– Por quê?

– Porque ele está visivelmente apaixonado por você e isso pode atrapalhar os estudos de vocês.

– Isso não é justo! Ele é meu amigo!

– Você diz muito isso, Sarah! – David apontou a porta com a cabeça. – Isso é só, pode ir agora.

Minha cabeça girava, tentando entender o que havia acontecido naquela sala.

Primeiro, tenho a sensação de que David está com ciúmes e por isso não quer que eu faça dupla com o Mark. Depois, ele diz as mesmas coisas que Jareth me dizia, sendo que aquela parecia ser a primeira vez em que trocávamos palavras que iam além do “bom dia, professor”.

Como de costume, depois do almoço eu me trancava no quarto para fazer os trabalhos da faculdade e também para ficar horas com a bola de cristal, dizendo qualquer coisa que viesse à minha cabeça, na tentativa de trazer Jareth, mas ou as palavras nunca eram as certas ou ele não queria me ouvir.

Comecei a pensar em David e não consegui esconder o meu sorriso ao pensar que talvez ele estivesse com ciúmes por causa do Mark. Isso então significaria que ele tem prestado atenção em mim.

– Sarah! Vá passear com o Merlin! Está uma tarde de sol linda e ele está chorando na porta da cozinha! – Irene gritou da sala.

Meio a contragosto, desci e obedeci minha madrasta.

– Vamos, Merlin! Vamos dar uma volta no parque.

Ele saiu correndo na minha frente e quase tive que coloca-lo na coleira para não perde-lo de vista, mas ele logo me obedeceu e voltou a andar ao meu lado.

Durante a semana o parque sempre era muito tranqüilo, então Merlin tinha quase todo o espaço do mundo para brincar de frisbee.

Merlin já parecia cansado quando eu avistei David sentado no mesmo banco da primeira vez, com o mesmo livro. Há quanto tempo será que ele estava ali e eu não tinha percebido?

David sorriu, levantou e veio caminhando na minha direção, Merlin com o frisbee na boca e sentando-se ao meu lado.

Ele ainda estava com a mesma roupa da manhã, de terno xadrez e gravata preta, caminhando despreocupado e o vento despenteando o cabelo.

– Posso? – ele perguntou, apontando para o frisbee na boca de Merlin.

– Claro!

Merlin deixou David tirar o brinquedo da boca dele e jogou, voando longe e Merlin correndo e latindo para buscar.

– Qual o nome dele? – David perguntou quando ele voltou de novo com o frisbee.

– Merlin.

– Ah, por que não me surpreendo com esse nome? – David jogou de novo, Merlin já não correu tanto para buscar dessa vez e quando voltou, jogou o frisbee na grama e deitou.

– Acho que ele já está cansado. – David disse. – Vocês estão aqui há bastante tempo.

– Você tem me espionado, professor?

O olhar dele era sinistro, que por um momento achei que era o próprio Jareth.

– Antes de vocês chegarem, eu já estava aqui. E não, não estou espionando você. E por favor, fora da sala de aula me chame simplesmente de David.

Apenas concordei com a cabeça, achei melhor sair dali logo antes que ele gritasse por qualquer coisa comigo. E antes que eu falasse mais alguma bobagem.

– Vamos, Merlin. – peguei o frisbee do chão e ele se levantou.

– Sarah. – David me segurou pelo braço, de olhos fechados, balançando a cabeça em sinal negativo. – Me desculpe, eu não queria ter sido rude com você.

– Tudo bem, profes ... David. Eu também não deveria ter tido aquilo, simplesmente saiu da minha boca. – o que vinha acontecendo com certa freqüência.

– E me desculpe por hoje cedo, pelo Mark. – ele soltou o me braço e me olhou. – É que eu me senti na obrigação de te proteger.

– Me proteger?

– É, não sei explicar. É como se ele pudesse te fazer algum mal.

Eu ri daquele comentário bobo, mas ele não viu graça nenhuma, continuou sério.

– Mark é inofensivo! Somos bons amigos, ele freqüenta a minha casa e meus pais gostam dele. – segurei na mão dele. – Mas obrigada pela preocupação.

David sorria tão lindamente, os lábios num formato perfeito e os olhos coloridos brilhando. Isso era tão Jareth que eu tinha vontade de beijá-lo ali mesmo.

– O que foi, Sarah? – ele perguntou depois de um tempo em silencio, enquanto eu apreciava seus olhos.

– Nada. É que você me lembra muito uma pessoa querida.

– Ah, escuto isso o tempo todo.

Será que Jareth andava seqüestrando mais mocinhas por aí?

– Bom, você quer que eu te acompanhe até a sua casa?

– Não!

Sim!

– Quero dizer ... se você não tiver nada de importante pra fazer ... não quero te atrapalhar.

– De modo algum! – ele olhou para a coleira na minha mão. – Quer que eu prenda o Merlin?

– Não, não precisa, ele é muito obediente. Sabe caminhar do meu lado, só trouxe por trazer mesmo.

David sorriu e começamos a caminhar, Merlin ao meu lado e aquele silencio constrangedor que eu odeio, mas ultimamente eu tinha medo de dizer as coisas e atrapalhar tudo.

– Para um professor de comunicação, você é bem calado.

– É, não sei me relacionar muito bem com pessoas.

O assunto morreu ali. A sorte (ou azar) era que a minha casa não era longe do parque, logo o silêncio terminaria, mas eu não queria me despedir de David, queria passar mais tempo com ele.

Uma esquina antes de chegar em casa, havia um vendedor de algodão-doce, o que atiçou a minha vontade de comer doce antes do jantar. Revirei o bolso da minha calça em busca de algum trocado, mas sai na pressa, sem levar nenhum dinheiro.

– O que foi? – David perguntou quando me viu parada revirando os bolsos.

– Esqueci meu dinheiro em casa. – ele não havia entendido e sinalizei com a cabeça o vendedor. – Droga!

– Espere um pouco.

Ele se afastou e foi até o vendedor, comprou dois, um rosa e um verde, e veio andando até mim, como uma criança que acaba de ganhar um doce.

Rimos ao mesmo tempo quando ele entregou o algodão doce.

– Obrigada. – agradeci depois de pegar um pedaço.

– De nada. – David sorriu. – A cor interfere no sabor?

– Que pergunta estranha, David! Que eu saiba não, é só corante. Quer provar o meu? – peguei um pedaço e coloquei na boca dele, ele lambendo de leve a ponta dos meus dedos e eu achei aquilo muito sexy e proibido pra um professor.

– Hum, de fato, o sabor é igual. – ele disse. – Vamos, não quero que você fique até tarde na rua.

Eu tentava me recompor, mas a cena dele lambendo os meus dedos repetia sem parar na minha cabeça.

Será que Jareth consideraria isso uma traição?