You Could Be My Queen
12 Capítulo 12
– É aqui. – falei quando chegamos na porta de casa.
– Bela casa. – David disse.
Ainda fiquei me perguntando se eu deveria convidá-lo para entrar, se aquilo seria audacioso demais ou apenas me despedir com “nos vemos na faculdade”.
– Bom ...
– Bom ... – ele repetiu e parecia tão constrangido quanto eu. – Você já está entregue, sã e salva em casa.
– Por Deus, Sarah! Por que demorou tanto?
Era Irene gritando da porta de casa e eu queria que um buraco abrisse na terra, de tanta vergonha que eu estava sentindo.
– Irene, esse é meu professor da faculdade, David. Ele estava comigo no parque, acabei perdendo a noção do tempo, me desculpe.
Irene se aproximou e perdeu um pouco do ar quando viu David sorrindo pra ela. Acho que ele fazia isso com todas.
– Oh, me desculpe! – ela se aproximou. – David, sou Irene, madrasta da Sarah. – ela estendeu a mão e ele beijou a palma, como nos filmes antigos. – Ahh ... – sim, ela perdeu a fala e parecia uma adolescente. – Você não gostaria de jantar conosco? Já está quase pronto.
Meu coração quase saiu pela boca.
David me olhou, como se perguntasse se seria uma boa idéia.
– É, David, não quer jantar conosco? – perguntei tentando parece natural e sem nenhum desespero de passar mais tempo com ele.
– Não, não quero incomodar.
– Não será incomodo algum! – Irene foi puxando-o pelo braço. – Vamos, entre. Sarah, coloque o Merlin na garagem, não quero ele andando pela casa enquanto jantamos.
Obedeci Irene e quando voltei, David estava sentando no chão brincando com Toby.
– Este é o seu meio irmão que o Rei dos Goblins seqüestrou? – ele perguntou assim que me viu.
– Ele mesmo. Na verdade, eu pedi pra levar ele, porque Toby era um bebê ainda e chorava muito, nada fazia ele ficar quieto.
David riu de uma maneira tão gostosa, quase uma risada de criança. Era muito contagiante.
Me sentei ao lado dele e liguei a TV, Toby logo se concentrando no desenho animado que estava começando.
– Estou sem fome. – falei mais pra mim do que pra ele.
– Eu também. – David sorriu e de novo me perdi no olhar dele.
– Como você conseguiu esses olhos de duas cores? É de nascença?
– Não, foi numa briga na escola, por causa de uma garota que o meu melhor amigo era apaixonado. Dei em cima dela, ele me bateu direto no olho e fiquei assim. – David deu de ombros. – Considero isso um charme, não conheço ninguém assim.
– Eu conheço. – pensei alto, seguido de um suspiro.
– Sério? – ele parecia alegre com o fato. – E é de nascença?
– Ah, não, não sei. Nunca perguntei.
Se um dia eu reencontrar o Jareth, não posso esquecer de perguntar como ele conseguiu um olho de cada cor.
– O que foi dessa vez, Sarah? – David perguntou quando percebeu que eu não conseguia parar de olhá-lo.
– Nada é que ... – fechei os olhos e a imagem do primeiro selinho no piquenique nas fronteiras do reio me veio a mente. – É que você me lembra tanto uma pessoa querida, que às vezes dá vontade de chorar e de te abraçar ao mesmo tempo.
– E por que você simplesmente não me abraça?
Quase pulei pros braços dele, mas me contive.
– Ai, David, a gente se conhece há pouco tempo, você é meu professor. Tudo é muito estranho pra mim.
– Vem. – ele sentou-se sobre as próprias pernas e abriu os braços. – Me dá um abraço.
Meus olhos já estavam cheios de lágrimas, abracei-o tão forte que quase achei que íamos cair ao mesmo tempo.
David correspondia ao meu abraço, seus braços eram fortes, sua mão acariciava o meu cabelo e agora eu chorava de soluçar.
– Oh, criança! Quem foi esse infeliz que está fazendo você chorar assim?
– O Rei dos Goblins. – falei em meio ao choro e ele riu.
– Ah, sempre o Rei dos Goblins. – ele beijou a minha testa. – Pelo menos não é o Mark.
Me soltei e comecei a rir, ele limpando as minhas lágrimas e dando mais um beijo na minha testa.
– Vai se recompor antes que a sua madrasta chegue. Não quero que ela pense besteiras se te ver assim chorando.
Concordei com a cabeça e subi pro banheiro, lavei o rosto e passei no meu quarto. Olhei no espelho e a minha cara estava um pouco melhor. Dei uma ajeitada no cabelo e passei uma maquiagem leve, só pra não assustar todo mundo.
Escutei meu pai chegando e cumprimentando David, os dois se conhecendo e trocando amenidades.
Olhei pra bola de cristal que estava na penteadeira.
– Oh, Jareth, é bom você aceitar logo as palavras que eu digo, antes que eu me apaixone pelo meu professor.
Se é que eu já não estava apaixonada.
– Sarah, o jantar está na mesa. – Irene gritou.
Desci e quando cheguei à cozinha, o lugar vazio guardado pra mim era ao lado de David, que sorriu e bateu de leve no assento da cadeira, como se dissesse que aquele era o meu lugar.
– Então, David, há quanto tempo você leciona? – meu pai perguntou.
– Na verdade, é meu primeiro ano como professor.
– Ah, então somos suas cobaias?
David me olhou do mesmo jeito que ele fez no parque. O bolinho de carne desceu quase que inteiro pela minha garganta.
– E você trabalhava com o que antes de dar aulas? – papai continuou.
– Eu era jornalista numa pequena cidade do interior. Mas sabem como é cidade pequena, o futuro nunca é muito promissor, achei melhor ampliar meus horizontes e me aventurar por aqui.
– E você é casado, David? Namora? – era Irene quem perguntou e percebi que o meu pai não gostou da pergunta, mas eu a agradeci mentalmente por sanar a minha curiosidade.
– Não, não sou casado e nem namoro.
Olhei pelo canto do olho e pude ver uma olhada dele leve do David pra mim.
– Mas um rapaz tão jovem, tão bonito como você não namora? – Irene continuou e papai agora tinha uma cara muito brava. – Você costuma sair? O que você faz pra se divertir?
– Bom, eu sou um pouco caseiro, costumo ficar em casa, lendo livros, estudando. Ou vou ao cinema, ao parque, ao teatro. – ele deu de ombros. – Essas coisas.
– Igualzinho a Sarah! – Irene exclamou. – Sarah também não costuma sair, temos que brigar com ela pra poder sair com a Iman e o Mark, se não ela fica o tempo todo trancada no quarto, fantasiando coisas com seres imaginários.
– Irene. – meu pai resmungou, como se percebesse que eu estava constrangida, mas isso não fez ela parar.
– Vocês dois precisam sair, conhecer pessoas, se divertir! São jovens, devem aproveitar a vida.
– Irene. – meu pai interviu de novo. – Querida, você está constrangendo os dois, parece até que você está jogando a Sarah nos braços dele. – ele disse baixinho, mas ainda pudemos ouvir.
– Me desculpe. – falei baixinho pro David. – Não sei o que deu nela hoje.
– Tudo bem. – David sorriu e tocou a minha coxa, me causando arrepios.
Meu pai mudou radicalmente o assunto, falando sobre esportes, economia e aqueles assuntos todos que usamos pra tentar mudar a conversa.
David foi embora depois da sobremesa e eu o acompanhei até a rua.
– Volte mais vezes, David! – Irene disse entusiasmada e eu começava a suspeitar que a minha madrasta também estava se interessando por ele.
– Obrigado mais uma vez, Sarah. – David disse quando já estávamos longe de todos, na rua. – Sua família é muito acolhedora e sua madrasta cozinha muito bem.
– Ah, obrigada também pelo abraço. Me ajudou bastante.
Ele sorriu e abriu os braços.
– Quer mais um?
Eu sorri e o abracei forte, sentindo melhor o seu perfume, me sentindo segura com ele.
Ai, Jareth, poderia ser você aqui e agora, não poderia?
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