Notas iniciais
TEI¹ - O transtorno explosivo intermitente, (abreviado TEI) descreve uma situação onde uma pessoa, nos momentos de raiva, não consegue conter seu comportamento e acaba perdendo o controle: xinga, berra, ameaça, destrói objetos, ataca fisicamente as pessoas. Possui as seguintes características: Apesar de não premeditar, depois desses ataques percebe que exagerou nas atitudes e sente vergonha, culpa e arrependimento. Seus ataques de raiva nada têm a ver com o uso de álcool ou de drogas.

Para: Harvard.university@hotmail.com

Assunto: Vaga de trabalho em Literatura Avançada.

“Meu nome é Thomas Harry Campbell. Tenho vinte e quatro anos. Estudei no colégio Santa Lucia, Nova York — NY. Formei-me com honras na Faculdade de Boston. Agora, leciono em tempo integral no colégio particular de maior prestígio da Pensilvânia. Quando criança eu adorava assistir desenhos que agora, não fazem o menor sentido. Nunca fui casado, e não tenho nenhum filho. Pelo menos, não que eu saiba. Ultimamente, tenho vivido em bares, e faço terapia três vezes por semana. E segundo o dotor Thorne, eu posso me tornar um perigo pra sociedade. E segundo ele, eu posso desenvolver TEI (transtorno explosivo intermitente). O que é ótimo! O que mais eu posso pedir? Sério velho, eu sou um cara de vinte e quatro anos que pega alunas e que tem TEI. Sério, minha vida não pode ficar melhor! Pensando bem, acho que nunca terei filhos. Imagina só um feto meu! Você não pode me ver, mas eu estou no chão, rindo da cara de TEI do meu feto.

Qual é o melhor jeito de rir virtualmente? KKK ou Hahaha? Eu nunca vou entender essa droga. Aliás, até ontem eu não achava muito legal rir virtualmente, mas meu terapeuta disse que eu preciso me arriscar mais. Então... KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK! Oh, isso foi tão irado! Eu preciso fazer de novo. Aguenta ai, vou ligar pra ele e dizer que fiz um progresso contra TEI.

Eu já contei que com vinte e um anos eu peguei uma professora da faculdade? Provavelmente você que está lendo deve estar pensando “meu Deus, que garoto infeliz.” Na verdade, eu nunca peguei ela. Ela me beijou. E convenientemente, era a professora de português/literatura avançado. Me deu nota por ter ficado de boca fechada. Na época foi engraçado. Acho que agora é desesperador, talvez.

No esboço de corpo de carta, vocês pedem uma experiência de infância... Bom, quando eu era criança, pedi de aniversário uma garrafa de uísque. Isso conta como experiência? Pois, quando ele disse que não iria me dar, eu roubei a garrafa dele. Eu tinha seis anos. E foi uma experiência bizarra. Até hoje eu odeio uísque. Sério, quem bebe aquilo? Eu acho que não gosto porque, quando meu pai descobriu que eu havia pego a garrafa dele, ele me deixou de castigo por três meses. O que na época não foi grande coisa porque eu não esbanjava amigos. Cara, eu acho que esse email já está de bom grado.

Aliás, eu adoraria trabalhar na sua faculdade.”

P.O.V THOMAS C.

– O que achou, Thorne?

– É um email interessante. Mas, se eu fosse você...

– O que, por azar seu, não é...

– Eu não enviaria esse email.

– Bom, como eu sou eu e não você, eu enviei.

– Thomas, parabéns. Acabou de estragar todas as suas chances de lecionar em Harvard.

– Olha, eu achei um email bem legal.

– Você escreveu doutor errado.

– Sério? Bom, tomara que eles entendam como humor.

– Um humor um tanto obscuro.

– É meu tipo de humor. Chama-se humor negro grau Thomas.

– Isso existe?

– Bom, parece que você inventou TEI, então, sim, existe.

– Eu não inventei TEI, Tom. Você realmente tem isso, e não vai passar se você ignorar.

– Eu estou bem, trouxa.

– Adoraria que não me chamasse de trouxa.

– E eu adoraria que parasse de falar em TEI. Parece que ambos estamos nos iludindo, trouxa.

– Thomas, é um problema real. Se você continuar agindo como uma criança, não chegaremos a lugar nenhum! Peço que fique calmo, e tome as medicações que eu receitei.

– E eu peço pra você fechar essa boca e ficar na sua. Eu não estou doente, eu não preciso de remédios. – e, antes que eu me desse conta, atirei a cadeira na direção da janela mais próxima, que se estilhaçou. Uma raiva enorme tomou conta de mim, e tudo o que eu pensava era em um modo de matar aquele ser gordo sem que restasse nada. Cremar talvez. E jogar as cinzas no mar. Não. Era tanta gordura que as cinzas corriam perigo de virar uma ilha. Talvez dar o pó pra uma aldeia indígena. Eles parecem curtir coisas gordurosas.

–Thomas! – ele estava com as mãos nos meus ombros, parecia assustado. Mas, mesmo assim, tentava me acalmar.

– Eu estou bem. Tira essas mãos de mim. – dito isso, eu fui embora. Sai pela porta, e desci as escadas apressadamente. Caminhei até meu carro, e chorei. Eu só... simplesmente chorei. Estava cansado. Tudo estava acontecendo tão rápido. Eu não conseguia acompanhar. Era demais pra minha cabeça. E, parecia que a cada lágrima era um problema a menos. O alivio caia com peso sobre mim. Eu não saberia dizer se a vida estava acontecendo a minha volta, ou se ela esperou todas as lágrimas necessárias caírem. Eu só queria ter a coragem para me arriscar, e a vitalidade para me esforçar. Queria que tudo acabasse. E, por um segundo, me peguei desejando que um raio partisse o teto do carro, e me pegasse desprevenido. Mas, eu percebi que ainda há muito para se viver. E eu quero aproveitar cada parte. Cada suspiro de manhã. Cada grito comemorando o fim das aulas. Cada dose de tequila para comemorar mais um dia vivido. Cada chavéco. Cada passo. Cada segundo. Porque ainda há muito pra se viver. E eu quero cada minuto, segundo. Porque isso sim é viver.

Sem medo do que pode haver atrás da porta.

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Eu estava em casa, e já devia ser umas onze da noite. Meu celular começou a tocar feito idiota sobre a mesinha de cabeceira.

– Alô? – atendi, já sem paciência.

– Hey, professor mais gostoso do mundo!

– Quem fala?

– Oh, não conhece minha voz, Tom?

– Sarah?

– Na mosca, delicia!

– Olha, eu estou corrigindo os testes da sua turma, Sarah. Não tenho tempo para conversar. Aliás... como conseguiu meu numero?

– Tenho meus contatos, querido.

– Você está bem? Parece um pouco perturbada.

– Não sabia? Eu sou perturbada sem a ajuda de nenhuma droga. Mas ai eu uso algumas coisitas pra deixar o efeito mais permanente.

– Você está drogada?

– Nãaaaaaao! Da onde você tirou isso, querido professor?

– Sarah, onde você está? Eu vou ai te pegar.

– Então, querido. Isso será um dilema bem complicado.

– Porque?

– Eu não faço a menor idéia da onde eu estou.