P.O.V NARRADORA
Thomas se encontrava em uma situação difícil. Durante meses sua rotina foi dar aulas e voltar pra casa. Comia pouco, bebia muito. Começou a desenvolver instintos violentos. E tinha ataques de raiva repentinos. Quebrava copos, atirava pratos.
O natal naquele ano foi triste e solitário. Ele não falava com Sarah há mais ou menos três meses. E ele sabia que ela tinha uma nova vida. Mas ele não estava vivendo. Ele bebia para esquecer a dor e o sofrimento. Via fotos dela se divertindo e queria ser tão feliz quanto ela parecia. Mas havia uma parte dele que se recusava a sentir outra coisa se não saudades. Sentia saudades de suas perguntas bobas na sala de aula. De sua voz de criança cantando a música de abertura dos diversos desenhos animados que passava na TV sábado de manhã. Sentia saudades de enterrar a cabeça em seus cabelos sedosos. Ele queria superar. Mas tudo ficou mais difícil. Ela havia ido há um ano. E em julho do segundo ano sem ela chegou, trazendo seu aniversário de 26 anos. Ela ligou pra ele.
– Thommy! Parabéns vovô! — disse gritando. Atrás dela havia uma música alucinante e Thomas podia ouvir pessoas gritando. Mas a voz ainda era dela. E era tão bom ouvi-la novamente.
– Sarah! Obrigada pirralha. — respondeu, tentando disfarçar o nervosismo e surpresa na voz. A linha ficou em silêncio por alguns segundos. E ele percebeu que ela havia ido para um lugar mais calmo. — Você não ligou só pra me desejar feliz aniversário, não é mesmo?
– Olha, eu estou aqui há um ano e meio...
– Eu sei. — tentou parecer despreocupado mas não conseguiu. Escutou a risadinha rouca de Sarah logo depois.
– Eu só liguei pra saber se está tudo bem se eu começar a sair com outras pessoas. — ela parecia receosa. Suas palavras foram como adagas. Elas se cravaram no peito de Thomas e se recusaram a sair de lá. Algumas lágrimas brotaram em seus olhos e ele percebeu que não estava pronto pra isso. Ele queria que ela esperasse por ele. Mas ele sabia que ela não estava disposta a fazer isso. Por mais que o amasse, sua vida continuou. E ele continuou aqui. No mesmo lugar. Ela tinha tanta história pra contar. E Thomas continuava a viver sua vida pacata e sem graça. Então ele fez o que temia. Deu sinal verde pra ela. Disse que estava tudo bem se ela namorasse. Até porque eles não estavam mais juntos. Ele não era o seu dono. E apesar de querer gritar e pedir pra ela o esperar, ele não fez isso. Porque ele sabia que estaria a machucando. Ela quer viver. Quer conhecer o mundo. Experimentar coisas novas. Então ele a deixou ir. Deixou que ela fizesse o que queria. Mas ele se sentia tão vazio. Pode ouvir seu coração se despedaçar. E agora, ela não o ajudaria a restaurá-lo. Porque ela tinha uma vida. Uma vida que infelizmente ele não fazia parte.
Então ele fez a única coisa que o acalmava. Ele escreveu. De janeiro a setembro ele escreveu. Escreveu tudo desde o início. Mas ele não conseguiu escrever o nome dela sem chorar. Então ele decidiu mudar. Mudar o nome dela. Porque era doloroso demais lê-lo. Desde então ele se afastou de tudo e de todos. Apagou o número de Sarah, excluiu ela de todas as suas redes sociais. E assim que entrou em uma delas, viu Sarah. Ele a viu sorridente e ele pensou nunca ter a visto tão feliz. Ele a viu. E ao lado dela havia um garoto. Eles estavam abraçados. E a legenda da foto quebrou o que restava de seu coração.
"Ela disse sim!"
Thomas demorou muito pra entender. E quando se deu por si, estava sentado em um bar. Afogando as mágoas numa garrafa de tequila. Meses se passaram. E o natal do segundo ano sem ela se passou. Ele estava melhor. Saia pela cidade e caminhava no parque. Mas então o aniversário dela chegou. E naquele dia Thomas não sabia o que fazer. Se afogou em uma garrafa, dessa vez de whisky. Ele estava chorando em um canto no bar onde eles se conheceram. Olhava fixamente para o sofá onde ele estava quando ela puxou assunto com ele. Parecia ser ontem. Mas isso havia sido há três anos. E a memória do seu rosto ainda permanecia vivido em sua memória. E ele só pensava nela. Então, como se soubesse o que ele sentia, ela mandou um torpedo.
"Esqueceu que dia é hoje? -S"
Thomas se sentiu sufocado. Ela não o deixava esquecê-la. Ela queria estar presente. Queria fazer parte da vida dele. Mas mal ela sabia que aquilo só o machucava. Ele queria superar. Queria esquecer que havia a amado. Mas ela continuava o puxando para perto dela. E Thomas percebeu que o papel que ele desempenhava na vida dela era muito maior do que pensava. Ela não queria deixar ele ir. Talvez porque não estivesse pronta para viver sem ele. Talvez ela não quisesse. Mas Thomas sabia que era melhor se afastar. Então ele não respondeu. Ele apagou a mensagem e desligou seu celular. E Deus sabe como foi difícil rasgar a carta que ela mandou no natal daquele ano. Então o terceiro ano sem ela se arrastou lenta e dolorosamente. Mas em abril Thomas teve uma grande surpresa. Valery ligou pra ele. A mesma Valery, ex-noiva. E eles conversaram. Eles ficaram novamente. E Thomas se sentiu bem pela primeira vez em anos. Eles queriam retomar o relacionamento da onde haviam parado. Mas sabiam que era impossível. Então Thomas começou por onde deveria.
Eles ficaram noivos um ano depois, em julho do quarto ano sem Sarah. Em parte ele se sentiu mal. Era o último ano de faculdade. Então eles poderiam ficar juntos. Mas Thomas sabia que era melhor se ficassem longe um do outro. Ela poderia estar com um outro cara. E ele teve certeza disso quando o natal chegou. E naquele ano havia dois envelopes enviados por ela. O primeiro era um convite de formatura. Assim que ele o abriu, avistou um post-it no canto do papel grosso.
"Espero que possa comparecer. -S"
O segundo envelope era um cartão de natal. Havia uma foto nele. Ela. O mesmo garoto da foto que ele havia visto anos atrás. E uma criança.

Thomas rasgou a foto. Mas decidiu ir na formatura. Ele sempre a apoiou. E não havia mal nisso. Quando janeiro chegou, Thomas fez uma pequena mala e pegou um avião para Londres.
Ela foi buscá-lo no aeroporto e eles conversaram sobre praticamente tudo o que havia acontecido nos últimos quatro anos. Ela havia ficado noiva. Mas não deu certo entre eles e resolveram ficar como amigos. A criança na foto era o irmão do garoto. E Thomas se sentiu um idiota. Seguiu em frente porque achou que ela havia feito o mesmo. E agora ela estava disponível ali. Bem na sua frente. E ele não se conteve. Escondeu o fato de estar noivo. E quando ela perguntou o que havia acontecido com ele no passar dos anos, ele não respondeu. Somente percebeu que ela olhava para sua boca. Então ele fez o mesmo. Eles se beijaram. E Thomas não se sentiu culpado. Na verdade aquilo parecia certo. E então ela entrelaçou seus dedos nos dele e o puxou até seu quarto.
Ele acordou meia hora depois. E ela estava deitada ao seu lado, acordada, com o lençol cobrindo-lhe os seios. Ela o olhava com uma expressão pacífica e contempladora.
"Não deveríamos ter feito isso." Ela disse. E aquilo destruiu ele por dentro. Mas era verdade. Era errado e ele sabia. Valery esperava por ele na Pensilvânia. E eles tinham um futuro promissor pela frente. Mas ele tinha que estragar tudo. Sarah o olhou hesitante o resto do dia. Não trocaram nenhum tipo de comunicação. Então, a hora da formatura chegou e Thomas foi se vestir. Quando chegou na sala, Sarah tentava fechar o vestido. E Thomas teve certeza de que nunca havia a visto tão linda. Seus cabelos estavam soltos, com as pontas caindo em caixos sobre suas costas. Seus ombros estavam nus. O vestido em um tom de azul valorizou a cor de seus olhos. Uma maquiagem básica que deixava ainda mais irresistível. Sua boca estava envolta em um batom vermelho.
Thomas a ajudou com o colar, e assim que ela se virou, eles ficaram cara a cara. Thomas pode ver os olhos dela. Então ele a beijou. E ela correspondeu. Mas ele sabia que era errado. Então, depois da formatura eles foram pra casa dela, então ele contou que estava noivo. Ela ficou quieta por um segundo. Depois começou a gritar.
"Como você pode esconder isso de mim? Eu não quero destruir um noivado, Thomas! Você tem noção do que você me fez fazer? Eu criei esperanças! Pensei que talvez pudéssemos ficar juntos!"
Então Thomas passou a noite em um hotel. E no dia seguinte, pegou o primeiro vôo de volta pra casa. E fez o que era certo.
Ele ia terminar com Valery. Deus sabe que sim. Mas antes que ele pudesse ter ao menos a chance de fazer isso, a garota o surpreendeu.
Ela estava grávida.