You Are Not Alone
43 Você?
Notas iniciais
To morrendo de sono, não consigo pensar em nada direito, mas uma coisa eu sei q tô com 70 leitores, uma façanha que me deixa muito feliz *-*, mas a média de 6, 8 reviews por cap. E os outros 60 e tantos, cadê? Eu quero reviews nesse, a fic ta acabando, logo vocês vão se ver livres disso, mas como disse a vampire kawaii nuam fanfic dela, nós sabemos que em algum momento houve aquela quantidade de leitores indicada nas estatísticas, mas são os reviews que nos mostram quem realmente continua. 8 reviews é um número bacana, mas pra uma contagem de 70 falta muito nee?
Então, por favor, sejam bonzinhos.
O lemon Reituki já está escrito, o cheiro de limão dele ta cada vez mais perto, e é isso *-*.
Boa leitura ♥.
E obrigado a quem me acompanha até aqui.
Aqueles cinco dias haviam sido maravilhosos. Muitas risadas, poucas recaídas, tudo regado a muito amor e carinho, fora o apoio dado pelos Suzuki's para que os cinco pudessem lidar bem com a despedida temporária. A experiência a flor da pele falando mais alto.
Ainda assim não foi muito fácil verem-se parados em frente à casa que Uruha e Reita passaram a infância logo após o café, por volta de oito e meia da manhã. Estavam com o semblante desanimado e era inevitável que ficassem tristes.
— Se cuida viu? – Reita o abraçou, controlando-se para não chorar.
- Eu vou. Boa sorte com a turnê. – Disse baixo para o irmão, repetindo para os próximos em seguida.
- Pon, vou sentir saudades. – Foi a vez de Ruki.
- Eu também vou, Ruki. Muitas saudades.
O próximo foi Kai.
— Vê se não esquece que seu lugar vai sempre estar guardado do nosso lado.
- Prometo que não vou. Nem nas piores horas. – Sorriu para seu líder, abraçando-o.
Os três primeiros aproveitaram e se despediram dos Suzuki's pais para darem a chance de deixarem Aoi e Uruha mais tranqüilos naquele momento. Os dois se abraçaram com vontade. Apesar disso nenhuma palavra foi trocada.
Queriam apenas sentir o corpo alheio contra o próprio, deixando que o próprio calor passasse para o outro. Fitaram-se por alguns momentos conforme o abraço foi afrouxando, os orbes opostos – Em questão de cores. – dizendo tudo.
Apenas um sorriso foi trocado, verdadeiro, antes de Aoi depositar um beijo na testa de Kouyou, afastando-se e entrando no carro que já comportava os outros. Havia se despedido dos sogros mais cedo.
Esperou que o carro se afastasse e somente quando se viu longe do olhar chocolate permitiu que uma lágrima descesse por seu rosto, abraçando Reita que também derrubava algumas gotículas carregadas de dor. Não tanta, mas ainda assim, dor por ter de deixar o amigo – E namorado. – mais uma vez para trás.
Já Uruha via com pesar o veículo sumir de sua vista, pegando a estrada para voltar a Tokyo. Abraçou Takashi quando o carro havia virado a esquina, permitindo que o choro guardado escapasse.
Não havia mais beijado Aoi depois da primeira noite e prometeram deixar aquele momento em segredo, já que realmente corria riscos com o ato e não queria preocupar ninguém, nem talvez colocar Aoi em alguma encrenca. Passaram bem aqueles cinco dias e nada poderia ter atrapalhado, como realmente aconteceu.
— Meu filho. — Akemi pousou a mão num de seus ombros. — Sei que está abalado, mas as dez tem consulta com Viktor-san, precisa se arrumar.
Assentiu. — Eu sei mãe. Mas, poderiam me dar alguns minutos antes de me trocar?
- Claro filho. — Disse Takashi. — Viktor-san entenderá.
- Obrigado. — Sorriu fechado fazendo uma leve vênia e saindo da presença de seus pais.
Felipe havia aparecido no dia anterior e colhido sangue para o exame que indicaria a contagem de hemáceas, leucócitos e plaquetas e mostraria se Uruha poderia ficar em casa, apesar de no momento não pensar nisso. Encaminhou-se para seu quarto, sentando em sua cama e pegando o travesseiro que Aoi usara, abraçando contra si e aspirando o cheiro dos fios ônix de seu Shiroyama. Era quase tocável como seu amor havia evoluído e se via cada vez mais certo que o moreno era a pessoa com quem queria estar para sempre.
E todos aqueles meses de luta e dedicação provavam cada vez mais isso.
xXx
— Nervoso? — Viktor indagou, retirando com cuidado o termômetro de sua boca.
- Um pouco. — Uruha sorriu, tentando não balançar o corpo por causa da ansiedade. Estava sentado na cama que usara desde que chegou a Kanagawa. Seus pais se encontravam nas típicas cadeiras e Viktor estava em pé fitando o termômetro.
- Eu também estaria. — O loiro riu fraco. — E bem, sem febre. Mas, foi perigoso tomar aquele vento com Aoi-san. Sabe disso, não sabe?
- Sei. 'E isso porque você não sabe do beijo.' – Pensou divertido.
- Então tem que prometer que se puder ficar em casa tem que evitar sair e tomar esses ventos. Se ficar doente de novo pode ser perigoso.
- Prometo. — uruha sorriu fechado para o médico. — E queria agradecer por ter velado Kaoru-chan. Eu não poderia lidar com isso agora, tanto pela doença quanto pela dor.
- Não precisa se preocupar com isso. — Sorriu amável. — Vamos no momento torcer para que possa terminar o tratamento tranquilamente e em casa.
Uruha concordou avidamente com a cabeça, um pouco mais tranqüilo. O sentimento de que o tempo havia passado lentamente, mas ao mesmo tempo rápido demais era de certa forma, engraçado. Claro que para ele era uma enorme felicidade que tudo estivesse terminando, mas o que tinha certeza que havia se enraizado em seu coração era todo o esforço e dedicação que recebeu da equipe que cuidou de si, cada enfermeira e enfermeiro, Felipe, seu 'meio-primo', todos que lhe acompanharam, os amigos, seu irmão, Aoi, mas principalmente Viktor, que desde o começo, com sua teimosia em não procurar ajuda, não foi julgado em nenhum momento, apoiado em todos. Cada palavra de conforto e o apoio em cada crise. Tudo estaria em seu coração para sempre.
— Desculpem a demora. — Felipe entrou apressado, tirando Uruha de seus pensamentos. — Mas, a moça responsável não achava o exame.
- Tudo bem. — Viktor sorriu. — Já abriu?
Felipe negou, o fazendo em seguida. Colocou-se ao lado de Viktor para analisar o documento numa cena no mínimo nostálgica para Uruha. Na primeira vez que presenciara aquilo fora por causa de uma notícia ruim. Agora esperava que fosse ao contrário.
Algum silêncio imperou no quarto por alguns momentos que sempre pareciam eternos nessas horas, até que Viktor sorriu.
— É, parece que finalmente você vai se ver longe dessas paredes brancas. – O médico sorriu. — Parabéns Uruha, pode terminar o tratamento em casa, está tudo bem com seu sangue e o número de hemáceas, plaquetas e leucócitos está num bom nível.
E não havia palavra que definisse a felicidade que Uruha sentia naquele momento. Akemi e Takashi abraçavam-se com vontade e o guitarrista sentia as esperanças novamente desabrochando para si.
— Isso é... Maravilhoso. — Conseguiu dizer, por fim.
- Com licença. — Uma voz feminina ecoou pelo quarto chamando a atenção dos cinco. — Eu sou a Douta Yume, psicóloga que foi chamada pelo Doutor Suzuki Felipe.
Uruha se sentiu levemente constrangido, apesar de aliviado.
— Ah sim, entre. — Felipe sorriu. — Uruha, ela é a Doutora Yume. Agora que o tratamento está chegando na reta final você pode tratar finalmente sua depressão.
- E não precisa se preocupar porque nada que for dito será contado a outra pessoa. — Viktor sorriu.
- Exatamente, apenas eu ficarei a par das coisas. — A própria médica acentuou a fala do oncologista.
Era uma mulher bonita. Nada velha, cabelos ônix, lisos como quase todos os nipônicos, olhos puxadinhos e castanhos, boca um pouco pequena, fala mansa e aconchegante, como deveria ser a maioria dos médicos daquela área. Trajava uma saia preta até os joelhos, meia-calça grossa por causa do frio e botinhas até a altura dos tornozelos. Blusa marrom de gola alta e um casaco também preto com os botões abertos. Trazia uma bolsa à tira colo.
Uruha sorriu assentindo.
— Bem, então vamos lhes deixar a sós para conversar. — Felipe estatuou calmamente, saindo com o companheiro e os tios do quarto.
Uruha se endireitou na cama e a médica sentou de frente para si, sorrindo fechado.
— Como prefere que eu lhe chame? — Perguntou calmamente, a voz branda sendo um ponto marcante.
- Pode ser apenas Uruha mesmo. — Devolveu o sorriso.
- Então lhe chamarei assim. — Parou por um momento. — Me diga Uruha-san, como se sente?
Uruha pareceu ponderar e respirou fundo.
— Um pouco agoniado, na verdade. Muita coisa aconteceu e eu acho que ainda não consegui botar tudo para fora.
- Entendo. — Havia um pequeno bloquinho em suas mãos. — Eu pergunto por que não posso te receitar remédios por causa da leucemia, então quanto antes tratarmos a depressão melhor será.
- Tudo bem. – Sorriu, um ato que parecia comum desde que a médica chegara. Pura gentileza, claro. Seu coração sempre estaria em outras mãos. — Mas, como vou ficar em casa não sei aonde poderiam ser as seções.
- Pode ser em sua residência Uruha-san. Eu pegarei seus dados com Viktor-san e se for o caso podemos começar na segunda.
- Por mim sem problemas. Seria bom começar na segunda.
xXx
Akemi batia as últimas peças de roupa de Uruha que haviam sobrado da mala que ele trouxera de Tokyo. Estava contente em poder cuidar da saúde do filho em casa, e suas melhoras mereciam alguma comemoração, talvez aumentar o cardápio dele e de Takashi com receitas ocidentais que aprendera durante os anos. Claro, tudo saudável e o mais nutritivo e saboroso possível. Era muito, muito bom ter um de seus menininhos em casa.
Menininho esse que se encontrava na sala com seu pai, fitando-se sem a touca com a ajuda de um espelho. As poucas caretas faziam o Suzuki rir.
— Vai deixar assim de agora em diante Kouyou? — Indagou. Mais uma careta se formando em seu rosto.
- De jeito nenhum. — Takashi riu. — Eu to horrível.
- Se você acha isso quem é esse pobre pai para falar alguma coisa?
- Pobre pai? — Fitou-o sorrindo fechado. — Pobre só se for o homem da casa da rua de cima. Vocês ainda se falam? — Voltou à atenção para seu reflexo.
- Nunca mais. Nem mesmo depois que vocês foram embora. Nós não puxamos assunto e eles viram o rosto quando nos vêem. Devem nos odiar por termos te amparado.
- E eu não duvido que minha fama incomode eles. Pelo menos é isso que eu e o Reita achamos.
- Nós também. Akemi acha que se tivessem chance poderiam fazer algo contra você novamente.
- Depois de tantos anos. — Disse com pesar e Takashi anuiu. — Eu sempre desejei que não. — Pousou o espelho nas pernas colocando a touca.
- Eu também desejava que os anos os tivessem mudado, mas acho que não. O lobo nunca perde a maldade Kouyou, nunca. Ele pode te fazer sorrir e te tratar bem, mas só para preparar a emboscada. E infelizmente isso nunca vai mudar.
Uruha suspirou, concordando. Não queria que seus pais fossem intolerantes, um resquício de amor ainda aquecia seu coração, mas sentia que nunca mais poderia ter uma conversa com eles.
O que lhe doía muito.
Sentiu a mão de seu pai pousar-lhe no ombro, sorrindo fechado e o fitando.
— Vai ficar tudo bem pai, eu só preciso dormir um pouco.
- Eu sei que vai Kouyou, acredito. Principalmente quando começar o seu tratamento e você se livrar desses pensamentos ruins. Mas, o que eu posso dizer é que isso que você ta sentindo é normal. Todo filho aprende a amar os pais e quando é rejeitado, mesmo que tenha raiva ainda tem amor. Tente não sentir culpa.
- Eu vou tentar pai. E obrigado por isso.
Takashi lhe sorriu e Uruha levantou fazendo uma vênia e saindo da sala. Encontrou sua mãe no caminho e depositou um beijo em sua testa, encaminhando-se para o segundo andar. O espelho foi para o banheiro e ele para o quarto.
Seu antigo canto particular que era sempre invadido por Akira, assim como fazia com seu quarto. Diziam que sempre pegariam o outro fazendo coisas indevidas, apesar de sempre darem sorte, dois pilantras. Sorriu. Queria rir, mas estava com saudade, e com tantas lembranças era difícil que não doesse.
Não queria sentir dor. Não, de nenhuma forma. Estava em sua casa, bem, seguro, com lembranças boas, a dor não podia se fazer moradora daquilo.
Não podia e não ia.
Foi até seu guarda-roupa, abaixando-se entre as portas abertas. As gavetas ficavam na parte de dentro, embaixo. Talvez Aoi tivesse ficado com vergonha de fuçar em suas coisas ou achasse que já tinha alguma coisa e não precisava de limpeza, ou mesmo que não tivesse nada importante.
Mas, Uruha sabia que tinha. E da última gaveta, por baixo de um fundo falso, mais clichê impossível, retirou uma caixa de cor camelo. Colocou em cima da cama, e como estava levemente empoeirada utilizou-se da máscara.
Havia uma fita de vídeo sem nome, apenas uma etiqueta. Vermelha. Sorriu. Sabia como aquilo havia sido constrangedor. Pole dance era o que dizia a revista, daquelas de capas típicas dos anos 80, talvez começo dos 90. Era o segundo e último item da caixa.
Bendito dia em que havia apostado com Reita. Sabia que não daria em boa coisa, e acertou. Era praticamente um dançarino que podia dar aula dada a experiência e a facilidade em aprender cada passo. Claro que apenas o irmão sabia, mas ainda assim era uma lembrança bem esquisita e constrangedora.
E as palavras de Aoi, dançar para si. Tinha coragem? Não sabia, não mesmo. Mas, tinha tempo para pensar. E com muito carinho e perversão como catalisadores.
— Sofrer por essas pessoas? Não, Kou-chan não pode. — Akemi estava sentada ao lado de Takashi. Os dois viam qualquer coisa na TV.
- Eu acho que não vai Akemi. Vamos apenas lhe dar um tempo.
- Sim, Takashi, vamos. Mas, se algum deles tentar algo contra nosso amado filho eu realmente não respondo por mim.
...
— Que saudade de comida caseira. – Uruha sorriu e mandou beijos de longe para Akemi. – Vou ficar mal acostumado.
- É bom aproveitar mesmo, quando voltar para Tokyo não vai mais ter isso. – Aconselhou Takashi.
- Mas, pelo menos vai ficar longe essa gente da rua de cima. – Akemi ainda estava irritada, apesar de não ter aumentado o tom de voz. Uruha e Takashi olharam-se.
- Mãe, por favor, não fique nervosa. – Uruha disse tentando amenizar as feições da mãe. — Eu to melhor agora.
- Eu sei filho, desculpe, eu... Eu só não queria que sofresse por eles.
- E eu não sofro. Em Tokyo mesmo nos meus dias livres eu não penso neles. É só que estar aqui é um pouco complicado, foi tudo rápido demais, numa hora estávamos lá e agora e agora aqui. Tenho medo que eles batam aqui em casa ou me vejam de longe.
- Não, acho que não. – Takashi voltou a falar. – Eles nunca vieram, duvido que venham agora.
- Sim meu amor, — Akemi mostrava sinais de estar mais calma e sorriu para Uruha. – não precisa se preocupar. Você está seguro aqui.
Resolveram não mais tocar no assunto. Akemi mostrava-se mais aliviada e Uruha compartilhava do sentimento, já que realmente não pensava mais em seus pais. Aliados a um belo bolo confeitado que sujava-lhes os rostos não foi difícil os ares realmente amenizarem. As risadas começaram a aparecer logo e algumas horas depois todos se preparavam para dormir, leves e sem receios de terem algum sonho ruim.
xXx
O final de semana havia sido bem regado a risadas gostosas, comidas com o mesmo adjetivo, Takashi e Akemi não mais se deixando levar por pensamentos sobre os pais de Uruha, assim como ele. Havia colocado os dois em segundo plano e se deixou aproveitar os dias de uma maneira um tanto quanto inusitada, retornando os anos e voltando a ser adolescente.
UMA adolescente, para ser mais exata. E ainda por cima apaixonada. Por quê?
Bem, passara o fim de semana, mais precisamente as noites de sábado e domingo falando com Aoi pelo celular, em seu quarto e com o coração quase disparando, caso tivesse realmente a idade em que isso acontece com mais freqüência. Trocaram juras de amor, riram de si mesmos inclusive por isso, conversaram perversões, o assunto do pole dance não deixou de faltar, Uruha conseguiu corar mesmo que o outro não estivesse consigo e claro, sabia que se estivesse enrubesceria muito mais.
Não era santo, nunca havia afirmado tamanha calúnia. Mas, não era anormal que corasse, não era um direito que havia sido tirado por conseguir falar sobre essas coisas naturalmente.
Talvez fosse por ser virgem.
Da bunda, é claro. O pênis já havia trabalhado muito, mas a parte que Aoi – De acordo com o que ele mesmo disse. – pretendia marcar seu nome estava inviolável. Nem com Raphael havia se deitado, não que realmente lembrasse dele.
O certo era que estava feliz de ter falado com Aoi, por dentro tudo aquecia e as agonias acumuladas no coração amenizavam, era como se atingisse o Nirvana. Num acordo mudo para não tirar a paz de suas conversas decidiram não falar da turnê, Uruha mal sabia como as coisas estavam indo, mas desta vez realmente não tinha curiosidade, apenas torcia para que tudo desse certo.
Agora se encontrava novamente em seu quarto e deitado em sua cama, mas não falava com Aoi. As mãos estavam cruzadas sobre a barriga e numa cadeira um pouco distante de si encontrava-se Yume, as pernas estavam cruzadas, a bolsa perto de si, no respaldo. Um caderno e caneta em mãos e o gravador autorizado por Uruha num lugar que pegava bem as duas falas.
Akemi não havia esquecido de avisar sobre o abandono, tópico que a psicóloga não esqueceu de anotar no alto do caderno, já que descobrira que Uruha não havia tratado aquele trauma.
— Pode começar quando estiver pronto, não precisa se forçar. – Sua voz era branda.
Uruha respirou fundo.
— É difícil, tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. – Seu tom era calmo como o dela.
- Vá com calma, sim? Tentar apressar só vai piorar as coisas.
Uruha assentiu, respirou fundo e fechou os olhos.
— A primeira culpa veio com o Reita. Ele que me socorreu em casa e me levou para o hospital. É estranho dizer isso. – Hesitou. – Pode parecer que não é nada, mas pensar nisso depois me fez sentir mal, eu deveria ter ido antes, sozinho, em vez de preocupar todo mundo, mas, não, deixei para o último momento e fiz todo mundo sair correndo.
- É como você se sente quando lembra que Reita-san o levou ao médico.
- Sim, e machuca. A descoberta da doença praticamente do dia pra noite também mexeu comigo. Era uma nova fase começando, a internação, os exames doloridos, os remédios, os efeitos colaterais. Numa hora eu era Uruha, guitarrista da banda the GazettE e na outra Takashima Kouyou, doente, longe dos amigos, da própria vida. Isso é intenso demais para mudar do dia pra noite. – Sua voz estava amargurada e triste, os olhos já abertos e as primeiras lágrimas escapando.
Yume ia comentar sobre estar correndo, que se precisasse poderia e deveria ir mais calmo, mas sabia que não devia fazer. Uruha continuou.
— Mesmo ouvindo que tudo ia ficar bem e tentando acreditar, algumas vezes eu via apenas a parte ruim, a que ia morrer ou ficar inválido e ser expulso da banda. Eu to careca, a companhia não vai me querer se eu continuar assim. E dói muito sentir que eu posso ser expulso de algo que eu fiz parte por tanto tempo.
- Uruha-san entende que nenhum desses problemas foi ocasionado por culpa sua? Você não pode ser acusado por ter leucemia, e tudo que veio depois também não pode ser jogado em você. O que aconteceu e ainda tem por acontecer não foi algo que você planejou. Você é a vítima, não o acusado.
Uruha a fitava intensamente. Ouvira que não tinha culpa, o que aconteceu estava longe de ser controlado por si e mesmo acreditando em cada palavra ainda era difícil não dizer que uma parcela de dor lhe tomava quase por completo. O que notou de diferente, no entanto, foi que desabafando as palavras da psicóloga pareceram ajudar mais, clarear aquele mar negro que tomara conta de sua mente desde que ficou doente.
Continuou.
— Mas, as coisas sempre parecem que foram feitas para dar errado nas minhas mãos. Eu entendo suas palavras, mas desde pequeno a coisa funciona errado comigo. Ser abandonado pelos pais, quase estuprado, porque tentaram, mas eu tava tão sujo e acabado no fim daquela semana que devo ter causado nojo na pessoa.
- Se culpa por não ter sido atacado? – Não era uma pergunta incrédula. Estavam no mesmo patamar e aquela era apenas uma das questões que precisava fazer.
- Agradecido por não ter acontecido, claro. Eu nem sabia bem o que aquele cara queria, mas eu acho que não eram boas intenções e não ia parar em roubo. Ele parecia querer mais, mas ainda bem que não fez nada e isso me deixou muito aliviado na época e ainda hoje. Não fiquei no chão ao ponto de achar que ele deveria ter feito. – Riu amargo. – É tanta coisa pra pensar, parece que eu vou entrar em pane.
- Vamos com mais calma então. Se quiser podemos mudar isso e eu faço as perguntas pra você e aí a coisa entra mais no eixo. Tudo bem?
- Sim, seria bom para me ajudar a encontrar um ritmo. – Sorriu.
- Bem, então... Está feliz com sua nova família? Pelo que fiquei sabendo a casa de seus genitores fica aqui perto, como foi essa mudança?
- Foi... Diferente. Uma família nova, rotina nova. Eu fiquei muito feliz de ter uma nova casa depois de tudo que aconteceu. Eu amo o Reita como irmão e meus pais como um dia amei os outros. Sou sim muito feliz com eles. – Sorriu.
Yume retribuiu e esperou alguns momentos.
— E o que acha sobre ter leucemia? Como lida com isso?
- Dói. Mais que os exames, injeções, dores de cabeça e na garganta e barriga pelos vômitos. É muito ruim dar trabalho pra todo mundo e lidar com isso é complicado. Agora, praticamente no final eu consigo lidar um pouco melhor, mas no começo era difícil. A palavra ‘leucemia’ me partia por dentro. Hoje em dia ainda faz isso, mas menos intensamente.
Yume pareceu pensar sobre a resposta. Completa, talvez mais que isso impossível. E isso...
— Porque te machuca tanto?
Foi de imediato.
— Porque me privou de viver. Os hospitais parecem cadeias. Por ironia eu estou careca. Meus amigos são obrigados a dormir em cadeiras, meus pais também e olha a idade deles. Tudo por causa dessa doença. Minha Kaoru-chan que eu ia adotar se foi justamente pela mesma doença que a minha. E o Aoi... O meu Aoi, a pessoa que eu tanto amo. – Uma das mãos estava na lateral da cabeça como se quisesse mostrar que doía, mas era apenas um gesto natural. – Acho que fazem uns quatro meses ou cinco que nós estamos juntos, enfrentando cada dia desde que eu fiquei doente. Eu não consigo nem descrever como ele me faz feliz, mas não poder tocar direito, abraçar, dar um beijo nem que seja na bochecha, tudo isso me destrói aos poucos. – Seu choro era dolorido.
... Só mostrava o quão machucado por dentro Uruha estava e como desejava que tudo aliviasse, sua alma expelisse aquela agonia acumulada, independente do meio usado. Yume continuava impassível como deveria ser, mas seu olhar mostrava aconchego, ternura... Empatia.
— O câncer te privou de sua vida, seus amigos, seus sonhos e o amor de sua vida. É como uma barreira que cresceu sem permissão em torno de você e nada parece destruir ou transpassar isso. Seu trabalho também foi muito afetado.
- Sugizo-san... – Uruha suspirou. – Meu ídolo. Sempre foi e sempre será, eu não o odeio. Não tenho raiva ou rancor, mas, eu não queria que outra pessoa dividisse, vivesse minha vida ao lado dos meus amigos. Eu nem sei se é egoísmo, mas é algo que dói muito.
- E também sente por seus pais... – Yume deixou em aberto.
- Eu os amo tanto. – Uruha concluiu e não falava dos que carregavam o 'Takashima'. – Não queria que passassem por isso. Além de ter roubado eles do Reita ainda faço se cansarem comigo. Isso é errado, eu sou um estorvo, mas queria mudar cada coisa errada dessa. – Apertou os olhos, a dor de todos aqueles meses sendo colocada para fora, mas sem se esquecer de machucar mais e mais.
- Já te passou pela cabeça se matar?
Uruha negou.
— Não, isso não, mas que o câncer o fizesse. Só que – Sorriu, e para Yume pareceu verdadeiro. – eu amo o Aoi, meu irmão, meus pais, meus amigos, meu trabalho e a Kaoru-chan que não chegou a ter meu sobrenome, mas que eternamente eu vou chamar de filha. Por eles eu quero viver, mas por mim mesmo eu poderia morrer. Isso é ruim mesmo com todas as pessoas que eu falei que me fazem feliz, não é?
- Falta confiança, Uruha-san. Amor próprio. Autoestima, tudo isso serve como base para construir a pessoa por dentro. Quando todos desabam, ou mesmo um, tudo muda. E o que resta é uma pessoa machucada, ferida, sem visão de algo melhor. Ela fica e a vida continua. É dolorido para quem sente e para quem se importa. A pessoa se vê perdida. É assim que você se vê?
- Muitas vezes sim. Depois da doença, na verdade. Antes eu estava bem, foi tudo depois de descobrir o que tinha. Parece que ela fala comigo, diz que quer me derrubar e eu odeio me sentir impotente. Eu só queria que acabasse logo. – Novamente fechou os olhos e a mão antes na lateral do rosto foi para parte da testa, parte da cabeça. As lágrimas ainda desciam doloridas, mas com menos intensidade, como se fossem um resquício que sobrou quando parou de chorar.
- Também tem medo de perder seu emprego, seu lugar ao lado de seus amigos. Se isso acontecesse consegue imaginar como ficaria?
- Estaria a um passo do cemitério. – Encarou a psicóloga.
- O que te daria dar o passo final?
Não pestanejou.
— Perder o Aoi. Ele e o Reita seriam o que me sobraria. E dizer isso me deixa com um enorme vazio por dentro. – Os lábios estavam trêmulos e se segurava para não chorar novamente.
Yume ia responder quando o despertador de seu celular acusou que aquela uma hora havia passado e a sessão estava terminada. Tentou não perder o rumo.
— Eles, pelo que disse são o seu tesouro e depois de todos os problemas causados pelo câncer e seu apoio sem limites tiveram seu valor aumentado. Posso comparar ao oxigênio que respira?
- Acho que sim. Eu nunca pensei por esse lado, mas é como isso. – Uma risada realmente fraca escapou por seus lábios. – A coisa ta muito grave pra mim?
Yume respirou fundo, mas sem deixar aparente.
— Seria perda de tempo dizer que você tem depressão, mas é importante lembrar que aceitar isso é um passo importante. Há quem tenha, mas acha que pode escapar sozinho dessa névoa de tristeza, mas a depressão é perigosa, ela te mata aos poucos. Cada vez mais você fica agoniado, as coisas passam e você fica para trás. Por um lado, o triste, não se importa. Mas, pelo outro sofre com isso, não quer desperdiçar sua vida, mas não sabe o que fazer, onde se apoiar, de onde tirar motivação. E aquilo machuca muito. – Os olhos de Uruha estavam marejados, ele se via naquilo. – A parte que não desiste grita para você parar de sofrer, quer que viva, aproveite os dias ensolarados e deixe os nublados num passado que deve ficar distante. Mas, a parte triste desmotivada quer que você caia cada vez mais, se afunde. Aqueles amigos? Não, para a parte depressiva eles que são o passado. Ela não gosta deles e quando se aproximam tenta te fazer brigar e não querer contato, se isolar completamente.
Puxou o ar. Uruha se sentia uma criança.
— Tudo está ligado direta ou indiretamente. Seus amigos e seus pais se cansando, precisando cuidar de você. Os sintomas, sua filha que acabou não resistindo e morreu da mesma enfermidade que você sofre. Dentro de você é como se cada coisinha dessas causasse um machucado e interligados a intensidade é maior porque um invade o machucado do outro e esfola ainda mais as feridas abertas. E quem não te abandona naturalmente tem o valor pessoal para você aumentado porque mesmo não sentindo a mesma dor estiveram do seu lado e perder eles seria o limite.
Fez outra pausa, Uruha estava sentado e a fitava com as lágrimas escorrendo aos cântaros pelo rosto, impressionava o tom da voz e o rosto neutros da psicóloga.
— É muito triste ver uma pessoa abandonar a própria vida porque não soube ou não teve apoio para ver que estava doente e isso não era vergonhoso, se tratar não era algo que lhe diminuiria. Mas, ver isso é difícil para alguns, então esse passo foi muito importante. Felipe-san me disse que eu posso lhe receitar antidepressivos leves e eu vou fazer porque a sua depressão é profunda.
Uruha assentiu com a cabeça.
— Lembre-se que um pequeno passo é uma grande evolução e se por acaso der um para trás não é motivo para se sentir 'nada' e nem vergonhoso. Tenha em mente que se livrar disso vai trazer aquela pessoa feliz de volta e que cada um tem o seu tempo para avançar no tratamento e o objetivo maior é fazer a depressão ver que ela não pode e não vai derrotar você.
Diante daquelas palavras Uruha não conseguiu formular algo para dizer. Não que se sentisse menor, mas tudo se encaixava perfeitamente como um quebra-cabeça em sua mente e diante do que se encontrava conseguiu sorrir, leve, como não fazia a um bom tempo. Algumas lágrimas ainda escapavam pelos olhos e um 'obrigado' mudo foi lido por ume através do movimento dos lábios.
Talvez não houvesse mais o que dizer. Ela apenas entregou um papel com o nome do remédio que passaria avisando que a receita ficaria em posse de seus pais. Uruha não protestou e esperou que o dom da fala voltasse para si, sorrindo para a mulher ainda sentada, terminando de desligar o gravador e colocar dentro da bolsa.
— Com todo o respeito Yume-san, se eu não fosse gay e comprometido te chamaria para sair.
A psicóloga riu.
— E seu eu não fosse lésbica e também comprometida, aceitaria, Uruha-san.
Os dois riram descontraídos e se despediram com um rápido 'Bye bye'. Uruha esperou que Yume fechasse a porta atrás de si para apertar os olhos e expulsar as outras lágrimas que haviam se escondido durantes as palavras da psicóloga junto com boa parte de sua agonia.
— Ocorreu tudo bem? – Takashi indagou pegando a receita das mãos de Yume. Akemi estava a seu lado, preparando-se para ligar e encomendar o remédio. Aquele serviço de entrega em casa era realmente útil e por sorte não nevava.
- Sim, eu consegui notar que ele tem muita vontade em voltar a ser feliz, essa condição atual não é satisfatória. Ás vezes apenas mais uma sessão ou duas e as coisas vão voltar a entrar nos eixos. Não da para saber bem, mas esse remédio vai ajudar bastante. Ele pode sentir algum sono, mas isso é normal.
- E deve tomar... ? – Indagou Akemi.
- Todos os dias após o café da manhã. Se tomar antes pode acabar passando mal. Todas as informações estão bem colocadas na receita. – Sorriu amável para a Suzuki.
- Agradecemos Yume-san. É bom saber que nosso filho não vai se render a esse mal. – Takashi sorriu para Yume.
Os três se despediram com leves vênias e logo a moça ganhou as ruas, sumindo de suas linhas de visão. O casal Suzuki voltou abraçado para dentro de casa aliviado pelo espaço quentinho com ajuda da calefação. Duas velas aromáticas de mesmo cheiro davam um aconchego maior para a sala e sua fragrância suave não enjoava ao olfato. Akemi pegou o telefone.
Uruha apareceu logo em seguida. Ela abafou o objeto com uma das mãos e o fitou.
— Com fome, filho?
- Um pouco só. – Sentou-se ao lado de Akemi dirigindo-lhe um sorriso.
- Yume-san disse que foi uma boa consulta. – Takashi comentou.
- Foi mesmo. – Uruha sorriu para seu pai. – Acho que eu já me sinto melhor.
Enquanto conversavam a voz de Akemi era ouvida, falava com um farmacêutico.
— Isso é bom. Conseguiu botar tudo aquilo pra fora, imagino.
- Sim, posso dizer que sim. – Sentiu corar. – Foi meio difícil dizer algumas coisas e eu acho que não quero ouvir elas de novo, mas foi bom sim.
Os dois riram e Akemi finalizou a ligação.
— Eu vou preparar algo Kou-chan. – Acarinhou a lateral do rosto do filho. – Quando chegar vocês atendem.
Os dois assentiram.
Alguns minutos depois Uruha se deliciava com um sanduíche e um copo de suco. Seu remédio já havia chegado e Akemi o colocou em cima da mesa para nunca esquecerem dos horários. Dificilmente acontecida, mas não era bom arriscar, ainda mais com o ex-loiro precisando daqueles comprimidos para lhe ajudar realmente a superar todas as dores trazidas pela leucemia e junto com ela fazerem parte de um passado que foi superado.
— Akemi, você acha que ele sumiu? – Indagou Takashi quando Uruha foi levar o prato e o copo na cozinha.
- Espero que sim, tudo ta indo tão bem Takashi, nada pode atrapalhar mais uma vez esse momento de superação do nosso filho.
- Vamos torcer, as coisas estão nos eixos de novo, mais uma curva errada e não se sabe como Kouyou poderá ficar.
- Sim, ele e Aoi-san estão bem, nada deve atrapalhar isso.
O diálogo mal encerrou e a campainha se fez ouvir. Akemi ia levantar, mas Uruha gritou do corredor que o faria. Deu de ombros e se sentou de novo. Antes não o tivesse feito.
Uruha não sorria, mas um leve curvar estava presente em seu rosto. Morreu imediatamente ao se deparar com a figura loira maior que si, aqueles olhos azuis que um dia fizeram parte de um conjunto que amou. Sua autoestima praticamente foi zerada ao vê-lo impecavelmente vestido, aquela beleza rara emanando por cada poro de seu rosto. Os lábios provocantes sorriam e o que mais desarmava Uruha era que por trás de uma 'arrogância-a-primeira-vista' havia um homem generoso que um dia foi dono de seu coração.
— Ra... Raphael. – Praticamente sussurrou, estava surpreso. Os orbes chocolates encontraram-se com os azuis.
- Kouyou, quanto tempo. – A caixa de bombom foi esticada para si. Uma grande fita vermelha de seda era o único adorno da embalagem. – Desculpe não poder embalar, eu estava sem tempo e algo me dizia que estava aqui. Não podia ir contra a intuição. Espero que goste mesmo assim. E as flores eu não trouxe por causa de sua saúde. Mas, sabe que meu jardim de rosas vermelhas vai ser sempre seu.
E Uruha sentiu todo seu chão se abrir e as pernas fraquejarem.
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