Notas iniciais
Contagem regressiva: 16 para o fim.
Não me matem pela demora, o tamanho do cap compensa u.u -q
Ah e eu não quis colocar nenhuma encrenca no 'encontro' porque as coisas estão problemáticas demais pra mais encrenca nee? Nesses casos eu gosto de algo mais leve -q.
Aline V Kei, Sooky, Animerchan e Tsuki Kiome... Amores, eu prometo que respondo os reviews de vocês quando voltarem. Eu to morrendo de sono e com o pulso doendo, então vim atualizar e ir tirar uma soneca -q.
Ah, não esqueçam de responder os (*). Como são três e mais uma observação minha, vão todos pras notas finais.
Lemon à vista 8D. Falta pouco -q.
Agora, agraciem-me com reviews u.u
E boa leitura ♥.

Estava estático, apenas a respiração o diferenciava de uma estátua. Mais um pouco e quase caíra em cima de Raphael, tudo que não precisava. Aquele loiro maior que si fora o primeiro que amou, o primeiro que beijou de verdade, diferente de Reita. Não era tão velho na época, o namorou entre os 17 e os 19 antes de ir para Tokyo com o irmão, mas em seu âmago não fingia que nada aconteceu. Agora, no entanto, seu coração não batia forte por ele. Não mais.

- Eu sei que cheguei de surpresa, desculpe. – Sorria fechado e seus olhos eram puro aconchego. Uruha não poderia se perder ali. Poderia? – Mas, eu precisava te ver de novo.

- Acho... Acho que entendo. – Devolveu o sorriso, mas pouco havia de grandioso. Um curvar simples. – Foi realmente uma surpresa.

- Muito tempo passou, não é mesmo? Onze anos mudam uma vida. Acho que pelo menos os seus bombons preferidos eu acertei.

- Acertou sim. – Uruha assentiu e sorriu vivamente. Pegou a caixa das mãos dele, o mesmo formato, o mesmo laço de seda vermelha, os detalhes da embalagem... Tudo era igual. Mesmo que anos tivessem passado Uruha se lembraria daquilo, a primeira vez de todas as coisas ninguém esquece. Com ele não poderia ser diferente. – Obrigado.

- Tudo bem. Eu queria poder trazer as flores, mas não sabia se era seguro.

- Acho que não, mas não precisa se incomodar. – Quebrou a frase quando a mão alva aproximou-se de seu rosto. Seguiu-a com o olhar. Se não reagisse de uma vez não precisaria de mais nada para parecer uma menininha que ainda esconde as coisas dos pais.

Por fim, moveu-se. Um passo para trás e a cabeça erguida fitando novamente Raphael.

- As coisas mudaram, eu deveria ter imaginado. – Recolheu a mão até o bolso de seu casaco branco. O frio estava ficando pior.

- Mudaram muito. São muitos anos Raphael. Como você mesmo disse onze anos mudam uma vida. Aposto que nem a sua ta igual.

- Não mesmo. Mas, eu quero tentar passar por cima do meu erro. – Uruha semicerrou os olhos. – Kouyou eu não devia ter te deixado ir daquele jeito, é um dos meus maiores arrependimentos.

- Mesmo com a nossa briga você não podia. Seus pais não iam deixar.

- Você enfrentou os seus, eu deveria ter feito igual.

- Eu não enfrentei Raphael, eles nos apoiaram. Tinham medo, mas apoiaram. Eu e o Reita passamos por muita coisa lá e você não podia sumir assim. Lembra do sonho da Toudai, não lembra?

Raphael sorriu fechado, triste. Ele se lembrava e assentiu.

- Esquecer daquilo não era nem opção. E eu me formei sim. Fiz o que queria e fui embora de casa deixando claro que não tinha sido por eles. Mas, eu me arrependo de não ter te procurado antes.

- Você não podia.

- Mas, eu deveria. Essa é a verdade. Tokyo é grande, mas eu me acostumei com lá. Achei sua gravadora, mas não podia entrar. Acabei dando tempo demais e quando vim procurar Takashi-san e Akemi-san eles não estavam mais. Foi na época que eu descobri que estava doente.

- Eles apareceram numa noite qualquer e pegaram todo mundo de surpresa. Eu também não sabia.

- Os de cima nunca nem ligaram?

Uruha negou.

- Nunca. E é melhor assim. Eles não me amam mais e eu não quero lembrar o que já aconteceu. Foi muito irônico ter vindo pra cá.

- Saiu nos jornais e na tv. Algumas pessoas estão atrás de você, mas acho que num lugar calmo assim vai ser difícil.

Uruha concordou com a cabeça e ficou novamente em silêncio. Precisava perguntar.

- Porque agora, Raphael? – E o fez.

- Eu não podia antes. Mas, eu quero consertar as coisas. Nós nos separamos por causa de uma briga e eu-

- Não, eu não te odeio se é o que pensa. – Uruha cortou. — Nunca odiei e não tenho motivos pra isso. Mas, tempo demais passou. Por quase onze anos eu nunca tinha amado ninguém. Casos à toa, prazer carnal. Mas, isso mudou Raphael. Eu tenho alguém agora.

O loiro assentiu tristemente.

- Eu acho que mereço por ter demorado a te procurar.

- Não, você não merece isso. Você é bom Raphael, eu sei perfeitamente como é quando ama e vai arrumar alguém bom. Seus pais não podem te impedir de fazer mais nada, você deveria viver sua vida.

- Vou tentar com outro Takashima, o que acha?

Uruha riu.

- Arriscado. – Raphael compartilhou da risada. – Você merece alguém melhor do que as duas que sobraram.

- Acho que qualquer pessoa merece. Só espero que a pessoa com você te faça feliz sempre. Se não podemos ficar juntos eu desejo que seja feliz com quem escolheu.

- Ele faz... E desejo que seja feliz também.

Raphael agradeceu e sorriu. Aos poucos foi se distanciando de Uruha e não demorou até que sumisse de sua vista. O ar se fez presente nos pulmões do guitarrista que não notara que prendia a respiração. Tossiu um pouco e fechou a porta, encarando novamente os bombons. Seus pais também conheciam a caixa. Tão bem que não fora preciso dizer nada quando apareceu na sala. Estava um pouco desnorteado, mas não havia confusão em seus sentimentos. A surpresa que fora grande demais.

- Tudo bem? – Akemi indagou baixo, por um momento o ar pareceu faltar na sala.

- Tudo bem. – Uruha sorriu leve e se deitou no sofá um pouco encolhido pousando a cabeça nas pernas da mãe. – Eu só preciso dormir um pouco.

xXx

O fim de semana havia sido mais tranqüilo para todos. Na sexta-feira se encontraram com o empresário e Sugizo na companhia, mas nada de muito relevante foi conversado. Os calendários das apresentações estavam ainda em processo de construção em conjunto com a agenda da banda. Os sets lists ainda não estavam prontos, mas de acordo com Koga não era necessário ter pressa, já que a primeira apresentação seria depois do ano novo, na primeira semana de janeiro.

Entrevistas estavam fora da programação por um bom tempo assim como qualquer contato com a imprensa. Kai deixou o empresário a par de tudo que estava acontecendo com Uruha, seu estado frágil, uma rápida passada pela decisão de adotar Kaoru e o fato da menininha ter morrido, e todos os outros problemas que ainda perduravam sobre sua saúde. A decisão tomada por Koga e os superiores fora manter a banda longe da mídia o que agradou os quatro.

Ainda na sexta à noite foram para um bar onde costumavam comemorar algumas coisas ou mesmo se encontrar para jogar conversa fora e se aproveitaram de algumas bebidas, assim como iguarias do local. Era como um convite de boas-vindas ao fim de semana e saíram de lá na alta madrugada, mas conseguindo conter seus passos e não chamar mais atenção do que a costumeira.

Dali partiram para resolver 'pendências inacabadas' no caso de Reita e Ruki, encontrar certas pessoas, no caso de Kai e seguir para casa sem ter muito que fazer, no caso de Aoi. Estava feliz pelos amigos, todos bem resolvidos com os próprios parceiros. Ele também se encaixava naquele mundo. Apesar dos problemas de Uruha, estavam bem. Felizes, apesar de toda a situação, mas sempre tentando encarar aquilo com determinação, o que fazia principalmente ao Shiroyama conseguir deitar a cabeça no travesseiro e dormir bem.

Ao menos tinham a tecnologia a seu favor.

E como duas crianças apaixonadas conversaram pelas noites de sábado e domingo, os celulares gastando aos montes, não que aquilo fosse um motivo para se preocupar. De certa forma, sim. Mas, não para colocar o outro abaixo disso. E assim trocaram juras, promessas, pole dance não deixou de estar no meio, entre tantas outras coisas.

Kai e Miyavi namoraram o fim de semana todo e o Takamasa havia finalmente conseguido persuadir o menor a usar as sugestivas latas de chantilly e aproveitaram aquele sábado provavelmente engordando com o conteúdo branco que passou com intenções ambíguas, pendendo, claro, para o lado pervertido. Miyavi havia experimentado da cobertura por todo o ventre, baixo-ventre e parte interna das coxas de Yutaka e com Lovelie chorando no final daquela transa mais uma vez marcaram algo em suas lembranças desde que estavam juntos.*

Reita e Ruki caminhavam. Ereções já eram presentes em seus toques e o Suzuki podia sentir como o outro estava cada vez mais perto de se entregar de uma vez. Era paciente, não apressaria nada e sabia bem, assim como o próprio Takanori havia dito, quando começarem não iriam mais parar. E algo como aquilo vindo daqueles 1,62 do vocalista faziam os pêlos mais íntimos do baixista arrepiarem.

Ruki era a pura perversão, aquilo era incontestável.

Enfim, cada um com seu fim de semana bem aproveitado, de acordo com o que as circunstâncias permitiam.

Naquela segunda pela manhã, faltando nove dias para o natal, a neve caindo cada vez mais intensa e todos devidamente aquecidos por seus pesados casacos, os cinco estavam com Koga na sala de reuniões da banda com os diretores de arte, maquiadoras, estilistas, tudo que precisavam para adiantar boa parte das coisas, apesar de que se fossem comparar semanas, estavam atrasados.

- O que vamos decidir primeiro, Koga-san? – Kai foi o primeiro a se manifestar.

- Antes disso queria dizer que o material de divulgação está pronto e amanhã será lançado. Semana passada falamos apenas, mas agora fotos e papéis serão divulgados. A decoração do ônibus também está pronta, vamos mostrar algumas montagens.

Todos assentiram, Koga continuou.

- Primeiramente, como devem imaginar, os cabelos de vocês irão mudar. Como o último single lançado foi Vortex algumas mudanças serão feitas, mas acho que nada muito radical. Os diretores de arte haviam me perguntado sobre o ônibus, bem, as fotos que tiraram juntos para o festival, uma delas foi selecionada e só para sanar a dúvida, sim, Sugizo-san quem estampará junto com os outros a parte externa do ônibus.**

- Nossa agenda e os calendários ficaram prontos? – Kai insistiu.

- Sim. Foi tudo finalizado ontem. Vamos lidar com as roupas agora, acho que um padrão será mantido até a última apresentação quando costuma mudar mais drasticamente, então, mãos a obra.

Ruki pegou algumas folhas e lápis. Estava no meio dos outros, ao lado de Reita e Aoi. Os estilistas também desenhavam algumas coisas e os outros mais perto davam palpites em tom de voz baixo. Assim permaneceu por bons minutos.

- O que a nova turnê tem de Vortex, Koga-san?

- Talvez ainda tenha boa parte da essência, Ruki. Nenhum outro single foi gravado, então de certa forma ainda tem raízes do último. Com o festival tiveram algumas coisas como as camisetas, mas o enfoque ainda está em Vortex, provavelmente.

- Então eu ainda manteria o padrão de preto. – A ponta de trás do lápis jazia entre seus lábios adquirindo algumas marcas de mordidas. – Praticamente o PV foi gravado assim tirando a roupa do Aoi que teve um tom mais claro de preto na parte de cima e o Reita que teve a gravata e as linhas na calça. – Fitava a foto em suas mãos, assim como havia outros exemplares com os presentes. – Na última turnê não usamos tanto preto ou couro, e se vai haver uma evolução nas roupas as cores poderiam ser acrescentadas aos poucos.

Os estilistas e diretores entreolharam-se.

- É uma boa ideia. – Disse um deles, por fim. – Essa evolução seria boa, e como feito no festival, o contraste podia ir ficando maior principalmente entre Aoi-san e Sugizo-san.

Koga arqueou uma sobrancelha. O homem continuou.

- Sugizo-san não é Uruha-san. São duas pessoas diferentes em estilos e modo de tocar, se posicionar no palco. Como foi bem aceito pelo público, Sugizo-san poderia se soltar mais, ser ele mesmo, mostrar que não é uma sombra do outro guitarrista, tampouco quer tomar seu lugar. E as roupas poderiam seguir o padrão. Veja bem, Uruha-san tem uma marca pelos shorts que usa, parte das pernas aparecendo. Sugizo-san poderia seguir o oposto, mais coberto. Seria bom diferenciar e se o tom das cores entre as roupas dos guitarristas for mudando o contraste também será bem aceito.

- E os outros? – Koga indagou.

- Normalmente Ruki-san sempre aparece com roupas diferentes dos outros, em vários sentidos. A mudança de Sugizo-san não precisa acontecer de imediato. O tom pode ir clareando, ele e Aoi-san podem usar um mesmo acessório, mas de cores diferentes, tudo para dar um contraste. Reita-san e Kai-san costumam usar preto com branco e isso pode ir evoluindo conforme os shows caminham. Ruki-san seria o diferencial entre os outros e em contrapartida vocês preservam em Sugizo-san seu cabelo, sua forma de se portar em palco e mudam os fanservices. O importante é a diferença entre Sugizo-san e Uruha-san que deve existir.

Respirou fundo e tomou um gole de água antes de a garganta secar por completo.

- Porque lembrem-se. O que faria os fãs preferirem Sugizo-san, não seria o fato de ele estar nessa turnê. Mas, como nós o colocaríamos no palco. Se houver uma harmonia comum entre os membros, mas ele manter a personalidade própria não vamos estar induzindo as pessoas de que ele pode ser como Uruha-san e a substituição não será mais algo a temer. Até porque acredito que ninguém aqui queira trocar Uruha-san.

E todos ali estavam orgulhosos do estilista. E sabiam que ele tinha razão.

...

A reunião havia durado algumas boas horas, mas tudo fora decidido, por fim. Agenda pronta, calendários prontos, todas as set lists feitas e entregues. Koga não os pôde liberar porque ainda precisavam conversar sobre as mesmas e agora estavam sozinhos em sua sala de descanso revisando papéis por papéis, música por música.

Notaram certo padrão no final, Best friends faria parte do encore junto com outras duas músicas e a história das camisas não tinha sido ainda decidida. Para que pudessem usar a música deveria ser a última e isso ainda deveria ser discutido com o empresário. O importante no momento era se concentrar em cada uma daquelas faixas, comparar com outras apresentações e fazer mudanças que fossem necessárias.

Era meio da tarde, por volta de três horas e havia muito trabalho pela frente. A nevasca havia parado, mas havia bastante neve acumulada em certos pontos de ruas e calçadas e o som das escavadoras se fazia presente. O frio estava realmente pior, mas todos estavam acostumados a lidar bem com ele.

xXx

Mais ou menos na mesma hora em que os cinco verificavam as músicas em Tokyo, Uruha acordara em Kanagawa. Ainda não havia completado três da tarde, mas permanecera bons minutos inerte no sofá ainda sentindo o carinho de Akemi em certa parte de sua cabeça. Provavelmente a mãe o fazia desde que adormecera, a conhecia bem e quando se trata de mimar seus meninos o fazia veemente.

Seus olhos passearam pela sala até onde a linha de visão permitia, mas nada de Takashi. Apenas quando se apoiou num dos cotovelos para se sentar Akemi baixou a parte da touca que erguera e por encerrara os carinhos.

- Dormiu bem filho?

- Mais ou menos. – Riu. – Acho que cresci um pouco para dormir em sofás.

Akemi compartilhou o riso.

- Eu sei, deveria ter te mandado para cima, mas ora, você já um homem não precisa de sua mãe para te mandar fazer as coisas não é mesmo? – Colocou as mãos na cintura.

- Não, não preciso. Mas, eu ficaria muito contente se fizesse. Para me mimar mais.

Riram novamente.

- Como se sente depois do encontro com Raphael?

- Agora bem melhor. – Fez silêncio por um momento. – A gente tenta não ficar confuso, mas de algum jeito acontece. Raphael foi o primeiro em muitas coisas para mim, não teria como esquecer. Mas, eu não o amo mais. Na verdade faz muito tempo que isso morreu. Eu não largaria o Aoi por causa dele.

- Eu sei que não. – Akemi sorriu. – E fico feliz por isso, muitos às vezes se deixam levar por encontros inusitados e atropelam as coisas. Ter a cabeça no lugar é sempre importante.

Uruha concordou.

- Ele tinha vindo antes, não é? Eu ainda conheço algumas manias dele.

- Sim, veio. Foi até o hospital e Felipe-chan e Viktor-san mentiram pra ele. Aliás, me parece que ele até levantou a mão para Viktor-san – Uruha arregalou os olhos. – e se apresentou como seu namorado. Acho que ele só precisava de uma confirmação sua. – Deu de ombros.

- Acha que vai parar agora? Eu realmente não quero problemas. – Levou uma das mãos à cabeça e suspirou cansado.

- Ninguém quer. Avisei seus amigos e Akira sobre ele, apenas Aoi-san não sabe e vamos torcer para isso continuar assim. Já chega de problemas.

- Mais um e acho que até vocês explodem.

Akemi riu e concordou. Uruha olhou rapidamente em volta, de acordo com o que se lembrava estava perto do natal.

- Não vai decorar a casa esse ano, mãe? – Resolveu mudar de assunto, aquele não daria bons frutos, de qualquer maneira.

- Acho que não. Sei que gostavam de tudo aquilo quando eram crianças mesmo que não seja uma data muito importante para nós, mas esse ano eu prefiro deixar assim, morno. Para você.

- Para mim? – Inquiriu com surpresa. – Como assim?

- Kou-chan, nem eu ou Takashi temos motivos para comemorar com você doente. Ficamos em dúvida sobre decorar e talvez te deixar mais confortável, mas mesmo com todas as festas não é certo tentar mascarar que você não está bem. Por mais que esteja no fim do tratamento o ano não foi tão bom com você e para nós é como uma forma de respeito.

Uruha sentiu corar. Akemi sorriu e acarinhou seu rosto.

- Tem certeza? Quer dizer, eu realmente não importaria, estou feliz de estar com vocês. – Sorriu de volta.

- Nós sabemos e também estamos contentes, mas para seu pai e eu é importante ser assim. Falsos momentos apenas machucam, a sobriedade nesses casos é bem melhor. Tivemos medo, mas achamos que podem entender.

- E posso. Sei que só fazem o melhor por mim e Reita, e se diz que o melhor é não enganar a ninguém com esses momentos passageiros, vamos passar a data a nosso modo de ser.

- Regado a muito sushi, sashimi, Temaki, doces, conversas e risadas, e nada de sakê para você.

Uruha soltou um audível 'ahhhhhh'.

- Mas, logo a melhor parte? – Riu. – Eu acho que posso aceitar isso dessa vez e eu nem poderia também. Tenho uma sessão com o Viktor no dia vinte e três, acho que vou passar uma parte do dia vinte e quatro no hospital também.

- Precisamos ir junto?

- Creio que não, ele disse que é algo mais simples, vou ficar em observação e acho que o pai só vai precisar ir buscar.

- E porque não a mãe? – Fez cara indignada. – Eu dirijo melhor que seu pai, posso muito bem ir.

- Não a contrarie Kouyou. – Takashi apareceu rindo. – Se ela diz que pode, então pode.

- Exatamente. – Cruzou os braços a frente do corpo.

Uruha ergueu as mãos, entregando-se. Akemi completou.

- Mas, por enquanto que tal um bom lanche com chá para aquecer?

Os dois homens entreolharam-se, concordando.

xXx

- O Ruki vai me matar achando que eu te arrastei pra cá. – Aoi riu sorvendo mais um gole de sakê na companhia de Reita. Passava das nove da noite e o baixista havia saído da gravadora com o outro alegando precisar conversar.

Reita negou.

- Não vai, eu avisei que precisava e contei sobre o que era, ele praticamente me jurou de morte se eu não viesse.

- Então a coisa é séria. – Quase se ajeitou no sofá. Apenas não o fez porque Akira riu, negando. – Então me diga o que é.

- Uma sugestão. O Koga-san deu dos dias vinte e três até vinte e seis pra gente ficar em casa. Então eu pensei em vim te intimar a voltar para Kanagawa e passar esses quatro dias com o Uruha.

- Achei que fosse uma sugestão. – Brincou. – Mas, sabe que eu nem havia pensado nisso.

- Eu sei, por isso que eu existo. – Falou convencido, rindo e devolvendo o dedo médio que Aoi mandou para si. – Eu acho que você deveria ir. Nem precisa ligar para os meus pais, aposto que eles vão ficar em casa e espaço é o que não falta, mas isso você sabe.

- E tem como esquecer? Principalmente aquele twister. Aposto que você se aproveitou do Ruki.

- Ainda quero mais. – Sorveu um gole de sakê, terminando e colocando o copo perto do vidro da bebida, na mesinha de centro.

- E aposto que ele também. As coisas ainda andam paradas?

- Um pouco, mas acho que o próprio corpo ta obrigando ele.

- Como você agüenta? – Aoi quis parecer brincalhão, quase dizendo 'eu não agüentaria'', mas tudo que conseguiu foi fazer o amigo rir.

- Aoi, você tem seus desejos, mas eu sei como é todo grudento e carinhoso, não venha com essa pra cima de mim.

Aoi ergueu os braços. Reita vocalizou um 'vitória!'.

- Mas, ainda é muito tempo. Não é da minha conta, mas você tem que concordar que o Ruki não é um poço de pureza.

- Acho que nem em sonho, mas essa parte ele não pode saber. – Riram. – E não mude de assunto, eu vim te intimar sobre o Uruha e não falar da minha vida sexual com o Ruki.

- Você que deixou eu continuar. – Provocou. Reita lhe mostrou o dedo de novo. – Mas, se é para voltar a ele, tudo bem, acho que eu gostei dessa ideia. Só não sei se dá pra comprar alguma coisa.

- Dá o relicário oras. Ele talvez nem lembre de tão avoado, mas longe do hospital deve usar.

Aoi ponderou. De fato era uma boa ideia. Acabou concordando. Reita finalmente se levantou, era quase dez da noite.

- Vai aonde? – Aoi inquiriu.

- Para casa, aonde mais iria?

- Fica aí, não tem problema e quarto tem de sobra. O Ruki me emprestou você, aposto que nem vai ligar.

Reita cruzou os braços. Alguns minutos se passaram e um sorriso começou a desabrochar em seu rosto.

- Cadê o vídeo-game?

Aoi riu.

- Se o Kai matar a gente amanhã eu vou te perseguir pelo resto da vida.

Reita voltou a lhe mostrar o dedo. Dali para frente se entupiriam de besteiras e jogariam pela madrugada desde aventura até futebol e seus preferidos, de luta. A palavra 'vitória' se tornaria praticamente automática em seus lábios.

Seis dias depois, 23 de Dezembro

Uruha acordara por volta de nove horas. Com o mês quase no fim nevava com mais freqüência, o que ocorria no momento. Ventos gelados e velozes e os flocos brancos chocavam-se contra a casa, fazendo bons barulhos ao baterem nas janelas, um dos motivos que acordou Uruha. Havia tomado um banho quente, fazendo toda a higiene com alguma demora principalmente na região do cateter e ao escovar os dentes para não correr risco de provocar alguma ferida, agasalhando-se bem para sair e agora abrira as cortinas, vendo o clima realmente ruim que não dava impressão de amenizar.

Havia combinado com Viktor no dia anterior sobre a hora da consulta, onze horas e estava quase tentado a ligar novamente para desmarcar, com certo receio de tomar aquele vento. Não sabia se poderia e chegou a cozinha alguns momentos depois não precisando saber que não iria a pé para o hospital.

- Eu te levo. – Takashi havia dito enquanto tomavam café. – Se o tempo melhorar amanhã Akemi vai te buscar. Viktor-san disse até que horas vai ficar?

- Provavelmente até umas oito horas já que vou cedo hoje. Mas, ele disse que se eu puder ir antes avisa para vocês.

- Seria melhor se você pudesse ter as sessões em casa, esse tempo é ruim. – Akemi comentou.

- Ele disse que prefere ser no hospital para não correr riscos. Mas, acho que deve ligar se for desmarcar.

- Acredita nisso Kouyou? – O Suzuki voltou a indagar. Uruha negou.

- Não muito. Ele teve que atrasar quando eu tive pneumonia, acho que agora tenho que seguir a risca a agenda.

- Então vamos terminando tudo rapidinho porque não quero saber de ninguém correndo nessas estradas com neve. – Akemi os apressou. Os dois compartilharam um olhar que assentia as palavras da Suzuki.

xXx

Aoi levantou as sete. Em Tokyo a coisa também não estava muito boa, mas ele não desistiria de sua viagem. Poucas horas até Kanagawa, nada de muito grave, indo devagar conseguiria chegar bem. Enfrentar o frio dentro do carro também não era muito problemático com o ar-condicionado, mas não se arriscaria a ir desprevenido e correr o risco de passar frio ou se resfriar. Seria esganado se ficasse doente agora com a turnê tão perto, e tampouco poderia ficar perto de Uruha.

Tomou um banho calmo e demorado, quase desistindo de sair de dentro do box quentinho, relutando com vontade quando o fez. Arrumou-se com alguma pressa aliviado ao sentir o corpo juntar calor novamente. Só então se deixou ver no espelho, os novos fios, ainda pretos em baixo e com aquele corte menor, mas a parte rosa substituída por uma cor prateada, não sabia bem, mas era um tom como aquele. Não sabia por que tinham mudado com cabelos com algum tempo ainda para as apresentações, mas as cabeleireiras disseram ser melhor. Ninguém contestou.

'Ao menos combina mais'. – Riu. Ligou a tv num noticiário e fez café, tomando-o com alguma demora enquanto via as notícias, beliscando ainda algumas torradas. Levaria alguma coisa consigo, já que parar no meio daquela neve para comer apenas lhe atrasaria mais. A mala já estava pronta e o relicário ao lado para não esquecer.

Quase as nove desligou tudo e fechou o apartamento, passando pelo porteiro que lhe desejou boa viagem. Acomodou-se em seu carro. Ligou tudo que precisava e saiu de seu prédio rumo a Kanagawa. Não saberia quando o veria novamente e tinha certeza que não deveria falar nada sobre o próprio cabelo. O rosa havia desbotado, assim como as cores dos outros membros por causa de toda a preocupação com Uruha e desprendimento para esses detalhes e haviam também crescido, mas para o festival decidiram deixar ao natural, o que algumas pomadas e sprays deram conta de deixar com uma modelagem bonita. Agora, parte dele prateada certamente chamaria atenção.

Se Uruha não perguntasse seria ainda mais fácil passar por aquilo.

xXx

- Se eu perguntar como se sente vai me chamar de repetitivo?

Uruha concordou com vontade. Ambos riram. Viktor continuou.

- Eu sei, mas preciso perguntar ainda mais que ficou longe da minha vista e agora veio tomar outra dose de quimioterapia. – Ajeitava a bolsa do soro no apoio perto da cama. O cateter ainda era usado e Felipe o verificou contente pela higiene do local. Claro que havia o plástico que protegia em volta, mas todo cuidado era necessário.

- Eu estou bem. Ficar em casa ajuda bastante. – Quase podia sentir o líquido entrando em seu organismo.

- Os antidepressivos não têm feito mal? – Sentou-se perto de si. O supervisionaria durante àquelas horas.

- Não, só me dão um pouco de sono, mas não senti nada de diferente.

- Isso é bom. Seu organismo deve estar voltando a funcionar melhor.

- Às vezes eu nem acredito que ta acabando. Parando pra pensar agora parece que faz pouco tempo. – Ajeitou-se na cama, cobrindo-se. Viktor lhe sorriu.

- É uma impressão comum. Nós médicos de vez em quando pensamos a mesma coisa. Acho que você só vai se dar conta do tempo que passou conforme precisar fazer exames durante algum tempo. Vai demorar para se livrar de mim ainda.

- Isso não é um problema. – Riu. – A leucemia que é. – Viktor concordou. – E eu não esqueci que você e o Felipe têm que ir a um show nosso ainda.

- Que tal no último da turnê? Seria especial, não?

A feição de Uruha pareceu triste por um momento.

- Você acha que dá tempo?

- Bem você sabe que não da para estipular datas. Mas os médicos também podem ter esperança, não é? E você também tem que ter.

- Então vamos torcer. – Uruha sorriu. – Se meu médico tem esperança eu também posso ter.

Viktor concordou.

As horas pareciam demorar a passar. Médico e paciente trocaram muitas conversas e risadas e Felipe se juntou há dupla algum tempo depois. A nevasca acabou cessando um pouco depois do meio dia e pela tv podiam ver as situações na estradas na maioria das cidades. A própria província em que se encontravam, assim como as outras que compunham Kanagawa. Tokyo também foi mostrado, a todo o momento as escavadoras aparecendo nas telas das câmeras e outras podendo ser ouvidas na rua do hospital. Em alguns pontos havia um acúmulo maior de neve e como as pessoas ainda precisavam se locomover por trabalho ou passeio as estradas precisavam estar livres.

Logo que o almoço passou, por volta de duas da tarde Uruha começou a sentir os efeitos da quimioterapia. A cabeça começou a doer aos poucos, mas sempre com aquelas pontadas incômodas, que durante aqueles meses por muitas vezes o fizeram dormir para que não sentisse. Viktor sempre lhe ministrava um remédio e o fez novamente, conseguindo algum resultado depois de alguns minutos.

O problema mesmo era quando os vômitos vinham. E não demoraram muito. Era sempre constrangedor, mas o que poderia fazer? O enjôo vinha e o vômito acompanhava. Impedir seria impossível, então apenas restava aceitar. Mas, apesar do tempo não era algo com o que se podia acostumar. Só podia aceitar a ajuda de Felipe ao apoiar sua cabeça e deixar que tudo fosse expelido de uma vez. Haveria outras crises ainda ao longo das horas, então o hematologista logo esvaziou a bacia, limpando-a e retornando para Uruha.

A boca um tanto ressecada foi umedecida com a gaze e Viktor providenciou duas garrafinhas de água, limpando o bucal e a tampa antes de deixar perto da cama. As coisas voltaram ao normal após alguns minutos e os três se distraiam novamente, interrompidos apenas por uma batida na porta. Sem esperar qualquer resposta a pessoa foi abrindo, deparando-se com os três, Uruha surpreso e Viktor estreitando o olhar em sua direção.

- Raphael? – O Takashima balbuciou.

xXx

- Aoi-san. – Akemi abraçou o genro logo que o permitiu estacionar. Quando Uruha fora abandonado se tivesse uma garagem ou algum teto poderia ficar ali escondido, então logo que viera morar com os Suzuki's Takashi mandou construir uma garagem na parte da frente, capaz de comportar dois carros. Como nem os do dono da casa ou de Aoi eram grandes couberam perfeitamente. – Que bom que veio Kou-chan vai ficar feliz.

- Espero não estar atrapalhando. – Disse um pouco sem jeito, entregando as flores para Akemi. Ela sorriu.

- Imagine, mesmo se não tivesse espaço não lhe mandaríamos embora. – Deu passagem para que entrasse. Logo que o fez cumprimentou Takashi que se mantinha mais atrás. Era uma cena cômica, já que normalmente acontecia o contrário, mas também era irrelevante. – Aliás, gostei do cabelo.

- Obrigado. – Sorriu. – É para a turnê nova, vim torcendo para o Uruha não comentar sobre isso.

- Ainda é um problema, não é? – Takashi indagou enquanto caminhavam para a sala. Aoi deixou sua mala perto de si, negando que deixaria Akemi a levasse para cima. A Suzuki desistiu e foi colocar suas rosas brancas num vaso.

- Sim, é complicado ainda. A gente não queria isso, no começo era apenas o festival e pronto, mas acho que não dá mais para reclamar. As coisas estão sendo feitas, só basta aceitar.

- Ah tudo bem. – Akemi brincou, sentando-se ao lado de Takashi. – Se Kou-chan for expulso eu trago ele para morar aqui.

- Akemi... – A voz de Takashi quase morreu enquanto a Suzuki ria de sua feição surpresa.

- Mas, tem um problema nisso Akemi-san. Teria que me agüentar aqui, porque eu não ficaria em Tokyo com ele aqui.

- Isso nem é problema. – Gesticulou. – E assim até meu Akira voltaria.

Aoi não conseguiu não rir.

- Eu acho que se fosse fácil voltar e houvesse um problema grande, muitas pessoas voltariam. Mas, nossa vida é essa, acho que não vamos nos separar nem quando nos aposentarmos.

- Desistir é sempre ruim. – Takashi comentou. – Independente do que seja sempre machuca. Imagino desistir de um sonho. – Recostou-se no espaldar do sofá. – Mas, se isso acontecesse, Kouyou fosse expulso o que aconteceria?

- Eu realmente não sei. – Disse com algum pesar. Havia se pegado imaginando aquela situação alguns dias antes. – Conversei com o Reita, ele também não soube dizer, mas eu acho que ele desistiria. Falaria com todo mundo e teria coragem pra isso. Ia doer, mas eu acho que com outro não seria a mesma coisa. Eu também acabaria desistindo. O Reita até disse que criaria uma loja de instrumentos e nós cinco iríamos trabalhar nela.

- Aposto que ia se chamar GazettE também. – Akemi riu.

- Muito provavelmente.

Aoi respondeu e seus olhos caminharam discretamente pela sala, e o corredor, mas nada de Uruha. Fora impossível não arquear uma sobrancelha, o que Akemi logo percebeu.

- Ele não está Aoi-san, hoje mais cedo foi ao hospital, era dia de sessão.

Aoi não pôde deixar de soltar um 'ah' desanimado. Takashi o fitou e sorriu.

- Mas, é bom que tenha vindo ele passou pela psicóloga na sexta e agora por mais uma sessão, um apoio como o seu vai ser bem-vindo.

- E como foi com a psicóloga? – Perguntou interessado, rindo por dentro ao se imaginar tendo um ataque de ciúmes caso fosse um homem.

- Diz Kou-chan que foi tudo bem. – Akemi argüiu. – Ele tem tomado os antidepressivos e parece melhor. Foi uma boa ajuda.

- Espero que sim. – Sorriu. – Ele volta hoje?

- Torcemos para que sim. – A Suzuki voltou a falar. – Viktor-san ligou e disse que se tudo ficar bem manda ele ainda hoje, mas como não sabemos a que horas porque não se acomoda melhor e guarda suas coisas lá em cima? Aposto que vai ter algumas horas pra isso.

Aoi concordou e se encaminhou para o quarto de Uruha.

xXx

- Desculpe Kouyou, preciso parar de te pegar de surpresa.

- Concordo. – Riu brevemente. Lembrou-se da história com Viktor. – Er... Raphael.

- Tudo bem, eles apenas queriam te proteger. – Virou-se para os dois. – Peço desculpas pelo que fiz.

- Acho que tudo bem. – Viktor ainda o encarava desconfiado. Nunca fora muito de levar um empurrão e ficar quieto então não ligava em ser indiscreto. Principalmente depois que aprendeu a ser forte do pior jeito, quase morrendo pelas mãos do pai.

- Eu vim saber se posso levá-lo para casa ou tem que ser apenas os pais.

Viktor virou-se para Uruha, os braços cruzados.

- Você confia nele? – Apontou com a cabeça. Felipe não pôde deixar de rir apesar de ter tentado abafar. Uruha seguiu pelo mesmo caminho.

- Confio sim. – Sorriu. Era claro que preferia Aoi, mas não sentia que Raphael seria um empecilho, e era apenas lhe levar em casa.

Viktor se virou para Raphael. Sério.

- Eu vou fazer algumas verificações rápidas, se quiser ficar aqui o Felipe pode te dar uma máscara e se estiver tudo bem dentro de mais uma hora eu o libero.

Raphael assentiu. Felipe lhe entregou a máscara e ele se sentou onde Viktor estava anteriormente, vendo-o examinar Uruha. Permanecia em silêncio apenas olhando. Viu-o verificar a temperatura, retirar uma amostra de sangue pelo cateter, se utilizar do estetoscópio e outros aparelhos, por fim o esfigmomanômetro para verificar a pressão.

Tudo parecia bem, ao menos Viktor sorria levemente. Mas, logo Uruha vomitou novamente, indicando que ainda ficaria algum tempo ali. Ao menos não precisaria passar a noite longe de seus pais e Aoi, mesmo que nem fizesse ideia que o encontraria lá.

...

Era noite. Não era nem sete, mas já estava tudo escuro. A nevasca não voltara, mas era possível ouvir o vento forte chocando-se contra a estrutura e janelas como mais cedo Uruha notara em sua casa. Não havia jantado já que se sentia indisposto por ter vomitado todas aquelas vezes, mas disse que o faria em casa. Viktor concordou e lhe entregou alguns papéis pelo retorno enquanto retirava o soro do cateter, uma visão um pouco dolorida para Raphael.

Ele permanecera no quarto por todo aquele tempo, interagindo rapidamente com os médicos e Uruha. Aos poucos parecia conseguir extinguir a visão de namorado que tinha dele, o que seria bom para ambas as partes, muito para si, já que assim não corria risco de sofrer.

Havia tomado uma decisão desde que o reencontrara e queria se aproximar um pouco mais para poder se despedir depois sendo amigos e com tudo ajeitado. Sabia que era daquela forma que deveria ser e era maduro para conseguir aceitar de cabeça erguida.

- Quero que jante mesmo, não pode ficar sem comer.

- Sim senhor. – Bateu continência e os quatro riram.

Logo fora dispensado e acompanhado até o carro de Rapahael, acomodando-se no banco do passageiro. Era incrível o cheiro do loiro nunca ter mudado depois de tantos anos, aquele aroma característico que o envolvia. Claro que não era melhor que o de Aoi, logo que lembrou de ter aspirado os cheiro amadeirado em seu carro quando ficara aquela semana com ele.

- Tudo bem em te levar? – Raphael indagou ao adentrar seu lado no carro.

- Raphael, nós somos adultos, não há problema nisso.

- Eu só não quero te complicar.

- Eu sei. – Sorriu fechado. – E não vai, posso ver que as coisas ficaram esclarecidas entre a gente.

- Ficariam sim. – Devolveu o sorrido. – Somos amigos e isso é importante. Espero apenas que tenha gostado dos bombons.

- Cínico. – Uruha brincou. – Você sabe que eu gosto daqueles bombons.

- Podia não ter gostado. – Deu de ombros, voltando à atenção para a rua. Uruha ao fitou com uma expressão incrédula, quase cômica. – Que foi? – Riu.

...

- Vivo e em casa. – Raphael brincou.

- Não posso te oferecer algo grande em troca, mas acho que não tem problema em tomar um chá.

- Akemi-san não reclamaria?

- Não, acho que todo mundo só ficou surpreso porque você apareceu de repente, mas você sabe que não é odiado.

Raphael assentiu. Ele sabia de certa forma. Estava desprevenido, sem nada para oferecer, mas ainda assim adentrou a casa, deixando os sapatos no engawa *** e pendurando casacos e cachecóis – No caso de Uruha. — antes de pegarem calçados devidos e se encaminharem pelo corredor. As vozes de Akemi e Takashi eram ouvidas, e se não estivessem enganados podiam ouvir uma terceira voz.

Esta que detectaram ao parar na entrada da sala. Os três se voltaram para si, o sorriso que Aoi mantinha para os Suzuki's morrendo na mesma hora, em contrapartida o de Uruha iluminando como Raphael não vira há muitos anos. Não precisou de muito para ter certeza que aquele era o dono de seu coração.

- Aoi. – Foi até si, abraçando-o. O ar ainda parecia muito pesado, mas Aoi não negou o abraço, envolvendo o corpo magro com alguma possessão, não sabia quem era aquele homem, mas não havia gostado daquilo, e enquanto mantinha o abraço fitava seriamente aquele loiro desconhecido.

Só então Uruha voltou a si, desvencilhando-se e o encarando com os olhos arregalados. Aoi o encarou com curiosidade, fitando a si e a Raphael.

- Acho que você já descobriu não é Raphael. – Disse meio sem jeito, entrelaçando as mãos com Aoi.

- Sim, mas não tem problema. Lembra? Amigos. – Aoi o fitou com uma sobrancelha arqueada.

- Obrigado pela carona.

Raphael lhe sorriu da entrada da sala e Akemi o guiou pelo corredor de volta a entrada, quase matando Uruha de vergonha por causa do chá. Talvez pudessem tomar um outro dia, agora precisava conversar com Aoi e saber como ele havia parado ali também.

- É ele, não é Akemi-san?

- Sim, Raphael-san, é.

Raphael sorriu.

- Diga para o Uruha não se preocupar, está bem? E deseje boa sorte por mim quando for falar com ele.

- Pode deixar. – Sorriu cúmplice, ajudando-o a colocar o casaco, despedindo-se e vendo seu carro sumir rapidamente de vista.

Fechou a porta e voltou para a sala encontrando Takashi em pé perto do sofá com os olhares voltados para si.

- Eu e a Akemi vamos preparar alguma coisa na cozinha para você comer Kouyou, podem aproveitar. – Saíram rapidamente do cômodo arrancando uma risada baixa de Uruha. Ele se sentou tão logo se viu sozinho com Aoi, que fez o mesmo a seu lado.

- Eu falo primeiro? – Referia-se ao fato do moreno, agora nem tanto, estar ali.

- Sim.

Suspirou, encostando-se no respaldo.

- O nome dele é Watanabe Raphael e ele é meu ex-namorado. – Aoi estremeceu sobre o sofá. Ia falar, mas Uruha o impediu. – Nós nos conhecemos logo que eu fiz dezessete anos e começamos a namorar. Isso durou até os dezenove. Eu e o Reita queríamos ir para Tokyo formar banda e ele tinha o sonho de estudar na Toudai. A gente brigou por causa disso e acabamos terminando. Eu o encontrei tem pouco tempo e ele disse que tava atrás de mim algum tempo, chegou a ir até Tokyo, mas não me achou. Ele viu pela tv que eu tava doente e parece que encontrou minha mãe por acaso aqui. Depois dele eu nunca mais namorei um homem até você e todos os outros casos foram coisas carnais. Ele foi o meu primeiro em muita coisa, mas a gente nunca avançou nada.

- Ele apareceu agora por quê? – Aoi pegou a brecha que Uruha usou para respirar e conseguiu perguntar.

- Porque queria outra chance. – O Shiroyama estremeceu de novo. – Mas, eu disse que tinha alguém e ele parece que entendeu isso. A gente veio junto porque ele apareceu no hospital, eu não esperava aquilo.

Aoi soltou um 'ah' fraco e também se encostou ao respaldo deixando que o silêncio fosse se tornando menos constrangedor, apesar de ainda pesado. Uruha fechou os olhos inspirando com calma, havia falado demais e se sentia cansado por causa do tratamento. A cabeça estava bem apoiada nas costas do sofá e a mão procurou a esmo a de Aoi, colocando-se por cima dela.

- Não fica bravo Aoi. Acho que eu passei a impressão errada.

- Eu não to bravo. – Fitou a própria mão mover-se lentamente, saindo debaixo da de Uruha e se entrelaçando como ele havia feito antes. – Eu só sou um velho inseguro.

- Você não é velho. – Abriu os olhos, fitando-o. – E não seja inseguro.

- Não dá. Ele é bonito. – Aoi se sentiu realmente incomodado com o que disse e Uruha o encarou com certa incredulidade.

- E você também é. E no meu estado atual é mais fácil vocês saírem juntos e eu ficar chorando nas pernas da mamãe.

Aoi não conteve uma risada. Sair com Raphael?

- Tem certeza que o Viktor te aplicou quimioterapia?

- Tenho sim. E não ria o inseguro aqui sou eu.

- Mas, não deveria. – Aoi voltou a ficar sério. – Quem sou eu pra te largar? É só que ele é bonito e eu pareço um corno falando assim, mas é verdade.

Uruha riu no corno.

- Ele é sim, muito bonito Aoi. Mas, eu nunca gostei dele por causa disso nem quando a gente namorou. Imagina agora. E trate de confiar em mim. – Falou bicudo.

- Eu confio em você. – Deixou-se abraçar Uruha novamente, retirando sua touca e dando um beijo no alto da cabeça. – Eu não confio é nele.

- E eu não confio nas suas mãos perto da minha touca. – Pegou-a de Aoi, mas não colocou. – E tudo bem não confiar, apenas não fique pensando demais nisso e claro, me diga como veio parar aqui.

- A companhia deu pra gente quatro dais de folga e o Reita só jogou lenha na fogueira para eu vir.

- Bom menino ele. Pena que eu não tenho o que te dar.

- Isso não é um problema, e você também nem sabia que eu viria. Mas, eu trouxe o relicário.

- Ainda com o papel e a sua letra?

Aoi assentiu. Tirou o colar de dentro da caixa aveludada e mesmo com Uruha de frente para si colocou o pingente em seu pescoço, não o vendo se arrepiar pelo toque frio do objeto. Desvencilhou-se e o fitou novamente, preparando-se para dizer algo, mas sendo interrompido pelo roncar de um estômago.

Uruha olhou para a própria barriga, lembrando-se de que não havia comido. Fez uma careta ao fitar Aoi novamente, que agora o encarava com curiosidade.

- Não jantou?

- Não, eu passei mal no hospital por causa da quimioterapia e disse que ia jantar em casa.

- Bom saber. – Akemi apareceu na sala atraindo a atenção dos dois. – Nós já jantamos, mas Felipe-chan me ligou e disse que você iria jantar aqui, então pode se preparar para vir comer.

Uruha assentiu e com alguma ajuda de Aoi foi até o banheiro lavar as mãos. Mal podia esperar para se deliciar com a comida de sua mãe, claro que indo aos poucos para não acabar vomitando de novo. Agora com Aoi ali a seu lado e as coisas sobre Raphael de certa forma esclarecidas queria mais aproveitar a companhia do moreno sem querer saber do porque o cabelo novo, mas elogiando assim que se viu na cozinha e se deliciar com a ideia de que mais uma sessão estava terminada, mais uma superada e a cura tão perto que quase a podia tocar com os dedos.

Notas finais
* Se quiserem eu escrevo o lemon a parte e posto.
** Gente, eu não estipulei uma data certa, tipo, uma linha do tempo exata, mas consegui ajustar. A leucemia do Uruha foi descoberta em Julho, ali final do verão. A última turnê antes de ele ficar doente foi a do PV de Vortex, então atualmente estão com os cabelos daquele jeito. Se eu por acaso escrevi algo diferente nos outros capítulos peço que me desculpem. O novo visual, os cabelos deles, digo, vão ser todos do PV de Remember The Urge e o do Sugizo vai ser meio compridinho, vou colocar as duas fotos nas notas finais.
*** Engawa Varanda típica de casas japonesas; também serve para designar o lugar aonde as pessoas deixam o sapato antes de entrar.
**** Obs: Como eu disse no cap 42, o Uru aprendeu a dançar e tudo o mais, e eu tenho um lemon exatamente com pole dance pronto que é só ajeitar e colocar na fic. Algumas pessoas disseram não combinar, mas de qualquer forma eu vou colocar pequenas partes dele em determinado ponto do cap... nem digo -qq mas, vai ter sim. Só que agora eu pergunto: Vocês acham que o lemon com pole dance não vai se encaixar nessa fic por causa de todo o drama e os ares pesados e eu deixo pra postar a parte junto com o lemon MiyaviKai do chantilly, ou eu coloco nessa mesmo e sem problemas? Eu prefiro a parte (se querem saber) mas, nada melhor que consultar os leitores né?