You Are Not Alone
2 Suspeitas
Notas iniciais
Boa leitura.
- Kai, hospital geral de Tokyo, agora!
Foi à única coisa que Reita conseguiu dizer ao baterista antes de estacionar seu carro em frente ao principal hospital da cidade, chamando a atenção de dois enfermeiros que vieram rapidamente com uma maca, pegando o guitarrista de dentro do carro e colocando na cama móvel, dirigindo-se rapidamente para dentro.
O baixista ainda tremia e teve de ser ajudado por um dos seguranças do hospital para estacionar, agradecendo o máximo que pôde e logo voltando para a entrada do local dirigindo-se de imediato para a recepção.
Deu entrada pelo amigo, preenchendo tudo que era necessário, exceto quem era o responsável por Kouyou, visto que esse era um ponto que realmente machucava o guitarrista, não que, por mais que parecesse insensível, fosse importante no momento. Reita precisava saber urgente para onde o haviam levado e teve de esperar alguns momentos antes de correr até o elevador e dirigir-se para o penúltimo andar.
E só não saiu correndo quando chegou, pois, sabia que de nada adiantaria. Provavelmente Uruha seria examinado várias vezes e depois acabariam vindo às perguntas por seu estado de saúde, então o que Reita podia realmente fazer, — E fez. – era sentar e esperar enquanto enfermeiras e médicos passavam e o baixista apoiava a cabeça nas mãos rezando com toda sua força.
E provavelmente permaneceria naquele estado de nirvana se caso Kai não tivesse atravessado o elevador com Aoi e Ruki em sua cola correndo até si, apesar do baixista continuar com a cabeça baixa.
— Reita, o que houve?
O líder abaixou-se em frente ao amigo enquanto Ruki e Aoi sentaram-se cada um de um lado e aos poucos o loiro foi absorvendo a pergunta e erguendo a cabeça, o rosto molhado pelas lágrimas e os olhos vermelhos. Via-se perfeitamente a dor e o choro contido em todo seu ser.
— Eu... Eu não sei o que está acontecendo Kai, mas nada me faz acreditar que ele está bem.
Ruki afastou-se uns instantes para pegar água para o baixista, mas conseguiu ouvir a frase dado o angustiante silêncio daquele grande corredor branco.
— Calma Reita. Primeiro toma água e depois conta o que aconteceu.
Reita respirou fundo e enxugou as lágrimas, pegando a água das mãos do baixinho e bebendo aos poucos. E assim como ele, os outros sabiam que quando ele ficava nesse estado era porque as coisas estavam realmente fora de controle.
— Eu cheguei ao apartamento dele e estava tudo fechado e realmente abafado. Apesar de o verão estar acabando ainda está quente e aquele lugar pegava fogo. Eu fui até o quarto dele e como eu já tinha constatado – O baixista deu outra golada na água e respirou fundo novamente. – estava fechado também e ele estava com dois cobertores e mais vermelho que essa sua camisa, Aoi.
O guitarrista sentiu novamente o coração apertar.
— E o que mais me machucou – Reita continuou. — foi saber que ele estava com essa ida e volta de febre desde que nós encerramos a última turnê!
Os três entreolharam-se, os olhos esbugalhados pela surpresa. Realmente nenhum deles havia notado as mudanças em torno de Uruha.
— Então eu fui pegar a água que ele havia pedido e pedi que se levantasse que eu ia trazer ele aqui, mas quando eu ia voltando ouvi um barulho e corri até o quarto. Ele estava desmaiado e saía sangue da boca dele.
Aoi apertou os olhos e Reita sentiu as lágrimas descerem novamente. Kai baixou a cabeça e se sentou ao lado do guitarrista moreno enquanto Ruki abraçou um dos braços do baixista e encostou a testa ali, fechando os olhos e fazendo força para não chorar.
Reita aproveitou e tomou o resto da água, voltando-se para Ruki e soltando levemente seu braço usando-o para abraçar o menor pelos ombros. Todos estavam preocupados e sem saber o que fazer ou pensar, desnorteados e perdidos depois de tantos anos de experiência, não como banda, mas sim como pessoas.
E aquilo só mostrava como eles eram realmente humanos.
— Vocês acham – Ruki disse depois de vários minutos imerso em pensamentos, quebrando o doloroso silêncio. – que ele vai morrer?
O vocalista aninhou-se mais ainda em Reita, dessa vez as lágrimas caindo aos cântaros pelo rosto. As mesmas e dolorosas gotículas descendo pelo rosto de Aoi que fitava o nada, mas pensava em tudo. Principalmente nas oportunidades que perdeu e como a frase de Ruki lhe era como uma bofetada em sua cara.
— Não diga isso Ruki, vai ficar tudo bem você vai ver. – Kai era o único que não chorava; impassível, mas ainda assim gentil, e claro, a dor explícita em seus olhos. Ele sabia que não poderia chorar. Não depois da frase de Ruki, não depois do estado de Reita.
No entanto, em meio aquela agonia antecipada, e absurdamente normal, os quatro só podiam esperar, cada um com sua crença e pensamento, tentando imaginar onde estava o problema e como nenhum deles notou aquilo antes e deixou chegar ao estado do momento, com eles sentados num corredor de hospital, desolados e torcendo para ficar tudo bem com seu amigo.
E Reita principalmente se culpando por não ter notado nada, absolutamente nada de diferente em Uruha. A ligação dos dois era forte e intensa e somente o baixista sabia dos problemas pessoais do loiro com a família, e mesmo com tudo isso não havia notado sua carência.
— Ele estava tão magro. – Reita falava olhando para cima, talvez mais para si do que para qualquer opinião que pudesse sair de um dos outros três. Era como uma forma de desabafar. – Quando o peguei no colo notei como foi realmente fácil levantar ele e como aquilo era mais assustador ainda, junto com o sangue que escorria. Não foi muito, mas tudo aglomerado me fez quase cair enquanto eu descia aquelas escadas até a entrada do prédio.
O baixista fechou os olhos por um momento, sentindo algum tempinho depois a mão de Ruki sobre a sua.
— Aonde foi que nós erramos Reita? Por natureza ele é magro, como foi que ficou mais ainda e ninguém notou?
- Eu deveria Ruki, deveria ter visto como ele estava ficando debilitado. Primeiro a febre, desde o fim da turnê, e penso que aos poucos ele foi emagrecendo, emagrecendo e agora a gente ta aqui, chorando, imaginando como seria levar um caixão com ele dentro – Aoi sentiu o coração chegar à garganta. – e se perguntando ‘Por quê?’. Ruki, se algo muito ruim acontecer eu só vou ter mais certeza ainda de que eu errei.
Kai levantou-se no mesmo instante e foi até a parede do outro lado do corredor passando uma das mãos na cabeça e fitando Reita.
— A culpa não é sua Reita. Quem poderia imaginar que ele andava doente a esse ponto? O Uruha nunca foi de se abrir com a gente com relação à família e sua própria saúde, e mesmo que você seja o único detentor do passado dele não deve se culpar. Você não é médico e tem a sua vida para cuidar.
O baixista tentava procurar forças para dizer algo, mas como conseguir em meio aquilo? Quer dizer, ele não batia o martelo para a afirmação de Kai, mas também não discordava. Realmente tinha sua vida, mas isso somente o fazia se perguntar mais ainda se por acaso não era egoísmo pensar apenas em si.
— Mas nós somos cinco em um, Kai.
- Não discordo, mas acha mesmo que o título de réu é seu? Reita, eu tenho plena certeza de nossa união, e eu mesmo sinto culpa tanto pelo que acabei de dizer como por não ter notado as mudanças nele, mas fomos tão estúpidos assim a ponto de merecer os dedos apontados?
Era impressão ou Kai parecia ser o guardião de todas as respostas que as pessoas precisavam? O baterista parecia ser sempre o mais sensato, mesmo que às vezes seu lugar fosse disputado com Reita. Normalmente o baixista não se deixava levar por nenhum sentimento, mas quando se tratava principalmente de Uruha seus nervos afloravam e toda aquela imponência ia pelo ralo.
— Mas, de um jeito ou de outro só nos resta esperar que algum médico venha até nós e diga o que está realmente acontecendo.
Aoi pronunciou-se, por fim, fechando os olhos e desejando estar em qualquer lugar, menos no que se encontrava no momento.
xXx
As horas passaram. Duas, quase três, e Ruki acabou cochilando nos braços de Reita enquanto Aoi, com insistência de Kai, foi comprar coisas para que eles pudessem comer. O líder sabia que precisavam estar bem para toda e qualquer noticia, que apesar da demora pareceu estar vindo até eles quando um médico, um pouco mais alto que todos ali, levemente parecido com Reita e usando algumas gazes perfeitamente alinhadas pelo rosto na linha do nariz apareceu no corredor trazendo uma prancheta em mãos.
— Por favor, podem me dizer quem veio com o senhor... Takashima Kouyou? – O médico olhou na prancheta o nome de Uruha antes de se voltar atenciosamente para os outros.
Reita endireitou-se rapidamente no banco e Kai se aproximou, seguido de Aoi que havia acabado de chegar e Ruki, que aos poucos foi despertando.
— Eu, doutor.
O baixista pronunciou-se, recebendo o olhar do médico, que, assim como sua voz, era calma, mas segura, ainda que antes de dizer qualquer coisa que fosse, dirigiu a palavra para Kai.
— Creio que todos sejam acompanhantes, então vou pedir ao senhor que, por favor, se sente.
Kai engoliu seco abertamente, mas acabou fazendo sem qualquer ‘mas’.
O médico então ficou de frente para os quatro homens abatidos e suspirou baixo antes de continuar.
— Seu amigo está realmente debilitado. Não sabemos ainda até que profundidade ou mesmo como isso se originou então precisarei que me respondam algumas coisas enquanto lhes peço autorização, — mais precisamente para a pessoa que o trouxe até aqui, — para a realização de um exame.
Os quatro entreolharam-se levemente e Reita se voltou para o médico.
— Aonde ele está agora?
- Ele vai ser trazido para esse quarto aqui – Apontou para a porta atrás de si levemente – dentro de mais alguns minutos e vocês poderão vê-lo rapidamente. É imprescindível que ele descanse, porque precisará fazer um exame um tanto quanto dolorido amanhã.
Os quatro assentiram e o homem continuou.
— Há quanto tempo seu amigo tem estado com esse aumento de temperatura?
- Pelo que ele me disse antes de desmaiar, as febres iniciaram há dois meses com o término de nossa última turnê.
- E é somente isso que sabem?
O baixista apenas assentiu.
— E sobre a marca roxa, a suposta anemia ou mesmo o sangramento?
- Nada, doutor. Sabemos apenas que entre semana passada e essa ele faltou quatro vezes aos ensaios alegando cansaço e disse que a tal marca não dói.
O homem pediu um minuto e pegou um bip de sua cintura, mexendo rapidamente nele.
— Esperem um instante, por favor.
Enquanto isso anotou rapidamente as informações dadas pelos companheiros de banda de Uruha até ouvir passos ecoando pelo corredor e um homem, definitivamente não-japonês, da altura de Ruki, dirigindo-se até eles.
— Peço desculpas, — Disse o primeiro médico. – mas esqueci de me apresentar. Suzuki Felipe desu, hematologista e doutor Viktor Rickerstzhausen.
Apesar de aparentarem realmente jovialidade, os dois eram sérios e centrados e os membros do GazettE fizeram uma leve vênia, e o homem mais baixo, tão loiro quanto permitido, pegou a prancheta das mãos do maior e seus olhos verdes vivo começaram a percorrer as linhas de infinitas anotações rapidamente, antes de se voltar para os outros.
— Bem, apesar das poucas informações eu posso já começar a especular certas doenças que podem estar acometendo o amigo de vocês e foi por isso que o doutor Suzuki me chamou aqui. Mas, ainda quero confirmar algumas coisas, já que ainda não vi o paciente, então queria saber sobre o grau de cansaço dele. Era algo comum demais, ele fazia pequenas coisas e logo estava sentindo o corpo pesar?
- Na verdade não sabemos, mas semana passada ele ficou dois dias seguidos em casa, porque disse que não conseguia fazer muitas coisas sem se cansar. Até tentou ir para os ensaios, mas foi embora na segunda música.
- E sobre a tal marca? Não doía de forma alguma?
- Eu duvido. – Reita se concentrava para responder cada uma das questões e sentiu-se sendo como Kai no momento. – É uma marca meio grande e eu acho que ele deve ter batido e feio, mas mentiu dizendo que não estava sentindo nada.
O médico menor se voltou para o hematologista que estava com uma autorização em mãos.
— Bem, é provável que a febre tenha sido ocasionada pelo baixo número de leucócitos, caso minhas dúvidas estejam certas. Então, mais do que nunca, o responsável por ele deve assinar este termo que autoriza a realização de um exame e internação total do paciente para o tratamento.
Reita se levantou e sentiu o peso de um passado surgir sobre seus ombros.
— O responsável sou eu.
- Há alguém da família com quem se possa entrar em contato?
- Dificilmente, doutor Suzuki, vocês seriam atendidos. Ele tem problemas com a família. Qualquer coisa que precisarem fazer será mais fácil perguntando a nós.
Os dois médicos entreolharam-se e o maior sorriu leve e fechado, entregando a prancheta com o papel e a caneta para Reita, que assinou de imediato.
— Que exame seria esse? – O baixista perguntou, fitando Felipe.
- Um mielograma. É realizado para fazer a contagem de leucócitos, hemáceas e plaquetas e assim nos dar o diagnóstico da doença do amigo de vocês, e confirmar se será o doutor Viktor que estará à frente desse caso.
Reita fechou os olhos e apertou os pulsos.
— E que doenças esse exame identifica?
- Principalmente a nossa maior suspeita. – O médico respirou fundo. – Leucemia Mielóide Aguda ou Crônica.
Viktor tomou a frente, uma linha triste percorrendo rapidamente seus olhos.
— Eu sou Oncologista, senhores.
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